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domingo, 10 de maio de 2020

Josephine Myrtle Corbin, a mulher de quatro pernas.

ACOLHIDA PELO CIRCO E ALVO DE ESPETÁCULOS: MYRTLE CORBIN, A MULHER DE QUATRO PERNAS

Devido a uma deformação corporal, a artista chamou a atenção de diversos circenses e ganhou os olhares público pelo seu carisma
NICOLI RAVELI PUBLICADO EM 10/05/2020
Josephine Myrtle Corbin, a mulher de quatro pernas
Josephine Myrtle Corbin, a mulher de quatro pernas - Divulgação
Josephine Myrtle Corbin enfrentou uma rotina conturbada desde seus primeiros minutos de vida. Em 1868, seu nascimento chamou a atenção de vários médicos. A garotinha – que veio ao mundo no Tennessee, Estados Unidos – apresentava uma deformação em sua estrutura corporal, e veio ao mundo com duas pélvis, dois aparelhos reprodutores e excretores independentes.
Todavia, o que mais se destacava eram as características externas: a criança havia nascido com quatro pernas, duas de tamanho normal e outras duas menores, mas apenas duas desempenhavam sua função corretamente.
As quatro pernas de Josephine Myrtle Corbin / Crédito: Divulgação 

Diante da condição, os médicos identificaram sua anomalia como síndrome de duplicação caudal. Segundo os especialistas, isso ocorre quando não há a separação completa dos óvulos fecundados, fazendo com que cresçam juntos a partir de um determinado momento, causando a duplicação dos membros e resultando em um bebê dípigo. Ou seja, o corpo de sua irmã gêmea evoluiu somente da cintura para baixo e foi incorporado a Josephine.
Os espetáculos de aberrações.
Não existem relatos sobre sua família. Provavelmente abandonada pelos familiares, acabou sendo acolhida por Phineas Taylor Barnum, um empresário que era considerado o avô da publicidade e, mais tarde, tornou-se o fundador do Ringling Brothers Circus e Coney Island, que promovia espetáculos com "aberrações". 
Aos 14 anos, Corbin ganhou fama como A Mulher de Quatro Pernas. Durante as apresentações em feiras e espetáculos, conquistou o público pela forma que os persuadiam: a artista utilizava meias e sapatos em suas pernas extras - o que resultava em uma aparência atípica – e era bem recebida pela plateia.
Viajando pelo país para realizar apresentações, Myrtle passou a ganhar cerca de 500 dólares por semana, um valor que, naquela época, era considerado alto. Entretanto, devido à rotina cansativa, a circense decidiu se aposentar e dedicou-se a sua vida pessoal. Foi quando, aos 19 anos, conheceu o médico Clinton Bicknell.
A jovem Josephine Myrtle Corbin, à esquerda e a família Corbin, à direita / Crédito: Divulgação 

O relacionamento amoroso resultou em casamento e abriu caminho para novas descobertas sobre a deformação da estrutura corporal de Corbin: Ao engravidar quatro vezes, acreditava-se que seus dois os órgãos sexuais eram funcionais.
Na época, não foi comprovado se a artista realmente havia dado à luz por meio dos dois órgãos, no entanto, a possibilidade é aceita e relatada no livro Anomalias e Curiosidades da Medicina, de George M. Gould e Walter L. Pyle, de 1896.
Pintura que representa Josephine Myrtle Corbin e sua anomalia / Crédito: Divulgação 

Seus filhos cresceram em meio a diversos rumores, mas isso não foi um problema para a família. Muito menos para Myrtle, que deixou os boatos de lado e voltou a dedicar-se a sua carreira em Nova York.
Após sua longa carreira no circo, a mulher morreu em 1928, aos 60 anos de idade, de causas desconhecidas. Mesmo sem a presença de seus pais, Corbin enfrentou as diferenças, correu atrás de seus sonhos e construiu sua própria família, que a acompanhou até seus últimos dias.

sábado, 9 de maio de 2020

A história da sereia de Fiji.

FARSA OU SHOW DE HORRORES? A HISTÓRIA DA BIZARRA SEREIA DE FIJI

Supostamente encontrada por marinheiros no começo de 1800, a criatura chegou até P.T. Barnum, famoso por seus freak shows
PAMELA MALVA PUBLICADO EM 09/05/2020
Imagem meramente ilustrativa de sereia
Imagem meramente ilustrativa de sereia - Divulgação/Pixabay
Durante quase todo o século 19, as pessoas eram profundamente atraídas por circos bizarros e shows mórbidos. Naquela época, quanto mais esquisita e singular fosse a atração, maior era o entretenimento do público.
Assim, mulheres barbadas, pessoas fisicamente alteradas e super humanos eram os queridinhos do show business. Ainda que fossem tratados como aberrações pela sociedade, tais artistas arrecadavam valores exorbitantes todas as noites.
Exposta em uma caixa de vidro grosso, a Sereia de Fiji foi uma das atrações mais conhecidas na época. Junto de diversos outros indivíduos semelhantes, ela atraiu a atenção de cidades inteiras ao redor do mundo — verdadeira ou não.
A suposta Sereia de Fiji / Crédito: Wikimedia Commons
Marinheiros de sorte.
Reza a lenda que, logo no início dos anos 1800, a curiosa sereia foi encontrada perto das Ilhas de Fiji, no Pacífico Sul. Intrigados, marinheiros japoneses deram nome ao ser capturado e trouxeram-na para terra firme.
Naquela época, comerciantes holandeses eram intimamente ligados ao mercado Japonês. Dessa forma, após algumas negociações amigáveis, a sereia foi comprada, em meados da década de 1810.
Por anos, o ser marítimo fez sucesso em terras holandesas até chamar atenção de Samuel Barrett Edes. Profundamente intrigado pela entidade mística, o capitão norte-americano arrematou a sereia por 6 mil dólares, em 1822.
Com um tórax semelhante ao dos humanos e uma cauda grossa, o indivíduo foi exibido em Londres naquele mesmo ano. A sereia foi divulgada em jornais, a fila da exposição estava sempre lotada e as opiniões sobre sua veracidade eram bastante divididas.
O começo de uma viagem.
Em meados de 1840, Samuel Barrett Edes morreu e deixou seu bem mais precioso de herança para seu filho. Cansado da sereia, no entanto, o jovem vendeu o artefato para Moses Kimball, integrante do Museu de Boston.
Uma vez detentor da espécime, Moses imaginou que um amigo de Nova York saberia como proceder com a sereia. Assim, o famosos P. T. Barnum colocou os olhos no ser místico pela primeira vez, em 1842.
Profundo apreciador do oculto, Barnum passou a alugar a sereia de Moses e expô-la no Museu Americano de Barnum, em Nova York. Pagando US $ 12,50 por semana, ele passou a ganhar milhares de dólares.
Outra sereia de Moisés Kimball / Crédito: Wikimedia Commons

