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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

"Cristo Guerrilheiro": a imagem de mártir de Che Guevara.

"CRISTO GUERRILHEIRO": A IMAGEM DE MÁRTIR DE CHE GUEVARA

Assassinado aos 39 anos, o guerrilheiro defendeu suas crenças até o último minuto, sendo eternizado pelos seus seguidores
REDAÇÃO PUBLICADO EM 07/12/2019
Retrato de Che Guevara
Retrato de Che Guevara - Getty Images
Não há como citar o nome do mais notório guerrilheiro do mundo, o símbolo do comunismo ocidental, Che Guevara, sem suscitar paixões. Há quem o defenda fortemente como o herói que lutava contra a injustiça social; há quem o condene como grande arruaceiro e até mesmo criminoso sem escrúpulos. Gostando ou não de sua história, não há como negar: Che é um mito, que passou a vida lutando pelos ideais revolucionários.
Sua prisão e consequente execução são momentos nebulosos, envoltos em mistério. E é esse o foco da obra Caçando Che, dos jornalistas Mitch Weiss e Kevin Maure: o processo de captura do comunista mais famoso da segunda metade do século 20, do momento da escolha da equipe que lideraria a missão até o treinamento de camponeses bolivianos simplórios para se tornarem parte do grupo que deveria capturálo. A missão era monitorada secretamente pela Casa Branca e pelo Pentágono e contava também com o apoio da CIA.
Retrato de Che Guevara / Crédito: Getty Images

Che Guevara nasceu em Rosário, na Argentina, filho de classe média. Formou-se médico, mas desde jovem se interessou pela revolução social. Foi um dos líderes da Revolução Cubana. Percorreu a América Latina com seus ideais comunistas e passou a ser perseguido.
No último país em que esteve, a Bolívia, entrou com passaporte uruguaio falso, com nome de Adolfo Mena González, preparado para promover a revolução comunista que unificaria o continente. Mas ali não obtém apoio nem dos locais nem do governo, sendo capturado finalmente.
Fidel Castro e Che Guevara / Crédito: Getty Images

O livro relata com detalhes a chegada de Che à Bolívia, sua captura e como o conhecido desfecho mudou a História. Os autores se valeram de relatórios do governo, documentos oficiais e de relatos de testemunhas para reconstruir os bastidores do percurso que a missão de captura do guerrilheiro percorreu para chegar ao sucesso da empreitada na selva boliviana.
O Exército boliviano, sem querer, havia dado ao mundo a imagem de um mártir, um "Cristo guerrilheiro" assassinado muito jovem, com apenas 39 anos, e imolado por defender suas crenças até o último suspiro.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Os momentos finais de Che Guevara.

