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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Rússia volta a celebrar casamento real mais de 100 anos depois da morte de seu último czar.


Rússia volta a celebrar casamento real mais de 100 anos depois da morte de seu último czar🌞
Bisneto do grande duque Kirill, primo do czar Nicolás II, Gueorgui Romanov se casou com a italiana Rebecca Bettarini nesta sexta-feira, 1º,em São Petersburgo.
SÃO PETERSBUGO - A Rússia celebrou o primeiro casamento real em seu território passados mais de 100 anos do assassinato de seu último czar, Nicolás II, pelos revolucionários bolcheviques, em 1918. O grande duque Gueorgui Romanov, de 40 anos, casou-se com a italiana Rebecca Bettarini, de 39 anos, em cerimônia realizada na catedral de San Isaac, no coração de São Petersburgo, antiga capital imperial, nesta sexta-feira, 1º.
Nascido em Madri e graduado em Oxford, Gueorgui Romanov é filho da grande duquesa María Romanova, neta do grande duque Kirill. Este último era primo de Nicolás II, o último czar da dinastia Romanov, que reinou mais de 300 anos na Rússia até a revolução de fevereiro de 1917.
O monarca derrubado foi feito prisioneiro pelos bolcheviques e fuzilado um ano depois nos Urais, junto com sua esposa, a imperatriz Alexandra, suas quatro filhas e seu filho.
Enterrados durante muito tempo em um local mantido em segredo pelo poder soviético, seus corpos foram levados em 1998 para a catedral de São Petersburgo. Eles foram canonizados em 2000 pela Igreja ortodoxa russa e reconhecidos oficialmente em 2008 como vítimas do bolchevismo pela Justiça.
O grande duque Gueorgui Romanov se reuniu com sua noiva em Bruxelas, onde ambos trabalham para instituições europeias. Rebecca Bettarini, filha de um diplomata, converteu-se para a religião ortodoxa e foi rebatizada como Victoria Romanovna.
Segundo os organizadores da cerimônia, 1.500 pessoas foram convidadas, entre elas a rainha Sofia da Espanha, o rei deposto da Bulgária Simeón II e sua esposa Margarita, assim como outros representantes de famílias reais europeias.
Instalado em Moscou há três anos, perto do Kremlin, o grande duque afirma se dedicar a projetos de caridade. Em uma entrevista ao jornal russo Fontanka publicada na quarta-feira, explicou que escolheu se casar em São Petersburgo por "muitas razões". Esta cidade, afirmou, é "a história da Rússia, a história da casa Romanov"./ AFP

🌞 FONTE: Redação, Jornal O Estado de S.Paulo
01 de outubro de 2021 | 12h58



Boa pesquisa.

 

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Ovos de Fabrége: a tradição de Páscoa mais luxuosa da História.

OVOS DE FABRÉGE: A TRADIÇÃO DE PÁSCOA MAIS LUXUOSA DA HISTÓRIA

As jóias eram presenteadas aos membros da família real russa e tiveram desfechos diferentes depois da Revolução Russa
CAIO TORTAMANO PUBLICADO EM 10/04/2020
Um dos exemplares presenteados na família imperial russa
Um dos exemplares presenteados na família imperial russa - Wikimedia Commons
Faz tempo que ovos são símbolo da Páscoa, principalmente por sua representação de dar fruto a coisas novas, jovens. Nem mesmo as famílias imperiais russas se furtavam do direito de comemorar a Páscoa presenteando uns aos outros com ovos, mas os produzidos pelo joalheiro Peter Carl Fabergé vão além, e são peças raríssimas hoje.
O primeiro exemplar foi construído em 1885, depois que o russo recebeu um pedido do czar Alexandre III, que na Páscoa daquele ano queria surpreender sua esposa Maria Feodorovna. Com a ajuda de seus ourives, Fabergé montou uma das que seriam as peças mais emblemáticas da história das jóias.
Aparentemente, por fora era um elegante ovo de ouro esmaltado, mas em seu interior estava um trabalho primoroso, que, ao abri-lo, você identificava uma gema de ouro. Dentro dessa gema, uma pequena galinha tinha um pingente de rubi e um diamante que replicava a coroa imperial.
Primeiro exemplar da obra / Crédito: Wikimedia Commons

A obra lembrava muito as bonecas matrioska, clássico brinquedo de origem também russa. Eram uma série de bonecas dentro de outras bonecas, cada uma um pouco diferente da outra.
A identificação de Maria com a peça foi imediata e ficou extremamente impressionada com a verdadeira obra de arte que havia sido presenteada. Assim, Fabergé foi nomeado como fornecedor oficial da corte de tais tipos de arte. A partir daí, um ovo era encomendado por ano somente pelo czar, com a condição que todos deveriam ter uma surpresa dentro.
A tradição passou do czar para seu filho, Nicolau II, que presenteava anualmente sua esposa Alexandra Feodorvna. Para os dois imperadores, foram encomendados 50 ovos ao longo da história — dos quais 8 foram perdidos ao longo do tempo —, mas outros membros da nobreza também faziam suas encomendas.
A fama levou dezenas de clientes particulares — todos muito ricos — a encomendarem as obras feitas de prata, ouro, cobre, platina e outros metais. A esmaltagem dava cores vivas às peças, e eram adornadas ainda com pedras preciosas, como rubi, diamante, jade, ágata, entre outros.
Ao todo, são 65 os ovos conhecidos, dos quais 57 existem até hoje. Dez dos ovos da família imperial estão no Palácio do Arsenal do Kremlin, em Moscou. Eles foram parar lá já em 1917, durante a Revolução Russa, quando o palácio Romanov foi saqueado a mando de Lenin. Fabergé fugiu para a Suíça com a família, onde viria a viver até seus dias finais.
Joalheiro Peter Carl Fabergé / Crédito: Wikimedia Commons

