Autoridades da Ucrânia detectaram um incêndio florestal na zona de exclusão em volta das ruínas da usina nuclear de Chernobyl. As chamas se espalharam por uma área de mais de 20 hectares. Segundo a agência de proteção civil do país, o fogo provocou um aumento de radiação na região.
A situação foi recebida com preocupação pelas autoridades. "As notícias são ruins, a radiação está acima do normal no centro do fogo", disse Yegor Firsov, que comanda o serviço de inspeção ecológica da Ucrânia. Cerca de 90 bombeiros, dois aviões carregados de água e um helicóptero foram enviados ao local para combater as chamas. Apesar de equipamentos mostrarem que os níveis de radiação estão 16 vezes acima do normal, o serviço de emergência afirmou que a população que vive próxima ao local não corre perigo. Segundo Firsov, em Kiev, capital ucraniana que fica a cerca de 100 quilômetros da zona de exclusão, não houve alterações no nível de radiação.
A polícia prendeu um homem de 27 anos que teria provocado o incêndio ao colocar fogo no mato e em lixo "por diversão". Segundo as autoridades, as chamas foram controladas após alguns dias. A zona de exclusão de 4200 quilômetros quadrados foi criada em volta de Chernobyl após o acidente que atingiu uma usina nuclear, em 1986. Cerca de 300 mil moradores foram permanentemente evacuados de suas casas.
Em 26 de abril de 1986, na antiga Ucrânia soviética, acontecia o infelizmente famoso acidente de Chernobyl. Um teste falho de segurança foi o que causou a explosão do quarto reator da central nuclear Vladímir Ilich Lenin.
Hoje, a paisagem que circunda a antiga usina nuclear é aterrorizante. A localidade de Pripyat, na qual chegaram a morar 50 mil pessoas, em sua grande maioria trabalhadoras da usina, é atualmente uma cidade-fantasma, com cenários pós-apocalípticos, entre o abandono e a vegetação crescida. O local permanecerá inabitável por milênios, já que os elementos radiativos provenientes da explosão levarão 24 mil anos para desaparecer.
O curioso é que, em virtude da estreia de uma série televisiva que relata o acidente de Chernobyl, o turismo a essa região aumentou enormemente. Segundo agências de viagem, as visitas à fábrica e à cidade de Pripyat cresceram cerca de 40%. O tour guiado custa 100 dólares por pessoa.
A temida Zona de Exclusão (2600 km2 ao redor do reator número 4, que explodiu) foi liberada para visitação desde 2002, mas a segurança sobre essas visitas ainda é fonte de dúvidas. As agências de turismo fornecem máscaras e medidores de radiação aos turistas. Além disso, é proibido encostar em qualquer coisa ou ser vivo, seja uma parede, um objeto abandonado, uma planta, um animal ou uma pedra do chão.
No passeio, os turistas saem de ônibus do centro de Kiev até Chernobyl, um caminho de cerca de 120 quilômetros. Há uma parada para visitar o monumento às vítimas e alguns povoados abandonados. Depois, os turistas se aproximam do reator número 4, que está coberto por uma cúpula de metal, e terminam o dia com uma visita a Pripyat.
Além das questões envolvendo a segurança, há o debate sobre a ética daqueles que visitam o local. Muitos turistas postam nas redes sociais fotos descontraídas e desafiando não só as regras de seguranças como o respeito em memória as vítimas das tragédia, seja tirando a roupa no local ou tocando as superfícies contaminadas por níveis mortais de radiação.
Veja como está Chernobyl, 30 anos após pior acidente nuclear da história.
26 abril 2016
Image copyrightJERZY WIERZBICKIImage captionPelo menos 116 mil pessoas foram evacuadas às pressas da cidade de Pripyat
Trinta anos depois da explosão de um de seus reatores, em 26 de abril de 1986, uma zona de exclusão ainda vigora ao redor da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia - então, uma das repúblicas da antiga União Soviética.
O fotógrafo polonês Jerzy Wierzbicki visitou o local, acompanhado por dois guias - ambos antigos empregados da usina.
A explosão causou um incêndio que durou 10 dias e lançou imensas quantidades de material radioativo no meio ambiente da região, bem como por extensas áreas da Europa, especialmente Ucrânia, Belarus e Rússia. A área em volta da usina foi evacuada, e a zona de exclusão, que se estende por um raio de 30 km, é patrulhada por policiais armados com fuzis AK-47.
Na verdade, a região nunca foi totalmente evacuada. As regras de exclusão variam de acordo com os níveis de radiação. A usina, fechada em 2000, não tem residentes oficiais. Trabalhadores envolvidos na desativação da usina e na descontaminação da área têm permissão para morar na cidade de Chernobyl, a uma distância de 15 km da usina, mas ainda assim há um limite para o número de semanas consecutivas que podem passar no local.
