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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Terror no Recife: a Lenda da Perna Cabeluda.

TERROR NO RECIFE: A LENDA DA PERNA CABELUDA

Conheça a criatura da noite que tirou o sono das crianças (e adultos que nunca admitirão) na capital pernambucana dos anos 1970
LUCAS VASCONCELLOS PUBLICADO EM 10/10/2019
A lenda foi capa de cordéis antigos
A lenda foi capa de cordéis antigos - Literatura de cordel / André Artes
Exatamente o que diz o nome: uma perna cabeluda. E nada mais: decepada e se movendo aos pulinhos, ela ainda assim era mais que capaz de matar com seus poderosos chutes, rasteiras, enfim, coisas de que uma perna é capaz.
A lenda, que tirou o sono das crianças (e adultos que nunca admitirão) no Recife dos anos 70, cresceu a partir daí. Alguns alegavam que o pé tinha unhas grandes e podres. Outros, que o pedaço de corpo não era sequer humano. As vítimas eram pegas de súbito na madrugada e sofriam ataques nas ruas – e, mesmo caídas, continuavam a ser surradas.
A lenda se tornou símbolo da cultura recifense e durante anos levou crianças a olhar debaixo da cama antes de dormir. Mas, diferentemente da maioria das lendas urbanas (ou lendas, ponto), essa é uma cujo autor conhecemos: Raimundo Carrero, jornalista do Recife e autor de obras literárias premiadas.
Desenho mais conhecido da lenda / Crédito: Wikimedia Commons
Nos idos da década de 1970, Carrero, que trabalhava no Diário de Pernambuco, afirma que um companheiro de redação chegou afoito ao trabalho durante a noite. Dizia ter visto, embaixo da cama que dividia com a esposa, uma perna cabeluda. “Mas e o tronco?”, indagaram os amigos, “Não tinha”, respondeu, com toda a sinceridade.
Não é o que parece (dizemos nós, não a esposa). Como relata Raimundo à AH, os jornalistas da época eram boêmios e gostavam de contar histórias mirabolantes uns para os outros. Era uma piada desde o começo. O relato ganhou status de estrela com um empurrão do regime político da época.
“Como vivíamos sob a ditadura militar e muito conteúdo não podia ser publicado devido à censura, o então editor do Diário de Pernambuco, e hoje ministro do Superior Tribunal de Justiça, Og Marques Fernandes, incumbiu a mim uma coluna policial com casos tido como absurdos. Surgiu aí a história da Perna Cabeluda”, contou Carrero à AH. O sucesso foi imediato. No dia seguinte, a Perna já era citada em programas radiofônicos de grande alcance.
Pessoas machucadas – às vezes com ossos quebrados – apareceram dizendo ter sido atacadas pelo membro que agia de forma totalmente autônoma.
Raimundo Carrero / Crédito: Diário de Pernambuco
Raimundo – que fez parte do Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna na busca por criar arte erudita a partir da popular – tem uma teoria desconfortável para explicar o fenômeno da Perna Cabeluda: as brigas entre os maridos e os amantes de suas esposas.
Nesses casos, melhor do que assumir a verdade, as marcas eram atribuídas à perna. Em tempo: depois de ser musa do jornal e de programas de rádio, das aparições no cinema e em música de Chico Science, e ser estrela de uma HQ própria – A Rasteira da Perna Cabeluda, editora Bagaço –, a Perna Cabeluda apareceu em versão digital em 2018, no carnaval de Salvador, dançando axé. Ao menos foi o que relataram foliões estropiados.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Trick ou Treat dizia o Saci: a polarização do dia das bruxas.

