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domingo, 22 de março de 2020

Sobrevivente do Holocausto foi a primeira pessoa a morrer de coronavírus em Israel.


PANDEMIA
A primeira pessoa a morrer de COVID-19 em Israel foi um sobrevivente do Holocausto. Aryeh Even, que morava no país desde 1949, após ter deixado a Hungria, tinha 88 anos. O idoso vivia em uma casa de repouso em Jerusalém.
De acordo com a imprensa israelense, diversos moradores e funcionários da casa de repouso se infectaram com a doença. Acredita-se que um assistente social contraiu o COVID-19 de um francês durante uma cerimônia de casamento. A família de Even lamentou não poder estar junto dele em seus últimos dias. Os parentes foram orientados a ficar isolados como precaução.
Seu corpo foi levado para o cemitério por uma equipe em trajes anti contaminação biológica. O funeral foi limitado a 20 pessoas, mantendo pelo menos um metro e meio de distância umas das outras. A enfermeira que cuidou da Even nos seus últimos dias pediu desculpas nas mídias sociais por seu corpo não ter sido lavado de forma ritual conforme os costumes judaicos, em decorrência dos atuais protocolos anti-corona do governo de Israel.
"Lamentamos que ele tenha passado os últimos dias e momentos com seus familiares  impedidos de ficar ao seu lado", disse a família de Even em comunicado, segundo o Times de Israel. 
Even era funcionário do governo israelense. Ele e sua esposa, Yona, participaram de várias missões diplomáticas pelo mundo a serviço do Ministério das Relações Exteriores de Israel. "Ele era um homem amado e querido, teve uma vida plena, foi dedicado à sua família e mostrou força até em seus últimos momentos", disse seu filho. 
Segundo o Ministério da Saúde de Israel, Even sofria de outras condições pré-existentes. Ele ficou internado durante uma semana, mas não resistiu às complicações da doença. Arie Even deixou quatro filhos, 18 netos e um bisneto.

Fontes: Haaretz e NPR
Imagem: Twitter/Reprodução

segunda-feira, 9 de março de 2020

Encontrado álbum de fotos feito com pele de prisioneiro de campo de extermínio nazista.


HOLOCAUSTO
Um álbum de fotos adquirido por um colecionador em um antiquário na Polônia tem uma origem trágica. O comprador notou que sua capa cheirava mal, além de conter uma tatuagem e cabelo humano. O homem acabou doando o objeto ao Museu de Auschwitz-Birkenau, que comprovou sua natureza macabra: análises apontam que a capa foi confeccionada com pele humana.
Os pesquisadores do museu acreditam que a capa tenha sido feita com a pele de um prisioneiro executado no campo de concentração de Buchenwald. O local foi palco de assassinatos em massa e de experimentos com humanos. Originalmente o álbum pertencia a uma família da Baviera que gerenciava uma pousada em uma cidade turística durante a Segunda Guerra Mundial. Especula-se que o objeto, que continha mais de 100 fotos de paisagens, tenha sido oferecido como um presente por alguém que trabalhou no campo de Buchenwald.
De acordo com Elżbieta Cajzer, responsável pelas coleções do Museu de Auschwitz-Birkenau, o uso da pele humana como matéria-prima está diretamente associado ao casal Karl e Ilse Koch, comandante e supervisora do campo de concentração de Buchenwald. A dupla se tornou famosa por sua brutalidade com os prisioneiros. Ilse ficou conhecida por chicoteá-los enquanto cavalgava. Além disso, os Koch também colecionavam peles tatuadas.
O casal Koch foi preso em 1943, acusado de peculato, ameaça a oficiais e outros crimes. Karl foi executado pela SS em 1945, enquanto Ilse foi absolvida. Após o fim da guerra, ela foi presa por autoridades dos Estados Unidos e condenada à prisão perpétua. Ilse se suicidou na prisão em 1967.
Sobreviventes de Buchenwald disseram que no local a pele humana era usada para os mais diversos fins, como a produção de carteiras de dinheiro e encadernação de livros. O museu disse que o álbum é uma prova dos crimes cometidos contra a humanidade. Um outro caderno cuja capa também foi produzida com pele humana pertence ao acervo da instituição. Cerca de seis milhões de judeus morreram nas mãos de nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, fazendo do Holocausto um dos episódios mais trágicos da história da humanidade. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Josef Mengele: o anjo da morte de Auschwitz.

JOSEF MENGELE: O ANJO DA MORTE DE AUSCHWITZ

A trajetória do notório e terrível médico do campo de concentração nazista. Encontrado morto em São Paulo
EDUARDO SZKLARZ PUBLICADO EM 04/09/2019.
O anjo da morte
O anjo da morte - Reprodução
Como exigia a lei no Uruguai, em 1958, um singelo proclama de casamento foi publicado no jornal do povoado de Nova Helvécia, a 120 km de Montevidéu. O oficial Pedro Izacelaya anunciou o nome dos noivos e recomendava: quem soubesse de algum impedimento contra a união deveria denunciá-lo durante os oito dias de divulgação do registro, a contar de 17 de julho.
Casariam-se Marta Maria Will e Josef Mengele. Ela, viúva e dona de casa. Ele, divorciado, médico, nazista e torturador sádico, responsável direto pela morte de ao menos 3 mil pessoas em experimentos bizarros no campo de extermínio de Auschwitz.
Ninguém apresentou obstáculos. E Mengele retomou a rotina tranquila de empresário bem-sucedido em Buenos Aires. Até que a Alemanha pedisse a sua extradição, em 1959, o homem que mereceu ser chamado de Anjo da Morte sobreviveu nas barbas de autoridades alemãs, argentinas, uruguaias e paraguaias incólume. E feliz.

Günzburg é um vilarejo ao sul da Alemanha. Parece pintado a mão. Ali, a família Mengele é reverenciada. Em 1907, Karl Mengele comprou uma fábrica de máquinas agrícolas e faria dela uma das maiores da Europa. Sob novos donos, existe ainda hoje, batizada Mengele Agrartechnik. Boa parte dos moradores está empregada lá.

