Mostrando postagens com marcador História da África. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História da África. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Livro: História Geral da África - IV. - África do séc. XII ao XVI.


ÁFRICA DO SÉCULO XII AO XVI – Volume IV

NIANE, D. T. (Ed.). África do século XII ao XVI. Brasília, DF: UNESCO; Ministério da Educação, 2010. 862p. (História Geral da África da UNESCO; 4). 

Nesse período a história do continente é marcada por registros de temas relacionados ao triunfo do Islã, a extensão das relações comerciais, aos intercâmbios culturais e contatos humanos e o desenvolvimento de reinos e impérios nas várias civilizações da África Ocidental, Norte da África, África Central, Oriente Médio e África Equatorial.


Por: Prof. Vanessa.

Livro: Da África aos indígenas do Brasil.

 


BIBLIOGRAFIA: Da África aos indígenas do Brasil: caminhos para o estudo de História e Cultura Afro-brasileira e indígena/ organizadores Evandro Fernandes, Nora Cecília Lima Boccacio Cinel e Véra Neusa Lopes. - 1ª ed.  Porto Alegre: UFRGS, 2016.

O livro "Da África aos Indígenas do Brasil: caminhos para o estudo de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena", organizado por Evandro Fernandes, Nora Cecília Lima Bocaccio Cinel e Véra Neusa Lopes, é uma coletânea pedagógica e historiográfica fundamental para a consolidação de uma educação antirracista no Brasil. a obra reúne diversos especialistas para oferecer subsídios práticos e teóricos a educadores. O principal objetivo é o cumprimento das Leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornaram obrigatório o ensino dessas temáticas nas escolas brasileiras.

Abaixo, confira a estrutura da obra e as capas das principais iniciativas de estudos afro-brasileiros conectadas à instituição:

Estrutura e Conteúdo da Obra

O livro é dividido de forma a cruzar conceitos teóricos profundos com a aplicação de metodologias e didáticas em sala de aula:

  • Diáspora e Ancestralidade: O capítulo inicial, escrito pelo historiador José Rivair Macedo, discute os conceitos da diáspora africana no Brasil, desconstruindo visões eurocêntricas e trazendo o protagonismo negro.
  • Povos Originários do Sul: Conta com análises focadas nos grupos humanos autóctones, como a abordagem do antropólogo José Otávio Catafesto de Souza sobre a presença e a história indígena no Rio Grande do Sul.
  • Educação Quilombola: Paulo Sérgio da Silva debate a transição de uma pedagogia tradicional branco-europeia para um fazer pedagógico focado nas realidades e necessidades das comunidades quilombolas.
  • Diversidade no Cotidiano Escolar: Iosvaldyr Carvalho Bittencourt Junior explora a relação prática entre escola, diversidade e a desconstrução do preconceito institucional.

Pontos Fortes e Relevância

  • Foco Prático para Professores: Mais do que um debate acadêmico, o livro funciona como um guia metodológico e didático para a reconfiguração do ensino nacional.
  • Abordagem Coletiva e Interdisciplinar: O vigor da obra vem de sua construção coletiva, gerada a partir de projetos de extensão do Departamento de Educação e Desenvolvimento Social (DEDS) da UFRGS.
  • Visão Descolonial: Combate estereótipos que colocam negros e indígenas apenas no papel de submissão histórica, resgatando a agência política e cultural dessas populações.

Considerações Finais

"Da África aos Indígenas do Brasil" é uma leitura indispensável para pedagogos, historiadores e licenciandos que buscam lecionar a partir de uma perspectiva plural e democrática. O livro fornece os "caminhos" prometidos em seu subtítulo, provando que a diversidade é o princípio estruturante para transformar a educação brasileira. O volume completo e gratuito está disponível para consulta acadêmica no repositório institucional da UFRGS.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Universidade de Aveiro disponibiliza 2500 livros sobre África e Oriente – download grátis.

Universidade de Aveiro disponibiliza 2500 livros sobre África e Oriente – download grátis

A Universidade de Aveiro disponibilizou em sua biblioteca digital obras de Cabo Verde, Macau, Angola, Goa, Guiné, Timor, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Portugal.

Esta iniciativa da Fundação Luso-Africana denomina-se “Memórias Africanas e Orientais”, tendo durante o período colonial mais de 2500 livros sobre a história dos países de língua portuguesa.

Além de registros bibliográficos para orientar pesquisadores e curiosos, as obras digitalizadas agora também estão disponíveis gratuitamente, desde livros de escola primária da era colonial até relatórios do ex-governador da colônia e outros documentos oficiais.

O Portal África e a Memória do Leste é um projecto da Fundação Luso-Africana desenvolvido e mantido pela Afro University e pelo Africa and Development Research Centre desde 1997.

Trata-se de uma ferramenta básica e inovadora que visa valorizar a memória histórica da solidariedade de Portugal e Rusofini, tornando-se assim uma ponte para o nosso passado comum na construção de uma identidade coletiva com os povos de todos estes países.

Para acessar o site: http://memoria-africa.ua.pt/Library/OOP.aspx

Fonte: criatives

domingo, 28 de junho de 2020

O poderoso Império de Mansa Muça, o homem mais rico que já existiu.

O PODEROSO IMPÉRIO DE MANSA MUÇA, O HOMEM MAIS RICO QUE JÁ EXISTIU

Responsável por domínios diversos na África e pela disseminação do islamismo, esse império foi um dos mais importantes da História
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 28/06/2020

Mansa Muça
Mansa Muça - Wikimedia Commons

O Império do Mali (1235-1670) foi o maior que a África já viu. Composto por forças militares e riquezas raras, a entidade política, que fora governada pelo homem mais rico da História, Mansa Muça no século 14, entrou nos livros como uma potência na região do Saara fundada por Sundiara Queira em 1235 e expandiu costumes por todo o Norte da Áfica, chegando a ter como centro Tombuktu, uma das cidades mais importantes.
Seu líder mais famoso foi Muça I, o mansa (espécie de imperador) que colaborou com diversas dominações malinesas para além do território do antecessor Império de Gana, e ficou globalmente famoso por suas viagens, incluindo a Haje (peregrinação a Meca) promissora e a conquista de incontáveis riquezas.
Os feitos do Emir do Mali foram relatados por diversos estudiosos árabes, principalmente porque o mundo muçulmano apontou todos os olhos ao Império, diante das dimensões. Nomes como al-Umari, Ibn Khaldun, Al-Ducali e Ibn Batutta escreveram sobre a história de Mansa Muça e sua linhagem. Afinal, seu tio-avô havia fundado aquele que, em sua época, era a maior referência de poder político do mundo conhecido.

Peregrinação de Mansa Muça / Crédito: Getty Images


Seu governo ficou conhecido como a Era de Ouro do Mali, quando aprofundou e disseminou costumes islâmicos e tornou o império um expoente da fé em Allah. Além  disso, também desenvolveu o comércio e as relações diplomáticas do país. A potência era temida e respeitada por toda a África, o que fazia com que o monarca tivesse muito cuidado. Ele sempre encarregava um porta-voz para proferir as ordens nas instâncias do governo.
Poder.
Muça chegou ao poder de forma incomum. O processo se deu através de uma articulação para torná-lo vice-rei, e assim herdeiro, durante uma das viagens do monarca anterior.
Esse mandatário, que não fora retratado nos escritos, teria, inicialmente, realizado a litúrgica peregrinação à cidade sagrada dos muçulmanos, Meca, e, depois, comandaria uma comissão que alcançou — apesar de seu ceticismo — aquele que era o “oceano que circunda a Terra”, segundo al-Umari, ou seja, o Atlântico.
Um dos feitos mais relevantes de Muça, que colocou o Mali no centro da geopolítica muçulmana, foi uma peregrinação em 1324, em que, com uma procissão de 60 mil homens e 12 mil escravos, chegou a Meca oferecendo presentes e alianças com os mais diversos territórios.
A haje de Muça criou uma serie de aliados. Por onde passava, oferecia ouro e auxílio. Sua influência no Egito dominado pelos turcos, onde acampou por três dias, alterou completamente a economia.

Ápice do Império Mali / Crédito: Wikimedia Commons


O Império de Muça também disseminou uma etiqueta tradicional que implicava numa série de reverências a ele, exigindo grandes demonstrações de submissão. "Ninguém foi autorizado a aparecer em presença do rei com suas sandálias. Ninguém foi autorizado a espirrar na presença do rei, e quando o próprio rei espirrou, os presentes batem em seus peitos com as mãos”, afirma Nehemia Levtzion, em Ancient Ghana and Mali.
Enquanto ocorria a peregrinação, o Império continuou atuando no sentido de retomar dominações e criar novos núcleos de expansão, incluindo a cidade de Gao, tomada pelo general Sagmandia enquanto o rei viajava. Com o retorno do rei, a corte foi recomposta em Niani e os escribas, sacerdotes e arquitetos retomaram as ações em peso.
Por isso, seu governo ficou marcado por grandes obras de infraestrutura e de mesquitas nos grandes centros. Ordenou construções em seu palácio que possibilitaram maior articulação com outros impérios e admiração da comunidade local, incluindo salões impressionantes. Influenciou o desenvolvimento do grande centro africano, Tombuktu, com prédios religiosos, bibliotecas e instâncias administrativas.
Houve um gigantesco avanço do desenvolvimento urbano e da articulação entre as cidades. O Império se tornou mais coeso e articulado. Além disso, o povoamento do país aumentou e, como consequência, a produção, e o Delta do Níger se tornou um dos polos do mundo.

Iluminura de Mansa Muça / Crédito: Wikimedia Commons


Outro marco importante do Império do Mali sob Mansa Muça foi a globalização de Tombuktu. Diante de seu poder, a mais relevante localidade do Norte da África, se tronou polo comercial, cultural, intelectual, diplomático e, inclusive, religioso.
Os fluxos de comércio das caravanas do Saara passaram a ter o local como entreposto importante e, com isso, as universidades e centros de socialização se tronaram expoentes de disseminação do islamismo. Foi reerguida lá, nessa época, a importante Universidade de Sancoré.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Guerra Anglo-Zulu, quando a lança venceu o fuzil.

GUERRA ANGLO-ZULU: QUANDO A LANÇA VENCEU O FUZIL

Neste dia, em 1879, começava o conflito entre ingleses e zulus. O exército britânico precisou de seis meses para vencer os africanos, em um combate histórico
THIAGO CORDEIRO PUBLICADO EM 11/01/2020
Ilustração da Guerra Anglo-Zulu
Ilustração da Guerra Anglo-Zulu - Divulgação
De um lado, guerreiros praticamente nus, protegidos por um escudo feito de couro de vaca e com uma lança nas mãos, que eles chamavam de iklwa – na falta delas, qualquer pedaço de madeira servia como porrete. A maior parte dos soldados era de camponeses, vinda de vilarejos.
Do outro, o maior império já visto no planeta Terra, onde se dizia que o Sol nunca se punha. Soldados bem preparados, utilizando uniformes padronizados com calças pretas, blusas vermelhas e capacetes cáqui. Portavam artilharia, cavalaria e os fuzis mais modernos disponíveis, os recém-introduzidos Martini-Henry.
A invasão ao território zulu havia apenas começado quando aconteceu a batalha de Isandlwana. Os ingleses haviam se dividido em três colunas, que avançavam sem resistência desde 10 de janeiro de 1879.
Obra registra a batalha de Isandlwana / Crédito: Wikimedia Commons

