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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Livro: História da Feitiçaria: feiticeiros, hereges e pagãos.

 


BIBLIOGRAFIA: RUSSEL, Jeffrey Burton. História da Feitiçaria: feiticeiros, hereges e pagãos. Rio de Janeiro: Campus, 1993.

História da Bruxaria: Feiticeiras, Hereges e Pagãs, escrito pelo historiador Jeffrey Burton Russell em colaboração com Brooks Alexander, é uma das obras acadêmicas mais respeitadas e completas sobre a evolução do fenômeno da bruxaria no Ocidente. Lançado no Brasil pela Editora Goya / Aleph, o livro se destaca por desmistificar preconcecidos históricos e analisar como a figura da bruxa foi moldada pela mentalidade coletiva ao longo dos séculos.

Estrutura e Principais Temas

O livro adota uma abordagem cronológica e sociológica, dividida essencialmente em três grandes momentos históricos:

  • As Origens Antigas: Explora as práticas de feitiçaria e magia na Antiguidade clássica e entre povos pagãos, onde a magia era ligada à natureza e à sobrevivência.
  • A Grande Caça às Bruxas (Séculos XV a XVII): Analisa a transição da heresia para o conceito de "bruxaria diabólica" criado pela Igreja Católica e protestantes, detalhando a histeria coletiva, os processos jurídicos e os manuais de tortura (como o Malleus Maleficarum).
  • A Bruxaria Moderna e Contemporânea: Aborda o ressurgimento das práticas esotéricas no século XX, o nascimento da Wicca por Gerald Gardner e os movimentos neopagãos atuais.

Análise Crítica da Obra

Aspecto

Pontos Fortes

Pontos Fracos / Críticas

Rigor Acadêmico

Pesquisa histórica profunda baseada em documentos e registros reais de julgamentos.

Algumas seções teóricas iniciais podem parecer densas ou lentas para o leitor casual.

Foco Geográfico

Excelente contextualização do cenário europeu medieval e moderno.

Fortemente eurocêntrico, deixando de lado tradições de magia da África, Ásia e Américas.

Visão sobre a Wicca

Explica com clareza a transição da bruxaria como crime para a bruxaria como religião moderna.

Leitores que buscam bruxaria puramente tradicional ou natural apontam um foco excessivo na Wicca.

Vale a pena ler?

Sim. É uma leitura essencial para quem deseja compreender a bruxaria pelo viés da História das Mentalidades e da sociologia, afastando-se do sensacionalismo hollywoodiano. O livro demonstra que a "bruxa" funcionou historicamente como um bode expiatório para os medos, crises econômicas e preconceitos de gênero de cada época. Se você busca um guia prático ou grimório, este livro não serve; mas se busca conhecimento histórico sólido, é uma das melhores referências disponíveis no mercado

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

A condenação por bruxaria mais famosa da História do Brasil.


A CONDENAÇÃO POR BRUXARIA MAIS FAMOSA DA HISTÓRIA DO BRASIL
Nascida na França, no século XVII, a jovem tinha um rosto delicado, que era emoldurado pelos seus cabelos sedosos e bem penteados. Ela sabia se portar em público e, junto de sua beleza avassaladora, sabia usar sua personalidade para conseguir tudo o que queria. Estamos falando de Mima Renard.
Assim, já na idade adulta, conheceu e se casou com um belo pretendente chamado René. Juntos, o casal apaixonado logo tratou de se mudar para o Brasil. Como imigrantes, eles foram direto até a terra das oportunidades: a Vila de São Paulo. Uma vez instalados, René e Mima chamaram atenção de toda a comunidade, principalmente por se tratarem de um belo e jovem casal recém-chegado de terras estrangeiras. A jovem forasteira era tão bonita que, apesar de casada, tinha uma fila de pretendentes ao seu dispor e não demorou para René ser morto por um pretendente de Mima.
Sem nunca ter levantado a mão para trabalhar, Mima não teve outra opção a não ser começar a se prostituir para sobreviver. Seu corpo era seu bem mais precioso, mas a linda dama precisava se alimentar, precisava de um teto para morar. Não demorou muito para que o serviço já mal visto da jovem se tornasse sua ruína. Outras mulheres de São Paulo começaram a duvidar da índole de Mima e, assim, as primeiras acusações de bruxaria foram feitas.
Na época, a comunidade enxergou em Mima uma mulher ardilosa que, através de bruxaria e ocultismo, atraía os homens para a sua armadilha. Para elas era mais do que óbvio: Mima jogava feitiços em todos os pretendentes da vila. Um dia, dois dos clientes de Mima, ambos casados, entraram em conflito. Da briga, um deles saiu sem vida e foi a jovem quem levou a culpa pelo assassinato, sendo denunciada pelo crime. Acusada de bruxaria, Mima Renard foi levada até a paróquia local, onde foi julgada e condenada por supostos atos de bruxaria. No ano de 1692, então, ela foi executada em uma fogueira pública, na mesma Vila de São Paulo que a recebeu tão bem de início.

FONTE: AV Aventuras na História

Boa pesquisa.


 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Batalhas contra bruxos: Textos apócrifos cristãos são traduzidos.