Vários desses ovos foram vendidos durante o governo Stalin para conseguir moeda estrangeira para a União Soviética, 14 deles foram comprados por Armand Hammer, dono de uma petroleira americana e amigo pessoal do tirano comunista. Além de Hammer, Emanuel Snowman, dono de um famoso antiquiário em Londres comprou parte dos artefatos.
Malcom Forbes chegou a ter a maior coleção dos ovos fora da Rússia, com nove peças. A coleção foi leiloada em 2004 e comprada por um magnata russo pelo valor de 120 milhões de dólares.
Dois exemplares mais complexos dos ovos / Crédito: Wikimedia Commons

As obras rodaram tanto o mundo que, em 2014, o terceiro ovo imperial da história (encomendado por Alexandre III) foi descoberto em um mercado de rua nos Estados Unidos. A peça foi avaliada em 24 milhões de euros.

domingo, 5 de abril de 2020

O surto de Ivan, o terrível: o czar russo que matou o próprio filho e o neto em gestação.

O SURTO DE IVAN, O TERRÍVEL: O CZAR RUSSO QUE MATOU O PRÓPRIO FILHO E O NETO EM GESTAÇÃO

Apesar de um homem culto, sofria com impulsos agressivos que o levaram a amargura
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 05/04/2020
Ivan matando o próprio filho, de Ilya Repin
Ivan matando o próprio filho, de Ilya Repin - Wikimedia Commons
Ivan Grozny (ou “o Terrível”) foi o fundador do czarismo russo e um homem absurdamente excêntrico, sendo descrito pelos mais próximos como inteligente e agressivo ao mesmo tempo, tendo a vida marcada por violentas crises de raiva, apesar de ser um monarca piedoso. Hoje é sabido que Ivan tinha acessos esporádicos de raiva causados por um transtorno mental.
Em um dos mais trágicos momentos de crise da vida de Ivan, no ano de 1581, o monarca russo teve um surto tão intenso que resultou na morte de seu filho mais velho e herdeiro do trono, Ivan Ivanovich, o que levou a uma tristeza profunda do pai e criou a semente de uma crise do czarismo, que seria passado ao filho Teodoro, um jovem com deficiência mental.
Ivan Ivanovich era o filho mais velho do czar russo, e tinha fama de ser extremamente cruel, o que manchava sua imagem pública. Mesmo sendo devoto à Igreja, o jovem assistiu e participou de massacres desde muito cedo, formando um caráter bastante violento.
Ivan IV da Rússia / Crédito: Wikimedia Commons

Seu sadismo (a ponto de assistir a sessões de torturas de inimigos do czar por pura vontade) parecia não ornar com seu conhecimento, pois era um homem muito culto. Mas, isso é facilmente explicável: adquiriu as atitudes insólitas do pai.
As relações de Ivan com o filho favorito não estavam muito agradáveis desde o fim da Guerra da Livônia quando seu pai, diplomaticamente, assinou um tratado de paz que não agradou ao príncipe. Isso causou uma série de discussões, e Ivanovich chegou a comandar uma represália contra a coalizão inimiga em Pskov, enfurecendo o pai.
Era de conhecimento da sociedade os casos de violência na corte causados pelos transtornos do czar. Em um dos episódios, marcado por uma briga familiar, Ivan agrediu sua nora grávida, resultando no aborto. 
Cerco de Narva, durante a Guerra da Livônia

Ao descobrir a agressão contra sua esposa, Ivanovich partiu para cima do pai, questionando o infeliz ocorrido. No entanto, o que era pra ser resolvido tornou-se uma briga sobre relações familiares que logo se converteu em apontamentos de falhas governamentais. Ivan retomou o caso de Pskov, acusando o filho de insubordinação. As indagações sobre política acaloraram cada vez mais a discussão.
A briga entre os dois desencadeou a raiva no czar que, com pouca consciência, bateu na cabeça do primogênito com um cetro pontiagudo que estava no salão. Boris Godunov, um nobre da corte, assistiu ao ocorrido e tentou intervir, mas também foi agredido. Desesperado, Ivan ajoelhou-se no chão, abraçou o filho desacordado, beijando-o e chorando, e tentou estancar o sangramento.
“Maldito seja eu! Matei meu próprio filho!”, gritava Ivan, aos prantos. Sua voz acordou o filho, que, no leito de morte, reconfortou o pai: “Morro como um devotado filho e humilde servo”. Durante quatro dias, de tudo foi feito para curar o garoto, enquanto o velho Ivan rezava por um milagre que não veio. Ivan Ivanovich morreu em 19 de novembro de 1581, resultando num remorso e uma amargura até o fim da vida do czar.
Ivan matando o próprio filho, de Ilya Repin / Crédito: Wikimedia Commons

Esse caso é um dos mais famosos da memória política do czarismo russo, e foi eternizado pela pintura do realista e dissidente da Academia Imperial de São Petersburgo Ilya Repin conhecida como ‘Ivan, o Terrível, matando o próprio filho’. O olhar de Ivan no quadro traduz o verdadeiro sentimento: uma mistura de desespero, tristeza, luto e arrependimento.

domingo, 29 de março de 2020

Mathilde Kschessinska, amante de Nicolau II, que namorou 2 Romanovs ao mesmo tempo.

