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segunda-feira, 16 de maio de 2022

Descoberta a origem da Peste Negra.

Descoberta a origem da Peste que dizimou 60% da população da Europa medieval

Mistério foi desvendado por uma equipe formada por historiadores e geneticistas
POR HISTORY CHANNEL BRASIL EM 15 DE JUNHO DE 2022
Descoberta a origem da Peste que dizimou 60% da população da Europa medieval-0

A pandemia que ficou conhecida como "Peste Negra" devastou a Europa na Idade Média. Estima-se que a doença foi responsável pela morte de 60% da população do continente no período. Agora, uma nova pesquisa afirma ter descoberto a origem da enfermidade.

Origem da Peste.

A doença é causada pela bactéria Yersinia pestis e pode surgir em três formas: infecção pulmonar, conhecida como peste pneumônica; infecção no sangue, conhecida como peste septicêmica; e afetando os gânglios linfáticos, chamada de peste bubônica. Esta última foi a causa da pandemia que dizimou grande parte da população da Europa medieval. No novo estudo, publicado no periódico Nature, os cientistas apontam que a enfermidade não surgiu em território europeu.

Lápide de vítima da Peste no Quirguistão
Lápide de vítima da Peste no Quirguistão (Imagem: © A.S. Leybin, August 1886, via Instituto Max Planck

De acordo com a pesquisa, a origem da doença está na Ásia Central. O mistério começou a ser desvendado quando Philip Slavin, historiador da Universidade de Stirling, na Escócia, descobriu evidências de um aumento repentino de mortes no final da década de 1330 em dois cemitérios perto do Lago Issyk-Kul, no norte de onde hoje fica o Quirguistão. Em meio a 467 lápides datadas entre os anos 1248 e 1345, o pesquisador notou um grande aumento nas mortes em 1338 e 1339.

Slaving também descobriu que inscrições em algumas das lápides mencionavam a causa da morte como “mawtānā”, termo que significa “pestilência” na língua siríaca. Em seguida, pesquisadores especializados em genética analisaram DNA antigo de restos humanos enterrados em dois locais que continham  essas inscrições. Os primeiros resultados da equipe foram muito animadores, pois o DNA da  Yersinia pestis foi identificado em indivíduos com o ano 1338 inscrito em suas lápides.

A análise completa do genoma da bactéria descobriu que ela era um ancestral direto da cepa que causou a Peste na Europa oito anos depois. “Finalmente pudemos mostrar que a epidemia mencionada nas lápides foi de fato causada pela peste”, disse Slavin.

IMAGENS
 
ISTOCK
fonte: history.com.br

quinta-feira, 8 de abril de 2021

O papa que decretou 'lockdown' em Roma para salvar população de peste no século XVII.

 

O papa que decretou 'lockdown' em Roma para salvar população de peste no século 17

  • Edison Veiga
  • De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
O papa Alexandre 7º

CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO

Legenda da foto,

O papa Alexandre 7º decretou medidas sanitárias que, para pesquisadores, contribuíram para que a letalidade de uma peste no século 17 fosse muito menor

Ele era intelectual, fã de arquitetura e arte, doutor em filosofia, teologia e direito. Quando o italiano Fabio Chigi (1599-1667) se tornou o papa Alexandre 7º, nem em seus piores pesadelos poderia vislumbrar que teria de enfrentar uma epidemia de peste.

A resposta dele, no entanto, foi contundente.

Embora a ciência só tenha descoberto o bacilo causador da peste em 1894 — graças ao bacteriologista Alexandre Yersin (1863-1943) —, o papa decretou medidas sanitárias que, para pesquisadores, contribuíram para que a letalidade da doença fosse muito menor na população romana do que em outros lugares afetados pela mesma doença.

De acordo com levantamento realizado pelo historiador italiano Luca Topi, professor da Universidade de Roma La Sapienza, entre 1656 e 1657 a peste matou 55% da população da Sardenha, metade da população de Nápoles e 60% dos que habitavam Gênova.

Em Roma, contudo, foram 9,5 mil mortos em um universo de 120 mil pessoas — menos de 8%. Essas conclusões foram publicadas em uma revista científica italiana em 2017.

Calcula-se que a peste tenha dizimado cerca de metade da população europeia, em diversas ondas. Fazia um ano que Alexandre VII havia sido eleito papa quando começaram a chegar relatos de mortes pela doença no então reino de Nápoles.

