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segunda-feira, 27 de abril de 2020

Os horrores de Auschwitz a partir de relatos de uma sobrevivente.

OS FORNOS DE HITLER: OS HORRORES DE AUSCHWITZ A PARTIR DOS RELATOS DE UMA SOBREVIVENTE

Escritora Olga Lengyel revela as atrocidades a qual foi submetida e como perdeu seus familiares durante o Terceiro Reich
THIAGO LINCOLINS PUBLICADO EM 27/04/2020
Fornos da morte de Hitler
Fornos da morte de Hitler - Divulgação
Arbeit machr frei (O trabalho liberta, em tradução livre). Era essa a inscrição na entrada do maior campo de concentração nazista. Erguido em 1940 nos subúrbios da cidade de Oswiecim, na Polônia, ele tinha três partes: Auschwitz I, a mais antiga; Auschwitz II-Birkenau, que reunia o aparato de extermínio; e Auschwitz III-Buna, com cerca de 40 subcampos de trabalho forçado.
As primeiras vítimas do nazismo foram poloneses, seguidos de soviéticos, ciganos e prisioneiros de guerra. Em 1942, o campo voltou-se para a destruição em massa dos judeus. Lá, cerca de 1,1 milhão de pessoas morreram a maioria em câmaras de gás. Em Auschwitz, os presos eram obrigados a usar insígnias nos uniformes conforme a categoria — “motivo político” era um triângulo vermelho; “homossexual”, um rosa. Muitos foram usados em experimentos médicos.
Entre as vítimas estava Olga Lengyel. Uma judia que vivia com o marido e os seus filhos na cidade de Cluj, capital da Transilvânia. Ao ouvirem relatos sobre as atrocidades cometidas pelos nazistas em terras ocupadas, não acreditaram que isso poderia se tornar um pesadelo real.
Corredor de celas em Auschwitz / Crédito: Wikimedia Commons

Em 1944, o seu marido, que era médico, seria deportado para Alemanha. Ela acreditava que o companheiro seria enviado para suprir a falta de médicos, e assim optou por segui-lo com os filhos. Contudo, era uma emboscada. O destino final da família seria Auschwitz. No local, Olga perdeu a sua família. Entretanto, sobreviveu para contar a sua trajetória.
Publicado pela primeira vez no Brasil, em 2018, pela Editora Crítica, Os Fornos de Hitler, apresenta um dos primeiros relatos sobre o horror dos campos de extermínio nazistas. “As pessoas devem se unir em momentos de perigo. Colocar em risco um grupo significa colocar em risco todos nós”, afirma a autora. “Memórias não servem apenas para nos lembrarmos do que aconteceu. Elas guiam nossas ações no futuro.”
Entrada de Auschwitz com a frase Arbeit machr frei (O trabalho liberta, em tradução livre) / Crédito: Wikimedia Commons

Com uma narrativa emocionante e crua, Lengyel detalha como era a vida em Auschwitz e o horror cometido pelos nazistas. Confira um trecho:
(...) Os alemães deixavam vivos alguns milhares de deportados de cada vez, mas apenas para facilitar o extermínio de milhões de outros. Faziam tais vítimas executar seu trabalho sujo. Elas faziam parte do sonderkommando. Trezentas ou quatrocentas serviam em cada forno do crematório. Seu dever consistia em empurrar os condenados para dentro das câmaras de gás e, depois que o assassinato em massa tivesse sido cometido, abrir as portas e transportar os cadáveres.
fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/historia-livro-os-fornos-de-hitler-auschwitz 

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Campo de Concentração de Auschwitz: 10 fatos perturbadores sobre a vida dos prisioneiros.

CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE AUSCHWITZ: 10 FATOS PERTURBADORES SOBRE A VIDA DOS PRISIONEIROS

Hoje, o atroz campo da morte é símbolo dos crimes de Terceiro Reich contra minorias da Alemanha do século 20
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 13/04/2020
Entrada de trem de Auschwitz
Entrada de trem de Auschwitz - Getty Images
O campo de concentração e trabalho de Auschwitz-Birkenau foi o mais insólito de toda a Alemanha Nazista, provavelmente pela proporção brutal de assassinatos e pelas fotos que puderam ser divulgadas ao mundo com o fim da Guerra.
O horrendo local foi passagem ou lugar da morte de nomes que entraram para a História, como Anne Frank, Primo Levi, Elie Wiesel e Simone Veil, além de milhões de presos políticos.
Construído como campo em 1940 na Polônia, o local funcionou até janeiro de 1945, quando o Exército Vermelho, na Grande Marcha Patriótica, derrubou o comando nazista e libertou os prisioneiros do lugar. Além de pilhas de cadáveres, resultado do projeto Solução Final, foram encontrados muitos prisioneiros sofrendo com doenças, inanição e depressão.
Pelotão russo liberta judeus ucranianos em Auschwitz / Crédito: Getty Images

No aniversário de 75 anos da libertação do campo de Auschwitz, conheça 10 fatos sobre o recinto da morte, que até hoje simboliza crueldade do bárbaro projeto de superioridade racial nazista, que atingiu judeus, ciganos, negros, eslavos, árabes e diversos outros povos.
1. Mortos pelo ódio.
Durante os cinco anos de funcionamento do campo de concentração, foram mortas mais de 1,1 milhão de pessoas, sendo 1,3 que lá foram aprisionadas.

2. Mais que a própria guerra.
O jovem Ivan Dudnik, que foi resgatado em 1945, debilitado fisica e mentalmente / Crédito: Getty Images

As mortes geradas pela política de extermínio dos nazistas, só em Auschwitz, somam mais óbitos do que as mortes de soldados dos EUA (405 mil) e do Reino Unido (380 mil) durante todas as Batalhas da Segunda Guerra Mundial.

