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sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Ordem de Malta: a soberana irmandade de monges-guerreiros.

ORDEM DE MALTA: A SOBERANA IRMANDADE DE MONGES-GUERREIROS

De origens que remontam às Cruzadas, a irmandade controla atualmente a menor nação do planeta. E segue com a missão milenar de ajudar vítimas de conflitos e desastres em mais de 120 países
CARLO CAUTI PUBLICADO EM 20/09/2019.
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- Crédito: Reprodução
Siyah şeytanlar. Era assim – os demônios de preto – que os soldados otomanos chamavam os cavaleiros da Ordem de Malta, uma irmandade de monges-guerreiros vestidos de preto e famosos pela habilidade em batalha (e pela sobrevivência) após um milênio de guerras, intrigas, fugas e perseguições.
No passado, a Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta (esse é o nome oficial da organização) era formada por clérigos nobres cavaleiros – que antecipariam o atual movimento internacional da Cruz Vermelha.
Hoje, a ex-potência militar de tradição aristocrática controla um Estado soberano e sem território, com apenas alguns palácios em Roma, e segue católica, fiel ao papa. Porém, sua força está nas relações diplomáticas que a irmandade mantém com mais de 120 países pelo mundo (católicos ou não), tendo representação inclusive na Organização das Nações Unidas, como Observadora Permanente. A Ordem de Malta, a mais antiga instituição humanitária do planeta, tem uma história com diversos capítulos fascinantes. A começar pelo nome.
Os Cavaleiros Hospitalários.
Seus membros, que hoje são chamados de Cavaleiros de Malta, surgiram como os Cavaleiros Hospitalários. Depois, se tornaram os Joanitas, Hierosolimitanos, Rodes e apenas a Religião. Mudanças de nome geradas pelas peripécias geográficas que a Ordem enfrentou no decorrer dos séculos.
Tudo começou na Alta Idade Média, justamente no tempo em que surgiam outras ordens monástico-militares. Seu fundador, o monge italiano Gerardo Sasso, e mercantes da república marinara de Amalfi, na Itália (que dominava o Mediterrâneo oriental na época), obtiveram do califa do Egito a autorização para construir um hospital para forasteiros e peregrinos em Jerusalém, dedicado a São João Batista, o futuro patrono da Ordem.
Com o início da Primeira Cruzada (1096-1099), aquela obra de caridade na Terra Santa passou a atrair cada vez mais adesões entre os “soldados de Cristo”, que chegavam à região para lutar contra os muçulmanos. Até que, em 1113, uma declaração oficial do papa Pascoal II autorizava a criação formal da Ordem Religiosa de São João, em Jerusalém – uma congregação independente das autoridades eclesiásticas locais que se tornaria o primeiro exemplo de organização internacional de beneficência e caridade.
Crédito: Reprodução
“Os membros da Ordem precisavam fazer voto de pobreza, castidade e obediência, e tinham duas missões: defender a fé cristã na Terra Santa, contra os muçulmanos, e ajudar os peregrinos construindo hospitais. Essa segunda era a missão principal. Por isso, ficou conhecida como a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários”, explica o professor Charles Dalli, historiador da Universidade de Malta.
Como símbolo da nova instituição, foi escolhida a cruz de oito pontas de Amalfi, que representava as oito beatitudes evangélicas do “Discurso da Montanha” de Jesus. E como lema, a frase em latim Tuitio Fidei et Obsequium Pauperum, cuja tradução é “defesa da fé e serviço aos pobres”.
Logo, o segundo grão-mestre hospitalário, o cavaleiro francês Raymond du Puy, general do lendário rei de Jerusalém Godofredo de Bulhão, dividiu a Ordem em três classes: religiosos, trabalhadores e combatentes – o que espelhava, aliás, as três classes sociais da Idade Média. “Os Hospitalários começaram a se estruturar, obtendo doações de europeus ricos, ganhando terras enormes e melhorando suas capacidades de combate.
Com isso, se espalharam por toda a Terra Santa, permanecendo por mais de 200 anos nos Reinados Cruzados de Além-Mar”, diz Emanuel Buttigieg, historiador e professor, também da Universidade de Malta. Segundo ele, esses monges-guerreiros foram os protagonistas de épicas batalhas e de brilhantes negociações diplomáticas. “Criaram o primeiro sistema de saúde pública da história, até para quem não era cristão.”
Do outro lado do Mar Mediterrâneo, em Roma, os papas olhavam com atenção para a Ordem, mantendo seus membros sempre em consideração: ao longo dos séculos, a Igreja concedia isenções e privilégios à Ordem, incrementando suas riquezas (a prática de captar recursos entre os reinos cristãos do Ocidente já era levada com habilidade pelos cavaleiros em toda a Europa).
A Ordem se tornou muito rica e conseguiu expandir suas atividades por todo o continente, criando uma rede de representações diplomáticas (chamadas de Comendas), que também administravam bens e posses. Entretanto, em 1291, a epopeia cruzada terminou. A última resistência cristã na Terra Santa foi em São João de Acre, onde os Cavaleiros Hospitalários, juntos dos Templários e dos Teutônicos, lutaram pela última vez lado a lado contra os muçulmanos. Perdendo a batalha.
O Ocidente recuava e um pequeno grupo de diabos negros se refugiou na Ilha de Chipre. Tal mudança gerou a primeira tormenta na instituição: sem a Terra Santa para defender, as ordens cavalheirescas entraram em crise de identidade, e os monges-guerreiros Hospitalários tiveram de se reinventar. Com tantas riquezas acumuladas, mas nenhum objetivo para justificá-las, o risco mais provável era de que a Ordem fosse suprimida.
Justamente o que aconteceu, de forma sangrenta, com os Templários, a mais rica entre todas as ordens religiosas de cavalaria. “Mas, diferentemente dos Hospitalários (que ajudavam os peregrinos), os Templários tinham apenas uma missão: lutar contra os islâmicos. Quando os cristãos foram embora da Terra Santa, eles se encontraram sem um objetivo e com muitas riquezas”, afirma Dalli. Um alvo fácil para reis com as contas públicas quebradas, como Filipe IV, da França.
Rota para Rodes.
A nova ocasião para aventuras chegou em 1306, quando o genovês Vignolo de' Vignoli propôs à Ordem conquistar o arquipélago Dodecaneso, ocupado pelos turcos. Os Hospitalários aceitaram e atacaram a ilha de Rodes. O sucesso da operação gerou um novo objetivo para os cavaleiros: a defesa da cristandade no mar. Em dois séculos na ilha, a Ordem se tornou uma potência naval contra os turcos e um grande alívio para a Igreja Católica.
Cavaleiros / Crédito: Reprodução
“Os cavaleiros se estruturaram na ilha como uma nação soberana governada pelo grão-mestre, príncipe de Rodes, e pelo Conselho, que cunhavam moedas, reorganizaram suas próprias Forças Armadas e mantiveram relações diplomáticas com outras nações. Algo que continuará ao longo dos séculos seguintes”, diz Buttigieg.
“E, para manter a tradição, construíram um hospital na ilha. Além disso, voltaram a ter uma missão: lutar contra os turcos. De força militar terrestre, os cavaleiros, então, criaram uma grande frota naval, muito bem treinada. E devastaram todo o litoral sul da Turquia, atrasando muito o avanço islâmico no Mediterrâneo. Isso ajudou os reinos cristãos da Europa Ocidental.”
