BIBLIOGRAFIA: CERAM, C. W. Deuses Túmulos e Sábios.
São Paulo: Edições Melhoramentos, 1960.
Deuses,
Túmulos e Sábios,
escrito pelo jornalista alemão C. W. Ceram (pseudônimo de Kurt Wilhelm Marek) e
publicado originalmente em 1949, é amplamente considerado a maior obra de
divulgação científica sobre a história da arqueologia. Com o subtítulo "O
Romance da Arqueologia", o livro transforma relatórios técnicos e
escavações áridas em uma narrativa de aventura eletrizante. A obra aproxima o
leitor leigo dos mistérios do passado sem abrir mão do rigor histórico.
Visão
Geral e Estrutura
O livro não
foca nas civilizações em si, mas sim na jornada humana para redescobri-las.
Ceram divide o volume em quatro grandes seções temáticas e geográficas:
O Livro das Estátuas (Grécia e
Roma): Explora o
renascimento do passado clássico, destacando a escavação de Pompeia e a
obsessão de Heinrich Schliemann. Este último usou a Ilíada de
Homero como mapa para provar que a cidade de Tróia realmente existiu.
O Livro das Pirâmides (Egito
Antigo): Detalha
a corrida pelo Vale dos Reis. Aborda desde a decifração dos hieróglifos
por Jean-François Champollion usando a Pedra de Roseta até o momento em
que Howard Carter abriu a tumba intacta de Tutancâmon.
O Livro das Torres (Mesopotâmia): Investiga as civilizações
assíria, babilônica e suméria. Revela a busca pela Torre de Babel, a
cidade de Nínive e a tradução da escrita cuneiforme na Epopeia de
Gilgamesh.
O Livro das Escadas (Américas): Dedica-se às civilizações
pré-colombianas, narrando a descoberta de cidades perdidas na selva por
exploradores como Edward Thompson em Chichén Itzá, além dos mistérios dos
povos maias e astecas.
Análise
Crítica: Pontos Fortes
Narrativa Envolvente: O autor utiliza ganchos
literários que transformam os arqueólogos em heróis e aventureiros,
capturando a atenção de leitores de todas as idades.
Humanização dos Cientistas: Em vez de focar apenas em datas,
o livro expõe as obsessões, rivalidades, misérias, intuições brilhantes e
falhas dos pioneiros da arqueologia.
Porta de Entrada Perfeita: Funciona como uma excelente
introdução histórica para não especialistas, despertando o interesse
genuíno pela ciência.
Pontos de
Atenção (Contexto Atual)
Visão Romantizada: A arqueologia moderna é uma
ciência de laboratório altamente minuciosa. O livro, contudo, foca na era
"heroica" (e muitas vezes destrutiva) dos caçadores de tesouros
do século XIX.
Eurocentrismo: Escrito em meados do século XX,
o texto adota o olhar do Ocidente moderno descobrindo o
"exótico" Oriente ou as Américas, uma perspectiva que hoje é
debatida e revisada pelos historiadores.
Veredito
Mesmo após
décadas de sua publicação original, Deuses, Túmulos e Sábios permanece
um clássico absoluto e atemporal. É uma leitura obrigatória para qualquer
pessoa fascinada por mistérios, história antiga ou pela persistência humana em
desvendar o desconhecido
Em
todas as culturas e tradições, o ouro é considerado o rei dos metais, sendo
comparado ao Sol e a tudo que ele representa. O ouro simboliza tudo que é
superior, a luz, o saber, a riqueza, a perfeição, a irradiação e a suprema
iluminação. O raio dourado estimula o físico, o mental e o espiritual, sendo
equilibrador, vitalizante e purificador. Associado à prosperidade em geral, sua
ação vai mais além. Trazer a vibração solar para o seu dia-a-dia, é trazer
prosperidade e sucesso para todos os campos de sua vida.
A Lenda do Ouro.
Os
incas e os astecas davam ao ouro uma significação sagrada, pois este metal
pertencente ao sol produz em cada ser energia revitalizadora. O ouro tornava-os
corajosos, fortes e generosos como o próprio sol. Ele dá autoconhecimento,
autoconfiança e vigor.
HÁ 230 ANOS, ERA DESCOBERTA A IMPRESSIONANTE PEDRA DO CALENDÁRIO ASTECA
A revelação do fascinante artefato de 25 toneladas representou um grande marco para a história
GIOVANNA GOMES PUBLICADO EM 17/12/2020
A famosa Pedra do Sol - Wikimedia Commons
Neste dia, há exatos 230 anos, trabalhadores que realizavam reparos na Cidade do México fizeram uma importante descoberta que viria a ser conhecida como a Pedra do Sol.
A estrutura esculpida em forma de disco com cerca de quatro metros de diâmetro e 25 toneladas representou uma grande conquista para a história.
A descoberta
Na época da descoberta, século 19, o México já se encontrava livre do domínio do Império Espanhol, e, assim, como os demais países da América hispânica, desenvolveu um apreço pelo seu passado indígena, devido à necessidade de modelos para a criação de uma identidade nacional.
Dessa forma, o General Porfirio Diaz exigiu que a pedra, colocada no interior de uma Catedral após a grande descoberta, fosse enviada ao Museu Nacional de Arqueologia e História em 1885, onde se encontra até hoje.
O local recebe mais de dois milhões de visitantes por ano, os quais são atraídos pelo calendário e demais artefatos que permitem o conhecimento da história da civilização asteca.
Como funciona?
O calendário asteca foi elaborado entre 1427 e 1479. Entretanto, ao contrário do que se possa pensar, não foi usado apenas para medir o tempo, mas também como um altar de sacrifícios humanos dedicado a Tonatuih, o Deus Sol que aparece no centro do artefato.
