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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Oliver Cromwell já proibiu o natal.

NOITE INFELIZ: O PURITANO OLIVER CROMWELL JÁ PROIBIU O NATAL

Durante a República de Cromwell, era proibida qualquer forma de celebração do Natal, sendo considerado um crime grave

GIOVANNA GOMES PUBLICADO EM 17/12/2020

Montagem de Cromwell com o gorro do Papai Noel
Montagem de Cromwell com o gorro do Papai Noel - Wikimedia Commons

Houve um período na Inglaterra em que a celebração do Natal foi considerada uma verdadeira blasfêmia, de modo que pessoas poderiam ser levadas à masmorra caso desobedecessem a lei. Os próprios cristãos mais rígidos declararam que o 25 de dezembro seria uma data pagã e que, por isso, não deveria ser comemorada.

O perseguidor

O líder da Revolução Puritana, Oliver Cromwell, cujos feitos incluem a decapitação do rei Carlos I e a transformação da Inglaterra uma república entre 1649 e 1660, tinha como objetivo eliminar tudo o que considerava como 'decadência moral' em seu país. Entre todos os problemas que identificou, o principal deles era o Natal.

Oliver Cromwell/ Crédito: Wikimedia Commons

 

Todas as formas de celebração do feriado religioso, o que incluía até mesmo as cantigas, não eram bem vistas pela sociedade puritana, que enxergava nelas um vestígio do paganismo, já que não haveria fundamento bíblico para tal festividade.

Para eles, a data nada mais era do que um feriado pagão criado pela Igreja Católica Romana, instituição que queriam eliminar, assim, purificando o Cristianismo.

Os puritanos se irritaram principalmente porque não é descrita na Bíblia a data do nascimento do Messias. "A data do Natal foi fixada em 25 de dezembro pelo imperador Constantino, porque nesse dia era celebrada a grande festa solar em Roma”, explica Ramón Teja, professor emérito de História Antiga da Universidade de Cantábria.

Estátua de Constantino/ Crédito: Pixabay

 

Assim, o imperador modificou o antigo festival do Dia do Nascimento do Sol Invicto, no qual era celebrado o solstício de inverno. “Foi uma fusão do culto solar com o culto cristão”, afirmou Teja. A partir disso, inúmeros elementos da cultura pagã foram incorporados às tradições natalinas.

O caos

No ano de 1644, o Parlamento inglês baniu oficialmente todas as festividades natalinas, de forma que, por quase duas décadas, muitas pessoas foram perseguidas. A simples realização de danças, cantigas, apresentações de teatro e também o consumo de bebidas alcoólicas durante a data tornaram-se crimes graves.

As decorações de natal foram proibidas/ Crédito: Pixnio


Símbolos como árvore de natal e até mesmo comidas tradicionais foram relacionados a rituais, de modo que também passou a ser proibido comer alimentos como pudim e tortas no feriado. Além disso, o comércio era obrigado a permanecer aberto durante todo o dia 25. 

A celebração da data somente deixou de ser um 'crime' diante da restauração da monarquia, em 1660.

fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-guerra-ao-natal-cromwell-ja--baniu-o-feriado-religioso

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Morto em 1658, a cabeça de Oliver Cromwell demorou para encontrar o repouso eterno.

MORTO EM 1658, A CABEÇA DE OLIVER CROMWELL DEMOROU PARA ENCONTRAR O REPOUSO ETERNO

Retirado de seu descanso final e decapitado por monarquistas, a história do líder da malfadada república britânica é alucinante
VINÍCIUS BUONO PUBLICADO EM 28/01/2020
Estátua da cabeça de Oliver Cromwell
Estátua da cabeça de Oliver Cromwell - Wikimedia Commons
Em 1649, Oliver Cromwell derrotou as forças do rei Carlos I e foi um dos signatários da execução do ex-monarca. Tornou-se o Lorde Protetor da Comunidade da Inglaterra, Escócia e Irlanda, república instaurada por ele e que envolvia todos os reinos das Ilhas Britânicas (à época, o País de Gales era parte da Inglaterra).
O domínio de Cromwell durou pouco. Em 1658, o Lorde Protetor deixou esse mundo, possivelmente vítima da malária. Apesar de ter rejeitado a coroa e o título atado a ela, seu funeral teve a pompa e circunstância dos outros reis do país e, como outros monarcas, foi embalsamado e enterrado na Abadia de Westminster.
Apenas dois anos depois, sua experiência republicana também morreu. A monarquia foi restaurada sob a batuta de Carlos II, como se nada tivesse acontecido na década entre a morte do primeiro e a restituição do segundo.
Porém, para os monarquistas, Cromwell deveria pagar. Depois de ordenar a decapitação de Carlos I, Cromwell também perdeu sua cabeça. 
O corpo foi desovado sem cerimônia, mas a cabeça estava fadada a nunca mais ter descanso, ou pelo menos era a intenção dos monarquistas, que a espetaram numa longa estaca de madeira e deixaram-na pendendo sobre o telhado do Palácio de Westminster como uma gárgula, um perene e sombrio alerta do que acontecia àqueles que ousavam contestar a monarquia.
Por mais de 30 anos ela permaneceu ali, servindo de espantalho para os corvos e pombos londrinos. Até que, certo dia, uma tempestade quebrou a estaca e jogou-a nos pés de um dos guardas de Westminster. O homem então teve uma atitude inusitada: levou-a para casa e guardou, escondida, na chaminé.
Empreendeu-se uma caça por toda Inglaterra, e até uma recompensa foi oferecida para quem encontrasse a cabeça do Lorde Protetor. Com medo de ser punido, o guarda só revelou à sua própria filha a herança que lhe deixaria.
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Desenho do século 18 representando a cabeça de Cromwell / Crédito: Wikimedia Commons