3. Primeiro contato.
A primeira vez que o mundo conheceu os crimes cometidos em Auschwitz só foi possível pela ação voluntária de um soldado polonês chamado Witold Pilecki, que foi enviado para o local como espião. Pilecki coletou o máximo de informações possíveis sobre o local e, com o treinamento que tinha, fugiu do campo e divulgou os horrores que as vítimas sofriam na mão dos nazistas.

4. A saga dos traidores.
Stella Kubler-Isaacksohn / Crédito: Wikimedia Commons

A judia Stella Kubler-Isaacksohn foi uma das responsáveis pela falha da fuga de diversos judeus do campo de Auschwitz. Isso porque ela era informante do comando nazista e denunciou cerca de três mil fugitivos até 1943. Depois disso, sua família foi enviada para o campo, fazendo com que ela entrasse em conflitos particulares.

5. Paixão incomum.
Franz Wunsch, guarda do campo de concentração, se apaixonou por Helena Citronova, uma das prisioneiras judias, o que a impediu de ser executada por outros soldados da SS. Quando o campo foi liberto pelas tropas do Exército Vermelho, a judia testemunhou a favor do nazista nos tribunais de guerra que julgaram os crimes comandados por Berlim.

6. O Anjo da Morte.
Mengele / Crédito: Wikimedia Commons

Uma das figuras mais insólitas do campo de Auschwitz foi o médico nazista Josef Mengele, um pesquisador que realizava atrozes experimentos biológicos em prisioneiros, tratando aqueles que julgava inferiores como cobaias animais. Diversos judeus foram torturados nas mãos de Mengele, incluindo gêmeos.

Durante os dois anos em que passou em Auschwitz, um boxeador judeu chamado Arouch foi obrigado a entrar em lutas para entretenimento dos oficiais nazistas, que apostavam nessas ocasiões. Nas disputas entre os prisioneiros, Salamo saiu invicto com 200 vitórias, enquanto os derrotados eram executados. Ele sobreviveu ao campo em morreu somente em 2009.

8. Renda do trabalho.
"O trabalho liberta", mensagem escrita nos portões de Auschwitz / Crédito: Wikimedia Commons

Existindo como um campo que era dividido em setores de trabalho escravo, Auschwitz rendeu uma fortuna para o Estado e empresas alemãs durante sua existência. No total, foram 700 milhões de dólares gerados na base da escravização de povos durante os cinco anos.

9. A Cadela de Belsen.
Uma das figuras mais cruéis do campo foi Irma Grese, apelidado de Cadela de Belsen. Atuando como funcionária do campo de concentração, simbolizava a brutalidade nazista ao andar pelo local com um chicote, torturando prisioneiros. Em seu quarto, ela colecionava artigos feitos de partes humanas, como um abajur de pele.

10. Proporção infeliz.
Hoje, o local é um museu da memória do Holocausto / Crédito: Wikimedia Commons

Em geral, cerca de sete mil nazistas prestaram serviços como funcionários do campo de Auschwitz durante os seus cinco anos de existência. Porém, apenas 750 deles sofreram com algum tipo de punição pelos crimes lá cometidos. Isso dá uma proporção de 10,7% de criminosos julgados.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Dita Kraus, a triste saga da judia que clandestinamente se tornou bibliotecária de Auschwitz.

DITA KRAUS, A TRISTE SAGA DA JUDIA QUE CLANDESTINAMENTE SE TORNOU A BIBLIOTECÁRIA DE AUSCHWITZ

Em diferentes campos de concentração, Kraus enfrentou a fome, doenças, trabalhos forçados e viu prisioneiros praticarem canibalismo
VANESSA CENTAMORI PUBLICADO EM 02/04/2020
Divulgação
Divulgação - Dita Kraus na juventude
Em 12 de julho de 1929, nascia em Praga, atual capital da República Checa, Dita Kraus, uma menina que passou a infância sem saber da sua própria origem judaica. Sua família era socialista e de classe média e ela nunca se sentiu diferente das outras crianças — até que completou 10 anos de idade e surgiu o advento do holocausto, cancelando todos os seus sonhos e planos. 
“Eu descobri a palavra judeu, pela primeira vez, quando estava no terceiro grau”, conta Kraus, em seu livro A Delayed Life: The True Story of the Librarian of Auschwitz, lançado este ano, em fevereiro de 2020. Hoje, Dita Kraus está com 90 anos de idade, mas ainda tem lembranças amargas da sua infância e adolescência, sugadas pelo Terceiro Reich. 
A guerra começa.
Quando tinha 10 anos de idade, o exército alemão nazista ocupou a até então Tchecoslováquia. Várias restrições absurdas começaram a atingir a comunidade judaica e o pai de Kraus foi demitido do seu emprego. 
Dita Kraus com sua mãe e seu pai / Crédito: Divulgação / Youtube 

Até que, em 1942, a família de Kraus foi deportada para o gueto Theresienstadt, para onde 150 mil judeus foram realocados em condições deploráveis. Grande parte deles eram transportados depois para campos de concentração. E foi exatamente isso que ocorreu com a menina judia. 
Em dezembro de 1943, quando ela completou 14 anos de idade, sua família foi levada até Auschwitz-Birkenau. Lá, foram forçados a ficar na seção BIIb, onde havia 32 barracas, nas quais homens e mulheres dormiam separadamente. 
Resistência em Auschwitz.
Dita Kraus escreveu em sua autobiografia de 2020 que sua mãe e ela decidiram morrer, assim que chegaram em Auschwitz, pois elas chegaram em um ponto de total desespero. Porém, a morte não chegou naquele momento para elas, somente para o pai da menina, que não resistiu e faleceu logo na chegada do campo de concentração. 
Entrada de Auschwitz / Crédito: Divulgação / Youtube 