TRICK OU TREAT DIZIA O SACI: A POLARIZAÇÃO DO DIA DAS BRUXAS

Tal é a resistência ao Halloween que muitos municípios brasileiros decretaram a data de 31 de outubro como Dia do Saci Pererê, de maneira a coibir a celebração gringa no âmbito regional
M. R. TERCI PUBLICADO EM 07/10/2019
Saci Pererê
Saci Pererê - Reprodução
Divergências de atitude entre extremos ideológicos não é nem nunca foi novidade alguma para o brasileiro. Não se trata de modismo. A tendência de muros ideológicos é permanente porque para nós, os isolados, a parede que nos divide tem fundações sólidas e indestrutíveis. Poucos são aqueles que espiam acima do muro senão com o intuito de criticar o que sucede do outro lado.
Assim, apartados de posições antagônicas às nossas, alimentados por conteúdos que reforçam nossas crenças, somos instigados à contenda. Logo, em um cenário que estimula o sectarismo, partimos para caça às bruxas.
A propósito, nesse mês de outubro, enquanto parte da população brasileira está se preparando para vestir roupas horripilantes, dentaduras de vampiro e chapéus de bruxa, a outra parte se declara contrária a isso, pois se ressente da ausência de nossas tradições do povo e do folclore brasileiro.
Não é que a danada da polarização alcançou o território selvagem da festividade? Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, constatar que no final, toda cor de camisa abriga um peito nu.
Intolerância é lenha para qualquer clima e arde bem em todas as fogueiras.
No Brasil o Halloween ou Dia das Bruxas nunca teve um significado muito expressivo, tampouco circula na lista de feriados tradicionais como acontece nos Estados Unidos, onde a data é a segunda mais celebrada, ficando atrás apenas do Natal.
A festividade celebrada nos Estados Unidos e em diversos países do mundo tem sua origem creditada a um antigo festival pagão, o festival celta de Samhain, termo que designava o fim do verão na Europa Ocidental. Sua celebração durava três dias e começava no dia 31 de outubro, sendo uma homenagem ao Rei dos Mortos.
Crédito: Reprodução
O Halloween, assim, não nasceu nos Estados Unidos, mas foi introduzido na cultura norte-americana a partir de 1845, quando mais de um milhão de pessoas que fugiam da Grande Fome foram forçadas a imigrar para o continente, levando consigo suas histórias e tradições.
Há, entre seus detratores brasileiros, quem entenda que a tradição foi trazida pelo Imperialismo Americano como desculpa para vender suas tralhas. Coisa de gringo para fomentar o comércio.
Tal é a resistência que muitos municípios brasileiros decretaram a data de 31 de outubro como Dia do Saci Pererê, de maneira a coibir a celebração do Halloween no âmbito regional.
Essa não foi a primeira vez que uma autoridade tentou desinstitucionalizar o Halloween através de normatização. Em meados do século VIII, o Papa Gregório 3º mudou a data do Dia de Todos os Santos de 13 de maio para 1º de novembro, tornando obrigatório a celebração da data católica, numa obvia tentativa de cristanizar o Samhain.
Mudou foi o nome
O nome da atual, Halloween, nasceu no Reino Unido e derivou de All Hallows’ Eve, onde hallow é um termo antigo para designar santo e eve é o mesmo que véspera.
Certo é que o Dia das Bruxas, como tantas outras celebrações da cultura norte-americana, possuí forte apelo comercial e tem de fato atraído maior número de jovens, crianças e adultos a cada ano que passa. Estabelecer o Dia do Saci é, portanto, uma forma de se oferecer ao povo a alternativa de festejar manifestações de sua própria cultura.
Não obstante, em meio ao discurso da alternativa, logo se nota o broto da intolerância espalhando rama pelo muro. Não contentes em simplesmente não participar, algumas pessoas sentem a necessidade de atacar aquilo que se encontra fora do âmbito de suas crenças.
No Rio de Janeiro, nos anos anteriores, foram espalhadas faixas em oposição à celebração do Halloween, pedindo a retomada das tradições brasileiras. Como sói acontecer, a prática enveredou para o fanatismo e rapidamente tomou forma a intolerância religiosa quando algumas faixas traziam os dizeres: “Halloween é satanismo. Brasil, país cristão.”
Há ainda aqueles que apoiam e incentivam a festividade do Dia das Bruxas, mas opinam por fantasias que caracterizam os seres sobrenaturais do folclore brasileiro, como o próprio Saci, o Caipora, o Curupira, entre outras criaturas míticas que aprontavam travessuras para as pessoas que cruzassem seu caminho e não lhes ofertassem bebida ou fumo.