No dia 22, uma dessas colunas, comandada pelo general e barão Frederic Thesiger, se aproximou de Isandlwana, um morro cujo nome faz referência ao segundo estômago das vacas – para os ingleses, mais parecia uma esfinge, ou um leão deitado.
O local, que fica a 170 quilômetros da atual cidade de Durban, na África do Sul, era adequado para os britânicos acamparem e se posicionarem de forma defensiva para aguardar a aproximação zulu. Não foi o que aconteceu.
Thesiger não acampou, nem estabeleceu um ponto para recuo de seus homens. Confiante que estava na superioridade de seus soldados e suas armas, ele montou uma linha de defesa bem armada e avançou.
Os ingleses não sabiam, mas já haviam perdido. Liderados pelo comandante Ntshingwayo Khoza – ainda estavam estudando os movimentos dos inimigos europeus e reagiram de supetão ao perceber que seriam atacados –, os zulus fizeram o que sabiam: lançaram um ataque frontal e, em paralelo, realizaram um movimento tático que ficaria conhecido, na Inglaterra, como o “chifre do diabo”: dois grupos atacaram pelas laterais,
simultaneamente.
Os soldados britânicos estavam muito distantes entre si, o que facilitou o ataque frontal. “A linha de fogo britânica se estendia por 2750 metros, o que significa que havia espaço demais entre os soldados. Havia dado certo em outras campanhas britânicas, em especial contra os xhosas, também do sul da África, porque o poder de fogo dos Martini-Henry conseguiu eliminar a linha de frente adversária. Não foi o caso em Isandlwana.”
Para complicar ainda mais a situação, as duas colunas laterais dos zulus encontraram os flancos desprotegidos, de forma que foi possível cercar os inimigos europeus. Rapidamente, os zulus dispersaram os inimigos que restaram.
“Percebendo que estavam sendo cercados, os britânicos perderam coesão, o que permitiu aos zulus separálos em pequenos grupos e provocar a batalha da maneira como eles mais mais gostavam, com combates corpo a corpo até a morte de um dos adversários, em geral os europeus”, afirma John Laband, professor emérito da Wilfrid Laurier University, do Canadá, e autor de Historical Dictionary of the Zulu Wars (sem tradução). “Apenas alguns homens a cavalo conseguiram escapar.”
Muitos soldados morreram tentando se defender usando facas ou transformando suas armas descarregadas em porretes. Alguns, que optaram por fugir correndo, simplesmente foram cercados e forçados a lutar até o fim.
Quando a batalha havia se tornado uma simples perseguição, era perto das 14h30. Nesse horário, aconteceu um eclipse total do sol, que deu à derrota britânica um ar ainda mais funesto.
Em parte, o fracasso da estratégia se explica pela grande diferença de contingente: eram 67 oficiais e 1707 soldados britânicos, contra uma quan tidade muito maior de zulus: 23 mil homens. Morreram 1300 militares do lado inglês (ou seja, 76% do total), contra aproximadamente mil africanos (ou 4% dos combatentes).
Das três frentes que iniciaram a invasão ao reino zulu, uma foi destroçada em Isandlwana. As outras duas se viram isoladas, porque penetraram rápido demais no terreno adversário e os zulus só precisaram cortar as linhas de fornecimento de mantimentos.
O general Frederic Thesiger se viu forçado a recuar para fora do país inimigo. O erro inicial marcaria sua carreira para sempre, mas ele ainda não sabia disso. Ainda acreditava que podia receber os louros por trazer um novo território inteiro, e suas minas de diamantes, para a posse da Coroa.
Thesiger havia provocado uma tensão que antes não existia entre britânicos e zulus, e decidira partir para a guerra sem o aval de seus superiores. Agora estava decidido a se recompor diante de uma das derrotas mais vergonhosas da história do império a que servia.
“A vitória zulu mudou a abordagem dos britânicos. A derrota em Isandlwana deu aos  europeus um novo respeito pelos inimigos, além de fornecer um incentivo: os europeus se tornaram determinados a se vingar, a impor ao reino zulu uma vitória tão embaraçosa quanto a que eles mesmos sofreram”, afirma Jack Hogan, professor do Departamento de História Internacional da London School of Economics and Political Science.
As motivações para a guerra anglozulu são difíceis de entender. A Inglaterra começou a colonizar o sul da África em 1806, apresentando concorrência aos bôeres, europeus moradores dos Países Baixos, da Alemanha e da Dinamarca, em geral calvinistas, que
já estavam estabelecidos em colônias na região.
O Império Zulu surgiu dez anos depois, em 1816, e se tornou um aliado tradicional, primeiro dos bôeres, depois dos ingleses – no caso dos bôeres, eles alcançaram um convívio tranquilo depois de uma primeira tentativa de invasão europeia, repelida em 1837.
E assim os zulus mantiveram uma situação relativamente estável em relação aos vizinhos, mesmo nos momentos de conflitos sucessórios internos. Nada indicava que eles seriam atacados pelos aliados ingleses.
O rei zulu, desde 1873, era Cetshwayo kaMpande, um literal gigante de mais de 2 metros e 160 quilos. Cetshwayo já havia se consolidado como o sucessor desde 1856, quando entrou em guerra contra seu irmão mais novo, Mbuyazi, o favorito de seu pai, o rei Mpande, para assumir o reino.
Cetshwayo kaMpande / Crédito: Wikimedia Commons

Quando Mpande morreu, em 1872, não havia competição pelo posto. Diplomático, Cetshwayo seguiu as tradições mantidas por seu pai e seu avô, o rei Senzangakhona kaJama: os zulus valorizavam a pecuária e a agricultura de feijões, tubérculos, melancias e abóboras. Viviam em cidades de grande autonomia política e econômica, chefiadas por líderes tribais que juravam obediência ao monarca.
Em termos militares, o rei também mantinha hábitos antigos, como a aposta em armamentos tradicionais – apenas ao final da guerra os africanos começariam a usar mosquetes e fuzis velhos, que os homens mal sabiam usar. Cetshwayo também defendia a religião tradicional local, a ponto de aceitar, por diplomacia, a chegada de missionários europeus, que viviam em paz, mas sempre encontrando motivos para mandar matar
os zulus que se convertiam.
Nada havia mudado, nem na Inglaterra nem na África, para justificar um conflito militar. Mas Frederic Thesiger, um militar de carreira, veterano da guerra da Crimeia e de conflitos contra grupos rebeldes na Índia, encontrou pretextos (como uma incursão de zulus em territórios vizinhos para resgatar as esposas fugitivas de um nobre local) para iniciar uma escalada de ameaças e ultimatos.
A lista de exigências chegou a ponto de demandar que o rei abandonasse o cargo e desfizesse seus exércitos imediatamente. Intimado a se manifestar até o final do ano de 1878, Cetshwayo nem se deu ao trabalho de apresentar uma resposta.
As vitórias anteriores contra os xhosas davam a Thesiger e a seu estrategista militar, o ex-governador de Bombaim (hoje Mumbai), na Índia, Henry Bartle Frere, a impressão de que vencer os zulus seria simples.
E renderia glórias aos dois, que pretendiam instalar, no sul da África, uma grande federação britânica, ao modo da que haviam visto em terras indianas. Para impedir que seus objetivos fossem barrados em Londres, ele optou por comunicar seus planos por correio, muito mais demorado, e não por telégrafo.
A derrota em Isandlwana levou a Coroa britânica a decidir pela substituição de Thesiger pelo marechal de campo Garnet Wolseley, uma das maiores figuras militares do império no século 19, com passagem em campanhas no Canadá, no Egito, em Burma, na China e na Índia.
Mas, até que Wolseley chegasse, Thesiger tinha pela frente alguns meses para agir. De fato, ele conseguiu mudar a situação: ajustou a estratégia e solicitou mais homens. Para a segunda invasão, o número total de soldados havia saltado de 15 mil para 25 mil, com maior participação de europeus – na primeira investida, a maioria dos homens, 9 mil, eram africanos treinados às pressas e sem a mesma experiência em batalha.
Assim, alcançou uma sequência de vitórias, culminando com a Batalha de Ulundi, em 4 de julho de 1879. Nesse dia, iniciou o ataque com uma hora e meia de bombardeio incessante, seguido pelo deslocamento de uma linha de frente compacta, que disparava sem parar. Era, na prática, o fim do Império Zulu.
Crédito: Wikimedia Commons

“O prestígio inglês no sul da África foi fortemente abalado pela derrota, então era essencial para o general demonstrar a superioridade militar por meio de uma vitória incontestável sobre os zulus”, afirma John Laband. “Por isso, todas as tentativas de trégua ou acordo da parte dos zulus foram rapidamente rejeitadas. Os ingleses só poderiam aceitar a rendição completa, a abolição da monarquia zulu e o desmonte de seu temido exército.”
A derrota inicial também definiu o trato aos derrotados. “Foi uma campanha brutal”, diz Laband. “Os britânicos tomaram poucos prisioneiros. Os feridos eram assassinados ainda no campo de batalha e os britânicos passaram a usar a cavalaria a seu favor, de maneira a transformar a retirada do adversário numa verdadeira caçada.”
Apesar da vitória, Frederic Thesiger nunca mais veria um campo de batalha até falecer, em 1905, assim como Henry Bartle Frere, que morreria em Londres, completamente desprestigiado, em 1884.
Ao receber uma vitória consagrada, Garnet Wolseley foi firme em sua estratégia de dividir o inimigo. “O antigo reino foi rachado em 13 fragmentos fracos, que não ofereciam nenhuma ameaça ao território britânico vizinho”, explica o professor. A estratégia foi bem-sucedida, até demais.
Deposto, o rei Cetshwayo kaMpande seguiu para a prisão de Robben Island, a mesma onde, no século seguinte, Nelson Mandela passaria 27 anos detido. Mas os conflitos entre os diferentes governantes do antigo reino foram tão constantes que o antigo monarca foi convidado a retornar a seu país natal em 1883.
Morreria no início de 1884, depois de sofrer uma série de derrotas para Zibhebhu kaMaphitha Zulu, um dos mais importantes líderes dos 13 territórios, que tentava, sem sucesso, reconstruir o Império Zulu.
Apesar do final melancólico, o rei Cetshwayo imortalizou seu nome ao emplacar uma vitória estrondosa sobre o mais poderoso império da História.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Mansa Musa: a pessoa mais rica do Império de Mali.

MANSA MUSA: A PESSOA MAIS RICA QUE JÁ EXISTIU NA HISTÓRIA

A fortuna do imperador africano era tão grande que historiadores e economistas nunca conseguiram calcular a quantia exata de sua riqueza
DANIELA BAZI PUBLICADO EM 20/12/2019
Mansa Musa governou o Império Mali de 1312 até sua morte em 1337
Mansa Musa governou o Império Mali de 1312 até sua morte em 1337 - Wikimedia Commons
O rei africano Mansa Musa, que governou o Império Mali no século 14 é, até hoje, a pessoa mais rica da história. Assumindo o poder em 1312, Musa recebeu o título de Mansa, que significa rei, e foi o responsável por expandir as riquezas de Mali.
Até então, o império se preocupava, principalmente, com a venda de produtos como ouro e sal, que eram altamente valorizados na época. Seus principais clientes eram de regiões como Europa, África e Oriente Médio. A extensão do território de Mali era de aproximadamente 1,2 milhão km².
Atlas Catalão em que mostra o imperador Mansa Musa / Créditos: Wikimedia Commons
A enorme fortuna de Mansa vem da quantidade imensurável de ouro do Império de Mali. Economistas e historiadores nunca conseguiram calcular a quantia exata de sua riqueza, mas acreditam passar facilmente dos três trilhões de dólares.
Segundo a revista Money, Musa é “mais rico do que qualquer pessoa possa descrever”. Apesar de toda sua fortuna, ele era praticamente desconhecido até o ano de 1314, quando fez uma luxuosa caravana até a cidade de Meca com mais de 60 mil homens, entre civis, soldados e escravos.
Gravura feita em 1670 em que retrata a viagem de Musa para Meca / Créditos: Getty Images
 Durante a viagem, o imperador fez uma parada no Cairo, onde decidiu doar uma certa quantia de ouro. Entretanto, a quantidade foi tanta que levou o Egito a uma crise inflacionária, demorando 12 anos para que a economia local conseguisse se recuperar.
Musa morreu em 1337, após 27 anos no poder, deixando diversas construções importantes como escolas, mesquitas, bibliotecas e museus. Uma de suas mesquitas, a Djinguereber, ainda existe nos dias atuais e pode ser visitada. Mansa chegou a ser ilustrado no Atlas Catalão, em 1375, após ser considerado uma figura de referência importante para estudar o período medieval.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Griots: os contadores de histórias da África antiga.

GRIOTS: OS CONTADORES DE HISTÓRIAS DA ÁFRICA ANTIGA

Até hoje, os Griots seguem em seu papel de guardiões de tradições milenares
JOSEANE PEREIRA PUBLICADO EM 18/09/2019
Griots
Griots - Reprodução
Contadores de histórias, mensageiros oficiais, guardiões de tradições milenares: todos esses termos caracterizam o papel dos Griots, que na África Antiga eram responsáveis por firmar transações comerciais entre os impérios e comunidades e passar aos jovens ensinamentos culturais, sendo hoje em dia a prova viva da força da tradição oral entre os povos africanos.
Utilizando instrumentos musicais como o Agogô e o Akoting (semelhante ao banjo), os griots e griottes estavam presentes em inúmeros povos, da África do Sul à Subsaariana, transitando entre os territórios para firmar tratados comerciais por meio da fala e também ensinando às crianças de seu povo o uso de plantas medicinais, os cantos e danças tradicionais e as histórias ancestrais.
Diferente da civilização ocidental, que prioriza a escrita como principal método para transmissão de conhecimentos e tem historicamente fadado povos sem escrita ao âmbito da pré-história, em sociedades de tradição oral a fala tem um aspecto milenar e sagrado, e é preciso refletir profundamente antes de se pronunciar algo, pois cada palavra carrega um poder de cura ou destruição. 
Nesse sentido, os Griots são os guardiões da palavra, responsáveis por transmitir os mitos, técnicas e tradições de geração para geração.
Reprodução
Griots / Crédito: Reprodução
O termo griot tem origem no processo de colonização do continente africano, sendo a tradução para o francês da palavra portuguesa criado. No século XVI, com a ocupação da costa africana pelo reino de Portugal baseada na construção de fortes que atuavam como entrepostos, os lusitanos passaram a fazer transações com Reinos africanos como Kongo, Mali e Songhai.
Esses primeiros contatos já transformavam tanto as culturas africanas como a nação de Portugal, mas acabaram levando a muitos reinos à desestruturação. Com o tráfico de escravizados e o processo de Neocolonização do século XIX, países como França, Bélgica e Alemanha adentraram os territórios africanos, contribuindo para o processo.
Entretanto, até os dias de hoje os Griots seguem em seu papel de guardiões da tradição, estando presente em muitos lugares da África Ocidental, incluindo Mali, Gâmbia, Guiné e Senegal, e entre os povos Fula, Hausá, Woolog, Dagomba e entre os árabes da Mauritânia.
Aqui no Brasil, podemos ver semelhanças entre os Griots e os repentistas, que também se utilizam da oralidade para transmitir cultura.
Griots contemporâneos / Crédito: Reprodução

















Em sociedades africanas marcadas pela escravidão, os sujeitos foram classificados como objetos sem memória a serem liderados pelos que detinham a razão. Afinal, povos sem escrita eram povos sem cultura.
Nesse sentido, os Griots atuais são a prova viva da força da tradição oral que, de geração em geração, tem preservado memórias, costumes e saberes.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Amazonas de Daomé: as mulheres mais temidas do mundo.