A mudança também se deu em termos de imagem: muitos filhos menores de nobres famílias europeias, que, por tradição, teriam sido forçados a seguir uma vida monástica para não arruinar o patrimônio familiar, se tornaram guerreiros sob as insígnias dos Hospitalários. Isso fez da Ordem uma confraria de nobres europeus, aumentando seu status social e reconhecimento internacional.
Com todo esse cosmopolitismo, em 1319, a Ordem se organizou na base das regiões de proveniência e dos idiomas falados por seus cavaleiros. Surgiram assim as línguas, os oito grupos estruturados em: grão-priorados, baliados e comendas. Cada língua tinha como chefe um representante (Peleiro) com direito a um cargo no governo – mais um resultado inédito para os cavaleiros, que se tornaram, assim, a primeira organização internacional com bases europeias.
Avanço dos turcos.
Eis que surge um desafio: a queda de Constantinopla, em 1453. Um choque para todo o mundo cristão. O Império Otomano estava pronto para invadir a Europa inteira e viu na ilha de Rodes uma entrada suculenta, iniciando um ataque sob a liderança do sultão Maomé II, em 1480, com dezenas de milhares de homens e centenas de navios, um dos maiores cercos jamais realizados. Porém, mesmo em forte desvantagem numérica, os Cavaleiros Hospitalários resistiram, forçando os turcos a se retirar. Parecia milagre.
A Europa festejou, mas não enviou sequer um homem ou navio para ajudar os cavaleiros. Com isso, os otomanos tentaram nova investida em 1503. Mas fracassaram de novo. Já em 1522, sob a liderança de Solimão, o Magnífico, e após seis meses de confronto, a situação se tornou insustentável para a Ordem. Só que os cavaleiros, habilidosos na diplomacia, conseguiram negociar sua rendição com os turcos, mantendo a honra das armas e o compromisso de poupar a vida das populações de Rodes. Era o início do segundo exílio da Ordem.
Crédito: Reprodução
Seus membros, protegidos pelo papa Adriano VI, iniciaram a busca de uma nova sede, abrindo uma difícil negociação com o imperador Carlos V. O soberano do Sagrado Império Romano e do Império Espanhol estava até disposto a conceder uma ilha aos cavaleiros. Entretanto, pretendia que o grão-mestre Philippe Villiers de l’Isle-Adam lhe jurasse fidelidade eterna.
Um ato contrário à tradição de independência supranacional da Ordem. Parecia que a conversa estava destinada ao fracasso, no entanto, mais uma vez, a lendária diplomacia dos cavaleiros conseguiu um acordo. Em 1530, em troca do presente simbólico de um falcão, que representava a submissão da Ordem ao Império, foi concedida aos cavaleiros a ilha de Malta. Uma pequena rocha no meio do Mar Mediterrâneo, árida, pobre, mas estratégica.
Foi lá que os nobres monges-guerreiros puderam recomeçar. E transformaram a ilha de Malta em sua fortaleza, aumentaram a potência de sua frota naval, se prepararam para lutar de novo contra os turcos e assumiram um novo nome: os Cavaleiros de Malta.
Bastião da cristandade.
Enquanto isso, o sultão Solimão estava mobilizando seu grande império para atacar a Roma dos papas. E mais uma vez os cavaleiros Hospitalários se opuseram às miras dos otomanos. Liderados pelo 49° grão-mestre, Jean de La Vallette, em maio de 1565, a Ordem enfrentou o chamado Grande Cerco de Malta: era a chegada de 40 mil homens e de 500 navios turcos cercando a ilha para lutar contra apenas 7 mil cavaleiros e tropas auxiliares. A batalha durou até setembro e, contra qualquer previsão, os Cavaleiros de Malta tiveram uma grande vitória.
“Os turcos ficaram tão irritados pela obstinação demonstrada pelos cavaleiros que decidiram pregar os prisioneiros em cruzes de madeira e deixá-las boiando no mar. O grão-mestre La Vallette respondeu mandando decapitar os prisioneiros turcos e atirar suas cabeças por canhões contra o acampamento inimigo”, conta Buttigieg.
A defesa de Malta deu aos reinos cristãos do Ocidente o tempo de se preparar e, em 1571, ocorreu o confronto final com os turcos, em Lepanto, na batalha naval que decidiu o destino da Europa. A frota da Ordem de Malta participou do combate. Mas, antes de as frotas ocidentais chegarem à costa da Grécia para enfrentar os otomanos, La Vallete já havia dado sua contribuição à cristandade: o líder militar ordenou seus espiões infiltrados em Constantinopla a incendiar o arsenal turco, destruindo boa parte da frota inimiga – e garantindo a vitória dos cristãos.
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Graças a esse triunfo militar, o futuro parecia tranquilo e próspero para a Ordem. A gratidão para La Vallette foi tamanha que a nova capital de Malta foi chamada de Valletta. O local, além de se tornar uma poderosa fortaleza, atraiu os mais importantes arquitetos e artistas da época, que transformaram a cidade na pérola do Mediterrâneo.
Chegada de Napoleão.
Até que, em pouco mais de dois séculos, a calmaria na Ordem de Malta deu lugar a uma nova tormenta: Napoleão Bonaparte, que conquistou a ilha em junho de 1798, sem disparar um único tiro. Os cavaleiros tinham como regra não lutar contra os cristãos e não opuseram resistência, ficando mais uma vez sem pátria, sem exército e empobrecidos.
Quem os acolheu desta vez foi um aliado tão inesperado quanto polêmico: o instável czar da Rússia, Paulo I, que conseguiu se eleger grão-mestre mesmo sem a aprovação do papa. A decisão gerou estranheza, já que ele não era católico, mas ortodoxo, além de ser casado e ter filhos. O que explica é que o russo era obcecado pelos ideais românticos da cavalaria medieval – a ponto de mandar pintar em todos os seus retratos oficiais uma decoração no estilo maltês e criar um patriarcado ortodoxo da Ordem exclusivamente dedicado aos nobres russos.
O período na Rússia foi o mais improvável para os Cavaleiros de Malta. O apoio do czar, entretanto, foi o que salvou a instituição.
Quando, em 1801, Paulo I foi assassinado, seu filho Alexandre I renunciou a qualquer prerrogativa sobre a Ordem, que voltou a ser livre. Até que, em 1834, foi acolhida pelo Vaticano, que lhe concedeu a soberania sobre alguns edifícios no centro da cidade, como o Palácio Magistrale, em Via Condotti, e a Vila Magistrale, na colina do Aventino.
Com isso, a Ordem manteve as vantagens de um Estado soberano, com ordenamento jurídico próprio e a permissão de imprimir selos e conceder passaportes, mesmo sem território e fronteira. “E então os cavaleiros voltaram para suas raízes: uma ordem religiosa, cujo objetivo é criar hospitais para peregrinos. Os privilégios concedidos pelo papa foram utilizados para criar uma nova e poderosa força humanitária internacional”, explica o professor Dalli.
E novos desafios não faltaram para os trens-hospitais dos cavaleiros, que salvaram centenas de milhares de vítimas do grande terremoto de Messina, em 1908, das duas guerras mundiais e de tantos outros conflitos armados e desastres naturais. Hoje, a Ordem de Malta mantém cerca de 12.500 membros espalhados por todo o planeta, sempre operando em nome da caridade cristã.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

