Mostrando postagens com marcador Batalha de Salamina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Batalha de Salamina. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de setembro de 2019

A saga de Temístocles: democrata, herói, maldito, traidor.

A SAGA DE TEMÍSTOCLES: DEMOCRATA, HERÓI, MALDITO, TRAIDOR

O político e general ateniense levou sua cidade à glória contra os persas em Salamina, mas terminou exilado e servindo ao inimigo
CARLO CAUTI PUBLICADO EM 17/09/2019
Temístocles
Temístocles - Getty Images/Leemage
Uma resposta curta, certeira e sonhadora - é como as crianças normalmente reagem com a comum pergunta fetia à elas sobre o que ser quando crescer. Temístocles, quando criança, respondeu com ainda mais certeza e pé no chão quando seu pai o fez a mesma pergunta, e disse: Quero ser político.
Embora considerado estrangeiro pelos cidadãos de Atenas, chegou a ser um dos maiores estrategistas gregos. O historiador grego Plutarco, seu biógrafo, o descreveu como um homem “cheio de ímpeto, de natureza inteligente, capaz de grandes ações e inclinado à política”.
Hoje, a resposta que legiões de historiadores buscam é: como esse homem de sucesso, que chegou ao topo da carreira política e militar ateniense, sofreu tamanha derrocada, a ponto de ter que se humilhar e pedir asilo ao filho do seu antigo inimigo?
Um homem feito
Nascido em 524 a.C. em Feriza, um anônimo vilarejo na periferia ateniense, Temístocles demonstrava uma astúcia fora do comum. Nos primeiros anos de vida, viveu em Cinosarges, distrito fora dos muros da cidade reservado aos imigrantes, o que limitava sua vida social.
Um impedimento inaceitável para quem sempre almejou carreira política. Foi por isso que, ainda criança, conseguiu convencer os filhos de cidadãos atenienses proeminentes a se exercitarem com ele no templo de Hércules em Cinosarges, eliminando assim a distinção entre “estrangeiro e cidadão legítimo”, e já começando a se preparar para a vida pública. 
Temístocles / Crédito: Wikimedia Commons
Temístocles tinha a capacidade de decifrar rapidamente e com lucidez o cenário político local e internacional, arquitetando as melhores soluções para os problemas e os desafios, agindo de forma similar à do estadista ateniense e conterrâneo Péricles, arauto da democracia e seu futuro absolvidor.
A trajetória de ambos tinha muito em comum e se encontraria em alguns momentos, mas havia diferenças básicas entre eles: Péricles, que governaria Atenas entre 460 e o 429 a.C., era filho de família tradicional da cidade-estado grega, curiosamente apoiador da democracia, algo muito incomum entre os nobres atenienses da época. Temístocles era um nòthos, homem de estirpe mista, filho de mulher não ateniense e homem que tinha enriquecido e conquistado posição social graças ao trabalho, o que não era muito bem-visto na sociedade grega da época, por ser tarefa relegada aos escravos.
Péricles era tímido e pouco amante dos aplausos e das grandes multidões, enquanto Temístocles os adorava e os procurava, embora nunca tenha sido acusado de populismo em toda a sua carreira pública.
Política do mar
Depois de anos sombrios de tirania, em 508 a.C. Atenas foi investida de uma grande ebulição política, provocada pelas reformas de Clístenes, que deu aos cidadãos de todas as classes sociais um peso maior no governo da cidade .
As pessoas comuns consideravam Temístocles, que fazia parte do grupo que defendia a democracia, um homem do povo, e foi assim que a ecclesia, a assembleia geral dos atenienses, o elegeu como arconte epônimo, o cargo mais importante entre os nove magistrados nomeados todos os anos para governar a cidade. 
Como arconte, Temístocles estreou uma política marítima com a expansão do porto do Pireu, na convicção de que aquela baía com três angras fosse muito mais adequada para hospedar uma grande frota naval militar do que Falero, o porto até então utilizado pelos atenienses, que nada mais era do que uma pequena praia.