Pelo mundo.
Percebendo a fama da criatura e a forma como ela conquistava o olhar dos curiosos, Barnum decidiu criar uma publicidade mais agressiva. Assim, ele enviou cartas anônimas para diversos veículos jornalísticos, apresentando a sereia.
Nos textos, ele explicava que um explorador havia capturado a criatura durante uma de suas viagens na América do Sul. Sob o nome de Dr. J. Griffin, então, um empregado de Barnum passou a viajar com a sereia, alegando tê-la encontrado.
O sucesso da peça era inegável e Barnum pensava ter tirado a sorte grande. Após um incêndio no Museu Americano de Barnum, entretanto, a sereia desapareceu, em 1859. Seu paradeiro nunca mais foi encontrado e a memória ficou para as fotos e ilustrações.
Uma farsa desmascarada.
O legado da suposta sereia se seguiu por anos, ainda mais quando outros espécimes parecidos apareceram. Especialistas, contudo, estavam determinados a desvendar a história por trás da criatura de Barnum.
Foi descoberto, então, que o ser místico, na verdade, era composto pelo tronco um macaco costurado à metade de um peixe. No caso da Sereia de Fiji, especialistas concluíram que o artefato era a junção de um orangotango com um salmão.
Segundo um artigo publicado pela revista Western Folklore na época, a sereia provavelmente foi criada por um pescador japonês, no início de 1800. Essa seria uma tradição asiática que, desconhecida pelo Ocidente, enganou desavisados e ainda garantiu um mundo de fama para aqueles que decidiram expô-la.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Ella Harper, a menina camelo.

ALÉM DO CIRCO DE ABERRAÇÕES: A SAGA DE ELLA HARPER, A MENINA CAMELO

A artista tinha uma deformação peculiar que fez com que ganhasse muito dinheiro viajando nos famosos freak shows
CAIO TORTAMANO PUBLICADO EM 08/05/2020
Ella Harper ficou conhecida como Menina Camelo
Ella Harper ficou conhecida como Menina Camelo - Divulgação
Por mais cruéis que a cultura antiga dos show circenses de “aberrações” possa parecer, esse tipo de entretenimento dava bons frutos para os artistas que tinham nas suas excentricidades algo verdadeiramente único. Esse foi o caso de Ella Harper, a menina camelo.
Harper nasceu no Tennessee por volta de 1870 — embora não se tenha certeza absoluta quanto a isso, é a data e local mais comumente relatados — com uma condição ortopédica única, seus joelhos virados para trás. Essa condição tornava para ela muito mais fácil andar com a ajuda das mãos, resultando no seu apelido.
A atração.
Ella era a estrela do Circo Harris Nickel Plate Show, isso quando tinha aproximadamente 16 anos de idade. Suas apresentações geralmente começavam com Harper entrando juntamente com um camelo. Era sensação nas cidades em que passavam, aparecendo sempre nos jornais locais.
Pôster do circo em que Ella fazia parte, notório pela presença de animais ferozes / Crédito: Divulgação

Esses periódicos muitas vezes descreveram Ella como uma maravilhosa aberração, com um deles tendo descrito a artista como “a mais maravilhosa da natureza desde a criação do mundo, nunca tendo havido um defeito sequer”.
O seu salário era bem generoso para a época, ganhando a quantia de 200 dólares por semana. Além disso, a garota se mostrava extremamente esclarecida, e almejava projetos além do mundo circense.
Prova disso foi o dia de sua grande despedida, quando foram procurar pela menina camelo em seu camarim encontraram apenas o cartão de visitas de Elle com a seguinte frase em seu verso: “Sou chamada de garota camelo, porque meus joelhos ficam para trás. Eu posso andar melhor com minhas mãos e pés, como você vê na foto. Eu viajei consideravelmente no show business nos últimos quatro anos e agora, em 1886, pretendo sair do show business e ir à escola e me preparar para outra ocupação.”.
Vida depois do circo.
Pouco se tem notícia do que Ella teria feito depois de mudar de vida. As informações coletadas e contadas hoje vieram da pesquisa de um genealogista foi atrás dos detalhes de sua vida, bem como o de sua futura família. Fato era que o salário que tinha possibilitava a mulher a viver em paz por um bom tempo.
Depois de ter abandonado sua vida como aberração, ela encontrou um professor chamado Robert L. Savely, com quem se casou em junho de 1905. As informações de sua vida foram obtidas por meio de censos demográficos realizados nos Estados Unidos, que indicavam que ela e o marido viviam em Nashville, no Tennessee por volta de 1910.
Fotografia de Ella ao lado de sua certidão de casamento / Crédito: Divulgação

Lá eles moravam com a mãe de Ella, e adotaram uma criança de três meses, que veio a falecer infelizmente semanas depois de ter sido adotada. A morte, inclusive, não veio a tardar para Harper, que morreu em 1921, de câncer de cólon.
A ex-artista foi supostamente enterrada no Cemitério Spring Hill, em Nashville, onde consta um túmulo com o nome Ella Harper, cercada de outros membros de sua família. Apesar da dúvida, lá é oficialmente o seu local de enterro em sites de busca e arquivos funerários.
Independente de ser ela ou não na lápide, Harper foi uma das artistas circenses que mais soube aproveitar da pequena fortuna que juntou em sua vida, e conseguiu se disvencilhar de ser para sempre apenas uma "aberração".

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Schlitzie, um asteca que foi para o circo de aberrações.

O ÚLTIMO DOS ASTECAS: SCHLITZIE, O HOMEM QUE CONQUISTOU ESPAÇO NO CIRCO DE ABERRAÇÕES E NO CINEMA

Abandonado pela família, o artista encontrou refúgio nas artes circenses e ascendeu após participar do filme Freaks, de 1932, que gerou diversas críticas negativas
NICOLI RAVELI PUBLICADO EM 07/05/2020
O circense Schlitzie
O circense Schlitzie - Divulgação
O início da vida de Schlitzie, como ficou popularmente conhecido, é rodeado por questionamentos, já que não se sabe nem mesmo se seu nome de nascimento era Simon Metz ou Shlitze Surtees, tampouco sobre como sua carreira teve início. O que se sabia era que o garoto — que nasceu com uma deformação no cérebro e em sua estrutura corporal — havia sido adotado por diversas famílias, mas não há informações sobre o porquê isso ocorreu.
Todavia, sua condição o levou ao sucesso. Mesmo que ele já fosse adulto, o homem tinha pensamentos e se comportava como uma criança entre três a quatro anos. Além disso, Schlitzie só conseguia falar frases curtas, mas sua situação congênita o fez conquistar espaço como artista de circo.
Com a cabeça pequena — devido à microcefalia — e um coração grande, o ator ganhou a vida se apresentando em freak shows no início do século 20, como no International Circus e Ringling Bros.
No palco, suas principais interpretações eram papéis femininos, nos quais Schlitzie sempre utilizava um vestido e era chamado de A Garota dos Macacos e O Último dos Astecas. Mais tarde, foi informado que, além de utilizar tal peça de roupa para atrair a atenção do público, a vestimenta facilitava suas trocas de fraldas, já que ele sofria de incontinência urinária e necessitava de ajuda para trocá-las.
Schlitzie interpretando um papel feminino / Crédito: Divulgação 