Dita Kraus então foi para o Bloco das Crianças, que era comandado por Fredy Hirsch, líder do movimento juvenil sionista. Hirsch convenceu os soldados da SS que no Bloco das Crianças houvesse uma parte dedicada onde elas ficariam durante o dia. Conseguiu então criar de modo clandestino uma parte educativa dentro do barracão. 
A Bibliotecária.
Dita Kraus conseguiu administrar uma biblioteca dentro do espaço, com livros que eram trazidos por ela mesma, que os escondia dentro da saia dela. As obras eram coletadas nas bagagens de judeus mortos recém-chegados em Auschwitz.
A coleção de livros que se formou era bem diminuta, composta apenas por no máximo 12 volumes, amassados e sem lombada. As preciosidades literárias eram guardadas sob o maior sigilo debaixo de tábuas soltas no chão.
Lá estavam títulos como Uma Breve História do Mundo, de H.G. Wells e As Aventuras do Bravo Soldado Svejk, de Jaroslav Hasek.“As obras não eram de entretenimento”, recordou Kraus, em seu livro. “No entanto, eram cuidadosamente passadas de mãos em mãos e apreciadas, sempre voltando em bom estado”. 
Crianças em Auschwitz / Crédito: Divulgação / Youtube 

Além dos livros físicos, alguns adultos também faziam o papel de livros vivos, contando seus conhecimentos e histórias. O papo era trocado longe da visão dos soldados da SS, que no máximo pensavam que as crianças estavam aprendendo alemão ou jogando algum jogo. 
O tempo em Auschwitz era precioso. “Estávamos famintos e cientes de que nossas vidas terminariam em alguns meses nas câmaras de gás”, contou Kraus, ao site The Media Online. 
Um encontro com Mengele.
Em março de 1944, os nazistas começaram a encaminhar pessoas do campo familiar para as câmaras de gás. Kraus quase foi para uma delas, mas os alemães decidiram enviar alguns dos sobreviventes para trabalhos forçados.
A moça encontrou o temido médico Mengele, que decidiu seu destino. “Fui escolhida por Mengele junto a outras 1,5 mil mulheres para ser enviada à Alemanha para trabalhar. Foi assim que sobrevivi”, contou Kraus. 
Prisioneiros em Auschwitz / Crédito: Divulgação / Youtube 

A libertação.
Em junho de 1944, Dita Kraus foi encaminhada para um campo de concentração alemão em Hamburg. Em abril do ano seguinte, ela e a mãe foram para Bergen Belsen, onde quase morreram de desnutrição. A garota teve tifo, mas se recuperou. A mãe, por outro lado, morreu em 29 de junho de 1945. 
Em Bergen Belsen, a menina testemunhou mulheres cozinhando carne humana para se alimentarem. Ela não praticou o ato de canibalismo, mas viu muitos morreram sem alimento. "Os presos enfraquecidos não tinham forças para caminhar até a latrina e a se aliviavam onde quer que estivessem. Eles também morriam lá mesmo", descreveu Kraus, na sua autobiografia. 
Dita Kraus, durante a velhice / Crédito: Divulgação 

Mas o sofrimento finalmente teve fim quando o exército dos aliados resgatou os prisioneiros em 15 de abril de 1945. Kraus, aos 16 anos de idade, no mês de julho daquele mesmo ano, voltou à Praga. Descobriu então que somente sua avó e a esposa do primo do pai dela estavam vivas. Conheceu depois Ota a B. Kraus (1921 - 2000), também um sobrevivente de Auschwitz, com quem se casou em 1947.

+AH - Andor Stern, o único sobrevivente brasileiro do Holocausto

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Gestantes de Auschwitz: a cruel saga das mães e dos bebês nos campos da morte.

GESTANTES DE AUSCHWITZ: A CRUEL SAGA DAS MÃES E DOS BEBÊS NOS CAMPOS DA MORTE

Consideradas como ameaça ao extermínio, nazistas realizaram o "controle da natalidade de judeus". Inúmeras grávidas foram torturadas até a morte
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 19/09/2019



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- Reprodução

Em Auschwitz, havia um local em que foram erguidos barracões usados como latrina. Também servia de ponto de encontro para o prisioneiros. No local, realizavam encontros e faziam sexo rodeados de excrementos, ao cheiro de carne queimada exalando dos crematórios.
“Era ali que prisioneiras e prisioneiros se encontravam para ter relações sexuais furtivas e sem alegria, nas quais o corpo era utilizado como uma mercadoria com a qual pagar os produtos de que tanto se necessitava e que os homens eram capazes de roubar dos armazéns”, relata Gisella Perl.
Perl era uma ginecologista romena que publicou suas memórias do campo de concentração em 1948, quando divulgou ao mundo seu papel de controladora da natalidade entre os prisioneiros. Ela conta que, mesmo com o esforço em inibir o desejo sexual entre os judeus, ocasionados pelos nazistas perante o acréscimo de nitrato de potássio na comida, a libido e vontade pelo sexo ainda “era um dos instintos mais fortes”.