Detalhe da espessura / Crédito: Getty Images
Além disso, não se tratava de apenas um calendário, mas de dois sistemas utilizados pela civilização para se situar no tempo.
O primeiro deles, chamado xiuhpohualli, é classificado como ano solar ou ano agrícola, já que possui 360 dias e descreve rituais relacionados com as estações do ano. É dividido em 18 meses de 20 dias cada.
Já o segundo, conhecido como tonalpohualli, é um calendário ritual e tem 260 dias. Ele é dividido em 20 símbolos divinos que contêm 13 dias cada um. Juntos, os ciclos formavam uma espécie de "século" de 52 anos.
Calendário Asteca no Museu Nacional de Arqueologia e História, 1930 / Crédito: Getty Images
A cada período, o ano novo dos dois ciclos coincidia, de modo que os sacerdotes realizavam um ritual de sacrifício no centro do artefato com o objetivo de fazer com que o sol brilhasse por mais um ciclo. Esse ritual era conhecido como Novo Fogo e durava 12 dias.
Na visão dos astecas, isso era necessário porque o universo estaria num equilíbrio muito delicado, que estaria em perigo constante de ser interrompido, já que, segundo a crença, diferentes forças divinas estariam incessantemente competindo pelo poder. Assim, o ritual servia para deslocar os poderes dos deuses.
CUAUHTÉMOC: HÁ 495 ANOS, CORTÉS ASSASSINAVA O ÚLTIMO IMPERADOR ASTECA
Após a trágica destruição de Tenochtítlan e a execução de Moctezuma, o explorador espanhol passou a torturar o seu sobrinho em busca de tesouros indígenas
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 28/02/2020
Cortés queima os pés de Cuauhtémoc - Wikimedia Commons
Cuauhtémoc foi o último tlatoani asteca a realmente governar e que sofreu os mais duros castigos durante a ocupação espanhola do México. Sobrinho do imperador que recebeu Hernán Cortés (Moctezuma), sua vida era desconhecida até se tornar governante dos mexicas em Tlatelolco, em 1515. Para tanto, esse membro da elite indígena era formado em temas administrativos e era um guerreiro-águia (cuauhtlatoani).
Cuauhtémoc foi convocado como tlatoani em 1520, logo após a destruição de Tenochtítlan pelas tropas de Cortés e a morte de Moctezuma e seu sucessor, Cuitlahuac. Ele teria sido eleito por um conselho de nobres mexicas, como segue a tradição, mesmo que muitos desses guerreiros da elite asteca tenham morrido com o Massacre do Templo Maior.
A situação que o tlatoani se deparou era de caos: as partes do Império Asteca se dissolviam em deserções em massa fomentadas pelos espanhóis, enquanto os maiores centros urbanos estavam destruídos. Cuauhtémoc tentou reatar relações com camponeses dissidentes, sem grande sucesso. A destruição do reino foi tamanha que, aos pés de 1521, somente Tlatelolco mantinha-se fiel ao tlatoani entre os nahuas.
Busto do tlatoani, no México / Crédito: Wikimedia Commons
Em resistência à ocupação da Armada Espanhola, Cuauhtémoc tentava atravessar o Lago Texcoco, onde Tenochtítlan ficava, para articular alianças com vizinhos, quando foi capturado por Hernán Cortés. O imperador chegou a suplicar para que fosse morto, mas o líder europeu não via vantagens naquilo, pelo menos de imediato.
Cortés passou a usar seu domínio sobre o tlatoani como forma de conseguir a submissão das unidades políticas ainda submetidas ao antigo reino nahua de Moctezuma. Com a cumplicidade de seu prisioneiro, conseguiu a cooperação dos astecas na limpeza e reconstrução da capital, na busca por novos súditos ao rei de Castela e na busca e ouro para o ganancioso explorador.
Cortés, então, passou a torturar os líderes indígenas, principalmente Cuauhtémoc (e também um aliado, Tetlepanquetzal) para que revelassem paradeiros de tesouros escondidos. O tlatoani teve seus pés queimados e partes arrancadas, mas resistiu e nunca revelou nenhuma informação. A resistência de Cuauhtémoc fez com que o espanhol temesse a articulação de uma insurreição, optando por levar o prisioneiro a Honduras, longe do centro político asteca.
Imagem representando a morte de Cuauhtémoc, vestido como guerriero-águia, do livro História Verdadeira da Conquista da Nova Espanha, de Bernal Diaz de Castillo / Crédito: Wikimedia Commons
Como Cuauhtémoc tentava, em cada cidade em que parava, alertar as intenções de Cortés, os invasores europeus perceberam que o tlatoani era um perigo para o empreendimento colonial. Então, segundo relatou Bernal Diaz de Castilho, Cortés ordenou a morte de seu importante prisioneiro, de 23 anos, em 26 de fevereiro de 1525. Ela ocorreria no dia seguinte.
Então, após a virada da noite, membros do exército espanhol enforcaram Cuauhtémoc, como demonstração de força e exemplificação do que ocorreria com dissidentes e conspiradores. Tetlepanquetzal e Tlacatlec, líderes de cidades aliadas dos astecas, foram mortos ao mesmo tempo. Contam os relatos de época que Cortés sofreu com noites de isônia após tal horrendo crime.