AMAZONAS DE DAOMÉ: AS MULHERES MAIS TEMIDAS DO MUNDO

Bravas guerreiras da África Ocidental repeliram com sucesso invasores europeus
FLÁVIA RIBEIRO PUBLICADO EM 21/06/2019
Dora Milaje em cena do filme Pantera Negra
Dora Milaje em cena do filme Pantera Negra - Reprodução
Nansica, uma jovem soldado do reino de Daomé, no atual Benin, de cerca de 16 anos, se aproxima rapidamente de um sargento francês e o decapita com furor. Em seguida, tem seu corpo atravessado por uma baioneta e tomba de costas, braços estendidos para a frente. Na mesma batalha, um soldado gabonês de infantaria, recrutado pelos franceses, desarma outra militar de Daomé. Sem opção, ela rasga a garganta do inimigo com os próprios dentes.
Apesar de a França ter conquistado Daomé em 1894, após duas guerras num período de 4 anos, a ferocidade das mulheres que compunham 1/3 das tropas do país africano ao longo do século 19 impressionou visitantes e soldados estrangeiros. “O valor das amazonas é real. Treinadas desde a infância com os mais árduos exercícios, constantemente incitadas à guerra, elas levavam às batalhas uma fúria verdadeira e um ardor sanguinário... Inspirando com sua coragem e sua energia indomável tropas que as seguiam”, escreveu em 1895 o major francês Léonce Grandin, que lançou Le Dahomey: À l'Assaut du Pays des Noirs, em que analisa a guerra na qual lutou.
“Notavelmente bravas”, “extraordinárias por sua coragem e ferocidade” e de “tenacidade selvagem” são algumas das características atribuídas a elas por combatentes franceses em diários escritos no calor das batalhas.
Donas do palácio.
Mulheres lutando em exércitos não eram novidade. Mas um exército de mulheres, sim. Esqueça as lendárias amazonas da Grécia antiga, que estão no terreno do mito. Como escreve o jornalista e pesquisador Stanley B. Alpern em Amazons of Black Sparta (Amazonas da Esparta Negra), "na verdade, as únicas amazonas documentadas da História são o tema deste livro".
Para a autora de Wives of the Leopard: Gender, Politics and Culture in the Kingdom of Dahomey (Esposas do Leopardo: Gênero, Política e Cultura no Reino de Daomé), Edna G. Bay, elas talvez nem fossem tão melhores e mais ferozes que seus companheiros de armas. “Mas a visão de mulheres combatentes foi um choque para os franceses”, comenta ela.
Algumas das Amazonas / Crédito: Reprodução
As mulheres soldados e oficiais do exército de Daomé possuíam escravas, moravam no palácio do rei e eram tão respeitadas e poderosas que, quando andavam pelas ruas, os homens comuns deviam dar um passo atrás para abrir caminho e olhar para o outro lado: não podiam dirigir seu olhar a elas. Usavam uniformes, carregavam bandeiras e cantavam hinos.
Acostumadas desde cedo a um treinamento rigoroso, eram grandes guerreiras, fortes, velozes, que escalavam paredões, empunhavam espadas, machadinhas e punhais com vigor e, armadas com espingardas, atiravam com boa mira. Decapitavam sem pena. Estavam, normalmente, na linha de frente dos ataques aos reinos inimigos, à frente dos homens.
Esparta das mulheres.
As militares não eram as únicas mulheres com poder na sociedade de Daomé, cuja etnia principal era a fon e onde havia a prática do vodu. Outras estavam em posições-chave na política e em cargos burocráticos. “Isso não era incomum na África Ocidental, onde em muitos reinos havia, por exemplo, a figura da rainha-mãe. Mas Daomé levou isso ao extremo. Em nenhum outro lugar havia tropas inteiras de combatentes femininas, em toda a história”, ressalta Edna Bay.
Como um exército de mulheres surgiu naquele lugar particular da África do século 19 é algo que gera discussões e questionamentos. Mas acredita-se que as origens das tropas femininas de Benin estejam em dois grupos. O de mulheres caçadoras de elefantes, comuns nos séculos 17 e 18, ou o mais provável: o de guardas do palácio real. Apenas mulheres e eunucos podiam guardar os aposentos do rei e de suas centenas de esposas. Mas no Benin tais sentinelas teriam evoluído para a formação de uma guarda pretoriana do governante.
Havia cerca de 5 mil mulheres no palácio, entre esposas do rei, guardas, administradoras, funcionárias e escravas. “As mulheres eram criadas, desde a infância, para serem leais à sua família de nascença e à família do marido”, conta Edna. Assim, quase todas as mulheres do palácio eram esposas do rei, mesmo que não tivessem relações sexuais com ele. É o caso das mulheres militares, celibatárias.
Daomé era um dos grandes fornecedores de escravos para países como o Brasil. Os ataques a reinos vizinhos muitas vezes tinham como objetivo capturar escravos para a venda. Era o destino também de prisioneiros de guerra. Porém o número de mulheres negociadas era menor. Muitas eram treinadas para se tornar amazonas.
As primeiras notícias das mulheres soldadas em Daomé datam de cerca de 1830. Daomé lutava em muitas guerras, o que levou ao declínio da população masculina. Isso é outro fator que pode explicar o uso de mulheres como militares. A última vez que elas entraram num campo de batalha foi em 1894, quando a França venceu a 2º Guerra Franco-Daomeana e subjugou o reino africano. “O colonialismo fez com que as mulheres africanas se encolhessem, perdessem a força, passassem a se casar para ser sustentadas pelos maridos”, conta Edna Bay.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Você sabe quantas etnias existem na África?

VOCÊ SABE QUANTAS ETNIAS EXISTEM NA ÁFRICA?

Durante os processos de colonização, grupos étnicos foram desestruturados e incorporados a territórios nacionais
JOSEANE PEREIRA PUBLICADO EM 04/04/2019
Menino Karo, sul da Etiópia
Menino Karo, sul da Etiópia - Reprodução
Largamente utilizado em estudos de Antropologia, o termo "etnia" caracteriza um grupo unido por laços linguísticos, religiosos e éticos, que reproduz sua cultura aos descendentes e ocupa territórios que possibilitam a continuidade de suas relações sociais. Todos os povos humanos são grupos étnicos, apesar de geralmente atribuirmos essa noção a grupos marginalizados como negros, indígenas e quilombolas, por conta de nossa herança colonial. Um exemplo disso é a caracterização de roupas com padrões "tribais" que remetem ao território africano como "roupas étnicas".
Entender esse termo nos leva à compreensão de uma palavra ainda mais importante: Etnocentrismo. Ser etnocêntrico é considerar sua própria cultura como a melhor, mais desenvolvida, mais tecnológica dentre todas as outras. É observar os padrões culturais do outro sob o espectro da falta, onde "o que não é igual a mim está errado". Se observarmos bem, todo o discurso colonial, guerras entre nações e disputas por território têm bases firmes no etnocentrismo, padrão que caracteriza o animal humano desde a invenção da cultura.
Etnia Batwa, região dos Grandes Lagos / Reprodução
Pois bem. Um dos legados deixados pelo imperialismo no continente Africano foi a incorporação de grupos étnicos muito diferentes entre si em territórios únicos, a serem geridos pelas potências europeias. A charge que todos já devem ter visto na escola e que provavelmente surgiu agora em sua mente é aquela de grandes potências europeias dividindo o continente Africano como uma pizza, e destinando cada partezinha a determinada Nação. Alemanha, Reino Unido, Inglaterra, França e Itália, por meio da Conferência de Berlim em 1885 realizaram a famosa partilha da África. E o que eles provavelmente sabiam era que, em cada pedacinho de continente partilhado, existiam centenas de grupos étnicos distintos cultural, econômica e linguisticamente.
Mapa de grupos étnicos da África. À direita, linhas vermelhas representam nações atuais. / Reprodução
Os números são fluidos, mas registra-se hoje aproximadamente 492 grupos étnicos no território Africano, que utilizam ao menos 36 línguas diferentes. Não, você não leu errado: existem quase quinhentos grupos com crenças, práticas alimentares, modos de pensar o mundo e aspectos físicos diferentes, distribuídos em troncos linguísticos tão distintos quanto o português do russo. Assim como no território brasileiro, esses números não são nada perto da diversidade cultural existente quando da época colonial, e muitos grupos também foram historicamente submetidos a monarquias africanas centralizadas, como Gana, Axum, Congo e Mali, em episódios de concentração de poder no continente. 
Etnia Ubuntu, África Subsaariana / Reprodução
Voltando ao século XIX, quando a Conferência de Berlim transformou o território africano em pizza, muitas das fronteiras delimitadas cortavam territórios étnicos pela metade, ou juntavam em uma só porção grupos inimigos de longa data. E isso acabou se tornando estratégico: os neocolonizadores passaram a usar disputas locais de forma tática, oferecendo armas de fogo e colocando um grupo contra o outro para melhor dominá-los. Exemplo da repercussão dessa história foi o massacre efetuado por grupos extremistas Hutus aos povos Tutsi, ocorrido em 1994 e que ficou conhecido como Genocídio de Ruanda. Os dois grupos anteriormente eram uma só população, que foi dividida pelos colonizadores belgas baseado em critérios como altura, cor da pele e formato do nariz, em um episódio que exemplifica bem os problemas causados pela intervenção europeia nesses grupos.
Atualmente, o local que abriga a maior diversidade étnica no continente Africano é a Floresta do Congo, situada em países como República Democrática do Congo, Camarões, República Centro-Africana e Guiné Equatorial. Nela estão situados os chamados "povos da floresta", que atualmente lutam pelo direito de utilizar os recursos naturais para preservação de suas culturas. Inclusive, zonas tropicais são locais altamente propícios à diversidade cultural. Mas isso já é outra história...
Etnia Hamer, região da Etiópia / Reprodução

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Contos Africanos para download gratuito.


Mais de 30 contos africanos disponíveis para download gratuito


Todos os dias a internet, essa rede de infindáveis coisas – boas e ruins – nos presenteia com novas possibilidades de conhecimento. Estamos tendo excelentes oportunidades de aprender diversos assuntos, principalmente, sobre as culturas africanas, tão invisibilizadas no decorrer da história.
Dessa vez, temos acesso a 34 contos africanos disponíveis para download gratuito. Isso mesmo, é só baixar e iniciar a leitura. As 34 histórias são de autoria ainda desconhecida, algumas retratam locais não identificados, enquanto as tratam de narrativas de países africanos de língua portuguesa, como a Angola.
Os contos variam entre histórias que apresentam costumes, modos de vida, relacionamento, tradições e também diversas fábulas, como a de um macaquinho que foi o primeiro ser vivo a chegar na lua.
Para fazer o download dos contos, clique aqui.
O arquivo foi divulgado inicialmente pelo site O Incrível Zé.

Imagem: Kiriku e a Feiticeira.
nossa fonte: https://produzindocultura.com.br/livros/mais-de-30-contos-africanos-disponiveis-para-download-gratuito

OBS: o arquivo está em word. se não conseguir abrir, é só rolar para baixo que copiamos aqui para melhor visualização.


Contos Africanos: A Menina que não Falava

Certo dia, um rapaz viu uma rapariga muito bonita e apaixonou-se por ela. Como se queria casar com ela, no outro dia, foi ter com os pais da rapariga para tratar do assunto.
__ Essa nossa filha não fala. Caso consigas fazê-la falar, podes casar com ela, responderam os pais da rapariga.
O rapaz aproximou-se da menina e começou a fazer-lhe várias perguntas, a contar coisas engraçadas, bem como a insultá-la, mas a miúda não chegou a rir e não pronunciou uma só palavra. O rapaz desistiu e foi-se embora.
Após este rapaz, seguiram-se outros pretendentes, alguns com muita fortuna mas, ninguém conseguiu fazê-la falar.
O último pretendente era um rapaz sujo, pobre e insignificante. Apareceu junto dos pais da rapariga dizendo que queria casar com ela, ao que os pais responderam:
__ Se já várias pessoas apresentáveis e com muito dinheiro não conseguiram fazê-la falar, tu é que vais conseguir? Nem penses nisso!
O rapaz insistiu e pediu que o deixassem tentar a sorte. Por fim, os pais acederam.
O rapaz pediu à rapariga para irem à sua machamba, para esta o ajudar a sachar. A machamba estava carregada de muito milho e amendoim e o rapaz começou a sachá-los.
Depois de muito trabalho, a menina ao ver que o rapaz estava a acabar com os seus produtos, perguntou-lhe:
__ O que estás a fazer?
O rapaz começou a rir e, por fim, disse para regressarem a casa para junto dos pais dela e acabarem de uma vez com a questão.
Quando aí chegaram, o rapaz contou o que se tinha passado na machamba. A questão foi discutida pelos anciãos da aldeia e organizou-se um grande casamento.
  