MATHILDE KSCHESSINSKA, A AMANTE DE NICOLAU II QUE NAMOROU DOIS ROMANOVS AO MESMO TEMPO

A bailarina chegou a ter um filho em decorrência dos encontros sexuais com os grão-duques, mas nunca soube ao certo quem era o pai
WALLACY FERRARI PUBLICADO EM 29/03/2020
Nicolau II e Mathilde em montagem
Nicolau II e Mathilde em montagem - Wikimedia Commons
Nascida em 31 de agosto de 1972, na Polônia, Mathilda-Marie Feliksovna Kschessinskaya foi uma bailarina da família Krzesinsky, nobre pela sua arte e atuação na alta sociedade. Seu pai Feliks Krzesiński e seu irmão já dançavam em São Petersburgo e a jovem teve oportunidade de desenvolver seus dotes com maestria pelos parentes.
Durante sua adolescência começou a ter notoriedade por movimentos meticulosos e ensaios diários para alcançar a perfeição na execução dos passos. Sua grande oportunidade foi aos 18 anos, quando foi recrutada pelo renomado coletivo de dança Imperial Ballet.
Com o grupo, Mathilde teve a chance de se mostrar para diversas pessoas importantes, como chefes de estado e empresários, mas, em 1890, no Teatro Imperial Mariinsky, teve a oportunidade de ouro. Com a presença do imperador Alexandre III, fez uma apresentação de formatura.
O czar Nicolau II em retrato / Crédito: Klimbim

Após o espetáculo, foi ao jantar de gala oferecido após a performance. Lá, conheceu toda a família Imperial e trocou olhares com uma pessoa em específico: o herdeiro do trono Nicolau II, que, na época com 22 anos, se encantou com a jovem. Ficou então, sobre a responsabilidade de seu pai, dar um empurrãozinho ao casal.
O próprio imperador apresentou Mathilde ao filho, que manifestou encanto pela graduanda da escola de coreografia. Nicolau nunca havia se relacionado amorosamente e foi correspondido pela bailarina, chegando a relatar sua paixão em um diário: “Mathilde me envolve em uma luz positiva”.
A jovem já havia se relacionado anteriormente, mas não foi um empecilho para se aproximar do rapaz, chegando a relatar o envolvimento de ambos: “O sentimento preencheu minha alma por completo, eu só conseguia pensar nele”, disse a dançarina em sua biografia.
Em um relacionamento de quatro anos, Nicolau e Mathilde se encontravam de maneira discreta na residência do Império, porém, para um maior conforto, o filho do rei chegou a comprar uma mansão em São Petersburgo, onde o casal não teria problemas teria mais privacidade.
Ao desenrolar da relação, a balilarina descobriu que, apesar de ter conhecido Nicolau primeiro, seria amante do mesmo, visto que assumiu publicamente o noivado com Alice de Hesse e Reno, em 1894. Com o relacionamento em desordem e com o casamento chegando, não foi possível manter os encontros.
Depois de se separarem, Nicolau II se tornou o czar da Rússia, enquanto Mathilde se tornou uma das bailarinas mais famosas do continente, enriquecendo com suas apresentações e presença na elite. Com o dinheiro, se tornou uma socialite de sucesso com diversos imóveis e investimentos. O discurso de Lenin feito após voltar da Suíça, em 1917, foi realizado na varanda de uma das mansões da dançarina.
Sergei Mikhailovich (à esq.) em montagem com Andrei Vladimirovich (à dir.) / Crédito: Wikimedia Commons

Solteira, chegou a ter envolvimento sexual com dois grão-duques da família Romanov ao mesmo tempo, sem a ciência de ambos. Sergei Mikhailovich, inspetor-geral de artilharia durante a Primeira Guerra Mundial, e seu primo Andrei Vladimirovich, que também era primo de Nicolau II.
As relações lhe renderam um filho, nascido em 1902. Vladmir, mais tarde intitulado HSH Prince Romanovsky-Krasinsky, nunca soube ao certo quem era seu pai e nunca foi informado pela mãe, que morreu aos 99 anos, em 1971.

domingo, 15 de março de 2020

O fracasso dos Romanov: em 1917, Nicolau II era obrigado a abdicar do trono russo.