Perl já idosa / Crédito: Reprodução

O problema é que muitas mulheres engravidaram. E isso era absolutamente perigoso - os carrascos nazistas enxergavam nisso uma ameaça ao extermínio. “Não me parece justificável exterminar os homens [...] e deixar que seus filhos cresçam e se vinguem de nossos filhos e netos”, colocou Himmler. Nesse cenário, Perl começou um trabalho de interrupção das gestações, para salvar a vida daquelas mães.
A trágica incumbência.
A jornada de Perl foi resgatada por um artigo de Georg M. Weisz e Konrad Kwiet publicado na revista Rambam Maimonides Medical Journal, de Israel. Segundo o trabalho, Perl nasceu em 1907, na Transilvânia e trabalhava como ginecologista até a invasão da Romênia por Hitler. Em cinco dias, foi encaminhada para Auschwitz e nunca mais reviu seus familiares.
Na Polônia, ela foi convocada por Mengele para que reanimasse judias que ficaram inconscientes após sessões de retirada de sangue. Contraditoriamente, a Wehrmacht estava encaminhando esse sangue para o front. “A rassenschande, a contaminação com o sangue judeu inferior, foi esquecida”, lembrou Perl.
A partir de 1943, por diligência de Himmler, o esforço no controle da natalidade de judeus foi acirrado e, com isso, mulheres grávidas, mesmo aptas a trabalhar, eram levadas às câmaras de gás ou aos incineradores. “seus bebês recém-nascidos eram assassinados com injeção letal ou afogados”, explicam Weisz e Kwiet.
Em Auschwitz, as grávidas foram enganadas. Quando eram enfileiradas, as judias recebiam a informação de que as gestantes seriam encaminhadas para um local onde receberiam ração dobrada, pela condição, e que, portanto, deveriam dar um passo a frente para a seleção. A farsa só foi descoberta quando Perl, em 1944, cumpria uma tarefa a ela estabelecida perto dos crematórios e presenciou o que realmente acontecia.



Mulheres enfileiradas em Auschwitz / Crédito: Reprodução

Elas “eram espancadas com porretes e chicotes, destroçadas por cães, arrastadas pelos cabelos e golpeadas na barriga com as pesadas botas alemãs. Então, quando caíam, eram jogadas no crematório. Vivas”. Então, a médica iniciou seu plano para salvar aquelas mulheres.
A tarefa era ingrata: na tentativa de abortar ou gerar partos antecipados, sem condições técnicas se não suas próprias mãos, Perl teve que matar muitas crianças, o que foi muito sentido por ela. Perl relata uma situação em que enforcou um bebê de três dias até a morte, para que sua mãe fosse salva.
Ao fim, centenas de mulheres tiveram suas gestações interrompidas por Perl, de forma consentida. Como Perl recebeu a missão de informar Mengele sobre as mulheres grávidas no campo, o controle nazista já estava fragilizado. “O maior crime que se podia cometer em Auschwitz era estar grávida”, contou a ginecologista ao The New York Times em 1982. “Decidi que nunca mais haveria uma mulher grávida em Auschwitz”.
Libertação.
Em 1945, o Exército Vermelho marchou sobre a Polônia e obrigou os nazistas a evacuarem os campos, rumo a Oeste. Muitos judeus foram obrigados a seguir numa marcha da morte em meio ao inverno europeu oriental, que matou mais de 15 mil. Entretanto, Perl foi encaminhada ao campo de Hamburgo e, depois, a Bergen-Belsen, onde ajudou mais mulheres a terem partos de sucesso.



Judias com seus filhos, após a libertação de Dachau / Crédito: Reprodução

Quando presenciou a libertação de um campo, o perigo de sentenciamento das crianças e das grávidas pelos alemães fora abolido, e Perl foi responsável pelo nascimento saudável do primeiro menino judeu nascido livre no campo onde morreu Anne Frank.
Em 1947, ao descobrir que a maioria de sua família fora executada, Perl tentou se matar. Sem obter sucesso, emigrou para os EUA para recomeçar a vida, mas lá foi acusada de crime de guerra por ter, teoricamente, colaborado com o Anjo da Morte. “Qualquer um que tenha trabalhado no hospital para os presos poderia ser acusado disso”, opina Weisz, que enxerga a acusação como bobagem.
Nos anos que seguiram, Perl colaborou, com depoimentos, para a condenação de diversos nazistas. Com o tempo, sua reputação foi se restaurando e o seu papel em Auschwitz na salvaguarda de mulheres judias foi reconhecido. Então, se especializou em infertilidade e começou a trabalhar no Hospital Monte Sinai de Nova York. Morreu em 1981, em Israel.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Josef Mengele: o anjo da morte de Auschwitz.

JOSEF MENGELE: O ANJO DA MORTE DE AUSCHWITZ

A trajetória do notório e terrível médico do campo de concentração nazista. Encontrado morto em São Paulo
EDUARDO SZKLARZ PUBLICADO EM 04/09/2019.
O anjo da morte
O anjo da morte - Reprodução
Como exigia a lei no Uruguai, em 1958, um singelo proclama de casamento foi publicado no jornal do povoado de Nova Helvécia, a 120 km de Montevidéu. O oficial Pedro Izacelaya anunciou o nome dos noivos e recomendava: quem soubesse de algum impedimento contra a união deveria denunciá-lo durante os oito dias de divulgação do registro, a contar de 17 de julho.
Casariam-se Marta Maria Will e Josef Mengele. Ela, viúva e dona de casa. Ele, divorciado, médico, nazista e torturador sádico, responsável direto pela morte de ao menos 3 mil pessoas em experimentos bizarros no campo de extermínio de Auschwitz.
Ninguém apresentou obstáculos. E Mengele retomou a rotina tranquila de empresário bem-sucedido em Buenos Aires. Até que a Alemanha pedisse a sua extradição, em 1959, o homem que mereceu ser chamado de Anjo da Morte sobreviveu nas barbas de autoridades alemãs, argentinas, uruguaias e paraguaias incólume. E feliz.