HÁ 229 ANOS, O CALENDÁRIO ASTECA ERA DESCOBERTO NA CIDADE DO MÉXICO
Utilizado também para sacrifícios humanos, calendário de 4 metros de diâmetro e 1 de espessura está hoje no Museu Nacional de Antropologia do México
JOSEANE PEREIRA PUBLICADO EM 17/12/2019
Calendário Asteca no Museu Nacional de Antropologia do México - Getty Images
Uma pedra em forma de disco com quatro metros de diâmetro e um de espessura, pesando 25 toneladas. Foi isso o que encontraram trabalhadores mexicanos que faziam reparos na Cidade do México em 17 de dezembro de 1790. Mas o que ninguém sabia era que esse viria a ser um dos achados mais importantes sobre os povos Astecas feitos até então.
Destruindo símbolos
Uma parte importante da invasão do Império Asteca, feita em 1521 pelos espanhois, era destruir os símbolos que organizavam aquela civilização. E com esse espírito eles resolveram derrubar o grande santuário “pagão” na praça central de Tenochtitlán, construindo uma Catedral católica acima dele, e também enterrar na praça aquele grande disco de pedra com figuras estranhas.
Calendário Asteca no Museu Nacional de Arqueologia e História, 1930 / Crédito: Getty Images
Durante o século 19, após se tornar independente do Império Espanhol, o México — assim como outros países da América Hispânica, como Bolívia e Peru — desenvolveu um apreço por seu passado indígena, devido à necessidade de modelos para a criação de uma identidade nacional.
E isso fez com que o general Porfirio Diaz exigisse que a pedra, colocada no interior da Catedral após seu achado, fosse enviada ao Museu Nacional de Arqueologia e História em 1885.
O Calendário
Detalhe da espessura / Crédito: Getty Images
Conhecido como Pedra do Sol, o calendário asteca foi construído durante 52 anos, entre 1427 e 1479. E ele não foi usado apenas para medir o tempo, mas também como um altar de sacrifícios humanos dedicado a Tonatuih, o Deus Sol que aparece no centro do artefato.
Mais preciso que os calendários gregoriano e juliano, o calendário asteca era dividido entre os ciclos Ritual e Agrícola, que juntos formavam um “século” de 52 anos. O ciclo ritual, Tōnalpōhualli, tinha 260 dias divididos em 20 símbolos divinos contendo 13 dias cada um. Já o ciclo agrícola tinha 365 dias divididos em 18 meses de 20 dias cada, aos quais se adicionava um período extra de cinco dias de azar.
A cada 52 anos, quando o ano novo dos dois ciclos coincidia, os sacerdotes realizavam um ritual de sacrifício no centro do artefato. Dessa maneira, segundo eles, o sol poderia brilhar por mais 52 anos. O ritual, conhecido como Novo Fogo, tinha a duração de 12 dias.
Atualmente, a Pedra do Sol está em lugar de destaque no Museu Nacional de Antropologia do México, recebendo por ano mais de dois milhões de visitantes ávidos em entender como funcionava aquela grande civilização.
ARQUEÓLOGOS ENCONTRAM TÚNEL SECRETO DOS ASTECAS EM RUA DO MÉXICO
Com intensa movimentação hoje em dia, rua foi construída pelo imperador Montezuma há 600 anos
JOSEANE PEREIRA PUBLICADO EM 31/10/2019
- CEN/INAH/Edith Camacho
Um túnel asteca adornado com esculturas e pinturas foi encontrado sob uma movimentada rua do México. A passagem, que remonta ao século 15, é ligada ao deus da água e da fertilidade – Tlaloc – e foi construída pelo imperador Montezuma I.
Crédito: CEN/INAH/Edith Camacho
Anunciada pelo Instituto Mexicano de Antropologia e História (INAH), a descoberta faz parte de um projeto de conservação de 15 anos, ao redor da Calzada de San Cristobal. O muro estava adornado com esculturas e rochas, e 11 imagens esculpidas decoravam a parede de 27,5 pés de comprimento.
Crédito: CEN/INAH/Edith Camacho
Segundo o INAH, a descoberta tem um "enorme valor arqueológico na cidade de Ecatepec de Morelos, no estado mexicano central de México”. Entre os itens encontrados, estão artefatos de porcelana e vidro, além de restos de estátuas representando pés e figuras decapitadas.
O CHOCOLATE É MUITO MAIS ANTIGO DO QUE PENSÁVAMOS, SUGERE ESTUDO
A descoberta marca a data mais antiga que se tem conhecimento do uso do cacau, que era preparado de maneira bem diferente de como o consumimos hoje
FABIO PREVIDELLI PUBLICADO EM 27/09/2019
Chocolate - Reprodução
O nome chocolate deriva da palavra asteca xocolatl, que era uma bebida amarga produzida a partir do grão de cacau. A maneira como a iguaria era feita é completamente diferente do modo que o consumimos hoje. Em cerca de 90% de sua história, ele foi preparado como um mingau ou líquido e não era nem um pouco doce.
A maioria dos historiadores estima que o chocolate exista há cerca de 4.000 anos, e que o alimento tenha se espalhado do México e da América Central para os Estados Unidos há cerca de 1.000 anos.
O nome ‘chocolate’ deriva da palavra asteca xocolatl, que era uma bebida amarga produzida a partir do grão de cacau / Crédito: Reprodução
Mas novas evidências sugerem que ele já exista há muito mais tempo. Uma nova pesquisa mostra que a iguaria é usada há 5.500 anos e começou a se espalhar da América do Sul, mais precisamente do alto do Amazonas, e não do México, como se pensava anteriormente.
De acordo com um artigo publicado na Discover Magazine, uma equipe multidisciplinar que trabalha no sítio arqueológico em Santa Ana-La Florida, no Equador, conseguiu recuperar alguns grãos de amido e outros resíduos orgânicos de artefatos de pedra e cerâmica.
