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terça-feira, 21 de julho de 2020

Os túneis de Hitler.

TÚNEIS DO MEDO: A ENORME CIDADE SUBTERRÂNEA DE HITLER

Em meados de 1940, o Führer criou um projeto ambicioso, que, se completo, abrigaria mais de 20 mil pessoas no subsolo
PAMELA MALVA PUBLICADO EM 21/07/2020
Escadas presentes em um dos túneis de Osówka
Escadas presentes em um dos túneis de Osówka - Divulgação/Cidade subterrânea de Osówka
Projetos, esquemas e rascunhos de bombas eram apenas alguns dos arquivos protegidos por Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Com dezenas de planos mirabolantes na cabeça, o austríaco sonhava com o esconderijo perfeito.
Assim, em meados de 1940, ele teve uma ideia suntuosa, que sairia do papel em pouco tempo. Aos pés das montanhas Sowie, no sudoeste da Polônia, o complexo subterrâneo de Osówka daria início ao Projeto Riese — gigantesco, em alemão.
Na fronteira com a República Tcheca, então, dezenas de túneis subterrâneos seriam escavados, em um projeto arquitetônico ambicioso. Tudo, é claro, supervisionado por Albert Speer, ministro da produção de armamentos e amigo pessoal de Hitler.
Um dos bunkers construídos em Osówka / Crédito: Divulgação/Cidade subterrânea de Osówka

Esconderijo perfeito
As plantas do Projeto Riese chegavam aos pés de uma ideia megalomaníaca. Com dezenas de bunkers enormes, interligados por túneis bastante longos, a ideia era criar uma verdadeira cidade subterrânea, com cerca de 35 km2.
Caso fosse terminada e realmente utilizada pelos simpatizantes de Hitler, a área teria a capacidade de abrigar 20 mil pessoas. Entre os possíveis ocupantes, muitos seriam soldados e cientistas alemães, focados em produzir ainda mais projetos do Führer.
Além de bunkers imponentes, a cidade subterrânea ainda contaria com fábricas de bombas. Nelas, Hitler poderia colocar em prática as temidas bombas atômicas nazistas que, por sorte, nunca saíram do papel.
Artefatos encontrados em Osówka / Crédito: Divulgação/Cidade subterrânea de Osówka

Papéis e documentos.
Em meados de 1943, Albert Speer deu início às primeiras construções do complexo subterrâneo. Naquela época, a Baixa Silésia, região polonesa onde a estrutura tomou lugar, ainda fazia parte da Alemanha.
Abandonado às pressas ao final da Segunda Guerra, o complexo de Osówka é um dos maiores do Projeto Riese e conta com um salão principal de 8 metros. Em seus túneis, uniformes, máscaras de gás, armas de grande calibre, gás e picaretas resistem ao tempo.
O que se sabe hoje sobre os enormes bunkers, no entanto, é resultado de longas e minuciosas pesquisas históricas. Isso porque, ao final do conflito, Hitler mandou destruir todos dos documentos e plantas do projeto.
Uma das entradas de Osówka / Crédito: Divulgação/Cidade subterrânea de Osówka

Sangue e suor.
Abaixo da terra, os túneis de Osówka se estendem como teias, todos escavados pelos escravos do nazismo à época. Vindos do campo de concentração de Gross-Rosen, mais de 13 mil judeus trabalharam nas obras complexas. Estima-se que, graças às condições insalubres, cerca de 5 mil deles morreram na construção.
O enorme número de mortes, no entanto, seria ainda maior caso os bunkers tivessem sido terminados. Em suas memórias, Albert Speer escreveu que a preocupação de Hitler com a própria sobrevivência chegava a “níveis insanos”.
Dessa forma, acredita-se que o projeto atingiria medidas absurdas. Se a guerra tivesse durado mais dois anos, segundo alguns estudiosos, o Projeto Riese estaria funcionando em sua totalidade, considerando o ritmo das construções.
O Complex Rzeczka, um dos 7 bunkers nazistas / Crédito: Wikimedia Commons

Abandono e herança.
Apesar do tamanho das construções e de sua importância histórica, acredita-se que, a partir de correspondências de Albert Speer, apenas 10% dos túneis tenham sido descobertos. Isso porque, atualmente, escavar a área é bastante caro.
Dessa forma, enquanto universidades não demonstram tanto interesse em descobrir mais túneis, explorações privadas e milionárias tomam conta dos artefatos encontrados. A motivação deles, todavia, é encontrar ainda mais tesouros, como a Sala de Âmbar, saqueada pelos soldados da SS durante a Segunda Guerra. 
Os túneis nazistas, contudo, se estendem além do esperado. A mais de 60 metros abaixo do castelo de Książ, que estava sendo reformado para ser a futura residência de Hitler, dois andares de galerias também foram construídos. Junto de Osówka, a estrutura deixa clara a urgência do Führer em encontrar um abrigo permanente durante o conflito.
Confira mais imagens da cidade subterrânea:
Carrinhos usados para a retirada de entulho / Crédito: Divulgação/Cidade subterrânea de Osówka

Uma dos enormes túneis de Osówka / Crédito: Divulgação/Cidade subterrânea de Osówka

Máscara de gás encontrada em Osówka / Crédito: Divulgação/Cidade subterrânea de Osówka

Arma e local de tiros em Osówka / Crédito: Divulgação/Cidade subterrânea de Osówka

Um dos túneis ainda com estruturas de madeira em Osówka / Crédito: Divulgação/Cidade subterrânea de Osówka

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Síndrome de Asperger: a controversa origem do autismo no 3º Reich.

SÍNDROME DE ASPERGER: A CONTROVERSA ORIGEM DO AUTISMO NO TERCEIRO REICH

Diagnosticadas como impróprias, inúmeras crianças foram enviadas para Viena onde foram brutalmente assassinadas
VICTÓRIA GEARINI PUBLICADO EM 22/04/2020
Hans Asperger entrevistando paciente
Hans Asperger entrevistando paciente - Divulgação
Hans Asperger foi um médico austríaco que colaborou para o programa de eutanásia nazista. Figura central nos estudos sobre o autismo, o nome deste personagem histórico deu origem à Síndrome de Asperger, ou seja, condição psiquiátrica a esta doença. A obra Crianças de Asperger: as origens do autismo na Viena nazista, de Edith Sheffer conta em detalhes este cenário e estudos científicos do médico.
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Crédito: Divulgação / Amazon
Lançado em 2019 pela Editora Record, o livro da renomada escritora e historiadora Edith Sheffer, apresenta os estudos psiquiátricos de Hans Asperger, e explica como o médico austríaco inspirou o nome da doença. De acordo com a autora, seus laudos determinaram que inúmeras crianças eram “impróprias” para o Terceiro Reich de Hitler.
“Os esforços do Terceiro Reich para criar uma comunidade nacional homogênea significavam a inclusão de algumas pessoas, multiplicando e unificando as que o regime considerava desejáveis, e a exclusão de outras. Os esforços para limpar o corpo político levaram ao Holocausto — o assassinato de mais de 6 milhões de judeus no maior genocídio da História —, assim como os numerosos outros programas de eliminação sistemática”, escreveu Edith Sheffer.
Os estudos da pesquisadora apontam, ainda, que o médico foi cúmplice no genocídio de inúmeras crianças, que para ele seriam "intratáveis". Ao serem diagnosticadas com a Síndrome de Asperger, eram enviadas para uma clínica infantil em Viena, chamada Spiegelgrund. No local, sofriam abusos e eram submetidas ao programa de eutanásia, onde eram brutalmente assassinadas. 
“Para examinar todo o caráter e não apenas sintomas individuais, o psiquiatra precisava conhecer integralmente o comportamento e a personalidade das crianças. Isso significava dar ainda mais atenção às nuances, observando as menores variações e ampliando o escopo para novos diagnósticos", disse Sheffer. 
Segundo um estudo realizado pela Universidade Médica de Viena, o historiador da instituição chamado Herwig Czech, afirma que Asperger era tão cruel quanto outros nazistas. “Legitimou publicamente as políticas de higiene racial, incluindo as esterilizações forçadas, e cooperou ativamente, em várias oportunidades, com o programa nazista de eutanásia de crianças”, disse o especialista. 
Médico nazista Hans Asperger durante consulta com uma criança / Crédito: Wikimedia Commons

Ao todo, mais de 800 jovens foram cruelmente mortos por não serem considerados dignos de uma “raça pura”. Além disso, outras 35 crianças foram assassinadas por serem diagnosticadas como “não educáveis”. Entre as formas de homícidio estão por envenenamento e eutanásia. 
Em 1944, Hans Asperger classificou esses jovens como “psicopatas autistas”, mas em 1980, após sua morte, a classificação foi alterada e os estudos sobre o autismo denominaram a doença como Síndrome de Asperger, em homenagem ao médico. Sheffer, por sua vez, questiona como uma pessoa responsável pela morte de vários inocentes, pode receber este título de honra.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

As 10 maiores fake news sobre o terceiro Reich.