Günzburg é um vilarejo ao sul da Alemanha. Parece pintado a mão. Ali, a família Mengele é reverenciada. Em 1907, Karl Mengele comprou uma fábrica de máquinas agrícolas e faria dela uma das maiores da Europa. Sob novos donos, existe ainda hoje, batizada Mengele Agrartechnik. Boa parte dos moradores está empregada lá.

Há 100 anos, em 16 de março, Karl e a esposa, Walburga, tiveram o primeiro de três filhos, Josef. "Karl esperava que o primogênito assumisse os negócios e perpetuasse a dinastia", afirmam Gerald Posner e John Ware em Mengele: The Complete Story (sem edição no Brasil). Mas o ambicioso Josef queria construir a própria fama. "Dizia que todos ainda veriam seu nome na enciclopédia."
Josef Mengele / Crédito: Reprodução
O rapaz estudou medicina e antropologia nas universidades de Munique e Frankfurt. Em 1937, já formado, descolou uma vaga no Instituto para Hereditariedade, Biologia e Pureza Racial da Universidade de Frankfurt e filiou-se ao Partido Nazista. No ano seguinte, ingressou na SS, que administrava os campos de extermínio. Casou-se pouco depois com Irene Schoenbein, mãe de seu único filho, Rolf. Entre 1939 e 1942, Mengele lutou no front oriental e recebeu cinco medalhas por bravura.

O emprego que, enfim, o colocaria na enciclopédia veio em 1943: um posto de médico em Birkenau, parte do complexo de Auschwitz, na Polônia. O sempre elegante doutor ganhou o sinal verde para realizar atrocidades em nome da ciência. Era parte de sua função selecionar os presos recém-chegados. Em segundos, analisava as feições de cada um e mandava-os às fileiras da direita ou da esquerda: trabalho escravo ou a morte. Assim, teria determinado a execução de 200 mil a 400 mil pessoas.
Um terceiro destino era reservado a certos prisioneiros, sobretudo os gêmeos: servir de cobaia em testes cruéis. O jornalista Ben Abraham, 86 anos, lembra-se muito bem daquele homem de macabra imponência. "Mengele liderava a junta médica que fez a seleção do meu grupo. Era o Anjo da Morte mesmo. Ele decidia com um levantar de polegar quem iria para os fornos crematórios e quem seria usado nas experiências. Nunca vou esquecer." Abraham conseguiu escapar e mora no Brasil. Perdeu a mãe ali. Outros sobreviventes recordam como ele, à primeira vista, muito bem educado e galante, desarmava suas vítimas.

Morte antecipada.
Não há consenso sobre onde Mengele viveu logo após o fim da Segunda Guerra. O Exército Vermelho invadiu Auschwitz e libertou 7,6 mil prisioneiros em 27 de janeiro de 1945. Segundo Posner e Ware, pouco antes, o médico foi transferido ao campo de Gross Rosen. Depois, escondeu-se em uma floresta.
Chegou a ser capturado pelos aliados, mas, sem ser reconhecido, acabou liberado em agosto de 1945. Embora o nome Mengele constasse na lista de nazistas procurados desde maio, ele foi dado como morto pelos aliados. Passou três anos numa fazenda em Rosenhein, na Bavária, com falsa identidade. Seu medo maior provavelmente era dos soviéticos, que matavam nazistas sem muita burocracia.
Em 1948, voltou para Günzburg, decidido a fugir. Outros pesquisadores acreditam que o médico simplesmente abandonou Auschwitz e, à custa de propina paga pela família, encontrou abrigo na cidade natal.
Vítimas de Mengele | Crédito: Wikimedia Commons 
Numa rota via Áustria e Itália, o carrasco escapou da Europa, em 1949. Usava um passaporte da Cruz Vermelha em nome de Helmut Gregor. Ele desembarcou em Montevidéu e seguiu para Buenos Aires. Em junho, foi acolhido pelo governo de Juan Domingo Perón, que mantinha, sabidamente, fortes laços com os seguidores de Adolf Hitler.

Nazistas como Adolf Eichmann e Erich Priebke seguiram rotas semelhantes, mas Mengele tinha um diferencial. "Ele sempre viveu como um milionário", diz o historiador argentino Carlos De Nápoli, que investiga a trajetória do carrasco há 30 anos. O médico se amparava na fortuna do pai - multiplicada durante o nazismo graças à mecanização da agricultura e depois na reconstrução do país.
Para ajudá-lo, Karl entrou em contato com Jorge Antonio, braço direito de Perón e homem de confiança dos alemães no rio da Prata. Argentino de origem síria, El Turco enriqueceu nos anos 1950 usando seus vínculos com o poder, a ponto de se tornar presidente da filial argentina da Mercedes-Benz e sócio de dezenas de outras empresas. A Mercedes ajudou vários nazistas, a exemplo de Eichmann.
Mengele, porém, não precisou de emprego. Criou suas próprias empresas com o dinheiro paterno. Os investimentos foram feitos por meio do empresário alemão radicado na Argentina Roberto Mertig, dono da fábrica de fogões Orbis. Uma das firmas que ele montou foi a Tameba (sigla em espanhol de Oficinas Metalúrgicas de Buenos Aires).
"Ele fabricava hastes de torneiras e as vendia para Eichmann, que, nessa época, trabalhava na indústria de sanitários FV, do alemão Franz Viegener", diz De Nápoli. Ele calcula que, enquanto viveu na América do Sul, o doutor alcançou o patrimônio de cerca de 10 milhões de dólares. "É difícil precisar porque ele usava muitos testas de ferro."