Ao analisá-los, constatou-se que nos objetos havia cacau cultivado e um parente selvagem chamado Herrania, que tinha entre 5.300 e 5.400 anos. A descoberta não só marca a data mais antiga que se tem conhecimento do uso do cacau, como também indica que ele estava sendo usado na América do Sul.
Alguns dos grãos e resíduos que a equipe descobriu foram preservados o suficiente para que os cientistas pudessem extrair o DNA de ambas as cepas das plantas de cacau e compará-las com as espécies modernas conhecidas. As comparações mostraram que das 22 variedades conhecidas de cacau cultivado e das 17 linhagens de sua variante selvagem, a maioria delas é nativa da região amazônica.
Entre as variedades cultivadas, em particular, havia muita diversidade genética, o que é outro indicativo que sugere de onde as plantas se originaram. Os resultados também mostraram que o DNA é muito mais parecido com as versões mais antigas da planta, que eram encontradas no México, do que com as dos tipos modernos que são cultivados perto de onde o material foi encontrado.
O sítio arqueológico de Santa Ana-La Florida é o local mais antigo conhecido da cultura Mayo-Chinchipe, que se espalhou por partes do Peru e Equador. Desde que foi encontrado, em 2002, produziu provas materiais de que a cultura comercializava com outros grupos da região. É possível que eles fizessem parte de uma rede comercial, explicando assim como o chocolate chegou ao norte do México e da América Central.
Anúncio de chocolate do início do século XX / Crédito: Wikimedia Commons
As evidências encontradas na região sugerem que o relacionamento da Mayo-Chinchipe com o chocolate era um pouco mais casual do que os mesoamericanos. O produto não tinha uso apenas em cerimonias ou na parte medicinal, ele também parece ter sido consumido em contextos mais cotidianos. Mesmo assim, por mais que eles o preparassem com certa frequência, seu aspecto era totalmente diferente do que conhecemos hoje.
Esse jogo é o esporte mais conhecido dos povos mesoamericanos. Em partidas cerimoniais, o time perdedor era decapitado
FABIO MARTON PUBLICADO EM 16/08/2019
- Jogadores em campo / Crédito: Hafaell
O nome era ollamaliztliem nahuatl (asteca) ou pitzem maia. Mas a ideia havia surgido muito tempo antes desses povos, por volta de 1400 a.C. na civilização olmeca, a primeira a construir grandes cidades no México — que incluíam colossais quadras de bola.
Assim, os mesoamericanos jogaram bola por quase 3 mil anos, até a conquista espanhola — ou bem mais, se você considerar o ulama, jogo praticado ainda hoje na região de Sinaloa, que usa os quadris para jogar a bola de um lado a outro.
Entre os maias, que fizeram a maior quadra conhecida em Chichen Itza, os jogos eram revestidos de profundo significado religioso, relacionados ao mito dos Gêmeos Heróis, que teriam desafiado os senhores de Xibalba, o submundo, para uma partida. Os astecas também viam no jogo um sentido cósmico, a batalha do Sol contra a noite.
Mas eles tinham uma atitude bem mais casual: a maioria dos jogos era feita por diversão, com ninguém saindo morto (salvo acidente). Os nobres eram os profissionais, mas plebeus batiam uma pelada em campos improvisados. Havia até banca de apostas.
Mostramos aqui a presumida versão asteca numa quadra inclinada - havia inúmeros tamanhos e variações, com a quadra maia em Chichen Itza com paredes verticais e o anel a impossíveis 6 metros de altura. Presumida porque as regras não são conhecidas em detalhes.
Componentes do campo / Crédito: Reprodução/Hafaell
Confira os detalhes:
Sacrifícios.
Crédito: Reprodução/Hafaell
Em jogos cerimoniais, o time perdedor era sacrificado por decapitação. Algumas figuras em quadras até mesmo mostram os vencedores jogando com suas cabeças.
Como os sacrifícios na sociedade asteca eram de figuras de baixo status, podendo jogar contra verdadeiros ídolos da torcida, os historiadores acreditam que esses jogos eram pré-arranjados e o time dos prisioneiros não tinha a menor chance.
Regras.
Crédito: Reprodução/Hafaell
Como um jogo milenar que passou por muitas culturas, as regras variavam enormemente. Em todas elas, a ideia era não deixar a bola cair nem sair da quadra. Na versão asteca, depois de duas quicadas, no máximo, ela tinha de ser passada para o lado adversário.
Se a parede do outro lado fosse atingida, era ponto. Se o time falhasse em passar, deixasse a bola ir para fora ou falhasse numa tentativa de passar pelo aro, era o adversário que ganhava pontos.
Variações.
Crédito: Reprodução/Hafaell
Acredita-se que a versão principal entre os astecas permitia apenas o uso dos quadris, talvez joelhos. Em outras variações (ou nessa, vai do historiador) podiam valer os punhos, cotovelos, cabeça ou até mesmo tacos, muito parecidos com os do hockey moderno.
Grande prêmio.
Crédito: Reprodução/Hafaell
Como tentar mandar a bola através do anel e errar dava pontos ao inimigo, e como era extremamente difícil fazer isso com os quadris, era raro ver uma bola passar por ele. Mas, quando passava, era o fim do jogo — vitória para quem conseguiu.
Bola.
Crédito: Reprodução/Hafaell
Era feita de uma mistura de borracha de plantas diferentes, para que quicasse de forma ideal. Podia ter 30 cm de diâmetro e pesar até 4 kg — o que fazia com que tivesse um impacto brutal. Os jogadores frequentemente saíam da quadra cheios de hematomas, às vezes com ossos quebrados e, em impactos contra a cabeça, podiam até mesmo acabar mortos.
