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terça-feira, 4 de maio de 2021

O destino do cadáver de Anastásia Romanov.

MISTÉRIO SOLUCIONADO: O DESTINO DO CADÁVER DE ANASTASIA ROMANOV

Ao longo das décadas, surgiram teorias de que a grã-duquesa teria sobrevivido ao massacre da família imperial russa — mas em 2008 a história chegou ao fim

PAOLA CHURCHILL ATUALIZADO EM 04/05/2021

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Boissonnas et Eggler / Wikimedia Commons

Na fatídica madrugada do dia 17 de julho de 1918, a família imperial russa foi surpreendida por soldados bolcheviques. Na ocasião, os Romanovs foram acordados de forma abrupta e inesperada.

Na ocasião, os membros da dinastia russa foram levados aos gritos para o porão da casa que estavam na cidade de Yekaterimburgo. A mando do comandante Yakov Yurovsky, o Czar Nicolau II, sua esposa, filhos e funcionários foram brutalmente assassinados pelas tropas bolcheviques. 

Ao longo dos anos, diversas teorias conspiratórias surgiram em torno da morte da família Romanov, entre elas de que uma das filhas do czar, Anastasia, de 17 anos, teria conseguido sobreviver ao brutal ataque.

A princesa

Lendas, filmes e animações foram feitos contando a história da jovem que poderia ter sobrevivido à chacina. Todos ficavam fascinados pela história da suposta princesa que se livrou da execução. 

Anastasia Romanov na Finlândia, por volta de 1908 / Crédito: Dominío Público

 

A teoria começou a circular quando guardas que confirmaram o massacre disseram que as filhas do casal não morreram com os tiros: as balas ricochetearam e foi necessário usar baionetas para conseguir exterminá-las. Outra informação que sustentou a teoria foi o fato de que, no local de desova dos restos de seus familiares, faltava o corpo de Alexei e de mais uma menina. 

A sósia 

Em 1920, uma jovem pulou de uma ponte em Berlim. No entanto, tentativa de suicídio foi em vão e ela conseguiu ser resgatada. Sua origem era incerta e ela nunca falava sobre seu passado. A única coisa que sabiam sobre ela e que ela era russa, por causa do seu forte sotaque. 

Após algum tempo, a mulher, que ficou conhecida como Anna Anderson, afirmou que na verdade era a Romanov perdida, causando uma verdadeira polêmica na época.

Anna afirmava que viu toda sua família sendo morta e sabia que o fim estava próximo, mas, parecia que o destino sorriu para ela quando um soldado teve piedade de sua alma e a ajudou a fugir. 

A família Romanov em imagem colorizada / Crédito: Divulgação / Klimbim

 

A suposta herdeira então começou a ter sua história contada e conseguiu enganar diversas pessoas com sua mirabolante narrativa. Muitos passaram a duvidar se a história era verdadeira. Em entrevista dada no ano de 1970, ela afirmou: “Você pode realmente provar para mim quem você é? Você pode acreditar ou não acreditar. Não importa”.

Quando morreu, em 1984, exames de DNA foram feitos e mostraram que a Anna não tinha nenhum parentesco com os Romanov, mas provavelmente uma operária polonesa chamada Franziska Schanzkowski.

Foi só em 2008, que o mistério de Anastasia chegou ao fim. Cientistas russos desenterraram a ossada de um jovem e uma menina na cidade de Yekaterimburgo.  Após análises de DNA, confirmaram que aqueles eram os restos de Alexei e da grã-duquesa, Anastasia

fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/anastasia-romanov-o-cadaver-que-iniciou-um-misterio

quinta-feira, 2 de abril de 2020

A curiosa ligação entre os Romanov e a Família Real Britânica.

SANGUE REAL: A CURISOSA LIGAÇÃO ENTRE OS ROMANOV E A FAMÍLIA REAL BRITÂNICA

Apesar da relação entre as duas monarquias parecer remota, podemos até dizer que as duas famílias reais são parentes distantes
FABIO PREVIDELLI PUBLICADO EM 01/04/2020
Família real britânica e os Romanov
Família real britânica e os Romanov - Creative Commons
Apesar de não parecer, os Romanov e família real britânica possuem mais ligações do que muitos imaginam. Podemos até dizer que as duas famílias reais são parentes distantes. Essa ligação entre os dois grupos resultou em diversas trocas de obras de arte nos anos de 1600.
Parte dessa história foi contada na exposição Rússia, Realeza e Romanovs, que aconteceu na Galeria da Rainha no Palácio de Buckingham. A coleção de quase 300 peças, que apresentava desde ovos Fabergé e joias até pinturas e cartas, explorava as interconexões entre a dinastia Romanov e a família real britânica, como o quadro que o imperador russo Nicolau I deu à rainha Vitória.
Foto da exposição 'Russia: Royalyy & The Romanovs' / Crédito: Getty Images

Assim, cada objeto em exposição possuía uma história interessante para ser contada, como o retrato de Pedro, o Grande, que foi dado de presente a Guilherme III durante a secreta viagem do czar em 1698 à Inglaterra.
"É a primeira vez que um governante russo sai do solo russo", explicou a co-curadora Caroline de Guitaut. "Ele quer descobrir o resto do mundo, ele quer saber como eles constroem navios, ele quer fazer da Rússia um lugar iluminado”.
De certa forma, Pedro I conseguiu “ocidentalizar” seu país. Com o tempo, a produção cultural das duas monarquias passou a ser semelhante. "Eles estavam usando os mesmos artistas; artistas britânicos indo para a Rússia, artistas russos vindo para cá", explicou Guitaut.
 A relação entre os Romanov e a monarquia britânica não parou no tempo e transcendeu gerações. O marido da rainha Elizabeth, príncipe Philip, é parente dos Romanov através de sua mãe e seu pai.
Foto da exposição 'Russia: Royalyy & The Romanovs' / Crédito: Getty Images

Por meio de seu pai, o príncipe Andrew da Grécia e da Dinamarca, Philip é sobrinho-neto de Alexandra Romanov, esposa de Nicolau II e a última czarina da Rússia. Através de sua mãe, a princesa Alice de Battenberg, Philip também é primo da família real russa. Os filhos e netos de Philip, incluindo William e Harry, também estão relacionados com os Romanov.
Inclusive, quando os restos mortais de duas crianças — que se pensava ser Maria e Alexei Romanov — foram encontrados em um campo em 2007, o DNA de Philip foi usado para identificá-los.
Outro elo curioso é da rainha Elizabeth II da Inglaterra, que é neta de George V. Já a mãe de George, Alexandra da Dinamarca, era irmã de Maria Feodorovna da Rússia, que era mãe de Nicolau II. Com isso, podemos atestar que George V e Nicolau II eram primos de primeiro grau, o que confirma ainda mais a ligação parental que as famílias tinham.

domingo, 29 de março de 2020

Mathilde Kschessinska, amante de Nicolau II, que namorou 2 Romanovs ao mesmo tempo.