Atenas não possuir naquele momento uma frota militar era somente um detalhe que o audacioso jovem de 31 anos, em breve, resolveria. E para obtê-la ele estava disposto a tudo, até a colocar em risco a própria carreira desafiando a opinião pública. Em 483 a.C. propôs que os atenienses utilizassem os ganhos das minas de prata recém-descobertas perto da cidade para construir navios de guerra.
A proposta gerou um duríssimo conflito com Aristides, seu adversário político, que propunha dividir a prata entre os cidadãos. Muito persuasivo, sua justificativa era “Nossa cidade precisa da frota para derrotar os eginetos”. Embora ousada e arriscada, a manobra deu certo. 
“Temístocles é sem dúvida o político que transformou Atenas de potência terrestre em uma potência naval, permitindo assim sua hegemonia nas décadas seguintes”, diz à AH Anna Ramou-Hapsiadi, professora de História Antiga da Universidade de Atenas. Ele foi o homem que conseguiu fazer a cidade olhar em direção ao mar. 
“Seu projeto político apontava para a grandeza de Atenas, e ele o perseguiu com uma lúcida inteligência. Acreditava que os persas tentariam novamente invadir a Grécia, e dessa vez com uma frota muito mais poderosa. Por isso sempre lutou para que Atenas se tornasse uma grande potência naval. Nesse caso não somente demonstrou ser um gênio da estratégia, que podia prever o futuro, mas também posicionou as bases para a formação do império naval ateniense nos anos seguintes”, explica o professor Barry Strauss, chefe do Departamento de História da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, e autor do livro A Batalha de Salamina, publicado no Brasil pela Editora Record.
Ascensão popular
 Construir mais navios significava também criar mais trabalhos para carpinteiros, marinheiros e remadores, recrutados entre as fileiras dos tètes, que formavam a classe social mais baixa e colocada às margens da vida política de Atenas. Graças a Temístocles, os tètes conquistaram uma relevância jamais vista na História da cidade, o que ajudou na ascensão popular de Temístocles. 
Logo, os tètes começaram a reivindicar um maior peso político na cidade, colaborando para que Atenas se tornasse uma verdadeira democracia inclusiva. Essa dialética social provocou a evolução do sistema político ateniense, até então dominado pela oligarquia, através das sucessivas reformas de Efialtes e de Péricles.
Foi Péricles que concretizou a participação direta na administração da cidade para todos os cidadãos atenienses, estabelecendo, por exemplo, que a atividade política fosse retribuída com um salário mínimo, e permitindo assim a ascensão de classes mais humildes para cargos públicos mais altos. Mas as raízes profundas dessa mudança estão na política levada adiante por Temístocles anos antes.
Alguns contemporâneos do general ateniense, como Platão, condenaram a mudança por ser excessivamente revolucionária. Plutarco, mais pragmático, reconheceu que a medida que salvou Atenas, a Grécia e, portanto, o Ocidente inteiro, da invasão persa foi construir mais navios militares, envolvendo todas as camadas da população da cidade. Uma decisão pela qual Temístocles lutou intensamente. 
“Temístocles era um grande estrategista e tinha visão revolucionária. Sua convicção de que Atenas teria que se tornar uma grande potência naval e que o porto do Pireu tinha que ser potenciado provocaram uma verdadeira transformação social na cidade-estado grega. Entretanto, não é possível afirmar que o objetivo dele fosse prioritariamente melhorar as condições do povo. Ele simplesmente usou os cidadãos mais humildes e Atenas para realizar concretamente seu grande projeto político e militar”, relata P. J. Rhodes, professor emérito de História Antiga da Universidade Durham, no Reino Unido, e autor de várias obras sobre o tema.