Um pouco mais longe, Ivan e Maria Semeniuk estão jantando em sua casa, no vilarejo de Parishev, a 20 km da usina. Quando houve o acidente, eles foram evacuados, e as autoridades disseram que poderiam voltar três dias depois.
Image copyrightJERZY WIERZBICKIImage captionIvan e Maria Semeniuk
Mas o casal desconfiou do prazo. Colocou alguns pertences em seu velho carro e dirigiu para outro vilarejo, Borodianka. Lá, foram lavados com água fria pela polícia militar e Ivan foi informado que passaria a trabalhar como operário na construção civil.
Dois anos mais tarde, ele e Maria voltaram a Parishev e lá ficaram desde então, apesar de estarem dentro da zona de exclusão. O vilarejo e a floresta em volta têm alguns outros moradores, mas a área é majoritariamente vazia.
Visitantes à zona de exclusão podem medir mudanças nos níveis de radiação com um dosímetro. Na casa de Ivan e Maria, 30 anos depois, a leitura é bem baixa, aquém do limite da leitura de exposição a radiação considerada perigosa.
A média dos níveis de radiação na zona de exclusão varia entre 0,9 microsieverts por hora e 2,5 microsieverts nas áreas mais próximas à usina. Em áreas onde grandes leituras são registradas, como os 214,2 microsieverts da foto acima, é perigoso mesmo permanecer no local por alguns minutos.
Image copyrightJERZY WIERZBICKIImage captionLeituras do dosímetro podem "disparar" em algumas áreas
O dosímetro registrou essa leitura perto da cidade de Pripyat, hoje abandonada, próximo a equipamento usado nas operações de emergência em 1986.
Entre os detritos estão a maioria dos veículos e máquinas que participaram dos esforços de contenção do acidente nuclear no Reator 4.
Pripyat é uma cidade fantasma, a 4 km da usina. Construída em 1970 especialmente para funcionários e suas famílias, ainda nos tempos em que a Ucrânia ainda era parte da extinta União Soviética. Tinha capacidade para 50 mil pessoas. Os residentes foram evacuados em uma operação maciça, 36 horas depois da explosão.
Image copyrightJERZY WIERZBICKIImage captionCidade ficou parada no tempo após evacuação
O teto da casamata do Reator 4 explodiu por volta de 01h30 da manhã em 26 de abril de 1986 e Pripyat permanece do jeito que estava. O consultório médico, no Centro Médico 26, completo com vidros de remédios e vacinas, está deserto.
No jardim de infância Pequeno Urso, carteiras e cadeiras estão amontoadas e brinquedos abandonados jazem cobertos de poeira.
Antes da evacuação, residentes não tinham sido informados do desastre nuclear. No total, 116 mil pessoas tiveram que deixar Pripyat às pressas.
No chão de um dos apartamentos há uma foto em preto e branco do ex-líder soviético Vladimir Lênin. É outro sinal de um mundo que desapareceu décadas atrás.
Image copyrightJERZY WIERZBICKIImage captionRetrato de Lênin no chão de um apartamento em Pripyat
Pripyat era uma típica cidade soviética, repleta de edifícios de concreto uniformes, pouca vegetação e estradas ruins. A foto acima é a visão do 15º andar do mais alto conjunto habitacional.
Sem pessoas, a floresta vizinha gradativamente invadiu as ruas e o espaço entre os edifícios. Os únicos moradores agora são animais selvagens, cujos números cresceram dramaticamente. Observadores falam do retorno de espécies que eram consideradas extintas.
Image copyrightJERZY WIERZBICKIImage captionFloresta invadiu ruas de cidade fantasma
Uma grande instalação militar foi construída na região, como parte dos esforços de proteção da usina. Seu símbolo é a antena de radar Duga-3. Mas a base foi fechada três anos após o acidente.
Image copyrightJERZY WIERZBICKIImage captionBase militar foi desativada
Coletar objetos na zona de exclusão é expressamente proibido, em especial as máscaras de gás usadas pelos trabalhadores conhecidos como liquidatários - que trabalharam nas operações de resgate. Estima-se que 600 mil pessoas foram recrutadas para ajudar a apagar o incêndio e limpar a área.
Image copyrightJERZY WIERZBICKIImage captionApanhar objetos é expressamente proibido
De acordo com um relatório da Organização Mundial de Saúde publicado em 2005, 4 mil pessoas morreram em decorrência do acidente. O governo ucraniano estima que apenas 5% dos membros de equipes de resgate e limpeza ainda vivos estão saudáveis.
Pessoas trabalhando na usina precisam ser checadas regularmente em estações de medição de radiação. E não têm permissão para por coisa alguma no chão.
O Reator Quatro encontra-se coberto por um "sarcófago" feito de concreto e aço, que se encontra em estado ruim. Um consórcio internacional espera substituí-lo no ano que vem.
Quando o novo domo, orçado em US$ 2,2 bilhões, for instalado, terão início os trabalhos de remoção da antiga estrutura e de entulho.