 BATALHAS CONTRA BRUXOS: TEXTOS APÓCRIFOS CRISTÃOS SÃO TRADUZIDOS

É a primeira vez que essa tradução é compilada, tornando as histórias desses textos antigos mais acessíveis ao público

INGREDI BRUNATO PUBLICADO EM 21/09/2020

Imagem ilustrativa de Bíblia aberta.
Imagem ilustrativa de Bíblia aberta. - Divulgação/Pixabay

O livro New Testament Apocrypha, Volume 2: More Noncanonical Scriptures” (Ou “Apócrifos do Novo Testamento, Volume 2: Mais Escrituras Não-canônicas”, em tradução livre), lançado nessa segunda-feira, 21, organizado por Tony Burke, que é professor de cristianismo primitivo na Universidade de York, no Canadá, fez uma compilação e tradução inédita para o inglês de textos cristãos menos conhecidos. 

Segundo explicou Burke, antes de ocorrer a seleção oficial dos textos que fariam parte da Bíblia, os cristãos costumavam debater quais deles eram verdadeiros a respeito do que narravam, e quais não.

“Os textos apócrifos eram essenciais para a vida espiritual dos cristãos muito depois do aparente fechamento do cânon e que os apelos para evitar e até mesmo destruir essa literatura nem sempre eram eficazes”, escreveu ele. 

Uma das histórias apócrifas, por exemplo, acompanha o Bispo Basílio, que para construir uma igreja, primeiro precisaria derrubar duas colunas cobertas por runas “demoníacas”, que só podiam ser destruídas pelo “poder de Jesus”.

Para tornar a tarefa ainda mais difícil, Basílio precisa enfrentar bruxos que estão protegendo as colunas, porém após alguns sonhos em que recebe a visita de Virgem Maria, ele é capaz de cumprir a tarefa. 

Esse texto especificamente, que é datado de 1500 anos atrás, estava escrito originalmente em "copta", uma antiga língua egípcia que usava o alfabeto grego, e foi traduzido pelo professor de estudos religiosos da Universidade de Iowa, Paul Dilley. 

Em entrevista ao Live Science, o especialista explicou o que devemos visualizar ao ler sobre os inimigos do Bispo Basílio nesse texto: "Havia uma tendência de identificar os resquícios do politeísmo com 'magoi' ou 'bruxos' que representavam perigos para a comunidade cristã, às vezes abertamente, às vezes clandestinamente".

fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/batalhas-contra-bruxos-e-demonios-conheca-os-textos-apocrifos-cristaos-que-foram-recentemente-traduzidos-para-o-ingles

sexta-feira, 10 de abril de 2020

As 10 maiores assassinas da história.

DE ELIZABETH BÁTHORY A AMELIA DYER: AS 10 MAIORES ASSASSINAS DA HISTÓRIA

Ciúme, dinheiro, poder e até bruxaria fizeram estas mulheres deixarem um rastro de sangue
SIMONE BITAR PUBLICADO EM 10/04/2020
Pintura de Caravaggio: Judite e Holofernes, de 1599
Pintura de Caravaggio: Judite e Holofernes, de 1599 - Wikimedia Commons
Catherine Monvoisin, também conhecida como La Voisin, é considerada a maior serial killer da história: matou entre mil a 2,5 mil pessoas na França no século 17. Já a Condessa Sangrenta fez 650 vítimas — a maioria servos que trabalhavam em seu castelo na Hungria. E a italiana Giulia Tofana envenenava suas vítimas (cerca de 600 homens), que morriam de forma lenta. 
Conheça as histórias das maiores assassinas que o mundo já conheceu:
1. Anna Månsdotter (1841-1889, Suécia).
Crédito: Wikimedia Commons

Condenada, com o filho Per, pelo assassinato de sua nora, Hanna Johansdotter, em 1889. Per pegou prisão perpétua, mas foi solto em 1913, depois de 23 anos atrás das grades. O caso nunca foi totalmente esclarecido. Depois do falecimento do marido, Anna ficou morando com Per. Seus outros dois filhos não chegaram à idade adulta. Havia boatos de que mãe e filho tinham um caso amoroso. Anna molestava o filho desde pequeno. Livre da figura do marido e sob o julgamento da vizinhança, que falava em incesto, arranjou que Per se casasse com Hanna - que escrevia à família reclamando da sogra.

2. Catherine Monvoisin (1640-1680, França).
Crédito: Wikimedia Commons

Catherine, também conhecida como La Voisin, foi queimada na Praça Grève, em Paris em 1680, acusada de tentar envenenar o rei. Conhecida por praticar quiromancia, fazer abortos e vender fórmulas medicinais, inclusive de venenos poderosos, tinha uma extensa rede de clientes - entre os quais a Madame de Montespan, amante do rei da França, que depois de ser trocada por outra começou a planejar o regicídio. Suspeita-se que matou entre mil e 2,5 mil pessoas — mesmo com o número mais modesto, é a maior serial killer da história humana.

3. Elizabeth Báthory (1560-1614, Hungria).
Crédito: Wikimedia Commons

A Condessa Sangrenta é uma das maiores serial killers de todos os tempos. Ao ser presa, a polícia encontrou com ela uma agenda com o nome das vítimas. Eram 650. Foi condenada pelo assassinato de 80 jovens, a maioria servos que trabalhavam em seu castelo. Há relatos de que tinha uma jaula construída para seções de tortura.
Bissexual e epilética, teve ataques de fúria na infância. Sabia falar latim, húngaro e alemão — e chamava atenção pela beleza física. Casou-se aos 15 anos, com o conde Ferenc Nasdady, oficial do Exército famoso pela crueldade contra inimigos.