Carreira em ascensão.
Com um vestido, o homem do circo foi notado por diversas pessoas. Entre elas, estava o diretor Tod Bowning, que lhe ofereceu um papel no filme Freaks, de 1932. Todavia, o longa-metragem — que contava uma história romântica e também de traição — não foi bem recebido pela crítica.
Entre muitos comentários negativos sobre o filme, o Hollywood Reporter o intitulou como uma ofensiva ultrajante aos sentimentos, sentidos, cérebros e estômagos de uma plateia, e fez com que a filmagem fosse banida em diversas cidades, fazendo com que ficasse conhecido como a apresentação de aberrações reais.
Porém, como o longa não havia sido proibido em alguns locais, muitas pessoas tiveram acesso e se horrorizaram com o que viram. Esse foi o caso de uma norte-americana que, após assistir o filme, alegou que havia sofrido um aborto espontâneo e ameaçou processar a produtora Metro-Goldwyn-Mayer.
Como resposta, a empresa arquivou o filme, mas não antes que a RoadShow tivesse a chance de conseguir as filmagens para mostrá-la em diversos partes dos Estados Unidos. Dessa maneira, em meio a tantas críticas, Schlitzie ganhou fama e passou a receber os olhares do público devido a sua maneira inocente de agir. Logo, o homem foi reconhecido como uma das grandes estrelas do cinema do século 20.
Elenco do filme Freaks, de 1932 / Crédito: Divulgação 

O menosprezo como ator
Sua carreira como ator, entretanto, não foi apreciada por muito tempo e ele foi chamado para interpretar poucos papeis, seja pela Metro-Goldwyn-Mayer ou pela RoadShow. Porém, questiona-se se o ator era realmente Schlitzie ou um sósia.
Isso fez com que Schlitzie retornasse a vida de circense pela Tom Mix Circus. Durante suas performances, o homem conheceu George Surtees, um treinador de chimpanzés que também trabalhava no circo.
Durante a convivência dos dois, Surtees decidiu tornar-se seu guardião legal em 1936, já que a relação entre eles era de pai e filho. Além disso, a família do treinador o amava e fazia de tudo para que ele fosse bem cuidado; pelo menos era o que todos expressavam.
Todavia, após a morte de George em 1965, a filha de Surtees se revelou contra Schlitzie e o encaminhou a uma instituição mental em Los Angeles. Lá, o circense passou longos três anos marcados pela infelicidade.
Schlitzie, circense e ator / Crédito: Divulgação 

Para se distrair e entreter os outros pacientes, os funcionários do hospital contratavam diversos artistas que praticavam peripécias circenses. Entre eles, estava Bill Unks, um engolidor de espadas.
Durante a sua apresentação, ele reconheceu Schlitzie em meio a plateia. Era o início de sua salvação. Unks percebeu que O Último dos Astecas sentia falta de sua vida no circo. Dessa maneira, pediu para que o hospital o liberasse.
Após estudar o caso, a instituição mental atendeu ao pedido do engolidor de espadas. Dessa maneira, os dois passaram a trabalhar para o empresário Sam Alexander.
Os anos finais de Schlitzie
Em Los Angeles, a empresa de Alexander, Dobritch International Circus, foi palco das últimas apresentações do circense em 1968. Mesmo aposentado, o homem não deixava de realizar o que mais gostava.
Ele continuou se apresentando em locais públicos, como no MacArthur Park, onde, após suas performances, passava horas alimentando os pombos e patos do local até sua morte, em 1971.
Schlitzie, o adulto que tinha se comportava como uma criança / Crédito: Divulgação 

Aos 70 anos de idade, o artista sofreu graves problemas em decorrência de uma pneumonia bronquial, o que resultou em seu óbito. Schlitzie nasceu e morreu sem fortuna alguma e ninguém havia se oferecido a pagar uma lápide para sua sepultura.
Foi somente em 2007 que a morte do artista foi levada em consideração. Naquele ano, uma fã arrecadou certa quantia de dinheiro e fez com que fosse possível a criação de uma lápide no local de descanso do adulto que tinha a mente de uma criança.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Annie Jones, a mulher barbada.

ATRAÇÃO DE CIRCO NOS PRIMEIROS MESES DE VIDA: A CRUEL SAGA DE ANNIE JONES, A MULHER BARBADA

Apresentada em espetáculos insólitos como uma "aberração", Jones sofreu até os dias finais
CAIO TORTAMANO PUBLICADO EM 04/05/2020

Annie Jones, a Mulher Barbada
Annie Jones, a Mulher Barbada - Wikimedia Commons

A figura das mulheres barbadas como atrações circenses são comuns até nos dias atuais, e devem muito a sua popularidade a figuras como Annie Jones, uma das "atrações" mais bem sucedidas da história de todos os tempos. Todavia, sua vida pessoal também foi marcada pela melancolia. 
Annie nasceu em 1865, Virginia, nos Estados Unidos. Quando saiu da barriga de sua mãe, as pessoas perceberam que o bebê tinha pelo no queixo. Intrigados com a situação, acabaram assustando os seus pais. A reação inicial dos familiares foi uma só: espanto. No entanto, depois de um tempo, perceberam que poderiam usar da excentricidade de sua filha para ganhar dinheiro.
Com menos de um ano de idade, os pais de Annie a levaram até o famoso showman P. T. Barnum, famoso por ser dono de um excêntrico circo. De imediato, ele percebeu que a garotinha poderia ser a nova galinha dos ovos de ouro.
Como consequência, Jones logo alcançou um espaço de prestígio dentre as atrações de Barnum; ela era uma estrela do show business antes mesmo de saber andar. O empresário fez questão de firmar contrato com os pais da menina, oferecendo um acordo com uma duração de três anos, que resultaria em 150 dólares por semana. Assim, aceitaram. Mas era só o inicio do pesadelo da pobre Annie.
Apesar de seu contrato inicial ter sido de somente três anos, Jones passou muito mais tempo com Barnum, e seus apelidos foram mudando ao longo dos anos, passando de Bebê Esaú para Senhora Esaú e então o imortal Mulher Barbada.