da 4ª Cruzada ao desembarque na Baía dos Porcos: conheça as guerras mais estúpidas da história.

DA QUARTA CRUZADA AO DESEMBARQUE NA BAÍA DOS PORCOS: CONHEÇA AS GUERRAS MAIS ESTÚPIDAS DA HISTÓRIA

Confrontos sem propósito e sem direção marcaram a história em diferentes partes do globo
REDAÇÃO PUBLICADO EM 09/09/2019.
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- Getty Images
Há quem diga que qualquer guerra é estúpida. Para Michael Prince, autor de Guerras Estúpidas, "só a maioria". O livro relata os mais patéticos episódios de hubris, a coragem mal-informada, que levaram à perda de vidas e propriedade.
Veja aqui alguns exemplos levantados por ele e seu parceiro Ed Strosser. 
4. A Quarta Cruzada.
A Cruzada / Crédito: Wikimedia Commons
Em 1202, o exército cruzado, com voluntários da Europa, estava em Veneza, cheio de fé e fúria – e nenhum tostão no bolso. Tentou alugar uma frota de barcos para Jerusalém, que pretendia reconquistar das mãos islâmicas, nas quais havia caído em 1187. Enrico Dandolo, o doge de Veneza, fez uma proposta: se os cruzados o ajudassem a capturar Zara, localidade croata rival comercial da cidade italiana, ele bancaria a viagem.
Cego e com 95 anos, o mandatário fez os votos de cruzado e embarcou com os soldados supostamente rumo à Terra Santa, parando no caminho para trucidar os cristãos croatas, que em vão levantaram cruzes para mostrar que estavam do mesmo lado. A ameaça de excomunhão feita pelo papa Inocêncio III pouco valeu.
Dandolo seguiu para Constantinopla e conquistou o lugar. Ricos com as pilhagens, os cruzados pagaram sua dívida e esqueceram a missão. No final, “o doge recebeu o pagamento na íntegra, mas os santificados guerreiros jamais puseram os pés em Jerusalém”, relatam Prince e Strosser.
3. Guerra do Afeganistão.
O confronto / Crédito: Wikimedia Commons
O Afeganistão fazia parte da vasta região do planeta que a Rússia considera seu quintal – a visão imperial não era diferente na época do regime soviético e do tempo dos czares. Em 1979, a União Soviética invadiu o país para apoiar o regime comunista local, ameaçado por facções islâmicas.
“Assim como nos velhos tempos, quando o Exército Vermelho esmagou a oposição na Hungria em 1956 e na Tchecoslováquia em 1968, os russos acharam que a filosofia de Marx e Lenin seria mais bem ensinada com tanques metralhando o populacho”, dizem Strosser e Prince.
Se os soviéticos riram dos EUA saindo do Vietnã, batidos pela guerrilha vietcongue, agora era a vez dos americanos. Mas não ririam por último. Com dinheiro da CIA, militantes islâmicos, entre os quais Osama bin Laden, fundaram a Al Qaeda.
2. Guerra do Chaco.
Soldados paraguaios / Crédito: Wikimedia Commons
Indo dos Andes bolivianos até o Pantanal do Brasil, o Chaco é um deserto ou pântano, dependendo da estação do ano. E foi por esse grande pedaço de nada que, entre 1932 e 1935, os dois países mais pobres da América do Sul se digladiaram. Ambos com feridas de guerras passadas fazendo mancar o parco orgulho nacional: a Bolívia, por ter perdido seu litoral para o Chile, na Guerra do Pacífico, de 1879; o Paraguai, por ter perdido quase tudo na guerra contra a Tríplice Aliança, na década de 1860.
Nos combates pelo Chaco, até 130 mil pessoas padeceram de ambos os lados, tudo isso apenas para provar que, por mais miserável que fossem, um não era mais fraco que o outro. “Certos países [...] habitam a categoria de perdedores da história. Para eles, o jeito de sair dessa categoria é bater em alguém. Qualquer um. Mas o que eles não entendem é que bater em outro perdedor não os coloca na categoria de vencedores”, registram os autores de Guerras Estúpidas.
1. Desembarque na Baía dos Porcos.
A invasão / Crédito: Wikimedia Commons
Em 17 de abril de 1961, 1500 exilados cubanos desembarcaram na Baía dos Porcos, no sul de Cuba. O embaixador norte americano na ONU, Adlai Stevenson, repetia que as movimentações, detectadas meses antes eram ações de um grupo de “cubanos patriotas”. A despeito de o New York Times ter publicado em janeiro que a CIA estava treinando cubanos para derrubar Castro.
A Rádio Moscou anunciou o ataque quatro dias antes. “O problema para a CIA era criar uma força invasora poderosa o suficiente para vencer... mas não tão forte a ponto de revelar o apoio americano. A invasão, em essência, tinha que ser cubanizada – feita para parecer amadora.” Nesse ponto, a agência fez um belo trabalho: em três dias, os 1202 rebeldes que escaparam da morte estavam na prisão em Havana.

domingo, 8 de setembro de 2019

Morrer e matar por Cristo: 10 fatos curiosos sobre os cavaleiros templários.