4. Darya Nikolayevna Saltykova (1730-1801, Rússia).
Crédito: Wikimedia Commons

Matou pelo menos 139 pessoas, incluindo crianças de 10 a 12 anos. As maiores vítimas foram os servos, principalmente mulheres mais jovens que ela. Torturou grávidas e crianças. Quebrava os ossos ou jogava as vítimas sem roupa na neve. Os assassinatos se davam por motivos torpes. Em 1762, dois camponeses que viviam na propriedade de Saltykova fugiram e conseguiram uma petição para apresentar à czarina Catharina II, que resolveu investigar a nobre. Em 22 de outubro de 1768, foi condenada e enforcada na Praça Vermelha, em Moscou.

5. Bárbara dos Prazeres (1770-1830, Portugal).
Crédito: Wikimedia Commons

Acusada de sequestrar e matar crianças, nunca foi pega. Casada, a portuguesa chegou ao Rio de Janeiro aos 18 anos, mas logo se apaixonou por outro homem. Para viver a paixão, matou o marido. Depois se livrou do amante, ao descobrir uma traição, e virou prostituta.
Fazia ponto no Arco do Telles, embaixo da imagem de Nossa Senhora dos Prazeres, daí o apelido. Pegou sífilis e tomava remédios indicados por curandeiros. Só que as receitas precisavam de sangue. Começou matando animais e depois crianças. Ficava de tocaia na roda dos enjeitados, na Santa Casa de Misericórdia.

6. Giulia Tofana (1635-1659, Itália).
Crédito: Wikimedia Commons

Era hábil com venenos. Inventou um dos mais famosos da Renascença, o Acqua Toffana, mistura de arsênico, chumbo e uma planta chamada beladona. Pequenas doses diárias eram capazes de matar a vítima de forma discreta e lenta, num período de dois anos.
Giulia teria aprendido o ofício com a mãe, e fez disso um negócio. Vendia o veneno a mulheres decididas a colocar fim em casamentos infelizes. Descoberta, confessou ser responsável pela morte de mais de 600 homens. Foi condenada e executada junto com a filha Girolama Sperla, parceira nas atividades, e mais três auxiliares.

7. Amelia Dyer (1837-1896, Inglaterra).
Crédito: Wikimedia Commons

Um termo tétrico da era vitoriana: baby farming (algo como plantação de bebês). Era um golpe no qual mães solteiras, desesperadas pelo estigma atribuído na época, pagavam para uma família adotá-los ou encaminhá-los para a adoção.
O pagamento, obviamente, não dava para cobrir as despesas de uma vida inteira. Amelia então cortava custos. Matando crianças que estavam sob sua responsabilidade por mais de 20 anos, deixava que morressem por desnutrição ou maus-tratos. Terminou enforcada em 1896 numa prisão de Londres, enquanto cumpria pena por um único crime. Acredita-se que 400 crianças morreram por suas mãos (ou ausência delas).

8. Catalina de Los Ríos y Lisperguer (1604-1665, Chile).
Crédito: Wikimedia Commons
Aos 18 anos, matou o pai colocando veneno na comida, feita por ela. A tia desconfiou e denunciou o crime, mas o caso foi abafado. Catalina foi julgada em 1660, e condenada por 14 assassinatos de negros e índios que trabalhavam em suas terras. Pelos negros pagou o dobro do que pelos índios.
A chilena conhecida como La Quintrala, por causa dos cabelos vermelhos, ficou sob a tutela da avó, que logo lhe arrumou um noivo. Catalina não gostou, e fez com que um escravo o matasse. O crime foi descoberto, e o escravo, morto por isso. Ela pagou apenas uma multa.

9. Marie Madeleine Marguerite d'Aubray (1630-1676, França).
Crédito: Wikimedia Commons

Uma das primeiras assassinas por envenenamento em série. Matou o pai, o irmão e as duas irmãs. Depois acabou com a vida do marido, da filha dele e de outros familiares. Marie começou a pesquisar sobre venenos logo que se casou.
Testava suas descobertas em inválidos internados em hospitais e muitas vezes nos empregados da sua casa. Quando os crimes levantaram suspeitas da polícia, ela fugiu para a Inglaterra e depois para os Países Baixos. Por fim se refugiou num convento em Liège, na Bélgica. Foi presa em 1676, torturada e condenada à morte.

10. Anna Margaretha Zwanziger (1760-1811, Bavária).
Crédito: Wikimedia Commons

Ré confessa da morte de quatro pessoas. Órfã, foi adotada aos 10 anos e teve boa educação. Cinco anos depois, casou com um advogado bêbado e virou prostituta para sustentar os filhos. Depois da morte do marido, empregou-se como doméstica na casa de juízes.
Um deles, separado, precisava de uma governanta. Mas o casal se reconciliou. A mulher morreu quatro meses depois, envenenada por Anna. Três anos depois, quando já havia matado a mulher de outro juiz, que acabara de dar à luz, e envenenado mais dois hóspedes, acabou presa e condenada à morte.

Zugarramurdi: o julgamento de Bruxas mais cruel da História.