Há 100 anos, em 16 de março, Karl e a esposa, Walburga, tiveram o primeiro de três filhos, Josef. "Karl esperava que o primogênito assumisse os negócios e perpetuasse a dinastia", afirmam Gerald Posner e John Ware em Mengele: The Complete Story (sem edição no Brasil). Mas o ambicioso Josef queria construir a própria fama. "Dizia que todos ainda veriam seu nome na enciclopédia."
Josef Mengele / Crédito: Reprodução
O rapaz estudou medicina e antropologia nas universidades de Munique e Frankfurt. Em 1937, já formado, descolou uma vaga no Instituto para Hereditariedade, Biologia e Pureza Racial da Universidade de Frankfurt e filiou-se ao Partido Nazista. No ano seguinte, ingressou na SS, que administrava os campos de extermínio. Casou-se pouco depois com Irene Schoenbein, mãe de seu único filho, Rolf. Entre 1939 e 1942, Mengele lutou no front oriental e recebeu cinco medalhas por bravura.

O emprego que, enfim, o colocaria na enciclopédia veio em 1943: um posto de médico em Birkenau, parte do complexo de Auschwitz, na Polônia. O sempre elegante doutor ganhou o sinal verde para realizar atrocidades em nome da ciência. Era parte de sua função selecionar os presos recém-chegados. Em segundos, analisava as feições de cada um e mandava-os às fileiras da direita ou da esquerda: trabalho escravo ou a morte. Assim, teria determinado a execução de 200 mil a 400 mil pessoas.
Um terceiro destino era reservado a certos prisioneiros, sobretudo os gêmeos: servir de cobaia em testes cruéis. O jornalista Ben Abraham, 86 anos, lembra-se muito bem daquele homem de macabra imponência. "Mengele liderava a junta médica que fez a seleção do meu grupo. Era o Anjo da Morte mesmo. Ele decidia com um levantar de polegar quem iria para os fornos crematórios e quem seria usado nas experiências. Nunca vou esquecer." Abraham conseguiu escapar e mora no Brasil. Perdeu a mãe ali. Outros sobreviventes recordam como ele, à primeira vista, muito bem educado e galante, desarmava suas vítimas.

Morte antecipada.
Não há consenso sobre onde Mengele viveu logo após o fim da Segunda Guerra. O Exército Vermelho invadiu Auschwitz e libertou 7,6 mil prisioneiros em 27 de janeiro de 1945. Segundo Posner e Ware, pouco antes, o médico foi transferido ao campo de Gross Rosen. Depois, escondeu-se em uma floresta.
Chegou a ser capturado pelos aliados, mas, sem ser reconhecido, acabou liberado em agosto de 1945. Embora o nome Mengele constasse na lista de nazistas procurados desde maio, ele foi dado como morto pelos aliados. Passou três anos numa fazenda em Rosenhein, na Bavária, com falsa identidade. Seu medo maior provavelmente era dos soviéticos, que matavam nazistas sem muita burocracia.
Em 1948, voltou para Günzburg, decidido a fugir. Outros pesquisadores acreditam que o médico simplesmente abandonou Auschwitz e, à custa de propina paga pela família, encontrou abrigo na cidade natal.
Vítimas de Mengele | Crédito: Wikimedia Commons 
Numa rota via Áustria e Itália, o carrasco escapou da Europa, em 1949. Usava um passaporte da Cruz Vermelha em nome de Helmut Gregor. Ele desembarcou em Montevidéu e seguiu para Buenos Aires. Em junho, foi acolhido pelo governo de Juan Domingo Perón, que mantinha, sabidamente, fortes laços com os seguidores de Adolf Hitler.

Nazistas como Adolf Eichmann e Erich Priebke seguiram rotas semelhantes, mas Mengele tinha um diferencial. "Ele sempre viveu como um milionário", diz o historiador argentino Carlos De Nápoli, que investiga a trajetória do carrasco há 30 anos. O médico se amparava na fortuna do pai - multiplicada durante o nazismo graças à mecanização da agricultura e depois na reconstrução do país.
Para ajudá-lo, Karl entrou em contato com Jorge Antonio, braço direito de Perón e homem de confiança dos alemães no rio da Prata. Argentino de origem síria, El Turco enriqueceu nos anos 1950 usando seus vínculos com o poder, a ponto de se tornar presidente da filial argentina da Mercedes-Benz e sócio de dezenas de outras empresas. A Mercedes ajudou vários nazistas, a exemplo de Eichmann.
Mengele, porém, não precisou de emprego. Criou suas próprias empresas com o dinheiro paterno. Os investimentos foram feitos por meio do empresário alemão radicado na Argentina Roberto Mertig, dono da fábrica de fogões Orbis. Uma das firmas que ele montou foi a Tameba (sigla em espanhol de Oficinas Metalúrgicas de Buenos Aires).
"Ele fabricava hastes de torneiras e as vendia para Eichmann, que, nessa época, trabalhava na indústria de sanitários FV, do alemão Franz Viegener", diz De Nápoli. Ele calcula que, enquanto viveu na América do Sul, o doutor alcançou o patrimônio de cerca de 10 milhões de dólares. "É difícil precisar porque ele usava muitos testas de ferro."

O carrasco levava uma vida social regular na capital do tango (onde está, curiosamente, a maior comunidade judia da América Latina). A ponto de "fazer parte de um grupo que jogava bridge no qual havia judeus", relata Gerald Astor em Mengele: O Último Nazista. "Ele se sentia tranquilo sabendo que havia uma rede de proteção para si no Estado. E ela continuou mesmo após o golpe contra Perón, em 1955", afirma Sergio Widder, diretor do Centro Simon Wiesenthal.

Identidade revelada.
Em 1956, ele abriu um novo negócio, o laboratório Fadrofarm (Fábrica de Drogas Farmacêuticas). E voltou a ser Josef Mengele. Na embaixada alemã, deu o nome e endereço e pediu uma cópia da certidão de nascimento. Com ela, obteve uma cédula de identidade argentina.

O nazista saiu do armário (teve até o nome na lista telefônica) para garantir sua participação na herança da família. A essa altura, seu pai estava à beira da morte e ele precisava recuperar o nome. "Se continuasse como Helmut Gregor, não receberia nada. Assim, o segundo passo foi retomar a identidade", diz De Nápoli.
O seguinte seria se casar com a viúva do irmão mais novo, Karl Jr. Sim, Marta Maria era sua cunhada. Chegara à Argentina com o filho, Karl Heinz, em 1956. Como divorciados não podiam se casar no país, Mengele foi com ela ao Uruguai. Com as bênçãos de Karl pai, ambos garantiram que os bens da família não se dispersassem.

O que levou Mengele a se sentir seguro o bastante para viver às claras em Buenos Aires? Além da rede de proteção, pesava o fato de que ele era pouco conhecido. Seu nome não figurou nos julgamentos de 1946, o Tribunal de Nuremberg e o Julgamento dos Médicos, que condenou sete doutores nazistas à morte. A Alemanha Ocidental foi criada em 1949 e começou a buscar Mengele em meados dos anos 1950 - mas lenta e atabalhoadamente.