MORRER E MATAR POR CRISTO: 10 FATOS CURIOSOS SOBRE OS CAVALEIROS TEMPLÁRIOS

Guerreiros acima das leis, castos e pobres. Conheça a mais poderosa ordem de cavaleiros da cristandade
ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 08/09/2019.
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Os cavaleiros templários faziam parte de uma ordem militar da Cavalaria no período da Idade Média. Durante os anos de 1118 e 1312 d.C., sua função era, principalmente, proteger cristãos peregrinos que estavam indo até Jerusalém.
Eles faziam votos de pobreza, obediência e castidade. Conheça 10 fatos curiosos sobre a lendária ordem.
Jamais se renda.
Seguindo normas muito estritas, os cavaleiros nunca poderiam se render enquanto a cruz vermelha ainda sobrevoasse o campo de batalha. Todos eles dariam suas vidas pela ordem, o que significa que eles não recuavam quase que de forma alguma. 
Os treinamentos.
É sabido que os membros da organização sempre estavam armados e treinados. No entanto, não havia nenhum tipo de padrão para os treinos desses homens. Acredita-se que isso acontecia porque já era esperado que os cavaleiros já tivessem recebido capacitação anteriormente.
Cavaleiros?
Mesmo que conhecidos por seus cavaleiros, a Ordem dos Templários contava com muito mais pessoas do que apenas estes. Existiam centenas de cavaleiros, mas a maioria era formada por soldados de infantaria, como escudeiros, padres, trabalhadores e até mesmo mulheres.
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As mulheres.
Elas não podiam se tornar cavaleiros, já que não havia a possibilidade de que estas lutassem, mas as mulheres podiam fazer parte da organização por outras formas. A maioria, eram freiras que ajudavam nos “empreendimentos espirituais”, fazendo orações, e oferecendo assistência médica e psicológica aos soldados. 
Poder territorial.
Os templários possuíam inúmeras terras, tornando-se muito poderosos com o passar dos anos. Regiões como Inglaterra, Portugal, Boêmia, a ilha de Chipre, entre outros, faziam parte do poderio da ordem. Assim, eles tinham muitos recursos à sua disposição. 
Criação de um banco.
Os mosteiros templários eram lugares seguros e, por isso, passaram a ser usados como um tipo de banco. Pessoas guardavam riquezas, objetos de valor, faziam empréstimos e até emitiam cheques. O sistema ficou tão famoso que inúmeros reis deixaram suas fortunas nesses locais.
Código secreto.
Ao moldarem esse sistema bancários, os cavaleiros precisavam compartilhar os dados financeiros ou confidenciais com outras seitas da ordem. Por isso, criaram um código secreto que, na época, era impossível de ser decifrado. O símbolo foi baseado em uma variante da Cruz de Malta.
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Acima da lei.
Uma das vantagens de ser um cavaleiro templário residia no fato de que eles estavam acima de todas as leis locais e regionais — respondendo apenas ao papa. Além disso, eles não pagavam a maioria dos impostos das regiões em que ficavam.
Mercenários.
Os templários não se importavam em contratar exércitos mercenários para apoiar suas próprias guerras. Especialmente durante as Cruzadas, eles recrutavam turcopoles, a cavalaria leve da Anatólia, e unidades de arqueiros compostas cristãos ortodoxos do Oriente Médio. 
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Pergaminho Chinon.
O Pergaminho Chinon foi a decisão do Papa Clemente V de exonerar os Cavaleiros Templários de todas as acusações impostas contra eles pelo rei Filipe. O manuscrito só foi encontrado em 2001 e revela como eles foram inocentados de todos os possíveis “crimes” que cometeram. 

sábado, 7 de setembro de 2019

Ricardo Coração de Leão: o grande Rei no campo de batalha.