Alexandre 7º não era somente o líder do catolicismo. Se hoje o papa é soberano de um estado diminuto encravado em Roma, o Vaticano, na época comandava os chamados Estados Pontifícios que compreendiam Roma e boa parte dos arredores — praticamente todo o centro da Itália atual.

A fascinante história a seguir mostra como medidas que geram controvérsia no Brasil da pandemia de covid-19, como proibição de circulação de pessoas, fechamento de fronteiras e de templos, rastreamento de casos, auxílio emergencial, debates sobre jejuns religiosos e outras, foram aplicadas há mais de 400 anos — e tiveram bons resultados.

Quais foram as medidas do papa?

Nos domínios papais, esse surto ocorreu de maio de 1656 a agosto de 1657.

Assim que as primeiras notícias da peste chegaram a Roma, Alexandre 7º colocou em alerta a então Congregação da Saúde, que havia sido criada em um surto anterior.

As medidas de contenção foram implementadas gradualmente, conforme a situação se tornava mais perigosa.

Em 20 de maio, foi promulgado um decreto que suspendia toda atividade comercial com o reino de Nápoles — já fortemente afetado. Na semana seguinte, o bloqueio se estendeu: ficava proibido também o acesso a Roma de qualquer viajante vindo de lá.

No dia 29, a cidade de Civitavecchia, dentro dos domínios dos Estados Pontifícios, registrou a chegada da peste e foi imediatamente colocada em quarentena.

"Nos dias e meses seguintes, muitas outras localidades dos Estados Papais foram colocadas em isolamento", detalha o historiador Topi, em seu artigo. Em Roma, a decisão foi radical: quase todos os portões que então davam acesso à cidade foram fechados. Apenas oito permaneceram abertos, mas eles eram protegidos 24 horas por dia por soldados, supervisionados por "um nobre e um cardeal".

A partir de então, qualquer entrada tinha de ser justificada e registrada.

Em 15 de junho, Roma teve o primeiro caso: um soldado napolitano que morreu em um hospital. As normas passaram a endurecer cada vez mais. Em 20 de junho, uma lei passou a obrigar que todo aquele que soubesse de um doente informasse autoridades.

Na sequência, um novo dispositivo papal passou a obrigar que todo pároco e seus ajudantes visitassem, a cada três dias, todas as casas de suas circunscrições para identificar e registrar os doentes.

Era a maneira, na época, de rastrear os infectados.

Aí veio a notícia de mais uma morte, um pescador que estava hospedado na região de Trastevere. "Toda a família que teve contato com essa vítima também se infectou e muitos foram a óbito", conta Raylson Araujo, membro do Núcleo de Diálogo Católico-Pentecostal e estudante de teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que também pesquisou o assunto.

A primeira ideia foi tentar isolar a região. Na noite do dia 22 para o dia 23 de junho, sob as ordens de três cardeais, trabalhadores ergueram um muro de contenção após nove horas de trabalho.

Ilustração papa Alexandre 7o, feita por Andrea Sacchi

CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO

Legenda da foto,

O endurecimento das regras impostas pelo papa Alexandre 7º foi gradual até chegar a um lockdown completo

"O papa era também a autoridade civil. Conforme a doença começou a se espalhar, ele passou a implementar medidas de isolamento. Depois que proibiu o comércio com Nápoles, passou a decretar outros meios de distanciamento social: foi proibindo encontros, procissões, todo o devocional mais popular", pontua Araujo.

O endurecimento das regras foi gradual até o lockdown completo.

"Conforme o tempo foi passando, ele [o papa] foi adotando novas proibições. Congregações [da Igreja] foram suspensas, todas as visitas diplomáticas também, encontros religiosos e reuniões públicas… Estradas foram vigiadas", enumera Araujo. "Todas as aglomerações civis acabaram suspensas."

"Foram banidas várias atividades econômicas e sociais. Festas e cerimônias públicas, civis e religiosas foram canceladas", diz o seminarista Gustavo Catania, filósofo pelo Mosteiro de São Bento de São Paulo. "Mercados foram suspensos e algumas pessoas que moravam na rua foram retiradas, porque podiam ser causas de contágio. A travessia noturna do Rio Tibre foi proibida."

"Com quase toda a cidade fechada, os cultos inevitavelmente se transformaram em privados. Quase todos tinham alguém da família com a doença", completa Catania.