AS 10 MAIORES FAKE NEWS SOBRE O TERCEIRO REICH

Lendas urbanas, informações erradas e mitos que as pessoas deviam parar de repetir
RODRIGO TRESPACH PUBLICADO EM 09/04/2020
Adolf Hitler saudando seus membros, cercado por símbolos nazistas
Adolf Hitler saudando seus membros, cercado por símbolos nazistas - Getty Images
10. A suástica é um símbolo do mal.
Também chamada de cruz gamada, ela é muito mais antiga do que o nazismo. É um símbolo universal, encontrada amplamente decorando casas e templos na Grécia e Roma antigas e até na África Central e entre os índios norte-americanos. Seu significado varia muito de povo para povo. Para os greco-romanos, era relacionada a moinhos de água, mas usada principalmente como elemento decorativo. Os budistas e hinduístas ainda fazem uso amplo do símbolo, que não tem qualquer conotação negativa. Ao contrário do que talvez você tenha ouvido, uma suástica apontando em sentido anti-horário (ou horário) não é do mal (a dos nazistas era em sentido horário). Em sânscrito svastika significa algo como existência de felicidade. 

9. Hitler era judeu.
Crédito: Wikimedia Commons

A ironia pode ser irresistível, mas não tem base na realidade. A dúvida surgiu porque a avó de Hitler era mãe solteira. Durante os julgamentos de Nuremberg, seu ex-assessor Hans Frank afirmou que o pai do ditador era filho de um judeu para qual a avó trabalhou como doméstica na cidade de Graz. O problema é que não havia judeus em Graz. Eles só puderam entrar em 1860, quando Alois Hitler, o pai do ditador, tinha mais de 20 anos. Em 2010, um teste de DNA sugeriu que ele teria ascendência semita, mas foi bastante contestado — os pesquisadores nem disseram o que eles testaram, de onde tiraram o DNA. 

8. Só os judeus foram mortos pelos nazistas.
Nazismo não era apenas contra judeus, mas também a decadência moral e a poluição genética. Os primeiros exterminados pelo regime foram deficientes físicos e mentais, para evitar que passassem seus genes. Embora os judeus tenham se tornado as mais conhecidas vítimas do nazismo, ciganos, homossexuais, maçons, comunistas e até testemunhas de jeová também estavam entre os assassinados pela política de Hitler. Mais de 100 mil gays foram presos e pelo menos 10 mil executados.
Cada tipo de prisioneiro usava uma insígnia diferente no uniforme. Judeus, famosamente, a estrela amarela. Homossexuais, um triângulo rosa — que foi um símbolo inicial do movimento gay, até a adoção do arco-íris, nos anos 1970, já que o primeiro era muito deprimente.

7. Nazistas criaram a ideia de uma raça superior.
Hitler induziu diversas pessoas a seguirem sua linha de raciocínio / Crédito: Getty Images

Eles a levaram ao extremo, mas não foram seus inventores. No mundo inteiro, era fácil achar gente defendendo a superioridade dos brancos. A palavra "eugenia", em nome da qual os nazistas proibiram casamentos entre judeus e alemães e mataram deficientes mentais, foi criada pelo primo em segundo grau de Charles Darwin, Francis Galton. Os Estados Unidos foram o primeiro país no mundo a criar leis de eugenia. Ninguém menos que Winston Churchill as defendeu em livro, duas décadas antes de o nazismo nascer. 

6. Auschwitz e os outros eram campos de concentração
Campo de concentração é um local onde se mantém prisioneiros de guerra ou políticos em massa. As condições variam muito, desde um quase retiro rural aos gulags soviéticos. Mortos em campos de concentração são vítimas colaterais. Nazistas tinham campos de concentração, usados para prender soldados de países ocidentais. Que eram surpreendentemente bem tratados, aliás, pois a Alemanha havia assinado a Convenção de Genebra, dispondo sobre o tratamento de prisioneiros de guerra.
O propósito dos campos como Treblinka, Sobibor e Auschwitz era matar as pessoas desde que chegavam (Auschwitz começou como um campo regular e ganhou depois instalações letais). Tinham uma estrutura industrial para isso. O certo é dizer que são campos de extermínio. Como a União Soviética não havia assinado a Convenção de Genebra, prisioneiros soviéticos iam para os campos de extermínio, não concentração.

5. Todos os alemães eram nazistas
Crédito: German War Department

Ninguém era obrigado a se filiar ao partido — ainda que isso tivesse óbvias vantagens. O maior general da Alemanha nazista, Erwin Rommel, não era filiado — e acabou sendo forçado a se matar sob suspeita de participar de uma conspiração para assassinar Hitler. Outros oficiais — como o almirante Canaris — simplesmente boicotavam o regime nazista tanto quanto podiam. Alguns membros do partido praticaram resistência passiva, como Oscar Schindler. E o grupo estudantil Rosa Branca chegou a realizar passeata contra o nazismo nas ruas de Munique. 

4. O exército alemão era formado apenas por alemães
Havia muitos estrangeiros nas forças alemãs, inclusive as SS. Muçulmanos dos Bálcãs, simpatizantes espanhóis, franceses, ingleses e mais. Até mesmo judeus da Finlândia ajudaram os nazistas. Quase no fim da guerra, cerca de 10% do Exército alemão estacionado França era formado por soldados russos, fugidos do regime soviético. Após o Dia D, Yang Kyoungjong, um coreano, foi capturado pelos americanos entre as forças nazistas, servindo na França. Ele havia lutado pelo Japão, depois no Exército Vermelho, por fim a Wehrmacht. Morreu em 1992.

3. Os nazistas esconderam ouro roubado
Os nazistas de fato esconderam muito ouro roubado — mas não no chão, como se fossem piratas de filmes (piratas reais também não faziam isso). A maior parte dele foi escondida nos cofres da Suíça e da Suécia durante a guerra. Depois do conflito, outra parte foi levada para os Estados Unidos e para a URSS. Tudo com o consentimento dos respectivos governos. 

2. O Brasil tinha o maior número de nazistas fora da Alemanha
Os membros do Partido Nazista no Brasil eram menos de 3 mil. Todos alemães nativos, não descendentes, porque esses eram vistos como mestiços degenerados, que perderam sua cultura, e ninguém nem se dava ao trabalho de conferir seus ancestrais. Nos Estados Unidos, somente a Liga Germano-Americana tinha 25 mil filiados com fortes vínculos com o nazismo — eles desfilavam com bandeiras americanas ao lado da suástica. Antes da guerra, o nazismo era tido por uma ideologia tolerável, se antipática.

1. Alemães são arianos
Essa é uma das maiores bizarrices nazistas. Arianos eram invasores do Cáucaso que, há quase 4 mil anos, conquistaram a Índia e a Pérsia — Irã, nome que a Pérsia assumiu em 1935 quer dizer terra dos arianos. Teóricos do século 19 levantaram a hipótese de que esses conquistadores também chegaram à Europa, porque lá se fala línguas indo-europeias, aparentadas ao sânscrito, hindi e persa (incluindo o português). Uma migração do Cáucaso é o coerente com o que se acredita ainda hoje, ainda que a palavra ariano se refira apenas à leva asiática. Mas os nazistas tinham outra parte: para eles, só no norte da Europa os arianos se mantiveram puros — isto é, os alemães seriam mais arianos do que povos com real ligação com os arianos, os indianos e iranianos. Isso tem zero base na realidade.

quarta-feira, 18 de março de 2020

5 episódios que comprovam que o 3º Reich não era de esquerda.