A vitória de Salamina
Batalha de Salamina, por Wilhelm von Kaulbach / Crédito: Wikimedia Commons
Em 481 a.C. o soberano persa Xerxes atravessou o Estreito de Dardanelos com 1,7 milhão de homens e 80 mil cavaleiros, começando a Segunda Guerra Greco-Persa. Seguia os passos de seu pai, Dario, o Grande, que nove anos antes ameaçou a Grécia inteira após ter derrotado as cidades gregas da Ásia Menor.
Naquela ocasião, as forças de Dario arrefeceram na Batalha de Maratona, em 490 a.C., derrotadas pelas tropas atenienses lideradas por Milcíades. Essa grande vitória militar infligiu um golpe histórico não somente nas ambições de conquista da Pérsia mas também no orgulho de Temístocles. “O troféu de Milcíades não me deixa dormir”, respondia a quem lhe pedia explicações sobre seu mau humor. 
Mas dessa vez, com a segunda tentativa de invasão persa, ele não deixaria escapar sua fatia de glória. “Somente um muro de madeira permanecerá de pé”, havia previsto a sacerdotisa do Oráculo de Delfos aos atenienses que a questionaram sobre o destino da cidade ameaçada por Xerxes.
Temístocles usou mais uma vez sua proverbial astúcia e convenceu os compatriotas de que o muro de madeira citado pela sacerdotisa era uma metáfora dos navios atenienses que ele comandava. Assim, aumentou a frota e ordenou que todos os atenienses hábeis para a luta embarcassem. A realidade dos fatos, entretanto, parecia remar contra o estratego (designação dos generais gregos). 
Aproveitando a falta de defesas na cidade, em setembro de 480 a.C., os persas conquistaram Atenas e chegaram a queimar a Acrópole. Naquele momento o desespero tomou conta dos comandantes das frotas helênicas. A destruição da cidade líder da aliança antipersa quase levou ao fim da união das forças gregas e à derrota total. Mais uma vez, a habilidade de Temístocles salvou a situação.
Os gregos foram convencidos a não abandonar suas posições em frente à ilha de Salamina. O líder ateniense usou um estratagema para levar os persas a uma armadilha. Ordenou ao tutor de seus filhos ir até o acampamento de Xerxes passando-se por um traidor e mentisse para o soberano persa, dizendo que os gregos estavam fugindo aterrorizados e, portanto, era o momento certo para atacá-los.
Os persas caíram em cheio na armadilha e atacaram a frota grega em frente à ilha de Salamina, mas não puderam fazer valer sua superioridade numérica, pois os gregos estavam prontos para o combate.  Os persas foram derrotados.
“A batalha de Salamina foi uma vitória total para os helênicos, a mais importante para a Grécia e o Ocidente. Ainda hoje é lembrada como um dos confrontos militares que mudaram o rumo da História, pois foi o ponto de virada da guerra e forçou os persas a se retirarem. Não foi a batalha final da guerra – Plateia foi o último confronto, e o triunfo lá foi dos espartanos –, mas com certeza foi o símbolo da vitória grega e da potência ateniense”, salienta o professor Strauss.
Ostracismo
Embora o êxito em Salamina tenha sido louvado em todo canto, em Atenas logo os cidadãos começaram a desconfiar de Temístocles. Os méritos da vitória – salientavam – eram da cidade inteira, não somente dele, que se gabava do feito, e na Grécia Antiga a vaidade não era apreciada. Ele passou, então, a gerar ciúme entre seus compatriotas. E os nobres consideravam suas reformas perigosas para a estabilidade social da cidade-estado. 
Temístocles foi ignorado e tratado friamente por cerca de um ano, até que os atenienses precisaram dele novamente. Quando a reconstrução de Atenas começou, uma delegação espartana se apresentou para vetar a reedificação dos muros de proteção em volta da cidade. Se Atenas não obedecesse à ordem, seria atacada pelas poderosas forças espartanas, num momento de fragilidade, em que a cidade estava em ruínas e com poucos homens preparados para a luta, sem muros e sem defesa. 