Annie Jones / Crédito: Divulgação


A intenção era de que sua apresentação fosse impactante, então os produtores do show, e principalmente Barnum, focaram no contraste que sua figura feminina deveria fazer com o fato de ela ser completamente barbada. Vestindo roupas bem femininas, e tocando o bandolim, as apresentações de Annie eram as mais marcantes da época. Como consequência, além de ser exposta em um verdadeiro show de horrores, a garota também acabou sendo alvo de um lunático. 
Sequestro.
Ainda quando era apenas uma criança, um pseudocientista sequestrou Annie; seu paradeiro era desconhecido por algumas semanas. Barnum ajudou as autoridades no começo das investigações. Isso porque uma de suas principais fontes de renda corria risco de desaparecer para sempre. Depois de um tempo, Jones foi encontrada sendo exibida em uma feira de uma igreja. No entanto, seus pais teriam mais dores de cabeça.
Ao ser abordado por autoridades, o sequestrador afirmou que a criança era dele. Assim,  o caso foi levado para o tribunal. Antes de testemunhar, o juiz da seção separou Annie do resto das pessoas. O resultado foi imediato; quando a garota entrou no local e viu os pais no recinto, correu direto para eles. Após isso, ficou fácil declarar o homem culpado por sequestro e fazer com que a menina retornasse para sua família. Lá estava ela de volta ao circo.
Até hoje não se tem certeza sobre o que teria causado a anomalia de Annie, provavelmente ela sofria de hirsutismo, uma condição que, ao afetar mulheres, as deixam suscetíveis com o crescimento de pelos em partes e quantidade iguais aos de homens.
Apesar de toda a fama, Annie não teve uma vida longa, ou muito menos feliz. A Mulher Barbada casou com um homem chamado Richard Elliot, que também trabalhava para  Barnum.
O problema é que a estrela do circo tinha apenas 15 anos na época, enquanto Elliot já era um homem formado — não existe registro específico que revele sua verdadeira idade. Assim, os pais dela não aceitaram a controversa união.
Apesar da desaprovação, o casamento entre eles durou 15 anos; até que decidiram se separar em 1895. Não muito tempo depois, Annie se casou pela segunda vez com um homem chamado William Donovan.
Com ele, pela primeira vez, Jones deixou o circo de Barnum, e passou a viajar com o marido realizando performances em casal por um tempo enquanto estavam na Europa. Mas parecia que a vida amorosa da mulher estava destinada ao fracasso.
A união durou cerca de 4 anos: Donovan faleceu de maneira inesperada. A morte e a solidão obrigaram a mulher a voltar para Nova York,  o único lugar que conseguiu chamar de casa durante a sua vida era O Maior Show da Terra, o espetáculo de P. T. Barnum.

P. T. Barnum é tido como um dos maiores empresários de seu tempo / Crédito: Wikimedia Commons


O freak show, ou literalmente Show de Aberrações, foi como as pessoas enquadraram o trabalho de Annie Jones até o fim de sua vida. Ela pessoalmente lutou muito para que essa denominação fosse eliminada. Infelizmente, não sobreviveu tempo suficiente para qualquer mudança em sua realidade. Com 37 anos, a mulher foi mais uma das vítimas da tuberculose.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Lionel, o Homem com cara de leão.

ABANDONADO PELA FAMÍLIA E ADOTADO PELO CIRCO: A SINGULAR TRAJETÓRIA DE LIONEL, O HOMEM COM CARA DE LEÃO

Largado pela própria mãe aos quatro anos de idade, Stephan Bibrowsky fez grande sucesso na Europa e nos EUA devido uma condição rara
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 22/04/2020
Lionel em rara imagem
Lionel em rara imagem - Wikimedia Commons
No início do século 20, eram comuns os espetáculos que apresentavam aquilo que chamavam de "bizarrices". Entre os conhecidos membros desses shows, estava Lionel, o homem com "cara de leão", um cantor consideravelmente famoso na época. Tratava-se de um homem com uma condição rara chamada hipertricose, que o fazia ter longos cabelos por todo o corpo, resultando em uma aparência de leão.
Seu nome era Stephan Bibrowski, nascido em 1891 numa cidade no interior da capital da Polônia, Varsóvia. Quando saiu do útero de sua mãe, possuía cabelos com quase três centímetros de comprimento, o que fazia sua família considerá-lo uma aberração. Assim, optou por abandonar o pobre garoto.
Interessado pelo jovem de condições singulares, um empresário alemão de sobrenome Sedlmayer demonstrou interesse em adotar o menino, que foi dado por sua mãe aos quatro anos de idade. O empresário, então, criou um nome artístico e passou a expor sua figura em espetáculos ao redor da Europa.
No circo. Lionel está no canto direito da fileira de cima / Crédito: Wikimedia Commons

A condição rara levou diversas pessoas ao mundo dos espetáculos da época. Casos famosos fizeram a carreira das mulheres barbadas em circos, ou a de Fyodor Yevtishchev, conhecido como Jo-Jo, o menino com cara de cachorro. A característica é também conhecida como Doença do Lobisomem.
Naquela idade, o jovem já tinha pelos de 20 centímetros no corpo, o que já dava uma aparência animalesca. Cabeça, tronco, quadril e pernas eram completamente preenchidos, e apenas as palmas das mãos e dos pés não tinham cabelos. Lionel começou a fazer sucesso com espetáculos de acrobacias e músicas, sendo apresentado como o Homem Leão.
Em 1901, Lionel teve sua primeira viagem para fora da Europa, fazendo participações em espetáculos nos Estados Unidos. Logo integrou o Circo Barnun & Bailey, que fazia longas viagens pelo país e para fora, aumentando a fama do garoto. Fazendo parte da equipe permanente, ele conheceu diversos locais, chegando a voltar para a Europa em algumas ocasiões.
Com o aperfeiçoamento de suas aparições, Lionel começou a praticar ginásticas para shows mais complexos. Ao mesmo tempo, passou a se comunicar com a plateia, demonstrando sua personalidade tranquila e gentil, e assim conquistou a simpatia dos espectadores em um contraste forte entre apreço a seu modo de agir e medo de sua aparência. O jovem se dedicou também aos estudos, falando cinco línguas em vida.
Existe uma discussão sobre Bibrowsky que transcendeu gerações, relativa ao nível de satisfação ou de coerção sobre sua vida no circo. Muitos acreditam que ele gostava da jornada de espetáculos, se sentindo livre para realizar performances, e que não se importava com a condição.
Lionel ficou famoso por suas atitudes, ganhando relevância como um verdadeiro cavalheiro, educado e nobre, e ao mesmo tempo muito bem trajado com roupas chiques e sempre limpas. O público passou a ver o homem com bons olhos. Ganhando certo dinheiro e dando fim às impressões que o pintavam como fera selvagem, sua vida ficou mais leve. 
Gravura de Lionel em 1907 / Crédito: Wikimedia Commons