OS MOMENTOS FINAIS DE CHE GUEVARA

Neste dia, em 1967, um dos maiores guerrilheiros da História era assassinado. Saiba como foram seus últimos dias
GIOVANA SANCHES E CELSO MIRANDA PUBLICADO EM 09/10/2019
Che Guevara
Che Guevara - Crédito: Olga Shirnina
Já era tarde da noite de 3 de novembro de 1966 quando o diplomata Adolfo Mena González, de 38 anos, calvo e barrigudo, chegou ao aeroporto de La Paz, na Bolívia.
Cansado da longa viagem — havia passado por Moscou, Praga, Viena, Frankfurt, Paris, Madri e São Paulo, como mostrava seu passaporte uruguaio —, declarou aos fiscais da imigração que pretendia levantar dados para a Organização dos Estados Americanos. Liberado, seguiu para o centro da capital, onde se hospedou numa suíte do Hotel Copacabana.
Ali conheceu os irmãos bolivianos Guido e Roberto Peredo e com eles partiu de avião para Cochabamba, a 800 quilômetros de La Paz. Depois de mais três dias de viagem de jipe, chegou às margens do rio Ñancahuazú.
Em 7 de novembro, escreveu em seu diário: “Hoje começa uma nova etapa”. Só então revelou sua verdadeira identidade: González era, na verdade, o guerrilheiro Ernesto Che Guevara.
Depois de ter levado a Revolução Cubana à vitória em 1959, ao lado de Fidel e Raúl Castro, Che se dedicara a espalhar ideais revolucionários pelo mundo.
“Ele esteve no Congo em 1964, onde experimentou um terrível revés, e, de volta a Cuba, entrou na clandestinidade para trabalhar secretamente em seus novos planos: criar na América Latina um foco guerrilheiro que pudesse convulsionar todo o continente”, diz o historiador mexicano Jorge Castañeda em Che Guevara — A Vida em Vermelho.
“Na época, a América Latina parecia um grande tabuleiro da Guerra Fria, onde ondas de inspiração comunista esbarravam em ditaduras militares apoiadas pelos Estados Unidos.”
A Bolívia não fugia à regra. Em 1964, depois de duas décadas de instabilidade (em que sindicatos, Exército e latifundiários se digladiaram pelo poder), um golpe pôs no governo o general René Barrientos.
A Bolívia se tornou, então, um notório aliado dos Estados Unidos — naquela época, em termos de ajuda militar americana, o país só perdia para Israel. Era a nação mais pobre da América depois do Haiti.
Repressão, pobreza, presença imperialista: segundo as concepções políticas de Che, a Bolívia era perfeita para uma nova vitória revolucionária. Para colocar a teoria em prática, entretanto, era preciso recrutar uma equipe.
Em julho de 1966, enquanto Che permanecia incógnito, Raúl Castro, comandante das Forças Armadas de Cuba, convocou alguns veteranos da Revolução Cubana.
O guerrilheiro / Crédito: Wikimedia Commons
O capitão Harry Villegas Tamayo, o Pombo, estava presente e relembrou a cena em 2006, numa entrevista à revista chilena Punto Final. “Raúl disse que havíamos sido chamados para integrar uma Brigada Internacional de Combatentes pela Liberdade dos Povos”, afirmou. “A resposta foi um unânime “eu vou!” 
A tropa de elite passou por três meses de treinamento. Depois, todos seguiram por caminhos diferentes para a América do Sul. Já Che precisava de um bom disfarce para conseguir chegar à Bolívia sem ser notado. Cortou o cabelo e a barba, adotou óculos de lentes grossas e colocou uma prótese dentária que mudou sua fisionomia e sua voz.
No fim de outubro, visitou sua família pela última vez em Havana. Jantou com as filhas, apresentado a elas como tio Ramón. O disfarce funcionou — as meninas só saberiam que aquele era seu pai depois de receber a notícia de sua morte.
Bem-vindo à selva
A região do rio Ñancahuazú é coberta por uma mata densa, cortada por córregos e mangues. De repente, erguem-se elevadas montanhas ou abrem-se crateras e desfiladeiros, chamados na região de quebradas.
Foi às margens das águas barrentas do Ñancahuazú que Che encontrou pela primeira vez sua tropa, instalada num sítio que haviam comprado na região para servir de disfarce temporário. Eram apenas 13 homens, entre veteranos cubanos e jovens bolivianos. Em novembro, Che inspecionou o primeiro acampamento na selva — duas cabanas sobre o chão barrento.