Contos Africanos:Duas Mulheres

HAVIA DUAS MULHERES AMIGAS, uma que podia ter filhos __ e tinha muitos __ e a outra não.
Um dia, a mulher estéril foi a casa da amiga e convidou-a a visitá-la, dizendo:
__ Amiga, tenho muitas coisas novas em casa, venha vê-las!
__ Está bem __ concordou a outra.
De manhã cedo, a mulher que tinha muitos filhos foi visitar a amiga. Ao chegar a casa desta, chamou-a:
__ Amiga, minha amiga!
Trazia consigo um pano que a mulher estéril aceitou e guardou.
As duas amigas ficaram a conversar, tomando um chá que a dona da casa tinha preparado para as duas. Ao acabarem o chá, a dona da casa quis, então, mostrar à amiga as coisas que tinha comprado. Passaram para a sala e a mulher estéril abriu uma mala mostrando à amiga roupa, brincos, prata e outras coisas de valor.
No final da visita, a mulher que tinha muitos filhos agradeceu, dizendo:
__ Um dia há-de ir a minha casa ver a mala que eu arranjei.
E, um certo dia, a mulher que não tinha filhos, foi a casa da amiga. Mal a viram, os filhos desta gritaram:
__ A sua amiga está aqui!
Agradeceram a peneira que ela trazia na cabeça e guardaram-na. Começaram, então, a preparar o chá.
A mãe das crianças chamava-as uma a uma:
__ Fátima!
__ Mamã?
__ Põe o chá ao lume!
__ Mariamo!
__ Sim?
__ Vai partir lenha!
__ Anja!
__ Sim?
__ Vai ao poço
__ Muacisse!
__ Mamã?
__ Vai buscar açúcar!
__ Muhamede!
__ Sim?
__ Traz um copo!
__ Mariamo!
__ Vamos lá, despacha-te com o chá!
Assim que o chá ficou pronto, tomaram-no e conversaram todos um pouco.
Quando a amiga se ia embora, a mulher que tinha filhos disse:
__ Minha amiga, eu chamei-a para ver a mala que arranjei, mas a minha mala não tem roupa nem brincos! A mala que lhe queria mostrar são os meus filhos!
A mulher que não podia ter filhos ficou muito triste e, antes de chegar a casa, sentiu-se muito mal, com dores de cabeça e acabou por morrer.

Comentário do narrador: coisa não é coisa, coisa é pessoa!


Contos Africanos: O Homem e a Filha

Era uma vez um casal que teve uma filha. A mulher morreu pouco depois do parto e a criança foi criada pelo pai. Quando a menina cresceu, o pai anunciou-lhe:
__ Minha filha, quero casarcontigo!
Mas a menina respondeu:
__ Isso não é bom. Seremos descobertos pelos outros, pois no mundo não há segredos!
__ Sempre quero ver se no mundo não há segredos, disse o pai.
Foi buscar arroz, vazou duas medidas numa panela e cozinhou-o. Em seguida, levou a panela para o mato e enterrou-a. Ninguém sabia que ele tinha enterrado no mato uma panela cheia de arroz a não ser ele próprio e a filha.
Tempos mais tarde, apareceram homens com redes para caçar no mato. Eles não sabiam que no local onde caçavam, debaixo de uma árvore, estava enterrada uma panela cheia de arroz. Descobriram, admirados, que formigas brancas saídas da terra junto daquela árvore, transportavam grão de arroz.
De imediato cavaram o buraco e encontraram uma panela cheia de arroz cozido.
A filha, então, voltou-se para o pai:
__ Está a ver papá? Eu não lhe disse que o mundo não tem segredos?!

Comentário: No mundo não há segredos, a filha bem o sabia!

         CONTO POPULAR DA GUINÉ-BISSAU – A Origem do Tambor
  
      Dizem na Guiné que a primeira viagem à Lua foi feita pelo Macaquinho de nariz branco.
Segundo dizem, certo dia, os macaquinhos de nariz branco resolveram fazer uma viagem à Lua a fim de traze-la para a Terra.    
      Após tanto tentar subir, sem nenhum sucesso, um deles, dizem que o menor, teve a idéia de subirem uns por cima dos outros, até que um deles conseguiu chegar à Lua.
       Porém, a pilha de macacos desmoronou e todos caíram, menos o menor, que ficou pendurado na Lua. Esta lhe deu a mão e o ajudou a subir.
       A Lua gostou tanto dele que lhe ofereceu, como regalo, um tamborinho.
      O macaquinho foi ficando por lá, até que começou a sentir saudades de casa e resolveu pedir à Lua que o deixasse voltar.
      A lua o amarrou ao tamborinho para descê-lo pela corda, pedindo a ele que não tocasse antes de chegar à Terra e, assim que chegasse, tocasse bem forte para que ela cortasse o fio.
        O Macaquinho foi descendo feliz da vida, mas na metade do caminho, não resistiu e tocou o tamborinho. Ao ouvir o som do tambor a Lua pensou que o Macaquinho houvesse chegado à Terra e cortou a corda.
        O Macaquinho caiu e, antes de morrer, ainda pode dizer a uma moça que o encontrou, que aquilo que ele tinha era um tamborinho, que deveria ser entregue aos homens do seu país.
        A moça foi logo contar a todos sobre o ocorrido. Vieram pessoas de todo o país e, naquela terra africana, ouviam-se os primeiros sons de tambor.

 Contos Africanos: A Lua Feiticeira e a Filha que não sabia pilar

A LUA TINHA UMA FILHA BRANCA e em idade de casar. Um dia apareceu-lhe em casa um monhé pedindo a filha em casamento. A lua perguntou-lhe:
— Como pode ser isso, se tu és monhé? Os monhés não comem ratos nem carne de porco e também não apreciam cerveja... Além disso, ela não sabe pilar...
O monhé respondeu:
__ Não vejo impedimento porque, embora eu seja monhé, a menina pode continuar a comer ratos e carne de porco e a beber cerveja... Quanto a não saber pilar, isso também não tem importância, pois as minhas irmãs podem fazê-lo.
A lua, então, respondeu:
__ Se é como dizes, podes levar a minha filha que, quanto ao mais, é boa rapariga.
O monhé levou consigo a menina. Ao chegar a casa foi ter com a sua mãe e fez-lhe saber que a menina com quem tinha casado comia ratos, carne de porco e bebia cerveja, mas que era necessário deixá-la à-vontade naqueles hábitos. Acrescentou também que ela não sabia pilar, mas que as suas irmãs teriam a paciência de suprir essa falta.
Dias depois, o monhé saiu para o mato à caça. Na sua ausência, as irmãs chamaram a rapariga (sua cunhada) para ir pilar com elas para as pedras do rio e esta desatou a chorar.
As irmãs censuraram-na:
__ Então tu pões-te a chorar por te convidarmos a pilar?... Isso não está bem! Tens de aprender porque é trabalho próprio das mulheres.
E, sem mais conversas, pegaram-lhe na mão e conduziram-na ao lugar onde costumavam pilar.
Quando chegaram ao rio puseram-lhe o pilão na frente, entregaram-lhe um maço e ordenaram que pilasse.
A rapariga começou a pilar, mas com uma mágoa tão grande que as lágrimas não paravam de lhe escorrer pela cara. Enquanto pilava ia-se lamentando:
__ Quando estava em casa da minha mãe não costumava pilar...
Ao dizer estas palavras, a rapariga, sempre a pilar e juntamente com o pilão, começou a sumir-se pelo chão abaixo, por entre as pedras que, misteriosamente, se afastavam. E foi mergulhando, mergulhando... até desaparecer.
Ao verem aquele estranho fenômeno, as irmãs do monhé abandonaram os pilões e foram a correr contar à mãe o que acontecera. Esta ficou assustada com a estranha novidade e tinha o coração apertado de receio quando chegou o monhé, seu filho.
Este, ao ouvir o relato do que acontecera à sua mulher, ralhou com as irmãs, censurando-as por não terem cumprido as suas ordens. Apressou-se a ir ter com a lua, sua sogra, para lhe dar conta do desaparecimento da filha.
A lua, muito irritada, disse:
__ A minha filha desapareceu porque não cumpriste o que prometeste. Faz como quiseres, mas a minha filha tem de aparecer!
__ Mas como posso ir ao encontro dela se desapareceu pelo chão abaixo?
A lua mudou, então, de aspecto e, mostrando-se conciliadora, disse:
__ Bom, vou mandar chamar alguns animais para se fazer um remédio que obrigue a minha filha a voltar... Vai para o lugar onde desapareceu a minha filha e espera lá por mim.
O monhé foi-se embora e a lua chamou um criado ordenando:
__ Chama o javali, a pacala, a gazela, o búfalo e o cágado e diz-lhes que compareçam, sem demora, nas pedras do rio onde desapareceu a minha filha.
O criado correu a cumprir as ordens e os animais convidados apressaram-se para chegar ao lugar indicado. A lua também para lá se dirigiu com um cesto de alpista. Quando chegou ao rio, derramou um punhado de alpista numa pedra e ordenou ao porco que moesse.
O porco, enquanto moia, cantou:
__ Eu sou o javali e estou a moer alpista para que tu, rapariga, apareças ao som da minha voz!
Nesse momento ouviu-se a voz cava da menina que, debaixo do chão, respondia:
__ Não te conheço!
O javali, despeitado, largou a pedra das mãos e afastou-se cabisbaixo. Aproximou-se em seguida a pacala e, enquanto moia, cantou:
__ Eu sou a pacala e estou a moer alpista para que tu, rapariga, apareças ao som da minha voz!
Ouviu-se novamente a voz da menina que dizia:
__ Não te conheço!
A gazela e o búfalo ajoelharam também junto do moinho, fazendo a sua invocação, mas a menina deu a ambos a mesma resposta:
__ Não te conheço!
Por último, tomou a pedra o cágado e, enquanto moía, cantou:
__ Eu sou o cágado e estou a moer alpista para que tu, rapariga, apareças ao som da minha voz!
A menina cantou, então, em voz terna e melodiosa:
__ Sim, cágado, à tua voz eu vou aparecer!...
E, pouco a pouco, a menina começou a surgir por entre as pedras do rio, juntamente com o pilão, mas sem pilar. Quando emergiu completamente parou e ficou silenciosa.
Os animais juntaram-se todos, curiosos, à volta da menina.
Então, a lua disse:
__ Agora a minha filha já não pode continuar a ser mulher do monhé pois ele não soube cumprir o que me prometeu. Ela será, daqui para o futuro, mulher do cágado, pois só à sua voz é que ela tornou a aparecer.
Então o cágado levantou a voz dizendo:
__ Estou muito feliz com a menina que acaba de me ser dada em casamento e, como prova da minha satisfação, vou oferecer-lhe um vestido luxuoso que ela vestirá uma só vez, pois durará até ao fim da sua vida.
E, dizendo isto, entregou à menina uma carapaça lindamente trabalhada, igual à sua.
Da ligação do cágado com a filha da lua é que descendem todos os cágados do mundo...

Conto Africano: Estou voltando...”

Um jovem angolano caminhava solitário pela praia. Parou por alguns instantes para agradecer aos deuses por aquele momento milagroso: o deslumbramento de sua terra natal.
O silêncio o fez adormecer em seu âmago, despertando inesperadamente com o bater das ondas sobre as pedras. De repente, surgiram das matas homens estranhos e pálidos que o agarraram e o acorrentaram. Sua coragem e o medo travaram naquele momento uma longa batalha... Ele chamou pelos seus pais e clamou pelo seu Deus. Mas ninguém o ouviu. Subitamente mais e mais rostos estranhos e pálidos se uniram para rirem de sua humilhação. Vendo que não havia saída, o jovem angolano atacou um deles, mas foi impedido por um golpe. Tudo se transformou em trevas.
Um balanço interminável o fez despertar dentro do estômago de uma criatura. Ainda zonzo, ele notou a presença de guerreiros de outras tribos. Todos se demonstraram incrédulos sobre o que estava acontecendo. Seus olhos cheios de medo indagavam. Passos e risos de seus algozes foram ouvidos acima.
Durante a viagem muitos guerreiros morreram, sendo seus corpos lançados ao mar. Dias depois, já em terra firme, ele é tratado e vendido como um animal. Com o coração cheio de “banzo” ele e outros negros foram levados para um engenho bem longe dali. Foram recebidos pelo proprietário e pelo feitor que, com o estalar do seu chicote não precisou expressar uma só palavra.
Um dia, em meio ao trabalho, o jovem angolano fugiu. Mas não foi muito longe; foi capturado por um capitão do mato. Como castigo foi levado ao tronco onde recebeu não duas, mas cinqüenta chibatadas. Seu sangue se uniu ao solo bastardo que não o viu nascer.
Os anos se passaram, mas a sua sede por liberdade era insaciável. Várias vezes foi testemunha dos maus tratos que o senhor aplicava sobre as negras, obrigando-as a se entregarem. Quando uma recusava era imediatamente açoitada pelo seu atrevimento. A Sinhá, desonrada, vingava-se sobre uma delas, mandando que lhe cortassem os mamilos para que não pudesse aleitar.
O jovem angolano não suportando mais aquilo fugiu novamente. No meio do caminho encontrou outros negros fugidos que o conduziram ao topo de uma colina onde uma aldeia fortificada – um quilombo – estava sendo mantida e protegida por escravos.
Ali ele aprendeu a manejar armas e, principalmente a ensinar as crianças o valor da cultura africana. Também foi ali que conheceu a sua esposa, a mãe de seu filho. Com o menino nos braços, ele o ergue diante as estrelas mostrando-o a Olorum, o deus supremo...   
Surgem novos rostos, estranhos e pálidos, mas de coração puro, os abolicionistas. Eram pessoas que há anos vinham lutando pelo fim do cativeiro. Suas pressões surtiram efeito. Leis começaram a vigorar, embora lentamente, para o fim da escravatura: A Lei Eusébio Queiroz; a do Ventre-Livre, a do Sexagenário e, finalmente, a Lei Áurea. A juventude se foi.
O velho angolano agora observa seus netos correndo livremente pelos campos.
Aprenderam com o pai a zelarem pelas velhas tradições e andarem de cabeça erguida.          
         Um dia o velho ouviu o clamor do seu coração: com dificuldade caminhou solitário até a praia. Olhou compenetrado para o horizonte. Agora podia ouvir as vozes de seus pais sendo trazidas pelas ondas do mar.
A noite caiu cobrindo o velho angolano com o seu manto... Os tambores se calaram... No coração do silêncio suas palavras lentamente ecoaram:
 “Estou voltando... Estou voltando...