A partir de 1920, ele arrumou moradia permanente nos EUA, passando a realizar populares shows de música e dança. Morando em Nova York, onde passou o auge de sua fama, realizou espetáculos principalmente em Coney Island, onde tinha o principal público.
Em Nova York, ocorreu uma famosa narrativa em que, após um incêndio num hotel em que Lionel estava hospedado, ele foi rapidamente o primeiro a evacuar o prédio. Quando questionado de sua ação, ele afirmou que tinha medo de suas madeixas serem queimadas e prejudicarem sua performance. Para ele, se perdesse seus cabelos, ele “seria apenas um homem normal”.
No final da respectiva década, Lionel se aposentou da carreira artística, passando a se dedicar à vida pessoal. Retornando à Europa, passou a viver na Alemanha no fim de sua vida, antes de sua precoce morte, que ocorreu em 1932, aos 41 anos de idade.
Hoje sabe-se que Bibrowsky morreu após um ataque cardíaco enquanto estava na sua casa em Berlim, após anos superando os preconceitos da sociedade com seu talento e cavalheirismo.

terça-feira, 31 de março de 2020

Julia Pestrana, a mulher macaco mexicana.

JULIA PASTRANA, A MULHER MACACO MEXICANA QUE FOI EMBALSAMADA E EXPOSTA EM GALERIAS

Atração de circo desde muito jovem, a garota tinha uma condição genética rara e não teve sossego nem após a morte
PAMELA MALVA PUBLICADO EM 31/03/2020


Julia Pastrana, a Mulher Macaco
Julia Pastrana, a Mulher Macaco - Wikimedia Commons

Se hoje o entretenimento gira em torno da indústria cinematográfica, as coisas no passado eram bastante diferentes. Entre os séculos 19 e 20, o circo e suas aberrações eram o show preferido das pessoas.
Todos os tipos de indivíduos passavam pelos palcos improvisados abaixo das tendas coloridas. A diversidade era tanta, que muitas das atrações recebiam nomes bizarros, com o objetivo de chamar atenção do público.
Esse foi o caso de Julia Pastrana, a Mulher Macaco. Devido a uma condição genética rara — conhecida como hipertricose terminal —, a mexicana tinha seu rosto e corpo cobertos por cabelos pretos lisos.
Transformada em atração de circo durante grande parte de sua curta vida, Julia não teve sossego nem depois da morte. Muito além de seus 26 anos, ela foi tratada como uma peça de museu por anos a fio.


Imagem de Julia, a Mulher Macaco / Crédito: Wikimedia Commons


A garota diferente.
Entender a vida de Julia Pastrana é uma questão de análise de documentos, já que tudo sobre ela foi registrado por pessoas do show business. Existem, no geral, duas teorias sobre o início da vida da mulher.
Ainda que as narrativas sejam diferentes, é sabido que Julia nasceu em Sinaloa, no México, em 1834. Diferente de tudo que existia na época, a jovem inevitavelmente foi parar no circo, onde viu sua vida se transformar em um freak show.
Em meados de 1854, já com 20 anos, Julia chegou aos Estados Unidos. Em terras norte-americanas, ela foi admitida pelo circo de J.W. Beach. Foi na estrada que ela conheceu Theodore Lent, com quem fugiu e se casou, em Baltimore, Maryland.


Folheto anunciando Julia como A Indescrita / Crédito: Wikimedia Commons

A sua trajetória no circo, todavia, não acabaria ali e Julia se apresentou por mais alguns anos. Ela recebia um nome novo a cada espetáculo e tinha seu rosto estampado em cartazes e folhetos espalhados por todas as cidades que visitava. 
No circo, a mulher era caracterizada como um ser híbrido entre um animal e um humano e era constantemente subjugada. Nas apresentações, ela nunca foi reconhecida por sua inteligência ou seus reais talentos — como a dança e o canto.
A vida na estrada.
Considerada uma das protagonistas dos shows bizarros, Julia viajou por diversos países, fazendo performances em dezenas de tendas. Assim, ela fez turnês pela Europa, América e Ásia, sempre sob a personagem da Mulher Macaco.
Em 1860, em meio a uma turnê em Moscou, na Rússia, um acontecimento prometia mudar a vida de Julia. Ela teve um bebê. Pequeno e indefeso, o menino nasceu com características parecidas com a da mãe.
A criança única, com uma aparência tão singular quanto a da mãe, não sobreviveu, falecendo três dias após o parto. Devastada, a mulher pensou que as coisas não poderiam piorar. Mas ela estava errada novamente. Julia morreu cinco dias depois de seu bebê, vítima de complicações pós-parto.


Ilustração de Julia em livro didático / Crédito: Wikimedia Commons


O show não pode parar
Com um corpo tão distinto, Julia não foi esquecida nem mesmo após sua morte. Para o show business, aquela mulher era espetacular demais para descansar assim tão cedo. Ainda mais quando um médico, Alexander B. Mott, podia jurar de pés juntos que ela era resultado do acasalamento entre um humano e um orangotango.
Assim, os corpos da mulher e de seu bebê foram levados até a Universidade de Moscou, onde foram preservados taxidermicamente. Durante o processo, mãe e filho foram expostos à produtos químicos usados em embalsamentos.
Mesmo que ela não possa ser considerada uma múmia, por não ter sido tecnicamente mumificada, o corpo inerte e petrificado de Julia foi exposto em diversos museus e galerias. Ao lado dela, em caixotes menores, seu filho era alvo de olhares curiosos.


Ilustração de Julia e seu bebê expostos em galeria / Crédito: Wikimedia Commons


Os cadáveres dos dois foram exibidos por mais de cem anos. Julia e seu bebê viajaram para a Noruega, em 1921; e para os Estados Unidos e Suécia, em 1972. Juntos, os dois corpos foram estudados, roubados, danificados, comidos por ratos e armazenados em institutos forenses durante anos.
Depois de décadas servindo como atração para um show de horrores, Julia finalmente conseguiu sua liberdade, mesmo que póstuma, em fevereiro de 2013. Naquele ano, graças a esforços estatais e de artistas mexicanos, a mulher retornou a Sinaloa, onde foi enterrada em uma cerimônia católica, aberta ao público.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Frank Lentini: o artista com 3 pernas 16 dedos e 2 pênis.