No início de dezembro, o líder anotou em seu diário (que depois seria publicado como Diário da Guerrilha Boliviana): “Não tenho os homens e as armas que esperava”. Che se referia à falta de ajuda do Partido Comunista Boliviano. Seu líder, Mário Monje, insistia em ter a palavra final sobre a guerrilha.
Che não aceitou, e os dois cortaram relações. A briga era indesejável, mas não comprometia a estratégia de Che. O apoio de partidos e sindicatos poderia ser obtido à medida que avançassem as conquistas dos guerrilheiros. A referência, é claro, era a Revolução Cubana — que quando começou, no fim de 1956, tinha apenas 12 homens isolados no meio do mato (incluindo o próprio Che).
Todo o discurso político, porém, parecia muito distante naquela manhã de janeiro de 1967, em que a selva de Ñancahuazú afundava sob as chuvas de um verão amazônico. Foi quando os guerrilheiros liderados por Che deram os primeiros passos de sua quimera revolucionária. Já eram 27 homens que, em expedições diárias, se familiarizavam com o território. A fase de “implementação e infra-estrutura” durou quase dois meses.
Numa área de cerca de 140 quilômetros quadrados, estabeleceram postos de observação e abriram covas para estocar remédios, alimentos, armas e equipamentos de comunicação.
“Abrir trilhas e desenhar rotas para deslocamento e defesa não parecia uma missão perigosa, nem revolucionária, mas era cumprida com dedicação absoluta e disposição militar”, lembra Dariel Benigno Ramirez, um dos veteranos da guerrilha, em Memorias de un Soldado Cubano.
Seis contra cem
“O primeiro estágio está terminado. Os homens chegaram algo cansados, mas de modo geral conduziram-se bem”, anotou Che em 1º de fevereiro. O próximo passo seria treinar os combatentes para a sobrevivência na selva. Che, então, montou três grupos para uma expedição, prevista para durar 15 dias. No acampamento ficaram apenas quatro combatentes.
“A marcha era a principal atividade. Che, exigente com a disciplina, fazia o grupo caminhar em silêncio, mantendo uma distância de 20 metros entre um e outro”, relatou o capitão Villegas.
Andar uma dezena de quilômetros sob chuva, em trilhas enlameadas, podia levar o dia todo. Quando o grupo de Che tentou atravessar o rio Grande, o boliviano Benjamin Coronado Córdoba foi levado pela correnteza e morreu afogado. A primeira baixa da guerrilha viera antes do primeiro tiro ser disparado.
A volta foi ainda mais cansativa — a expedição já havia tomado quase um mês. Desde a chegada à Bolívia, Che tinha perdido 20 quilos. Sua barba voltara e ele sofria com ataques de asma, dores nas mãos e pés inchados.
No acampamento, sem notícias do resto do grupo, Vicente Rocabado e Pastor Barrera desertaram em 11 de março. A caminho da vila de Camiri, tentaram vender um fuzil e foram denunciados. Presos, falaram da guerrilha. E disseram que o líder era Che Guevara.
As forças armadas bolivianas foram colocadas em alerta. Em março, patrulhas saíram de Camiri para investigar a região. No dia 23, cerca de 40 militares estavam na margem direita do Ñancahuazú, carregando armamento pesado e avançando devagar.
Com a água batendo na cintura, os soldados tentavam atravessar o rio quando, por volta das 8h30, um tiro acertou o último homem da retaguarda. Após o estampido seco do fuzil, a selva cuspiu rajadas de metralhadora. Os soldados não viram quem os atingia. A ação, feita por sete guerrilheiros, deixou sete militares mortos, quatro feridos e 14 capturados. 
Após a batalha de Santa Clara, em janeiro de 1959 / Crédito: Wikimedia Commons
Os prisioneiros foram levados ao acampamento da guerrilha, onde receberam medicação e alimento. No dia seguinte foram soltos — aliviados de três morteiros de 60 milímetros, 16 pistolas Mauser, três submetralhadoras Uzi, dois rifles BZ, dois rádios, duas mulas, um cavalo e alguns pares de botas.
