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terça-feira, 2 de março de 2021

A Expulsão dos Judeus da Espanha.






A EXPULSÃO DOS JUDEUS DA ESPANHA 🌞

Após a expulsão dos judeus da Espanha por Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão em 1492, cerca de 60.000 judeus que recusaram-se a se converter à religião cristã emigraram para Portugal. D. João II, influenciado por judeus importantes na Corte, acolhe-os, mas impõe o pagamento de oito ducados de ouro , quantia deveras elevada para a época, para permanecerem em terras lusitanas (os que não podiam pagar este valor viam metade dos seus bens confiscados para a Coroa). Pretendia-se com isso a fixação de artesãos especializados, que faltavam em Portugal. Falecido D. João II, sucede-lhe Dom Manuel, monarca que se revelou tolerante para com os judeus que não podiam pagar.
Segundo o jornalista e autor Elias Lipiner,, Dom Manuel, ao se casar com Isabel, filha de Isabel I e Fernando II, aceitou inserir no contrato de casamento uma cláusula que garantia expressamente a expulsão dos judeus de seu reino, a pedido da noiva. Para cumprir com esta cláusula, D. Manuel expede, em dezembro de 1496, um decreto em que determina a saída de Portugal dos judeus ainda não convertidos ao cristianismo, sob pena de morte, dando o prazo de até outubro de 1497, garantindo-lhes meios de transporte para que pudessem ir embora
No entanto, o plano verdadeiro do monarca visava a conversão dos judeus, e não sua partida. Deste modo, em abril de 1497, proclama novas ordens para que os filhos menores de 14 anos dos judeus que optassem pelo exílio ao invés da conversão fossem retirados da família para serem batizados e criados em Portugal dentro da doutrina religiosa..
Com a aproximação do prazo dado pela Coroa para a retirada dos judeus, o rei ordena que todos se dirijam a Lisboa para cumprir a promessa de ajuda com os meios de transporte. Porém, ao se reunirem no local, descobrem se tratar de nova armação do monarca, que desta vez se utilizou de violência com os judeus que ainda não haviam aceitado voluntariamente a conversão. Ordenou que fossem então arrancados à força os outros filhos de até 25 anos, avisando aos pais que deviam aceitar a conversão caso quisessem continuar a conviver com seus filhos em vida
Muitos judeus continuaram firmes, ainda que sob a tortura imposta por três dias onde foram privados de comida e bebida, e ao fim deste prazo foram submetidos à mesma violências que seus filhos, sendo arrastados
"(...) pelas pernas, outros pelas barbas e cabelos, dando-lhes punhadas no rosto, e espancando-os, às igrejas onde lhes deitaram a água, os levaram".
consumando-se assim a conversão forçada e transformando-os em cristãos, com a alcunha de "cristãos-novos".
Tal ato violento, como ressalta Lipiner, trouxe sérias consequências para a Coroa Portuguesa, pois contribuiu para a mistura racial entre portugueses e judeus e também para o domínio de aproximadamente três séculos da Inquisição e seu regime de perseguições, sendo o rei condenado tanto por clérigos e intelectuais liberais quanto pela população. O feito de violência de Dom Manuel foi condenado de forma mais significativa em 1821, quando foi usado como argumento principal pelas Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa para estabelecer a extinção do Santo Ofício, convidando os descendentes das famílias judias prejudicadas à retornar para Portugal.


FOTOS:
1. Retrato de casamento do rei e rainha da Espanha - Fernando II de Aragão e Isabela I de Castela
2. Fernando Ii de Aragão
3. Isabela I de Castela
4. Retrato de Dom Manuel rei de Portugal
5. Retrato da rainha Isabel de Portugal (nascida Isabela), consorte de Dom Manuel rei de Portugal e filha de Fernando II de Aragão e Isabela I de Castela, soberanos da Espanha.


FONTE:
SILVA, Dinair Andrade da. A expulsão dos judeus da Espanha. In: Histórias das Américas.
Publicado em: 02/03/2021.

Boa pesquisa.


 

terça-feira, 12 de maio de 2020

Vestígios de Sinagoga destruída na "Noite dos Cristais", são descobertos.

VESTÍGIOS DE SINAGOGA DESTRUÍDA NA NOITE DOS CRISTAIS SÃO DESCOBERTOS

Durante o Terceiro Reich, o ataque causou a morte de 91 pessoas, a destruição de propriedades judias e o envio de 30 mil judeus a campos de concentração
ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 12/05/2020
Sinagoga em chamas durante a Noite dos Cristais
Sinagoga em chamas durante a Noite dos Cristais - Wikimedia Commons
Na noite do dia 9 para o dia 10 de novembro de 1938, um terrível ataque foi realizado contra judeus alemães de Frankfurt. Naquela madrugada, paramilitares da SA, do Partido Nazista, e civis foram responsáveis pelo pogrom que ficou conhecido como Noite dos Cristais ou ainda Kristallnacht. Propriedades judias foram saqueadas e danificadas, quase cem pessoas foram mortas e mais 30 mil homens foram enviados a campos de concentração nazistas.
Em meio às instalações que foram destruídas, muitas delas eram sinagogas. Acredita-se que 267 templos judaicos foram atingidos por manifestantes. Recentemente, em escavações realizadas na cidade de Frankfurt, arqueólogos conseguiram encontrar os restos de uma delas, a sinagoga de Höchst.
Os pesquisadores descobriram as fundações arrasadas pelos nazistas. Originais, mas muito degradados, os alicerces puderam ser observados quase diretamente sob os paralelepípedos da praça na qual a edificação estava localizada.
Os principais achados foram os arcos em relevo do local, mas a equipe de escavação envolvida espera encontrar outras relíquias enterradas na sinagoga, como moedas e documentos daquela época.
"Os nazistas apenas demoliram a sinagoga acima do solo. De acordo com o lema: o que você não pode ver não está lá", afirmou o gerente de escavação Elke Sichert.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Carta de 2.400 anos elucida evolução do rito de Páscoa.