5 EPISÓDIOS QUE COMPROVAM QUE O TERCEIRO REICH NÃO ERA DE ESQUERDA

Já naquela época, muitos confundiam o nazismo com o socialismo; mas as ações Führer não deixavam dúvidas sobre seu posicionamento anticomunista
ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 18/03/2020
O nazista Adolf Hitler
O nazista Adolf Hitler - Getty Images
1. Minha Luta
Em seu próprio livro, Minha Luta (Mein Kampf), Hitler já mostrava como sua posição era diferente das ideologias de esquerda. A confusão entre as políticas corporativas e autocráticas da proposta nazista com lógica comunitarista e planificadora do comunismo marxista era até mesmo uma espécie de piada para o Führer.
“Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade! A cor vermelha de nossos cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente”, escreveu o nazista.

2. Horror aos “vermelhos”
Crédito: Getty Images

Os ideais comunistas presentes na retórica marxista eram de total repulsa para o político austro-alemão. Ainda no Mein Kampf, no capítulo A Luta com os Vermelhos, Hitler analisa a relação ideal a se estabelecer entre o povo alemão e as ideologias classistas de esquerda, colocando a necessidade do combater o marxismo impregnado na sociedade alemã.
Defendendo o aniquilamento dos socialistas, anarquistas e esquerdistas em geral, durante seu governo, milhões de membros de movimentos de esquerda foram mortos ou torturados em campos de concentração, juntamente aos judeus.

3. Propriedade privada
A principal condição para que se considere um posicionamento comunista é a de ser a favor do fim da propriedade privada. No entanto, essa não era a premissa para o regime instaurado por Hitler — muito pelo contrário. O líder fez com que muitas empresas conseguissem se estabelecer economicamente e, ainda, lucrar com o autoritarismo e antissemitismo da ideologia nazista.
Segundo o artigo Aposta em Hitler — O valor das conexões políticas na Alemanha Nazista, de Thomas Ferguson e Hans-Joachim Voth, uma em cada sete empresas aprovavam o nazismo no início dos anos 1930. Os autores apontam que muitas estavam envolvidas com o regime, e foram muito bem compensadas por isso. A tese ainda revela que as instituições que apoiaram o movimento nazista tiveram uma alta extraordinária e incomum, com retornos avaliados em 5 a 8% entre o período de janeiro e março de 1933.

4. Raça superior
A ideologia nazista não visava uma sociedade igualitária, tal qual prega o comunismo, mas sim uma raça superior — totalmente o oposto do que dizem as teorias de esquerda. Em uma sociedade sem opressões, não haveria espaço para um posicionamento de superioridade baseada na biologia.
Além disso, o marxismo também leva em conta uma análise materialista do mundo, não biológica, como o nazismo. Ao usar o “social-darwinismo” como base, Hitler insiste que o poder deveria estar com os indivíduos mais aptos, — para ele, a raça ariana, — e não com a massa da classe trabalhadora.

5. Invasão á URSS
Hitler e Stalin / Crédito: WIkimedia Commons
Colocando seu ódio aos comunistas em prática, o Führer invadiu a União Soviética, a maior representação da ideologia na época, em junho de 1941, na chamada Operação Barbarossa. Com o intuito de acabar com a ameaça do bloco frente ao mundo, o nazista liderou suas tropas para conquistar as terras do da URSS.
Na tentativa de cumprir sua velha promessa de enterrar o comunismo e ampliar o espaço vital para a raça ariana, Hitler organizou a gigantesca ação militar, que envolveu mais de 3 milhões de homens, 3.580 veículos blindados, 7 mil peças de artilharia e milhares de aviões. "Só temos de chutar a porta e toda a estrutura podre desmoronará”, afirmou o líder.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Unity Midford: a britânica que era obcecada pelo Fürer e o 3º Reich.

UNITY MIDFORD: A BIZARRA SAGA DA BRITÂNICA QUE ERA OBCECADA PELO FÜHRER E O TERCEIRO REICH

Brigando com toda a sua família em nome do ditador, Midford abriu mão de sua vida normal, se deparando com um final insólito
CAIO TORTAMANO PUBLICADO EM 12/03/2020
A britânica Unity Mitford se "converteu" ao nazismo
A britânica Unity Mitford se "converteu" ao nazismo - Wikimedia Commons
Quinta filha de sete irmãos, Unity Midford nasceu em Londres em 1914, e passou a infância na sombra de suas irmãs mais velhas. Ao lado de irmãs inteligentes e bonitas, Unity se destacou de maneira negativa ao flertar com o Terceiro Reich.
Um horror para a sociedade londrina que acompanhava a ascensão do regime na Alemanha, a menina teria adotado os pensamentos nazistas como forma de ser o centro das atenções, assustando quem soubesse da infame peculiaridade.
Curiosamente, a irmã com quem divida o quarto, Jessica, era uma fervorosa adepta do comunismo. O quarto poderia ser considerado uma verdadeira fronteira imaginária entre a União Soviética e o Reich. No lado de Unity, suásticas e pôsteres de Hitler ornavam o quarto, enquanto no de Jessica foices e martelos figuravam ao lado de Lenin.
Aparentemente, a menina não era a única dos Midford com inclinação ao alinhamento político do Führer. Diana, filha mais velha da família, casou-se com Oswald Mosley, fundador da União Britânica de Fascistas, o que enfureceu o pai das meninas; proibindo qualquer membro da família de ter contato com a nova fascista.
Porém, claramente Unity se interessou por essa relação e se aproximou de Mosley, que lhe prometeu um distintivo do partido. Mais tarde, porém, o nazista afirmou que a moça era mais dedicada em se exibir como uma simpatizante do nazismo do que contribuir com o movimento.
Unity Mitford em Londres, utilizando um broche nazista / Crédito: Wikimedia Commons

Fissurada na imagem nazista, Unity se mudou para a Alemanha disposta a conhecer Adolf Hitler — que tinha sua agenda diária explicitamente pública. Depois de 10 meses, o encontro entre os dois foi marcado. Conversaram durante 30 minutos com o futuro tirano pagando a conta da britânica.
Em uma carta para seu pai, a moça disse que “esse foi o dia mais feliz da minha vida. Estou tão feliz que não me importaria de morrer. (...) Para mim, é o maior homem de todos os tempos”. A admiração, por incrível que pareça, foi recíproca, e Hitler enxergou na garota um exemplo ariano de alta qualidade.
A aproximação entre os dois foi quase imediata, e o Führer usava a menina para causar ciúmes em sua nova namorada, Eva Braun. Isso não abalou o fervor de Mitford, que deu um discurso antissemita inflamado durante uma convenção da Juventude de Hitler. A fala foi repetida em uma carta para ser publicada em um jornal alemão, onde ela afirmava que a Inglaterra não tinham noção do perigo que os judeus representavam, e pedia a morte do povo em seu país natal.
A publicação gerou um enorme ultraje para a comunidade britânica, que agora sabia que Unity “odiava judeus” como ela tinha dito na própria carta. Além disso, ela pediu que seu nome fosse publicado por extenso (claramente, ela gostava da ideia das pessoas saberem exatamente quem ela era, apesar do motivo ser extremamente torpe).
A ação pública lançou Unity dentro do círculo nazista de mais alto escalão, e muitos desconfiavam que ela estaria fazendo um trabalho de espionagem para os britânicos — o que estava longe de ser verdade, sua admiração e devoção por Hitler e o nazismo era, de fato, sincero.
Porém, em 1939, pouco antes da Guerra começar, o líder nazista aconselhou que Diana e Unity voltassem para a Inglaterra, pois o confronto entre os dois países seria inevitável. A irmã mais velha voltou para a Grã Bretanha, no entanto, a mais nova insistiu em ficar com o Führer.
Os dois países entraram em guerra, e a britânica nazista ficou arrasada, não podia acreditar que as duas nações que mais amava estavam se destruindo. Depois de perguntar para o líder nazista Adolf Wagner se ela seria presa por ser britânica, Wagner negou a paranoia.
Em seguida, Unity apresentou um comportamento estranho, e o nazista pediu para que dois oficiais seguissem a mulher. Depois de segui-la até um jardim, os guardas perderam ela de vista até ouvirem o barulho de tiro. Mitford tentara tirar a própria vida com um disparo na cabeça.
Tentara foi hospitalizada num hospital de Munique, onde Hitler a visitava com frequência e pagava por todos os custos de internação. Ele ainda bancou a volta dela para o Reino Unido. Em dezembro de 1939, Mitford foi enviada para um hospital na Suíça, onde sua mãe e sua irmã foram ao seu encontro. O episódio não foi nada agradável: Unity havia perdido 12 quilos, e seu estado era equivalente ao de alguém que teve um derrame. A bala estava alojado em sua cabeça, e não ia conseguir operar a retirada do projétil.
Apesar de ter sido considerada uma traidora pelo Estado, foi permtida de ficar ao lado de enquanto se recuperava dos danos causados pela tentativa de suicídio. Apesar de todas as mudanças em seu comportamento, ela ainda cultivava a obsessão pelo nazismo, e queria chamar seu primeiro filho de Adolf.
Túmulo de Unity / Crédito: Wikimedia Commons