RICARDO CORAÇÃO DE LEÃO: O GRANDE REI NO CAMPO DE BATALHA

Ricardo reinou pouco e morreu relativamente jovem; mas sua reputação como guerreiro legendário é eterna
RICARDO GIASSETTI PUBLICADO EM 07/09/2019.
O grande monarca Ricardo I
O grande monarca Ricardo I - Wikimedia Commons
Quando o rei inglês Eduardo III declarou guerra ao monarca francês Filipe VI, em 1337, estava fazendo mais do que dar início à série de conflitos que seria chamada de Guerra dos Cem Anos. Ele sacramentava mais de 400 anos de ressentimentos entre França e Inglaterra. A guerra mais significativa do período medieval, que trouxe mudanças que vão desde as armas e estratégias de batalha até a estrutura socioeconômica feudal — propiciando o nascimento das nações europeias —, tem raízes em 911.
Foi nesse ano que, após várias batalhas contra a tribo viking do gigante Rollo, o rei francês Carlos, o Simples, entendeu que os bárbaros do norte queriam apenas um lugar para viver. Concedeu a eles um território, que ficou conhecido como Normandia. Em 150 anos, os normandos já haviam criado uma nação e ajudavam os ingleses do outro lado do canal contra outros vikings. Em 1066, os normandos se rebelaram e tomaram as ilhas sob o comando de Guilherme I, o Conquistador, autoproclamado rei da Inglaterra.
Por mais 150 anos, os anglo-normandos descendentes de Guilherme I reinaram tanto sobre a Normandia quanto sobre o solo inglês. Em 1216, porém, a Normandia voltou para mãos francesas, o que nunca mais seria esquecido pelos nobres ingleses. Começava aí uma disputa de direitos e brios nacionalistas que culminaria na Guerra dos 100 Anos — e, antes de ela começar, um nobre inglês seria o personagem principal da crise entre a Inglaterra e a França.
A mãe tenta derrubar o pai.
A história de Ricardo Coração de Leão é intricada, porém fascinante. Seu pai, Henrique II, foi rei inglês. Coroado em 1154, em seus 35 anos de reinado englobou nacos da Escócia e da Irlanda, herdou as províncias de Anjou e Normandia e ainda conquistou o coração e as terras de Eleanor de Aquitânia, antes casada com o rei Luís VII da França.
Além de a bela rainha não ter deixado herdeiros ao rei francês, ainda levou seu dote, a Aquitânia (região do sudoeste da França), para as mãos de Henrique II. Terceiro filho do casal, Ricardo não tinha a menor perspectiva de se tornar rei, mas tinha uma vantagem: era o predileto da mãe. Em 1173, ela traiu o marido com o cérebro de uma conspiração que envolveu os três filhos mais velhos, Henrique, Ricardo e Geoffrey.
Eleanor queria derrubar o rei através de uma guerra civil. Não conseguiu. A rebelião destruiu a confiança de Henrique nos filhos, principalmente em Ricardo. O caçula, João, o único a não participar do plano, se tornou o favorito à sucessão. Eleanor terminou presa por ordem de Henrique.
Forte vínculo.
Foi nesse período que Ricardo desenvolveu um forte vínculo com o jovem Filipe Augusto, o herdeiro que sua mãe não dera a Luís VII. Filipe era filho de Luís VII com a terceira esposa dele, Adèle de Champagne. Foi assim que, apesar de inglês, o jovem Ricardo foi viver na França. Teve ironicamente uma educação francesa e cresceu aprendendo a chamar a França de lar. Essa amizade entre Filipe Augusto e Ricardo seria essencial em 1188, quando Henrique II tentou tomar a Aquitânia para o filho caçula, conhecido jocosamente como João sem Terras.
A coroação / Crédito: Wikimedia Commons
Ricardo, já um soldado e um nobre que sabia atuar como político, se aliou a Filipe com a promessa de lhe conceder a Normandia. Um ano depois, derrotado, Henrique II resignou-se e concedeu a Ricardo o título de herdeiro – e morreu meses depois. Em 6 de julho de 1189, Ricardo se tornava rei da Inglaterra. Um dos primeiros atos do novo rei foi tirar sua mãe da prisão.
Ricardo não cumpriu a promessa com Filipe — que nunca esqueceu o incidente. Em 1190, a convocação para libertar a Terra Santa de mãos muçulmanas na Terceira Cruzada juntou novamente Ricardo I, da Inglaterra, e o agora rei Filipe II, da França. A coragem do rei Ricardo como general nessa cruzada lhe valeu o título de Coração de Leão — mas ele ganhou também a fama de matador de árabes.
Ricardo Coração de Leão durante a cruzada / Crédito: Wikimedia Commons
Filipe via algo a mais que a Terra Santa em jogo. A historiadora austríaca Ulrike Kessler diz que Filipe tentava “tanto selar a derrota de Ricardo quanto evitar seu retorno. Para ele, não havia motivo para tomar Jerusalém. Sabia que a vitória seria creditada somente a Ricardo”.
Castigo.
Castigado pela disenteria, o monarca francês abandonou a cruzada. “Filipe era ardiloso. Ele iniciou a desconstrução do reino e da imagem de Ricardo assim que voltou à França”, afirma Paul Halsall, professor de história medieval da Universidade Fordham, em Nova York. Enquanto isso, a força de Eleanor de Aquitânia como regente começava a esmorecer diante do poder aliado de seu filho João sem Terras e de Filipe II.
No caminho de retorno da cruzada, Ricardo acabou capturado pelo duque Leopoldo V da Áustria, ficando prisioneiro do rei germânico Henrique VI. Ricardo só se libertou com o pagamento de 150 mil marcos, o equivalente a dois anos dos dividendos da coroa inglesa. Filipe e João se uniram para oferecer a mesma quantia para que Ricardo continuasse preso.
Não conseguiram deixá-lo encarcerado. De volta à Inglaterra, em 1194, Ricardo precisou apenas de algumas semanas para recuperar os castelos tomados por João. Dos dez anos de reinado, Ricardo não passou mais do que seis meses nas ilhas britânicas – estava sempre em combate. Em 1199, quando foi pessoalmente recuperar uma botija de ouro em uma rixa, levou uma flechada no ombro esquerdo de um jovem arqueiro de nome Peter Basil. Estava sem armadura e usava apenas capacete e escudo.
Morte.
A falta de cuidados médicos condenou o rei guerreiro à morte aos 41 anos. Ricardo só teve tempo de ordenar a divisão de seu reino. Três quartos de suas terras ficariam para seu irmão João. O corpo embalsamado foi enterrado no Mosteiro de Fontevrauld, aos pés da tumba de seu pai. Para a Inglaterra, o Leão não deixou nada, mas os ingleses entoariam suas façanhas para aumentar o sentimento patriótico na guerra que viria depois contra os franceses – um conflito que teria como motivo as mesmas regiões disputadas entre Ricardo, João, sua mãe e Filipe.
A morte do rei / Crédito: Wikimedia Commons
A Guerra dos Cem Anos começou 123 anos após a morte de Coração de Leão. A lã inglesa foi o estopim. É que, por volta de 1320, a região de Flandres (atual Bélgica) era uma grande produtora de tecidos. Os comerciantes apoiavam os ingleses, de cuja lã dependiam.
Mas o território estava sob vassalagem francesa e, em 1329, o rei francês Filipe VI decidiu intervir, levando o inglês Eduardo III a suspender a venda de lã para a região e a retirar o juramento de fidelidade ao monarca – e ainda por cima exigir seu trono. Deu-se então o impasse que finalmente levou a Inglaterra, onde nasceu Ricardo Coração de Leão. 

Saiba mais
Guerreiros de Deus: Ricardo Coração de Leão e Saladino na Terceira Cruzada, de James Reston Jr., 2001
Guerreiros Lendários, de Daniel Mersey, 2000

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Adega construída na época das Cruzadas é encontrada no norte de Israel.

Publicado por  Traduzca

Uma das maiores adegas da época das Cruzadas foi encontrada recentemente em Mi’ilya, um vilarejo da Galileia, norte de Israel. Localizada embaixo de uma casa do povoado, a construção de dois níveis contava com espaço para preparação das uvas e um grande poço esculpido em rocha para armazenamento do vinho. A descoberta é resultado de um esforço feito pela comunidade local, que incentiva pesquisadores a realizarem estudos arqueológicos na região.

O anúncio da descoberta foi feito por Rabei Khamisy, arqueólogo da Universidade de Cardiff e chefe das escavações, para o jornal Haaretz. Especialistas dizem que a existência do local acima da adega já era conhecida e que o espaço foi construído por Balduíno III, rei das Cruzadas de Jerusalém, em meados do século XII. O cômodo localizado agora, porém, não fazia parte dos estudos realizados anteriormente. Salma Assaf, moradora da região, disse que incentiva as pesquisas no local pois, segundo ela, “quero saber o que existia embaixo da minha residência”.

Segundo Khamisy, o que torna a construção impressionante é sua grandeza e estrutura. O pesquisador chefe disse que “os bizantinos tinham adegas muito maiores, mas os cruzados não tinham nada comparável, até onde sabíamos”. As ruínas de Mi’ilya não são tão bem preservadas como outros sítios arqueológicos próximos, então o governo local interditou algumas áreas, o que levou a comunidade a buscar arqueólogos para pesquisar os espaços históricos.
Agora, a comunidade de Mi’ilya planeja explorar o potencial turístico da região com a construção de um museu que contará a história do local, uma das únicas cidades cristãs em Israel que professam a fé greco-católica melquita. Além disso, há também o projeto de erguer, sobre a adega encontrada, um centro de gastronomia e turismo chamado Chateau du Roi, em homenagem ao Castelo do Rei, com um piso de vidro para que os visitantes possam observar as relíquias arqueológicas que a comunidade preserva.

domingo, 11 de agosto de 2019

Guarda varangiana: vikings em Constantinopla.