CARTA DE 2.400 ANOS ELUCIDA EVOLUÇÃO DO RITO DA PÁSCOA

O documento, enviado de Jerusalém ao Egito, revela como os judeus comemoravam a festividade
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 29/04/2020
Carta de Elefantina
Carta de Elefantina - Museu Egípcio de Berlim
Um novo estudo sobre um documento importante da história judaica revelou a evolução do ritual da Páscoa na antiguidade. Trata-se de uma carta escrita em Jerusalém, por um funcionário chamado Hananyah, e direcionada aos judeus da ilha de Elefantina, extremo sul do Egito, quando o império caía na dominação persa. Este é o  relato mais antigo do ritual, e foi encontrado há um século em meio a um arquivo fragmentário na ilha do Nilo.
De acordo com a leitura do documento de 2.400 anos, o rito da Pessach (Páscoa) não era formalizado no período, mas atuavam como referências de formas litúrgicas: “Conte 14 [dias em Nisan] e no [crepúsculo?] No dia 14 [do crepúsculo observe Pessach?] Do 15º ao 21º dia de [Nisan] observe a festa dos pães ázimos, coma pães ázimos por sete dias. Não trabalhe nos dias 15 e 21 do Nisan... Não beba... E tudo o que é fermento entra nos seus quartos e fecha-se entre esses dias.”
Pão ázimo não leva fermento e faz referência ao Êxodo / Crédito: Wikimedia Commons

Haggai Misgav, da Universidade Hebraica de Jerusalém, defende que esses são indícios de que os judeus de Elefantina deviam se dedicar exclusivamente a Deus, sacrificando seus cotidianos a Yahweh, pois os ritos de Páscoa eram exclusivos a Jerusalém e aos templos, não sendo realizados em casa desde as reformas de Josias.
No entanto, é evidente que a capital não era o único local com templos judaicos, principalmente após a invasão babilônica e a destruição do Primeiro Templo (Elefantina tinha, por exemplo, mais de um).
Com isso, considera-se que os judeus chegaram à Elefantina antes da noção de centralização do culto judaico por Josias. "É bem possível que eles tivessem uma tradição sob a qual os templos pudessem ser construídos fora de Jerusalém", afirma Aren Maeir, da Universidade de Bar-Ilan ao Hareetz. “Eles tinham costumes diferentes”. Para ele, os documentos da ilha mostram formas alternativas de abordar o campo ritualístico entre os judeus.
Josias teria estabelecido uma série de normas com uma reforma política e religiosa / Crédito: Wikimedia Commons

Para tanto, é necessário pensar que a Carta de Elefantina não foi solicitada pelos habitantes de lá - indicaria que o ritual não teria sido realizado ainda na época. Ao contrário, ela teria sido enviada espontaneamente, considerando que o templo judaico local teria sido destruído pelos egípcios, e só seria reconstruído anos depois.
Por fim, resume-se a evolução do ritual da Pascoa com a frase de Maeir: "Acho que houve outros tipos de judaísmo durante o período persa". Ou seja, antes do cânone, a liturgia não era o centro do desenvolvimento dessa forma de expressão da fé.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Mosaico do período romano é encontrado em sinagoga de Golã.

MOSAICO DO PERÍODO ROMANO É ENCONTRADO EM SINAGOGA DE GOLÃ

Divulgado por arqueólogos, achado ajudará no entendimento sobre a vida dos judeus no século 3 d.C.
JOSEANE PEREIRA PUBLICADO EM 02/12/2019.
Vestígios de mosaico encontrado em Golã
Vestígios de mosaico encontrado em Golã - Divulgação/Michael Azband
Pedaços de um mosaico retratando aves e animais foram encontrados durante a escavação de uma sinagoga no assentamento de Majdulia, nas colinas de Golã. O achado, anunciado pela Universidade de Haifa, lança uma luz sobre os processos ocorridos na comunidade judaica durante o período romano do Segundo Templo.
Piso do mosaico encontrado em sinagoga no assentamento de Majdulia / Crédito: Divulgação/Michael Azband

Segundo o diretor de escavação Dr. Mechael Osband, da Universidade de Haifa, “Esta é a primeira descoberta de um mosaico colorido e decorado em uma sinagoga de Golã, que remonta ao século 3 d.C., período onde quase não existem informações sobre a comunidade judaica no Golã em particular, e poucos restos de sinagogas em Israel em geral”.
Nos corredores da sinagoga, os pisos de mosaico eram coloridos e com formas geométricas, enquanto o salão principal abrigava uma complexidade de figuras. Isso poderia demonstrar que a sinagoga foi transformada de um local focado na aprendizagem a um centro de oração local.
Detalhe do mosaico / Crédito: Divulgação/Michael Azband

 “Sabemos que as sinagogas no final do período do Segundo Templo serviam principalmente como local de estudo da Torá”, afirmou o Dr. Osband. “As sinagogas no final do período romano serviam como local de oração, uma espécie de 'pequeno templo', e é por isso que eles eram mais luxuosos e apresentavam mosaicos sofisticados".