Seus últimos dias de vida não foram nada tranquilos. A bala alojada em seu cérebro acabou criando um inchaço em seu órgão, que acabou resultando numa meningite severa responsável pelo fim de sua vida em 1948.

quarta-feira, 11 de março de 2020

O cruel programa de eutanásia infantil criado pelo 3º Reich.

O CRUEL PROGRAMA DE EUTANÁSIA INFANTIL CRIADO PELO TERCEIRO REICH

Durante a Segunda Guerra, o governo do Füher decidiu eliminar todas as crianças que nasciam com deficiências físicas e mentais
DANIELA BAZI PUBLICADO EM 11/03/2020
Crianças com deficiência na Alemanha nazista
Crianças com deficiência na Alemanha nazista - Wikimedia Commons
Durante a Segunda Guerra Mundial, na Alemanha nazista, foi criado um programa de extermínio de pessoas com deficiências físicas e mentais, consideradas fracas para a cultura da supremacia ariana, sendo classificados como pessoas indignas da vida.
Em uma conferência do Partido Nazista, em Nuremberg, no ano de 1929, Hitler disse "que uma remoção média anual de 700 a 800 mil dos mais fracos de um milhão de bebês significa um aumento no poder da nação e não um enfraquecimento".
Entre a primavera e o verão de 1939, deu-se início a uma operação secreta comandada pelo diretor da chancelaria de Hitler, Philipp Bouhler, e pelo médico assistente do Füher, Karl Brandt, em que os nazistas deveriam assassinar todas as crianças que fossem deficientes.
Karl Brandt em seu julgamento / Crédito: Wikimedia Commons

No dia 18 de agosto do mesmo ano, começou a circular um decreto na Alemanha divulgado pelo Ministério do Interior do Reich, ordenando que todos os profissionais e estabelecimentos de saúde pública denunciassem os casos de pessoas menores de três anos de idade que apresentassem algum tipo de anomalia física ou mental.
Deveriam ser denunciadas crianças com microcefalia, hidrocefalia, malformações no corpo, idiotia, mongolismo ou paralisia, principalmente a cerebral.
Dois meses depois, pais de crianças deficientes passaram a ser influenciados pelas autoridades de saúde pública para que colocassem seus filhos em “clínicas de pediatria” na Alemanha e na Áustria que fossem indicadas pelo governo nazista.
Todavia, esses centros médicos eram, na realidade, os locais em que as crianças seriam mortas devido a suas condições. Elas eram assassinadas por médicos especializados que recrutados unicamente para aquela função, através de doses letais de medicação ou por desnutrição.
O campo de concentração de Auschwitz / Crédito: Getty Images

O caso da primeira criança morta por esse programa é chamado de Caso K. Na ocasião, os pais enviaram um pedido em meados de 1939 ao Gabinete do Führer (KDF), mais conhecido como Hitler Chancelaria, alegando que seu filho, Gerhard Kretschmar, era gravemente incapacitado e precisava receber um “assassinato por misericórdia”.
Por muito tempo o nome da vítima não pode ser divulgado, apesar de ser conhecido pelos médicos alemães, devido às leis de privacidade da Alemanha em relação aos registros médicos, como afirma o historiador alemão Udo Benzenhöfer. A identidade da criança e dos pais só foi publicado em 2007, pelo historiador Ulf Schmidt, na biografia em que escreveu de Karl Brandt, contendo também os locais e as datas de nascimento e morte.
De acordo com o depoimento dos pais, o pedido foi feito no dia 23 de maio de 1939, e eles fizeram uma reunião com Werner Catel, diretor responsável pelo Hospital Infantil da Universidade Leipzig, para que fossem levantadas as chances de sobrevivência do garoto.
Catel disse que autorizou a eutanásia da criança pois seria a melhor opção para todos. Entretanto, agilizar o processo de morte ainda era ilegal no Terceiro Reich, e o médico os aconselhou a enviarem um pedido para o próprio Füher, através de sua chancelaria particular.
Esse primeiro assassinato ocasionou no aumento da utilização da eutanásia como forma de “extermínio eugênico”, que serviu de base para a promulgação da Lei de Prevenção de Filhos Hereditários, em 14 de julho de 1933.
Crianças em escola nazista / Crédito: Wikimedia Commons

Com o aumento dos casos, a operação se ampliou para jovens de até 17 anos, que possuíam as mesmas deficiências e também para adultos logo após. Pelo menos 5 mil crianças de origem alemã foram mortas pela eutanásia nazista durante toda a Segunda Guerra Mundial.
Algumas acabaram, antes de morrer, servindo como objetos de pesquisa pelos médicos do governo de Adolf Hitler. O doutor Heinrich Gross, por exemplo, chegou a realizar autópsias não autorizadas em cérebros de crianças, publicando cerca de 34 artigos sobre doenças mentais, entre os anos de 1954 e 1978.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Monstros e Gênios: as 10 pessoas mais influentes da história.

MONSTROS E GÊNIOS: AS 10 PESSOAS MAIS INFLUENTES DA HISTÓRIA

Sem eles, para bem e para o mal, o mundo não seria como conhecemos
REDAÇÃO PUBLICADO EM 06/03/2020
Stalin, Hitler, Darwin e Mao em montagem
Stalin, Hitler, Darwin e Mao em montagem - Divulgação
A AH resolveu descobrir quem foram os personagens que mais contribuíram para o mundo contemporâneo. Para isso, pedimos a especialistas brasileiros e do exterior que montassem uma lista com as pessoas que, em sua opinião, ajudaram a dar a cara do mundo ocidental nos dias de hoje. 
Como qualquer lista, é naturalmente incompleta. E, não custa ressaltar, não trata dos dez heróis ou das dez pessoas que ajudaram a fazer deste um mundo melhor. Genocidas como Josef Stalin, Mao Tsé-Tung e Adolf Hitler fizeram o mundo ser o que é. Nosso mundo também é fruto do que se tenta evitar — e do esforço para que tragédias não se repitam.