As autoridades alemãs sabiam do paradeiro do médico desde 1954, quando sua primeira mulher, Irene Schoenbein, se separou dele. Ela se recusou a seguir com ele para a Argentina e formalizou o divórcio. Fiel ao estereótipo de ex-mulher, entregou seu esconderijo. Também o denunciou à Universidade de Frankfurt, que lhe cassou o diploma de médico.
"Os documentos provam que o governo alemão sabia exatamente onde Mengele vivia na Argentina: rua Sarmiento, 1875, Buenos Aires", diz De Nápoli. Em 1959, a Alemanha finalmente enviou um pedido de extradição ao país, que só o tornou público em 1960. A partir daí, foi como se os oficiais descobrissem o carrasco na capital.
"Houve muito encobrimento, já que a embaixada alemã interveio em todo tipo de certificado, até o último momento. E nada disse aos tribunais que o buscavam", afirma o historiador. "Com a Polícia Federal argentina, aconteceu a mesma coisa."

A imprensa internacional também só descobriu o Anjo da Morte (ou Doutor Morte, Açougueiro e Anjo Exterminador, como já foi chamado) nessa época, após Eichmann ser levado da Argentina pelo Mossad, o serviço secreto de Israel, e Mengele ter escapado por pouco. Segundo o ex-agente Rafi Eitan, o governo israelense tomou a decisão de sequestrar um criminoso nazista e levá-lo à Justiça em 1958.
Havia quatro possíveis alvos: Mengele, Eichmann, Heinrich Müller (ex-chefe da Gestapo) e Martin Bormann, braço direito de Hitler. O primeiro a ser encontrado foi Eichmann, por isso, o Mossad decidiu se concentrar nele. A análise das datas, contudo, sugere que não foi exatamente o medo dos israelenses que o motivou a sair da Argentina. Mengele deixou o país em 1959, antes da captura de Eichmann, em maio de 1960.
Crianças sobreviventes em Auschwitz | Crédito: Wikimedia Commons
Para onde foi Mengele após deixar a Argentina? A pergunta ainda intriga os pesquisadores. De Nápoli afirma que ele voltou para Günzburg - cita documentos da polícia argentina sobre a autorização que ele solicitou para viajar à Alemanha em 12 de fevereiro de 1959, meses antes da chegada do pedido de extradição. Os papéis revelam que Marta saiu de Buenos Aires em 1960, com o filho, provavelmente depois de se desfazer dos negócios do marido no país. Ela tomou um voo da Swissair de Montevidéu para Zurique e, de lá, poderia ter se reencontrado com Mengele na Bavária.

Conexão Paraguai.
Outros pesquisadores, como o argentino Jorge Camarasa, dizem que Mengele viveu no Paraguai para depois se estabelecer no Brasil. Ele teria se instalado em 1960 na cidade de Hohenau, de colonização alemã, com passaporte em que se lia o nome José Mengele. Desde o ano anterior, obtivera a cidadania do governo paraguaio. Vários habitantes de Hohenau relataram a Camarasa ter boas recordações do nazista.
"Tive o prazer de ser seu vizinho durante anos", disse o ex-prefeito da cidade, Bonibaldo Junghanns. "Ele se fazia chamar doutor Fischer. Era um homem nobre, que cantava em alemão canções de sua terra." Em entrevista no fim dos anos 1970, o famoso caçador de nazistas Simon Wiesenthal afirmou que ele costumava jogar bocha no Clube Alemão de Assunção, dirigir um Mercedes 280 e navegar um iate pelo rio Paraná. Não há provas disso.
A história oficial diz que Mengele se mudou para o Brasil no fim dos anos 1960. Conseguiu abrigo com Geza e Gitta Stammer, imigrantes húngaros que tinham uma fazenda de café em Nova Europa (SP). Em depoimento à Polícia Federal, em 1985, eles confirmaram que deram guarida ao médico. Na versão de Gitta, Mengele se apresentou como um viajante sem destino certo, sob o nome Peter Hochbichler, que pedia abrigo por alguns dias. Acabaram dando-lhe um emprego.

"Essa história não bate. Mengele calculou muito bem cada mudança e não viria para o Brasil sem que tudo estivesse arranjado", diz Ben Abraham, autor de dois livros sobre o médico. No começo dos anos 1970, Mengele teria se aproximado de outro casal: o ex-cabo do Exército nazista Wolfram Bossert e Liselotte, professora do Colégio Humboldt.
Os austríacos moravam no bairro do Brooklin, na capital paulista, onde Mengele teria estado várias vezes. Em 1974, a fazenda dos Stammer foi vendida e ele se mudou para uma casa de dois quartos, duas salas, cozinha e banheiro na estrada do Alvarenga, 5773, perto da represa Billings. Ali, era conhecido pelos empregados como Pedro. "Ele me pagava um bom salário e chegou a me fazer empréstimos algumas vezes", disse Elza Gulpian de Oliveira, que foi sua empregada doméstica, à revista VEJA em 1985.
Vivia recluso, ouvia muita música e costumava servir-se de vinho nas refeições. Segundo ela, Pedro falava com carinho de um jovem sobrinho que morava na Alemanha. Em 1977, o rapaz hospedou-se com o tio por duas semanas. Era seu filho Rolf, segundo ele confirmaria à PF.

Todo esse relato deixa margem para dúvidas. Em 1967, por exemplo, o Brasil extraditou o nazista Franz Paul Stangl para a Alemanha. Por que Mengele decidiu se mudar para cá depois disso? Ex-chefe dos campos de Sobibor e Treblinka, Stangl foi condenado à prisão perpétua.
"Mengele tinha aqui uma rede de contatos segura o suficiente para não se intimidar", diz a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da USP. "Tinha um lugar discreto onde viver e não trabalhava, como Stangl, que se expôs demais." É possível também que o carrasco tenha chegado antes ao Brasil ou, ao menos, tenha estado aqui várias vezes para preparar um novo esconderijo.
Rafi Eitan alega que o Mossad o localizou em 1962. "Descobrimos seu endereço: uma fazenda perto de São Paulo. Estive lá com minha equipe e um grupo de habitantes locais que o conheciam", disse Eitan. "Não quisemos pegá-lo porque não estávamos suficientemente preparados. E logo depois houve uma troca de governo em Israel. A nova administração decidiu não capturá-lo. Depois disso, ele desapareceu."