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Cerco a Jerusalém: judeus e romanos em um combate trágico.

CERCO A JERUSALÉM: JUDEUS E ROMANOS EM UM COMBATE TRÁGICO

Judeus foram massacrados por tropas romanas durante rebelião na Cidade Santa. Entenda o conflito!
FABIANO ONÇA PUBLICADO EM 11/10/2019
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- Wikimedia Commons
Quando os judeus se rebelaram contra a autoridade romana em 70 d.C. – por causa, entre outras coisas, dos altos impostos cobrados –, quatro legiões foram levadas pelo imperador Tito para sufocar a revolta.
Os 70 mil soldados logo viram que a luta não seria fácil. Especialmente quando se defrontaram com as muralhas de Jerusalém, atrás das quais milhares de combatentes judeus buscaram refúgio. A tentativa de invadir a cidade durou sete meses. Setenta mil legionários participaram do cerco
Constantemente ameaçados por ações de contra-ataque, os legionários fizeram um dos maiores e mais complexos cercos da Antiguidade. Construíram muralhas, torres de assalto, catapultas, escadas e diversos outros equipamentos que faziam das legiões romanas tropas únicas no mundo antigo – além de ótimos guerreiros, eram também excelentes engenheiros.
Ao fim do trágico combate, quando finalmente conseguiram vencer as três muralhas consecutivas que protegiam a cidade, os legionários, irritados com a resistência dos judeus, promoveram um verdadeiro banho de sangue (foram pelo menos 100 mil mortos) e terminaram por incendiar o Templo de Jerusalém, escravizando os sobreviventes.
Arte em relevo do expólio da sinagoga / Crédito: Arco de Tito
Puro terrorismo
Para estimular os sitiados à rendição, era comum os atacantes promoverem atos de puro terror. Os judeus apanhados pelos romanos fora das muralhas eram crucificados na frente de todos. Um mar de cruzes servia como um aviso macabro do que estava por vir.
Uma das maneiras de forçar a rendição dos judeus era fazê-los passar fome. E, com a muralha, não havia como fugir. Em Jerusalém, ela foi construída pelas legiões com madeira e terra em tempo recorde: quatro dias.
A balística – arte de acertar os projéteis no local designado – era cumprida com precisão pela legião romana. Para medir as distâncias dos tiros, os soldados usavam um projétil de chumbo com uma linha amarrada. Já os judeus, a cada bala lançada, avisavam seus camaradas para se proteger. 
Os judeus usaram diversos e engenhosos contra-ataques, como túneis subterrâneos, por onde saíam à noite para realizar ataques-relâmpagos contra os romanos. Quando os romanos tomaram a segunda muralha, por exemplo, foram atacados por milhares de guerrilheiros que haviam se emboscado nas casas e escombros do local.
A torre de assalto, de madeira e couro, era o alvo predileto dos defensores judeus – e uma peça a ser protegida a qualquer custo pelos romanos. O único jeito de deter o monstro era incendiando-o. E foi o que fez um grupo de judeus liderado por João, o Idumeu, numa ousada ação de sabotagem.
O exército romano usou bate-estacas para tentar abrir vãos nas muralhas de Jerusalém. Foi assim que a cidade caiu, ao fim do cerco. Vinte homens e um corneteiro tomaram o local por uma brecha na fortaleza Antônia. Os judeus se imaginaram vítimas de um ataque em larga escala e fugiram.

Saiba mais na obra A Guerra dos Judeus. História da Guerra Entre Judeus e Romanos, de  Flávio Josefo (2013).

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Mistério Bíblico: que fim levaram as 10 tribos perdidas de Israel?

MISTÉRIO BÍBLICO: QUE FIM LEVARAM AS DEZ TRIBOS PERDIDAS DE ISRAEL?