1. Jesus Cristo
Crédito: Wikimedia Commons

Nascimento: cerca de 7 a 4 a.C., Nazaré, Galileia
Morte: c. 30-36, Jerusalém
Ocupação: Aprendiz de carpinteiro, profeta, mártir, fundador do cristianismo
De certa forma, nenhum outro personagem desta lista existiria sem ele. É quase impossível imaginar a história do mundo ocidental sem Jesus Cristo, com séculos de pensamento dedicados a conciliar a filosofia e hábitos pagãos com o monoteísmo importado da Judeia. “Seus seguidores continuam a ser os mais numerosos no mundo, o calendário é baseado nele e constitui o elo entre o judaísmo e o helenismo”, afirma o historiador e arqueólogo Pedro Paulo Funari, da Unicamp.
Ainda que a civilização cristã raramente tenha conseguido viver pelas palavras de Jesus de amar ao próximo, não julgar para não ser julgado e dar a outra face, a Igreja fundada em seu nome é absolutamente central na História do Ocidente. Tanto que o calendário se divide em antes e depois de Cristo.
Países como Alemanha, França e Espanha só existem porque reis bárbaros se converteram ao cristianismo e ganharam legitimidade após a queda do Império Romano. As Cruzadas introduziram o gosto por especiarias aos europeus, e isso é tanto a origem das Grandes Navegações, na Península Ibérica, quanto do capitalismo que bancou a Renascença, na Itália. Foi a Igreja que fundou as primeiras universidades, e dela saíram vários pensadores que retomaram a filosofia clássica, como Santo Agostinho, Roger Bacon e São Tomás de Aquino.
A Reforma Protestante, comandada pelo alemão Martinho Lutero, liberou o homem para acumular riqueza sem culpa, uma das causas da Revolução Industrial. É um assunto controverso, mas vários pensadores, como o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, relacionaram o cristianismo aos ideais igualitários modernos da democracia e do socialismo.
O personagem mais importante para a história do Ocidente é aquele sobre o qual menos se sabe. Nem uma linha foi escrita sobre Jesus enquanto ele viveu. Autores não cristãos que trataram dele, Tácito e Flávio Josefo, só apareceram décadas após sua morte — e suspeita-se de que monges medievais piratearam trechos sobre Jesus nos originais. Quase 2 mil anos depois, a maior fonte sobre sua vida continuam a ser os Evangelhos, que não são livros de História, mas de pregação religiosa.
A busca pelo Jesus histórico é limitada. Pesquisadores costumam comparar os Evangelhos com fatos conhecidos de seu tempo. Por exemplo, como não existe nenhum registro de um censo na Judeia na época de seu nascimento, a maioria dos historiadores acredita que ele nasceu mesmo em Nazaré, não em Belém (fato usado para identificá-lo à estirpe do rei Davi), e isso foi no máximo em 4 a.C., no fim do reino de Herodes, o Grande. Portanto, nosso calendário carrega um erro de cálculo.
Mas alguns fatos bíblicos são amplamente aceitos: Jesus existiu, foi batizado por João Batista e crucificado por Pôncio Pilatos, após um incidente no Templo de Jerusalém. E a religião que fundou já havia chegado à capital do Império Romano no reino de Nero (54-68), décadas depois de sua morte. O que quer que Jesus tenha dito ou feito em vida, o cristianismo não existiria apenas com ele. Paulo de Tarso, que nunca o encontrou em pessoa (teve uma visão), foi quem abriu a religião a todos. A conversão do imperador Constantino, em 312, tornou o cristianismo a maior religião do mundo.

2. Charles Darwin
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Nascimento: 12 de fevereiro de 1809, Shrewsbury, Inglaterra
Morte: 19 de abril de 1882, Londres, Inglaterra
Ocupação: Geólogo e biólogo
Em 1859, um livro colocou o ser humano em seu devido lugar. Antes dele, a humanidade tomava a si própria como o ápice da criação, num mundo em que todas as outras formas de vida haviam sido colocadas na Terra por Deus apenas para servi-la. A Origem das Espécies demoliu essa visão milenar. “Sua influência no desenvolvimento de áreas críticas da ciência foi profundo. Ao mesmo tempo, ajudou a construir uma nova visão científica do mundo, substituindo a visão cristã prevalente”, afirma o historiador e autor britânico Richard Overy.
Darwin afirmou que a espécie humana evoluiu, como todas as outras, por meio de um processo que não tem direção definida, com todos os animais partilhando um ancestral comum. É a sobrevivência do mais apto — não a do mais forte — às circunstâncias que guia a evolução. A espécie humana não foi feita à imagem e semelhança de Deus, mas surgiu de um macaco na savana africana.
Esse foi um impacto brutal na autoimagem da humanidade, que até hoje muitos ainda relutam em aceitar. Ainda mais em uma sociedade conservadora como a Grã-Bretanha do século 19.Pelos diários de Darwin, sabe-se que ele já havia chegado a essas conclusões 20 anos antes. Mas temia publicá-las, porque podia prever as consequências na cultura da Inglaterra vitoriana.
Aos 50 anos, tinha muito a perder, numa admirável carreira que havia rendido a medalha da Royal Society, a academia britânica de ciências, em 1853. ” Não sei o que pensar: realmente detesto a ideia de escrever por prioridade, mesmo assim ficaria irritado se qualquer um publicasse as minhas teorias antes de mim”, escreveu alguns anos antes da publicação. Seu trabalho começou com o retorno da viagem do navio Beagle, em 1836, trazendo fósseis e espécimes do mundo todo, inclusive do Brasil.
A ideia de evolução em si não era nova. Em 1809, ano de nascimento de Darwin, o naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck propôs a evolução por meio de características adquiridas por esforço — um princípio errado, que marginalizou a ideia, já então tida por heresia. Darwin só decidiu tirar da gaveta A Origem das Espécies porque um pupilo seu, Alfred Russel Wallace, apresentou a ele uma teoria quase idêntica, em 1858. Wallace poderia também ter sido o pai da seleção natural, mas quem apresentou a tese fez toda a diferença. As credenciais de Darwin estavam acima de qualquer suspeita. Wallace era um jovem desconhecido, com fama de radical.
As décadas de preparação fizeram de A Origem das Espécies um trabalho impecável, prova e explicação definitiva para a evolução. Para a surpresa de Darwin, o livro tornou-se um best-seller, transformando o cientista recluso em celebridade internacional, discutido, caluniado e caricaturado nos jornais.
Sem gosto pela vida pública, coube a outros cientistas, como seu amigo Thomas Huxley, defendê-lo. Quando morreu, em 1882, era um tesouro do Império Britânico. O naturalista agnóstico ganhou a honra de ser enterrado na Abadia de Westminster, junto a outros grandes cientistas da nação, como Isaac Newton. O darwinismo tornou-se a doutrina capaz de explicar e dar novos rumos à biologia, fazendo a ciência — sem trocadilho — evoluir ao longo do século 20. Suas teses são contestadas apenas por um grupo: o dos cristãos fundamentalistas, os chamados criacionistas.

3. Karl Marx
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Nascimento: Trier, Prússia, 5 de maio de 1818
Morte: 14 de março de 1883, Londres, Reino Unido
Ocupação: Filósofo, economista e jornalista
Marx partiu de uma filosofia para filósofos — o idealismo de Hegel — para uma filosofia de ação. “Os filósofos apenas tentaram interpretar o mundo de diversas formas; o ponto é mudá-lo”, escreveu em 1845. E ele mudou mesmo: o século 20 foi marcado pela divisão mundial entre marxistas e defensores do capitalismo de várias vertentes.
Como sistema político, a democracia ocidental venceu em 1991 com a queda da União Soviética, um pesadelo totalitário em que ninguém poderia vislumbrar o comunismo prometido por Marx, uma sociedade sem classes, Estado ou opressão. Mas muitos pensadores contemporâneos, como os filósofos Slavoj Zizek e Antonio Negri, e o falecido historiador Eric Hobsbawn, afirmam que ainda é cedo para decretar a morte do marxismo como ideologia.
Marx afirmou no século 19 que crises cíclicas eram inerentes ao capitalismo — e o crash de 2008, último de uma série, mostra que essa foi uma previsão certeira.“Sua crença de que a justiça social deveria ser uma razão fundamental de todas as comunidades modernas nem sempre foi bem-sucedida, menos ainda em todas as ditaduras comunistas, mas sua influência foi mundial e contínua”, diz o historiador britânico Richard Overy.
No que ele mesmo chamava de praxis, os conceitos de Marx mudaram a geopolítica do planeta. Mas ele também tem uma enorme contribuição acadêmica, o que garante a permanência de seu pensamento como norte intelectual ainda hoje nas ciências humanas. Marx ajudou a criar caminhos intelectuais, como a lógica dialética e o materialismo histórico, que dominariam várias áreas do conhecimento no século 20. Ele é um dos fundadores das ciências sociais, o saber que transformou a mera especulação filosófica em estudo metódico, baseado em conceitos científicos. 
Em sua vida pessoal, Marx foi um grande ativista das causas que defendia. Em 1864, fundou e dirigiu a Primeira Internacional, organização mundial de comunistas, anarquistas e sindicalistas. Escreveu e editou jornais revolucionários e tinha colunas em diários convencionais, como o New York Daily Tribune, no qual defendeu o fim da escravidão nos EUA. Tal como Albert Einstein, foi nas horas vagas que escreveu sua obra-prima, O Capital, publicado em 1867.
Perseguido pelas autoridades europeias, vivendo quase sempre à beira da insolvência (e costumeiramente socorrido financeiramente pelo amigo e parceiro intelectual Frederick Engels), teve sete filhos com a baronesa Jenny von West-phallen. Apenas três sobreviveram até a idade adulta. Quando morreu, Karl Marx era ao mesmo tempo uma celebridade internacional e um apátrida. De certa forma, ele foi o primeiro mártir do marxismo. Sua tumba, em Londres, hoje é ponto turístico da cidade.