“Os soldados em serviço militar, mal treinados e mal armados, quando não foram simplesmente afugentados, sofreram fragorosas derrotas para a guerrilha que parecia, nos dois primeiros meses de conflito, invencível”, afirma o jornalista americano Jon Lee Anderson em Che Guevara – Uma Biografia.
Em 10 de abril, um grupo de cerca de 150 soldados apanhou de uma dúzia de guerrilheiros e acabou com dez mortos e 30 prisioneiros. A guerrilha sofreu apenas uma baixa: o veterano capitão Suarez Gayol, ex-ministro da Indústria do Açúcar em Cuba.
Alarmado, o governo boliviano buscou ajuda nos Estados Unidos e nos países vizinhos. De Argentina e Peru e, em menor escala, do Brasil recebeu apoio logístico, equipamentos e informações. Do norte, recebeu mais.
“O governo norte-americano promoveu um programa de treinamento para ações de contraguerrilha e forneceu armas automáticas relativamente modernas e outros equipamentos ao Exército boliviano”, diz um relatório do Departamento de Estado americano de maio de 1967.
Naquele mês, quatro oficiais e 12 fuzileiros navais chegaram à Bolívia para treinar 600 soldados. Outro documento, de 18 de maio, mostra que os americanos estavam preocupados com o eventual apoio popular aos rebeldes: “Entre eles, há médicos que tentam tratar das crianças em lugarejos destituídos de qualquer outro tipo de assistência”.
Metade a menos
A presença dos militares dificultava o contato da guerrilha com La Paz. Lá, a argentina Tamara Bunke mantinha um esquema de apoio aos homens de Che — era a “rede urbana”.
Boa parte da comunicação com a capital era feita pelo filósofo francês Regis Debray (amigo e mensageiro de Fidel) e pelo artista argentino Ciro Roberto Bustos, que costumavam visitar os guerrilheiros. Em abril, com o Exército de prontidão, Debray e Bustos não conseguiam voltar a La Paz.
Por causa disso, no dia 17, Che tomou uma decisão que selaria o destino de todos: dividiu a guerrilha em dois grupos, um de avanço e outro de espera. Liderando o primeiro, Che tentaria ocupar o povoado de Muyupampa para, de lá, mandar os dois mensageiros a La Paz
Já a tropa de espera, sob o comando de Joaquín (Juan Vitalio Nuñez, membro do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba), aguardaria perto do povoado de Bella Vista. Che deveria voltar em três dias.
Ao se aproximar de Muyupampa, a tropa de avanço encontrou o jornalista inglês Tom Roth, que insistia em fazer uma entrevista. Apesar do risco, Che aceitou. Em troca, Roth deveria levar Debray e Bustos em seu carro até Camiri, a cerca de 300 quilômetros dali. Esforço inútil.
Em 20 de abril, Debray e Bustos foram presos. Após um mês de tortura, o francês acabou confirmando a presença de Che na selva. Já Bustos colaborou desde o primeiro dia, dando preciosas informações e até desenhando o rosto dos guerrilheiros. 
Em 25 de abril, o grupo avançado foi atacado pelo Exército. Che anotou: “Um dia negro”. Referia-se à morte de Eliseo Reyes, que havia combatido a seu lado em Cuba. Seguiu-se uma longa retirada pelo norte, na direção oposta ao ponto de encontro com Joaquín.
No dia 14 de junho, Che questionou até quando a idade permitiria que ele continuasse a ser guerrilheiro. “Por enquanto, ainda estou inteiro”, escreveu. Era seu aniversário de 39 anos.
Em agosto, Joaquín resolveu sair em busca de Che. Começou a busca na casa de Honorato Rojas, camponês que já havia servido de guia para a guerrilha. Depois de mais de 20 dias andando, o grupo acampou perto da casa de Honorato, em Vado del Yeso.
Ao amanhecer de 30 de agosto, Joaquín enviou homens até lá para pedir comida. Honorato prometeu algo para o dia seguinte. Enquanto isso, mandou o filho alertar o Exército.
Às 16h do dia 31, Joaquín apareceu e pagou a Honorato pela sopa de milho e pelos pães. Na volta, perto de um rio, os 16 guerrilheiros foram surpreendidos por tiros vindos das árvores. Dez morreram na hora, incluindo Joaquín.