M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.

domingo, 29 de setembro de 2019

Folclore nacional: os personagens menos conhecidos.

FOLCLORE NACIONAL: OS PERSONAGENS MENOS CONHECIDOS

Sem dúvida, o Saci, o Curupira, a Mãe D’água, a Mula Sem Cabeça e o Boitatá são os mais conhecidos personagens de nosso folclore. Mas, segundo a crença popular, na imensa Noite Tupiniquim existe muito mais para se ver, e temer
M. R. TERCI PUBLICADO EM 29/09/2019
Papa Figo
Papa Figo - Reprodução
Um povo, muitas cores, que se faz entender e assimila a identidade social de sua comunidade através de expressões culturais, dentre as quais, o folclore se destaca.  Sendo assim, o folclore do Brasil é um dos mais ricos do mundo. Para sua formação, além do elemento nativo – embora vasto e mais destacado – colaboraram o povo português e africano, tornando-se ainda mais complexo e fantasioso com a imigração.
Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, adentrar a fronteira do estranho e cruzar o caminho de personagens que por se tratarem de fenômenos regionais, ficaram restritos às comunidades onde se originaram.
Papa Figo
Homem do saco / Crédito: Reprodução
Um velho deformado, corcunda e barbudo que vaga pelas ruas durante o dia, à caça de crianças travessas. Quando encontra um garoto desobediente o coloca dentro de um saco e, mais tarde, em alguma encruzilhada, ele come seu fígado. Um mito muito difundido em Pernambuco e Paraíba. Em algumas cidades do interior paulista, contudo, é conhecido como Homem do Saco.
Pisadeira
Comumente associada à paralisia do sono no interior de São Paulo e na fronteira com Minas Gerais. É uma mulher muito magra e horrenda, uma velha bruxa de unhas compridas que percorre os telhados, adentra pelas janelas e atormenta as pessoas durante o repouso noturno.
Bradador
Um espírito sem forma definida que em São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina, invade os quintais das casas e emite gritos selvagens e hórrido uivos deixando seus moradores de cabelo em pé. Quem vê a coisa, enlouquece.
Acutipiru
Criatura que segundo as histórias vive na Serra do Japó. Dizem que para seduzir um homem ou uma mulher, pode aparecer tanto na forma masculina quanto feminina. Quando homem, fecunda mulheres para que tenham meninos valentes, na forma de mulher, dá a luz a belas meninas. Certo é que não existe uma Serra do Japó, possivelmente se trata de uma corruptela do vocábulo Japi, cuja serra fica no Estado de São Paulo.
Matinda Pereira
Matinda Pereira /Crédito: Reprodução
Uma hórrida feiticeira, muito velha e com poderes mágicos que assusta as pessoas na região amazônica. Quando se ouve o terrível assovio da Matinda, para afugentá-la, os moradores da região costumam, lhe prometer fumo. Na manhã seguinte, dizem, uma mendiga aparece à porta do promitente cobrando a oferenda.
Curacanga
No Maranhão e no Pará, é costume dizer que quando uma mulher tem sete filhas, a última passará por uma terrível metamorfose. Sua cabeça se soltará do corpo e tomando a forma de uma bola de fogo, percorrerá os campos e caminhos assustando e ferindo os viajantes.
Porca-dos-Sete-Leitões
Uma leitoa monstruosa, sempre cercada por sua bizarra ninhada que, à noite, persegue as pessoas que andam sozinhas por ruas estreitas. Solta fogo pelas ventas e guincha terrivelmente.  Seu mito é difundido no Tocantins.