4. Albert Einstein
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Nascimento: 14 de março de 1879, Ulm, Alemanha
Morte: 18 de abril de 1955, Princeton, Estados Unidos
Ocupação: Físico 
A física se divide em antes e depois de 1905. Entre março e setembro daquele ano, quatro artigos foram publicados no periódico científico Annalen der Physik, de Berlim. Um demonstrava a dualidade entre partícula e onda, provando que a física quântica descrevia fenômenos reais, não efeitos de laboratório — o que nem Max Planck, considerado o pai dessa ciência, acreditava.
Outro mostrava que átomos também eram reais, e não abstrações úteis para explicar fenômenos misteriosos. O terceiro estabeleceu que a velocidade da luz é constante, independentemente da velocidade de quem a emite — o que acontece é que o tempo fica mais lento para quem se aproxima dessa velocidade. Essa é a teoria da relatividade especial, que batia de frente com a física newtoniana — até então, e por mais de 200 anos, chamada simplesmente de física.
O último artigo estabelecia a equivalência entre matéria e energia, uma das equações mais famosas da história da ciência, E=mc2, o que afetaria o mundo de forma bem direta, pois é simplesmente a origem da bomba atômica.
Einstein tinha apenas 26 anos e nunca havia dado aulas. Seu trabalho era avaliar patentes num escritório em Berna, na Suíça. Os quatro artigos do annus mirabilis foram produzidos fora do horário de expediente, longe de laboratórios, de colegas com quem discutir e até mesmo de uma biblioteca adequada. Para muitos historiadores da ciência, foi o mais brilhante trabalho amador da História.
Rapidamente Einstein foi reconhecido por seus pares e ganhou o primeiro cargo de professor na Universidade de Berna, em 1908, mudando-se para sua Alemanha natal em 1914. Mas houve enorme resistência dos defensores da física clássica. Tanto que, em 1921, quando recebeu o Prêmio Nobel, foi por sua explicação do efeito fotoelétrico — a parte que prova a física quântica — e não pela relatividade, que ainda irritava muitos cientistas com essa história de ter que deixar para trás séculos de física newtoniana.
Einstein tornou-se rapidamente uma celebridade internacional, a encarnação viva do supergênio. A sua foto com o cabelo desgrenhado e a língua de fora tornou-se um ícone pop que rivaliza com a imagem de guerrilheiro de Che Guevara. Suas opiniões sobre qualquer tema apareciam nos jornais, como sua defesa da democracia, socialismo e pacifismo. Foi nessa condição que veio ao Brasil, em 1925, observar um cometa que justificaria sua teoria de gravitação.
Ele se tornou “um pacifista fundamental, hostil ao militarismo de sua era e um ícone do sentimento antiguerra que dura ainda hoje”, como afirma o historiador britânico Richard Overy. Mas esse pacifismo tomou partido em 1933, com a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha. Adotando os EUA como nova nação, Einstein se tornou partidário da guerra contra os nazistas. Em 1939, enviou uma carta ao presidente Franklin Roosevelt, alertando sobre a possibilidade do desenvolvimento de uma bomba atômica alemã. O gesto deu origem ao Projeto Manhattan e daí às bombas de Hiroshima e Nagasaki. Em 1954, ele diria ao amigo Linus Pauling que a carta a Roosevelt foi o maior erro de sua vida.

5. Abraham Lincoln
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Nascimento: 12 de fevereiro de 1809, Hardkin County, Estados Unidos
Morte: 15 de abril de 1865, Washington, Estados Unidos
Ocupação: Partidor de tábuas, advogado, congressista e presidente dos EUA
Não é segredo que políticos fazem promessas que não pretendem cumprir. Ao menos uma vez na História, o mérito de um grande político esteve justamente em ignorar suas promessas. Em 1859, Abraham Lincoln falou a uma plateia em Cincinnati, Ohio: “Não tenho qualquer propósito de interferir diretamente ou indiretamente com a instituição da escravidão nos estados em que ela existe”.
Repetiu o mesmo discurso em outras ocasiões. Em sua carreira, havia feito de tudo para tornar mais difícil a escravidão, instituição que frequentemente comparava a um câncer. Também dizia que a frase na Declaração de Independência dos Estados Unidos, “todos os homens são criados iguais”, se aplicava aos negros, ideia chocante para muitos na época.
Essa postura ambígua fez com que seu adversário na eleição para o Senado de 1858, Stephen Douglas, o chamasse de duas caras. A réplica rendeu uma das boutades mais famosas de todos os tempos: “Se tivesse mesmo duas caras, por que o senhor acha que eu estaria usando esta?”
Contemporâneos notaram o quanto Lincoln era feio e malvestido, como sua voz era esganiçada. Mas o esquisitão era de fato a encarnação do sonho americano. Nascido numa família de agricultores analfabetos, tornou-se advogado estudando por conta própria sem ter concluído o ensino fundamental. Foi eleito deputado em 1846. Os debates durante a campanha ao Senado tornaram Lincoln conhecido no país inteiro.
Em 6 de novembro de 1860, elegeu-se presidente, sem receber um único voto de delegados do sul do país. A Carolina do Sul declarou secessão em 24 de dezembro, antes mesmo de ele assumir a cadeira, em março do ano seguinte — quando mais seis outros estados escravistas diziam ser parte de outro país, os Estados Confederados da América.
Em 12 de abril, um ataque confederado a um forte na Carolina do Sul deu início à Guerra Civil Americana, primeiro conflito industrial da História, que causaria 750 mil mortes de combatentes — quase o dobro do que o país perderia na Segunda Guerra. Lincoln aproveitou as condições extremas para quebrar sua promessa e levar adiante a abolição, primeiro nos estados reconquistados, em 1863. E no resto do país em 1865. Sua terra natal, o Kentucky, era um dos estados que lutaram pela União e que ainda tinha escravos.
A vitória das tropas da União tiveram reflexo até mesmo na História do Brasil. Um grupo de confederados buscou asilo no país, com as bênçãos do imperador dom Pedro II. Instalaram-se em São Paulo, onde tempos depois fundaram a cidade de Americana.
Um dos planos de Lincoln era instituir um amplo programa para integrar a população negra. Não viveu para isso. Em 14 de abril de 1865, cinco dias após a rendição dos confederados, o fanático pró-escravidão John Wilkes Booth disparou contra ele no Teatro Ford, em Washington. Lincoln morreu no dia seguinte, como o maior presidente da História dos Estados Unidos.