Jogadores.
Crédito: Reprodução/Hafaell
Os nobres aprendiam a jogar na escola, a calmenac. Quem fosse realmente bom podia se tornar um profissional. Escravos e cativos de guerra, destinados ao sacrifício, também jogavam.
Havia todo um equipamento, espécie de armadura de tecido, couro e madeira, usado para proteger de boladas e ajudar a mover a bola com mais impacto. A proteção nos joelhos era porque os jogadores tinham que se jogar no chão frequentemente.
As táticas brutais do conquistador Hernán Cortéz foram determinantes para a tomada de Tenochtitlán. Com a conquista da majestosa cidade, teve início a colonização espanhola
VINÍCIUS BUONO PUBLICADO EM 13/08/2019.
Conquista de Tenochtitlán - Crédito: Wikimedia Commons
Há 498 anos, em 1521, acontecia o Cerco de Tenochtitlán, marcando o término da conquista do Império Asteca pela Espanha e o início da colonização da América pelo país ibérico.
Os astecas eram um povo nativo da América Central. Uma confederação de cidade-estado que jurava lealdade ao imperador, cuja influência política se estendia por toda a região. A capital, Tenochtitlán, era uma das maiores cidades do mundo à época. Situada no meio do Lago Texcoco, possuía um enorme sistema de aquedutos e canais, além de belos palácios, templos e mercados. A população era de aproximadamente 300 mil habitantes.
O conquistador espanhol Hernán Cortés, antes de chegar à capital do império em 1519, fez diversas alianças com os povos indígenas subjugados pelos Astecas. Tomou, também, uma nativa chamada Malinche como amante, auxiliando na tradução e na comunicação com os indígenas. Até hoje, o nome da moça é sinônimo de traição no México.
Ao chegarem, os espanhóis foram bem recebidos pelos Astecas. Embora essa visão seja disputada por historiadores, por muito tempo acreditou-se que os nativos tenham interpretado a chegada dos brancos europeus como o retorno do deus-serpente Quetzalcoatl.
Os relatos de que teria sido tratado como divindade veio do próprio Cortés, em cartas ao rei Carlos V. Usando disso, ele logo iniciou a conquista do império, prendendo Montezuma em seu próprio palácio e se tornando, de fato, o governante da gigantesca cidade.
O conquistador Hernán Cortés. Créditos: Reprodução
Por dois anos, diversas batalhas se sucederam. Apesar da longa distância, os espanhóis eram tecnologicamente mais avançados, possuíam as alianças feitas por Cortés, o que aumentava seu exército, e tinham a seu favor um dos fatores mais cruéis: a guerra biológica. O sistema imunológico nativo não estava habituado às doenças europeias como avaríola, e muitos foram dizimados dessa forma.
Apesar de eventualmente terem expulsado os espanhóis da cidade na chamada Noite Triste, o destino dos Astecas estava selado. Dizimados pela varíola, abandonados pelos povos que antes dominavam e enfrentando um inimigo cuja tecnologia era superior, era só questão de tempo até que os conquistadores voltassem.
E assim eles fizeram, com um contingente ainda maior. Em 13 de agosto de 1521, após três meses de um longo e violento cerco, Tenochtitlán foi finalmente tomada. Sobre suas ruínas, iniciava-se a construção da Cidade do México, marcando o início da colonização da América pelos espanhóis.
Conheça a História do grande Império que governou o coração do México por mais de 200 anos até a chegada dos espanhóis na América
JULIA PRIOLLI PUBLICADO EM 03/06/2019
Os astecas foram dizimados dois anos depois da chegada dos europeus - Reprodução
“Vendo tantas cidades e vilas situadas na água e outras tantas aldeias em terra firme, fomos tomados de admiração. Por causa das grandes torres e pirâmides que se elevavam da água, alguns soldados chegavam mesmo a se perguntar se aquilo não era um sonho.” As palavras são de Bernal Diaz del Castillo, escrivão do conquistador espanhol Hernán Cortéz, que chegou à região da atual Cidade do México em novembro de 1519.
O deslumbre é justificado. Tenochtitlán, a capital do Império Asteca, era uma metrópole de 15 quilômetros quadrados, incrustada num lago, interligada às margens por calçadas artificiais e entrecortada por uma rede de canais e aquedutos. Não fossem os habitantes tão estranhos aos olhos europeus, a cidade se confundiria com Veneza – só que mais bonita e higiênica.
Cortéz e seus homens foram bem recebidos. Montezuma II, o imperador dos astecas, não sabia o que pensar daquele capitão de cabelos dourados montado em um cavalo, animal nunca antes visto por ali. Poderia ser o deus Quetzalcoatl que retornava à Terra. Na dúvida, achou sábio fazer um agrado. Entre pedras preciosas e iguarias, o imperador ordenou que seus mensageiros presenteassem o estrangeiro com um banquete de carne humana.
Os espanhóis desconfiaram do cheiro forte de sangue e descobriram, horrorizados, o que estavam comendo. Vomitaram imediatamente e não aceitaram mais nenhum alimento. Era um mau sinal. Fossem eles deuses ou não, as coisas não seriam nada fáceis para os astecas. Dois anos depois, sua civilização estava dissolvida. Desaparecera tão rápido quanto havia se desenvolvido.
Longa peregrinação
Os astecas não surgiram na América Central. Sua história tradicional diz que eles vieram de Aztlán, um lugar ao norte. A localização exata é um mistério. “Aztlán poderia estar em qualquer lugar, de Washington ao noroeste mexicano. Nahuatl, a língua falada pelos astecas, é aparentada com o idioma apache”, diz Eduardo Natalino dos Santos, historiador do Centro de Estudos Mesoamericanos e Andinos da Universidade de São Paulo.