Verdade ou conspiração?
Em maio de 1985, a polícia alemã fez uma busca na casa de Hans Sedlmeier, que havia sido procurador da empresa de máquinas dos Mengeles, em Günzburg, e encontrou cartas escritas por Josef e remetidas no Brasil pelos Bosserts. O delegado Romeu Tuma, superintendente da PF, foi informado e interrogou o casal.
Eles disseram que encobriram Mengele entre 1970 e 1979. Em fevereiro daquele ano, já com a saúde debilitada, o médico foi a convite deles passear em Bertioga, no litoral paulista... E teria se afogado, talvez, vítima de um derrame. No boletim de ocorrência, o morto é o austríaco Wolfgang Gerhard. Na verdade, esse era o nome do sujeito que apresentou Mengele aos Bosserts. Ele teria usado a identidade do protetor por vários anos. Gerhard morreu em 1978 e está enterrado na Áustria.

A tumba de Mengele, revelaram os Bosserts, estava no cemitério do Rosário, em Embu, Grande São Paulo. Uma equipe de legistas exumou os restos do corpo, em junho de 1985, e concluiu que eram do nazista. Em 1992, um exame de DNA confirmou a descoberta. A análise utilizou uma amostra de sangue de Rolf, filho do carrasco, e foi conduzida pelo geneticista britânico Alec John Jeffreys. Sete anos antes, Rolf dissera não ter percebido no pai, na visita a São Paulo, nenhum sentimento de culpa ou remorso. "Ele jurou que nunca, pessoalmente, machucou ninguém."

Marco Antonio Veronezzi, ex-diretor regional da PF, recorda a expectativa mundial que havia em torno do cadáver achado em Embu. "No início, estranhamos o fato de conhecidos de Mengele aparecerem, anos após a morte, para falar da ossada. Mas os depoimentos eram coerentes e a perícia foi conclusiva", diz. "Com o exame de DNA, não restou dúvida." Hoje, a maioria dos pesquisadores considera o enigma resolvido. "Os estudos sobre Mengele foram sérios", diz o jornalista Uki Goñi, autor de A Verdadeira Odessa. Sérgio Widder, do Centro Wiesenthal, confia no resultado, assim como Rafi Eitan declarou à Folha de S.Paulo.

Ben Abraham sempre duvidou da ossada. Aponta há anos uma série de incongruências, inclusive entre o corpo e a ficha médica do nazista na SS. Para ele, o médico "fabricou" um sósia. "Rolf demorou anos para conceder uma amostra de seu DNA. Tenho informações de que Mengele morreu em 1992, nos Estados Unidos, mas não sei de detalhes."

Para Carlos De Nápoli, a farsa dos restos no Brasil foi criada, mais uma vez, para fins econômicos. Ele ainda procura as pegadas do doutor e não arrisca cravar onde e quando ele teria morrido: "A Fadrofarm não foi vendida e seus testas de ferro, Ernest Timmerman e Heinz Truppel, iam até a Alemanha prestar contas. Por isso, entre outros motivos, acredito que ele passou seus últimos dias perto de Günzburg."
Rolf, diz o historiador, admitiu em 1985 que a ossada era do pai, já pensando na partilha dos bens do clã. Gerald Astor sustenta que o médico abriu mão de sua parte na herança do patriarca Karl Mengele, mas, de acordo com De Nápoli, trata-se de uma suposição que não se sustenta nos documentos identificados até agora. A empresa de máquinas agrícolas da família foi vendida em 1997.

É fato, de qualquer maneira, que o criminoso, agora centenário, não pagou por suas atrocidades. Seus ossos se encontram em poder do Instituto Médico Legal de São Paulo, em local não revelado para evitar peregrinações de neonazistas. A família nunca requisitou o corpo.
Ilustração: Murilo Maciel
A intenção final dos experimentos de Mengele e do ideólogo Walther Darré.
De todo o material publicado sobre o criminoso nazista Josef Mengele - a partir de 1960, quando ele se tornou conhecido do grande público, após a chegada à Argentina do pedido de sua extradição feito pela República Federal da Alemanha -, destaca-se o enorme valor documental da autobiografia de Miklos Nyiszli, prisioneiro judeu que foi assistente de Mengele em Auschwitz.
Médico, o autor realizava autópsias das vítimas mortas em vários experimentos e enviava os resultados a um endereço: "Berlin-Dahlem, Institut für Rassenbiologische und Antropologische Forschungen (...) Um dos institutos médicos mais famosos do mundo".
Em outro trecho, diz: "Os gêmeos morreram na mesma hora. Agora jazem aqui, sobre minha mesa, para dissecação dos cadáveres. Graças à sua morte, agora será possível analisá-los por meio de uma autópsia e descobrir o segredo da multiplicação humana. O grande objetivo dessas investigações é, de fato, a multiplicação da raça superior. Trata-se, exatamente, de colocar uma mãe alemã em condições de criar sempre gêmeos no futuro. Este plano é uma loucura! Foi promovido pelos loucos teóricos da raça do Terceiro Reich.
E, para as pesquisas necessárias, encarregaram o doutor Mengele (...) Esse criminoso é capaz de passar horas inteiras comigo entre microscópios e fármacos, ou de estar em frente à mesa de anatomia, com o jaleco sujo de sangue, observando e tocando com as mãos, também sujas de sangue. Trata-se da multiplicação da raça germânica; o objetivo final é que haja alemães suficientes para repovoar os territórios chamados de Lebensraum, ou seja, espaço vital do Terceiro Reich, depois de deixá-los limpos da presença de checos, húngaros, poloneses, holandeses e outras populações".
Nyiszli conseguiu obter, com os resultados das autópsias que podia analisar, uma aproximação bastante certeira dos planos finais dos nazistas. No entanto, como muita gente, nunca conseguiu compreendê-los em sua real extensão.
Isso se deve a que, por motivos políticos, o verdadeiro ideólogo racial do nazismo, o argentino Ricardo Walther Darré, passou como um fantasma pelas páginas da História. Darré foi a primeira pessoa a levar à prática as ideias raciais nazistas, impondo aos integrantes das SS, desde 1929, todo tipo de restrição para sua admissão. Eles não podiam ter sangue judeu nem outros sangues estranhos desde 1750 até a data de apresentação do pedido de admissão.
Em seguida, Darré agregou requisitos similares para mulheres que quisessem se casar com um membro das SS. Também fundou e dirigiu a obra-prima sobre questões raciais dos nazistas: a RuSHA, sigla em alemão de Escritório Central de Raça e Reassentamento. Mais tarde, acrescentou outro requisito, a Higiene Racial. Ou seja: os futuros membros das SS não deveriam ter, entre seus ancestrais, pessoas com antecedentes de qualquer doença hereditária. O plano nazista visava estudar todos os meios e métodos para reproduzir a chamada raça ariana o mais rápido possível.
A meta do ideólogo Darré era simples: que cada mãe alemã tivesse partos múltiplos. Nesse contexto, se explicam as experiências presenciadas pelo doutor Nyiszli. Outros experimentos buscavam prolongar a vida fértil das mulheres por meio de um coquetel de hormônios, entre eles o chamado hormônio do crescimento, utilizado também na tentativa de obter partos múltiplos.
Logo os nazistas notaram que mulheres maduras ficavam visivelmente rejuvenescidas com os hormônios e uma dieta estrita acompanhada de exercícios físicos. Trato desse tema no livro A Fórmula da Eterna Juventude - E Outros Experimentos Nazistas, editado na Argentina e, em breve, no Brasil.
No entanto, Darré pensou onde viveriam tantos loirinhos de olhos azuis? A resposta é simples: nas terras que os nazistas ocupariam. E o que fariam com os impuros, especialmente os judeus? Simplesmente, os exterminariam nas câmaras de gás. É por isso que a sangrenta RuSHA continha a palavra Reassentamento em seu nome. Devido ao delírio de um grupo de assassinos, milhões de pessoas morreram em experiências inenarráveis e criminosas.