O destino dos israelitas dominados pelos assírios é um dos maiores enigmas da Bíblia
REDAÇÃO PUBLICADO EM 23/09/2019.
Os israelitas
Os israelitas - Reprodução
Em 722 a.C., o Reino de Israel foi conquistado pelo Império Neo-Assírio. O outro reino israelita, Judá, ao sul, tornaria-se um vassalo e sobreviveria.
Segundo a Bíblia, os israelitas descendiam de um só progenitor: Jacó, filho de Isaque, neto de Abraão, que teve 12 filhos. Cada qual dando origem a uma tribo. Ao enfrentar um anjo numa luta (Gênesis 35:10), foi rebatizado como Israel — O que luta com Deus.
Dez das 12 tribos foram exiladas pelos conquistadores, sobrando apenas as de Benjamin e Judá, no reino do sul — daí esses sobreviventes se tornarem conhecidos como Judeus.
Que fim levaram os outros israelitas? Não faltam candidatos: na Índia, há os judeus de Bene Israel (filhos de Israel). Na Etiópia, Beta Israel (casa de Israel). Ambos têm o fenótipo de sua região, parecendo-se com indianos e negros.
A historiadora britânica Shalva Weil acredita que eles sejam descendentes de tribos perdidas, e alguns rabinos tendem a concordar, ligando os etíopes à tribo de Dan. Ambos passaram por testes genéticos que indicaram uma possível ligação com judeus. Mas, em ambos os casos, bem posterior à diáspora, não mais de 1600 anos para os etíopes e 1050 para os indianos.
Shalwa também fez muito barulho no começo dos anos 2000 ao afirmar que os talibãs eram judeus. Ela se referia à teoria, datada de escritos islâmicos medievais, de que os afegãos da etnia pashtum — a do Talibã — eram descendentes das tribos perdidas. O DNA também não ajudou: testes os ligaram às populações do resto da região. Isto é, são nativos.
Historicamente, a lista incluiu candidatos bem mais insólitos: quando chegaram à América, os espanhóis achavam que os astecas eram descendentes das tribos perdidas. Também houve quem acreditou que os citas, nômades ao estilo mongol que atemorizavam as estepes entre o Ponto e o Mar Cáspio, seriam judeus. E até alguns historiadores japoneses chegaram a cogitar se hábitos nacionais não teriam vindo das tribos perdidas.
A maioria dos historiadores acredita que as tribos simplesmente perderam a identidade, e que muitos se refugiaram em Judá. Jerusalém parece ter crescido cinco vezes de tamanho logo após a conquista. O historiador britânico Tudor Parfit, da Universidade de Londres, que estudou por décadas povos clamando ser descendentes das tribos perdidas, diz que sua sobrevivência "é, de fato, um mito".

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Edgardo Mortara: refém da Igreja Católica.