“Temístocles enviou embaixadores a Esparta com a missão de negociar. Foi uma forma de ganhar tempo, o suficiente para terminar a construção dos muros. Então decidiu reivindicar abertamente o direito de Atenas de ter o próprio sistema defensivo, desafiando a cidade rival”, diz a professora Ramou-Hapsiadi. 
Temístocles aproveitou a ocasião também para completar definitivamente a fortificação em volta do porto do Pireu e de levar até o fim “ambiciosos projetos, que melhorassem a posição dominante de sua cidade”. Ele trabalhou para tirar de Esparta o papel de superpotência da Grécia antiga. Os espartanos não gostaram nada disso, e, para tentar eliminar sua incômoda figura política, apoiaram a carreira do nobre ateniense Címon, rival declarado de Temístocles, filoespartano e defensor de uma política de colaboração com a cidade rival. 
Foi o começo do fim para Temístocles. Entre os anos 474 e 470 a.C. a assembleia popular ateniense, incitada por seus inimigos, mandou-o para o ostracismo, votando seu afastamento da cidade por uma década. Mas a perseguição não se limitou a isso. Entre 471 e 466 a.C. seus adversários políticos conseguiram processá-lo por medismo, ou seja, por colaborar com os persas.
Uma acusação considerada falsa pela maioria dos historiadores modernos. Entretanto, Temístocles foi condenado e perseguido por atenienses e por espartanos. Foi obrigado a fugir e, para salvar sua vida, o estratego se refugiou no reino de seu inimigo número um: a Pérsia.
Abrigo inimigo
Artaxerxes / Crédito: Wikimedia Commons
Artaxerxes, filho de Xerxes e seu sucessor ao trono, gostou de acolher Temístocles em seus domínios. Convencido de que este se tornaria útil no futuro, e provavelmente impressionado por suas capacidades políticas e militares, nomeou-o governador do distrito de Magnésia, na Ásia Menor, onde o ateniense distinguiu-se na administração. Ele não somente aprendeu a língua persa e os costumes locais como também recebeu uma rica pensão vitalícia do rei. 
“Pode parecer bizarro o fato de os persas acolherem um inimigo como Temístocles. Entretanto, uma das razões que os tornaram ‘imperialistas de sucesso’ foi a abertura das portas para os refugiados, especialmente os de alto nível. Temístocles não foi o primeiro grego a ser acolhido. Isso já havia acontecido, por exemplo, com o rei de Esparta Demarato. Mas Temístocles foi um caso extremo, pois era de longe o grego que mais trouxe prejuízos aos persas. A primeira reação, portanto, poderia ter sido eliminá-lo. Mas a boa relação que o ateniense manteve com os funcionários persas de alto escalão, mesmo durante a Segunda Guerra Greco-Persa, com certeza o salvaram”, explica o professor Strauss. 
Temístocles morreu doente aos 65 anos. Fim da história, segundo alguns historiadores modernos. Entretanto, a versão mais épica de seu fim conta que o herói de Salamina se suicidou bebendo sangue de touro, considerado veneno letal pelos antigos. Ele teria escolhido a morte para não ser obrigado a trair seus compatriotas atenienses, que naquele momento apoiavam a rebelião do Egito contra a Pérsia.
Seus restos mortais voltaram à Ática, e, graças aos esforços retóricos de Péricles, Temístocles foi reabilitado como o herói democrático de Atenas, reconhecido como o homem que se opôs aos interesses oligárquicos da classe aristocrática ateniense, oferecendo pela primeira vez um papel social ativo aos mais pobres. Os mesmos que, depois de usufruírem de seus poderes, o abandonaram, como a uma carcaça de barco velho.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Batalha de Salamina; parte da História da humanidade.