A COMOVENTE TRAJETÓRIA DE FRANK LENTINI: O ARTISTA COM TRÊS PERNAS, 16 DEDOS E DOIS PÊNIS

O homem que nasceu com um gêmeo parasitário superou todas as adversidades e se tronou um dos maiores artistas circenses de sua época
FABIO PREVIDELLI PUBLICADO EM 08/12/2019

Frank Lentini: o artista com três pernas, 16 dedos e dois pênis
Frank Lentini: o artista com três pernas, 16 dedos e dois pênis - Creative Commons

Felizmente, o fascínio vintage pelos "shows de horrores" americanos foi esquecido entre os séculos 19 e 20. O público dos chamados Carnival se maravilhavam com os resultados bizarros da genética humana presentes nas damas barbadas, homens incrivelmente fortes, engolidores de espadas e pessoas bem pequenas.
Entretanto, é difícil entender exatamente como esses artistas conviviam como o fascínio mórbido das pessoas que pagavam para ver as mais diferentes “aberrações”, que além de ser um termo altamente pejorativo, também passava pouca informação honesta sobre a real situação dessas pessoas.
Este é o caso de Franceso "Frank" Lentini, o chamado Homem de Três Pernas, que ganhava a vida com sua rara condição de ter nascido com um gêmeo parasitário.
Nascido em maio de 1889 na Sicília, na Itália, Frank Lentini veio ao mundo com três pernas, quatro pés, 16 dedos e dois conjuntos de órgãos genitais. Sua perna extra se desenvolveu do lado do quadril direito com um quarto pé saindo do joelho. Sua condição foi o resultado de um segundo embrião que começou a se desenvolver no útero, mas no final não conseguiu se separar de seu gêmeo. Assim, um gêmeo passou a dominar o outro.
Aos quatro meses de idade, Lentini foi levado a um especialista sobre a possibilidade de amputar sua perna adicional, mas a ameaça de paralisia ou mesmo de morte impediu o médico de realizar o procedimento.
Ele ficou conhecido como "u maravigghiusu" ou "o maravilhoso" na Córsega. Mas outros apelidos mais cruéis como “o monstrinho” também o acompanhavam. Assim, a família de Lentini se viu obrigada a enviá-lo para morar com uma tia, com o intuito de evitar mais desgraças na vida do menino.

Frank Lentini quando criança / Crédito: Creative Commons


Em 1898, com apenas nove anos, Lentini fez uma longa e árdua viagem com seu pai para os Estados Unidos, onde lá se encontraram, em Boston, com um homem chamado Guiseppe Magnano, um showman profissional. Magnano estava na América há três anos viu nele uma figura em potencial para adicionar aos seus shows.
Em apenas um ano, em 1899, Francesco "Frank" Lentini foi listado como um dos principais artistas do mundialmente famoso circo dos Ringling Brothers.
A introdução de Lentini no circo
Lentini foi anunciado como "o siciliano de três pernas", "o único jogador de futebol de três pernas do mundo", "a maior maravilha médica de todos os tempos" ou, às vezes, apenas como "o grande Lentini".
Mas as proezas não ficavam só na sua alcunha, o jovem realizava tarefas com sua terceira perna, como chutar uma bola de futebol, pular uma corda, patinar e andar de bicicleta. Além de seu atletismo, Lentini também era perspicaz e engraçado.
Conhecido por dar entrevistas enquanto usava seu membro extra como um banco para se apoiar, ele respondia perguntas que iam do inocente curioso ao explícito: como seus hobbies ou os detalhes de sua vida sexual com uma perna extra. Assim, “O Homem de Três Pernas” foi capaz de dar respostas hilárias a algumas perguntas bastante intrusivas.
Quando perguntado, por exemplo, se era difícil comprar sapatos, o rapaz respondeu que ele comprava dois pares e dava o calçado extra “a um amigo que tinha uma perna só". Ele tinha um talento especial para a autodepreciação e era conhecido por brincar que era o único homem do mundo que não precisava de uma cadeira, já que ele sempre podia confiar na terceira perna como seu “banquinho”.

Frank Lentini / Crédito: Creative Commons


Durante seu tempo viajando pelos Estados Unidos, Lentini aprendeu a falar inglês e ficou conhecido por sua postura, inteligência e pelo seu jeito ousado de encarar sua deformidade. Com o sucesso, ele acumulou muita fama e fortuna.
Apesar de sua carreira não convencional, o profissional conseguiu usar seu carisma para conquistar uma jovem atriz chamada Theresa Murray. Os dois se casaram em 1907 e tiveram quatro filhos: Josephine, Natale, Franceso Jr. e Giacomo.
Apesar deles se separaram em 1935, o Grande Lentini não desistiu de encontrar um grande amor e passou o resto da vida com uma mulher chamada Helen Shupe.
Uma carreira histórica
Ele se apresentou em grandes espetáculos com o Ringling Brothers Circus, como no show Wild West de Buffalo Bill. Quando Lentini morreu em 1966, aos 77 anos, vítima de uma insuficiência pulmonar, ele ainda não havia parado de participar de turnês.
Em 2016, 50 anos após sua morte, Rosolini, cidade natal de Lentini na Sicília, celebrou a memória de seu herói não convencional por meio de um festival memorial que durou dois dias. Na ocasião, o evento convidou todos os descendentes de Frank.
Embora as apresentações tenham caído no esquecimento como principal forma de entretenimento dos Estados Unidos, o fascínio do público e até a romantização da época nunca deixaram completamente a consciência coletiva.
O filme de 2017, The Greatest Showman, por exemplo, apresentava um elenco rotativo de personagens desse tipo de espetáculo — todos baseados em artistas da vida real. Naturalmente, Francesco "Frank" Lentini esteve representado na pele do ator Jonathan Redavid.

Frank Lentini durante seus últimos anos de vida / Crédito: Creative Commons


O sucesso como o de Frank Lentini serve para nos lembrar o quão incrível e fantástico podem ser nossos sonhos e nossas conquistas. Afinal, ele via nas dificuldades uma maneira de se superar e nunca as tratava como um obstáculo insuperável. Essa, sem dúvida, é uma das muitas razões pelas quais Francesco "Frank" Lentini encontrou sucesso e felicidade em sua gloriosa jornada.
"Eu nunca reclamei", disse Lentini em seus últimos anos. "Eu acho que a vida é linda e gosto de vivê-la”.

terça-feira, 7 de maio de 2019

O homem elefante de Londres.

TÚMULO ESQUECIDO DO HOMEM ELEFANTE É ENCONTRADO EM LONDRES APÓS 130 ANOS

Joseph Merrick tornou-se atração de circo devido à sua aparência deformada
LETÍCIA YAZBEK PUBLICADO EM 07/05/2019




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- Reprodução

Os restos mortais de Joseph Merrick — mais conhecido como Homem Elefante — foram enterrados em um túmulo sem identificação em um cemitério em Londres, há quase 130 anos. É o que afirma a escritora Jo Vigor-Mungovin, autora de uma biografia sobre Merrick.
Nascido em 1862, em Leicester, Merrick ficou conhecido na Inglaterra vitoriana como Homem Elefante devido à sua aparência, causada por uma doença congênita. As deformidades que cobriam seu corpo faziam dele uma atração curiosa, embora marginalizado.
Joseph teve uma vida normal e saudável até os 5 anos de idade, quando seu organismo passou por mudanças físicas rápidas e irreversíveis. Os lábios incharam, a pele ganhou um tom de cinza e todo o corpo foi coberto por bolhas de carne.