EDGARDO MORTARA: REFÉM DA IGREJA CATÓLICA

A triste vida do menino judeu italiano que foi tomado dos braços de seus pais pela Igreja Católica, para ser criado como cristão; causando um escândalo que marcou o fim de uma era
MARIA CAROLINA CRISTIANINI PUBLICADO EM 19/09/2019.
Quadro de 1862, por Moritz Daniel Oppenheim. Na vida real, padres não estavam presentes
Quadro de 1862, por Moritz Daniel Oppenheim. Na vida real, padres não estavam presentes - Getty Images
Os fatos ocorridos na casa da família Mortara entre 23 e 24 de junho de 1858 abalaram muito mais do que a cidade italiana de Bolonha, onde o pequeno Edgardo, seus pais e irmãos moravam. Aos meros 6 anos, ele era retirado dos braços da família e levado a Roma para viver sob a guarda do papa Pio IX.
Era uma ação de resgate. Ou assim viam seus captores. Aos 4 meses de vida, o bebê havia sido batizado em segredo. Isso tornava o menino, aos olhos da Igreja, um católico. Uma criança católica não poderia ser criada por família de outra fé. E os Mortara estavam entre os cerca de 200 judeus de Bolonha, uma pequena comunidade que praticava sua fé quase em segredo, sem rabino ou sinagoga.
O mundo estava diante da questão: vale mais a família ou a alma? Deveria Edgardo voltar para os pais, Momolo e Marianna, ou permanecer sob a vigilância e educação católicas? Estaria o abuso em afastar um menino do seio da família ou em forçar um cristão a ser criado como judeu? Ao menos poderia uma conversão assim ser considerada legítima? 
Batismo de emergência.
Nascido em 27 de agosto de 1851, Edgardo era o sexto filho entre os oito de Momolo e Marianna. Aos 4 meses de idade, como era tristemente comum então, adoeceu gravemente. Na década de 1850, cerca de 40% das crianças não chegavam aos 5 anos.
Anna Morisi era uma empregada católica que trabalhava na casa da família. Ela era analfabeta, mas uma coisa havia aprendido dos padres: crianças que não são batizadas não vão para o Céu.
O bebê, então, iria para o limbo, ou pior. Assim, ela tinha uma emergência em suas mãos. E fez o ritual ela própria. Mas o menino sobreviveu. E seu ato chegou ao conhecimento do padre Pier Feletti, o inquisidor de Bolonha.
Anna nem deveria estar ali. Os Estados Papais, dos quais Bolonha fazia parte, proibiam que judeus tivessem empregados cristãos. Mas a relação de trabalho acontecia mesmo assim, como forma de garantir tarefas domésticas feitas enquanto os judeus observavam o shabat – algo fora de cogitação com uma funcionária doméstica judia.
Na prática, as autoridades faziam vista grossa. Anna veio da aldeia vizinha de San Giovanni in Persiceto aos 18 anos, queria juntar dinheiro para um dote e futuro casamento. Ficou na casa dos Mortara até ser contratada por outra família de Bolonha em 1857. Pouco depois, se casou e voltou para seu local de origem. Mas, naquele mesmo 1857, em outubro, chegaria aos ouvidos de Feletti rumores sobre o batismo de Edgardo.
Casos como esse não eram raridade na Itália do século 19, e o contexto costumava ser o mesmo do ocorrido com Edgardo. Na tentativa de evitar algo assim, e correr o risco de perder os direitos sobre os filhos, muitas famílias judias faziam suas empregadas assinarem declarações negando terem batizado quaisquer de suas crianças. Precaução que a família Mortara não tomou.
Depois de identificar Anna Morisi por trás dos rumores, e receber permissão do Santo Ofício, Feletti começou o interrogatório. Ela declarou que, diante da doença de Edgardo, salpicou água em sua cabeça, dizendo: “Eu batizo você em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Uma transcrição da conversa foi enviada para Roma. Junto, um pedido de permissão para remover o menino do convívio familiar e trazê-lo para ser criado pela Igreja.
Pio IX em 1871, por George Peter Alexander Healy / Crédito: Wikimedia Commons  
Não há registro exato sobre o quanto o papa Pio IX se envolveu nas discussões do Santo Ofício sobre o assunto ou se estava mesmo ciente da investigação inicial de Feletti.
A realidade era que, de acordo com a bula papal Postremo mense, de 1747, era ilegal tirar uma criança judia dos pais para o batismo – a não ser que ela estivesse morrendo, quando as considerações sobre salvar a alma superavam o direito dos pais. Essa exceção era pensada para uma criança que seria perdida pelos pais diante da fatalidade. Caso isso não se concretizasse, a Igreja se responsabilizaria por educá-la segundo o cristianismo.
Cena dolorosa.
Feletti ficou incumbido da remoção e transporte de Edgardo para a Casa dos Catecúmenos, em Roma, que recebia os recentemente convertidos ou aqueles em processo de aceitar o catolicismo. Um destacamento dos carabinieri, sob a liderança de Pietro Lucidi e Giuseppe Agostini, chegou ao apartamento dos Mortara no anoitecer de 23 de junho de 1858. Logo, Lucidi anunciou: “Senhor Mortara, sinto muito em informá-lo de que foi vítima de traição”.
O que se seguiu não é difícil de imaginar. Marianna, a mãe do garoto, se pôs a gritar, correndo para o quarto do filho e esbravejando que seria preciso matá-la primeiro. O próprio carabiniere Lucidi relatou depois: “Teria preferido mil vezes ser exposto a perigos muito mais sérios no desempenho de minhas tarefas do que ter que testemunhar uma cena tão dolorosa”.