ZUGARRAMURDI: O JULGAMENTO DE BRUXAS MAIS CRUEL DA HISTÓRIA

Processo ocorreu na Espanha, em 1610, pelo Tribunal da Inquisição de Logroño
JOSEANE PEREIRA PUBLICADO EM 10/04/2020
El Aquelarre, quadro de Goya evocando o julgamento das Brujas de Zugarramurdi
El Aquelarre, quadro de Goya evocando o julgamento das Brujas de Zugarramurdi - Wikimedia Commons
Quando pensamos em caça às bruxas, a lembrança mais comum é sobre o julgamento de Salém, ocorrido na Nova Inglaterra colonial. Entretanto, outras perseguições a supostos feiticeiros foram igualmente terríveis – ou até pior. É o caso da caça às bruxas espanhola, que resultou em milhares de processos e dezenas de mortes.
BRUXAS DA ESPANHA.
Uma coisa específica sobre a Inquisição Espanhola era que governantes seculares do Clero se reuniam com a Igreja para supervisionar os processos – um acordo entre a Igreja e o Estado para perseguir hereges.
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Bruxa sentada ouvindo a sentença de seu Inquisidor / Crédito: Wikimedia Commons
Um dos maiores julgamentos de bruxas realizados pela Inquisição Espanhola ocorreu na vila de Zugarramurdi, localizada no País Basco. Lá, no ano de 1610, uma moradora afirmou ter visto em sonhos que seus vizinhos participavam de um ritual em uma caverna próxima. Isso chamou atenção dos juízes do Tribunal da Inquisição de Logroño, que prendeu 53 paroquianos locais.
No dia 7 de novembro daquele ano, cerca de 30 mil pessoas foram a Logroño para assistir ao auto de fé, que se iniciou com uma procissão liderada pela bandeira do Santo Ofício, seguida por mil comissários e membros da Inquisição que usavam brincos de ouro e cruzes no peito.
Após isso, entraram os penitentes: 21 deles estavam com uma vela nas mãos, e seis com uma corda na garganta, para indicar que deveriam ser chicoteados.
O processo teve 2 dias de duração. No dia 8 de novembro, uma segunda feira, 18 pessoas acusadas de bruxaria foram redimidas por terem confessado seus atos. Mas seis homens e mulheres que resistiram à Inquisição foram queimados vivos, junto a cinco pessoas que já haviam morrido sob tortura.
O número total de pessoas acusadas pela Inquisição no País Basco ficou desconhecido por muito tempo. Apenas depois que o Vaticano abriu os arquivos, revelou-se que cerca de 7 mil homens, mulheres e crianças foram acusados de bruxaria, e dezenas deles foram torturados e mortos.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Bruxas de Salém: a perseguição sem fundamento.

BRUXAS DE SALÉM: A PERSEGUIÇÃO SEM FUNDAMENTO

Neste dia, em 1692, começava uma série de julgamentos e execuções sem provas contra mulheres, baseado no fundamentalismo religioso
REDAÇÃO PUBLICADO EM 29/02/2020
Ilustração de um julgamento de Salem
Ilustração de um julgamento de Salem - Getty Images
Em fevereiro de 1692, a cidade de Salem, Massachusetts, acompanhou o primeiro julgamento por bruxaria dos Estados Unidos. Recebeu muita atenção na época pelo medo da caça às bruxas de 1692, quando mais de 150 pessoas foram presas e 25 morreram.
O julgamento surgiu a partir do movimento religioso Christian Science (Ciência Cristã), fundado por Mary Baker Eddy, em 1866. Os adeptos da religião acreditavam que o mundo material é uma ilusão e que as doenças são erros mentais, não distúrbios físicos. Por isso, os doentes deviam ser curados por meio de orações e hipnoses.
Daniel Spofford, um veterano da guerra civil americana, aderiu à Ciência Cristã em 1875, e passou a estudar formas de cura metafísica. Logo, ele se tornou um membro importante da comunidade em Massachusetts — praticava seus aprendizados em pessoas doentes e se referia a si mesmo como Doutor Daniel Spofford.
Em 1878, uma mulher chamada Lucretia Brown, de 50 anos, que vivia em Ipswich, a cerca de 20 quilômetros de distância de Salem, acusou Spofford de tentar machucá-la usando mesmerismo. Durante a infância, uma lesão na coluna havia deixado Lucretia paralítica, e ela afirmava que estava sendo curada por meio da Ciência Cristã. Após sofrer duas recaídas, em 1877 e 1878, acusou Spofford de prejudicar sua saúde, utilizando seus poderes hipnóticos para o mal.
Spofford teria usado seus poderes para regredir a recuperação de Lucretia / Crédito: Wikimedia Commons
O julgamento começou em 14 de maio de 1978, e 21 membros da Ciência Cristã testemunharam contra Spofford, incluindo Mary Baker Eddy. Três dias depois, o advogado de Spofford, Amos Noyes, contestou o tribunal, argumentando que a corte não tinha jurisdição no caso.
O juiz Horace Gray afirmou que a acusação era vaga e arquivou o caso. A corte decidiu ainda que não estava claro como poderia impedir que Spofford usasse seus poderes, mesmo que ele fosse preso.
O caso ganhou muita atenção da mídia, principalmente dos jornais Boston Globe, Newburyport Herald e Salem Observer, e foi relacionado à caça as bruxas de Salem. O julgamento de Spofford ficou conhecido como uma das sessões de tribunal mais bizarras que já aconteceram nos Estados Unidos.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Garrafa do século XIX para afastar bruxas é encontrada nos Estados Unidos.