MATHILDE KSCHESSINSKA, A AMANTE DE NICOLAU II QUE NAMOROU DOIS ROMANOVS AO MESMO TEMPO

A bailarina chegou a ter um filho em decorrência dos encontros sexuais com os grão-duques, mas nunca soube ao certo quem era o pai
WALLACY FERRARI PUBLICADO EM 29/03/2020
Nicolau II e Mathilde em montagem
Nicolau II e Mathilde em montagem - Wikimedia Commons
Nascida em 31 de agosto de 1972, na Polônia, Mathilda-Marie Feliksovna Kschessinskaya foi uma bailarina da família Krzesinsky, nobre pela sua arte e atuação na alta sociedade. Seu pai Feliks Krzesiński e seu irmão já dançavam em São Petersburgo e a jovem teve oportunidade de desenvolver seus dotes com maestria pelos parentes.
Durante sua adolescência começou a ter notoriedade por movimentos meticulosos e ensaios diários para alcançar a perfeição na execução dos passos. Sua grande oportunidade foi aos 18 anos, quando foi recrutada pelo renomado coletivo de dança Imperial Ballet.
Com o grupo, Mathilde teve a chance de se mostrar para diversas pessoas importantes, como chefes de estado e empresários, mas, em 1890, no Teatro Imperial Mariinsky, teve a oportunidade de ouro. Com a presença do imperador Alexandre III, fez uma apresentação de formatura.
O czar Nicolau II em retrato / Crédito: Klimbim

Após o espetáculo, foi ao jantar de gala oferecido após a performance. Lá, conheceu toda a família Imperial e trocou olhares com uma pessoa em específico: o herdeiro do trono Nicolau II, que, na época com 22 anos, se encantou com a jovem. Ficou então, sobre a responsabilidade de seu pai, dar um empurrãozinho ao casal.
O próprio imperador apresentou Mathilde ao filho, que manifestou encanto pela graduanda da escola de coreografia. Nicolau nunca havia se relacionado amorosamente e foi correspondido pela bailarina, chegando a relatar sua paixão em um diário: “Mathilde me envolve em uma luz positiva”.
A jovem já havia se relacionado anteriormente, mas não foi um empecilho para se aproximar do rapaz, chegando a relatar o envolvimento de ambos: “O sentimento preencheu minha alma por completo, eu só conseguia pensar nele”, disse a dançarina em sua biografia.
Em um relacionamento de quatro anos, Nicolau e Mathilde se encontravam de maneira discreta na residência do Império, porém, para um maior conforto, o filho do rei chegou a comprar uma mansão em São Petersburgo, onde o casal não teria problemas teria mais privacidade.
Ao desenrolar da relação, a balilarina descobriu que, apesar de ter conhecido Nicolau primeiro, seria amante do mesmo, visto que assumiu publicamente o noivado com Alice de Hesse e Reno, em 1894. Com o relacionamento em desordem e com o casamento chegando, não foi possível manter os encontros.
Depois de se separarem, Nicolau II se tornou o czar da Rússia, enquanto Mathilde se tornou uma das bailarinas mais famosas do continente, enriquecendo com suas apresentações e presença na elite. Com o dinheiro, se tornou uma socialite de sucesso com diversos imóveis e investimentos. O discurso de Lenin feito após voltar da Suíça, em 1917, foi realizado na varanda de uma das mansões da dançarina.
Sergei Mikhailovich (à esq.) em montagem com Andrei Vladimirovich (à dir.) / Crédito: Wikimedia Commons

Solteira, chegou a ter envolvimento sexual com dois grão-duques da família Romanov ao mesmo tempo, sem a ciência de ambos. Sergei Mikhailovich, inspetor-geral de artilharia durante a Primeira Guerra Mundial, e seu primo Andrei Vladimirovich, que também era primo de Nicolau II.
As relações lhe renderam um filho, nascido em 1902. Vladmir, mais tarde intitulado HSH Prince Romanovsky-Krasinsky, nunca soube ao certo quem era seu pai e nunca foi informado pela mãe, que morreu aos 99 anos, em 1971.

domingo, 15 de março de 2020

O fracasso dos Romanov: em 1917, Nicolau II era obrigado a abdicar do trono russo.

O FRACASSO DOS ROMANOV: HÁ 103 ANOS, NICOLAU II ERA OBRIGADO A ABDICAR DO TRONO RUSSO

Com o país em miséria, a população foi para as ruas protestar contra a família imperial e pedir pela queda do czarismo
DANIELA BAZI PUBLICADO EM 15/03/2020
Nicolau II, o último czar da Rússia
Nicolau II, o último czar da Rússia - Divulgação/Klimbim
Há 103 anos, a Rússia se encontrava próxima a um grande colapso. A população estava pobre e com escassez de alimentos desde 1915, período em que o czar Nicolau II estava longe do país devido a Primeira Guerra Mundial. Com a ida de 15 milhões de fazendeiros para a batalha, os preços da comida aumentaram em quatro vezes, comparando com 1914.
Segundo o historiador Daniel Aarão Reis Filho no livro A Revolução Russa: 1917-1921, “começaram a faltar gêneros essenciais e a indústria, concentrada em atender às necessidades do Exército, não produzia bens de consumo corrente”. 
A entrada do país no grande conflito foi uma ideia falha do soberano que tinha como intuito despertar um sentimento de nacionalismo na população, em que eles voltariam a apoiar o czarismo e a defender a pátria. Contudo, sua intenção resultou em algo completamente contrário do que imaginava.
Manifestação em 1917 / Crédito: Wikimedia Commons