A única esperança era apelar ao próprio Feletti, que recebeu Angelo Padovani, tio de Marianna e membro relevante da comunidade judaica de Bolonha, e Angelo Moscato, cunhado de Marianna. Sem resultado: o inquisidor alegou estar apenas executando ordens e não deu detalhes. Cedeu apenas ao pedido de que o garoto permanecesse mais um dia com a família. Dois homens ficaram de vigia para evitar fuga.
Toda a manhã de 24 de junho foi usada pela família em tentativas de derrubar as ordens de Feletti, sem sucesso. Perto do meio-dia, os Mortara decidiram tornar a separação o menos dolorosa possível. Os irmãos de Edgardo foram levados para visitar parentes, enquanto Marianna concordou, não sem relutar, em passar a tarde com uma família amiga. De acordo com relatos da época, o momento da retirada de Edgardo, às 20h, levou dois policiais às lágrimas. E Momolo ao desmaio.
Sem saber qual era o destino do garoto, a família focou os primeiros esforços na busca de apoio em outras comunidades judaicas pela Itália, incluindo Roma, e no exterior. Inicialmente ignorados pelo governo papal, os recursos de Momolo passaram a chamar a atenção depois que jornais reportaram o caso. Era um grande trunfo para os opositores do governo papal.
A Igreja sabia disso. Tanto que Giacomo Antonelli, cardeal secretário de Estado, organizou um encontro com o pai de Edgardo no começo de agosto de 1858. Prometendo que a questão seria encaminhada ao papa, permitiu que Momolo visitasse o filho regularmente. Uma demonstração, para David I. Kertzer, autor do livro O Sequestro de Edgardo Mortara, de que o caso do menino não era uma questão qualquer.
Não demorou até que os Mortara identificassem a responsável pelo batismo em segredo. Encontrada em San Giovanni in Persiceto, Anna contou tudo o que dissera a Feletti. A ideia de batizar Edgardo surgira após uma conversa com o vendedor Cesare Lepori. Ao mencionar a doença do garoto, Lepori teria ensinado o passo a passo do batismo. Anna guardou o segredo até Aristide, irmão de Edgardo, morrer com um 1 ano de vida em 1857.
Na época, a empregada de um vizinho disse a Anna que ela deveria ter feito o batismo. E então, para se defender, ela deu com a língua nos dentes, contando a história anterior. Ela chegou a concordar com o registro formal do relato, mas fugiu.
Abuso ou milagre?
Duas narrativas distintas seguiriam o caso Mortara por anos. Em parte, por causa da falta de provas e de relatos imparciais sobre o que acontecia nos encontros entre o pai e o menino, ocorridos entre a metade de agosto e a metade de setembro de 1858.
Na versão de Momolo Mortara, apoiada pela comunidade judaica na Itália e pela Europa, o garoto teria viajado de Bolonha a Roma aos prantos e desejava voltar para casa o mais rapidamente possível. Marianna estaria sendo torturada mentalmente com o afastamento do filho. 
Já os fatos contados pela ótica da Igreja falavam de um ordenamento divino. O batismo teria tirado Edgardo de uma vida de erro. Agora ele compartilhava da salvação cristã e se via perturbado pela negação dos pais em se converterem como ele.
Edgardo Mortara fotografado já adulto, como padre ordenado / Crédito: Reprodução 
Todas as versões católicas ainda falavam de uma fervorosa e rápida aceitação do cristianismo. Era comum dizer que Edgardo havia se transformado em prodígio. Uma testemunha ocular chegou a mencionar, ao jornal católico L'armonia Della Religione Colla Civiltà (A Harmonia da Religião com a Civilização), que o suposto ex-judeu teria aprendido o catecismo perfeitamente em poucos dias.
Um dos mais importantes artigos a favor da Igreja foi publicado no periódico jesuíta La Civiltà Cattolica (A Civilização Católica), em novembro de 1858 – na sequência citado pela Europa. Falava de uma criança implorando ao reitor dos catecúmenos para não mandá-la de volta, pois desejava crescer em uma casa cristã. O artigo ainda atribuía a seguinte frase a Edgardo: “Eu sou batizado, eu sou batizado e meu pai é o papa”.
De acordo com Kertzer, quem apoiava os argumentos pelo ponto de vista da Igreja parecia não se dar contar de que tudo parecia “muito bom para ser verdade". “Se Edgardo de fato disse a seu pai que não queria voltar com ele, que agora ele considerava o papa como seu verdadeiro pai e queria dedicar a sua vida para converter judeus, essa mensagem parece não ter ficado registrada em Momolo”.
Liberais, protestantes e judeus pelo continente ridicularizaram a imprensa católica. Um folheto publicado em Bruxelas, em 1859, concluiu: “Entre o milagre de um apóstolo de 6 anos de idade que quer converter judeus e o choro de uma criança que se mantém pedindo por sua mãe e suas irmãzinhas, nós não hesitamos por um momento”.
Guerra ideológica.
Diante dos pedidos da família, que se destroçava em Bolonha, Momolo Mortara deixou Roma. Mas não as tentativas de reaver o filho. Com a ajuda de Carlo Maggi, um juiz católico aposentado, um relatório foi criado para ser entregue ao papa.
No documento, constavam: uma declaração de Lepori, negando ter ensinado a Anna Morisi a prática do batismo, e um depoimento do médico da família Mortara, Pasquale Saragoni, reconhecendo a doença de Edgardo, mas negando que ele tivesse corrido risco de vida. Um relatório seguinte, de outubro, ainda incluiu o depoimento de oito mulheres e um homem, todos católicos, corroborando as alegações do médico e acusando Anna de atos de roubo e de ter comportamento sexual impróprio.