Capelobo
Conterrâneo de Curacanga, habita a região do Rio Xingu, causa muito medo nas populações nativas, pois costuma se alimentar de crianças recém-nascidas. É representado com forma humanoide. Corpo coberto de pelos, cabeça de anta no Maranhão e de tamanduá no Pará.
Pé de Garrafa
Pé de Garrafa / Crédito: Reprodução
Uma das mais curiosas e desconhecidas criaturas de nosso folclore. Possuí corpo de homem, mas suas pernas e pés são redondos com formato de garrafa. Costuma se esconder nas matas do Centro-Oeste, onde captura a alma de suas vítimas paralisando-as com urros assustadores.
Chibamba
É o bicho-papão mineiro, assombra e assusta crianças malcriadas que teimam em dormir tarde. Essa criatura anda coberta por folhas de bananeira e ronca como se fosse um porco.
Minhocão
Possuí a forma de uma titânica serpente e vive no fundo das águas lamacentas do Rio São Francisco. Quando perturbado, afunda os barcos e devora seus ocupantes. Os moradores ribeirinhos o responsabilizam, igualmente, pela erosão dos barrancos.
Perna Cabeluda
Perna Cabeluda / Crédito: Reprodução
Em Pernambuco, próximo a cemitérios, dizem que, vez ou outra assurge no puro elemento do ar uma perna escura e cabeluda que se materializa com o propósito de agredir quem encontra em seu caminho.
Corpo-Seco
Um dos mais assustadores e presentes mitos do folclore nacional. Diz a tradição em algumas localidades de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e em todo o Nordeste, que em vida, era um homem muito mal, tão ruim que quando morreu, nem o céu, nem o inferno reivindicaram sua alma e a terra, onde fora sepultado, acabou vomitando um corpo ressequido e pestilento que assombra as casas. Para afastar ele, frequentemente, algumas famílias mandam rezar missas.
Mapinguari
Conhecido no Amazonas, Acre e Pará como um monstro gigantesco coberto de pelos negros, munido de garras afiadas e que tem o olho no meio da testa e a boca na altura do estômago. Quem ouve seu grito aflito na floresta e responde seu chamado, geralmente é perseguido pela criatura que vem derrubando galhos e árvores pelo caminho.
Sanguanel
Nos pinheiros e araucárias da Região Sul, frequentemente se vê um ser pequenino e vermelho. Os gaúchos dizem que, à noite, o Sanguanel rouba crianças pequenas e só devolve quando recebe oferenda de água e mel.
Vira-Roupas
Na Paraíba e Rio Grande do Norte, as pessoas costumam ver um ser alto, magro, muito esperto e ágil, cujo passatempo é infernizar a vida de quem lava roupa fora de casa, em rios ou lagoas. Diverte-se manchando roupas com barro, arrancando botões ou simplesmente virando do avesso.
Ururau da Lapa
Figura mitológica presente no folclore do Estado do Rio de Janeiro. É descrito como um jacaré titânico que ataca as embarcações no Rio Paraíba do Sul. Reza a lenda que nasceu da vontade do deus das águas que ficou indignado com o assassinato de um cortador de cana, a mando de um coronel que proibiu o namoro do rapaz com sua filha. Dizem que afundou o navio que trazia o sino do Convento da Lapa.
Mãe do Ouro
Segundo a lenda, tem o aspecto de menina bonita, loira e de olhos azuis. Um personagem muito popular no interior das regiões Sudeste e Nordeste do Brasil. Quem encontra com ela, deve cortar o dedo e deixar que três gotas de sangue caiam sobre sua cabeça, daí a moça transforma as gotas de sangue em ouro.