O carrasco levava uma vida social regular na capital do tango (onde está, curiosamente, a maior comunidade judia da América Latina). A ponto de "fazer parte de um grupo que jogava bridge no qual havia judeus", relata Gerald Astor em Mengele: O Último Nazista. "Ele se sentia tranquilo sabendo que havia uma rede de proteção para si no Estado. E ela continuou mesmo após o golpe contra Perón, em 1955", afirma Sergio Widder, diretor do Centro Simon Wiesenthal.

Identidade revelada.
Em 1956, ele abriu um novo negócio, o laboratório Fadrofarm (Fábrica de Drogas Farmacêuticas). E voltou a ser Josef Mengele. Na embaixada alemã, deu o nome e endereço e pediu uma cópia da certidão de nascimento. Com ela, obteve uma cédula de identidade argentina.

O nazista saiu do armário (teve até o nome na lista telefônica) para garantir sua participação na herança da família. A essa altura, seu pai estava à beira da morte e ele precisava recuperar o nome. "Se continuasse como Helmut Gregor, não receberia nada. Assim, o segundo passo foi retomar a identidade", diz De Nápoli.
O seguinte seria se casar com a viúva do irmão mais novo, Karl Jr. Sim, Marta Maria era sua cunhada. Chegara à Argentina com o filho, Karl Heinz, em 1956. Como divorciados não podiam se casar no país, Mengele foi com ela ao Uruguai. Com as bênçãos de Karl pai, ambos garantiram que os bens da família não se dispersassem.

O que levou Mengele a se sentir seguro o bastante para viver às claras em Buenos Aires? Além da rede de proteção, pesava o fato de que ele era pouco conhecido. Seu nome não figurou nos julgamentos de 1946, o Tribunal de Nuremberg e o Julgamento dos Médicos, que condenou sete doutores nazistas à morte. A Alemanha Ocidental foi criada em 1949 e começou a buscar Mengele em meados dos anos 1950 - mas lenta e atabalhoadamente.

As autoridades alemãs sabiam do paradeiro do médico desde 1954, quando sua primeira mulher, Irene Schoenbein, se separou dele. Ela se recusou a seguir com ele para a Argentina e formalizou o divórcio. Fiel ao estereótipo de ex-mulher, entregou seu esconderijo. Também o denunciou à Universidade de Frankfurt, que lhe cassou o diploma de médico.
"Os documentos provam que o governo alemão sabia exatamente onde Mengele vivia na Argentina: rua Sarmiento, 1875, Buenos Aires", diz De Nápoli. Em 1959, a Alemanha finalmente enviou um pedido de extradição ao país, que só o tornou público em 1960. A partir daí, foi como se os oficiais descobrissem o carrasco na capital.
"Houve muito encobrimento, já que a embaixada alemã interveio em todo tipo de certificado, até o último momento. E nada disse aos tribunais que o buscavam", afirma o historiador. "Com a Polícia Federal argentina, aconteceu a mesma coisa."

A imprensa internacional também só descobriu o Anjo da Morte (ou Doutor Morte, Açougueiro e Anjo Exterminador, como já foi chamado) nessa época, após Eichmann ser levado da Argentina pelo Mossad, o serviço secreto de Israel, e Mengele ter escapado por pouco. Segundo o ex-agente Rafi Eitan, o governo israelense tomou a decisão de sequestrar um criminoso nazista e levá-lo à Justiça em 1958.
Havia quatro possíveis alvos: Mengele, Eichmann, Heinrich Müller (ex-chefe da Gestapo) e Martin Bormann, braço direito de Hitler. O primeiro a ser encontrado foi Eichmann, por isso, o Mossad decidiu se concentrar nele. A análise das datas, contudo, sugere que não foi exatamente o medo dos israelenses que o motivou a sair da Argentina. Mengele deixou o país em 1959, antes da captura de Eichmann, em maio de 1960.
Crianças sobreviventes em Auschwitz | Crédito: Wikimedia Commons
Para onde foi Mengele após deixar a Argentina? A pergunta ainda intriga os pesquisadores. De Nápoli afirma que ele voltou para Günzburg - cita documentos da polícia argentina sobre a autorização que ele solicitou para viajar à Alemanha em 12 de fevereiro de 1959, meses antes da chegada do pedido de extradição. Os papéis revelam que Marta saiu de Buenos Aires em 1960, com o filho, provavelmente depois de se desfazer dos negócios do marido no país. Ela tomou um voo da Swissair de Montevidéu para Zurique e, de lá, poderia ter se reencontrado com Mengele na Bavária.

Conexão Paraguai.
Outros pesquisadores, como o argentino Jorge Camarasa, dizem que Mengele viveu no Paraguai para depois se estabelecer no Brasil. Ele teria se instalado em 1960 na cidade de Hohenau, de colonização alemã, com passaporte em que se lia o nome José Mengele. Desde o ano anterior, obtivera a cidadania do governo paraguaio. Vários habitantes de Hohenau relataram a Camarasa ter boas recordações do nazista.
"Tive o prazer de ser seu vizinho durante anos", disse o ex-prefeito da cidade, Bonibaldo Junghanns. "Ele se fazia chamar doutor Fischer. Era um homem nobre, que cantava em alemão canções de sua terra." Em entrevista no fim dos anos 1970, o famoso caçador de nazistas Simon Wiesenthal afirmou que ele costumava jogar bocha no Clube Alemão de Assunção, dirigir um Mercedes 280 e navegar um iate pelo rio Paraná. Não há provas disso.
A história oficial diz que Mengele se mudou para o Brasil no fim dos anos 1960. Conseguiu abrigo com Geza e Gitta Stammer, imigrantes húngaros que tinham uma fazenda de café em Nova Europa (SP). Em depoimento à Polícia Federal, em 1985, eles confirmaram que deram guarida ao médico. Na versão de Gitta, Mengele se apresentou como um viajante sem destino certo, sob o nome Peter Hochbichler, que pedia abrigo por alguns dias. Acabaram dando-lhe um emprego.