GARRAFA DO SÉCULO 19 PARA AFASTAR BRUXAS É ENCONTRADA NOS ESTADOS UNIDOS

O objeto pertenceu a soldados da Guerra Civil Americana e armazenava itens peculiares
ALANA SOUSA PUBLICADO EM 28/01/2020
Garrafa para espantar bruxas e maus espíritos
Garrafa para espantar bruxas e maus espíritos - Robert Hunter/Divulgação
Em uma fortaleza construída em 1861, durante a Guerra Civil Americana, pesquisadores encontraram, durante uma escavação, uma garrafa contendo um curioso talismã contra bruxas e maus espíritos. Localizada no Condado de York, no estado da Virgínia, Estados Unidos, a estrutura já foi ocupada pelas tropas confederadas e, mais tarde, pelas forças da União.
A garrafa, descoberta pela equipe do Centro William & Mary de Pesquisa Arqueológica (WMCAR), mede cerca de 13 cm de altura e 8 cm de largura. Curiosamente ela continha uma grande quantidade de unhas e pregos. O artefato estava quebrado, mas ainda sim, em bom estado de conservação.
Tanto o arqueólogo e funcionário do WMCAR, Oliver Mueller-Heubach, quanto, o fundador do Centro de Pesquisa, Robert Hunter sugerem a hipótese de que o pote de vidro fazia parte de um ritual raro para afastar bruxas.
Joe Jones, diretos do WMCAR, explica que o achado “é realmente uma cápsula do tempo representando a experiência das tropas da Guerra Civil, uma janela diretamente para o que esses caras estavam passando ocupando essa fortificação nesse período de tempo”.
Os pesquisadores apontam que a garrafa foi deixada por um soldado da União, acrescentando que o medo e a morte eram algo que estava sempre presente. “As tropas da União foram uma força de ocupação no território inimigo durante a maior parte da guerra; portanto, havia muita disposição e energia para afastar”, conta Jones, em comunicado.
A prática de utilização de objetos para quebrar ou evitar alguma maldição foi comum entre os séculos 16 e 17, principalmente na Inglaterra. Agora, com a descoberta, os estudiosos pretendem compreender mais sobre as superstições que também afetaram os Estados Unidos.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Bruxas de Salém: o retorno.

BRUXAS DE SALÉM: O RETORNO

Entenda como o fundamentalismo religioso resultou numa série de julgamentos e execuções sem provas
REDAÇÃO PUBLICADO EM 30/10/2019

None
- Wikimedia Commons

Em 14 de maio de 1878, a cidade de Salem, Massachusetts, acompanhou o último julgamento por bruxaria dos Estados Unidos. Ele ficou conhecido como o Segundo Julgamento por Bruxaria de Salem e recebeu muita atenção na época por ter acontecido na mesma cidade da caça às bruxas de 1692, quando mais de 150 pessoas foram presas e 25 morreram.
O julgamento surgiu a partir do movimento religioso Christian Science (Ciência Cristã), fundado por Mary Baker Eddy, em 1866. Os adeptos da religião acreditavam que o mundo material é uma ilusão e que as doenças são erros mentais, não distúrbios físicos. Por isso, os doentes deviam ser curados por meio de orações e hipnoses.
Daniel Spofford, um veterano da guerra civil americana, aderiu à Ciência Cristã em 1875, e passou a estudar formas de cura metafísica. Logo, ele se tornou um membro importante da comunidade em Massachusetts — praticava seus aprendizados em pessoas doentes e se referia a si mesmo como Doutor Daniel Spofford.
Em 1878, uma mulher chamada Lucretia Brown, de 50 anos, que vivia em Ipswich, a cerca de 20 quilômetros de distância de Salem, acusou Spofford de tentar machucá-la usando mesmerismo. Durante a infância, uma lesão na coluna havia deixado Lucretia paralítica, e ela afirmava que estava sendo curada por meio da Ciência Cristã. Após sofrer duas recaídas, em 1877 e 1878, acusou Spofford de prejudicar sua saúde, utilizando seus poderes hipnóticos para o mal.

Spofford teria usado seus poderes para regredir a recuperação de Lucretia / Crédito: Wikimedia Commons

O julgamento começou em 14 de maio de 1978, e 21 membros da Ciência Cristã testemunharam contra Spofford, incluindo Mary Baker Eddy. Três dias depois, o advogado de Spofford, Amos Noyes, contestou o tribunal, argumentando que a corte não tinha jurisdição no caso.
O juiz Horace Gray afirmou que a acusação era vaga e arquivou o caso. A corte decidiu ainda que não estava claro como poderia impedir que Spofford usasse seus poderes, mesmo que ele fosse preso.
O caso ganhou muita atenção da mídia, principalmente dos jornais Boston Globe, Newburyport Herald e Salem Observer, e foi relacionado à caça as bruxas de Salem. O julgamento de Spofford ficou conhecido como uma das sessões de tribunal mais bizarras que já aconteceram nos Estados Unidos.

As 5 mulheres que foram acusadas e mortas por bruxaria no Brasil.