O inverno era o pior que a Rússia havia enfrentado em toda sua história, com os termômetros atingindo os 25 graus negativos. As nevascas também passaram a causar grandes problemas nas locomotivas que transportavam os mantimentos que supririam as necessidades de um povo em miséria.
De 20 mil trens, apenas 9 mil continuaram em serviço no ano de 1917. Entre os vagões, o número diminuiu de 500 mil para 170 mil. Os abastecimentos de combustível e farinha na cidade de Petrogrado simplesmente sumiram. Fábricas fecharam e inúmeros trabalhadores perderam seus empregos.
A trágica situação em que os russos se encontravam ocasionou em uma grande revolta no dia 23 de fevereiro de 1917 em Petrogrado, onde as pessoas foram para as ruas protestar contra a família imperial. Durante o ato, muitos passaram a quebrar janelas de lojas para conseguir comida e outros mantimentos básicos.
Para conter os revoltosos, a polícia começou a atirar em todos os que depredavam as propriedades e incitavam os tumultos. Com a situação saindo do controle, o gabinete de czar pediu seu retorno imediato para oferecer sua abdicação ao trono russo.
Reprodução do Domingo Sangrento / Crédito: Getty Images

Em 15 de março de 1917, sem outra solução possível, Nicolau II assinou os papeis que oficializavam sua abdicação ao trono russo. Automaticamente, o Governo Provisório foi criado, contendo membros do Parlamento Russo, a Duma, com o príncipe Georgy Lvov assumindo o cargo de primeiro-ministro. Entretanto, ele acabou deixando a posição em 20 de julho do mesmo ano.
O czar e sua família foram colocados em prisão domiciliar pelo próprio governo, sendo vigiados 24 horas por guardas espalhados por toda a casa. Um ano após sua queda, em 17 de julho de 1918, Nicolau e sua família foram fuzilados em Ecatemburgo, por tropas bolcheviques, ordenadas pelo Soviete Regional Ural, e lideradas por Yakov Yurovsky.

sábado, 7 de março de 2020

Incompetência, traição e bruxaria: 5 polêmicas que abalaram a corte de Nicolau II.

INCOMPETÊNCIA, TRAIÇÃO E BRUXARIA: 5 POLÊMICAS QUE ABALARAM A CORTE DE NICOLAU II

Como último czar do Império Russo, o descendente dos imponentes Romanov ficou conhecido na história como um mandante alienado e despreparado
PAMELA MALVA PUBLICADO EM 07/03/2020
Foto do último czar russo, Nicolau II
Foto do último czar russo, Nicolau II - Divulgação/Klimblim
Nicolau II assumiu o posto de último czar do Império Russo quando tinha apenas 26 anos. De Alexander III, ele recebeu uma verdadeira potência: o país estava em seu auge político e econômico, com uma boa relação internacional.
Mesmo que tudo estivesse no caminho para dar certo, o novo governante revelou-se um terrível gestor. Em pouco tempo, com Nicolau II no poder, a Rússia testemunhou a queda do Império e o colapso do estado soviético.
Confira 5 polêmicas que abalaram o governo de Nicolau II.
1. Domingo Sangrento.
Reprodução do Domingo Sangrento / Crédito: Getty Images

Nicolau II subiu ao trono pela primeira vez em 1894 e, assim, teve de lidar com o clima revolucionário instaurado na Rússia em 1905. O império estava em guerra contra o Japão e, insatisfeito com o conflito, o povo decidiu por uma greve geral.
O governo começava a se fragmentar e Nicolau não viu outra saída que não fosse a repressão dos movimentos populares. Assim se deu um dos episódios mais sombrios do governo: o Domingo Sangrento, um massacre público contra os manifestantes em São Petesburgo.

2. Criação da DUMA.
Salão da DUMA / Crédito: Wikimedia Commons

O autoritarismo do czar acabou com sua figura benevolente e, com isso, ele precisava de uma medida de contenção, que satisfizesse a população. Assim, em outubro de 1905, Nicolau II assinou o Manifesto de Outubro.
Entre as muitas medidas garantidas pelo documento estava a criação da DUMA, uma assembleia legislativa. Instaurada quase no final do Império Russo, a DUMA se tornou a Casa Menor do parlamento e foi convocada quatro vezes.

3. Um bruxo na corte.
O famosos Rasputin / Crédito: Wikimedia Commons

Logo que assumiu o posto de czar, Nicolau II casou-se com Alexandra, em abril de 1894. Uma vez na corte, a dama contava com os conselhos de Grigori Rasputin. Astuto e convincente, o homem dizia ser um bruxo, um profeta, e acabava por influenciar até a mais simples decisão da Imperatriz Consorte.
O motivo dessa crença cega no homem barbudo, para a esposa de Nicolau II, era simples: ele prometia poder curar o príncipe Alexei, que sofria de hemofilia. E, quando Nicolau II deixou seu império nas mãos da czarina para lutar na Primeira Guerra Mundial, a dama acabou entregando todo o país ao oportunista Rasputin, que chegou a nomear até ministros de Estado.
Em pouco tempo, a Rússia caiu no caos e a corrupção se alastrou. Rasputin foi enviado de volta à sua vila natal, mas ganhou seu lugar de volta quando Alexei adoeceu e Alexandra enviou uma carta para o bruxo. Ele respondeu e, dois dias depois, o menino se curou.

4. Trincheiras russas.
Tropas russas em trincheiras durante a Primeira Guerra / Crédito: Wikimedia Commons

Uma vez reconhecida como uma potência mundial, a Rússia foi pega de surpresa pela eclosão da Primeira Guerra Mundial. O Império, por maior que fosse, não estava preparado para o conflito, mesmo que os aliados confiassem no exército soviético.
Nicolau II não tinha recursos bélicos para lutar na guerra, muito menos treinamento. Mesmo assim, em 1915, o czar decidiu assumir o comando do Exército Russo — por influência de Alexandra e, por consequência, de Rasputin.
Estrategicamente, era uma péssima ideia. O jovem czar não tinha a menor competência para guiar tropas e as trincheiras começaram a sofrer com a falta de conhecimento do comandante. O desempenho russo, inclusive, gerou um mal-estar entre o Império e os aliados no conflito.

5. Suposta traição.
Rasputin e Alexandra em série da Netflix / Crédito: Divulgação/Netflix

A relação de proximidade e influência entre Alexandra e Rasputin, para muitos, pode ser interpretada como um relacionamento amoroso. É claro que seria fácil imaginar um suposto caso entre os dois, já que o profeta era promíscuo e a imperatriz, fascinada por ele.
Para muitos historiadores, entretanto, a ligação intensa entre Rasputin e Alexandra se deu pelo amor que a czarina tinha por seu filho, cuja vida o conselheiro prometia salvar. Segundo Douglas Smith, historiador e autor da biografia Rasputin: fé, poder e o declínio dos Romanov, “não há nenhuma maneira, e nenhuma prova, de que Alexandra teria procurado Rasputin por sexo”.

domingo, 13 de outubro de 2019

Em cores: o último grande baile dos Romanov.