GUARDA VARANGIANA: VIKINGS EM CONSTANTINOPLA

Do século 10 até o século 14, mercenários escandinavos se tornaram parte central na defesa do Império Romano do Oriente
LETÍCIA YAZBEK E THIAGO LINCOLINS PUBLICADO EM 11/08/2019
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- Crédito: Reprodução
Durante o verão de 987, os homens do general bizantino Bardas Focas se preparavam para invadir Constantinopla. Antes aliado do imperador Basílio II, Focas havia se rebelado para lhe tomar o poder e controlar o Império. Mas o imperador, que já esperava o ataque inimigo, contava com uma arma secreta. Em um acordo com o príncipe Vladimir I, dos Rus de Kiev, 6 mil guerreiros foram enviados para lutar pelo exército bizantino — em troca, Vladimir se casou com Ana, irmã do imperador.
Antes que Focas pudesse atacar, um grupo atravessou o Estreito de Bósforo em direção a Crisópolis, atual Üsküdar, onde os rebeldes festejavam. Armados com machados e espadas, os nórdicos trucidaram grande parte dos inimigos e colocaram em fuga os poucos que restaram.
No ano seguinte, os guerreiros enfrentaram Bardas Focas e seus homens na sangrenta Batalha de Abido, que terminou com a morte do general e na consolidação do poder de Basílio II — e de seu exército estrangeiro.
Era a instituição permanente da guarda varangiana, unidade de elite do exército bizantino que atuou como tropa de choque e defesa pessoal dos imperadores até o século 14. Conhecida pela fidelidade e violência extremas, seria a tropa mercenária mais famosa da História.
Vikings russos.
O que vikings faziam na Ucrânia? No século 9, parte dos nórdicos que viviam na região de Uppland, hoje pertencente à Suécia, iniciou um movimento de migração em direção ao leste, em busca de prata e produtos como peles e âmbar. Liderados pelo rei Rurik, tomaram a cidade eslava de Novgorod.
Os guerreiros andavam sempre com machados e espadas / Crédito: Reprodução
Esses invasores eram chamados de rus. Segundo os pesquisadores Hunt Janin e Ursula Carl, autores de Mercenaries in Medieval and Renaissance Europe (Mercenários na Europa Medieval e Renascentista), “a palavra rus provavelmente tem origem no idioma nórdico antigo, e significa os homens que remam”, referência à forma como os vikings chegavam, de barco.
Excelentes navegadores, os rus passaram a comercializar com os árabes e os gregos, controlando importantes rotas comerciais, como a do Rio Volga, que ligava o Mar Báltico ao Mar Cáspio, e a do Rio Dniepre, que os levava ao Mar Negro e a Constantinopla — o mais poderoso e organizado Estado da Europa, que seria alvo de ataques rus.
“Em 860, os varangianos [nome pelo qual os bizantinos os chamavam] atacaram e pilharam os arredores da capital imperial e, mesmo sem conseguir atacar Constantinopla devido à sua fortificação, eles se mostraram, conforme fontes bizantinas, como forças devastadoras”, afirma o historiador Johnni Langer, da Universidade Federal da Paraíba.
Em 882, sob o comando de Oleg, sucessor do rei Rurik, os rus migraram para o sul, em direção ao Rio Dniepre e à cidade de Kiev, expandindo seu território e influência na região. A partir de então, até por volta de 970, realizaram mais uma série de ataques ao Império Romano do Oriente (eles nunca se chamaram de bizantinos), que, diante do poder ofensivo inimigo, acabaram cedendo vantagens comerciais e oferecendo acordos de paz.
A serviço do imperador.
No fim do século 10, enquanto muitos rus se aventuravam pelas rotas comerciais, outros optaram por atuar como uma guarda mercenária. Segundo Langer, há evidências de que a presença de vikings em uma elite militar bizantina teve início ainda no século 9, durante o governo do imperador Teófilo (829-842), quando estrangeiros eram contratados para lutar em batalhas específicas.
Autor de The Varangian Guard — 988-1453 (A Guarda Varangiana — 988-1453), o historiador Raffaele D’Amato cita uma operação realizada contra os muçulmanos de Creta, em 902, quando cerca de 700 varangianos estavam a serviço dos bizantinos.
O verdadeiro terror  / Crédito: Reprodução
O termo varangiano surgiu no século 9, quando os primeiros rus começaram a servir o Império Bizantino. Foi usado inicialmente pelos bizantinos e depois apropriado pelos rus. Segundo Janin e Carl, a palavra tem origem no termo nórdico antigo vaering, que significa algo como aliado, confiança ou voto de fidelidade.
“Ela se refere a um grupo de guerreiros ou comerciantes que jurou lealdade ao seu líder e fraternidade entre si.” Foi só em 988, após o acordo entre Basílio II e Vladimir I de Kiev, quando a tropa de 6 mil homens foi enviada em auxílio ao imperador, que a aliança política entre norte e sul foi consolidada.
Impressionado com a rapidez, a ferocidade, o empenho e as técnicas de ataque com que ao varangianos derrotaram os homens de Bardas Focas, Basílio II decidiu contratá-los como sua guarda pessoal. A vantagem, para ele, era enorme: além da fama de brutalidade, que fazia com que fossem respeitados por onde passassem, o povo era conhecido por sua lealdade comprovada.
Os estrangeiros logo se mostraram muito mais habilidosos e confiáveis do que os próprios guardas bizantinos. “Sendo mercenários, podiam ser controlados com dinheiro, sempre uma vantagem em vez de recrutar bizantinos — que poderiam se rebelar por questões políticas ou sociais”, conta Langer.
Utilizada principalmente como defesa do palácio e do imperador, a guarda varangiana era a unidade mais bem paga de todas as tropas do Império. Focados no objetivo de enriquecer, os soldados nórdicos se entregavam à tarefa em troca de dinheiro, terras e cidadania.
Diante da lealdade e do terror provocado pelos varangianos, os sucessores de Basílio II continuaram a utilizá-los como guardas pessoais e tropa especial. Ao longo dos séculos que se seguiram, a guarda ganhou importância e se tornou uma das forças mais respeitadas do Império.
Ajuda decisiva.
Inicialmente, a guarda era composta de descendentes de escandinavos. À medida que crescia, passou a incluir diferentes homens, entre eles: anglo-saxões, irlandeses e escoceses. Na época, era uma honra servir aos imperadores bizantinos.
Assim, uma taxa de 7 a 16 libras (328 g, na libra romana) de ouro passou a ser cobrada para que os homens pudessem entrar na guarda. Muitas vezes o próprio imperador emprestava a quantia. Em troca, os soldados pagariam a dívida com o salário que recebiam por suas atuações. A confiança que os imperadores investiram nos guerreiros só foi possível devido aos esforços nos campos de batalha.
Durante a Batalha de Beroia, em 1122, no local que é hoje a Bulgária, a guarda varangiana demonstrou todo o seu poder. Inicialmente, o conflito foi travado entre o exército regular com pechenegues, um povo seminômade da Ásia Central que havia invadido o Império. Essas tropas bizantinas não foram capazes de conter a invasão.
A luz no fim do túnel veio com os varangianos. Com machados dinamarqueses que mediam em torno de 1 metro, e com uma enorme fúria, os vikings fizeram com que os pechenegues fugissem. Os que sobreviveram foram aprisionados e se juntaram às fileiras da guarda varangiana.
Soldado-celebridade.
Um nome notório que atuou na guarda foi Harald Hadrada. O futuro rei da Noruega chegou a Constantinopla em 1034. Como membro da guarda, se diferiu dos vikings que protegiam os imperadores. Hadrada e os seus 500 homens participaram de batalhas nas fronteiras do Império.
Inicialmente, ele e os seus homens participaram de campanhas contra piratas árabes no Mediterrâneo. Depois foram para as cidades do interior da Ásia Menor. Por volta de 1035, Harald também prestou serviços no leste do Eufrates.
Harald Hadrada / Crédito: Wikimedia Commons
De acordo com os relatos de Thiodholf Arnorsson, poeta da corte dos reis, ele participou da captura de 80 fortalezas árabes. O prestígio veio quando Harald, e os outros guerreiros varangianos, foram enviados para lutar na Bulgária, em 1041, ao lado do exército liderado por Miguel IV, contra a revolta búlgara.
Após o conflito, Harald recebeu o título de honra bizantino Spatharokandidatos (Espatarocandidato) e o apelido Bolgara brennir (Búlgaro queimador), devido à sua participação intimidadora.
“No serviço da Guarda, Hardrada viu ação extensiva, tendo participado de campanhas na Itália, Sicília, Bulgária e no Oriente, tendo ainda viajado até Jerusalém, possivelmente em escolta de peregrinos de alta importância no Império Bizantino. Sua vida no leste lhe garantiu fama, reputação e uma boa fortuna, que usou para financiar sua reivindicação ao trono da Noruega”, diz Langer.
Harald teria sido preso após a realização de um saque indevido da fortuna do imperador Miguel V. Ele foi libertado quando o imperador perdeu o trono após um reinado curto de quatro meses. Só deixaria a guarda de fato em 1043, quando voltou para a sua terra e iniciou o processo para assumir o trono da Noruega.
Desastre.
O declínio dos vikings bizantinos se relaciona, em grande parte, à queda de Constantinopla, devido às consequências da Quarta Cruzada, de 1204. Foi feito um acordo com a República de Veneza para prover o transporte deles até o Egito, no caminho para a reconquista de Jerusalém. Mas, antes mesmo de saírem, receberam uma proposta do príncipe Alexios Angelos para realizarem um desvio para Constantinopla.
Angelos queria que eles o ajudassem a se instalar no trono de seu pai, Alexios III, deposto por uma revolta. Em troca, receberiam suprimentos e financiamento para o resto da missão. Com a ajuda dos cruzados e seus aliados venezianos, Alexios, o filho, seria feito imperador em 1203.
No ano seguinte, outra revolta o levou do trono para o precipício. Quando os cruzados souberam que Alexios havia sido executado, decidiram tomar Constantinopla — o notório saque seria a forma de receberem o pagamento prometido pelo imperador.
O cerco começou em 8 de abril de 1204, e no dia 12 os cruzados conseguiram atravessar os muros, iniciando um saque que iria até o dia seguinte. E foi nesse momento que os vikings bizantinos entraram em ação. A guarda travou uma sangrenta luta com os venezianos que escalaram as muralhas pelo mar. Mas foi em vão, diante dos números dos cruzados.
Com a capital do Império queimada, saqueada e vandalizada, a guarda varangiana perdera o seu impacto. Passou a desempenhar funções secundárias ou cerimoniais. Alguns dos guerreiros ainda serviram ao Império de Niceia ou ao Principado do Epiro, fragmentos do Império Romano do Oriente.
Outros varangianos lutaram contra os búlgaros em 1265. Em 1351, foram mencionados como guardas do imperador João V. “Diversos elementos da identidade dos vikings bizantinos eram providos pela cultura e religião nórdica pagã, que desapareceram aos poucos com a cristianização dos guerreiros”, afirma Langer.
Constantinopla voltaria às mãos dos bizantinos, pela Dinastia Paleóloga, em 1261 . A essa altura, os nórdicos já estavam totalmente integrados na vida cristã europeia. Não havia mais vikings. A guarda não foi reconstruída.
O novo Império Romano — eles continuaram a se chamar assim, nunca bizantinos ou gregos — não duraria dois séculos, caindo diante dos canhões de 5 metros do Império Otomano em 1453. Provavelmente, a essa altura, uma força viking não teria muito a fazer. Mas nunca vamos saber.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Cientistas descobrem a causa da morte de Luís IX, o Rei da França que virou santo.