Por algum tempo, ela sumiu de circulação. Especula-se que a moça a tenha vendido, afinal, entre uma boa quantia de dinheiro ou a cabeça semi-apodrecida e empalada de um homem morto, a escolha parece bastante óbvia.
Reapareceu por volta de 1710, no pequeno museu particular de Claudius Du Puy, um suíço que, dentre as curiosidades que colecionava, elegeu Cromwell como a mais intrigante de todas.
Em 1738, Du Puy morreu e a cabeça desapareceu por cerca de 40 anos até que James Cox, que também tinha sido dono de um museu particular, encontrou-a de posse de Samuel Russell, descrito por ele como um comediante fracassado e alcoólatra que alegava ser descendente do próprio Cromwell, e que ela vinha passando pelas gerações de sua família.
Ao que Russell se recusou a vendê-la para Cox, ele encontrou uma maneira mais perversa: aproveitando-se dos fracassos do homem, emprestou-lhe dinheiro até que não teve alternativa senão oferecer a cabeça como pagamento. 118 libras foi o valor acordado e, em 1799, Cox a revende por quase o dobro para três irmãos de sobrenome Hughes que, como Du Puy, também tinham a intenção de exibí-la em seu museu particular.
Dito e feito. Porém, o museu dos irmãos foi um fracasso e os três morreram praticamente em sequência, levantando boatos de que a cabeça estaria amaldiçoada. Não querendo pagar pra ver, a filha de um deles queria se livrar da mórbida relíquia o mais rápido possível.
Robert Jenkinson, primeiro-ministro da Inglaterra, cogitou comprá-la para expor em museus públicos e oficiais, mas achou que não seria bom tom tê-la exibida no estado em que se encontrava. Segue, então, sem descanso, condenada a vagar pela Inglaterra com seu único corpo sendo a estaca de madeira.
Em 1815, mudou de mãos novamente, dessa vez para a de Josiah Henry Wilkinson, em cuja família ela ficaria, de novo como relíquia, guardada numa pequena caixa de carvalho, até o descanso final. 
Porém, após tanto tempo, tanto misticismo e tantos donos, outras cabeças pela Inglaterra começaram a ser tidas como a de Cromwell, inclusive no Museu Ashmolean da Universidade de Oxford. Um professor de anatomia da própria instituição admitiu que aquela em sua posse era a verdadeira.
Quase um século depois, em 1911, o Instituto Real de Arqueologia pediu para analisar a peça a fim de determinar sua veracidade. Ainda de posse dos Wilkinson, dessa vez do neto de Josiah, eles foram atendidos.
O veredito foi de que a evidência documental era duvidosa, mas a física era extremamente forte. Na década de 30, dois cientistas, Karl Pearson e Geoffrey Morant se ofereceram para, enfim, acabar com o debate.
Oliver Cromwell / Crédito: Wikimedia Commons

Focando, também, nas características físicas como o embalsamento, a comparação com bustos e estátuas e o estudo da estaca que rasgava o encéfalo, os dois chegaram à conclusão de que aquela era de fato a cabeça de Oliver Cromwell, inclusive com a famosa verruga acima do olho direito.
Sem dúvidas sobre a autenticidade, os Wilkinson mantiveram-na sob sua custódia por mais 30 anos. Em 1960, o então proprietário, Dr. Horace Norman Stanley Wilkinson, resolveu acabar com a história de uma vez por todas. Coordenando com o Sidney Sussex College, uma faculdade da Universidade de Cambridge frequentada pelo Lorde Protetor, um funeral foi organizado.
Se Oliver Cromwell teria odiado o gigantesco rebuliço que foi seu funeral, o de sua cabeça certamente o teria deixado mais contente. Apenas sete pessoas compareceram à cerimônia para vê-la ser enterrada próxima à capela da faculdade, ainda em sua caixinha de carvalho. Uma placa foi erigida no local. Três séculos depois, um dos homens mais relevantes da história da Inglaterra pôde, enfim, colocar a cabeça para descansar.