6. Vladmir Lenin
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Nascimento: 22 de abril de 1870, Simbirsk, Rússia
Morte: 21 de janeiro de 1924, Gorki, Rússia
Ocupação: Advogado, jornalista, escritor e revolucionário
Se Karl Marx deu as bases teóricas para a revolução socialista, até 1917 faltava alguém mostrar como fazê-la na prática. Havia muitos partidos que seguiam as ideias do filósofo alemão. Mas, em geral, eles concordavam com o que Marx havia dito sobre a evolução das sociedades: uma revolução proletária só poderia acontecer em um país com capitalismo avançado e um proletariado com consciência de classe, que faria a revolução sozinho. O advogado Vladimir Ilyich Uliánov deixou tudo isso de lado.
Diferentemente de Marx, que não deu atenção aos países atrasados, Lenin era um grande crítico do imperialismo, que considerava a fase final do capitalismo. Ele acreditava que a revolução poderia ser feita, sim, em um país semifeudal como a Rússia, que recém havia abolido a servidão e tinha um proletariado minúsculo. Ele também imaginava que nenhuma revolução surgiria espontaneamente, mas que os trabalhadores precisariam de um partido de vanguarda, um bloco homogêneo e inflexível formado por revolucionários em tempo integral.
Em 1897, Lenin foi preso e exilado para a Sibéria, por onde passa o Rio Lena — de onde vem o pseudônimo famoso. Em 1903, conseguiu formar seu grupo, a partir de um racha no Partido Operário Social-Democrático Russo. Os que apoiaram Lenin foram chamados de bolcheviques, a maioria. Os moderados, liderados por seu ex-colega Julius Martov, de mencheviques, minoria.
A primeira tentativa de revolução bolchevique foi em 1905, durante uma onda de greves, protestos e motins que tomou a Rússia após a derrota para o Japão na Guerra Russo-Japonesa. A revolução fracassou e Lenin foi para o exílio. Durante a Primeira Guerra, comprou briga com os socialistas do mundo inteiro, que apoiaram seus países no conflito. Lenin chamou a todos de traidores do proletariado, por defenderem uma guerra entre imperialistas. Mas foi o conflito que deu a ele sua grande oportunidade.
Com as privações causadas pela guerra, em fevereiro de 1917 estourou outra revolução na Rússia. O czar abdicou e um governo provisório foi formado por uma coalizão entre liberais e socialistas. Conselhos (soviets, em russo) de trabalhadores e camponeses foram criados para defender a revolução. Disfarçado com uma peruca e de barba cortada, Lenin voltou à Rússia em agosto e conseguiu convencer os sovietes a se voltarem contra o governo provisório.
Em 7 de novembro de 1917, a guarda vermelha de Lenin depôs o governo e deu início a uma guerra civil que duraria até 1923 e na qual padeceram, entre balas, fome e repressão brutal, 9 milhões de russos. Dessa forma traumática, nasceu a primeira nação marxista, oficializada em 1922. Em maio do mesmo ano, Lenin teve um derrame. Afastado do poder, passou seus últimos dias conspirando com Trotsky, sem sucesso, para evitar que Stalin fosse seu sucessor.

7. Josef Stalin
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Nascimento: 18 de dezembro de 1878, Gori, Geórgia
Morte: 5 de março de 1953, Moscou, Rússia
Ocupação: Revolucionário, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética
A carta-testamento de Lenin, escrita no início de 1923, tem a seguinte passagem: “O camarada Stalin, tendo se tornado secretário-geral, tem autoridade ilimitada concentrada em suas mãos, e não tenho certeza de que sempre irá utilizá-la com suficiente prudência”. Se a carta não tivesse aparecido só depois da morte de Lenin e prontamente suprimida, as vidas de 4 milhões a 60 milhões de pessoas, dependendo de qual historiador consultado, talvez tivessem sido poupadas. É possível gastar milhares de páginas tratando das atrocidades de Stalin. Mas, em uma frase, ele mudou a história.
Quando se juntou aos bolcheviques em 1903, Iosif Djugashvili era conhecido por ser um revolucionário de ação. O assalto a banco que comandou em Tiflis, na Geórgia, em 1907, por exemplo, causou 40 mortes — Stalin (feito de ferro) era o codinome que usava em ações assim. A partir de 1917, começou a ganhar posições dentro do partido comunista, até tornar-se secretário-geral do PC da União Soviética, em 1922.
Enquanto Lenin acreditava que a URSS só sobreviveria se conseguisse exportar a revolução, Stalin lançou a doutrina do socialismo em um só país. Dizia que era possível a União Soviética sobreviver sozinha. E acabaria por provar isso — mas, antes, precisou transformar a Rússia de um país agrícola retrógrado em uma potência industrial.
Stalin era sincero em sua crença no socialismo. Para acalmar os ânimos da população, Lenin havia admitido um pouco de capitalismo na União Soviética ao formular a Nova Política Econômica, de 1921, que permitia pequenos negócios e propriedades rurais. Após eliminar qualquer oposição a seu poder absoluto, em 1928 Stalin lançou seu primeiro Plano Quinquenal, estatizou a agricultura e deu início a uma gigantesca campanha de industrialização, tentando superar o que ele chamava de 50 a 100 anos de atraso da Rússia.
A coletivização da agricultura causou revoltas, repressão brutal aos pequenos proprietários e uma fome que matou milhões de soviéticos, especialmente na Ucrânia. Mas sua campanha industrial fez a economia russa crescer incríveis 2 425% entre 1928 e 1937, uma década que no resto do mundo foi abalada pelo crash da Bolsa de Valores de Nova York.
Em 1939, União Soviética e Alemanha assinaram o Pacto Molotov-Ribbentrop, um acordo secreto de não agressão. Em junho de 1941, Hitler rasgou o tratado e invadiu a União Soviética, pegando Stalin de surpresa. No fim do ano, as forças nazistas estavam a apenas 32 km de Moscou. Stalin permaneceu no Kremlin e liderou pessoalmente a resistência. Foi salvo por um gigantesco deslocamento de tropas que socorreram a cidade vindas dos confins da Sibéria.
A resistência em Moscou e em outras cidades soviéticas, como Stalingrado, inverteria a situação nos dois anos seguintes. Em 1945, as tropas soviéticas marchavam sobre Berlim. O avanço militar das forças de Stalin foi seguido pela divisão política da Europa — todo o leste, com exceção da Grécia, ficou sob a órbita soviética até o fim da URSS, em 1991. Na conta de Stalin pode-se pendurar o atraso colossal da biologia e das artes durante seu longo governo, destruídas por seus zelosos comissários. Mas, ao virar o rumo da guerra quase sozinho, ele salvou o mundo do nazismo.

8. Mao Tsé-Tung
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Nascimento: 26 de dezembro de 1893, Shaoshan, China
Morte: 9 de setembro de 1976, Pequim, China
Ocupação: Militar, revolucionário, escritor, presidente do Partido Comunista da China
A China moderna, único país candidato a ameaçar a hegemonia econômica norte-americana, nasceu das ações de Mao Tsé-Tung. Ele tirou o país do chamado século de humilhação, que vinha desde a derrota para o Reino Unido na Primeira Guerra do Ópio, em 1842. Durante esse período, a China — que por boa parte da história foi a sociedade mais organizada e tecnologicamente avançada do planeta — acabou dominada por potências estrangeiras e ficou sem Estado, fragmentada entre senhores da guerra.
Ao se divorciar da União Soviética, nos anos 60, Mao partiu o comunismo em dois. Mas isso deu um novo fôlego a muitos comunistas pelo mundo, pois a União Soviética era associada aos crimes de Stalin e a uma burocracia envelhecida, corrupta e sem fervor revolucionário. O engajamento da juventude contra as gerações anteriores foi inspiração até para as passeatas de Maio de 1968 na França.
A guerrilha de esquerda, a estratégia maoísta na Guerra Civil Chinesa, fez história na América Latina. Ao aceitar a visita do presidente americano Richard Nixon, em 1972, o ápice da “diplomacia do ping-pong”, Mao finalmente abriu o país ao exterior e deu o primeiro passo para transformá-lo no que é hoje.
Mao, “para o bem ou para o mal, unificou a nação ancestral da China, pavimentando o caminho para a eventual emergência do país de séculos de isolamento”, como afirma o jornalista e escritor norte-americano Jon Lee Anderson. O “para o mal” não pode ser subestimado. Entre 30 milhões e 70 milhões de mortes são atribuídas à repressão e às experiências sociais de Mao, o que, em números absolutos, configura a pior matança da história.
Filho de fazendeiro, Mao foi um dos membros fundadores do Partido Comunista Chinês, em 1921. O partido logo se aliou aos nacionalistas, o Kuomintang, em campanha para reunificar o país. Em 1927, os nacionalistas traíram a aliança e massacraram 400 comunistas em Xangai, iniciando uma guerra civil que terminou com a fuga do Kuomintang para a ilha de Taiwan, em 1949, e a ascensão dos comunistas ao poder, onde, diga-se, se mantêm até hoje.
Em 1958, Mao deu início ao “Grande Salto para a Frente”, uma tentativa de desenvolver a China sem auxílio soviético. A fome, causada pela coletivização e o desvio de mão de obra para a indústria, estima-se, matou entre 20 milhões e 40 milhões de pessoas no país.
Com sua posição enfraquecida no Partido Comunista, em 1966, Mao decidiu voltar a população contra os dirigentes. A sua chamada Revolução Cultural instigou os jovens contra a burocracia do partido e tudo o mais que parecesse velho, tradicional ou ocidental. Com estudantes secundaristas atacando templos, livros e pessoas, principalmente professores e intelectuais, a China mergulhou no caos.
A morte do Grande Timoneiro, em 1976, levou a um período de luta interna, que terminou em 1978, com a vitória do reformista Deng Xiaoping, que abriu o país ao capitalismo. Deng, para quem “enriquecer é glorioso”, disse que Mao estava 70% certo, 30% errado. A China hoje é um híbrido de comando político comunista e economia capitalista.