*Carlos De Nápoli é assessor histórico do The History Channel e dos principais canais argentinos. É autor de várias obras sobre o nazismo. No Brasil, publicou Ultramar Sul (2010).

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Essa mulher salvou mais de 2.500 crianças judias dos horrores do holocausto.

ESSA MULHER SALVOU MAIS DE 2.500 CRIANÇAS JUDIAS DOS HORRORES DO HOLOCAUSTO

Trabalhando como assistente social, Irena Sendler tirou milhares de crianças do Gueto de Varsóvia, debaixo do nariz dos nazistas e quase foi fuzilada pelo Füher
VINÍCIUS BUONO PUBLICADO EM 16/08/2019
Irena Sendler em três diferentes estágios de sua vida
Irena Sendler em três diferentes estágios de sua vida - Crédito: Johnny Sirlande
Irena Sendler foi uma ativista polonesa na época da Segunda Guerra Mundial, responsável por salvar a vida de mais de 2.500 crianças judias dos horrores do Holocausto.
À época da ocupação alemã, Irena era assistente social na Polônia. Trabalhando com enfermeiras, fazia refeições para os mais pobres e necessitados. Em meados da década de 1930, já tinha sido disciplinada por ser contra as discriminações acadêmicas contra os judeus e por ter influências comunistas. Uma de suas maiores preocupações eram os filhos nascidos fora de casamento, bem como suas mães, já que ambos eram marginalizados. 
Com a ocupação nazista, ela manteve seu emprego, conseguindo autorização dos alemães para frequentar o Gueto de Varsóvia, a fim de verificar se os habitantes não estavam com tifo (os nazistas temiam uma epidemia que atingisse, também, a eles). 
Ela se juntou à resistência polonesa, a maior dentre os países ocupados na guerra e responsável pelo resgate do maior número de judeus no conflito, mais do que qualquer outra organização ou nação aliada. Filiou-se à Zegota, um conselho oficial polonês para o resgate de judeus, tornando-se líder da divisão que cuidava das crianças, sob o codinome Jolanta.
Quando transitava pelos Guetos, Irena sempre usava a braçadeira com a Estrela de David para mostrar solidariedade aos judeus e não chamar a atenção dos alemães. Ela, secretamente, tirava as crianças dos guetos e fornecia identidades falsificadas.
Levava-as, então, para casas de famílias dispostas a adotá-las, orfanatos e até conventos católicos. Tentava, também, manter listas das identidades dos infantes que resgatava, a fim de devolvê-los para suas famílias caso essas sobrevivessem à guerra.
Em 1943, a Gestapo, suspeitando das atividades de Irena, prendeu-a. Mesmo sob tortura, não revelou nada do que tinha feito, nem um nome sequer de alguém que tinha salvo. Ainda assim, foi condenada à morte por fuzilamento. 
No dia de sua execução, um dos guardas alegou que ainda precisava fazer-lhe algumas perguntas. Quando se afastaram, ele mandou que ela corresse para longe dali, tendo sido subornado pela Zegota. Ela foi dada como morta pelos nazistas e, sob nova identidade, continuou ajudando as crianças como podia.
Quando a guerra terminou, Irena continuou seu trabalho como ativista, além de ter construído uma carreira no governo da agora República Popular da Polônia, dominada pelos soviéticos. Logo obteve um certo reconhecimento pelas suas ações no conflito, com sua foto saindo em jornais e revistas.
Isso levou muitas pessoas a ligarem para ela, dizendo: “eu me lembro do seu rosto. Você me tirou do Gueto. Você salvou a minha vida”. Anteriormente, as crianças só a tinham conhecido por seu codinome.
Foi amplamente condecorada tanto na Polônia quanto por diferentes países e organizações, inclusive pelo Yad Vashem, o memorial israelense que lembra as vítimas do Holocausto. 
Irena Sendler morreu aos 98 anos em 2008, mesmo ano em que foi indicada pela segunda vez ao Nobel da Paz. Sobre seus atos, a ativista afirmava, com nobreza: “Toda criança salva com a minha ajuda é a justificativa da minha existência na Terra, não um título para glorificar”.

domingo, 4 de agosto de 2019

Genocídio Armênio: as atrocidades do holocausto turco.