O FRACASSO DOS ROMANOV: HÁ 103 ANOS, NICOLAU II ERA OBRIGADO A ABDICAR DO TRONO RUSSO

Com o país em miséria, a população foi para as ruas protestar contra a família imperial e pedir pela queda do czarismo
DANIELA BAZI PUBLICADO EM 15/03/2020
Nicolau II, o último czar da Rússia
Nicolau II, o último czar da Rússia - Divulgação/Klimbim
Há 103 anos, a Rússia se encontrava próxima a um grande colapso. A população estava pobre e com escassez de alimentos desde 1915, período em que o czar Nicolau II estava longe do país devido a Primeira Guerra Mundial. Com a ida de 15 milhões de fazendeiros para a batalha, os preços da comida aumentaram em quatro vezes, comparando com 1914.
Segundo o historiador Daniel Aarão Reis Filho no livro A Revolução Russa: 1917-1921, “começaram a faltar gêneros essenciais e a indústria, concentrada em atender às necessidades do Exército, não produzia bens de consumo corrente”. 
A entrada do país no grande conflito foi uma ideia falha do soberano que tinha como intuito despertar um sentimento de nacionalismo na população, em que eles voltariam a apoiar o czarismo e a defender a pátria. Contudo, sua intenção resultou em algo completamente contrário do que imaginava.
Manifestação em 1917 / Crédito: Wikimedia Commons

O inverno era o pior que a Rússia havia enfrentado em toda sua história, com os termômetros atingindo os 25 graus negativos. As nevascas também passaram a causar grandes problemas nas locomotivas que transportavam os mantimentos que supririam as necessidades de um povo em miséria.
De 20 mil trens, apenas 9 mil continuaram em serviço no ano de 1917. Entre os vagões, o número diminuiu de 500 mil para 170 mil. Os abastecimentos de combustível e farinha na cidade de Petrogrado simplesmente sumiram. Fábricas fecharam e inúmeros trabalhadores perderam seus empregos.
A trágica situação em que os russos se encontravam ocasionou em uma grande revolta no dia 23 de fevereiro de 1917 em Petrogrado, onde as pessoas foram para as ruas protestar contra a família imperial. Durante o ato, muitos passaram a quebrar janelas de lojas para conseguir comida e outros mantimentos básicos.
Para conter os revoltosos, a polícia começou a atirar em todos os que depredavam as propriedades e incitavam os tumultos. Com a situação saindo do controle, o gabinete de czar pediu seu retorno imediato para oferecer sua abdicação ao trono russo.
Reprodução do Domingo Sangrento / Crédito: Getty Images

Em 15 de março de 1917, sem outra solução possível, Nicolau II assinou os papeis que oficializavam sua abdicação ao trono russo. Automaticamente, o Governo Provisório foi criado, contendo membros do Parlamento Russo, a Duma, com o príncipe Georgy Lvov assumindo o cargo de primeiro-ministro. Entretanto, ele acabou deixando a posição em 20 de julho do mesmo ano.
O czar e sua família foram colocados em prisão domiciliar pelo próprio governo, sendo vigiados 24 horas por guardas espalhados por toda a casa. Um ano após sua queda, em 17 de julho de 1918, Nicolau e sua família foram fuzilados em Ecatemburgo, por tropas bolcheviques, ordenadas pelo Soviete Regional Ural, e lideradas por Yakov Yurovsky.

sábado, 7 de março de 2020

Incompetência, traição e bruxaria: 5 polêmicas que abalaram a corte de Nicolau II.

INCOMPETÊNCIA, TRAIÇÃO E BRUXARIA: 5 POLÊMICAS QUE ABALARAM A CORTE DE NICOLAU II

Como último czar do Império Russo, o descendente dos imponentes Romanov ficou conhecido na história como um mandante alienado e despreparado
PAMELA MALVA PUBLICADO EM 07/03/2020
Foto do último czar russo, Nicolau II
Foto do último czar russo, Nicolau II - Divulgação/Klimblim
Nicolau II assumiu o posto de último czar do Império Russo quando tinha apenas 26 anos. De Alexander III, ele recebeu uma verdadeira potência: o país estava em seu auge político e econômico, com uma boa relação internacional.
Mesmo que tudo estivesse no caminho para dar certo, o novo governante revelou-se um terrível gestor. Em pouco tempo, com Nicolau II no poder, a Rússia testemunhou a queda do Império e o colapso do estado soviético.
Confira 5 polêmicas que abalaram o governo de Nicolau II.
1. Domingo Sangrento.
Reprodução do Domingo Sangrento / Crédito: Getty Images

Nicolau II subiu ao trono pela primeira vez em 1894 e, assim, teve de lidar com o clima revolucionário instaurado na Rússia em 1905. O império estava em guerra contra o Japão e, insatisfeito com o conflito, o povo decidiu por uma greve geral.
O governo começava a se fragmentar e Nicolau não viu outra saída que não fosse a repressão dos movimentos populares. Assim se deu um dos episódios mais sombrios do governo: o Domingo Sangrento, um massacre público contra os manifestantes em São Petesburgo.

2. Criação da DUMA.
Salão da DUMA / Crédito: Wikimedia Commons

O autoritarismo do czar acabou com sua figura benevolente e, com isso, ele precisava de uma medida de contenção, que satisfizesse a população. Assim, em outubro de 1905, Nicolau II assinou o Manifesto de Outubro.
Entre as muitas medidas garantidas pelo documento estava a criação da DUMA, uma assembleia legislativa. Instaurada quase no final do Império Russo, a DUMA se tornou a Casa Menor do parlamento e foi convocada quatro vezes.