"Essa história não bate. Mengele calculou muito bem cada mudança e não viria para o Brasil sem que tudo estivesse arranjado", diz Ben Abraham, autor de dois livros sobre o médico. No começo dos anos 1970, Mengele teria se aproximado de outro casal: o ex-cabo do Exército nazista Wolfram Bossert e Liselotte, professora do Colégio Humboldt.
Os austríacos moravam no bairro do Brooklin, na capital paulista, onde Mengele teria estado várias vezes. Em 1974, a fazenda dos Stammer foi vendida e ele se mudou para uma casa de dois quartos, duas salas, cozinha e banheiro na estrada do Alvarenga, 5773, perto da represa Billings. Ali, era conhecido pelos empregados como Pedro. "Ele me pagava um bom salário e chegou a me fazer empréstimos algumas vezes", disse Elza Gulpian de Oliveira, que foi sua empregada doméstica, à revista VEJA em 1985.
Vivia recluso, ouvia muita música e costumava servir-se de vinho nas refeições. Segundo ela, Pedro falava com carinho de um jovem sobrinho que morava na Alemanha. Em 1977, o rapaz hospedou-se com o tio por duas semanas. Era seu filho Rolf, segundo ele confirmaria à PF.

Todo esse relato deixa margem para dúvidas. Em 1967, por exemplo, o Brasil extraditou o nazista Franz Paul Stangl para a Alemanha. Por que Mengele decidiu se mudar para cá depois disso? Ex-chefe dos campos de Sobibor e Treblinka, Stangl foi condenado à prisão perpétua.
"Mengele tinha aqui uma rede de contatos segura o suficiente para não se intimidar", diz a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da USP. "Tinha um lugar discreto onde viver e não trabalhava, como Stangl, que se expôs demais." É possível também que o carrasco tenha chegado antes ao Brasil ou, ao menos, tenha estado aqui várias vezes para preparar um novo esconderijo.
Rafi Eitan alega que o Mossad o localizou em 1962. "Descobrimos seu endereço: uma fazenda perto de São Paulo. Estive lá com minha equipe e um grupo de habitantes locais que o conheciam", disse Eitan. "Não quisemos pegá-lo porque não estávamos suficientemente preparados. E logo depois houve uma troca de governo em Israel. A nova administração decidiu não capturá-lo. Depois disso, ele desapareceu."

Verdade ou conspiração?
Em maio de 1985, a polícia alemã fez uma busca na casa de Hans Sedlmeier, que havia sido procurador da empresa de máquinas dos Mengeles, em Günzburg, e encontrou cartas escritas por Josef e remetidas no Brasil pelos Bosserts. O delegado Romeu Tuma, superintendente da PF, foi informado e interrogou o casal.
Eles disseram que encobriram Mengele entre 1970 e 1979. Em fevereiro daquele ano, já com a saúde debilitada, o médico foi a convite deles passear em Bertioga, no litoral paulista... E teria se afogado, talvez, vítima de um derrame. No boletim de ocorrência, o morto é o austríaco Wolfgang Gerhard. Na verdade, esse era o nome do sujeito que apresentou Mengele aos Bosserts. Ele teria usado a identidade do protetor por vários anos. Gerhard morreu em 1978 e está enterrado na Áustria.

A tumba de Mengele, revelaram os Bosserts, estava no cemitério do Rosário, em Embu, Grande São Paulo. Uma equipe de legistas exumou os restos do corpo, em junho de 1985, e concluiu que eram do nazista. Em 1992, um exame de DNA confirmou a descoberta. A análise utilizou uma amostra de sangue de Rolf, filho do carrasco, e foi conduzida pelo geneticista britânico Alec John Jeffreys. Sete anos antes, Rolf dissera não ter percebido no pai, na visita a São Paulo, nenhum sentimento de culpa ou remorso. "Ele jurou que nunca, pessoalmente, machucou ninguém."

Marco Antonio Veronezzi, ex-diretor regional da PF, recorda a expectativa mundial que havia em torno do cadáver achado em Embu. "No início, estranhamos o fato de conhecidos de Mengele aparecerem, anos após a morte, para falar da ossada. Mas os depoimentos eram coerentes e a perícia foi conclusiva", diz. "Com o exame de DNA, não restou dúvida." Hoje, a maioria dos pesquisadores considera o enigma resolvido. "Os estudos sobre Mengele foram sérios", diz o jornalista Uki Goñi, autor de A Verdadeira Odessa. Sérgio Widder, do Centro Wiesenthal, confia no resultado, assim como Rafi Eitan declarou à Folha de S.Paulo.

Ben Abraham sempre duvidou da ossada. Aponta há anos uma série de incongruências, inclusive entre o corpo e a ficha médica do nazista na SS. Para ele, o médico "fabricou" um sósia. "Rolf demorou anos para conceder uma amostra de seu DNA. Tenho informações de que Mengele morreu em 1992, nos Estados Unidos, mas não sei de detalhes."