Conto Africano: A lenda do tamborinho

Corre entre os Bijagós, da Guiné, a lenda de que foi o Macaquinho de nariz branco quem fez a primeira viagem à Lua. A história começou assim:
    Nas proximidades de uma aldeia, os macaquinhos de nariz branco, certo dia, de que se haviam de lembrar? De fazer uma viagem à Lua e trazê-la para baixo, para a Terra.
    Ora numa bela manhã, depois de terem em vão tentado encontrar um caminho por onde subir, um deles, por sinal o mais pequeno, teve uma ideia: encavalitarem-se uns nos outros. Um agora, outro depois, a fila foi-se erguendo ao céu e um deles acabou por tocar na Lua.
Embaixo, porém, os macacos começaram a cansar-se e a impacientar- se. O companheiro que tocou na Lua nunca mais conseguia entrar. As forças faltaram-lhes, ouviu-se um grito, e a coluna desmoronou-se. Um a um, todos foram arrastados na queda e caíram no chão. Apenas um só, só um macaquito, por sinal o mais pequeno, ficou agarrado à Lua, que o segurou pela mão e o ajudou a subir.
    A Lua olhou-o com espanto e tão engraçadinho o achou que lhe deu de presente um tamborinho.
O Macaquinho começou a aprender a tocar no seu tamborinho e por longos dias deixou-se ficar por ali. Mas tanto andou, tanto passeou, tanto no tamborinho tocou, que os dias se passaram uns atrás dos outros e o macaquinho de nariz branco começou a sentir profundas saudades da Terra e das suas gentes. Então, foi pedir à Lua que o deixasse voltar.
— Para que queres voltar?— Tenho saudades da minha terra, das palmeiras, das mangueiras, das acácias, dos coqueiros, das bananeiras.
A Lua mandou-o sentar no tamborinho, amarrou-o com uma corda e disse-lhe:
— Macaquinho de nariz branco, vou-te fazer descer, mas toma tento no que te digo. Não toques o tamborinho antes de chegares lá abaixo. E quando puseres os pés na Terra, tocarás então com força para eu ouvir e cortar a corda. E assim ficarás liberto.
        O Macaquinho, muito feliz da vida, foi descendo sentado no tambor. Mas a meio da viagem, oh!, não resistiu à tentação. E vai de leve, levezinho, de modo que a Lua não pudesse ouvir, pôs-se a tocar o tambor tamborinho. Porém, o vento soltando brandos rumores fazia estremecer levemente a corda. Ouviu a Lua os sons compassados do tantã(1) e pensou:
    'O Macaquinho chegou à Terra'. E logo mandou cortar a corda.E eis o macaquinho atirado ao espaço, caindo desamparado na ilha natal. Ia pelo caminho diante uma rapariga cantando e meneando- -se ao ritmo de uma canção. De repente viu, com espanto, o infeliz estendido no chão. Mas tinha os olhos muito abertos, despertos, duas brasas produzindo luz. O tamborinho estava junto dele. E ainda pôde dizer à rapariga que aquilo era um tambor e o entregava aos homens do seu país.
    A moça, ainda não refeita da surpresa, correu o mais velozmente que pôde a contar aos homens da sua raça o que acabava de acontecer.Veio gente e mais gente. Espalhavam-se archotes. Ouviam-se canções. E naquele recanto da terra africana fazia-se o primeiro batuque(2) ao som do maravilhoso tambor.Então os homens construíram muitos tambores e, dentro em pouco, não havia terra africana onde não houvesse esse querido instrumento.Com ele transmitiam notícias a longas distâncias e com ele festejavam os grandes dias da sua vida e a sua raça.
O tambor tamborinho ficou tão querido e tão estremecido do povo africano que, em dias de tristeza ou em dias de alegria, é ele quem melhor exprime a grandeza da sua alma."

 Conto Africano: COMO SURGIU A GALINHA D”ANGOLA.

            Antigamente as aves viviam felizes nos campos e florestas africanas, até que a inveja se instalou entre elas tornando insuportável a convivência.
            Nessa ocasião, quase todos os pássaros passaram a invejar a família do Melro, que era muito bonito. O macho, com sua plumagem negra e seu bico amarelo –alaranjado, despertava em todos a vontade de ser igual a ele. As fêmeas tinha o dorso preto, o peito pardo-escuro, malhado de pardo-claro, e a garganta com manchas esbranquiçadas. Elas causavam inveja maior ainda.
            O Melro, vaidoso, certo de sua beleza, prometeu que se todas as aves o obedecessem usaria seus poderes mágicos e os tornaria negros com plumagem brilhante. Entretanto, os pássaros logo começaram a desobedecê-lo. Então ele, furioso, jurou vingança, rogou-lhes uma praga e deu-lhes cores e aspectos diferentes.
            Para a Galinha D”Angola, disse que seria magra e sentiria fraqueza constante. Fez com que seu corpo se tornasse pintado assim  como o de um leopardo. Dessa forma, seria devorada por aqueles felinos, que não suportariam ver outro animal que tivesse o corpo tão belo, pintado de uma maneira semelhante ao deles. Ela pagaria assim por sua inveja. E foi isso que aconteceu.
            Desde esse dia a Galinha D”Angola, embora seja muito esperta e voe para fugir dos caçadores, vive reclamando to fraca, to fraca. Com suas perninhas magras, foge com seu bando assim que surge algum perigo e é muito difícil alcançá-la. Suas penas, cinzas, brancas ou azuladas, são sempre manchadinhas de escuro tornando as galinhas d”angola belas e cobiçadas

 Conto Africano: As duas irmãs

Há muito tempo, duas irmãs, Omelumma e Omeluka, adoravam brincar ao ar livre, rir e correr para todo lado. Certo dia, seus pais saíram para a feira que era um pouco longe de casa, e recomendaram:
      - Cuidado com os animais da terra e do mar, porque muitas pessoas já foram levadas pelos monstros. Fiquem dentro de casa e não façam muito barulho. Quando fizerem comida, acendam um fogo pequeno, para que a fumaça não atraia os animais. E, quando secarem os grãos, façam em silêncio, para que os monstros não ouçam.Porém - disse o pai - o mais importante, é que não saiam para brincar com outras crianças. Fiquem dentro de casa.
     As duas concordaram com tudo. Acenaram em despedida quando os pais se afastaram.
Ficaram dentro de casa a manhã inteira, mas conforme as horas iam passando, aumentava a sensação de fome. Então, começaram a socar os grãos para fazer uma papa, e aquilo virou logo uma brincadeira. Elas riam e faziam muito barulho. Aí acenderam um grande fogo para que a comida ficasse pronta mais depressa, esquecendo-se da advertência dos pais.
       Após comer até se fartar, as duas viram os amigos brincando no campo e foram correndo brincar com eles.
         Enquanto brincavam, um rugido imenso saiu de dentro da mata e outro veio do mar, aparecendo muitos monstros que cercaram as crianças. Aterrorizadas, as duas correram, mas foram separadas. Os monstros do mar carregaram Omelumma e os da terra Omeluka.
As duas pensaram> “ se tivéssemos ouvido nossos pais. Agora seremos devoradas pelos monstros.”
       Porém, eles não as devoraram, mas as venderam como escravas em lugares muito distantes de sua terra. Omelumma foi escolhida por um homem, que comprou-a e casou-se com ela. Omeluka, mais jovem, não teve a mesma sorte. Foi escolhida por um homem cruel, que a comprou, mas a fez de escrava, dando-lhe muitas tarefas dia e noite.
        Passado um tempo ele vendeu-a para um outro homem ainda pior do que ele que a maltratava ainda mais. Assim, passaram-se muitos anos.
         Enquanto isso, Omelumma vivia confortavelmente com o marido e deu à luz seu primeiro filho, um menino. O marido foi ao mercado para encontrar uma escrava que pudesse ajudá-la nas tarefas com o bebê e a irmã, Omeluka, estava lá, para ser vendida.
Assim, ele trouxe Omeluka para ser escrava da irmã, mas ela estava muito mudada, devido aos maus tratos que sofrera e Omelumma não reconheceu-a.
         Todas as manhãs, Omelumma ia para o mercado e entregava o bebê aos cuidados da irmã, deixando também, muitas tarefas para serem realizadas. Omeluka se desdobrava, mas era muito serviço. Quando ia buscar água ou lenha, o bebê ficava em casa, todavia seu choro a trazia rapidamente de volta, e assim não trazia a lenha suficiente. A irmã quando chegava a surrava por não ter cumprido suas ordens, mas se ela deixava o bebê chorando, os vizinhos contavam e ela apanhava do mesmo jeito.
  Ela tentou levar o bebê quando ia pegar lenha, mas não deu certo, porque não conseguia fazer o serviço com ele no colo.
        Certa tarde, o bebê só interrompeu o choro, quando ela o colocou no colo e o embalou suavemente. Uma vizinha aproximou-se perguntando por que ela não fazia suas tarefas. Ela ficou com medo de ser denunciada e voltou ao trabalho. Mas o bebê começou a chorar e ela não teve saída senão se sentar e começar a embalá-lo de novo. Não sabendo mais o que fazer, finalmente entoou uma canção:
        Shsh, shsh, bebezinho, não chore mais
        Nossa mãe nos disse para não fazer fogo grande,
        Mas nós fizemos
         Nossa mãe nos disse para não fazer barulho,
        Mas nós fizemos.
        Nosso pai nos disse para não brincar lá fora,
         Mas nós brincamos.
       Então os monstros do mato e do mar nos levaram embora,
       Para muito longe, muito longe!
        E onde pode a minha irmã estar?
       Muito longe, muito longe!
        Shsh, shsh, bebezinho não chore mais.
      
Uma velha que ouviu aquela cantiga, lembrou-se da história que Omelumma lhe contara, há muito tempo, sobre terem sido levadas pelos monstros do mar e da terra. Ela percebeu que a escrava devia ser a irmã de Omelumma, há tanto tempo sumida. Correu até o mercado para contar a novidade à Omelumma.
         No dia seguinte, ela deu várias tarefas à irmã e em seguida saiu, para o mercado. Mas voltou em segredo e viu como a irmã corria de um lado para o outro tentando impedir o bebê de chorar enquanto fazia seu serviço. Finalmente a irmã sentou-se e começou a cantar a canção que a velha escutara.
         Assim que Omelumma ouviu a canção, reconheceu que era sua irmã e, chorando de dor e remorso, chegou perto dela para pedir perdão.
          As duas se abraçaram e choraram juntas. Em seguida Omelumma libertou a irmã, jurou nunca mais maltratar nenhum servo e quando o marido chegou também ficou muito feliz ao saber da novidade. Viveram depois disso, muito felizes.


 Conto Africano:"O Jabuti e o Leopardo"

O jabuti, distraído como sempre, estava voltando apressado para casa . A noite começava a cobrir a floresta com seu manto escuro e o melhor era apertar o passo.
      De repente ...caiu numa armadilha !
Um buraco profundo coberto por folhas de palmeiras que havia sido cavado na trilha, no meio da floresta, pelos caçadores da aldeia para aprisionar os animais.
O jabuti, graças a seu grosso casco, não se machucou na queda, mas...como escapulir dali ? Tinha que encontrar uma solução antes do amanhecer se não quisesse virar sopa para os aldeões...
Estava ainda perdido em seus pensamentos quando um leopardo caiu também na mesma armadilha !!! O jabuti deu um pulo, fingindo ter sido incomodado em seu refúgio, e berrou para o leopardo:
"-Que é isto ? o que está fazendo aqui ? Isto são modos de entrar em minha casa ? Não sabe pedir licença ?!"
E quanto mais gritava. E continuou...
"-Não vê por onde anda ? Não sabe que não gosto de receber visitas a estas horas da noite? Saia já daqui ! Seu pintado mal-educado !!!"
O leopardo bufando de raiva com tal atrevimento, agarrou o jabuti...e com toda a força jogou-o para fora do buraco !
O jabuti, feliz da vida, foi andando para sua casa tranquilamente!
Há! Espantado ficou o leopardo...