CIENTISTAS DESCOBREM A CAUSA DA MORTE DE LUÍS IX, O REI DA FRANÇA QUE VIROU SANTO

O famoso rei-santo foi responsável pela Cruzada até a Tunísia, entretanto, uma estupidez o levou à morte. Entenda!
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 24/06/2019.
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As teorias que apontam a peste como causa da morte do rei Luís IX não tem fundamento documental. Um novo estudo de arqueologia forense levantou, recentemente, uma nova hipótese para a morte do rei-santo. Ele teria morrido, na verdade, de escorbuto ou pelas complicações da doença. 
A origem da doença teria sido de uma estupidez que, na verdade, era comum entre os invasores coloniais da época: Luís teria se recusado a se alimentar da comida local africana durante sua Cruzada na década de 1270.
Os especialistas usaram fragmentos do maxilar do rei, que estão na Catedral de Notre-Dame, para chegar a essa conclusão. A mandíbula apresenta danos na gengiva e nos ossos, o que condiz com os sintomas do escorbuto. A falta de ingestão de comida num cardápio equilibrado teria reduzido a absorção de Vitamina C de Luís, levando-o ao agravamento da saúde. Luís morreu cinco semanas após o desembarque em Cartago.
Mandíbula do rei / Crédito: Divulgação
Isso porque a Cruzada de Luís foi até a Tunísia, terra rica em frutas e legumes repletos de Vitamina C. Com a recusa do Rei, sua saúde piorou. Foi a última viagem dele na tentativa de tomar a Terra Santa.
Escorbuto é uma condição rara de saúde em que a falta de Vitamina C impede a substituição e renovação do colágeno nos tecidos do corpo, gerando dores, sangramentos e fragilidade. Era uma doença comum em piratas e viajantes, por falta de consumo de frutas. Uma equipe de pesquisadores coordenada pelo patologista Philippe Charlier acredita estar confirmado o diagnóstico de escorbuto de Luís IX.
Morte de Luís IX em Tunis / Crédito: Wikimeida commons
Foi usada da datação de Carbono-14 para autenticar a origem da queixada analisada. O exame ósseo confirmou o escorbuto, pois a fibra da estrutura estava fragilizada.
Cronistas da época relataram como São Luís perdeu os dentes e cuspiu pedaços de suas gengivas - o que é consistente com o que foi analisado em sua mandíbula. Por muito tempo, historiadores usaram esse tipo de relato para afirmar que Luís teria morrido de Peste, mas as fontes não são tão precisas.

sábado, 18 de maio de 2019

Queda de Acre: a derrota final das Cruzadas.