Na mesma época, Momolo decidiu que era hora de voltar a Roma, agora levando Marianna. A esperança era que a presença da mãe fizesse mais pressão sobre a Igreja e impressionasse a criança. Mas, antes de um possível encontro, o garoto foi levado para Alatri, a cerca de 100 quilômetros. Os Mortara seguiram seu rastro e acabaram presos, despachados para Roma. Então a Igreja cedeu e o menino foi trazido de volta para ver os pais.
As versões sobre o que aconteceu então têm um grande contraste. Pelas palavras de Marianna: “Ele perdeu peso e se tornou pálido; seus olhos estavam cheios de terror… Eu disse a ele que ele tinha nascido judeu como nós e, como nós, deveria sempre permanecer um [judeu], e ele respondeu: ‘Si, mia cara mamma, eu nunca me esqueceria de dizer o Shemá todos os dias’”. Do outro lado, segundo La Civiltà Cattolica, Marianna teria ficado furiosa ao ver um medalhão no pescoço de Edgardo com a imagem da Virgem Maria, arrancando-o.
Sem progresso em Roma, os pais voltaram para Bolonha em dezembro de 1858, e logo depois se mudaram para Turim. O caso já tinha se tornado uma enorme controvérsia na Europa e nos Estados Unidos, célebre não só para judeus mas para protestantes – o New York Times publicou mais de 20 artigos sobre o assunto apenas em dezembro de 1858. No Reino Unido, a revista Spectator apresentou a situação como evidência de que os Estados Papais tinham “o pior governo do mundo – o mais insolvente e o mais arrogante, o mais cruel e mais mesquinho”.
Edgardo Mortara, à direita, como sacerdote agostiniano/ Crédito: Wikimedia Commons 
Pio IX, tendo ou não se envolvido pessoalmente na decisão de tomar Edgardo dos pais, foi surpreendido pela repercussão internacional. E insistiu que o retorno de uma criança batizada para sua família não cristã era incompatível com a doutrina da Igreja.
A desaprovação da atitude do papa tornou-se uma questão diplomática. Napoleão III, imperador da França, via a situação como vergonhosa – o governo devia muito à guarnição francesa em Roma desde a aparição, em 1815, do Risorgimento (renascimento), movimento pela unificação da Itália. “Os Estados Papais eram tão odiados que só podiam ser defendidos por baionetas francesas”, diz Bruce Shelley em sua História do Cristianismo.
Inicialmente visto com bons olhos pelos liberais, Pio IX chegou a formular, em março de 1848, uma Constituição para os Estados Papais que dava à população certa participação no governo. Até mudar sua postura radicalmente com o assassinato de seu ministro da Justiça, Pellegrino Rossi. Uma revolução se formou em Roma e Pio fugiu. Só teve as rédeas da cidade e do governo de volta com a ajuda militar da França. Preferiu, a partir daí, manter o absolutismo.
O escândalo ao redor do caso Mortara insuflou os ânimos dos liberais italianos e enfraqueceu a posição da Igreja na diplomacia internacional. Diante da postura inflexível, o movimento pela unificação da Itália ousou avançar contra o território da Igreja. Entre 1859 e 1860, diversas áreas dos Estados Papais foram parar nas mãos dos nacionalistas. No ano seguinte, Vittorio Emanuele II seria proclamado rei da Itália.
A guarnição francesa seria retirada por conta da Guerra Franco-Prussiana (1870–1871),  algo que talvez não fosse possível sem os golpes na reputação da Igreja. Roma seria deixada para os italianos e se renderia em 20 de setembro de 1870. Era o fim dos Estados Papais.
Fato consumado.
Enquanto a Itália era revolucionada, o garoto seguiu seu destino. Em 13 de maio de 1859 veio a confirmação de que Edgardo havia se mudado para a basílica San Pietro in Vincoli, ainda em Roma, onde o papa decidiu que ele seria educado. Em dezembro, a família Mortara teve sucesso em pedir um inquérito sobre o caso.
Feletti, identificado como o autor da ordem de retirada de Edgardo dos pais, foi preso em 1860, julgado e absolvido – por agir de acordo com instruções do então governo. Aos 13 anos, no início de 1865, Edgardo se tornou noviço e adicionou o nome do papa ao seu: Pio Edgardo Mortara. Ainda houve contato com os pais por carta, mas a situação permaneceu inalterada. Aos 19 anos, foi viver na Áustria, sob um nome falso. Em 1873, na França, foi ordenado padre.
Momolo Mortara passou o resto da vida viajando pela Europa e falando sobre os fatos ocorridos com seu filho e família. Morreu em 1871. No mesmo ano da morte de Pio IX, 1878, Marianna Mortara foi até a França para encontrar o filho. Edgardo se mostrou desapontado pela recusa da mãe à conversão ao cristianismo. Ele acabaria morrendo em Liège, na Bélgica, em 1940.
A postura intransigente do papa, pondo tudo a perder, talvez  tenha vindo de um sincero apego ao garoto. De acordo com as memórias de Edgardo, escritas em 1888, Pio IX dedicava parte de seu tempo ao menino e chegou a dizer: “Meu filho, você me custou caro e eu tenho sofrido muito por sua causa”. Dirigindo-se a outros presentes na situação, continuou: “Os poderosos e os sem poder tentaram tirar esse menino de mim, e me acusaram de ser bárbaro e impiedoso. Eles choraram pelos pais dele, mas falharam em reconhecer que eu, também, sou seu pai”. 