 

Batalha de Salamina; parte importante da História da humanidade, foi a primeira batalha naval de que se tem notícia, relatada minuto a minuto.

Imagine uma batalha naval há 2.503 anos. A primeira de que se tem notícia, e uma das mais importantes da história da humanidade. E tudo num cenário paradisíaco. De um lado, 1.200 navios atacantes, do outro, apenas 300 navios defensores. Em terra as tropas atacantes contavam com cerca de um milhão e setecentos mil homens vigiados de perto por seu rei. A Batalha de Salamina foi das primeiras escaramuças que colocariam o Ocidente representado pela “Grécia europeia, síntese do pensamento progressista da antiguidade”, em rota de colisão com o Oriente; a Pérsia, pomposa, lúbrica e primitiva”. Seu desfecho, consideram a maioria dos historiadores, mudou o destino da humanidade. Apesar da idade avançada, a batalha naval foi minuciosamente narrada por uma testemunha. Presente legado pelo primeiro historiador da humanidade: Heródoto.

Salamina. Foto: mysteriousgreece.com.

Duas palavras sobre o narrador

Heródoto nasceu em Halicarnasso, capital da Caria, em 484 a.C.”A família deveria ser abastada. O jovem Heródoto teve tempo e longos recursos à sua disposição. Viajou pelo mundo então conhecido. Percorreu primeiro o Egito. Subiu o curso do Nilo até Elefantina. Perambulou pela Líbia, pela Fenícia, chegou até Babilônia. A própria Pérsia não deve ter sido estranha ao seu longo itinerário. Nas viagens recolhia materiais para a grande história que tinha em projeto, com suas importantes consequências…”
Ilustração:dicasdehistoria.com.br.
“Não se pode negar que tenha conhecido a Macedônia, a Trácia, a Cítia. As terras além do Daníbio e do Borístenis. Compreende-se que percorreu as regiões do Oriente, as colônias da Ásia e as extremidades setentrionais do mundo helênico, não tenha deixado de informar-se a respeito de todas as localidades da Grécia européia, de suas cidades, templos, campos de batalha do continente e ilhas.”

Que espécie de obra?

“Uma espécie de história universal. Orientada para o conflito entre Gregos e a Ásia. Heródoto (490 a.C.–425 a.C.), um dos principais historiadores da Grécia Antiga, deu suporte ideológico à guerra contra os persas. Para ele, tratou-se de uma “guerra de sistemas”. De um lado, estava a Europa da “liberdade e democracia” – afinal de contas foi fundada nessa época a democracia ática, considerada até hoje o berço da Europa democrática.
Cenário da batalha de Salamina.
No lado persa-asiático, Heródoto localizou o “despotismo”, o sistema da tirania. Dessa forma, o historiador dividiu o mundo até então conhecido num par de opostos: Ásia contra Europa e “liberdade contra servidão”.

Divisão do livro

E, acrescenta o Mar Sem Fim, uma obra de fácil leitura, narrada em estilo direto, apesar de minuciosa. O livro é dividido em capítulos, e estes em diversos tópicos titulados, e numerados. Deste modo é fácil achar o tópico que se quer. Eles geralmente são curtos, fáceis de ler, cheios de descrições interessantes para quem vive 2.500 anos depois. A leitura linear não é necessária como num romance, por exemplo. É possível curtir um trecho do fim, seguido por outro do meio, e encerrar  com um do começo. E gostar de cada um ao mesmo tempo.

Batalha de Salamina; curiosidades

Os persas armaram a maior força de combate da Antiguidade. “A força naval era 1.207 navios tripulados por 241 mil e 400 homens.” Para um transporte mais rápido das tropas, o rei Xerxes 1° (519 a.C.–465 a.C.) construiu um canal através da península de Atos, uma ponte sobre o Helesponto (hoje, Estreito de Dardanelos) e outra sobre o rio Estrímon (ambas construídas com navios amarrados lado a lado).

Ponte sobre o Helesponto. Ilustração: brewminate.com.

Uma surra no mar

“A ponte, como uma demonstração de poder, teria aproximadamente 1.600 metros de comprimento. Suas fundações encontravam equilíbrio sobre barcos. Xerxes, todavia, teve seus planos frustrados quando uma tempestade destruiu a edificação completamente. Transtornado, o déspota persa mandou chicotear as “traiçoeiras” águas.
Xerxes, indignado com a destruição da ponte que ligaria a Ásia à Europa, além de ordenar a morte dos engenheiros, mandou açoitar as águas com 300 chibatadas, ocasião em que teria dito:
Oh vil curso d’água! Xerxes ordenou sua punição porque você o ofendeu. O grande rei irá cruzá-lo mesmo sem sua permissão, porque você é um traiçoeiro e estúpido rio!”.