3. Um bruxo na corte.
O famosos Rasputin / Crédito: Wikimedia Commons

Logo que assumiu o posto de czar, Nicolau II casou-se com Alexandra, em abril de 1894. Uma vez na corte, a dama contava com os conselhos de Grigori Rasputin. Astuto e convincente, o homem dizia ser um bruxo, um profeta, e acabava por influenciar até a mais simples decisão da Imperatriz Consorte.
O motivo dessa crença cega no homem barbudo, para a esposa de Nicolau II, era simples: ele prometia poder curar o príncipe Alexei, que sofria de hemofilia. E, quando Nicolau II deixou seu império nas mãos da czarina para lutar na Primeira Guerra Mundial, a dama acabou entregando todo o país ao oportunista Rasputin, que chegou a nomear até ministros de Estado.
Em pouco tempo, a Rússia caiu no caos e a corrupção se alastrou. Rasputin foi enviado de volta à sua vila natal, mas ganhou seu lugar de volta quando Alexei adoeceu e Alexandra enviou uma carta para o bruxo. Ele respondeu e, dois dias depois, o menino se curou.

4. Trincheiras russas.
Tropas russas em trincheiras durante a Primeira Guerra / Crédito: Wikimedia Commons

Uma vez reconhecida como uma potência mundial, a Rússia foi pega de surpresa pela eclosão da Primeira Guerra Mundial. O Império, por maior que fosse, não estava preparado para o conflito, mesmo que os aliados confiassem no exército soviético.
Nicolau II não tinha recursos bélicos para lutar na guerra, muito menos treinamento. Mesmo assim, em 1915, o czar decidiu assumir o comando do Exército Russo — por influência de Alexandra e, por consequência, de Rasputin.
Estrategicamente, era uma péssima ideia. O jovem czar não tinha a menor competência para guiar tropas e as trincheiras começaram a sofrer com a falta de conhecimento do comandante. O desempenho russo, inclusive, gerou um mal-estar entre o Império e os aliados no conflito.

5. Suposta traição.
Rasputin e Alexandra em série da Netflix / Crédito: Divulgação/Netflix

A relação de proximidade e influência entre Alexandra e Rasputin, para muitos, pode ser interpretada como um relacionamento amoroso. É claro que seria fácil imaginar um suposto caso entre os dois, já que o profeta era promíscuo e a imperatriz, fascinada por ele.
Para muitos historiadores, entretanto, a ligação intensa entre Rasputin e Alexandra se deu pelo amor que a czarina tinha por seu filho, cuja vida o conselheiro prometia salvar. Segundo Douglas Smith, historiador e autor da biografia Rasputin: fé, poder e o declínio dos Romanov, “não há nenhuma maneira, e nenhuma prova, de que Alexandra teria procurado Rasputin por sexo”.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Palácio de Alexandre, última residência dos czares, antes da revolução russa, será reaberto.

PALÁCIO DE ALEXANDRE, ÚLTIMA RESIDÊNCIA DOS CZARES ANTES DA REVOLUÇÃO RUSSA, SERÁ REABERTO

Quase destruído durante a Segunda Guerra e fechado desde 2015, o local é conhecido por ter sido o palacete preferido dos últimos Romanov
ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 18/02/2020
A família real russa
A família real russa - Klimbim
O palácio que abrigou a família real russa antes da Revolução de 1917 será reaberto novamente ao público. Localizada a cerca de 25 km de São Petersburgo, na Rússia, a residência dos últimos Romanov remonta ao século 18.
O Palácio de Alexandre é relembrado como o local em que Nicolau II e sua família permaneceram sob a guarda dos bolcheviques durante a Revolução Russa. Depois de um período de isolamento, eles foram levados à Casa Ipatiev, onde foram executados.
O Palácio de Alexandre, na Rússia /  Crédito: Wikimedia Commons

Após os acontecimentos, o local foi transformado em um museu. No entanto, durante a Segunda Guerra Mundial, sofreu com muitos danos e o pouco do palácio original foi  mantido. Daquela época, sobreviveram apenas o escritório de Nicolau e uma das salas de baile.
Foi apenas nos anos 1990 que a ONG World Monuments Fund entrou em ação para tentar recuperar o patrimônio perdido. Naquele período, foram expostas algumas exposições sobre a família real, mas o palacete ainda não havia sido totalmente restaurado.
Em 2015, a organização fechou o local para realizar as reformas necessárias no intuito de lhe devolver a aparência que tinha quando os Romanov viveram ali. Com o final da remodelação do palácio, será possível entender como era a vida deles na época.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Há 473 anos, nascia o czarismo na Rússia.

PODER SEM LIMITES: HÁ 473 ANOS, NASCIA O CZARISMO NA RÚSSIA

Substituindo o grão-ducado de Moscou, que durou 264 anos, o czarismo teve como primeiro líder Ivan IV, o Terrível
JOSEANE PEREIRA PUBLICADO EM 16/01/2020
Ivan IV, o Terrível
Ivan IV, o Terrível - Getty Images
Quando Ivan IV da Moscóvia foi coroado czar da Rússia, uma mensagem foi enviada para todo o mundo: o jovem de 16 anos seria o único governante daquele grande país, cuja vontade não deveria ser questionada de forma alguma.
O Governante
Ivan nasceu em 25 de agosto de 1530, nos arredores de Moscou. A cidade, que não parava de crescer, era a capital do Grande Reino de Moscóvia, governado pelo pai de Ivan, Vassili III. O território era cercado por povos tártaros, que viviam em Estados conhecidos como khanatos (comandados por líderes chamados khans). Não eram raras as guerras dos moscovitas contra os vizinhos.
Quando Vassili III caiu doente e morreu, em 1533, o pequeno Ivan foi proclamado grande príncipe, o líder do Reino de Moscóvia. Como ele era muito jovem, Elena Glinskaya, sua mãe, assumiu o trono. Em 1538 ela também morreu, provavelmente envenenada.
Na ausência de Elena, explodiram as disputas internas pelo poder no reino. Os protagonistas da briga eram os boiardos, nobres proprietários de terras que faziam parte do governo e que, de vez em quando, entravam em guerra uns contra os outros. Órfão aos 8 anos, Ivan passou a ser criado sob a supervisão dos boiardos.
Por que Czar?
Ivan, o Terrível, implorando para se tornar um monge / Crédito: Getty Images