Não se sabe quando e onde eles se organizaram, mas é certo que se tratava de um povo seminômade, caçador e coletor, que utilizava arco e flecha, desconhecia a agricultura e a escrita, e cultuava seus próprios deuses. Os demais povos da região os chamavam de chichimecas, que na língua nahuatl significa bárbaros.
A partir de 1168, os astecas deixaram Aztlán e começaram uma marcha às cegas, em busca de um sinal que indicasse onde eles deveriam se estabelecer. “Quase nada sabemos sobre a organização da tribo em marcha. Os manuscritos históricos retratam-na guiada pelos sacerdotes. Eles conduziam sobre os ombros um envoltório com objetos relacionados ao deus Huitzilopochtli, divindade solar representada por um colibri”, afirma Jacques Soustelle no livro A Civilização Asteca. Certo dia, surgiu o sinal tão esperado: no lugar em que encontrassem uma águia com uma serpente na boca, sobre um cacto, em cima de uma pedra, no meio de uma ilhota, eles deveriam erigir sua civilização.
A imagem já se banalizou: está na atual bandeira do México, e o nome do país surgiu durante a longa peregrinação. “Eles eram chamados astecas porque vieram de Aztlán, ou mexicas, porque, durante a marcha, os deuses os batizaram assim, em honra a um sacerdote”, diz o arqueólogo Eduardo Matos Moctezuma, descendente direto do imperador asteca.
O tlatoani Montezuma II / Crédito: Wikimedia commons
Em 1325, os mexicas se depararam com a ilha, a águia, a cena completa. Quando começaram a construir sua própria civilização, estavam no México central, uma região habitada por centenas de populações diferentes nos séculos anteriores. Mil anos antes, florescera no planalto central Teotihuacán, enquanto os maias surgiam ao sul e os zapotecas mais a oeste.
Com o declínio da cidade, a região foi gradativamente ocupada por 28 cidades-Estado que se revezavam em hegemonia e subordinação. A partir do século 14, os astecas, que peregrinavam desde o norte distante, tentaram se estabelecer no local. Mas foram aos poucos enxotados até a região pantanosa do lago Texcoco, onde nenhum outro povo arriscara viver. Lá eles fundaram sua civilização.
A primeira construção teria sido um singelo templo de madeira, ofertado ao deus Huitzilopochtli. “Os astecas dessa época levavam uma vida anfíbia, com suas pirogas e redes, subsistindo graças à pesca e à caça de pássaros aquáticos. Modestas aldeias estendiam-se sobre as ilhotas”, escreve Soustelle. Apesar da humildade, eles desejavam ter um soberano nobre, e assim, em 1375, entronizaram Tlatoani, descendente de uma dinastia tolteca (povo que os astecas admiravam).
Esse rei e seus sucessores não conseguiram escapar ao controle do monarca da cidade vizinha de Azcapotzalco, que dominava a região. Até que um líder chamado Itzcoatl iniciou um movimento de resistência. Aliado ao herdeiro legítimo do trono da região de Texcoco, ele venceu e destruiu Azcapotzalco. Da tríplice aliança entre esses dois líderes e o rei da cidade vizinha de Tlacopan, começava, enfim, o Império Asteca.
Ao morrer, em 1440, Itzcoatl havia reescrito a história de seu povo. “Seu reinado promoveu uma reforma da religião e da ideologia”, diz a arqueóloga Leila Maria França, da USP. Os cinco imperadores que o sucederam preocuparam-se em dominar novos territórios. O passo seguinte, dado em 1472, foi transformar antigos parceiros em vassalos.
Quando os espanhóis chegaram, em 1519, o império tinha 38 províncias e o número total de habitantes chegava a 1 milhão, sendo que 300 mil viviam na maior cidade, Tenochtitlán. “Os astecas então adotaram a vida urbana. A capital estendia-se por milhares de hectares de ilhas e terras pantanosas, que 200 anos de labuta gigantesca haviam transformado em uma rede geométrica de canais, ruas e praças, verdadeira Veneza ligada às margens por três passagens elevadas”, afirma Jacques Soustelle.
O povo asteca ganhou novos hábitos com uma rapidez impressionante. Seus cidadãos agora tinham livros, escolas, ofícios variados e uma vida ritualística intensa. Liam e escreviam, tinham uma compreensão evoluída de astronomia e uma cidade arquitetonicamente sustentável. Adotaram um calendário solar e outro para a agricultura – praticada nas chinampas, plataformas artificiais de terra, feitas com estacas e lodo do lago. Assim, a área de plantio não dependia do regime de chuvas.
Os sacrifícios humanos
Mas uma prática se manteve: fazer sacrifícios humanos aos deuses em cerimônias grandiosas. Sacrificava-se para que a colheita fosse boa, para que a terra não tremesse, para agradar aos deuses. Certa vez, 48 crianças foram mortas durante uma cerimônia para que chovesse. Os tipos de sacrifício variavam bastante. Era comum esfolar um cativo vivo e vestir sua pele. Também se jogava a vítima no fogo ou arrancava-se seu coração antes que ela morresse. “O coração pulsante era símbolo de vida e energia, da qual a deidade e o Cosmos seriam revestidos”, diz a arqueóloga Leila Maria França.