EM CORES: O ÚLTIMO GRANDE BAILE DOS ROMANOV

Enquanto os aristocratas dançavam, as tensões sociais continuavam crescendo ao longo do território russo. Confira as imagens colorizadas!
REDAÇÃO PUBLICADO EM 13/10/2019
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- Crédito: Klimbim
Em 1903, o Tsar Nicolau II organizou um baile para comemorar os 290 anos de sua dinastia, os Romanov. Como uma das famílias mais antigas e poderosas da Europa, os Romanov lideraram o Império Russo por séculos. A opulência do baile no Palácio de Inverno, em São Petersburgo, fez jus a família que, na época, melhor representava o minguante absolutismo europeu.
O baile foi um festival extremamente luxuoso e saudosista, com muitos aristocratas — inclusive o próprio Czar e a Czarina — utilizando roupas que remontavam aos séculos anteriores, quando as monarquias ainda eram de fato absolutas por todo o continente.
A festa contou com quase 400 membros da aristocracia russa cravejados de joias. O traje de Nicolau e da Czarina Alexandra eram inspirados nos de Alexey Mikhailovic, imperador russo do século 17, e sua esposa. O vestido da imperatriz, com decorações em diamante e esmeralda (inclusive com uma enorme pedra verde no peito), valeria, nos valores atuais, cerca de 10 milhões de euros.
Enquanto os aristocratas dançavam, as tensões sociais continuavam crescendo ao longo do território russo. O cunhado do Czar, Grão-Duque Alexander Mikhailovic, depois recordou: “enquanto dançávamos, trabalhadores faziam greve em São Petersburgo e uma grande nuvem se formava sobre o extremo oriente russo”. Mikhailovic conseguiu escapar da Revolução Bolchevique de 1917, mas o Czar e sua família não tiveram a mesma sorte, sendo assassinados pelos revolucionários em 1918.
Confira algumas fotos do baile coloridas artificialmente pela artista russa Olga Shirnina.
O Tsar Nicolau II / Crédito: Klimbim

Tsarina Alexandra Feodorovna / Crédito: Klimbim

Cornette Kolioubakine / Crédito: Klimbim

Baronesa Emma Fredericksz / Crédito: Klimbim

Zinaida Yusupov / Crédito: Klimbim

Madame Tatischeva / Crédito: Klimbim

Princesa Olga Orlova / Crédito: Klimbim
Saiba mais com a obra Os Románov, de Simon Sebag Montefiore (2018).

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Envenenamento, tiros e "ressurreição": a polêmica morte de Rasputin.

ENVENENAMENTO, TIROS E "RESSURREIÇÃO": A POLÊMICA MORTE DE RASPUTIN

O bruxo de Alexandra, a esposa do último czar do país, despertou o ódio da sociedade teve uma morte, no minimo, bizarra
SIMONE BITAR PUBLICADO EM 19/09/2019
Grigori Rasputin
Grigori Rasputin - Reprodução
No dia 16 de dezembro de 1916 o príncipe Félix Yusupov convidou Rasputin para uma noitada em seu palácio, às margens do canal Moika, em São Petersburgo. Ele parece ter insinuado que, naquela noite, Rasputin poderia desfrutar de sua esposa, a princesa Irina Alexandrovna. O libertino não deixaria passar em branco essa oportunidade, já que Irina era irmã de Nicolau II. Mesmo sabendo que vivia sob ameaça, o bruxo aceitou o convite. Era uma cilada.
A trama para assassinar Rasputin foi descrita por Yusupov no seu diário pessoal, em que ele declara ter sido o único mentor do atentado. O objetivo seria salvar a honra da monarquia russa. O príncipe cita outros personagens. Um deles é o grão-duque Dimitri Pavlovich, primo de Nicolau II . Outro é o deputado Vladimir Purishkevich, membro do Duma, a câmara baixa do Parlamento russo e feroz crítico de Rasputin.
Félix Yusupov e a princesa Irina Alexandrovna / Crédito: Reprodução

O diário de Yusupov conta que Rasputin chegou ao palácio no início da madrugada. Lá, foi acomodado na sala de jantar — arrumada para dar a impressão de que uma multidão tinha acabado de cear. No andar de cima, os conspiradores ouviam música alta, fingindo ser convidados que ainda não haviam ido embora. Rasputin foi informado de que deveria esperar a princesa Irina despachar os visitantes. O plano era que o bruxo morresse ao ingerir vinho e pedaços de bolo envenenados com cianeto.
Rasputin relutou, mas aceitou comer e beber. Yusupov ficou na sala, esperando em vão que o veneno fizesse efeito. Já passava das 2h30 quando o convidado, aparentemente imune ao cianeto, começou a se irritar com a demora. O príncipe subiu ao segundo andar, sob o pretexto de apressar Irina. Foi quando os seus comparsas o convenceram a atirar em Rasputin com a pistola de Pavlovich.
Yusupov desceu as escadas e disparou contra o curandeiro, que caiu no chão. Todos desceram, examinaram o corpo e voltaram ao segundo andar para festejar o sucesso do atentado. Yusupov continuava tenso, imaginando que, graças a poderes sobrenaturais, a vítima ainda estivesse viva. Perto de 3h30, o príncipe voltou à sala de jantar. O, até então inerte, Rasputin subitamente se levantou e atacou o desesperado Yusupov, que clamou por ajuda. O místico ainda teve forças para fugir pelo pátio, onde foi alvejado novamente. O tiro de misericórdia teria sido disparado por Purishkevich.
Um quadro representando Felix Yusupov com Grigori Rasputin no período que antecedeu o assassinato de Rasputin / Crédito: Reprodução