5 MULHERES QUE FORAM ACUSADAS — E MORTAS — POR BRUXARIA NO BRASIL

Conheça a história das bruxas brasileiras do século 17,18 e até 21
ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 30/10/2019


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1. Mima Renard
Mima Renard foi uma mulher franco-brasileira que morreu queimada em uma fogueira no ano de 1692, na vila de São Paulo. Acabou se tornando um dos mais conhecidos nomes durante o período de caça às bruxas no Brasil.
Renard deixou a França e chegou ao Brasil com seu marido René. Acredita-se que seu marido tenha sido assassinado por um homem que estava interessado em sua esposa, visto que ela era uma mulher muito bela. Viúva, ela teve que começar a se prostituir para viver.


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Crédito: Wikimedia Commons

Foi nesse momento que os boatos começaram. Outras mulheres passaram a dizer que Renard fazia feitiços para atrair os homens. Quando dois de seus clientes, casados, começaram uma briga que resultou na morte de um deles, a prostituta foi denunciada ao padre da paróquia local, acusada de bruxaria e feitiçaria. Ela morreu no ano de 1692, executada em uma fogueira pública em São Paulo. 
2. Isabel Pedrosa de Alvarenga
Isabel Pedrosa de Alvarenga também foi acusada de bruxaria. Um dos “familiares do Santo Ofício” fez uma denúncia contra a mulher, alegando que ela tinha um saco contendo umbigos de crianças, panos com sangue, bicos de pássaros e tufos de cabelo. Tudo isso seria para fazer rituais de magia.
Em 1750, ela foi condenada por esse crime. Acredita-se que, na verdade, Isabela tenha sido uma mulher muito pobre que vivia nas ruas pedindo comida e esmolas.
3. Ursulina de Jesus
Acusada de bruxaria por seu marido Sebastiano de Jesus, um homem com certa relevância em São Paulo, Ursulina foi julgada e condenada por heresia e bruxaria no ano de 1754. Neste ano, ela ainda foi assassinada em uma fogueira pública.
Sebastiano havia acusado a mulher de tê-lo deixado estéril com o uso de magia negra. O problema foi que a amante do homem na época, Cesária, ainda confirmou a acusação, testemunhando junto com ele no tribunal contra Ursulina.
4. Maria da Conceição
Maria da Conceição tinha incríveis conhecimentos sobre ervas medicinais. A mulher usava as técnicas naturais que dominava para ajudar pessoas doentes na região. O ano era 1798 e, como quase todas as mulheres ligadas a esse tipo de sabedoria, Maria terminou na fogueira.


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Fabiana Maria de Jesus Crédito: Wikimedia Commons

Também em São Paulo, um padre chamado Luís acusou-a de heresia e bruxaria, provavelmente pelo seu envolvimento com os doentes, o qual o religioso era radicalmente contra. Ela foi morta em uma execução pública no centro de São Paulo, próximo ao Convento de São Bento. 
5. Fabiana Maria de Jesus 
Diferentemente das outras mulheres dessa lista, esse caso aconteceu recentemente, já no século 21 — ou melhor, em 2014. Algumas fake news estavam circulando no bairro em que Fabiana morava, no Guarujá, litoral de São Paulo, alegando que ela fazia rituais de magia negra envolvendo crianças.
O boato de que ela sequestrava meninos e meninas para realizar a bruxaria fez com que ela fosse morta em um linchamento público. Cerca de 100 pessoas participaram do ato criminoso.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Por que as bruxas eram geralmente mulheres?

POR QUE AS BRUXAS ERAM GERALMENTE MULHERES?

Nos Estados Unidos do século 18, mulheres fora do padrão eram vistas como perigosas feiticeiras
JOSEANE PEREIRA PUBLICADO EM 28/10/2019
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Entre os séculos 17 e 18, a Nova Inglaterra fervilhava com acusações de bruxaria. Um grande exemplo é o caso de Salem, quando 19 pessoas foram executadas como bruxas em 1692.
Mas, por que o pacto com o diabo era feito basicamente por mulheres? Para responder essa questão, precisamos entender a sociedade estadunidense da época.
HOMENS PURITANOS
Segundo Bridget Marshall, da Universidade de Massachusetts Lowell, o ponto mais marcante sobre os julgamentos de bruxas era o gênero. “Em Salem, 14 das 19 pessoas consideradas culpadas e executadas por bruxaria eram mulheres. E, mesmo quando os homens enfrentavam alegações de bruxaria, era tipicamente porque estavam de alguma forma associados a mulheres acusadas”, afirma Marshall para a Live Science.
Na sociedade profundamente religiosa da época, as mulheres ocupavam uma posição de pouco destaque. Para os puritanos, seu único papel era criar filhos e administrar a vida doméstica baseada na submissão cristã. E, de acordo com a Bíblia, o gênero feminino era o mais propenso a ser atraído pelo demônio.
Julgamentos em Salem / Crédito: Wikimedia Commons

MULHERES FORA DO PADRÃO
Quando as mulheres saíam do papel estabelecido, acabavam se tornavam alvos. Ter poucos filhos, muitos filhos, dinheiro escasso ou grandes fortunas era sinal de que algo estava fora do lugar. Mary Webster, de Hadley, Massachusetts, é um exemplo da mulher pobre e deslocada socialmente: com 60 anos e vivendo de esmolas, ela foi acusada de bruxaria em 1683, sob alegação de que enfeitiçava o gado local. Na época, o Tribunal de Assistentes de Boston declarou-a inocente.
Outra das acusadas era o oposto de Webster: Mary Parsons era mãe de nove filhos e esposa de um homem muito rico. Mas, em 1674, foi acusada de bruxaria pelos vizinhos, que afirmavam que ela tinha um “discurso forçado e maneiras dominadoras”.
“Os julgamentos de bruxas não eram apenas acusações que hoje parecem infundadas. Eles também tratavam de um sistema de justiça que escalava as queixas locais em ofensas capitais e visava uma minoria subjugada”, afirma a pesquisadora Marshall.
Portanto, mais do que demonstrar um poder sobrenatural e fantástico, mulheres acusadas de bruxaria deixaram registrada a forma como a sociedade patriarcal e puritana do século 18 tratou aqueles que fugiam de um padrão de normalidade vigente.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Arqueólogos encontraram símbolos para afastar bruxas em pousada abandonada da Escócia.