 Conto Africano: O MACACO E O HIPOPÓTAMO

EM uma época muito antiga, quando as bananeiras produziam poucas bananas, existiam numerosos macacos.
Havia um deles chamado Travesso, que morava nas margens do rio.
O macaco Travesso possuía um grupo de bananeiras que lhe proporcionavam frutos suficientes para a sua alimentação, o que lhe trazia satisfação e orgulho porque os seus frutos eram os mais saborosos da região.
No rio habitava o hipopótamo Ra-Ra, que era o rei daquelas paragens.
A corpulência desse animal era notável e tão grande a sua boca, que podia tragar seis macacos de uma só vez.Além disso, gostava imensamente de bananas e, especialmente as da propriedade de Travesso.
Ra-Ra resolveu roubar-lhe as bananas, apesar de não ser um ato muito bonito para um rei.Ordenou então a todos os papagaios que as trouxessem para a sua residência.
Entretanto, o macaco não arredava pé do seu grupo de bananeiras, a fim de impedir que desaparecessem os seus preciosos frutos.
Os papagaios logo encontraram este obstáculo sério e recorreram à astúcia para cumprir as ordens do rei. Após uma conferência de várias horas estudando diversas soluções para resolver eficientemente o problema do roubo, concordaram em dizer ao macaco  que seu irmão estava muito doente e desejava vê-lo.
Quando Travesso recebeu a notícia, bom irmão que era, foi depressa procurar seu irmão doente. Verificou logo que aquilo não era verdade. Seu irmão estava gozando de boa saúde e, suspeitando imediatamente do que se tratava, voltou a toda pressa para perto de suas bananeiras.
Uma surpresa dolorosa o aguardava. Não ficara nem uma banana para semente. Enquanto lamentava sua perda aproximou–se um papagaio, dizendo-lhe:
— Oh!,irmão Travesso! Sabes que Ra-Ra, o hipopótamo, nos obrigou a roubar-te as bananas e depois não nos quis dar uma só!
— Ah! E’ assim? Então espera… Irei à casa de Ra-Ra e tirar-lhe-ei as minhas bananas! — exclamou o macaco.
A serpente, que é um animal invejoso, cheio de defeitos, dos quais o pior é o espírito de intriga, passou por ali por acaso quando o macaco falava e, ato contínuo, foi contar tudo ao hipopótamo.
— Está bem! — disse Ra-Ra. — Em tal caso ordeno ao Travesso que compareça aqui quanto antes.
A Serpente voltou ao lugar em que vivia Travesso e lhe deu a ordem de Ra-Ra, de modo que o macaco se pôs a tremer, pois, não era tão valente como as suas palavras pareciam revelar.
Era preciso obedecer e quando se dispunha a fazer a desagradável visita ao hipopótamo, ocorreu-lhe uma idéia. Preparou com o maior cuidado uma boa quantidade de visgo, a cola que usava para caçar passarinhos, e untou-se com ele muito bem. Feito isto encaminhou-se para a casa de Ra-Ra, à margem do rio.
— Disseram-me — disse-lhe o hipopótamo, ao vê-lo — que ameaçaste de vir recobrar tuas bananas. É certo que o disseste?
— De modo algum, senhor — respondeu Travesso. — Tanto minhas frutas como eu mesmo, estamos à sua disposição.
 — Bem, fico muito satisfeito em ouvir estas palavras. Sem dúvida, quiseram fazer intriga e contaram-me essa mentira. Senta-te. Porém, procura fazê-lo de frente para mim e sem tocar em nenhuma das bananas que estão atrás de ti.
Assim fez Travesso, apoiando com força as costas, inteiramente untadas, contra as bananas.
— Disseram-me que sabes muitas histórias. Queres contar-me uma?
O macaco dispôs-se a satisfazer o desejo de seu soberano e lhe contou uma história muito interessante.
Enquanto isso não se esquecia de esfregar o corpo contra as bananas afim de que aderisse às suas costas o maior número delas.Terminado o conto, Ra-Ra disse-lhe:
— Obrigado. Podes sair, mas toma cuidado para saíres de frente para mim. Assim se deve fazer diante de um rei.
Nada podia favorecer melhor o macaco, que estava com as costas cheias das bananas que a elas se haviam colado.
Quando se viu fora da casa do hipopótamo, pôs-se a correr, ocultando-se.
Os papagaios não tardaram a descobrir a astúcia do macaco e foram correndo contar a Ra-Ra.
O hipopótamo, ao tomar conhecimento da notícia, teve tão grande ataque de raiva que virou de barriga para o ar, morrendo instantaneamente.
Então, os animais reuniram-se e, diante da inteligência do macaco, resolveram aclamá-lo soberano.
Ficou muito conhecido por sua esperteza e deram-lhe, então, o nome de Sua Majestade Travesso I, o Esperto.

E o seu governo foi sábio e prudente, durante anos e anos.

 Conto Africano: A onça e a raposa

A onça estava cansada de ser enganada pela raposa, e mais irritada ainda por não conseguir pegá-la para poder fazer um bom guisado.
      Um dia teve uma idéia: deitou-se na sua toca e fingiu-se de morta.
      Quando os bichos da floresta souberam da novidade, ficaram tão felizes, mas tão felizes que correram na toca da onça para ver se a sua morte era mesmo verdade.
      Afinal de contas, a onça era uma bicho danado!  Vivia dado sustos nos outros animais!  Por isso estavam todos muitos felizes com a noticia de sua morte.
     A raposa porém, ficou desconfiada e como não é boba nem nada,ficou de longe, apreciando a cena. Atrás de todos os animais, ela gritou:
    _ Minha avó quando morreu, espirrou três vezes. Quem tá morto de verdade, tem que espirrar.
      A onça ouviu aquilo e para demonstrar para todos que estava mesmo mortinha da silva, espirrou três vezes.
     - É mentira gente! Ela tá viva!- Gritou a raposa
      Os bichos correram assustados, enquanto a onça levantava furiosa. A raposa fugiu rindo á beça da cara da sua adversária. Mas a onça não desistiu de apanhar a raposa e pensou num plano.
      Havia uma grande seca na floresta, e os bichos para beber água tinham que ir num lago perto da sua toca. Então ela resolveu ficar ali.
      Deitada.Quieta.Esperando...
       Espreitando a raposa dia e noite, sem parar.
       Um dia, irritada e com muita sede, a raposa resolveu dar basta naquela situação. E também elaborou um plano. Lambuzou-se de mel e espalhou um monte de folha seca por seu corpo cobrindo-o todo. Chegando ao lago encontrou a onça. Sua adversária, olhou-a bem e perguntou:
     _ Que bicho é você que eu não conheço?
     Cheia de astúcia, a raposa respondeu:
    _ Sou o bicho folharal!
    _ Então, pode beber água.
     Vendo que a raposa bebia água como se tivesse muita sede, a onça perguntou desconfiada;
    _ Está com muita sede hein!
     Nisso, a água amoleceu o mel e as folhas foram caindo do corpo da raposa.     
      Quando a última folha caiu, a onça descobrindo que foi enganada,pulou sobre ela.Mas nisso, a esperta raposa já tinha fugido rindo às gargalhadas.

Conto Africano : O CAÇADOR FURTIVO

PEDRO estava almoçando em companhia de seus pais. Prestava muita atenção à conversa dos mesmos, porque de fato era muito interessante.
— Há muitos caçadores furtivos nos bosques — disse o pai. — Joaquim, o guarda, diz que não sabe quem é o culpado, mas, que todas as noites desaparecem coelhos e aves. Deve, forçosamente, ser algum forasteiro!
— Escuta, papai — interrompeu Pedro — Joaquim não viu o caçador furtivo?
— Sim! Julga que uma vez chegou a vê-lo! — respondeu o pai. — É um indivíduo alto, forçudo e com barbas!
Pedro ficou muito preocupado com o caçador furtivo e pensou que um dia Joaquim havia de surpreender o criminoso.
— Se eu tivesse uma espingarda como Joaquim, havia de persegui-lo todas as noites, e não teria medo algum! — pensou o menino. — Oxalá pudesse descobri-lo!
Dois dias depois, quando o sol se punha, deu-se a casualidade de estar Pedro debruçado à janela mais alta de sua casa. Procurava ver se descobria seu amigo Tomás, o filho do guarda, na colina situada em frente da casa.
Enquanto olhava, seus olhos se fixaram num indivíduo alto, que desaparecia nos bosques de seu pai.
O sol poente fez brilhar por um instante a arma de fogo que o desconhecido levava debaixo do braço. Pedro imediatamente se lembrou de que aquele indivíduo poderia muito bem ser o caçador furtivo.
— Quem será esse que a estas horas se mete nos bosques de papai? É alto e leva espingarda! Se for o caçador furtivo que hei de fazer eu agora?
Desceu correndo e dirigiu-se a Jaime, o cocheiro.
— Jaime, Jaime! — exclamou arquejante. — Nos bosques está um caçador furtivo! Veja se pode apanhá-lo!
— Calma, calma, Pedrinho! — respondeu Jaime sorrindo. — Estou vendo que queres caçoar comigo! — acrescentou.
— Juro que é verdade, Jaime! — exclamou o menino, agarrando-se ao braço do cocheiro. — Faz-me o favor de ir lá antes que seja tarde e que ele mate todas as aves e todos os coelhos de papai!
— Não diga tolices! — replicou o cocheiro. — Tenho muito o que fazer e se quiseres vai tu mesmo apanhar esse caçador furtivo!
Pedro compreendeu que era inútil insistir com Jaime, e, por isso, saiu a correr.
— Não há tempo de ir em busca de mais ninguém — pensou. — E se eu mesmo fosse apanhá-lo na floresta?
Correu em direção ao bosque e, antes mesmo de haver pensado no que faria, esbarrou com o desconhecido.
— Quem é você, menino? — perguntou aquele.
— Pouco lhe importa saber! — respondeu Pedro bruscamente, porque se sentia muito corajoso. — Você é um caçador furtivo! — Joaquim já o viu uma vez. Você é alto, usa barba e traz espingarda! E hoje voltou para caçar indevidamente nos bosques de meu pai! Faça o favor de me acompanhar!
O desconhecido pôs-se a rir.
— E onde pretende levar-me? — perguntou.
— Aqui perto, em casa de meu pai! E não resista, porque papai ficará muito zangado!
— E se eu tentar fugir? — perguntou o homem. — O que fará você?
— Seguí-lo-ei — respondeu Pedro. — E posso afirmar-lhe que corro com muita rapidez! Além disso gritaria chamando Joaquim, o guarda, de forma que não tardaria em ser o senhor preso. É melhor vir comigo, porque se livrará dos ponta-pés e bordoadas que Joaquim certamente lhe aplicaria!
— Bom! — concordou o desconhecido. — Entrego-me e o acompanho.
Pedro o segurou pela manga do casaco e, tirando-o do bosque, levou-o até à sua casa.
O desconhecido o seguiu docilmente, sem intentar sequer a fuga.
Pedro se considerava muito valente. Acabava de prender, ele sozinho, um caçador furtivo. O que iria dizer o seu pai quando eles chegassem?
Além disso, estava muitíssimo contente porque todos os seus colegas de escola ficariam sabendo que ele era valente e não tinha medo de um caçador furtivo. Considerava-se um herói completo!
— Papai! Papai! — gritou ao chegar. — Venha ver o caçador furtivo! Eu o prendi e encerrei-o no telheiro! Tem espingarda e bolsa, que com certeza deve estar repleta de coelhos.
Papai e mamãe apressaram-se a acudir muito surpreendidos e Pedro os conduziu ao telheiro.
— Cuidado! — disse ele ao pai. — Pode tentar uma fuga e nos apanhar de surpresa.
Papai abriu a porta e olhou para dentro. Deu um grito de assombro e entrou no telheiro.
— Guilherme! Querido Guilherme! — exclamou. — De onde vens? Não esperávamos que você chegasse tão cedo!
Aquele homem de elevada estatura saiu sorrindo e segurando no braço de papai. Pedrinho não podia compreender o que significava aquilo. Pois não é que seu pai tratava amigavelmente aquele desconhecido?
— Este é o teu tio Guilherme! — disse o pai a Pedro. — Vem de caçar tigres em um país muito distante, para passar uma temporada conosco. E você menino foi prendê-lo, confundindo-o, com um caçador furtivo!
“Meu Deus!”
Pedro ficou vermelho como um tomate e muito envergonhado olhou para o seu tio Guilherme!
— Sinto muito! — disse por fim. — A verdade é que pensei mesmo que o senhor fosse um caçador furtivo!
O menino acrescentou ainda:
— Por que então, o senhor não me disse logo que era o tio Guilherme? Teria evitado o aborrecimento de fechá-lo no telheiro!
— Você é o menino mais valente que tenho conhecido — respondeu o tio. — Você sozinho me apanhou e me prendeu quando eu menos esperava! Prometo um dia levá-lo comigo, porque estou orgulhoso de ter um sobrinho como você!
A aventura, pois, não teve conseqüências. Papai estava muito orgulhoso de Pedro e a mesma coisa pensava a mamãe.
Assim, portanto, Pedro não se envergonhou quando, brincando, zombavam dele por ter encerrado o tio Guilherme no telheiro do jardim, pensando ser um herói conforme vira no cinema.
Entretanto, no íntimo, Pedrinho estava desgostoso. Se os seus amiguinhos viessem, a saber, do acontecido, caçoariam dele e teria que demonstrar que não admitia brincadeiras.
Pedro e o tio Guilherme se fizeram muito bons amigos.
Não tardaram em empreender uma viagem muito longa, não para prender caçadores furtivos, mas, para matar tigres na África. Lá pôde demonstrar a sua coragem não fugindo nunca aos constantes perigos das florestas africanas.
Hoje ele tem satisfação em ter sido valente.