Sacrifícios humanos / Crédito: Reprodução
A modalidade mais comum era deitar o prisioneiro de peito aberto sobre uma rocha, arrancar o coração com uma faca, guardá-lo num recipiente e jogar o corpo pirâmide abaixo. “Os donos dos cativos mortos comiam os restos mortais em banquetes, no meio da multidão”, afirma França. Havia um motivo para tudo isso: de acordo com a cosmologia do povo mesoamericano, os deuses se sacrificaram para que o mundo surgisse, e era necessário repetir o gesto para mantê-lo.
Todos os cidadãos tinham compromissos religiosos, mas as obrigações para com o imperador variavam de acordo com a casta. A sociedade era estratificada. A maioria da população prestava serviço militar, pagava impostos, era responsável pela conservação dos caminhos e pela construção das pirâmides e diques. Abaixo dessa classe, só os escravos. Não eram cidadãos, mas moravam, comiam e se vestiam como qualquer um e eram bem tratados por seus senhores.
A classe dos artesãos era extremamente conceituada na sociedade asteca. Eles faziam joias e eram bem remunerados. Depois vinham os poderosos comerciantes, que detinham o monopólio das mercadorias de luxo.
Viajavam em caravanas para trocar produtos e acabavam lutando contra povos hostis de outras cidades-Estado, o que agradava ao imperador. Por fim, havia a nobreza e os sacerdotes. Eram isentos de impostos e levavam uma vida luxuosa sustentada pelo Estado. As posições não eram estanques. Qualquer cidadão destacado poderia ocupar postos importantes no governo.
Poligamia e chocolate
Havia dois tipos de escola. Uma mais popular, frequentada pelas camadas baixas, em que o conteúdo era praticamente militar, e outra elitizada, em que se ensinava o sistema de escrita dos códices e os calendários, e se preparavam os jovens para o sacerdócio. As meninas aprendiam a cantar e dançar. Com apenas 10 anos de idade, já estavam casadas e passariam a vida cuidando das atividades domésticas. Os homens podiam ter várias esposas. Mas, se antes de casar fossem pegos bêbados ou correndo atrás de mulheres, eram atirados vivos ao fogo.
As bebidas mais consumidas eram o pulque, feito da fermentação de um cacto chamado agave, e o chocolate frio – uma batida espumosa de pó de cacau, com grãos de milho e água. Para estabelecer conexão com os outros seres do Universo, eles comiam cogumelos alucinógenos e peiote, uma espécie de cacto.
Os camponeses viviam em casas singelas, com paredes de barro e teto de palha. Já os templos e palácios eram suntuosos. O Templo Maior, dedicado a Huitzilopochtli, deus da guerra, e Tlaloc, deus da chuva, tinha 27 metros de altura e 90 de largura. O palácio de Montezuma também era impressionante.
Soustelle descreve a construção: “Situado em um quadrilátero de 200 metros de lado, apresentava-se como um vasto conjunto de edifícios com um ou dois andares, agrupados em torno de jardins interiores. Ali se penetrava tanto por terra quanto por água. Era composto de apartamentos, salas de reunião, tribunais, depósitos do tesouro, escritório dos coletores imperiais, salas de música e dança, viveiro de pássaros tropicais, um jardim zoológico repleto de jaguares, pumas, aves de rapina e serpentes com cauda de chocalho”.
Futebol profético
Jogo de pelota / Crédito: Revista Arqueologia Mexicana
De maneira geral, todos os astecas tinham um padrão de higiene bastante elevado para os costumes europeus da época. Eles inclusive limpavam os dentes com carvão e sal para prevenir as cáries. Para passar o tempo,jogavam pelotas. O jogo consistia em rebater uma bola de borracha com as coxas e quadris, tentando acertar um aro que ficava em cima de um campo comprido e retangular.
O esporte era praticado por todas as civilizações na mesoamérica, com regras diferentes. “Quando o chefe de Texcoco profetizou que estrangeiros governariam o México, Montezuma II jogou pelotas com ele para provar que ele estava errado. Perdeu o jogo por 3 a 2 e deixou o campo amedrontado. Dois anos depois chegaram os espanhóis”, diz John Clare em Astecas, Vida Cotidiana.
Outros presságios atormentaram o imperador. Segundo códices escritos depois da conquista, os astecas tomaram conhecimento da vinda dos europeus por meio de oito agouros funestos: templos que se incendiaram sozinhos, raios que caíram sobre pirâmides, cometas e inundações, entre outros. Quando soube da chegada da grande nau que flutuava no mar, Montezuma II mandou mensageiros. As notícias seguintes o afligiram ainda mais. Após a tentativa fracassada de agradar com carne humana, as relações só se complicaram.
O fim do império asteca / Crédito: Reprodução
Cortéz ficou sabendo de todo o ouro que reluzia na capital mexica e marchou para lá, causando carnificinas tão sangrentas quanto os sacrifícios dos nativos. Aliados aos tlaxcaltecas, povo que nunca se submeteu ao domínio asteca, os espanhóis traziam consigo a varíola. Chegando a Tenochtitlán, o imperador os recebeu cordialmente. Montezuma II acabou preso, teve seu tesouro saqueado e ainda ficou com fama de traidor.
Em 20 de maio de 1521 acontece o Massacre do Grande Templo. Durante um ritual a Huitzilopochtli, que acontecia com a conivência dos espanhóis, todos os nativos presentes foram presos e assassinados. Cortéz não estava. Mas, na chamada Noite Triste, de 30 de junho de 1520, ele liderou seus soldados numa guerra contra os mexicas. Pólvora contra lanças de obsidiana, canhões contra flechas.
Os astecas teriam vencido, não fossem as forças tlaxcaltecas que vieram em socorro dos estrangeiros. Dias depois, Montezuma morreu. Não se sabe se pela mão dos espanhóis ou abatido por uma pedra arremessada por alguém da multidão asteca.