GENOCÍDIO ARMÊNIO: AS ATROCIDADES DO HOLOCAUSTO TURCO

Dois em cada três pereceram no extermínio nunca reconhecido pela Turquia
LEONARDO MOURÃO E ALEXANDRE RODRIGUES PUBLICADO EM 04/08/2019
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- Esqueletos dos mortos no genocídio / Crédito: Reprodução
Quem digitar “genocídio armênio” em um site de buscas na internet deve se preparar, antes de apertar a tecla enter, para encontrar imagens de uma violência e crueldade grotescas.
Os sites irão mostrar um inferno de horrores: pessoas mutiladas, crianças que são só pele e ossos agonizando, cabeças decapitadas e espetadas em pedaços de pau, filas intermináveis de mulheres e seus filhos fugindo a pé pelo deserto, corpos pendurados em forcas, pilhas gigantescas de cadáveres...
Seria desrespeitoso e historicamente incorreto comparar o genocídio sofrido pelos armênios com massacres cometidos contra outros povos ao longo do século passado. Mas a selvageria com que os turcos, em alguns momentos auxiliados pelos curdos, perseguiram e assassinaram os armênios surpreende até mesmo quem está familiarizado com a descrição de outros crimes contra a humanidade.
Jovens armênias crucificadas pelos turcos / Crédito: Reprodução
Por quase três décadas, de 1895 a 1922, episódios de perseguições, assassinatos em massa e deportações se sucederam em diferentes regiões da Turquia. Mas é a partir de 24 de abril de 1915 que teve início uma desenfreada matança que, em semanas, provocou a morte de 1,4 milhão dos 2,1 milhões de armênios, de acordo com dados do Patriarcado Armênio.
Jovens turcos
A matança dos armênios soa ainda mais absurda pelo fato de essa nacionalidade ser parte integrante do dia a dia do então Império Otomano, que englobava, além da Turquia e Armênia, partes do Líbano, Síria, Iraque e Palestina.
Embora tivessem seu próprio país, e alguns entre eles reivindicassem sua autonomia, há vários séculos os armênios viviam nas cidades do império. Eram funcionários públicos, professores, policiais, comerciantes, jornalistas, soldados do Exército, médicos, sapateiros, advogados, donas de casa e artistas, que dividiam sua vida diária com os vizinhos turcos.
Contra eles se ergueu principalmente o panturquismo, o nacionalismo radical defendido pelos Jovens Turcos, vertente política que havia tomado o poder no Império em 1908.
À frente do governo dos Jovens Turcos estavam três paxás. Entre eles, Mehmed Talaat Pasha foi o mais ativo idealizador e executor do genocídio. Foi ele, ainda no posto de ministro do Interior, quem ordenou, no fatídico 24 de abril de 1915, a prisão e a execução de 250 intelectuais e líderes armênios que viviam na então capital Constantinopla (a atual Istambul). Entre eles estava toda a redação do jornal Azadamart, o principal órgão de comunicação em língua armênia no império.
Cinco semanas depois, Talaat proporia a Lei de Deportação Temporária, que seria a luz verde para o grande genocídio que, de resto, já vinha sendo gestado desde outubro do ano anterior, quando os otomanos entraram em guerra contra a Rússia e perderam de maneira espetacular sua primeira batalha.
Mulher armênia com seus três filhos/ Crédito: Reprodução
Como parte do povo armênio vivia em território russo, o governo dos Jovens Turcos colocou todos no mesmo saco e acusou os armênios de traírem a Turquia.
Tal argumento seria usado ao longo dos anos para justificar o genocídio como consequência dos combates da Primeira Guerra, e não uma matança planejada. Mas uma das provas apontadas pelos armênios de que em Constantinopla o genocídio fazia parte de um plano elaborado é “uma medida insólita” tomada pelo governo: todos os soldados e policiais armênios a serviço do império foram desarmados.
“As consequências dessa medida são fáceis de imaginar, procura-se prevenir assim qualquer resistência à execução que virá”, escreveu o teólogo brasileiro Aharon Sapsezian autor de História da Armênia – Drama e Esperança de uma Nação.
Restos mortais das vítimas / Crédito: Reprodução
E o que veio foram ordens de Constantinopla, “seguindo um programa preciso”, conforme esclarece relatório elaborado pelo Tribunal Permanente dos Povos, de deportar os moradores das províncias da Armênia. Para onde? Não se sabia e não importava. Tinham de deixar o país.
A elaboração do plano ficou a cargo do Comitê União e Progresso, em Constantinopla, que fornecia armas, veículos e apoio à SO, ou organização especial, que executava as ordens. A SO tinha poderes para demitir os funcionários que não concordassem com as medidas contra os armênios.
Deportações
As ordens de deportação eram anunciadas publicamente, as famílias tinham dois dias para juntar seus pertences. Padres, políticos e jovens armênios eram obrigados a assinar confissões forjadas e em seguida executados.
Idosos, mulheres e crianças tinham, no início do genocídio, direito a serem transportados em comboios. Depois, atravessavam a pé o deserto da Mesopotâmia, onde é hoje o noroeste do Iraque. Há relatos de que barcos repletos de armênios eram afundados no Mar Negro e Rio Tigre.
Nas aldeias remotas, onde havia poucas testemunhas, foi muito pior. Mulheres eram estupradas, crianças, crucificadas e milhares enforcados ou decapitados por soldados do Exército, policiais e membros da SO. Com seus proprietários expulsos, as casas eram vendidas, os pertences saqueados. Outras vezes, queimavam-se as residências com os moradores dentro.
Rastros do massacre / Crédito: Wikimedia Commons
A caminho dos campos de concentração em Alepo, hoje cidade síria, mulheres e crianças andavam em fila e, ao seu lado, um soldado carregava objetos que lhes roubou. Não havia água ou comida para todos. Milhares andavam até cair e morrer magros como esqueletos. Raros são os descendentes de armênios que não tiveram bisavôs, avôs, pais ou mesmo irmãos assassinados. 
A diáspora espalhou armênios por todo o Ocidente. O Brasil é um dos países que receberam grande número de imigrantes. “Sou filha da diáspora”, diz Sossi Amiralian, doutora em Literatura Armênia pela USP, nascida no Líbano, onde a família havia se refugiado.
“Meus pais viveram o genocídio de perto. Os dois perderam seus pais”, conta. O avô paterno de Sossi, Levon Amiralian, era influente na cidade de Marach. Pelo lado materno, Mardiros Kehiaian vivia em Adana. As duas cidades foram especialmente atingidas pelos genocidas. “Não conheci meus avós, foram decapitados quando meus pais ainda eram crianças.”
Joias costuradas
O pai de Sossi, Garabad, e a avó dela tiveram sorte, seu tio-avô tinha amizade com algumas autoridades turcas que se apiedaram da família e lhes providenciaram transporte seguro. Não fosse isso, afirma Sossi, não haveria como resistir aos turcos. “Os armênios não tinham armas; minha avó contava que para defender seus filhos deixava permanentemente uma panela de água fervente com pimenta sobre o fogão. Caso fosse atacada lançaria aquela mistura nos soldados.”
Algumas das várias vítimas / Crédito: Wikimedia Commons
Outras mães não tiveram nem mesmo a oportunidade de tentar se defender. Flora Kuyumjian demorou décadas até conseguir contar para seus netos como foi o ataque à sua casa. Depois de agarrarem seu marido, Minas, e o levarem para fora, degolaram seus dois filhos diante dos seus olhos.
O bebê recém-nascido que estava em seus braços lhe foi tomado e afogado na bacia de água na qual lavava a roupa. “Ela levou um golpe no pescoço e desmaiou, quando acordou estava boiando no mar e foi recolhida por uma família de turcos que a tomaram como escrava, para cuidar da sua filha”, conta a diretora de arte Moema Kuyumjian, sua neta.
Flora não ficou mais do que dois dias junto com os seus algozes. Cristã convicta, como a grande maioria dos armênios, fugiu atormentada pela ideia obsessiva que vinha à sua cabeça de matar por vingança a criança sob os seus cuidados.
Se não tinha sobre o fogão uma panela de água fervente para defender-se contra seus agressores, Flora tomara outros cuidados para enfrentar aquele genocídio que se anunciava havia algum tempo. Na barra da sua saia, costurou as poucas joias que possuía. Foi com elas que subornou um soldado turco para chegar à Síria. Ali, mendigou e sobreviveu comendo restos de feira. Um dia encontrou-se por acaso com o marido, Minas, também vagando como pedinte.
Jovens enforcados / Crédito: Reprodução
Flora lembrava que seu sofrimento a havia feito tão dura que não chorou nem se emocionou. Com o tempo, tiveram outros dois filhos. “Ela os batizou Arthur e Eduardo, que foi o meu pai”, diz Moema. “Os mesmos nomes dos dois filhos assassinados pelos turcos.” Da Síria, Minas e Flora passaram ao Líbano, onde a família conseguiu passaportes. Vieram para o Brasil e se estabeleceram em São José do Rio Preto, São Paulo, em 1926.
Sem reconhecimento
Centenas de milhares de armênios não tiveram tanta “sorte” quanto os pais e avós de Sossi e Moema. Após o genocídio, na porção da Armênia em território turco quase já não havia mais armênios. Os que viviam no lado russo sofreram menos com os ataques. A derrota final na Primeira Guerra, em 1918, depôs o governo dos Jovens Turcos e desmantelou o Império Otomano. O Estado armênio seria reconhecido pela Turquia. Mas as matanças ainda se repetiriam até os primeiros anos da década de 20.
O governo turco tem dificuldade em admitir publicamente que houve, em 1915, um genocídio planejado e conduzido oficialmente, semelhante ao Holocausto que foi promovido pelo governo nazista alemão contra os judeus na Segunda Guerra.
Entre os argumentos oficiais está o de que o êxodo e a morte de centenas de milhares de armênios seria um efeito colateral das batalhas e da divisão europeia na Primeira Guerra. Os defensores de que de fato houve um genocídio liderado pelo governo do Império Otomano alegam, e divulgam, o conteúdo de comunicação do governo instruindo sobre como deveria ser feita a eliminação dos armênios.
Casas incendiadas / Crédito: Reprodução
Em seu História da Armênia, Aharon Sapsezian cita o livro Memórias, escrito pelo jornalista armênio Naim Bey, que, segundo Sapsezian, era o responsável por receber em Alepo seus compatriotas refugiados. O jornalista reproduz em seu livro, publicado em 1920, documentos oficiais que teriam sido enviados pelo ministro do Interior, Talaat Pasha, ao prefeito de Alepo.
Um deles: “O governo decidiu exterminar os armênios habitantes na Turquia. Aqueles que se opuserem a essa ordem e decisão não poderão integrar o quadro governamental. Sem nenhuma consideração, nem mesmo pelas crianças, mulheres ou pelos enfermos, por mais trágicos que sejam os meios de exterminação utilizados, e sem se deixar levar pelos apelos da consciência, é preciso pôr termo à sua existência”.