 Conto Africano: A MENINA QUE NÃO FALAVA
      
        Certo dia, um rapaz viu uma rapariga muito bonita e apaixonou-se por ela. Como se queria casar com ela, no outro dia, foi ter com os pais da rapariga para tratar do assunto. 
      --Essa nossa filha não fala. Caso consigas faze-la falar, podes casar com ela - responderam os pais da rapariga. 
     O rapaz aproximou-se da menina e começou a fazer-lhe várias perguntas, a contar coisas engraçadas, bem como a insulta-la, mas a miúda não chegou a rir e não pronunciou uma só palavra. O rapaz desistiu e foi-se embora. 
     Após este rapaz, seguiram-se outros pretendentes, alguns com muita fortuna mas, ninguém conseguiu faze-la falar.  O último pretendente era um rapaz sujo, pobre e insignificante. Apareceu junto dos pais da rapariga dizendo que queria casar com ela, ao que os pais responderam: 
    ----Se já várias pessoas apresentáveis e com muito dinheiro não conseguiram faze-la falar, tu é que vais conseguir? Nem penses nisso! 
    O rapaz insistiu e pediu que o deixassem tentar a sorte. Por fim, os pais acederam.  O rapaz pediu à rapariga para irem à sua machamba,  para esta o ajudar a sachar. A machamba estava carregada de muito milho e amendoim e o rapaz começou a sacha-los. 
    Depois de muito trabalho, a menina ao ver que o rapaz estava a acabar com os seus produtos, perguntou-lhe:
    -----O que estás a fazer? 
     O rapaz começou a rir e, por fim, disse para regressarem a casa para junto dos pais dela e acabarem de uma vez com a questão. 
     Quando aí chegaram, o rapaz contou o que se tinha passado na machamba. A questão foi discutida pelos anciãos da aldeia e organizou-se um grande casamento. 

 Conto Africano: A GAZELA E O CARACOL

Uma gazela encontrou um caracol e disse-lhe:
__ Tu, caracol, és incapaz de correr, só te arrastas pelo chão. 
O caracol respondeu: 
__ Vem cá no Domingo e verás! 
O caracol arranjou cem papéis e em cada folha escreveu:
“Quando vier a gazela e disser: caracol, tu respondes com estas palavras: "Eu sou o caracol". Dividiu os papéis pelos seus amigos caracóis dizendo-lhes: 
__ Leiam estes papéis para que saibam o que fazer quando a gazela vier. 
No Domingo a gazela chegou à povoação e encontrou o caracol. Entretanto, este pedira aos seus amigos que se escondessem em todos os caminhos por onde ela passasse, e eles assim fizeram. 
Quando a gazela chegou, disse: 
__ Vamos correr, tu e eu, e tu vais ficar para trás! 
O caracol meteu-se num arbusto, deixando a gazela correr. 
Enquanto esta corria ia chamando: 
__ Caracol!  
E havia sempre um caracol que respondia: 
__ Eu sou o caracol. 
Mas nunca era o mesmo por causa das folhas de papel que foram distribuídas. 
A gazela, por fim, acabou por se deitar, esgotada, morrendo com falta de ar. O caracol venceu, devido à esperteza de ter escrito cem papéis. 
  
Conto Africano: O HOMEM CHAMADO NAMARASOTHA

Havia um homem que se chamava Namarasotha. Era pobre e andava sempre vestido com farrapos. Um dia foi à caça. Ao chegar ao mato, encontrou uma impala morta. Quando se preparava para assar a carne do animal apareceu um passarinho que lhe disse: 
__ Namarasotha, não se deve comer essa carne. Continua até mais adiante que o que é bom estará lá. 
O homem deixou a carne e continuou a caminhar. Um pouco mais adiante encontrou uma gazela morta. Tentava, novamente, assar a carne quando surgiu um outro passarinho que lhe disse: 
__ Namarasotha, não se deve comer essa carne. Vai sempre andando que encontrarás coisa melhor do que isso. 
Ele obedeceu e continuou a andar até que viu uma casa junto ao caminho. Parou e uma mulher que estava junto da casa chamou-o, mas ele teve medo de se aproximar pois estava muito esfarrapado. 
__Chega aqui!- insistiu a mulher. 
Namarasotha aproximou-se então. 
__ Entra - disse ela. 
Ele não queria entrar porque era pobre. Mas a mulher insistiu e Namarasotha entrou, finalmente. 
__Vai te lavar e veste estas roupas - disse a mulher.
E ele lavou-se e vestiu as calças novas. Em seguida, a mulher declarou: 
__ A partir deste momento esta casa é tua. Tu és o meu marido e passas a ser tu a mandar. 
E Namarasotha ficou, deixando de ser pobre. 
Um certo dia havia uma festa a que tinham de ir. Antes de partirem para a festa, a mulher disse a Namarasotha: 
__ Na festa a que vamos quando dançares não deverás virar-te para trás. 
Namarasotha concordou e lá foram os dois. Na festa bebeu muita cerveja de farinha de mandioca e embriagou-se. Começou a dançar ao ritmo  do batuque. A certa altura a música tornou-se tão animada que ele acabou por se virar. 
E no momento em que se virou, ficou como estava antes de chegar à casa da mulher: pobre e esfarrapado. 

 Conto Africano:  O RATO E O CAÇADOR

Antigamente havia um caçador que usava armadilhas, abrindo covas no chão. Ele tinha uma mulher que era cega e fizera com ela três filhos. 
Um dia, quando visitava as suas armadilhas, encontrou-se com um leão: 
        __Bom dia, senhor! Que fazes por aqui no meu território?
__ Ando a ver se as minhas armadilhas apanharam alguma coisa -respondeu o homem. 
__Tu tens de pagar um tributo, pois esta região pertence-me. O primeiro animal que apanhares é teu e o segundo meu e assim sucessivamente. 
O homem concordou e convidou o leão a visitar as armadilhas, uma das quais tinha uma presa ,uma gazela. Conforme o combinado, o animal ficou para o dono das armadilhas. 
Passado algum tempo, o caçador foi visitar os seus  familiares e não voltou no mesmo dia. A mulher, necessitando de carne, resolveu ir ver se alguma das armadilhas tinha presa. Ao tentar encontrar as armadilhas, caiu numa delas com a criança que trazia ao colo. 
O leão que estava à espreita entre os arbustos, viu que a presa era uma pessoa e ficou à espera que o caçador viesse para este lhe entregar o animal, conforme o contrato. 
No dia seguinte, o homem chegou a sua casa e não encontrou nem a mulher nem o filho mais novo. Resolveu, então, seguir as pegadas que a sua mulher tinha deixado, que o guiaram até à zona das armadilhas.   
Quando aí chegou, viu que a presa do dia era a sua mulher e o filho. O leão, lá de longe, exclamou ao ver o homem a aproximar-se: 
__Bom dia amigo! Hoje é a minha vez! A armadilha apanhou dois animais ao mesmo tempo. Já tenho os dentes afiados para os comer! 
__ Amigo leão, conversemos sentados. A presa é a minha mulher e o meu filho. 
__Não quero saber de nada. Hoje a caçada é minha, como rei da selva e conforme o combinado, protestou o leão. 
De súbito, apareceu o rato. 
__Bom dia titios! O que se passa? - Disse o pequeno animal. 
__Este homem está a recusar-se a pagar o seu tributo em carne, segundo o combinado. 
__Titio, se concordaram assim, porque não cumpres? Pode ser a tua mulher ou o teu filho, mas deves entrega-los. Deixa isso e vai-te embora, disse o rato ao homem. 
Muito contrariado, o caçador retirou-se do local da conversa, ficando o rato, a mulher, o filho e o leão. 
__ Ouve, tio leão, nós já convencemos o homem a dar-te as presas. Agora deves-me explicar como é que a mulher foi apanhada. Temos que experimentar como é que esta mulher caiu na armadilha (e levou o leão para perto de outra armadilha). 
Ao fazer a experiência, o leão caiu na armadilha. 
Então, o rato salvou a mulher e o filho, mandando-os para casa. 
A mulher, vendo-se salva de perigo, convidou o rato a ir viver para a sua casa, comendo tudo o que ela e a sua família comiam. 
Foi a partir daqui que o rato passou a viver em casa do homem, roendo tudo quanto existe... 

 Conto Africano: OS SEGREDOS DA NOSSA CASA

Certo dia, uma mulher estava na cozinha e, ao atiçar a fogueira, deixou cair cinza em cima do seu cão. 
O cão queixou-se: 
__ A senhora, por favor, não me queime! 
Ela ficou muito espantada: um cão a falar! Até parecia mentira... 
Assustada, resolveu bater-lhe com o pau com que mexia a comida. Mas o pau também falou: 
__O cão não me fez mal. Não quero bater-lhe! 
A senhora já não sabia o que fazer e resolveu contar às vizinhas o que se tinha passado com o cão e o pau. 
Mas, quando ia sair de casa a porta, com um ar zangado, avisou-a: 
__Não saias daqui e pensa no que aconteceu. Os segredos da nossa casa não devem ser espalhados pelos vizinhos. 
A senhora percebeu o conselho da porta. Pensou que tudo começara porque tratara mal o seu cão. Então, pediu-lhe desculpa e repartiu o almoço com ele. 
  
Conto Africano: TODOS DEPENDEM DA BOCA...

Certo dia, a boca, com ar vaidoso, perguntou: 
__Embora o corpo seja um só, qual é o órgão mais importante? 
Os olhos responderam: 
__O órgão mais importante somos nós: observamos o que se passa e vemos as coisas. 
__ Somos nós, porque ouvimos - disseram os ouvidos. 
__Estão enganados. Nós é que somos mais importantes,  porque agarramos as coisas - disseram as mãos. 
Mas o coração também tomou a palavra: 
__Então e eu? Eu é que sou importante: faço funcionar todo o corpo! 
__ E eu trago em mim os alimentos! - interveio a barriga. 
__Olha! Importante é aguentar todo o corpo como nós, as pernas, fazemos. 
Estavam nisto quando a mulher trouxe a massa, chamando-os para comer. Então os olhos viram a massa, o coração emocionou-se, a barriga esperou ficar farta, os ouvidos escutavam, as mãos podiam tirar bocados, as pernas  andaram... mas a boca recusou comer. E continuou a recusar. 
Por isso, todos os outros órgãos começaram a ficar sem forças... 
Então a boca voltou a perguntar: 
__Afinal qual é o órgão mais importante no corpo? 
__És tu boca - responderam todos em coro. Tu és o nosso rei! 

Conto Africano: UMA IDÉIA TONTA 

Um dia a hiena recebeu convite para dois banquetes que se realizavam à mesma hora em duas povoações muito distantes uma da outra. Em qualquer dos festins era abatido um boi, e sabe-se que hiena é especialmente gulosa. 
__Não há dúvida de que tenho de assistir aos dois banquetes, pois não quero desconsiderar os anfitriões. Também as oportunidades de comer carne de boi não são muitas... mas como hei-de fazer, se as festas são em lugares tão distantes um do outro? 
A hiena pensou, pensou... e, de repente, bateu com a mão na testa. 
__Descobri! Afinal é simples... -disse ela, muito contente com a sua esperteza. 
Saiu à pressa de casa. Assim que chegou ao local donde partiam os dois caminhos que levavam aos locais das festas, começou a andar pelo caminho que ficava do lado direito com a perna direita e pelo caminho que ficava do lado esquerdo, com a perna esquerda. 
Pensava chegar deste modo a ambas as festas ao mesmo tempo. Mas começou a ficar admirada de lhe custar tanto caminhar dessa maneira. E fez tanto esforço, que se sentiu dividir em duas de alto a baixo. 
Coitada, lá a levaram ao médico que a proibiu, desde logo, de comer carne de boi durante um mês. 
É muito tonta a hiena! 