9. Adolf Hitler
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Nascimento: 20 de abril de 1889, Braunau am Inn, Império Austro-Húngaro
Morte: 30 de abril de 1945, Berlim, Alemanha
Ocupação: Pintor, cabo do exército, político, ditador
É difícil falar nele sem recorrer a expressões moralistas. O professor Francisco Alambert, da USP, o define como “a mais perfeita tradução do horror moderno”. Com Mao e Stalin, Hitler é um dos personagens cujo perfil torna obrigatório incluir uma contagem de cadáveres — 11 milhões, entre judeus, poloneses, comunistas, ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová e opositores, em execuções, massacres e campos de extermínio. Isso sem contar os 50 milhões da Segunda Guerra, que podem ser atribuídos a ele.
A diferença é que China e União Soviética nunca tiveram algo parecido aos campos de extermínio nazistas. Hitler foi inédito em seu ódio. Em meio a uma guerra que estava perdendo, desviou preciosos recursos para uma imensa operação industrial com o objetivo de eliminar pessoas de forma rápida e eficiente. O nazismo ainda recriou a escravidão em pleno século 20, com 20% da mão de obra alemã provindo de trabalho forçado.
Em 1919, recebeu do exército a missão de investigar o Partido dos Trabalhadores Alemães, fundado por Anton Drexler. Ao participar de uma reunião, surpreendeu os membros do partido com seu lendário talento para oratória. Saiu do exército e juntou-se ao grupo, que mudou o nome para Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (ou Nazi) em 1921.
Dois anos depois, Hitler e outros líderes acabaram presos após o fracasso de uma tentativa de golpe de Estado em Munique. Na cadeia escreveu Mein Kampf, autobiografia e programa ideológico que impulsionou sua meteórica carreira política. Em 30 de janeiro de 1933, tornou-se chanceler (primeiro-ministro) da Alemanha.
O Führer rearmou o país, recuperou a economia e fez inúmeras obras públicas. Foi eleito “homem do ano” de 1938 pela revista norte-americana Time. Em setembro do ano seguinte, ordenou a invasão da Polônia, sabendo que isso significava ter França e o Reino Unido como inimigos.
A máquina de guerra nazista começou a patinar entre 1942 e 1943, quando foi derrotada no Egito e Stalingrado, na URSS. A partir daí, a guerra se tornou defensiva e cada vez mais desesperada — como o avanço das tropas soviéticas dentro da Alemanha, até a derrota em 1945. Hitler uniu comunistas, liberais e conservadores contra seu projeto nacionalista e seu fracasso tornou patéticas práticas que eram aceitas nos anos 30, como a eugenia e o racismo.
“Hitler não apenas ajudou a criar o horror que foram a Segunda Guerra e o Holocausto, nos quais dezenas de milhões morreram. Ele alterou a paisagem política global para sempre”, afirma o jornalista e autor americano Jon Lee Anderson. A divisão do mundo na Guerra Fria e a chamada Cortina de Ferro surgiram dos acordos feitos entre os soviéticos e os aliados ocidentais.
Mas o horror também contribuiu para a criação da União Europeia e para o maior período de paz da história da Europa, que a propósito dura até hoje. Por fim, como suprema ironia histórica, o homem que pretendia acabar com todos os judeus contribuiu para que o Estado de Israel nascesse mais depressa como solução para a crise humanitária pós-Segunda Guerra. Foi sua maior humilhação.

10. Sigmund Freud
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Nascimento: 6 de maio de 1856, Freiberg in Mähren, Império Austro-Húngaro (hoje Příbor, República Tcheca)
Morte: 23 de setembro de 1939, Londres, Reino Unido
Ocupação: Psiquiatra e fundador da psicanálise
À primeira vista, o pai da psicanálise é um personagem destoante nesta lista. Não foram feitas revoluções em seu nome e sua contribuição científica é controversa. Entre seus muitos críticos, Karl Popper, possivelmente o maior filósofo da ciência do século 20, simplesmente excluiu a psicanálise do domínio científico.
O complexo de Édipo foi rejeitado por antropólogos, que não confirmaram algo parecido em outras culturas pelo mundo. E, para Freud, o tal complexo era a razão de ser de sua teoria. “No complexo de Édipo reúnem-se os começos da religião, moralidade, sociedade e arte, em plena concordância com a verificação psicanalítica de que esse complexo forma o núcleo de todas as neuroses”, escreveu ele em Totem e Tabu.
Mas entre todos os mencionados, Freud é provavelmente o que tem a maior influência no cotidiano das pessoas hoje em dia. Para o professor da Unicamp Pedro Paulo Funari, ele “introduziu a vida interior ou psíquica no centro da maneira como as pessoas entendem e se entendem no mundo”.
A ideia do que é ser humano foi refundada por Freud. Antes, havia duas concepções principais: o homem cartesiano, uma mente perfeitamente livre e racional, independente do corpo e suas vicissitudes. Ou o Homo economicus, uma máquina de calcular que sempre agia para maximizar resultados e ganhar dinheiro, uma tradição que vai de Adam Smith até Karl Marx.
Hoje, cientistas e psicólogos entendem o ser humano como um animal dotado de razão, mas uma razão imperfeita, altamente influenciada por seus desejos e sentimentos, às vezes inconscientes, às vezes inconfessáveis, atormentado pela contradição entre esses impulsos e a vida em sociedade. Ideia surgida com a psicanálise que ciências mais duras, como a neuropsiquiatria e a psicologia evolutiva, só têm reforçado.
Alguns conceitos freudianos, como o inconsciente e a razão deturpada pelos desejos, são amplamente aceitos por neurocientistas. Existe, assim, uma revolução freudiana, no “estudo da mente humana, demonstrando que traumas, sonhos, desejos e fantasias têm impacto decisivo no comportamento das pessoas”, de acordo com o jornalista e escritor Laurentino Gomes.
Formado em Medicina em 1881, Freud começou a trabalhar como psiquiatra científico, estudando a anatomia do cérebro. Em 1885, na França, teve sua primeira revelação: muitas condições físicas nos pacientes eram causadas por transtornos da mente. De volta à Áustria, tomou contato com Josef Breuer, que descreveu como uma paciente havia melhorado apenas por meio de conversa, caso que interessou vivamente a Freud.
Pela mesma época, recomendou ao colega psiquiatra Ernst von Fleischl-Marxow o antidepressivo da época, a cocaína. Marxow morreu de overdose em 1891. Esses eventos o levaram a abandonar as drogas e a hipnose para adotar a cura pela conversa, que batizou de psicanálise em 1896. Em 1899, lançou o livro fundador da teoria, A Interpretação dos Sonhos.
Freud refinaria e ampliaria suas concepções até o fim da carreira, ganhando discípulos e tornando a psicanálise uma das terapias mais populares da psicologia do século 20. A nova ideia do ser humano teve imensas ramificações nas artes, cultura e filosofia. Surrealismo, dadaísmo, pós-modernismo — tudo isso nasceu das ideias de Freud.

Votaram:
  • Pedro Paulo Funari
  • Leandro Narloch
  • Richard Overy
  • Laurentino Gomes
  • João Pereira Coutinho 
  •  Jon Lee Anderson
  • Kenneth Maxwell
  • Marco Antônio Villa
  • Lincoln Ferreira Secco
  • Francisco Cabral Alambert Junior