O cadáver foi enrolado num tapete e atirado nas águas do rio Neva. Em depoimentos dados em 1934 e 1965, Félix Yusupov repetiu exatamente essa história. Mas os detalhes não batem com as versões dos outros envolvidos.
Depois do fim da União Soviética, documentos da época foram analisados com novas técnicas forenses. Descobriu-se que os três tiros encontrados no cadáver vieram de armas diferentes. A primeira, de Pavlovich. A segunda, de Purishkevich. Já o tiro fatal, dado no centro da testa com destreza profissional, saiu de uma Webley .455, pistola usada por oficiais ingleses. “Acho completamente possível que os britânicos estivessem envolvidos no assassinato de Rasputin, trabalhando para manter a Rússia na guerra”, diz o professor Saunders.
Segundo um documentário de 2004, produzido pela emissora inglesa BBC, relatórios do antigo serviço secreto inglês se referem à data do crime como o “extermínio das forças ocultas na Rússia”. O agente Oswald Rayner (que estudou com o príncipe Yusupov em Oxford) teria sido destacado para acompanhar a conspiração e assegurar que Rasputin fosse mesmo assassinado.
Ao saber do crime, a czarina Alexandra exigiu uma investigação minuciosa. A polícia encontrou provas por todos os cantos, incriminando Yusupov e Pavlovich. Ambos foram expulsos do país por Nicolau II, que, com esse ato, acabou salvando a vida deles. O assassinato de Rasputin foi usado por grupos revolucionários como mais um pretexto para incitar levantes populares.
Três meses depois do crime, o czar seria derrubado. Em outubro de 1917, o poder chegaria às mãos dos bolcheviques liderados por Vladimir Lênin. No novo regime, praticamente toda a nobreza russa, incluindo Alexei, Alexandra e Nicolau II, seria executada. Já Rasputin seria transformado pelos comunistas em ícone dos desmandos da monarquia. Até hoje seu nome ainda é sinônimo de devassidão, manipulação e charlatanice.
Corpo de Rasputin / Crédito: Reprodução

No início do século 20, muitos nobres europeus sofriam de hemofilia – traço comum aos descendentes da rainha inglesa Vitória, como Alexei. A doença (que impede a coagulação do sangue) já era conhecida, mas não havia tratamentos eficazes. Por isso, a czarina Alexandra recorreu a místicos para cuidar do filho. Porém, é possível que Alexei não fosse hemofílico. Essa é a hipótese do escritor Robert Massie em The Romanovs: The Final Chapter (“Os Romanov: o capítulo final”, livro inédito no Brasil). Os diários da czarina e dos médicos falam de sintomas que poderiam ser de crises aplásticas, descritas apenas em 1947. Em geral, elas se manifestam até a metade da adolescência, causando hemorragias internas por cerca de dez dias até que o sangue volte ao normal. Massie diz que Rasputin, devido a sua prática de curandeiro, já conhecia a doença e sabia que as crises de Alexei não seriam fatais.

Saiba mais
To Kill Rasputin: The Life and Death of Gregori Rasputin, Andrew Cook, Tempus Publishing, 2006 

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Os últimos dias das irmãs Romanov.