No dia 16 de janeiro de 1547, Ivan se tornou o primeiro a ser coroado czar, o “grande príncipe de toda a Rússia”. Monarcas anteriores já haviam recebido o título (derivado dos “césares” de Roma), mas nenhum deles havia sido abençoado e reconhecido pela poderosa Igreja Ortodoxa.
Acredita-se que os distúrbios mentais de Ivan tenham começado justamente após sua coroação: a cerimônia fez com que ele acreditasse ser mesmo um líder enviado dos céus.
O novo título era uma junção dos poderes de Imperador Bizantino com os de tártaro Cã. Isso fez com que seu poder fosse intimamente ligado à Igreja, sendo ele considerado um líder “divino” que deveria decretar a vontade de Deus.
E o clero ajudava a consolidar essa ideia: nos textos episcopais, os monarcas do Antigo Testamento eram classificados como Czares, e Cristo teria sido o Czar celestial.
Nos primeiros anos de reinado, ele centralizou o poder em Moscou e derrubou o velho esquema medieval, em que cada nobre era soberano no seu pedaço de terra. Entretanto, o aumento de seus desequilíbrios mentais levou a Rússia a tempos tenebrosos: Vilas inteiras eram eliminadas e trabalhadores abandonavam os campos agrícolas.
Até a nobreza e o clero passaram a temer os ataques de loucura do czar, que acabou ficando conhecido como Ivan, o Terrível.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Em 1825, ocorria a Revolta Dezembrista, que foi reprimida pelo Czar Nicola I.

HÁ 194 ANOS OCORRIA A REVOLTA DEZEMBRISTA, QUE FOI BRUTALMENTE REPRIMIDA PELO CZAR NICOLAU I

Confuso e com muita desinformação, o protesto contra a autocracia czarista buscou inspiração no Iluminismo francês
PAMELA MALVA PUBLICADO EM 27/12/2019
Pintura dos dezembristas reunidos na Praça do Senado
Pintura dos dezembristas reunidos na Praça do Senado - Wikimedia Commons
Em 1825 a política do Império Russo passava por um momento intenso: seu czar, Constantino, acabara de abdicar o trono. Assumindo por seu direito, como irmão mais novo do antigo czar, Nicolau I foi coroado.
Os militares, todavia, não ficaram satisfeitos e sentiram a necessidade de manifestar esse sentimento. Então, no dia 14 de dezembro de 1825, 3 mil soldados, chefiados por oficiais do exército, ergueram a Revolta Dezembrista.
Eram esperados, na verdade, 20 mil soldados, que não se apresentaram em totalidade. Mesmo assim, o protesto contra a coroação de Nicolau I seguiu. O grupo se uniu na Praça do Senado, em São Petersburgo. Lá, com bandeiras tremulando e tambores tocando, se reunira, diante do Cavaleiro de Bronze.
A real estátua do Cavaleiro de Bronze, na Praça do Senado / Crédito: Wikimedia Commons
Com o protesto, os dezembristas — como ficaram conhecidos —, pediam por uma Constituição e, como alternativa à autocracia czarista, sugeriram a monarquia constitucional. Além disso, exigiam que os camponeses fossem emancipados.
Nesse sentido, buscando apoio popular, os militares da Revolta Dezembrista andavam pelas ruas distribuindo folhetos. No entanto, os dezembristas começaram a perder sua credibilidade quando, nas páginas impressas, afirmavam que Nicolau havia usurpado o trono, o que se provou ser inverídico.
A popularidade e credibilidade dos protestantes diminuiu mais ainda quando percebeu-se que a maioria dos soldados não tinha conhecimento o suficiente. Muitos deles não sabiam o que era uma Constituição e só marcaram presença para atacar a hierarquia militar — alguns deles, inclusive, achavam que Constituição era a esposa de Constantino, e que queriam ela no poder, no lugar de Nicolau I.
Nicolau I, em frente ao seu Batalhão, no pátio do Palácio de Inverno / Crédito: Wikimedia Commons
Em resposta ao protesto, o czar comandou confrontos violentos e reprimiu fortemente o movimento. Com os dezembristas em suas mãos, Nicolau mandou enforcar os principais conspiradores, enquanto outros 121 deles foram exilados para a Sibéria em 1826.
Os poucos dezembristas que sobreviveram ao exílio foram soltos anos mais tarde, pelo czar Alexandre II, em 1856. Por mais que pareça um ato carregado de uma leve esperança, apenas 19 dos 121 protestantes conseguiram voltar ao Império Russo.
Com o fim da Revolta Dezembrista, o governo de Nicolau I — que já não era bem visto pelo povo —, caiu no conceito geral. A forma como o czar reprimiu o movimento e tratou seus expoentes de forma dura e violenta fez com que a insatisfação e oposição aos czares russos apenas aumentassem.
Representação de protestante sendo morto e homenagem aos dezembristas, respectivamente / Crédito: Wikimedia Commons
De caráter progressista e liberal, os dezembristas se inspiraram no Iluminismo francês. E, anos mais tarde, serviu de modelo para o movimento populista que tomou as ruas da Rússia entre as décadas de 1860 e 1870.
Em homenagem aos militares da Revolta Dezembrista, a praça onde se encontraram foi renomeada, para marcar o centenário do protesto. Por isso, em 1925, a Praça do Senado passou a ser chamada de Praça Dezembrista — o nome, no entanto, voltou a ser o inicial em 2008.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Envenenamento, tiros e "ressurreição": a polêmica morte de Rasputin.