ARQUEÓLOGOS ENCONTRAM SÍMBOLOS PARA AFASTAR BRUXAS EM POUSADA ABANDONADA DA ESCÓCIA

Datado do século 17, o Wilkhouse Inn foi um estabelecimento símbolo da modernidade no período em que prosperou
ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 17/10/2019
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- Wikimedia Commons
Um novo estudo publicado no Archaeology Reports Online revelou descobertas encontradas por arqueólogos do Clyne Heritage Society e da Universidade de Glasgow em uma antiga pousada em Glasgow, na Escócia. Os pesquisadores realizaram escavações no Wilkhouse Inn, um estabelecimento do século 17.
Uma cruz invertida foi avistada em uma das pedras do local. As autoridades alegam que o símbolo pode ter sido feito no intuito de impedir bruxas de entrarem pela lareira da estalagem.
Além disso, também foram descobertos restos de animais, fragmentos de vidro e moedas. O vidro remonta uma cena de “brindes sendo trocados após uma refeição ou sessão de bebida, com o barulho dos copos sendo jogados sobre uma mesa ecoando pela pousada”, dizem os arqueólogos no artigo.
Crédito: Guard Archaeology
O Wilkhouse Inn era considerado uma “declaração de modernidade e riqueza” durante seu período de prosperidade no século 17. Segundo declaração da Guard Archaeology, responsável pelas escavações, “as evidências revelam um lugar essencial para a economia local, em processo de desenvolvimento para a modernidade”.
No entanto, o local foi abandonado por volta de 1819 por conta de dificuldades financeiras., Alison Campsie, do jornal The Scotsman, escreveu que, em 1870, o edifício transformou-se em uma “ruína marcada no mapa”.

domingo, 6 de outubro de 2019

A Cuca não é nossa: a verdadeira origem da bruxa com cabeça de jacaré.

A CUCA NÃO É NOSSA: A VERDADEIRA ORIGEM DA BRUXA COM CABEÇA DE JACARÉ

Responsável pela popularidade da Cuca, que passou a ser conhecida nos quatro cantos do país através da série televisiva Sítio do Picapau Amarelo, o escritor Monteiro Lobato teria tomado um nome da boca de outro povo para batizar sua bruxa com aspecto reptiliano
M. R. TERCI PUBLICADO EM 06/10/2019
Cuca em cena do Sítio do Picapau Amarelo
Cuca em cena do Sítio do Picapau Amarelo - Reprodução
O escritor Monteiro Lobato foi o responsável pela popularidade da Cuca. Conquanto sua única aparição seja no livro O Saci (1921), onde a bruxa é descrita superficialmente como uma “velha com aparência de jacaré” que transforma Narizinho em uma pedra, a Cuca, no final dos anos 1970, ganhou imensa popularidade através da série televisiva Sítio do Picapau Amarelo.
O que pouca gente sabe é que Lobato tomou um nome da boca do povo português para batizar sua bruxa com aspecto reptiliano. Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, desvendar essa trama rocambolesca.
A literatura genuinamente brasileira escrita por Monteiro Lobato já foi criticada de diversas formas. Há quem diga que ele tenha eternizado a imagem da mulher negra na cozinha, a empregada subserviente que ama servir e cuidar dos filhos dos outros, enquanto é insultada pela única criança que poderia ser seu filho, o Saci. Um menino negro, mutilado. Pior. Em Reinações de Narizinho (1931), o narrador se refere à Tia Nastácia como negra de estimação.
Outros ainda falam de machismo por algumas passagens das personagens Narizinho e Emília. Na matéria em questão, entretanto, não haverá juízo de valor quanto a esse ou aquele ismo do velho Lobato.
Criador da Turma do Sítio do Picapau Amarelo, o paulista José Bento Monteiro Lobato foi advogado, fazendeiro, diplomata, editor de livros, escritor e tradutor. Escrevia para crianças como se estivesse batendo papo com o leitor. É por isso que os estudiosos dizem que sua obra é marcada pela oralidade e por uma linguagem coloquial.
Para o desenvolvimento da personagem Cuca, Lobato idealizou uma espécie de bicho-papão, papa-gente com base na Coca, o dragão que São Jorge derrotou segundo a tradição do folclore galego-português. Trazido para o Brasil durante a colonização, o nome, na pronúncia original, significava crânio ou cabeça e servia para representar a personagem de diversas formas, entre estas, um fantasma, uma bruxa velha ou um dragão comedor de crianças desobedientes, sempre à espreita nos telhados das casas para raptar aqueles que fazem alguma malcriação.
Crédito: Reprodução
A artista brasileira Tarsila do Amaral, produziu em 1924 uma obra baseada nessa mesma descrição da personagem, atualmente exposta no Museu de Grenoble, na França. Muito antes, Goya desenhou, em 1799, a gravura “Que viene el Coco” representando o ser como um fantasma ou uma bruxa assustadora.
Interessante notar que nesse contexto, Lobato, um sabido estudioso de outras culturas, tomou a palavra que serve de representação para várias coisas malignas do folclore português e batizou sua personagem. Ainda que essa não fosse a intenção do autor, com o advento da moderna dramaturgia brasileira e a adaptação de suas histórias para o cinema e televisão, a Cuca viria a se tornar um dos mitos modernos mais emblemáticos do folclore brasileiro.
Um mito, entretanto, de longa data. A mais antiga referência ao personagem está no livro 3 de Doações de Dom Afonso III, no ano de 1274: “E se porventura alguma Balea ou Baleia ou serea ou Coca ou Roaz ou Musaranha ou outro pescado grande que semelhe algun destes morrer em Sesimbra ou em Silves ou em outros lugares da Ordin de El Rey”.
Mas é ao Norte de Portugal, nas circunvizinhanças da Vila de Monção, que a tradição secular se repete todo ano. Nessa freguesia, conhecida como Terra da Coca, na festa do dia de Corpus Christi, um imenso dragão montado sobre uma estrutura de madeira coberta com lona saí às ruas e é empurrada contra um cavaleiro que representa São Jorge em seu cavalo. Os dois antagonistas então simulam um combate mortal onde tanto um como o outro pode vencer.
Segundo a tradição, se o cavaleiro ganha, o ano agrícola é fértil; quando a Coca vence, o ano é mau. Nessa ocasião, os habitantes locais chamam o dragão de Santa Coca.
Na Catalunha e em vários países de língua castelhana, o mesmo personagem é chamado de Cuca ou Cucafera e é representada por uma figura zoomórfica com o corpo de tartaruga, chifres ao longo da coluna e com garras e cabeça de dragão. Nesse sítio, a lenda conta que ela tinha que comer todas as noites ao jantar três gatos e três crianças. Na Galiza, também se celebra a Coca no dia de Corpus Christi e no dicionário da Real Academia Espanhola credita-se a origem do festival ao mito da Coca ou El Coco, assombração ou bruxa portuguesa que mete medo nos meninos travessos.
À semelhança com a tradição norte-americana do Jack O’Lantern – personagem do folclore europeu dos países de língua inglesa – a representação da Coca também se faz com uma abóbora iluminada internamente com velas e faz parte do património imaterial galego-português.