OS ÚLTIMOS DIAS DAS IRMÃS ROMANOV

Conheça o melancólico caminho das filhas da realeza até a execução
HELEN RAPPAPORT PUBLICADO EM 17/07/2019
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- Crédito: Klimbim
Nicolau II foi o último tsar da Rússia, deposto na Revolução de 1917. Conhecido pelo epíteto O Sanguinário, em seu governo ocorreu a tragédia de Khodynka, em que mais de mil súditos morreram num incidente à época de sua coroação, e o Domingo Sangrento, no qual trabalhadores em uma manifestação pacífica foram baleados e mortos pela guarda oficial.
Ao deixar o governo, Nicolau ficou em prisão domiciliar no Palácio Imperial de Alexandre, a residência escolhida pela família, distante 25 quilômetros de São Petersburgo. Logo depois teve que abandonar com a esposa, Aleksandra, e os cinco filhos o lar cujos muros protegeram-nos durante a Revolução. 
O destino para onde iriam era incerto e sombrio. A família era levada de um lugar para outro – humilhados, com uns poucos criados que lhes puderam acompanhar. Em alguns momentos foram obrigados a se separar, desolados. Em outros, o reencontro os enchia de esperanças e acalmava os corações.
O texto que você vai ler a seguir é um trecho do livro As Irmãs Romanov, da inglesa Helen Rappaport. Na obra, a autora conta com detalhes a vida de cada uma das quatro filhas do tsar, Olga, Tatiana, Maria e Anastácia, do nascimento, da vida feliz e abastada de filhas de imperador, aos derradeiros momentos que viveram, com os pais e o irmão hemofílico, Alexei, antes do cruel assassinato coletivo nos porões do palácio de Ecaterimburgo. 
As filhas do tsar
No dia 17 de maio, o bando mais intimidador até então de Guardas Vermelhos chegou à Casa do Governador, dessa vez de Ekaterinburg, liderado por um homem chamado Rodiónov. Eram “os facínoras mais assustadores, sujos, esfarrapados, bêbados” que Gleb Bótkin já vira. Rodiónov era na verdade um letão chamado Ian Svikke e ninguém gostou dele desde o início.
Kobilínski o achava cruel, “um valentão barato”. Frio e desconfiado por natureza, Rodiónov vivia à procura de conspirações: ele ordenou uma humilhante chamada diária e as meninas tinham de lhe pedir permissão para descer e sair no pátio. Tinham ordens de manter a porta do quarto aberta à noite, e, quando o padre e as freiras chegaram no dia 18 de maio para conduzir as vésperas, Rodiónov os revistou e postou uma sentinela ao lado do altar para observá-los durante a cerimônia.
Kobilínski ficou chocado: “Isso oprimiu tanto todo mundo, teve tal efeito neles, que Olga Nikoláevna chorou e disse que, se soubesse que isso aconteceria, nunca teria pedido a cerimônia”. Alexei continuava extremamente frágil e mal conseguia sentar por mais do que uma hora seguida. Não obstante, três dias depois de chegar, Rodiónov decidiu que o menino estava bem o bastante para viajar. Por vários dias então a criadagem fizera os preparativos para a partida deles. “Os quartos estão vazios, pouco a pouco todas as malas foram feitas. As paredes parecem vazias sem os retratos”, escreveu Alexei para sua mãe.
Qualquer coisa que não fosse junto teria de ser “descartada” na cidade – se não tivesse sido pilhada pelos guardas antes. A maior parte da comitiva se preparou para partir com as crianças. A filha do dr. Bótkin, Tatiana, pediu que ela e o irmão recebessem permissão de ir com as irmãs, mas isso lhes foi negado. “Por que uma garota bonita como você ia querer apodrecer a vida toda na prisão, ou mesmo ser fuzilada?”, escarneceu Rodiónov. “Com toda a probabilidade serão fuzilados".
Ele foi igualmente insensível quando contou a Aleksandra Tégleva sobre o que o futuro reservava: “A vida por lá é bem diferente”. Um dia antes da partida das crianças, Gleb Bótkin foi à Casa do Governador para tentar vê-las uma última vez. Ele avistou Anastácia numa janela; ela acenou e sorriu, ao que Rodiónov veio correndo para lhe dizer que ninguém tinha permissão de olhar pelas janelas e que os guardas iriam atirar para matar se alguém tentasse fazê-lo.
O último dia
No último dia em Tobolsk, a família se reuniu para as refeições de despedida: borshch e tetraz com arroz no almoço e vitela com guarnição e macarrão para o jantar, acompanhadas pelas duas últimas garrafas de vinho que haviam conseguido esconder dos guardas. Às onze e meia da manhã seguinte, 20 de maio de 1918, as crianças foram levadas para o embarcadouro e mais uma vez subiram a bordo do Rus, onde, para sua grande alegria, foram recebidas por Iza Buxhoeveden.
Olga lhe disse que tinham “sorte por ainda estarem vivos e serem capazes de ver seus pais mais uma vez, fosse qual fosse seu futuro”. Mas Iza ficou chocada com a mudança nela, e em Alexei também – não vira de perto nenhum dos dois desde o último mês de agosto: “Ele estava terrivelmente magro e não podia andar, pois seu joelho enrijecera demais de tanto ficar deitado, com ele dobrado por tanto tempo. Estava muito pálido e seus grandes olhos negros pareciam ainda maiores no pequeno rosto estreito. Olga Nikoláevna também mudara muito. O suspense e a ansiedade pela ausência de seus pais transformaram a vivaz e adorável moça de 22 anos numa mulher de meia-idade debilitada e triste”.
As crianças pareceram achar que o fato de Iza poder se juntar a eles “pressagiava pequenas concessões posteriores” de seus captores bolcheviques. Mas esse estava longe de ser o caso. As constantes intimidação e humilhação prosseguiram na viagem fluvial de dois dias para Tiumén. Os guardas eram rudes e grosseiros e punham medo em todo mundo. O comportamento de Rodiónov era insensível; trancou Alexei e Nagórni na cabine deles à noite, a despeito de Nagórni protestar que o menino doente precisava ter acesso ao banheiro. Rodiónov insistia também em que as três irmãs e suas companhias femininas mantivessem a porta de suas cabines aberta o tempo todo. Nenhuma mulher se desvestia à noite, ao longo da qual tinham de suportar o barulho dos guardas desordeiros bebendo e fazendo comentários obscenos.
Ao chegarem a Tiumén, as crianças foram transferidas para um vagão sujo de terceira classe em um trem que aguardava nas proximidades, onde, para sua grande aflição, foram separadas de Gilliard, Gibbes, Buxhoeveden e os demais, que foram instalados em um vagão de carga com bancos toscos de madeira. Em algum momento após a meia-noite de 23 de maio, o trem finalmente parou em uma estação suburbana nos arrabaldes de Ekaterinburg.
Fazia frio e geava e foram deixados todos ali, tremendo, gelados até a medula, à espera do amanhecer. No fim, Rodiónov e alguns comissários vieram buscar as crianças. Mas nem Gibbes, nem Gilliard, tampouco Iza Buxhoeveden tiveram permissão de prosseguir. Tatíschev, Nástenka e Trina também foram barrados, assim como todos os demais criados, exceto Nagórni.
“Tatiana Nikoláevna tentou encarar a situação com leveza” quando Iza lhe deu um beijo de adeus. “De que adiantam todas essas despedidas?”, perguntou. “Estaremos todos gozando da companhia mútua dentro de meia hora!”, disse Tatiana, tranquilizadora. Mas, como Iza recordou mais tarde, um dos guardas se aproximou nesse exato instante e, com voz ominosa, disse: “Melhor dizer ‘Adeus’, cidadãs”, e “em seu rosto sinistro percebi que aquilo era uma verdadeira separação”.
Pierre Gilliard observou do trem quando as quatro crianças foram trazidas: “Nagórni, o marinheiro, passou por minha janela carregando o menino enfermo nos braços; atrás dele vieram as grã-duquesas, carregadas de valises e pequenos pertences pessoais”. Estavam cercados por uma escolta de comissários em jaquetas de couro e milicianos armados. Ele tentou desembarcar do trem para se despedir, mas “foi rudemente empurrado de volta ao vagão pela sentinela”.
Observou, desolado, Tatiana seguindo por último na fila sob a chuva gelada, carregando com dificuldade sua pesada mala e segurando seu cão, Ortipo, com o outro braço, enquanto seus sapatos afundavam na lama. Nagórni, que nesse ínterim erguera Alexei e o pusera num dos drójki puxados por cavalo, que aguardavam, virou para oferecer ajuda, mas os guardas o rechaçaram.
A chegada
Um engenheiro local de Ekaterinburg que estava na estação nessa manhã, tendo ouvido dizer que as crianças chegariam, ficara sob o aguaceiro na esperança de vê-las. De repente ele avistou as três jovens, vestidas em lindos conjuntos escuros com grandes botões de tecido:
“Elas caminhavam sem firmeza, ou, antes, sem equilíbrio. Concluí que isso se devia ao fato de estarem carregando uma mala muito pesada e também porque a superfície da estrada ficara enlameada. Eles sabiam que era o fim quando eu estava com eles com a chuva primaveril incessante. Ter de andar pela primeira vez em suas vidas com uma bagagem tão pesada estava além de sua força física".
"Elas passaram muito perto e muito devagar. Fiquei olhando para seus rostos vivos, jovens, expressivos, com certa indiscrição – e durante esses dois ou três minutos percebi algo que, até o dia da minha morte, jamais vou esquecer. Senti que meu olhar cruzou com o das três jovens desafortunadas por um momento e que, quando isso aconteceu, penetrei nas profundezas de suas almas martirizadas, por assim dizer, e fui subjugado pela pena em relação a elas – eu, um revolucionário inveterado. Sem que esperasse, percebi que nós, intelectuais russos, nós, que alegamos ser os precursores e a voz da consciência, éramos responsáveis pela ridícula falta de dignidade com a qual as grã-duquesas estavam sendo tratadas. Não temos o direito de esquecer, tampouco de nos perdoar por nossa passividade e pelo fracasso em fazer algo por elas”.
Quando as três jovens passaram por ele, o engenheiro ficou admirado: "como tudo estava pintado naqueles rostos jovens, nervosos: a alegria de ver seus pais outra vez, o orgulho de jovens oprimidas forçadas a ocultar seu sofrimento espiritual de estranhos hostis e, enfim, talvez, uma premonição da morte iminente. Olga, com seus olhos de gazela, lembrou-me alguma jovem triste em um romance de Turguéniev. Tatiana deixou-me com a impressão de uma altiva aristocrata com ar de orgulho, pelo modo como fitava as pessoas. Anastácia me pareceu uma criança assustada, aterrorizada, que podia, em diferentes circunstâncias, ser encantadora, despreocupada e afetuosa”.
Esse engenheiro permaneceu, para sempre depois disso, assombrado por esses rostos. Ele sentiu que as três jovens perceberam que o que estava estampado em seu rosto não era apenas a fria curiosidade e indiferença em relação a elas. Seus instintos humanos naturais fizeram com que quisesse estender a mão e expressar seu reconhecimento, mas, “para minha grande vergonha, refreei-me, por fraqueza de caráter, pensando em minha posição, em minha família”.
Da janela do trem Pierre Gilliard e Sydney Gibbes haviam esticado o pescoço para dar uma última olhada nas meninas ao entrarem nos droskies que as aguardavam. Foi a última vez que as viram aqueles que haviam amado, servido e morado com as quatro irmãs Romanov desde a infância delas.