O papa também determinou que naquele período ninguém deveria fazer jejum, numa tentativa de que as pessoas não se privassem de alimentos e, assim, se mantivessem mais saudáveis para o caso de serem infectadas.

Todos aqueles que tinham pelo menos um contaminado na família eram proibidos de sair de casa. Para garantir a assistência, Alexandre 7º separou os padres e os médicos em dois grupos — aqueles que teriam contato com os doentes e os que não teriam, encarregando-se de zelar pelo restante da população.

"Havia uma preocupação que os padres não se transformassem em vetores da doença", diz Araujo.

"Os médicos foram proibidos [por lei] de fugir de Roma", atenta Catania, lembrando que muitos tinham receio de se contaminarem com a peste. Como os doentes eram isolados, foi montada uma rede de apoio assistencialista. "Houve a previsão de ajuda financeira às famílias que não podiam sair de casa e algumas pessoas recebiam comida pela janela", diz o seminarista.

Nos meses de outubro e novembro, quando a incidência da doença foi maior, chegou-se a prever pena de morte para quem descumprisse as regras.

Negacionistas e fake news

Mas nem todos acreditavam na gravidade da situação.

Havia quem desdenhasse e até as hoje chamadas fake news foram espalhadas. "O papa chegou a ser acusado de ter inventado a doença em benefício próprio, para ganhar popularidade", conta a vaticanista Mirticeli Medeiros, pesquisadora de história do catolicismo na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

"[Muitos] não queriam que o pontífice adotasse tais medidas [de restrição] para não alarmar a população", complementa. "Até seus colaboradores mais próximos o aconselharam a não fazê-lo. Temiam que, a partir do momento em que ele levasse a público a gravidade da situação, por meio de decretos e divulgação, a economia passasse a sentir os efeitos desse tipo de postura. No entanto, ele [o papa] foi firme e seguiu com sua política sanitária."

Talvez Alexandre 7º possa ser considerado uma espécie de padroeiro do lockdown.

Araújo compara o acontecido no século 17 com o "movimento de hoje, com a resistência das pessoas" a aceitarem a gravidade da pandemia de covid-19. "[Na época,] primeiro os comerciantes quiseram aconselhar o papa para que ele não adotasse as medidas, pois [o fechamento] iria prejudicar o comércio, a colheita", comenta o pesquisador. "Parte do povo foi murmurar contra as decisões do papa."

"Grupos procuraram o papa, aconselhando-o para não decretar medidas de isolamento. Queriam que ele acobertasse, maquiasse um pouco a doença para que o pânico não se espalhasse e o comércio não fosse fechado", prossegue.

Há relatos de que um médico teria divulgado fake news acerca das reais motivações do lockdown. "Ele espalhou que essas decisões do papa escondiam interesses políticos", diz o historiador Victor Missiato, professor do Colégio Presbiteriano Mackenzie Brasília, membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Psicossociais sobre o Desenvolvimento Humano da Universidade Presbiteriana Mackenzie (Brasília) e pesquisador na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

"Foi acusado de calúnia e acabou condenado a trabalhar em um hospital voltado para a cura da peste."

Outro caso emblemático foi o do religioso Gregorio Barbarigo (1625-1697). Quando foi eleito, o papa Alexandre VII nomeou-o prelado da Casa Pontifícia, conselheiro e, em seguida, referendário do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica. Isso tudo em 1655, mesmo ano em que Barbarigo havia se tornado sacerdote.

Mas o conselheiro acabou sendo uma voz contrária ao lockdown de Alexandre 7º. "Ele questionava as medidas, dizia que elas provocavam mais mortes do que a peste, porque causavam mortes pela fome e pelo medo. Mesmo próximo ao papa, ele tinha um olhar crítico", frisa Araujo.

Alexandre 7º não parece ter guardado rancor. Tanto que, anos mais tarde, em consistório de abril de 1660, fez de Barbarigo cardeal.

Vitória contra a doença

Quando esse surto foi vencido em agosto de 1657, a celebração foi à altura.

Alexandre 7º demonstrou o renascimento da Igreja com monumentos que marcam o Vaticano até hoje, como o conjunto de colunas da Praça de São Pedro, obra do escultor e arquiteto Gian Lorenzo Bernini (1598-1660).