Saiba mais
História da Armênia - Drama e Esperança de uma Nação, Aharon Sapsezian, Paz e Terra

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Livro que pertenceu a Adolf Hitler indica planos para um holocausto americano.

LIVRO QUE PERTENCEU A ADOLF HITLER INDICA PLANOS PARA UM HOLOCAUSTO AMERICANO

Obra de sua coleção pessoal trazia detalhes sobre os judeus vivendo nos EUA e Canadá, o que indica seus planos caso conquistasse os países
LETÍCIA YAZBEK PUBLICADO EM 01/08/2019.
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- Livro escrito pelo pesquisador nazista Heinz Kloss / Crédito: Reprodução/ Biblioteca e Arquivos do Canadá
O raro livro Statistik, Presse und Organisationen des Judentums in den Vereinigten Staaten und Kanada (Estatísticas, Mídia e Organizações de Judeus nos Estados Unidos e no Canadá), que pertenceu a Adolf Hitler, revela planos de levar o holocausto ao continente americano.
Publicada em 1944 pelo pesquisador nazista Heinz Kloss — que viveu nos Estados Unidos —, a obra de 137 páginas fornece detalhes sobre a população judaica em grandes cidades dos EUA e do Canadá, como Nova York e Montreal.
No livro, Kloss, que trabalhou para o Terceiro Reich, utilizou dados dos anos 1930, fornecidos por uma extensa rede de contatos de simpatizantes do nazismo, para classificar os judeus americanos por origem étnica e linguística.
A contracapa, marcada com as palavras ex libris Adolf Hitler — expressão que indica posse —, revela que a obra pertenceu à coleção pessoal do líder nazista.
Livro fornecia dados sobre judeus que moravam na América do Norte / Crédito: Reprodução/ Biblioteca e Arquivos do Canadá
Os especialistas acreditam que Hitler planejava se infiltrar na América do Norte e tornar o holocausto um evento que abrangesse outros continentes — em 1943, por exemplo, os alemães estabeleceram uma estação meteorológica na atual região de Terra Nova e Labrador, no Canadá.
“Isso demonstra que o holocausto não foi um evento europeu — foi um evento que não teve a oportunidade de se espalhar para além da Europa", disse Micael Kent, curador da Biblioteca e Arquivos do Canadá, ao Guardian .

terça-feira, 25 de junho de 2019

O Diário de Anne Frank: 72 anos da publicação de um dos mais impactantes relatos do Holocausto.