Para Carlos De Nápoli, a farsa dos restos no Brasil foi criada, mais uma vez, para fins econômicos. Ele ainda procura as pegadas do doutor e não arrisca cravar onde e quando ele teria morrido: "A Fadrofarm não foi vendida e seus testas de ferro, Ernest Timmerman e Heinz Truppel, iam até a Alemanha prestar contas. Por isso, entre outros motivos, acredito que ele passou seus últimos dias perto de Günzburg."
Rolf, diz o historiador, admitiu em 1985 que a ossada era do pai, já pensando na partilha dos bens do clã. Gerald Astor sustenta que o médico abriu mão de sua parte na herança do patriarca Karl Mengele, mas, de acordo com De Nápoli, trata-se de uma suposição que não se sustenta nos documentos identificados até agora. A empresa de máquinas agrícolas da família foi vendida em 1997.

É fato, de qualquer maneira, que o criminoso, agora centenário, não pagou por suas atrocidades. Seus ossos se encontram em poder do Instituto Médico Legal de São Paulo, em local não revelado para evitar peregrinações de neonazistas. A família nunca requisitou o corpo.
Ilustração: Murilo Maciel
A intenção final dos experimentos de Mengele e do ideólogo Walther Darré.
De todo o material publicado sobre o criminoso nazista Josef Mengele - a partir de 1960, quando ele se tornou conhecido do grande público, após a chegada à Argentina do pedido de sua extradição feito pela República Federal da Alemanha -, destaca-se o enorme valor documental da autobiografia de Miklos Nyiszli, prisioneiro judeu que foi assistente de Mengele em Auschwitz.
Médico, o autor realizava autópsias das vítimas mortas em vários experimentos e enviava os resultados a um endereço: "Berlin-Dahlem, Institut für Rassenbiologische und Antropologische Forschungen (...) Um dos institutos médicos mais famosos do mundo".
Em outro trecho, diz: "Os gêmeos morreram na mesma hora. Agora jazem aqui, sobre minha mesa, para dissecação dos cadáveres. Graças à sua morte, agora será possível analisá-los por meio de uma autópsia e descobrir o segredo da multiplicação humana. O grande objetivo dessas investigações é, de fato, a multiplicação da raça superior. Trata-se, exatamente, de colocar uma mãe alemã em condições de criar sempre gêmeos no futuro. Este plano é uma loucura! Foi promovido pelos loucos teóricos da raça do Terceiro Reich.
E, para as pesquisas necessárias, encarregaram o doutor Mengele (...) Esse criminoso é capaz de passar horas inteiras comigo entre microscópios e fármacos, ou de estar em frente à mesa de anatomia, com o jaleco sujo de sangue, observando e tocando com as mãos, também sujas de sangue. Trata-se da multiplicação da raça germânica; o objetivo final é que haja alemães suficientes para repovoar os territórios chamados de Lebensraum, ou seja, espaço vital do Terceiro Reich, depois de deixá-los limpos da presença de checos, húngaros, poloneses, holandeses e outras populações".
Nyiszli conseguiu obter, com os resultados das autópsias que podia analisar, uma aproximação bastante certeira dos planos finais dos nazistas. No entanto, como muita gente, nunca conseguiu compreendê-los em sua real extensão.
Isso se deve a que, por motivos políticos, o verdadeiro ideólogo racial do nazismo, o argentino Ricardo Walther Darré, passou como um fantasma pelas páginas da História. Darré foi a primeira pessoa a levar à prática as ideias raciais nazistas, impondo aos integrantes das SS, desde 1929, todo tipo de restrição para sua admissão. Eles não podiam ter sangue judeu nem outros sangues estranhos desde 1750 até a data de apresentação do pedido de admissão.
Em seguida, Darré agregou requisitos similares para mulheres que quisessem se casar com um membro das SS. Também fundou e dirigiu a obra-prima sobre questões raciais dos nazistas: a RuSHA, sigla em alemão de Escritório Central de Raça e Reassentamento. Mais tarde, acrescentou outro requisito, a Higiene Racial. Ou seja: os futuros membros das SS não deveriam ter, entre seus ancestrais, pessoas com antecedentes de qualquer doença hereditária. O plano nazista visava estudar todos os meios e métodos para reproduzir a chamada raça ariana o mais rápido possível.
A meta do ideólogo Darré era simples: que cada mãe alemã tivesse partos múltiplos. Nesse contexto, se explicam as experiências presenciadas pelo doutor Nyiszli. Outros experimentos buscavam prolongar a vida fértil das mulheres por meio de um coquetel de hormônios, entre eles o chamado hormônio do crescimento, utilizado também na tentativa de obter partos múltiplos.
Logo os nazistas notaram que mulheres maduras ficavam visivelmente rejuvenescidas com os hormônios e uma dieta estrita acompanhada de exercícios físicos. Trato desse tema no livro A Fórmula da Eterna Juventude - E Outros Experimentos Nazistas, editado na Argentina e, em breve, no Brasil.
No entanto, Darré pensou onde viveriam tantos loirinhos de olhos azuis? A resposta é simples: nas terras que os nazistas ocupariam. E o que fariam com os impuros, especialmente os judeus? Simplesmente, os exterminariam nas câmaras de gás. É por isso que a sangrenta RuSHA continha a palavra Reassentamento em seu nome. Devido ao delírio de um grupo de assassinos, milhões de pessoas morreram em experiências inenarráveis e criminosas.

*Carlos De Nápoli é assessor histórico do The History Channel e dos principais canais argentinos. É autor de várias obras sobre o nazismo. No Brasil, publicou Ultramar Sul (2010).