Longe dali, sem saber de nada, Che escreveu que o mês de agosto fora “o pior desde o início da guerrilha”. Mas, esperançoso como sempre, considerou que o Exército não tinha aumentado “nem sua eficácia nem sua iniciativa”. Estava errado.
No início de setembro, Che foi em busca de Joaquín. Assim como o companheiro, decidiu ir procurar na casa de Honorato. Durante dias de caminhada margeando o rio Grande, ouviram pelo rádio que os colegas haviam sido emboscados. No início, Che duvidou. Mas a precisão das informações o fez aceitar o fato.
As notícias diziam também que a rede urbana em La Paz tinha sido desbaratada. Che percebeu que seus homens eram tudo o que lhe restava e, portanto, o único foco do Exército seria pegá-los. Estava certo.
O grupo mudou de rumo, em direção aos vilarejos de Pucará e La Higuera. Esperavam recrutar gente para a luta e conseguir comida. Em seu diário, Che anotou as dificuldades alimentares daqueles dias: “Urbano [codinome do cubano Leonardo Tamayo Nunes] matou um cavalo. Ao meio-dia tomamos seu sangue. De noite, assamos a cabeça e eu comi os olhos e o cérebro. Depois, sopa de frango.”
No dia 26 de setembro, às 3h da madrugada, a marcha recomeçou. Perto de La Higuera, Roberto Peredo caiu morto, atingido por um disparo. Seguiu-se um tiroteio. O saldo foi trágico: três mortos, dois feridos e duas deserções. Che percebeu que o Exército conhecia sua posição e que uma nova emboscada seria questão de tempo.
Em Vallegrande, maior cidade da região, estava o quartel da unidade militar treinada para combater a guerrilha: o Segundo Batalhão de Rangers. Mais de 2 mil militares estavam no encalço de Che.
Apenas um homem
Em contraste com a selva que a guerrilha havia enfrentado durante meses, a região próxima a La Higuera tem mata baixa e vegetação rala. Lá, na manhã de 7 de outubro, Che e seus 16 homens encontraram uma mulher idosa que caminhava com sua filha.
Temendo a delação, os guerrilheiros ofereceram à mulher 50 pesos pelo seu silêncio. A pobre senhora recebeu o dinheiro. E, assim que cruzou com militares, detalhou a posição exata dos barbudos.
Na madrugada do dia 8, o Exército bloqueou todas as rotas de fuga. Voltando de uma inspeção, dois homens de Che avistaram dezenas de soldados no alto do desfiladeiro. O grupo estava encurralado no fundo da quebrada de Yuro: uma garganta de 300 metros de comprimento e menos de 50 metros de largura.
Che decidiu esperar a noite para tentar furar o cerco. A silenciosa tensão foi rompida por volta de 13h30, quando o Exército abriu fogo contra os guerrilheiros.
O cadáver do guerrilheiro / Crédito: Wikimedia Commons
Quatro deles caíram mortos. No tiroteio, Che foi atingido e não podia mais andar sozinho. Carregado pelo boliviano Simeón Cuba, ele permaneceu disparando até que um tiro arrancou a carabina de suas mãos. Che e Willy acabaram cercados e rendidos por militares bolivianos. Segundo o relato de um deles, o sargento Bernardino Huanca, o revolucionário teria lhe dito: “Não atire. Eu sou Che Guevara. Valho mais para você vivo do que morto”.
Dos homens de Che, dez escaparam da emboscada. Metade deles seria morta nos próximos dias. Apenas cinco sairiam das montanhas com vida (os bolivianos Guido Peredo e David Veizaga voltariam à luta armada e acabariam mortos em La Paz, em 1969. Apenas os cubanos Urbano e Villegas ainda estão vivos).
Che, Willy e o peruano Juan Pablo Chang, que também havia sido preso na quebrada do Yuro, foram levados a uma escola em La Higuera. Lá, Che foi interrogado.
No dia seguinte, perto das 13h, Willy e Chang foram executados. Pouco depois, naquele calorento 9 outubro de 1967, sentado numa sala com chão de terra, Che foi executado pelo tenente Mario Terán com uma rajada de fuzil. Para evitar indícios, não foram dados tiros na nuca ou na cabeça. 