O DIÁRIO DE ANNE FRANK: 72 ANOS DA PUBLICAÇÃO DE UM DOS MAIS IMPACTANTES RELATOS DO HOLOCAUSTO

Neste dia, em 1947, o diário de uma garota judia era publicado pela primeira vez e entrou para História como uma das mais importantes obras sobre os horrores da Segunda Guerra
SIMON SEBAG MONTEFIORE PUBLICADO EM 25/06/2019
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- Reprodução
O diário de uma menina judia escondida durante a Segunda Guerra Mundial tornou-se um símbolo totêmico do Holocausto, um monumento aos 6 milhões de judeus mortos e um talismã para vítimas de perseguição em todo o mundo. Mas Anne Frank foi muito mais que um símbolo. A adolescente cuja recusa ser destruída pelo medo ou pelo desespero diante da mais tenebrosa perseguição é um triunfo da humanidade, a marca de uma alma verdadeiramente heroica.
Anne também tornou-se, apesar de tão jovem, uma formidável escritora: observou e anotou os terríveis acontecimentos do tempo sombrio em que viveu e da luta de sua família pela sobrevivência. O seu diário não foi o único a vir à tona, mas foi o melhor e mais bem escrito — um clássico imortal.
Na manhã de 6 de julho de 1942, Anne Frank, seus pais Otto e Edith e sua irmã mais velha, Margot, deixaram sua casa na Merwedplein, em Amsterdã. Vestindo muitas camadas de roupas e sem levar malas para não despertar suspeitas, encaminharam-se a pé o prédio de escritórios de Otto Frank, na rua Prinsengracht. No topo das escadas havia uma porta, mais tarde escondida atrás de uma falsa estante de livros. Ela levava ao que Anne chamou de anexo secreto — quatro cômodos onde os Frank, com outra família, os Van Pels, além de um dentista de nome Fritz Pfeffer, se esconderiam ao longo dos dois anos seguintes.
Os Frank eram judeus alemães que haviam emigrado para a Holanda uma década antes, após a ascensão de Hitler ao poder. Uma menina alegre e animada, ao completar treze anos, Anne ganhou de presente de aniversário um caderno encapado por um tecido de estampa xadrez vermelha e branca. Ela endereçou a sua primeira anotação “para Kitty”, e registrou: “espero poder confiar inteiramente em você, como jamais confiei em alguém até hoje, e espero que você venha ser um grande apoio e um grande conforto para mim”.
A ocupação alemã dos Países Baixos já durava dois anos quando Anne começou seu diário. Em 1942, os judeus foram submetidos a um toque de recolher e obrigados a usar estrelas amarelas costuradas visivelmente em suas roupas. Foram proibidos de pegar o bonde, andar de bicicleta ou tirar fotos. Em 5 de julho de 1942, Margot, de dezesseis anos, recebeu uma carta pedindo para que se apresentasse ao transporte que a levaria para um campo de trabalho. Às sete e meia da manhã seguinte, os Frank deixaram sua casa e rumaram para o esconderijo.
Os ocupantes do anexo prepararam-se para uma longa estadia. Os pais de Anne vinham fazendo viagens secretas ao esconderijo havia meses. Mas nada poderia tê-los preparado para a realidade opressiva de se apartar do mundo. A sobrevivência de todos eles dependia de seus “ajudantes”, quatro leais empregados de Otto Frank que arriscaram a vida para lhes trazer comida, roupas, livros e notícias. Durante o dia era preciso manter silêncio absoluto de modo a evitar que os funcionários da loja no andar de baixo desconfiassem de algo. “Temos de nos manter absolutamente quietos, feito estátuas. Quem haveria de pensar, três meses atrás, que a espoleta Anne teria que ficar sentada, sem falar, durante horas a fio — e, mais difícil ainda, que ela conseguiria?”, escreveu Anne em outubro de 1942.
Anne era uma escritora talentosa, engraçada e ágil, e tinha um olhar um tanto cáustico. Mas seu diário é também a obra de uma adolescente normal — inteligente, brilhante, impetuosa, temperamental, mal-humorada e impaciente. Lutava entre a “boa Anne” que ela gostaria de ser e a “Anne má” que ela sentia ser com mais frequência. Anne era perspicaz, incrivelmente honesta e, cada vez mais, sábia.
“Não há como matar o tempo”, Anne escreveu em 1943. Mas ela se recusou a abrir mão da esperança. “Realmente, é de se admirar que eu não tenha desistido de todos os meus ideias, porque parecem tão absurdos e impossíveis de serem realizados”, ela escreveu e, 15 de julho de 1944. “No entanto, eu os mantenho, porque apesar de tudo ainda acredito nas pessoas, no fundo, dão realmente boas”.
Três semanas depois, o anexo secreto foi invadido por um grupo da polícia alemã. Ainda é desconhecida a identidade do informante que os denunciou. Os habitantes do anexo foram transportados para o campo de concentração de Westerbok, e depois para Auschwitz. Em outubro, Anne e Margot foram transferidas para Bergen-Belsen. Morreram de tifo com poucos dias de diferença uma da outra em março de 1945, apenas algumas semanas antes de os britânicos libertarem o campo de concentração.
Otto Frank foi o único dos ocupantes do anexo que sobreviveu. Quando retornou a Amsterdã após a guerra, Miep Gies, uma de suas leais ajudantes, deu-lhe o diário e algumas anotações soltas que ela havia encontrado no esconderijo. Indagado mais tarde sobre sua reação à primeira leitura do diário de sua filha, Otto respondeu: “Eu nunca soube que minha pequena Anne era tão profunda”.
Enquanto estava escondida, Anne se convenceu de que queria ser escritora. Ela não foi a única criança judia a escrever um diário do Holocausto. Provavelmente houve muitas. Um talentoso garoto tcheco, Peter Ginz, manteve um espirituoso diário em Praga entre 1941 e 1942: “Quando fui para a escola, contei nove xerifes”, ele escreveu, referindo-se aos judeus que eram obrigados a usar a estrela amarela. Ginz morreu na câmara de gás em Auschwitz em 1944. Esses excepcionais autores de diários não foram os únicos a transformar o inferno em literatura: Noite, de Elie Wiesel (1928-2016), e É isto um homem?, de Primo Levi (1919-1987) são as duas obras-primas dessa idade das trevas europeia.
Um ano antes de morrer, Anne Frank escreveu sobre seu desejo de “ser útil ou dar prazer às pessoas ao meu redor que ainda não me conhece. Quero continuar a viver, mesmo depois de minha morte!”.

Reportagem retirada do Titãs da História, do autor Simon Sebag Montefiore. Editora Planeta do Brasil, (p. 533,534 e 535).