Corpo de Merrick, coberto por deformidades / Crédito: Reprodução

A causa das deformidades até hoje é incerta. Muitos pesquisadores sugerem que o homem sofria da síndrome de Proteus, um raro distúrbio genético.
Condenado por sua aparência, Merrick não conseguiu encontrar emprego e foi obrigado a entrar para o circo, um Freak Show itinerante. Finalmente, foi examinado pelo doutor Frederick Treves, do Hospital de Londres, em Whitechapel, que descreveu: “Sua cabeça era a coisa mais interessante. Era muito, muito grande - como uma enorme bolsa com muitos livros”.
Diagnosticado com um problema no coração, Merrick encontrou refúgio no hospital, onde morreu aos 27 anos, em 1890. Segundo a causa oficial da morte, asfixiado pelo peso da própria cabeça. Seu corpo foi dissecado e o esqueleto, preservado para estudos médicos.
No entanto, não se sabia até então o destino dos “tecidos moles” de Merrick. Jo Vigor-Mungovin começou a pesquisar os registros do Cemitério e Crematório da Cidade de Londres, procurando por pistas a partir do ano de morte do homem.




 Jo Vigor-Mungovin onde acredita ser o túmulo esquecido de Merrick / Crédito: Reprodução

"Decidi procurar em uma janela de oito semanas na época de sua morte e lá, na página dois, estava Joseph Merrick". Os registros do cemitério mostraram que a residência do falecido era o Hospital de Londres, onde Joseph passou seus últimos anos de vida. Além disso, a idade do falecido era próxima à de Merrick quando ele morreu.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Em 1769, estreava o circo moderno.

HÁ 251 ANOS, ESTREAVA O CIRCO MODERNO

Criado por um ex-militar inglês, com técnicas de organização de quartel, o circo juntou profissões que entretiam a humanidade por milênios
TEXTO FELIPE VAN DEURSEN / ILUSTRAÇÕES HARE PUBLICADO EM 04/04/2019

O palhaço, a alma do circo
O palhaço, a alma do circo - Acervo Aventuras na História

As casas, em chamas, desmanchavam-se no chão e o som do fogo se misturava ao de tiros e gritos de mulheres. O galope sincopado na chuva aumentava a tensão. Em meio ao horror e à confusão, o temido Napoleão Bonaparte bradou de peito cheio a seus homens o orgulho de defender as cores da França, inflando-os de honra e orgulho. Após o inspirado discurso e pronto para montar no cavalo rumo a mais uma vitória, o imperador, com o olhar rígido, meteu o pé direito no estribo esquerdo, ficando de frente para o rabo do animal. Uma posição ridícula. Às gargalhadas, a plateia delirou.
Cenas grandiosas assim eram populares no circo do século 19. A palhaçada descrita acima, involuntária, foi feita por um artista que nunca havia subido no lombo de um cavalo e teve de substituir de última hora o colega que interpretava Napoleão no show As Glórias Militares. A exibição era um dos maiores sucessos do circo do veneziano Antoine Franconi na década de 1860. A dramatização, com mais de 600 pessoas no elenco, encantou públicos em Paris, Londres e Washington – com palhaçadas incorporadas ao espetáculo.
Franconi foi um dos grandes nomes do circo. Mas ele mesmo apenas deu continuidade ao trabalho iniciado no século 18 por seu ex-patrão, Philip Astley – este, sim, considerado o pai do circo moderno. Ex-integrante da cavalaria do Exército inglês, onde chegou a assumir o posto de sargento-major, Astley aplicou as rígidas regras do quartel a seu novo negócio, inventou o picadeiro e juntou nele números com seus cavalos, palhaços, malabaristas e outros artistas que costumavam se apresentar nas feiras das cidades para ganhar a vida. 
Acrobacia olímpica
As diversas atividades que compõem hoje o que chamamos de circo não tem um só local e data de nascimento. “Não existe um circo único. Ele foi e sempre será uma arte de múltiplas origens e influências, presente em quase todas as culturas”, diz Marco Antonio Bortoleto, doutor em Educação Física e pesquisador de artes circenses da Universidade Estadual de Campinas. Na Grécia, acrobatas se apresentavam nas Olimpíadas da Antiguidade e há registros de jogos semelhantes ao malabarismo praticados no Egito antigo.
Em Roma, havia espetáculos públicos com diversas atrações, como teatro, lutas de gladiadores, exibições de animais exóticos e corridas de bigas no gigantesco estádio Circo Máximo – aliás, o termo “circo” é latino, numa referência ao formato circular do estádio. Anfiteatros, como o Coliseu, construído no século 1, foram erguidos para eventos assim. “Em geral, os espetáculos eram oferecidos por cidadãos ricos em homenagem a mortos importantes, vitórias militares ou em honra aos deuses”, afirma Renata Garraffoni, historiadora da Universidade Federal do Paraná.
Trezentos anos antes, na China, artistas que se contorciam e se equilibravam sobre cordas já entretinham imperadores e visitantes estrangeiros. Com o fim do Império Romano e o início da Idade Média, no século 5, trupes de mímicos, ventríloquos, ilusionistas e equilibristas, entre outros, começaram a se apresentar em feiras e praças pela Europa. Pulavam de cidade em cidade, sobrevivendo de contribuições espontâneas. Só no século 18 é que organizadores de espetáculos perceberam que as pessoas pagariam para assistir a esses artistas do povo. Alguns palcos com entrada paga foram abertos no continente. Foi nessa época que Philip Astley teve sua grande sacada.