Colunas de Bernini, em foto de 2019

CRÉDITO,EDISON VEIGA

Legenda da foto,

Obras de Papa Alexandre 7º marcam o Vaticano até hoje, como o conjunto de colunas da Praça São Pedro, do escultor e arquiteto Gian Lorenzo Bernini

"Era muito comum, nesse período, que os papas tornassem visíveis a sua soberania e o seu poder. Os grandes monumentos de Roma, nesse período, foram construídos a partir dessa motivação", contextualiza Medeiros.

"É o caso das Quattro Fontane da Piazza Navona, Fontana di Trevi, entre outros."

A embaixada brasileira em Roma fica em frente às esculturas da famosa Piazza Navona.

"Alessandro 7º era apaixonado pela arte, amigo de Bernini. O início de seu pontificado foi marcado, justamente, pela peste", explica.

"A forma que ele encontrou, de certa forma, de apagar aquele período sombrio, foi investindo em obras colossais. As colunatas que ele mandou construir representam os braços abertos da Igreja. A catedral do apóstolo Pedro foi restaurada, o símbolo do poder temporal, não só espiritual."

Outros casos

Não foi este o único momento histórico em que a Igreja, no passado, fechou suas portas por conta de surtos e epidemias. Mas, como destaca Medeiros, foi o único de forma oficial "e contando com uma estrutura de Estado para tal".

"Ocorreram [em outros momentos] casos isolados em algumas dioceses da Itália, sobretudo no século 19 durante a epidemia de cólera", lembra ela. "Nesses lugares, adotaram-se medidas restritivas semelhantes."

Por outro lado, Medeiros lembra que no surto de peste do século 14, ocorreu "totalmente o contrário".

"O papa Clemente 6º, isolado no palácio pontifício de Avignon, na França, não parecia muito preocupado com o que ocorria fora dos muros da sua casa", aponta a vaticanista. "Como na mentalidade do homem da época a doença nada mais era do que um castigo divino, procissões e outras formas de aglomeração aconteciam, na tentativa, segundo a mentalidade religiosa da época, de extirpar aquele mal."

"Mas já nessa época, assim como na época de Alexandre 7º, existiam os dormitórios para isolar os infectados. Esses 'lazarettos', como eram chamados, estavam sob a responsabilidade dos [religiosos] franciscanos", contextualiza. "Os viajantes, seguindo as normas sanitárias de alguns lugares, deveriam evitar o convívio com outras pessoas por 40 dias — daí que surge o termo quarentena."

No século anterior, a região de Milão foi fortemente acometida pela peste. O cardeal arcebispo de lá, Carlo Borromeo (1538-1584), também estabeleceu medidas sanitárias rígidas em sua circunscrição.

"Ele fez a proposta de uma quarentena geral, que foi adotada [pela região]", diz Araujo. "Foi publicado um decreto que determinava que as pessoas se mantivessem em casa até que a situação fosse controlada. Só podiam sair os que estavam cuidando espiritual e materialmente da população."

O pesquisador conta que até as missas foram realizadas em um formato "à distância", conforme as possibilidades da época. "Um padre ia para a esquina e celebrava na rua. Os fiéis assistiam de suas janelas, de dentro de casa", explica ele.

Fé e ciência

Ao analisar esses episódios do passado — muitas vezes semelhantes ao vivenciados hoje — dois pontos precisam ser levados em conta.

Este era um mundo em que a ciência ainda não era valorizada como hoje. E no qual religião e política estavam intrinsecamente mesclados.

"No século 17, absolutismo era muito forte na Europa e estava ligado ao poder da Igreja. Poder político e poder religioso, naquela época, ainda estavam muito misturados", explica Missiato.

"Naquele período, a Revolução Científica ainda não havia sido difundida nas diversas sociedades do mundo europeu. A crença no divino enquanto ente definidor da paz e do caos ainda era vista como o caminho para a salvação."

Por isso, o lockdown imposto por Alexandre 7º se torna ainda mais interessante.

"[O ocorrido] mostra um alinhamento entre fé e ciência", diz Araujo. "Uma fé que tem os pés no chão. Com base no que Roma já havia sofrido com a peste em outros momentos, [a experiência faz com que] eles passam a saber que essas medidas são importantes. Existem pastores sensíveis."

fonte: https://www.bbc.com/portuguese/geral

sábado, 16 de maio de 2020

Países europeus criaram planos econômicos contra a Peste a partir da Idade Média.