Saiba mais
O sequestro de Edgardo Mortara, David I. Kertzer, Editora Rocco, 1998
História do cristianismo: uma obra completa e atual sobre a trajetória da igreja cristã desde as origens até o século XXI., Bruce Shelley, Editora Thomas Nelson Brasil, 2018

terça-feira, 25 de junho de 2019

O Diário de Anne Frank: 72 anos da publicação de um dos mais impactantes relatos do Holocausto.

O DIÁRIO DE ANNE FRANK: 72 ANOS DA PUBLICAÇÃO DE UM DOS MAIS IMPACTANTES RELATOS DO HOLOCAUSTO

Neste dia, em 1947, o diário de uma garota judia era publicado pela primeira vez e entrou para História como uma das mais importantes obras sobre os horrores da Segunda Guerra
SIMON SEBAG MONTEFIORE PUBLICADO EM 25/06/2019
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- Reprodução
O diário de uma menina judia escondida durante a Segunda Guerra Mundial tornou-se um símbolo totêmico do Holocausto, um monumento aos 6 milhões de judeus mortos e um talismã para vítimas de perseguição em todo o mundo. Mas Anne Frank foi muito mais que um símbolo. A adolescente cuja recusa ser destruída pelo medo ou pelo desespero diante da mais tenebrosa perseguição é um triunfo da humanidade, a marca de uma alma verdadeiramente heroica.
Anne também tornou-se, apesar de tão jovem, uma formidável escritora: observou e anotou os terríveis acontecimentos do tempo sombrio em que viveu e da luta de sua família pela sobrevivência. O seu diário não foi o único a vir à tona, mas foi o melhor e mais bem escrito — um clássico imortal.
Na manhã de 6 de julho de 1942, Anne Frank, seus pais Otto e Edith e sua irmã mais velha, Margot, deixaram sua casa na Merwedplein, em Amsterdã. Vestindo muitas camadas de roupas e sem levar malas para não despertar suspeitas, encaminharam-se a pé o prédio de escritórios de Otto Frank, na rua Prinsengracht. No topo das escadas havia uma porta, mais tarde escondida atrás de uma falsa estante de livros. Ela levava ao que Anne chamou de anexo secreto — quatro cômodos onde os Frank, com outra família, os Van Pels, além de um dentista de nome Fritz Pfeffer, se esconderiam ao longo dos dois anos seguintes.
Os Frank eram judeus alemães que haviam emigrado para a Holanda uma década antes, após a ascensão de Hitler ao poder. Uma menina alegre e animada, ao completar treze anos, Anne ganhou de presente de aniversário um caderno encapado por um tecido de estampa xadrez vermelha e branca. Ela endereçou a sua primeira anotação “para Kitty”, e registrou: “espero poder confiar inteiramente em você, como jamais confiei em alguém até hoje, e espero que você venha ser um grande apoio e um grande conforto para mim”.
A ocupação alemã dos Países Baixos já durava dois anos quando Anne começou seu diário. Em 1942, os judeus foram submetidos a um toque de recolher e obrigados a usar estrelas amarelas costuradas visivelmente em suas roupas. Foram proibidos de pegar o bonde, andar de bicicleta ou tirar fotos. Em 5 de julho de 1942, Margot, de dezesseis anos, recebeu uma carta pedindo para que se apresentasse ao transporte que a levaria para um campo de trabalho. Às sete e meia da manhã seguinte, os Frank deixaram sua casa e rumaram para o esconderijo.
Os ocupantes do anexo prepararam-se para uma longa estadia. Os pais de Anne vinham fazendo viagens secretas ao esconderijo havia meses. Mas nada poderia tê-los preparado para a realidade opressiva de se apartar do mundo. A sobrevivência de todos eles dependia de seus “ajudantes”, quatro leais empregados de Otto Frank que arriscaram a vida para lhes trazer comida, roupas, livros e notícias. Durante o dia era preciso manter silêncio absoluto de modo a evitar que os funcionários da loja no andar de baixo desconfiassem de algo. “Temos de nos manter absolutamente quietos, feito estátuas. Quem haveria de pensar, três meses atrás, que a espoleta Anne teria que ficar sentada, sem falar, durante horas a fio — e, mais difícil ainda, que ela conseguiria?”, escreveu Anne em outubro de 1942.
Anne era uma escritora talentosa, engraçada e ágil, e tinha um olhar um tanto cáustico. Mas seu diário é também a obra de uma adolescente normal — inteligente, brilhante, impetuosa, temperamental, mal-humorada e impaciente. Lutava entre a “boa Anne” que ela gostaria de ser e a “Anne má” que ela sentia ser com mais frequência. Anne era perspicaz, incrivelmente honesta e, cada vez mais, sábia.
“Não há como matar o tempo”, Anne escreveu em 1943. Mas ela se recusou a abrir mão da esperança. “Realmente, é de se admirar que eu não tenha desistido de todos os meus ideias, porque parecem tão absurdos e impossíveis de serem realizados”, ela escreveu e, 15 de julho de 1944. “No entanto, eu os mantenho, porque apesar de tudo ainda acredito nas pessoas, no fundo, dão realmente boas”.
Três semanas depois, o anexo secreto foi invadido por um grupo da polícia alemã. Ainda é desconhecida a identidade do informante que os denunciou. Os habitantes do anexo foram transportados para o campo de concentração de Westerbok, e depois para Auschwitz. Em outubro, Anne e Margot foram transferidas para Bergen-Belsen. Morreram de tifo com poucos dias de diferença uma da outra em março de 1945, apenas algumas semanas antes de os britânicos libertarem o campo de concentração.
Otto Frank foi o único dos ocupantes do anexo que sobreviveu. Quando retornou a Amsterdã após a guerra, Miep Gies, uma de suas leais ajudantes, deu-lhe o diário e algumas anotações soltas que ela havia encontrado no esconderijo. Indagado mais tarde sobre sua reação à primeira leitura do diário de sua filha, Otto respondeu: “Eu nunca soube que minha pequena Anne era tão profunda”.
Enquanto estava escondida, Anne se convenceu de que queria ser escritora. Ela não foi a única criança judia a escrever um diário do Holocausto. Provavelmente houve muitas. Um talentoso garoto tcheco, Peter Ginz, manteve um espirituoso diário em Praga entre 1941 e 1942: “Quando fui para a escola, contei nove xerifes”, ele escreveu, referindo-se aos judeus que eram obrigados a usar a estrela amarela. Ginz morreu na câmara de gás em Auschwitz em 1944. Esses excepcionais autores de diários não foram os únicos a transformar o inferno em literatura: Noite, de Elie Wiesel (1928-2016), e É isto um homem?, de Primo Levi (1919-1987) são as duas obras-primas dessa idade das trevas europeia.
Um ano antes de morrer, Anne Frank escreveu sobre seu desejo de “ser útil ou dar prazer às pessoas ao meu redor que ainda não me conhece. Quero continuar a viver, mesmo depois de minha morte!”.

Reportagem retirada do Titãs da História, do autor Simon Sebag Montefiore. Editora Planeta do Brasil, (p. 533,534 e 535).