Saiba mais sobre os últimos dias de vida deste símbolo revolucionário com as obras:
Diário da Guerrilha Boliviana, Che Guevara, 1980 - https://amzn.to/2AT892j
Che — Uma Biografia, Jon Lee Anderson, 1997 - https://amzn.to/2pSvfDH
Vida, Morte e Ressurreição do Che, Reginaldo Ustariz Arze, 2004

O que aconteceu com o corpo fuzilado de Ernesto Che Guevara?

O QUE ACONTECEU COM O CORPO FUZILADO DE ERNESTO CHE GUEVARA?

Durante o episódio que ocorreu há exatos 40 anos, o exército boliviano seguiu ordens específicas dos EUA
ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 09/10/2019
None
- Klimbim
Che Guevara foi um revolucionário comunista que lutou para a formação de um novo estado socialista em Cuba, que se encontrava em um regime ditatorial comandado por Fulgêncio Batista.
Oposicionista dos Estados Unidos, participou da Revolução Cubana e outras guerrilhas rebeldes, como as no Congo e na Bolívia, local onde foi assassinado em 1967.
O país latino-americano sofria com a ditadura do general René Barrientos, apoiado pelos estadunidenses que forneceram treinamento e armas para o Exército boliviano.
As mãos amputadas do revolucionário argentino / Crédito: Domínio Público
No dia 9 de outubro de 1967, em La Higuera, próximo a Vallegrande, o grupo de Che foi atacado por 2 mil homens e teve seu líder capturado. Após um interrogatório, ele foi assassinado por uma rajada de fuzil, aos seus 39 anos.
Suas mãos foram cortadas e enviadas para os Estados Unidos na intenção de confirmar a identidade do principal revolucionário da América do Sul. Para acreditar e confirmar a morte, a CIA fez teste das impressões digitais nas mãos recebidas.
Os restos foram deixados para apodrecer. Seu corpo foi encontrado apenas 30 anos depois, em uma vala no meio da selva boliviana, juntamente com os demais seis guerrilheiros de seu agrupamento.
Comandante Guevara após o assassinato / Crédito: Wikimedia Commons
Mas não acabaria nisso. Em abril de 1971, a revolucionária Monika Ertl, comunista, filha de nazistas e assassina decidiu se vingar do coronel do Exército Roberto Quintanilla Pereira, responsável por amputar as mãos de Che Guevara. 
Em uma manhã calma, figindo uma visita importante, a moça entrou no gabinete, tirou da bolsa azul, que levava sob o braço esquerdo, um Colt Cobra 38 especial e disparou três tiros no lado direito do tórax do diplomata. Assim morreu Pereira, representante da Bolívia na cidade alemã desde o ano anterior. E assim foi vingado o comandante Ernesto Che Guevara.

São Ernesto: em Vallegrande, Bolívia, Che Guevara é adorado como um santo.

SÃO ERNESTO: EM VALLEGRANDE, BOLÍVIA, CHE GUEVARA É ADORADO COMO UM SANTO

"Ernesto era como um Cristo, com olhos fortes, barba e cabelos compridos. Era muito milagroso", afirmou uma enfermeira local que cuidou do cadáver do guerrilheiro comunista, morto há exatos 40 anos
JOSEANE PEREIRA PUBLICADO EM 09/10/2019
Memorial onde o corpo de Guevara foi encontrado
Memorial onde o corpo de Guevara foi encontrado - Alamy
Na cidade de Vallegrande, com apenas 7 mil habitantes, foi enterrada uma das figuras mais controversas da História. Mais de 40 anos atrás, o corpo de Ernesto "Che" Guevara ficou em exposição, de olhos abertos, na lavanderia do hospital local. E sua presença ainda é uma força viva para a população, que vem cultuando o grande guerrilheiro como um santo que opera milagres.
Guerrilheiro santificado
A lenda começou imediatamente após sua execução. A enfermeira Susana Osinaga, que limpou o cadáver de Guevara, lembrou como os habitantes viam uma semelhança física entre Guevara e Jesus. Segundo ela, em entrevista ao jornal The Guardian em 2007, "Ernesto era como um Cristo, com olhos fortes, barba e cabelos compridos. Era muito milagroso". 
Segundo Jon Lee Anderson, autor de Che Guevara: Uma Vida Revolucionária, a semelhança entre Guevara e Jesus foi reafirmada por muitas mulheres de Vallegrande, levando-as a arrancar sorrateiramente cachos de seus longos cabelos e mantê-los em casa para dar boa sorte.
Lavanderia do hospital de Vallegrande, onde o corpo de Guevara foi exibido. Hoje, é local de peregrinação / Crédito: Shutterstock
"É como se o morto Guevara olhasse para seus assassinos e perdoasse a eles e ao mundo, proclamando que quem morre por uma ideia está além do sofrimento", afirmou  Jorge G. Castañeda, autor de Compañero: A vida e a morte de Che Guevara, sobre o cadáver do guerrilheiro.
Manifestações locais
Nos anos noventa, quando repórteres retornaram à Bolívia para registrar o trigésimo aniversário da morte de Che, a canonização do guerrilheiro por camponeses locais começou a ser observada. Chamado de San Ernesto de La Higuera, o líder era visto como um amigo e cultuado como a Virgem Maria.
No 40º aniversário de sua morte, em 2007, fotografias de Che eram vistas ao lado de imagens de Jesus, da Virgem Maria e do papa João Paulo II. Histórias milagrosas se multiplicavam, e alguns camponeses acreditavam que, caso sussurrassem o nome de Che Guevara para o céu ou acendessem uma vela em sua homenagem, poderiam encontrar algum animal perdido.
Memorial de Guevara em La Higuera / Crédito: Wikimedia Commons
“Temos fé, confiança em Che. Quando vou para a cama e acordo, oro primeiro a Deus e depois oro a Che - e então está tudo bem”, afirmou na época o morador Freddy Vallejos. “A presença de Che aqui é uma força positiva. Sinto isso na minha pele, tenho fé de que sempre, em todos os momentos, ele está de olho em nós”.
O hospital onde o cadáver do guerrilheiro foi exibido se tornou local de peregrinação, com mensagens de devoção esculpidas nas paredes e visitantes sempre admirados. E a cidade de Vallegrande permanece com devotos fiéis à imagem de Guevara.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Julho de 1953: começa a Revolução Cubana.