ENVENENAMENTO, TIROS E "RESSURREIÇÃO": A POLÊMICA MORTE DE RASPUTIN

O bruxo de Alexandra, a esposa do último czar do país, despertou o ódio da sociedade teve uma morte, no minimo, bizarra
SIMONE BITAR PUBLICADO EM 19/09/2019
Grigori Rasputin
Grigori Rasputin - Reprodução
No dia 16 de dezembro de 1916 o príncipe Félix Yusupov convidou Rasputin para uma noitada em seu palácio, às margens do canal Moika, em São Petersburgo. Ele parece ter insinuado que, naquela noite, Rasputin poderia desfrutar de sua esposa, a princesa Irina Alexandrovna. O libertino não deixaria passar em branco essa oportunidade, já que Irina era irmã de Nicolau II. Mesmo sabendo que vivia sob ameaça, o bruxo aceitou o convite. Era uma cilada.
A trama para assassinar Rasputin foi descrita por Yusupov no seu diário pessoal, em que ele declara ter sido o único mentor do atentado. O objetivo seria salvar a honra da monarquia russa. O príncipe cita outros personagens. Um deles é o grão-duque Dimitri Pavlovich, primo de Nicolau II . Outro é o deputado Vladimir Purishkevich, membro do Duma, a câmara baixa do Parlamento russo e feroz crítico de Rasputin.
Félix Yusupov e a princesa Irina Alexandrovna / Crédito: Reprodução

O diário de Yusupov conta que Rasputin chegou ao palácio no início da madrugada. Lá, foi acomodado na sala de jantar — arrumada para dar a impressão de que uma multidão tinha acabado de cear. No andar de cima, os conspiradores ouviam música alta, fingindo ser convidados que ainda não haviam ido embora. Rasputin foi informado de que deveria esperar a princesa Irina despachar os visitantes. O plano era que o bruxo morresse ao ingerir vinho e pedaços de bolo envenenados com cianeto.
Rasputin relutou, mas aceitou comer e beber. Yusupov ficou na sala, esperando em vão que o veneno fizesse efeito. Já passava das 2h30 quando o convidado, aparentemente imune ao cianeto, começou a se irritar com a demora. O príncipe subiu ao segundo andar, sob o pretexto de apressar Irina. Foi quando os seus comparsas o convenceram a atirar em Rasputin com a pistola de Pavlovich.
Yusupov desceu as escadas e disparou contra o curandeiro, que caiu no chão. Todos desceram, examinaram o corpo e voltaram ao segundo andar para festejar o sucesso do atentado. Yusupov continuava tenso, imaginando que, graças a poderes sobrenaturais, a vítima ainda estivesse viva. Perto de 3h30, o príncipe voltou à sala de jantar. O, até então inerte, Rasputin subitamente se levantou e atacou o desesperado Yusupov, que clamou por ajuda. O místico ainda teve forças para fugir pelo pátio, onde foi alvejado novamente. O tiro de misericórdia teria sido disparado por Purishkevich.
Um quadro representando Felix Yusupov com Grigori Rasputin no período que antecedeu o assassinato de Rasputin / Crédito: Reprodução

O cadáver foi enrolado num tapete e atirado nas águas do rio Neva. Em depoimentos dados em 1934 e 1965, Félix Yusupov repetiu exatamente essa história. Mas os detalhes não batem com as versões dos outros envolvidos.
Depois do fim da União Soviética, documentos da época foram analisados com novas técnicas forenses. Descobriu-se que os três tiros encontrados no cadáver vieram de armas diferentes. A primeira, de Pavlovich. A segunda, de Purishkevich. Já o tiro fatal, dado no centro da testa com destreza profissional, saiu de uma Webley .455, pistola usada por oficiais ingleses. “Acho completamente possível que os britânicos estivessem envolvidos no assassinato de Rasputin, trabalhando para manter a Rússia na guerra”, diz o professor Saunders.
Segundo um documentário de 2004, produzido pela emissora inglesa BBC, relatórios do antigo serviço secreto inglês se referem à data do crime como o “extermínio das forças ocultas na Rússia”. O agente Oswald Rayner (que estudou com o príncipe Yusupov em Oxford) teria sido destacado para acompanhar a conspiração e assegurar que Rasputin fosse mesmo assassinado.
Ao saber do crime, a czarina Alexandra exigiu uma investigação minuciosa. A polícia encontrou provas por todos os cantos, incriminando Yusupov e Pavlovich. Ambos foram expulsos do país por Nicolau II, que, com esse ato, acabou salvando a vida deles. O assassinato de Rasputin foi usado por grupos revolucionários como mais um pretexto para incitar levantes populares.
Três meses depois do crime, o czar seria derrubado. Em outubro de 1917, o poder chegaria às mãos dos bolcheviques liderados por Vladimir Lênin. No novo regime, praticamente toda a nobreza russa, incluindo Alexei, Alexandra e Nicolau II, seria executada. Já Rasputin seria transformado pelos comunistas em ícone dos desmandos da monarquia. Até hoje seu nome ainda é sinônimo de devassidão, manipulação e charlatanice.
Corpo de Rasputin / Crédito: Reprodução