Salamina, batalha decisiva

Foi a batalha decisiva duma guerra que apontava a vitória, até então, aos Persas. Atenas já havia capitulado. Enquanto a batalha se desenrolava, Xerxes assistia sentado em seu trono colocado no alto de uma montanha. Pelo lado persa participaram várias nações, entre elas a Fenícia, a Síria, Egito, Cilíaca, Medas, Dória, etc.

Artemisa, princesa guerreira

Entre os comandantes de navios (frota persa) estava Artemisa, além de Rainha de Caria (sul da Turquia), uma valorosa combatente. Assim a descreveu Heródoto: ” Esta princesa me parece tanto mais digna de admiração quanto, apesar de seu sexo, quis tomar parte na expedição. Como o filho se encontrava ainda em tenra idade quando o marido morreu, ela tomou as rédeas do governo, e sua grandeza d’alma e coragem levaram-na a seguir os Persas, embora não fosse a isso compelida por nenhuma necessidade. Ela veio ao encontro de Xerxes com cinco navios, os mais bem equipados de toda a frota.” Finalmente, os navios que se engalfinharam em Salamina eram os trirremes. No caso da frota grega, o chefe supremo era Temístocles. Segundo Heródoto “a batalha que os bárbaros travaram com os Gregos durou desde o romper da aurora até anoitecer.”
Já imaginou uma batalha deste porte, 2.500 anos atrás, sem as facilidades da tecnologia? Como comandar uma frota com 1.200 navios?

Uma tempestade ajuda os gregos

Houve de tudo na grande batalha. Tanto em terra, como no mar. No primeiro caso, Heródoto conta que “quando Xerxes se achava em marcha, um grupo de leões atacou os camelos que transportavam os víveres. As feras, deixando suas cavernas, atiravam-se vorazmente sobre os camelos, sem tocar nos outros animais de carne e nos homens. Qual a razão por que assim agiram, quando nunca haviam visto camelos e nem experimentado sua carne, é o que não saberei dizê-lo, confessando-me espantado pelo fato.” É assim, sempre em linguagem direta, que Heródoto nos põe a par de inúmeros detalhes. Penso, entre outras, no pânico da soldadesca. Além dos inimigos, eles ainda corriam risco de virar almoço para bandos de leões…Enquanto isso, no mar “…pelo menos 400 navios Persas foram destruídos pela tempestade, perecendo também um grande número de guerreiros bárbaros e perdendo-se imensas riquezas.”

Os trirremes

“O trirreme deriva seu nome de suas três fileiras de remos, tripulados com um homem por remo. O trirreme inicial era um desenvolvimento do pentecontro, um antigo navio de guerra com uma única fileira de 25 remos de cada lado, e do birreme, um navio de guerra com dois bancos de remos, de origem fenícia.”

Ilustração: brewminate.com
“Os galpões eram ca. 40 m de comprimento. Apenas 6 m de largura. O espaço individual alocado a cada remador era de 2 côvados . Com o cúbico dórico de 0,49 m, isso resulta em um comprimento total do navio de pouco menos de 37 m.  A altura do interior dos galpões foi estabelecida como 4.026 metros. Estimativas de que a altura do casco acima da superfície da água era ca. 2,15 metros. Seu calado era relativamente raso, cerca de 1 metro, o que, além da quilha relativamente plana e do baixo peso, permitia que fosse facilmente encalhado.”

Distância percorrida pelos trirremes

“A distância que uma trirreme poderia cobrir em um determinado dia dependia muito do clima. Em um bom dia, os remadores, remando por 6-8 horas, poderiam impulsionar o navio entre 80-100 quilômetros. Houve casos raros, no entanto, quando equipes experientes e novos navios conseguiram cobrir quase o dobro dessa distância (Tucídides menciona um trirreme viajando 300 quilômetros em um dia).”