PANDEMIA
Além de devastar boa parte da Europa em diferentes ocasiões, as pandemias de peste bubônica também causaram graves crises econômicas no continente. Tanto a Peste Negra (1347-51) quanto a Grande Praga de Londres (1665-66) e a Praga de Marselha (1720) mexeram com as finanças governamentais e pessoais. Para tentar conter os estragos, autoridades de diversos países tiveram que criar planos econômicos emergenciais para enfrentar os prejuízos provocados pela doença. 
Durante a Peste Negra, o governo inglês teve que agir para proteger o ganha-pão da população. Em 1349, foi emitida a Portaria dos Trabalhadores, que determinava que homens e mulheres saudáveis recebessem salários equivalentes aos da época anterior à pandemia. Nos séculos seguintes, a doença voltaria a assombrar o país, obrigando que novas medidas econômicas fossem tomadas.
A Ordem da Praga de 1578, emitida pela rainha Elizabeth I, implementou uma série de medidas econômicas para auxiliar os infectados e suas famílias. Uma outra iniciativa do governo garantiu que as pessoas infectadas não deixassem suas casas para comer ou trabalhar. Também foram construídos hospitais para abrigar os doentes e proteger as pessoas saudáveis.
Entre 1720 e 1722, uma grande praga atingiu Marselha, no sul da França, matando cerca de 100 mil pessoas. A princípio, as autoridades locais minimizaram o perigo da doença na tentativa de preservar a economia local. Somente dois meses após o início da pandemia é que a cidade entrou em quarentena. Com atraso, o governo francês criou um plano centralizado para administrar a crise. Foram instituídas medidas sanitárias, econômicas e sociais para enfrentar a situação.  

Imagem: Shutterstock.com

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Como comunidades africanas antigas lidavam com pandemias?

COMO COMUNIDADES AFRICANAS ANTIGAS LIDAVAM COM PANDEMIAS? ARQUEOLOGIA RESPONDE

As técnicas utilizadas iam de isolamento social à queima de assentamentos, tudo na tentativa de administrar as doenças infecciosas
ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 15/05/2020
Arte que retrata os cadáveres produzidos pela Peste Negra
Arte que retrata os cadáveres produzidos pela Peste Negra - Getty Images
Na trajetória humana, algumas pandemias acometeram diferentes sociedades, mudando dramaticamente o modo de vida dessas pessoas. As maiores, que geralmente são lembradas, são a peste negra, entre 1346 e 1353, e a gripe espanhola, entre os anos 1918 e 1920. Atualmente, o novo coronavírus ocupa esse lugar.
A arqueologia consegue mostrar para nós, hoje, muitos eventos que aconteceram ao longo da história — tanto os bons quanto os ruins, sendo as principais consequências dessas epidemias algumas delas. Pesquisas realizadas em diversas comunidades africanas antigas, por exemplo, revelam como essas pessoas lidaram essas doenças.
As descobertas arqueológicas foram realizadas principalmente assentamentos em Akrokrowa, em Gana, que remonta ao início do século 14, em localidades do distrito de Mwenezi, no sul do Zimbábue, e, ainda do povo Shona, que viveu onde hoje é o Zimbábue, entre os séculos 17 e 18.
Os primeiros abandonaram o local que viviam assim que perceberam as drásticas consequências da doença que os acometiam. Mesmo com o fim da epidemia, as casas não foram reconstruídas e eles decidiram viver em outra região. Como os arqueólogos não encontraram problemas de longo prazo em decorrência dessa decisão, acredita-se que eles conseguiram se adaptar e sobreviver ao surto, na mesma época da peste negra na Europa.
Em Mwenezi, por exemplo, pesquisadores descobriram que era quase proibido culturalmente tocar nos mortos que morreriam devido a esse tipo de doença. Eles não poderiam interferir nos restos mortais dessa pessoa para que a enfermidade não fosse transmitida.
Em partes do Zimbábue e Moçambique, as residências eram dispersas para que as famílias não ficassem próximas em períodos de pandemia. O distanciamento social, portanto, era uma prática comum. O povo Shona, que viveu na região, também isolava os doentes em estruturas temporárias, e, além disso, queimava os cadáveres para evitar a disseminação.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Os doutores da peste.