Este texto foi extraído do capítulo 21 do livro:  
As Irmãs Romanov – A Vida das Filhas do Último TsarHelen Rappaport, 2016

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Em 1918, os Romanov eram fuzilados na Rússia.

HÁ 101 ANOS, OS ROMANOV ERAM FUZILADOS NA RÚSSIA

A tiros, baionetas e pauladas, os bolcheviques deram fim à aristocracia mais antiga da Europa
MARIO ALBERTO PEÇANHA PUBLICADO EM 17/07/2019

Retrato da família ainda no poder
Retrato da família ainda no poder - Crédito: Reprodução

Naquela noite fatídica de 17 de julho de 1918, a família real russa, os Romanov, já havia caído na mais absoluta desgraça. Desde maio estavam presos na Casa Ipatiev, em Yekaterimburgo. O local havia sido cercado por paliçadas altas e as janelas cobertas por jornais e nunca abertas, para que não fossem vistos. Eram vigiados o dia inteiro e tinham de tocar um sininho para avisar se fossem ao banheiro. Mais de uma vez, os guardas atiraram como aviso diante de desobediência.
Pouco depois da meia-noite, foram acordados pelos guardas, sob o pretexto de serem transferidos. Mas, no lugar da rua, foram levados para o porão, eles e os servos, 11 pessoas no total. Lá esperaram longos minutos até chegar o caminhão que levaria seus corpos, que manteve seu motor ligado para ocultar o ruído.
Yakov Yurovsky, chefe dos captores, leu então sua sentença: 
"Nikolai Alexandrovich, diante do fato que seus parentes continuam seu ataque contra a Rússia Soviética, o Comitê Executivo de Ural decidiu executá-lo" [aprovado e oficializado pelo Comitâ Central do Partido Comunista]
As últimas palavras do último czar foram um incrédulo "O quê?! O quê?!".

Quarto onde os Romanov foram executados, na Casa Ipatiev / Crédito: Reprodução

Imediatamente, o pelotão começou a atirar. Cada um tinha um nome de quem seria seu alvo, inclusive as crianças, mas a coisa logo descendeu ao caos porque a fumaça das armas tornou impossível ver qualquer coisa. A porta foi aberta e, quando a fumaça baixou, perceberam que os cinco filhos - a mais velha, Olga, de 22 anos, e o mais jovem, Alexei, de 13 - ainda estavam vivos. A ordem foi então matá-los com baionetas e o cabo dos fuzis. Quando isso não funcionou, mais tiros foram disparados.
As lendas
Essa é a história real. Mas os bolcheviques, por razões bem compreensíveis, evitaram que ela fosse conhecida do público. Inclusive espalharam boatos de que o resto da família real, tirando o czar, estava viva. De certa forma, deve-se a eles os rumores.
Anastásia, filha predileta do czar Nicolau, acabou se transformando em uma das lendas mais duradouras do século 20. Tudo porque as mulheres da família Romanov resistiram aos primeiros tiros disparados pelo pelotão de fuzilamento. Algum tempo depois da chacina, testemunhas afirmaram ter visto a menina pedindo ajuda nos vilarejos próximos a Yekaterimburgo. Um soldado da guarda Tcheca, comovido ao perceber que a princesinha tinha sobrevivido, teria ajudado Anastásia a fugir.

Maria, Olga, Anastásia e Tatiana, prisoneiras em 1917 / Crédito: Reprodução

Nas décadas seguintes, falsas Anastásias apareceram em toda a Europa e nos EUA, reivindicando a fabulosa fortuna que a família real mantinha em bancos suíços. O caso mais famoso é o de Anna Anderson. Em 1970, ela foi à Justiça alemã para tentar estabelecer-se como legítima herdeira dos Romanov. O processo arrastou-se por quase 15 anos, sem que ninguém chegasse a uma conclusão. Até que, em 1994, testes de DNA provaram que Anna não tinha qualquer parentesco com a realeza russa. Na verdade, ela era a polonesa Franziska Schanzkowska, uma operária nascida na cidade de Pomerânia em 1896 e desaparecida desde 1920.
O segredo
Durante o regime socialista na URSS, ninguém se atreveu a investigar a morte dos Romanov. Ou melhor, quase ninguém. Em 1979, dois curiosos historiadores-amadores russos – os amigos Alexander Avdonin e Gueli Riabov – encontraram sinais de uma cova suspeita nos arredores da Casa Ipatiev. Escavaram o local e retiraram de lá cinco ossadas que pareciam ser de integrantes da família real.
Temerosos de que a descoberta fizesse a ira do Estado soviético cair sobre suas cabeças, eles recolocaram os ossos no lugar. Com o fim da URSS, as ossadas foram novamente exumadas e submetidas a testes de DNA, que comprovaram: aqueles eram mesmo os restos mortais do czar Nicolau II, da imperatriz Alexandra e das filhas Olga, Tatiana e Anastásia.
No dia 17 de julho de 1998 – exatos 80 anos depois de terem sido executados –, os Romanov foram levados para a cidade de São Petersburgo e sepultados na cripta da Catedral de São Pedro e São Paulo. Dois anos mais tarde, seriam canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa.
Em julho de 2007, um grupo amador de estudiosos de história anunciou ter encontrado as duas ossadas que faltavam: a do garoto Alexei e a de sua irmã Marie. Arqueólogos russos confirmaram a veracidade da descoberta. 
Em 2000, começou a ser feita a Igreja de Todos os Santos, sobre o local original da Casa Ipatiev.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Há 122 anos nascia Tatiana Romanov, filha do último Czar da Rússia.