M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Bestiário: a origem de figuras surreais do folclore medieval.

BESTIÁRIO: A ORIGEM DE FIGURAS SURREAIS DO FOLCLORE MEDIEVAL

Imaginação fértil, medo e religiosidade deram origem a criaturas assustadoras
MARINA RIBEIRO E FÁBIO MARTON PUBLICADO EM 05/08/2019
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- Crédito: Reprodução
Seres do tamanho de ilhas que afundam navios, dragões que destroem cidades inteiras, monstros devoradores de homens, sereias que encantam marinheiros, centauros letrados... É difícil compreender que muitas das figuras mitológicas que conhecemos dos livros um dia realmente atemorizaram alguém.
No entanto, como lembra o historiador francês Lucien Fèbvre, na Idade Moderna havia "excesso de plantas, de animais, de corpos minerais, de doenças, de tudo. O possível não se distinguia do impossível". Sem contar que, durante a Idade Média, a maior parte do mundo ainda era considerada terra incógnita.
Nesse contexto, seres fictícios nutriam as superstições e tomavam forma graças a artistas talentosos e estudiosos da Antiguidade. Santo Agostinho, um teólogo do cristianismo, foi um dos primeiros a perceber a importância dos monstros no imaginário da população.
Algumas figuras do bestiário medieval / Crédito: Reprodução
Representações consideradas antinaturais seriam também, em sua visão, parte do plano divino. Como um adorno do universo para ensinar os homens sobre os perigos do pecado. Mais do que interpretar a presença desses entes, foi papel dos cristãos divulgar a existência de muitos deles — que, a partir dos séculos 12 e 13, passaram a ser frequentes na arte religiosa, considerados, como desejava Santo Agostinho, criaturas de Deus.
Além de enfeitar os templos, monstros e maravilhas encontraram seu lugar em bestiários — livros que somavam histórias e descrições de animais verdadeiros e imaginários —, fazendo com que a erudição enciclopédica e o pensamento religioso se reunissem.
Para a historiadora e colunista da AH, Mary Del Priore, em seu livro Esquecidos por Deus — Monstros no Mundo Europeu e Ibero-Americano (Séculos XVI-XVIII), "nesses bestiários, a ênfase na moralidade, apregoada pela Igreja Católica, passa a dar novo sentido alegórico aos monstros".
Com o objetivo de conciliar a filosofia com a crença popular, a Igreja buscou um significado espiritual nas entidades mitológicas e um ensinamento sobre bons costumes em suas aventuras — a exemplo de Leviatã, utilizado dessa maneira na Bíblia.
Primeiro enciclopedista cristão, Isidoro de Sevilha tornou-se a fonte na qual vários autores se abasteceram quando se tratava de contar histórias quase inacreditáveis. Uma de suas ideias era a de que não haveria forma de criatura vivendo na terra firme que não pudesse ser observada também no mar. A teoria remetia aos escritos do naturalista romano Plínio, o Velho.
Crédito: Reprodução
Tal suposição gerou muitas criaturas marinhas exóticas e acabou batizando animais como leões-marinhos e porcos-do-mar (um parente do pepino-do-mar, que vive em grandes profundidades e tem pernas) — os nomes associados aos bichos podem não fazer muito sentido hoje, mas a imaginação medieval interpretava de maneira literal a relação de animais híbridos
Na época, grandes espécies desconhecidas também eram consideradas verdadeiras anomalias. Caso das baleias, que muitas vezes eram ilustradas como uma colagem de elementos de outros animais — e turbinadas com uma boa dose de imaginação. Com isso, trombas, patas, cascos, chifres e barbatanas formavam, a cada nova ilustração, uma figura diferente e ainda mais ameaçadora.
Muitos mapas medievais e da Renascença trazem exemplos de tais criaturas. "Aos nossos olhos, quase todos os monstros parecem bastante estranhos, mas, na verdade, muitos deles foram desenhados a partir do que os cartógrafos consideravam como registro científico", afirma Chet Van Duzer, autor de Sea Monsters on Medieval and Renaissance Maps (sem edição em português). "Assim, a maioria refletia um esforço por parte desses profissionais de serem precisos na descrição dos habitantes marinhos."
A partir do final do século 17, conforme a compreensão europeia da ciência foi crescendo e a imprensa tornou mais fácil a propagação de imagens realistas, os seres imaginários começam a desaparecer dos mapas.
As ilustrações passaram a ser mais pragmáticas, com os animais servindo para indicar áreas boas para a pesca. Em um mapa do começo do século, por exemplo, desenhos indicavam como matar e processar um enorme cetáceo. "As baleias, as maiores criaturas do oceano, já não eram monstros, mas, sim, depósitos naturais de mercadorias a serem aproveitados", escreveu Van Duzer.

sábado, 1 de junho de 2019

Kappa: a assustadora criatura dos rios e lagos do Japão.