Cuhautemoc, o segundo sucessor (e que viraria herói mexicano), repeliu outros 20 assaltos. Rendeu-se em 13 de agosto de 1521. Com ele, caía todo o Império Asteca. Os espanhóis ergueram suas igrejas sobre os templos, usando as pedras originais. Destruíram as imagens dos deuses e proibiram cultos, oferendas e sacrifícios. E o povo, resignado, recorreu ao sincretismo religioso para poder adorar, em segredo, seus deuses do passado.
Documentos do século 16 revelam práticas ritualísticas envolvendo o nascimento dos bebês - que incluíam a relação sexual até o sétimo mês de gravidez
JOSEANE PEREIRA PUBLICADO EM 30/04/2019
- Crédito: Divulgação
Assim como em nossa sociedade, o parto entre os antigos Astecas envolvia uma série de rituais e tradições, dos quais apenas as mulheres podiam participar e que eram essenciais para a vida da criança que estava chegando -- vinda do 13º céu e colocada pelos deuses na barriga da mãe. Muito do que se sabe sobre essas práticas está documentado em um livro escrito no século 16 por Bernardino de Sahagún, um frade espanhol que vivia próximo ao que hoje é a Cidade do México e que reuniu em seu manuscrito ilustrado "História Geral das Coisas da Nova Espanha os métodos e rituais de parto astecas.
A Parteira-tlamatlquiticitl
Esse nome cuja pronúncia nos é quase impossível era essencial nos rituais de nascimento. A parteira, guia sábia e confidente com conhecimentos medicinais, fazia visitas regulares à gestante onde realizava exames para checar a saúde do bebê. No caso de uma mãe de primeira viagem, ela a aconselhava sobre hábitos alimentares e temperatura da água no banho, e recomendava que a mulher continuasse a fazer sexo até o sétimo mês de gravidez “porque se ela se abstivesse completamente do ato carnal, o bebê nasceria doente e fraco”. A tlamatlquiticitl também impedia a futura mãe de levantar muito peso, assim como recomendava que ela "evitasse tristeza, raiva e surpresas para não abortar ou prejudicar o bebê".
Preparando a casa
A limpeza e ordem da sociedade asteca, registradas pelos surpresos espanhóis, também eram essencial nos costumes do parto. O corpo e espírito da mulher, assim como a sala de parto e a casa em si, deveriam estar completamente limpos para receber a criança, e algo que auxiliava na limpeza era o "Temascal", espécie de sauna localizada fora da casa em cujo interior eram colocadas ervas aromáticas e lenha. Essas práticas ajudavam no relaxamento e reduziam as dores de parto e, uma vez iniciadas as contrações, a mulher recebia chás especiais para empurrar o bebê. Caso a mulher ainda não estivesse dilatando, “davam-lhe metade do dedo da cauda de um animal chamado 'tlacuatzin'. Então ela daria à luz facilmente."
Temascal no códice magliabechiano do século 16 / Créditos: Wikimedia Commons
Como as indígenas do território brasileiro, a mulher asteca dava à luz com a gravidade ao seu favor -- em posição agachada, minimizando os esforços do parto. Sahagún observa isso com grande admiração, registrando que as mulheres da Nova Espanha davam à luz com muito menos esforço que as europeias, se recuperando tão velozmente que não sofriam com pós-parto e podiam voltar a engravidar logo depois.
A chegada de uma nova vida
Assim que o bebê era recebido no mundo, a parteira observava a higiene de ambos. Primeiro, a mulher voltava ao temazcal para suas toxinas restantes e relaxar para iniciar a produção de leite e a criança era lavada para que Chalchiuhtlicue, deusa das águas, "purificasse seu coração e o tornasse bom e limpo".
Para monitorar o suprimento de leite, a parteira permanecia em sua casa por mais quatro dias. A placenta era enterrada em um canto da casa e, caso fosse menino o cordão umbilical era dado a um guerreiro para que fosse enterrado em território inimigo -- como os homens astecas guerreavam muito, esse ritual daria força e coragem ao futuro guerreiro. Se fosse menina, o cordão era enterrado próximo à lareira para torná-la uma boa esposa e mãe.
Deusa Chalchiuhtlicue / Créditos: Reprodução
Logo após o nascimento, anciãos citavam passagens do livro "Huehuetlatolli", palavras de boas-vindas para cumprimentar o bebê. O pai devia informar aos sacerdotes locais o dia e horário de nascimento do bebê, e esses por sua vez consultavam o almanaque "Tonalamatl", estruturado com base no ano asteca de 260 dias para identificar um bom nome para a criança. Segundo Sahagún, o propósito era "predizer sua boa ou má fortuna com base nas qualidades do signo em que nasceu".
Do berço ao túmulo
Apesar dos cuidados prestados, o parto muitas vezes era letal. Se a mãe morria em trabalho de parto, ela era considerada um guerreiro que morrera em combate e enterrada durante o crepúsculo em um templo especial e sua alma viajava para a casa do sol.
Caso o feto fosse natimorto, “a parteira pegava uma faca de pedra chamada 'itztli', cortava o cadáver dentro da mãe e o removia em pedaços”, procedimento aterrador que, apesar de tudo, “salvava a mãe da morte”. As crianças que morriam no trabalho de parto viajavam a um lugar chamado "Chichiualcuauhco", onde uma árvore amamentava-as com seu leite. Lá elas permaneceriam, até que os deuses as enviassem de volta para nascerem de outra mãe, e os ciclos de nascimento e morte continuassem a acontecer.