A façanha de Artemisa durante a batalha de Salamina

Heródoto: “Quando era grande a desordem entre os navios de Xerxes, esta princesa, vendo que não poderia escapar à perseguição de um navio ateniense, porque tinha pela frente vários navios amigos e o seu era o que mais próximo se achava das embarcações inimigas, tomou uma decisão arrojada, conduzindo-se de maneira feliz. Acossada pelo navio ateniense, lançou-se sobre um navio amigo, tripulado pelos Calíndios e no qual se achava Damastino, soberano destes últimos. Artemisa atacou e fê-lo soçobrar. O resultado foi que o comandante do trirreme ateniense, vendo-a atacar um navio bárbaro e imaginando que seu navio era grego, fez-se bordo para juntar-se ao resto da tropa.”

A vitória dos 300 navios gregos, contra 800 dos persas

Para Dr. Mark Damen, Professor de Drama e História Antigas, e Língua Latina e Grega, da Utah State University“Xerxes estava ansioso para resolver o conflito rapidamente. Assim, os gregos podiam escolher a hora e o local do confronto final. Numa vitória da estratégia, decidiram reunir todas as forças do mar perto da ilha de Salamina, perto de Atenas, e enfrentar a marinha persa nos estreitos entre a ilha e o continente.

Cenário da batalha de Salamina.

O truque grego

Qualquer entrada para a Baía de Salamina é estreita, o que forçaria os navios persas a romperem a formação quando entrassem. Isso daria aos gregos uma melhor chance de derrotar a frota persa, já que não teriam que enfrentar tudo de uma vez.”

Os gregos os pegaram aos pouquinhos

Ainda segundo Mark Damen, “Xerxes, de seu trono nos penhascos, ordenou que sua marinha avançasse para os estreitos. Começava a Batalha de Salamina. Navio após navio, a armada  passou dos estreitos para a baía, entrando apenas alguns de cada vez, porque era isso  o que caberia. Os gregos os pegaram aos pouquinhos. Pior para os persas, os navios que perceberam a armadilha tentaram se virar e fugir. E correram de cabeça para as galeras que entravam. Mais de um navio persa foi abalroado e afundado por um dos seus próprios companheiros naquele dia.”

Navios menores combatendo desordenadamente

Para  o especialista Matthias von Hellfeld,  “Provavelmente, o fato de os navios gregos serem menores e mais facilmente manobráveis foi decisivo para derrotar a esquadra de Xerxes.” Já o ‘Pai da História’ considera que “Os bárbaros combatendo desordenadamente, sem tática alguma, contra forças que se batiam em boa ordem e obedecendo a um método de luta, estavam mesmo fadados a esse revés.”

Moral da história

Já sabemos a importância do mar e oceanos, a maior fonte de proteínas do mundo, para a biodiversidade do planeta. Também conhecemos  os variados e importantes serviços prestados pelos oceanos.  Ou sua importância para a riqueza das nações. Agora, apresentamos mais uma característica dos oceanos, a geopolítica. Seja qual for a nação que queira ser dominante ela precisa, antes de mais nada, dominar o mar. Sem isso, não se vai a lugar nenhum, como aprenderam os persas. Já as nações que conseguiram este domínio foram, ao seu tempo, nações dominantes. São muitos os exemplos, desde os portugueses, até os ingleses ou, atualmente e desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os norte-americanos. Oceanos: está na hora de conhecermos mais, para respeitarmos mais.
Fontes: Heródoto, História, Ed.Tecnoprint S.A, e https://www.thevintagenews.com/2018/03/13/athenian-trireme/; https://brewminate.com/herodotus-and-the-persian-wars-the-first-historians-first-history/; https://www.britannica.com/event/Battle-of-Salamis; https://en.wikipedia.org/wiki/Trireme; https://www.dw.com/pt-br/batalha-de-salamina-decidiu-destino-da-europa-em-480-ac/a-4200910.