NADA CIENTÍFICOS E DEFENSORES DE REMÉDIOS PECULIARES: 5 FATOS BIZARROS SOBRE OS DOUTORES DA PESTE

Para tentar conter a pior epidemia da História, esses médicos utilizavam vestimentas insólitas e contavam com o esoterismo em seus tratamentos
ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 07/05/2020
Figura ilustrativa dos primeiros médicos que lidaram com a doença
Figura ilustrativa dos primeiros médicos que lidaram com a doença - Divulgação
1. A máscara.
Vestimenta utilizada por médicos durante o surto de Peste Negra / Crédito: Wikimedia

As vestimentas usadas pelos médicos durante a peste negra se tornaram uma marca do período. A máscara com furos para os olhos cobertos por vidro e um longo bico curvo e vazio de 40 centímetros é a parte mais conhecida desse traje. No entanto, poucos sabem o que havia dentro dele.
Dentro do bico eram colocadas flores secas e ervas aromáticas (cânfora, alho e canela) para se defender dos miasmas, julgados portadores do contágio. Além disso, eram usadas esponjas com vinagre, considerado – erroneamente – capaz de desinfetar o ar respirado.

2. Remédios.
Entre os “remédios” prescritos aos enfermos pela peste estava a tríaca (ou teríaca), uma poção que misturava várias ervas do Oriente, que se acreditava serem a cura. Elas eram colocadas na carne de uma cobra, obrigatoriamente “fêmea, não grávida, capturada algumas semanas após o letargo invernal, decapitada, sem cauda e tripas”, como descreve um tratado do período.
 Ela deveria ser, então, “fervida em água de fonte salgada e aromatizada com endro, triturada, empastada com pão seco, amassada em pequenas bolinhas da dimensão de uma noz e colocada para secar na sombra”. Entre os outros ingredientes havia ópio, asfalto, mirra, canela, sulfato de ferro e goma arábica.

3. Nada científico.
Como é possível perceber, os métodos utilizados pelos doutores não tinham quase nenhum caráter científico, variando entre crenças populares e magia. Por isso, suas prescrições médicas provavelmente não salvaram ninguém.
“Essas figuras sombrias eram de fato médicos naquela época. Mas a medicina medieval tinha pouco ou nada a ver com o método científico, sendo mais uma mistura entre magia e esoterismo. Os médicos realmente tentavam curar os doentes de peste, mas obviamente não tinham antibióticos ou outros instrumentos eficazes contra a doença”, explica Sergio Zamperetti, historiador da Universidade Ca’ Foscari, de Veneza.

4. A quarentena nos lazaretos.
Pintura sobre o caos da Peste Negra / Crédito: Getty Images

Os lazaretos eram uma complexa máquina sanitária, que abrigava tanto os casos suspeitos quanto os confirmados da doença. Esse foi primeiro e fundamental passo para reduzir a difusão das doenças, criando uma verdadeira indústria da prevenção e da cura das epidemias. O local era dividido repartições e unidades, cujas funções eram separar mercadorias e pessoas.  
“Mesmo não tendo uma completa compreensão das características da doença, em ocasião dos alarmes de contágio, as casas de possíveis doentes eram evacuadas. Eles eram deixados nus, lavados com vinagre, vestidos com roupas novas e enviados para a quarentena na ilha do Lazareto Novo. Se alguém realmente apresentava os sintomas da doença, passava para a ilha do Lazareto Velho”, explica a historiadora Donatella Calabi, da Universidade Ca’ Foscari.

5. Eles ainda eram contaminados.
Ainda com as tentativas de prevenção, os médicos da peste acabavam, muitas vezes, sendo afetados pela doença. Isso gerava a maior possibilidade de que eles levassem a doença para fora dos lazaretos, contaminando a população sadia.
Em muitos casos, as precárias condições higiênicas dos lazaretos favoreciam, e não evitavam, o contágio. Por isso, esses locais passaram a ser construídos fora das cidades, de preferência em lugares isolados e de difícil acesso. Ilhas perto de portos eram escolhas comuns para a instalação desses centros.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Quarentena foi crucial para diminuir o impacto da Peste Negra.