HÁ 122 ANOS NASCIA TATIANA ROMANOV, FILHA DO ÚLTIMO CZAR DA RÚSSIA

Filha do czar Nicolau II e da tsarina Alexandra, Tatiana era a segunda mais velha de cinco irmãos. Assim como a sua família, ela teve um final sangrento no porão de uma casa desolada
REDAÇÃO PUBLICADO EM 10/06/2019
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- Reprodução
No dia 10 de junho de 1897, em um dos palácios mais requintados do mundo, nascia Tatiana Romanov. Filha do czar Nicolau II e da tsarina Alexandra. Tatiana era a segunda mais velha dos cinco filhos do casal, moça elegante e gentil que encontrou seu final sangrento no porão de uma casa desolada na Sibéria.
Embora não seja tão lembrada como sua irmã caçula Anastasia, Tatiana Romanov era reconhecida como a mais régia de todas as filhas do czar. Mas seu ar majestoso e imperial, assim como a imponência de seus irmãos, pareciam não ter mais lugar na Rússia pré-revolução.
A Jovem Governanta
Quando Tatiana Romanov veio ao mundo, no Palácio de Peterhof, em São Petersburgo, a Rússia estava em seu limite. Os governantes Romanov, ao contrário das monarquias da Europa Ocidental cujo papel se tornara simbólico, exerciam um poder absoluto sobre seu país com o orgulho de manter as tradições.
A mãe de Tatiana, a tsarina Alexandra, era neta da Rainha Vitória do Reino Unido, e seu pai Nicolau II talvez fosse o chefe de estado mais poderoso do mundo. Além de Tatiana, o casal régio tinha outras quatro crianças: Olga, Maria, Anastásia e Alexei.
Embora fossem as crianças mais ricas de toda a Rússia, Tatiana Romanov e seus irmãos foram criados de forma relativamente severa. Todas as manhãs os irmãos tomavam banhos frios, e seus leitos, fabricados por eles mesmos, eram relativamente simples.
Família Romanov / Créditos: Reprodução
Entretanto, um dos integrantes da família exigia maior cuidado. Alexei, o filho mais novo e herdeiro do trono, sofria de uma grave doença herdada de sua avó materna: a hemofilia. A menor contusão poderia levá-lo a hemorragias que durariam dias.
Rasputin: salvação e condenação
Quem mais sofria com a doença de Alexei era a imperatriz Alexandra, que passou a ter crises histéricas por conta do garoto. Em 1905, os Romanov, desestruturados internamente, encontraram o místico Grigori Rasputin - que se tornou indispensável pela misteriosa capacidade de parar os sangramentos de Alexei. Se o homem realmente tinha poderes mágicos ou se as rezas simplesmente acalmavam o menino e sua mãe, estancando o sangue rapidamente, ninguém sabe.
Embora Tatiana e suas irmãs se referissem ao camponês siberiano como “nosso amigo”, fora da família imperial Rasputin era visto com desconfiança. Circulavam rumores de que ele havia seduzido a imperatriz e suas filhas, e que o poder do país estava em suas mãos.
Alexandra com Rasputin, crianças e a governanta / Créditos: Reprodução
Guerra e revolução
Enquanto a família real eram encuraladas em seus problemas, os ideais marxistas pediam o fim da monarquia. E o mundo se dirigia para a Primeira Guerra Mundial.
Em 20 de julho de 1914, dia que Tatiana descreveu em seu diário como “absolutamente maravilhoso”, o czar declarou guerra à Alemanha para uma animada multidão em São Petersburgo.
Alexandra, Olga e Tatiana passaram a treinar como enfermeiras de guerra na Cruz Vermelha Russa. Tatiana, com seu espírito de liderança, criou um comitê para ajudar os refugiados e administrava diariamente a documentação hospitalar. Embora um pouco mandona, a jovem lidava com as mais desagradáveis operações de forma eficiente.
Em 1916, Rasputin foi assassinado pelos próprios parentes da família real. Nicolau II perdia cada vez mais poder, e em fevereiro de 1917, com o estouro da Revolução Russa, sua família foi mandada para o exílio.
A morte e o legado de Tatiana Romanov
A antiga família imperial foi enviada para a Sibéria, mantidos em uma casa particular em Tobolsk com alguns criados e damas de companhia.
Em abril de 1918, a família foi aprisionada na insólita "Casa de Propósito Específico", da qual nunca mais voltaram. Na madrugada de 17 de julho, os Romanov foram convocados para o porão e leram uma sentença de morte antes que seus captores começassem a atirar.
O trabalho foi feito de maneira desleixada. Os guardas estava bêbados e as grã-duquesas, sem o conhecimento dos bolcheviques, haviam costurado jóias em seus espartilhos como precaução, que serviu como uma armadura inesperada contra as balas.
Após a primeira rodada de disparos, apenas Nicholas e Alexandra estavam mortos. Os guardas contornaram a sala com pistolas e baionetas para terminar o trabalho e a curta vida de Tatiana Romanov, de 21 anos, acabou quando foi baleada na parte de trás da cabeça, borrifando Olga, a quem estava se agarrando, com uma "chuva de sangue e cérebro".
Os corpos de Tatiana e sua família foram apressadamente queimados e enterrados, e o segredo foi encoberto pela Cortina de Ferro por décadas.
Histórias da possível sobrevivência de Tatiana passaram a surgir durante os anos. Mas em 2008, um teste de DNA provou que os corpos desenterrados nas florestas da Sibéria eram de toda a família imperial. Tanto Anastasia quanto Tatiana Romanov haviam de fato morrido, naquele período sombrio da história da Rússia.