 Conto Africano: A HIENA E O GALA-GALA

A Hiena estabeleceu relações de amizade com o Gala-Gala. 
Um dia, a Hiena preparou cerveja e foi chamar o seu amigo lagarto: 
__ Vamos beber cerveja. 
Foram. O Gala-Gala embriagou-se. Perguntou à sua amiga Hiena: 
__ Amiga, tu que gostas tanto de carne, se me encontrares morto no caminho, és capaz de me comer? 
__Não, isso nunca. Eu quero ser tua amiga. 
O lagarto embriagou-se muito e despediu-se: 
__ Amiga, vou para minha casa. 
__Está bem. 
O Gala-Gala partiu. A meio do caminho, deitou-se a dormir. A Hiena pensou: "O meu amigo bebeu muito. É melhor ir ver se ele chega bem a casa".
Encontrou-o no caminho, deitado. Levantou-o: 
__É sono, amigo? É embriaguez? 
Segurou-o, virando-o. O lagarto calou-se, sem respirar. A Hiena agarrou nele e atirou-o para o mato. Depois saiu do caminho, foi ver onde é que o Gala-Gala tinha caído e encontrou-o. 
__O meu amigo morreu. 
Cortou lenha, fez fogo, e agarrou no lagarto para o assar na fogueira. O Gala-Gala, sentindo o calor do fogo, bateu com a cauda nos olhos da Hiena e subiu, depressa, para uma árvore. 
A amizade entre eles acabou ali. O Gala-Gala passou a viver nas árvores e a Hiena continuou a andar no chão, para nunca mais se encontrarem. 

 Conto Africano: CORAÇÃO-SOZINHO 

O Leão e a Leoa tiveram três filhos; um deu a si próprio o nome de Coração-Sozinho, o outro escolheu o de Coração-com-a-Mãe e o terceiro o de Coração-com-o-Pai. 
Coração-Sozinho encontrou um porco e apanhou-o, mas não havia quem o ajudasse porque o seu nome era Coração-Sozinho. 
Coração-com-a-Mãe encontrou um porco, apanhou-o e sua mãe veio logo para o ajudar a matar o animal. Comeram-no ambos. 
Coração-com-o-Pai apanhou também um porco. O pai veio logo para o ajudar. Mataram o porco e comeram-no os dois. 
Coração-Sozinho encontrou outro porco, apanhou-o mas não o conseguia matar. Ninguém foi em seu auxílio. Coração-Sozinho continuou nas suas caçadas, sem ajuda de ninguém. Começou a emagrecer, a emagrecer, até que um dia morreu. 
Os outros continuaram cheios de saúde por não terem um coração sozinho. 

 Conto Africano: O FIM DA AMIZADE ENTRE O CORVO E O COELHO

O Corvo era muito amigo do Coelho. Combinaram, um dia, que cada um deles transportasse o companheiro às costas, indo de povoação em povoação, para dar a conhecer às pessoas a amizade que os unia. 
O Corvo começou a carregar o Coelho. Andou com ele às costas pelas aldeias e a gente, quando o via, perguntava-lhe: 
__Ó Corvo, que trazes tu aí? 
__Trago um amigo meu que acaba de chegar de Namandicha. 
Passou assim com ele por muitas terras. 
Chegou depois a vez de ser o Coelho a carregar com o Corvo. Ao passar por uma aldeia, os moradores perguntaram-lhe: 
__Ó Coelho, que trazes tu às costas? 
__Ora, ora, trago penas, penugem e um grande bico - respondeu, a troçar, o Coelho. 
O Corvo não gostou que o companheiro o gozasse daquela maneira, saltou logo para o chão e deixaram de ser amigos. 

 Conto Africano: O CÁGADO E O LAGARTO

Num ano em que havia pouca comida, o Cágado pegou no dinheiro que tinha economizado e foi a Nanhagaia onde comprou um saco de milho. 
Quando voltava para casa, viu, a certa altura, um tronco de árvore atravessado no caminho. Como não conseguia passar por cima dele, atirou o saco de milho para o outro lado e depois foi dar a volta. 
Quando estava a dar a volta, ouviu uma voz a gritar: 
__Viva, viva, tenho um saco de milho que caiu lá de cima. 
Era o Lagarto, que segurava o saco que o Cágado tinha atirado. 
O Cágado protestou: 
__ Não. O saco é meu. Comprei-o agora e vou leva-lo para casa. 
O Lagarto não quis ouvir nada e levou o saco para casa dele, dizendo: 
__Eu não o roubei a ninguém. Achei-o. Vou comer o milho porque encontrei o saco. 
O Cágado ficou muito zangado mas não podia fazer nada. Cheio de fome, no dia seguinte foi com os filhos ver se encontrava alguma coisa para comer. 
A certa altura, viram o rabo do Lagarto que saía de dentro de um buraco, só com o rabo de fora. 
O Cágado agarrou no rabo e numa faca e preparou-se para o cortar. Depois de cortado, levou-o para casa e comeu-o com os filhos. 
O Lagarto que, entretanto tinha conseguido sair do  buraco, foi queixar-se ao responsável da aldeia: 
__O Cágado cortou-me o rabo. Mande-o chamar para ele dizer porque é que me cortou o rabo. 
O responsável convocou o Cágado e perguntou-lhe: 
__É verdade que tu cortaste o rabo ao Lagarto? 
O Cágado, que era muito esperto, disse: 
__ É verdade que eu encontrei um rabo perto de um buraco e o levei para casa para comer, mas não era de ninguém. Eu não vi mais nada senão o rabo. 
__Mas o rabo era meu - gritou o Lagarto - tens de o pagar. 
O Cágado respondeu: 
__Não, não pago. Eu fiz o mesmo que tu fizeste ontem. Tu ontem encontraste o meu saco de milho e comeste-o. Eu hoje encontrei o teu  rabo e comi-o. Agora estamos pagos. 
O responsável achou que ele tinha razão e mandou-os embora. 

Conto Africano: O CARACOL E A IMPALA

Uma Impala, muito vaidosa da sua agilidade e da rapidez com que corria, encontrou um Caracol e começou a fazer pouco dele: 
__ Ó Caracol, tu não és capaz de correr. Que vergonha, só és capaz de te arrastar pelo chão. 
O Caracol, que era esperto, resolveu enganar a Impala. Por isso desafio-a: 
__ Vem cá no próximo domingo e vamos fazer uma corrida por esta estrada, desde aqui até ao rio. 
__ Uma corrida comigo? - perguntou, espantada, a Impala. — Está bem, cá estarei. 
E afastou-se a rir, pensando que o Caracol era maluco por querer correr com ela. 
O Caracol, entretanto, como tinha ido à escola e sabia ler e escrever, escreveu uma carta a todos os caracóis amigos dele que moravam ao longo da estrada até ao rio. Nessa carta ele dizia aos amigos para, no domingo, estarem junto à estrada e, quando passasse a Impala, se ela chamasse pelo Caracol, eles responderem: "Cá estou eu, o Caracol." 
No domingo, a Impala encontrou-se com o Caracol e, a rir muito, disse-lhe: 
__Vamos lá então correr os dois e ver quem chega primeiro ao rio. 
O Caracol deixou-a partir a correr e escondeu-se num arbusto. A Impala corria e, de vez em quando, gritava: 
__Caracol, ó Caracol, onde é que tu estás? 
E havia sempre um dos amigos do Caracol que estava ali perto e respondia: 
__Cá estou eu, o Caracol. 
A Impala, que julgava ser sempre o mesmo Caracol que ia a correr com ela, corria cada vez mais, mas havia em todos os momentos um Caracol para responder quando ela chamava. 
De tanto correr, a Impala acabou por se deitar muito cansada e morrer com falta de ar. 
O Caracol ganhou a aposta porque foi mais esperto que a Impala e tinha ido à escola junto com os outros caracóis e todos sabiam ler e escrever. Só assim se puderam organizar para vencer a Impala. 

 Conto Africano: O ELEFANTE, ESCRAVO DO COELHO

Uma vez, o Coelho andava a passear e encontrou um grande ajuntamento de animais sentados à sombra de uma árvore. Cheio de curiosidade, quis logo saber do motivo daquela reunião e perguntou: 
__ Então o que é que se passa? Que novidades há por aqui? 
Um dos animais explicou: 
__Trata0se de um milando e estamos à espera do Elefante, o nosso chefe, para o resolver. 
__ O quê?... O quê?... O Elefante vosso chefe? - perguntou o Coelho, franzindo a testa. 
E continuou: 
__ O Elefante não é chefe nenhum! O Elefante é meu escravo e leva0me sempre às costas a qualquer parte que eu queira! 
Alguns do grupo admiraram0se: 
__ Como pode o Elefante ser teu escravo se tu és tão pequeno? 
__ O ser pequeno nada tem a ver com o meu valor - replicou o Coelho. 
E, em tom autoritário, acrescentou: 
__ Já vos disse e torno a dizer que o Elefante não é chefe, é meu escravo, e por isso, vocês podem ir embora daqui, que nesta coisa de resolver milandos ele não tem nada que se meter. 
Dito isto, o Coelho dirigiu os passos para sua casa e muitos dos animais foram0se
também embora dali por terem acreditado nas suas palavras. 
Algum tempo depois, chegou o Elefante e perguntou: 
__  Então onde estão os outros que aqui faltam? Atrasaram0se na viagem? 
__  Não!
__  explicaram0lhe os poucos animais que lá tinham ficado. — Os que aqui faltam foram0se embora há pouco tempo, porque passou neste lugar o Coelho e disse  nos que tu, Elefante, não és chefe, mas sim, um escravo dele. 
O Elefante tremeu todo de indignação e, muito furioso, resmungou: 
__  Ah, Coelho malandro! Coelho vigarista!... Deixa lá que, hoje mesmo, me darás conta de palavras tão injuriosas e tão vis!... 
Entretanto, o Coelho chegou a casa e fingiu0se doente. A mulher, cheia de pena, foi estender uma esteira e o Coelho deitou0se nela. 
Daí a momentos chegou a Impala, que era cunhada do Coelho, avisando0o de que o Elefante já se aproximava para lhe fazer mal. E, transmitido o recado, retirou-se. 
O Coelho, manhoso, entrou então em grandes convulsões, soltando, ao mesmo tempo,
gemidos tão lastimosos que era mesmo de partir o coração. 
Chegou o Elefante que se pôs a roncar, muito mal disposto: 
__  Ó Coelho, ó malandro, salta depressa cá para fora, que tens de me acompanhar. 
O Coelho murmurou, a gemer e entrecortando as palavras: 
__  Oh! Por... fa... vor! Des... cul... pe0me... porque eu... não... es...tou... bom!... dói me
mui...to... o cor... po to...do! Isto foi... um mal que me deu de re... pen... te... 
__  Não quero saber! Seja como for, tens de vir comigo ao lugar onde estão reunidos os
outros animais, porque ouvi dizer que tiveste o descaramento de enxovalhar o meu
título de chefe e de dizer que eu sou teu escravo
__
 replicou o Elefante. 
__
 Tens to... da a ra... zão... mas o cer... to é que eu... não aguen... to ca... mi... nhar...
para te po... der... acom... pa... nhar! 
__
 Já te disse, tens de vir comigo, custe o que custar, mesmo que eu tenha de te levar às
costas
__
 ordenou o Elefante. 
__
 Então só se for desse mo... do, mas fi... ca... sa... ben... do que mes... mo assim a via... gem me vai ser muito... pe... no... sa. 
E, logo a seguir, chamou a mulher e disse, chorosamente: 
__
 Dá cá a minha ca... mi... sa nova. Hi... Hi... Hi... Hi... vai tam... bém bus... car as
minhas cal... ças no... vas. 
E, depois: 
__
 Já a... go... ra, traz tam... bém os meus sa... pa... tos no... vos! É que po... de a... con...
te... cer que eu morra e, ao me... nos, que... ro morrer com os meus tra... jes mais ricos. 
Uma vez o Coelho vestido e calçado, o Elefante abaixou0se e o Coelho saltou0lhe para
as costas, onde se instalou muito bem instalado. 
Estava um calor de rachar pedras. Antes de partir, o Coelho gritou para a mulher: 
__
 Ó mulher, dá0me cá a sombrinha porque está muito calor... e posso agravar os meus
males com alguma insolação. 
O Elefante, em grandes e rápidas passadas, pôs0se a caminho da reunião. 
Quando se aproximavam do lugar, o Coelho, deixando  de fingir que estava doente,
ensaiou uma atitude de pessoa importante e esboçou um sorriso feliz. 
Os outros animais ao verem o Coelho assim todo solene e bem apresentado, às costas do
Elefante, começaram todos com grandes exclamações: 
__
 Olha! Olha!... Sempre é verdade o que o Coelho dizia. O Elefante é escravo dele...
pois que o traz às costas. 
Quando o Elefante parou, o Coelho deu um salto, muito ágil e elegante, para o chão e,
tomando a palavra, dirigiu0se assim aos outros animais:  __
 Estão a ver?... Estão a ver?... Eu não vos dizia que o Elefante é o meu escravo? 
Todos os animais presentes romperam em grande gritaria, clamando: 
__É verdade, sim senhor, é verdade. Tu, Elefante, não és chefe nenhum!... És escravo do
Coelho pois o carregas às costas. 
O Elefante só então deu pelo acto de estupidez que  cometera e, cheio de vergonha,
desandou dali para fora. 
 Fim.
_______________________________________