M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.

domingo, 18 de agosto de 2019

As bruxas do Brasil Colônia.

AS BRUXAS DO BRASIL COLÔNIA

Mesmo que não existisse um tribunal do Santo Ofício no Brasil, acusados de bruxarias enfrentavam penas severas
M. R. TERCI PUBLICADO EM 18/08/2019.
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- Crédito: Reprodução
No século 16, muitas vezes, bastava o cidadão curioso se envolver com determinadas práticas de curandeirismo, uso de raízes ancestrais, difusas no seio das populações, para ser associado a pactos com o demônio e acabar diante da Santa Inquisição.
Apesar da violência com que atuou em Portugal, no Brasil, à época da colônia, nunca foi instaurado um tribunal do Santo Ofício. Houve, contudo, ocasiões em que inquisidores vieram investigar comportamentos, inibir condutas e avaliar a dimensão dos domínios capirotescos em terra brazilis.
Mas inferno mesmo era ter esse míster na colônia. O Santo Ofício não era apreciado pelos habitantes locais e, muitas vezes, seus agentes eram hostilizados e expulsos das vilas.
Em Portugal a sentença mais comum imposta a quem fosse acusado de bruxaria era o exílio no Brasil, de forma que o país ficou repleto de benzedeiras e milagreiras. Assim, em uma terra de expatriados, onde os recursos médicos eram escassos, as correntes formadoras do pensamento religioso propiciaram tolerância maior às práticas de curandeiros, parteiras e xamanismos.
Crédito: Reprodução
Mesmo assim, as devassas inquisitoriais produziram enorme quantidade de processos bem documentados e condenações por práticas variadas, que iam de benzeduras à blasfêmia.
Ao todo, o Tribunal de Lisboa prendeu 776 homens e 298 mulheres, entre o fim do século 16 e meados do século 18. A maior parte foi aprisionada no Rio de Janeiro, enquanto os demais casos ocorreram fundamentalmente em Pernambuco e na Bahia.
Existiram entre esses casos, acusações específicas de bruxaria, como a de uma certa Custódia, moradora de São João del Rey, acusada de bruxaria por ter em seu poder um patuá feito de ossos, cabelos e espinhos de ouriço embebidos de sangue menstrual.
Antonia Maria, portuguesa degredada em Pernambuco, foi acusada de atentar contra a vida de seus vizinhos que estavam defecando dentes humanos, ervas, espinhas de peixe e cabelos. Houve também o curioso caso de Gaspar Coelho, julgado bruxo por sugerir a igreja que se fizesse hóstias de tapioca.

M.R. Terci é escritor e esteve na legião estrangeira, expoente no gênero fantasia sombria e horror, seus livros mesclam história e o grande cabedal do folclore nacional às tramas autênticas e repletas de criatividade.