JULHO DE 1953: COMEÇA A REVOLUÇÃO CUBANA

De Fidel Castro a Che Guevara. Entenda porque o dia 26 de Julho tornou-se a data essencial para o episódio
REDAÇÃO PUBLICADO EM 26/07/2019
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- Crédito: Reprodução
Fidel Castro foi preso em Cuba após uma tentativa de assalto a um quartel-general realizado por um grupo de nacionalistas comandado por ele, no dia 26 de julho de 1953.
Esse evento tem ligação direta com a formação nacional de Cuba, que passou por um processo de independência consideravelmente diferente do restante do continente americano. Além de tardia, Cuba não atingiu sua autonomia com uma disputa independente contra a Espanha. A quebra dos laços coloniais que possuía com o império europeu foi decorrente de uma guerra estabelecida entre os EUA e a Espanha.
Cuba, ex-colônia de exportação de açúcar e agora protetorado subserviente, passou a primeira metade do século 20 com índices extremos de pobreza, insalubridade e inacessibilidade do povo cubano de serviços básicos, enquanto os invasores dos EUA ostentavam gloriosas riquezas e hábitos soberbos no território insular. O governo de Cuba era facilmente manipulado pelos estadunidenses em favor de interesses dos EUA, que financiaram a ditadura de Batista em defesa de seus interesses.
Quartel de Moncada repleto de tiros / Crédito: Wikimedia Commons
Durante Assalto de 1953, 165 homens comandados por Castro entraram no Quartel-General de Moncada na tentativa de tomar o armamento para a população e iniciar uma revolução com o objetivo de derrubar Batista. O levante, no entanto, resultou em derrota e a maioria dos envolvidos morreram. Fidel, por outro lado, foi condenado à 15 anos de prisão.
O evento marca a história do processo revolucionário. Isso porque Fidel fundaria o movimento revolucionário M-26-7, como referência à revolta. Além disso, o tipo de demanda dos revolucionários de 1959 já estava presente em 53: o nacionalismo acentuado e militarista, o desejo pela democracia direta e o forte sentimento contra os EUA. 
Em 1955, Fidel foi anistiado, mas, pouco tempo depois, devida uma ação do M-26-7 em um ato em oposição ao regime de Fulgencio Batista, o jovem estudante de direito tornou-se criminoso novamente e buscou exílio no México.
Na Cidade do México, Ao se reunir com o irmão, Raúl Castro, Camilo Cienfuegos e Che Guevara elaboraram o plano de invadir a ilha pelo Sul e subir em direção a Havana pelo método de guerrilha.