O número com cavalos de Astley / Reprodução
Em 1768, Astley criou uma pequena arena no distrito de Lambeth, na Inglaterra, para demonstrar sua habilidade em números com cavalo, acompanhado por um tocador de tambor. O show Pequeno Cavalo Militar Adestrado fez sucesso entre nobres e plebeus, e logo Astley mudou-se para a beira do rio Tâmisa, num hipódromo perto da ponte Westminster. Lá, seu lado belicoso floresceu. O rufar dos tambores, os uniformes, as ordens de execução em números e, principalmente, a organização do espetáculo seguiam técnicas da rígida estrutura de um quartel.
Diversão real
No verão de 1770, cartazes chamavam atenção para o galpão de madeira de Astley. Eles diziam: “Vinte diferentes números. Um, dois ou três cavalos todas as noites. Lugar sentado: 1 xelim. De pé: 6 pence”. Naquele ano, seu circo dera um salto e tanto. Ele havia percebido que era mais fácil manter-se de pé sobre os cavalos a galope movendo-se em um círculo – o princípio da força centrífuga. Graças a essa sacada, estava inventado o picadeiro. Sobre ele, o ex-militar juntou, sempre com rigor militar, os números de diversos artistas saltimbancos. Seu espetáculo cresceu e espalhou-se.
“Devido à fama e ao nomadismo de seus componentes, similares do circo de Astley despontaram por toda a Europa com impressionante rapidez”, escreveu em Circo Júlio Amaral de Oliveira. Em 1775, Astley levou o circo a Paris, voltando dez anos depois a convite da rainha Maria Antonieta. Nessa época, Antoine Franconi ingressou no L’Amphitheatre Astley como domador de feras, mas acabou assumindo o comando do negócio em 1789 – com o estouro da Revolução Francesa, o inglês abandonara a cidade. A partir de então, Franconi se tornou o grande nome do circo francês.
Outro espetáculo com cavalos / Reprodução
Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos viveriam sua era de ouro do circo no século 19. Na década de 1830, o equilibrista inglês Thomas Taplin Cooke criara seu próprio show – que, após encantar o rei William IV, passara a ser chamado Circo Real de Cooke. Com o estrondoso sucesso, em 1836 ele juntou sua companhia de 120 pessoas (um terço delas membros da família) e embarcou para Nova York. Estabelecidos na América, muitos dos Cooke se casaram com membros de outras famílias circenses, fazendo do clã um dos mais importantes das famílias de picadeiro. “Em 1897, havia mais de 200 descendentes diretos de Thomas Taplin Cooke, a maioria envolvida com o circo. O circo era, e ainda é, uma comunidade fechada”, diz Peter Verney em Here Comes the Circus (“Aí vem o circo).
Na época, um sapateiro americano resolveu arriscar a sorte ao criar o próprio espetáculo. Aron Turner usou uma tenda desmontável, novidade que acabara de dar os primeiros primeiros passos na Europa – até então, o circo tinha uma estrutura fixa. O Circo Turner rodou o país agitando cidades com uma invenção de seu fundador, as paradas de rua. O espetáculo com estrutura móvel fez sucesso. Na Europa, a itinerância também agradava. George Sanger fazia turnês de nove meses, passando por 200 lugares. Na Rússia, os espetáculos apresentavam-se desde o fim do século 17, incentivados pelo czar Pedro, o Grande, e formaram a base de uma das escolas mais respeitadas no mundo do circo.
O Circo de Astley   /  Wikimedia Commons
Em 1883, no Nebraska, Estados Unidos, William Cody iniciou um fenômeno que virou moda por décadas: o Velho Oeste. Com elencos enormes, que incluíam mais de 100 índios e perseguições a cavalo, Cody tornou-se uma lenda, lembrada até hoje por seu nome artístico: Buffalo Bill. Na mesma época Phineas Taylor Barnum, famoso pelo chamado “circo dos horrores” , e James Bailey exibiam-se dentro e fora dos Estados Unidos com o show O Maior Espetáculo da Terra.
De fato, era mesmo. Numa área de 20 mil metros quadrados, eles atraíam 10 mil pessoas por sessão. Nas turnês, usavam ferrovias. Com seus próprios vagões para carregar tendas, equipamentos, animais e artistas, o diretor do circo, William Coup, criou um sistema logístico tão funcional que atraiu as Forças Armadas – às vésperas da Primeira Guerra (1914-1918), oficiais foram enviados para viajar com o circo e observar o engenhoso método de Coup. O exército, que influenciara as origens do circo moderno, agora aprendia com ele.
A guerra inviabilizou turnês na Europa, palco do conflito, e foi um dos problemas do circo mundial no século 20. Além disso, surgiram o rádio e o cinema para disputar o tempo de lazer das pessoas. Na Europa, muitos circos pereceram. Nos Estados Unidos, o governo tentou evitar isso. O circo Ringling Brothers, que comprou o império de Barnum e Bailey e o ampliou, teve apoio (embora não financeiro) do presidente Franklin Roosevelt para levantar o moral dos americanos.
Mais tarde, com o surgimento da TV e a profissionalização do negócio, o circo mudou. Hoje, porém, é mais fácil ver malabaristas em um semáforo do que em um picadeiro de verdade. O que, mesmo sem querer, mantém viva a ideia de Philip Astley: estender a todos o privilégio de poucos.

A evolução das artes circenses
Garganta profunda
Os primeiros engolidores de espada surgiram na Índia: a prática era religiosa. Faquires e xamãs também andavam sobre brasa, encantavam serpentes e deitavam em camas de pregos. A atividade se espalhou pelo mundo todo, foi perseguida na Europa medieval e, no século 19, incorporada ao “circo dos horrores” de P.T. Barnum.

Fogo!
Hieróglifos egípcios encontrados nas tumbas de príncipes da 11ª dinastia (2000 a.C.) são a mais antiga referência a malabaristas. O egiptólogo Julio Gralha ressalta que se tratava de uma brincadeira de meninas acrobatas. “Eram vistos como jogos, não como espetáculos”, diz. Malabaristas gregos se apresentavam entre as competições nas Olimpíadas antigas, no século 6 a.C.

Ponto de equilíbrio 
O circo chinês começou a se desenvolver na dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.), quando a educação, a ciência e as idéias de Confúcio prosperaram no país. O imperador Wu costumava receber visitantes com espetáculos cheios de acrobatas, contorcionistas e equilibristas. Fez tanto sucesso que ele decidiu, em 108 a.C., realizar os shows todos os anos.

Número de bestas
Uma das principais atrações do Império Romano era a exibição de animais exóticos e a caçada de feras. Leões, tigres, jacarés e elefantes eram expostos ao público. Os animais chegaram ao circo americano no século 18.

Arte popular
Durante a Idade Média, os saltimbancos apresentavam-se em feiras populares, especialmente na França, Alemanha, Holanda e Inglaterra. Faziam números de mímica, malabarismo, ilusionismo, ventriloquia ou marionetes. Muitos eram ciganos, outros foram perseguidos pela Igreja. E já tinham uma característica de muitos circos modernos: casavam-se entre si, formando uma grande família.

Billy!
Philip Astley, um cavaleiro excepcional, estreou seu número em 1768 e ensinou muitos dos truques existentes até hoje a seu cavalo Billy. Em dois anos, mudou-se para uma arena maior, onde criou o picadeiro e se tornou o primeiro mestre de cerimônias do circo. No século 19, o inglês Andrew Ducrow criou números como aqueles em que o cavaleiro fica como uma estátua sobre o cavalo.

O palhaço americano
Já havia palhaços na China, Grécia e Roma. Lá, dois artistas foram executados pelo império e, depois, canonizados – São Filomeno e São Genésio. Mas o primeiro grande nome foi Dan Rice, maior artista do “circo dos horrores”.