QUEDA DE ACRE: A DERROTA FINAL DAS CRUZADAS

Neste dia, em 1291, a Palestina voltava para mãos islâmicas
NATALIA YUDENITSCH PUBLICADO EM 18/05/2019.
A queda da fortaleza em ilustração de 1840
A queda da fortaleza em ilustração de 1840 - Wikimedia Commons
No fim de 1290, a situação no porto mediterrâneo de São João de Acre, hoje a cidade israelense conhecida como Akko, estava para lá de tensa. Baybars, um sultão mameluco do Egito, já havia reduzido o reino de Jerusalém, o mais importante estado cristão estabelecido pelos cruzados, a uma pequena faixa de terra entre Sidão e Acre em 1268. 
A paz era precariamente mantida pelos esforços do rei Eduardo I da Inglaterra, apoiado pelo papa Nicolau IV. Só foi preciso que um grupo de soldados italianos se metesse numa encrenca com camponeses muçulmanos para que o delicado equilíbrio que mantinha a região sob controle fosse pelos ares. Os italianos católicos encerraram a pendenga degolando os islâmicos e eliminando na mesma leva outro tanto de sírios cristãos. 
Quando a história da matança chegou aos ouvidos do sultão egípcio al-Ashraf Jalil, ele imediatamente exigiu a cabeça dos assassinos. Pega em meio a uma disputa pela sucessão do trono de Jerusalém, Acre disse não ao sultanato. Em abril de 1291, a cidade acordou cercada por mais de 200 mil soldados muçulmanos. A cristandade correu em socorro de um de seus pontos mais estratégicos na Terra Santa.
Canal de comunicação.
Cavaleiros hospitalários, teutônicos e templários, somados a tropas inglesas e italianas, partiram para defender o porto. Só que aí já era tarde demais. Em 18 de maio, as forças turcas e egípcias tomaram oficialmente a cidade. Caía o último bastião dos europeus e, com ele, o sonho que por anos alavancou as cruzadas para o Oriente. 
 “Para entender a importância de Acre nesse período, é preciso voltar à sua época dourada, logo após sua tomada, em 1104, por um dos líderes da Primeira Cruzada, Balduíno de Boulogne, mais tarde coroado como o primeiro monarca do reino latino de Jerusalém”, diz Norman Edbury, professor de história medieval da universidade de Oklahoma, nos EUA. “A cidade era um dos mais importantes centros comerciais do mundo medieval, o maior porto da costa da Palestina. Acre era bastante próspera e civilizada, recebendo comerciantes italianos, bizantinos, africanos e egípcios. Sua localização geográfica, ao norte da baía de Haifa, a tornava um canal de comunicação entre o Oriente e o Ocidente e foi muito utilizada pelos cruzados entre os séculos 11 e 13.”
Além de ser um centro econômico e político estratégico, Acre, como capital do reino de Jerusalém, tinha ainda um grande valor simbólico para três grandes religiões: a cristã, a judaica e a muçulmana. Sua população chegava a 25 mil habitantes – cerca de 10% de todo o reino. Somados todos os interesses, a cidade trocou de mãos várias vezes desde sua fundação, por volta de 1500 a.C., pelos cananeus, sendo ocupada por assírios, romanos, bizantinos, muçulmanos e cristãos.
A Batalha de Hattin / Crédito: Wikimedia Commons
Acre nas cruzadas.
O período mais turbulento da vida do porto, contudo, foi durante as Cruzadas, quando foi batizado de São João de Acre. O primeiro revés ocorreu pelas mãos do sultão egípcio Saladino, em 1187, na Batalha de Hattin. Do lado cristão, as tropas do francês Guy de Lusignan, o rei consorte de Jerusalém, e o príncipe da Galiléia Raimundo III de Trípoli.
Ao todo, havia cerca de 60 mil homens, entre cavaleiros, soldados desmontados e mercenários muçulmanos. Já a dinastia aiúbida, representada por Saladino, contava com 70 mil guerreiros. Quando os cruzados montaram acampamento em um campo aberto, forçados a descansar após um dia de exaustivas batalhas, os homens de Saladino atearam fogo em volta dos inimigos, cortando seu acesso ao suprimento de água fresca. A cortina de fumaça tornou quase impossível para os cristãos se desviar da saraivada de flechas muçulmanas. 
Sedentos, muitos cruzados desertaram. Os que restaram foram trucidados pelo inimigo, já de posse do porto. “Em um de seus famosos momentos de clemência, Saladino poupou a vida de Guy, enquanto Raimundo escapou da batalha com sucesso. Com a cidade tomada, o sultão restaurou a fé islâmica e reforçou o sistema defensivo, formado por muralhas que envolviam o porto”, afirma John Hildebrand, professor de história medieval da Universidade de Edimburgo, na Escócia.
Coração de Leão.
O gesto magnânimo de Saladino, porém, custaria caro. Em 1189, Guy de Lusignan tentou reconquistar a cidade, num conflito que duraria anos e só seria resolvido com a chegada de um novo personagem: Ricardo Coração de Leão, o rei da Inglaterra. Foi ali, na Terceira Cruzada, em 1191, que o rei Ricardo fez sua fama de guerreiro e conquistou o título de Coeur de Lion ("Coração de Leão", em francês) ao garantir a volta de Acre às mãos da cristandade. 
Ricardo Coração de Leão / Crédito: Wikimedia Commons
Apesar de inimigos e de nunca ter se encontrado, Saladino e Ricardo Coração de Leão se respeitavam. Trocaram presentes e honrarias, culminando num acordo que deixou Jerusalém em mãos muçulmanas. Isso transformou São João de Acre na grande capital dos Estados Latinos na Terra Santa. Seu porto recebeu peregrinos e guerreiros cruzados, como o rei Luís IX da França na Sétima Cruzada, em 1250.
Seu retorno à Europa quatro anos depois e a posterior morte durante a Oitava Cruzada deixaram uma lacuna na sucessão do reino de Jerusalém. Sem proteção, a cidade de Acre foi enfraquecida por Baybars. Até que finalmente cedeu, em 1291, às investidas dos mamelucos egípcios. Depois disso, o porto conheceu a decadência, passando posteriormente para o domínio turco otomano e finalmente sendo anexado a Israel em 1948.