KAPPA: A ASSUSTADORA CRIATURA DOS RIOS E LAGOS DO JAPÃO

Também conhecido como Kawataro, a ele se atribui a maioria dos afogamentos de mulheres e crianças no país
MARIANA RIBAS PUBLICADO EM 01/06/2019
None
- Reprodução
Um dos monstros mais conhecidos e temidos do Japão é o Kappa, uma criatura humanoide de pele escamosa que habita as profundezas dos rios e mares do país – e também as lendas do folclore japonês. Sua descrição bizarra faz lembrar uma tartaruga em um corpo de homem mas altura de criança: entre 60 centímetros e 1 metro. No lugar das costas, um casco.
Na boca, um bico com poderosa mandíbula. Nos pés e nas mãos, barbatanas. E, acima da cabeça, uma espécie de prato ou recipiente raso chamado sara, usado, em terra firme, para guardar água: a sua fonte de poder e de força sobrenatural.
Também conhecido como Kawataro (menino do rio) ou Kawako (criança do rio), a ele se atribui a maioria dos afogamentos de mulheres e de crianças no Japão. Embora o retratem, na maioria das vezes, como um monstro maléfico, há alguns relatos na mitologia sobre a existência de Kappas bondosos. Em tempos antigos, principalmente em Tsugaru, na província de Aomori, onde a sua popularidade ainda é nítida, essas criaturas eram consideradas Kami (deuses) das águas.
 Utagawa Kuniyoshi / Crédito: British Museum

No entanto, na maioria dos contos, elas aparecem como uma figura agressiva (e sedenta por sangue), a ponto de subir em terra firme em busca da sua presa. De acordo com a crendice popular, há mais de uma forma para se proteger, e a melhor delas é cumprimentá-las muitas vezes, curvando a cabeça como fazem os japoneses.
Em resposta, o Kappa, segundo a lenda, vai se sentir obrigado a curvar a cabeça e, após vários cumprimentos, o líquido (que lhe dá poderes e força) cai do topo do seu crânio, forçando-o a voltar ao lar aquático.
Outra estratégia para se defender de um Kappa mal-intencionado é oferecer pepinos a ele, seu alimento preferido. Diz-se que escrever o nome de alguém na casca de um pepino e depois jogá-lo dentro da água protege a pessoa contra a criatura, que, ao aceitar a comida, se sente obrigada a não fazer mal a ela. Essa ligação lendária entre Kappas e pepinos tornou-se um elemento tão presente na cultura japonesa que o sushi com recheio de pepino é, hoje, chamado de kappamaki. Tamanha popularidade, aliás, não raro se vê os Kappas em filmes e mangás.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Lenda do Saci Pererê.


(imagem da internet s/fonte.)


O Saci Pererê é um personagem do folclore brasileiro. Seu dia é marcado no calendário em 31 de outubro, mesmo dia do conhecido Halloween, da cultura americana. 

O Saci surgiu entre os povos indígenas do Sul do Brasil, durante o período colonial, no final do séc. XVIII. O saci foi representado como um menino moreno, que tinha rabo e pregava travessuras na floresta. 

A lenda migrou para o norte e modificou-se através da cultura africana. Virou um jovem negro, que tinha perdido uma luta de capoeira. Usava um gorro vermelho e cachimbo. Aprontava travessuras nas casas e nas matas. Assustava viajantes, escondia objetos em casa e espantava cavalos e bois no pasto, mas também ajudava todos aqueles, que precisam de ervas para um chá ou uma cura. Ele não fazia malvadezas, era só brincadeira e molecagem. Para capturar o Saci, era preciso jogar uma rede nele. Depois tira-se o gorro e prende ele, numa garrafa, assim ele obedecerá o seu dono. 

O personagem ficou famoso pelos contos orais. Virou conto do Monteiro Lobato, no Sítio do Pica Pau Amarelo. Virou histórias em quadrinhos, com a turma da Mônica de Maurício de Souza; e até símbolo de um time de futebol: o Sport Club Internacional de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. 

Por: Profª. Histª. Vanessa Candia.