EM UM PERÍODO DE INCERTEZAS, QUARENTENA FOI CRUCIAL PARA DIMINUIR O IMPACTO DA PESTE NEGRA

As medidas de isolamento foram imprescindíveis para que a doença que assombrou a Europa na Idade Média tivesse um fim
PENÉLOPE COELHO PUBLICADO EM 06/05/2020
Obra de arte retrata a Peste Negra
Obra de arte retrata a Peste Negra - Wikimedia Commons
Em 2020, a vida tem sido outra desde que a pandemia do novo coronavírus se alastrou, afetando milhares de pessoas ao redor do mundo. Mesmo que a geração atual não esteja acostumada com o apelidado lookdown, essa não é a primeira vez que um vírus põe em cheque a história do planeta e a vida das pessoas.
Algumas doenças como a SARS e a Gripe Espanhola deixaram uma marca sombria na história da humanidade. No entanto, a maior delas aconteceu durante o século 14 e ficou conhecida como Peste Negra.
O vírus mortal era originário de uma bactéria disseminada através de pulgas, carregadas por ratos em embarcações, e resultou na morte de cerca de 50 milhões de pessoas de maneira agressiva e rápida; Levando o infectado a óbito em no máximo cinco dias.
Mas, afinal de contas, as medidas tomadas para que essa pandemia tivesse um fim foram eficientes?
Pintura sobre o caos da Peste Negra / Crédito: Getty Images

Sistema de quarentena.
Na idade média o método de isolamento social era precário e levou muito tempo para acontecer, por isso, foi uma luta de anos na tentativa de que a doença parasse de agir com tanta força.
Na Europa as medidas de quarentena foram pioneiras, cada cidade estipulou um estilo de organização baseado nas informações e condições estipuladas na época. Tornando-se uma espécie de referência. 
A cidade italiana de Veneza, por exemplo, foi a primeira a definir medidas de isolamento em uma tentativa de controlar o vírus. Inicialmente, os venezianos determinaram o fechamento de seus portos para os navios que chegavam.
Quando a tripulação chegava na idade, era obrigatório que se cumprisse um período de 30 dias em isolamento, o que logo se tornou 40 dias, dando origem para a palavra quarentena, como conhecemos hoje.
Além disso, alguns cemitérios foram feitos de última hora para enterrar especialmente as vítimas do vírus. Anos depois, uma escavação realizada na cidade, em 2007 — revelou mais de 1.500 esqueletos de pessoas que suspostamente pegaram a peste.
Veneza também determinou uma ilha para quarentena em Lazzaretto Vecchio, o local abrigou um hospital feito especificamente para cuidar das vítimas do vírus.
Essas medidas ajudaram a diminuir alguns impactos da doença, sem elas, eventualmente, mais mortes ocorreriam. Porém, cerca de 100 mil pessoas faleceram em decorrência do vírus na cidade italiana.  
Vestimenta utilizada por médicos durante o surto de Peste Negra / Crédito: Wikimedia

Londres.
Outra cidade europeia que aderiu a algumas medidas de contenção foi a capital da Inglaterra. No ano de 1377, a população local foi brutalmente dizimada pela doença. Isso porque, naquela época, as medidas tomadas não foram o suficiente para controlar a peste.
Com tantas mortes na época, as autoridades locais aprenderam a lição e buscaram uma nova forma de se comportar nos anos seguintes, quando a doença voltou a assolar Londres. 
Em 1563, quando a praga atacou novamente a cidade, o prefeito ordenou que estruturas de cruz na cor azul fossem colocadas nas portas das casas que tivesse pessoas portadoras da doença.
Além disso, os habitantes foram obrigados a permanecer em casa por um mês, após a morte de alguém próximo. Só quem não tinha nenhum tipo de contato com pessoas infectadas conseguiram permissão para sair de casa, com objetivo de comprar mantimentos e afins.
O método para comprovar que aquela pessoa, em específico, não fora afetada pela peste era carregar algo branco consigo. Eles seguiam a regra: quem se esquecesse de levar era multado no ato e até mesmo preso.
Algumas medidas de proibição de migração também foram tomadas, viajantes de regiões contaminadas eram proibidos de entrar na cidade. Embora as medidas de contenção não tenham sido suficientes para evitar mortes, os impactos foram menores.
Levou mais de 200 anos até que a Europa conseguisse se restabelecer após as inúmeras perdas causadas pelo vírus. Atualmente, essa versão da doença não existe mais. Contudo, segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde, OMS, entre os anos de 2010 a 2015, 3.248 mil casos da peste foram registradas no mundo, com 584 mortes.
Todavia, devido ao avanço da medicina a doença se tornou mais fácil de controlar, facilitando também o seu tratamento. O risco por contágio ainda existe, apesar de ser pequeno. A maioria dos casos aconteceram na República Democrática do Congo e no Peru.