No início do século 20, muitos nobres europeus sofriam de hemofilia – traço comum aos descendentes da rainha inglesa Vitória, como Alexei. A doença (que impede a coagulação do sangue) já era conhecida, mas não havia tratamentos eficazes. Por isso, a czarina Alexandra recorreu a místicos para cuidar do filho. Porém, é possível que Alexei não fosse hemofílico. Essa é a hipótese do escritor Robert Massie em The Romanovs: The Final Chapter (“Os Romanov: o capítulo final”, livro inédito no Brasil). Os diários da czarina e dos médicos falam de sintomas que poderiam ser de crises aplásticas, descritas apenas em 1947. Em geral, elas se manifestam até a metade da adolescência, causando hemorragias internas por cerca de dez dias até que o sangue volte ao normal. Massie diz que Rasputin, devido a sua prática de curandeiro, já conhecia a doença e sabia que as crises de Alexei não seriam fatais.

Saiba mais
To Kill Rasputin: The Life and Death of Gregori Rasputin, Andrew Cook, Tempus Publishing, 2006 

domingo, 25 de agosto de 2019

Ivan IV: por que o Czar russo era tão terrível?

IVAN IV: POR QUE O CZAR RUSSO ERA TÃO TERRÍVEL?

Nascido há 489 anos, ele foi o primeiro czar da Rússia e reinou durante 37 anos. Sanguinário, matou o próprio filho e espancou a nora grávida — provocando o aborto do futuro neto
REDAÇÃO PUBLICADO EM 25/08/2019
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- Crédito: Wikimedia Commons
Ivan Vasilievich acreditava que todos conspiravam contra ele. O czar, soberano da Rússia com o nome de Ivan IV, já havia matado membros do governo, amigos, amigos dos amigos e até alguns parentes. Havia eliminado famílias e vilas inteiras, mesmo que as vítimas nada tivessem a ver com o motivo de sua fúria. Ivan só não havia ainda tocado em seus familiares mais próximos. Isso mudou em uma noite do outono de 1581.
Muito religioso, o czar repreendeu a nora por usar roupas que ele achou inadequadas. O castigo foi o espancamento. Ela estava grávida. Os golpes dados pelo monarca acabaram provocando o aborto de seu futuro neto.
Indignado, Ivan Ivanovich, herdeiro do trono, resolveu enfrentar o pai em defesa da esposa. A fúria do czar então se voltou contra o filho: com sua bengala de ferro, Ivan o golpeou na cabeça. Onze dias depois, o ferimento levaria Ivan Ivanovich à morte. Por causa de uma discussão, o monarca tinha exterminado seus herdeiros diretos.
Não foi à toa que ele passou à história como Ivan, o Terrível. Ou melhor, Ivan, o Apavorante, Ivan, o Grande, ou talvez, Ivan, o Implacável. Seu apelido em russo, Grozny (Гро́зный​), transmite a ideia de temor (principalmente contra os inimigos) e obediência, mas não incompetência, como a palavra terrível.  
Apesar de ter centralizado o poder e conquistado importantes territórios, o primeiro czar da Rússia acabou eternizado por sua violência. Mas, recentemente, pesquisadores têm visto no monarca mais do que simples maldade. Ele teria sofrido graves desequilíbrios mentais.
Crédito: Wikimedia Commons
Infância perturbada
Ivan nasceu em 25 de agosto de 1530, nos arredores de Moscou. A cidade, que não parava de crescer, era a capital do Grande Reino de Moscóvia, governado pelo pai de Ivan, Vassili III. O território era cercado por povos tártaros, que viviam em Estados conhecidos como khanatos (comandados por líderes chamados khans). Não eram raras as guerras dos moscovitas contra os vizinhos.
Quando Vassili III caiu doente e morreu, em 1533, o pequeno Ivan foi proclamado grande príncipe, o líder do Reino de Moscóvia. Como ele era muito jovem, Elena Glinskaya, sua mãe, assumiu o trono. Em 1538, ela também morreu, provavelmente envenenada.
Na ausência de Elena, explodiram as disputas internas pelo poder no reino. Os protagonistas da briga eram os boiardos, nobres proprietários de terras que faziam parte do governo e que, de vez em quando, entravam em guerra uns contra os outros.
Órfão aos 8 anos, Ivan passou a ser criado sob a supervisão dos boiardos. O fato de ser príncipe não lhe garantiu uma infância privilegiada: o garoto foi tratado de forma brutal e chegou a passar fome. Não é de se estranhar que, com um exemplo péssimo desses, Ivan tenha aprendido a lidar com os outros da mesma maneira. Começou jogando gatos e cachorros pelas janelas do palácio em que morava, dentro dos muros do Kremlin. Passou então a maltratar servos e, mais tarde, a matá-los por pura diversão. Era um ensaio para os grandes massacres que iria promover.
A péssima criação de Ivan, entretanto, não basta para explicar seu comportamento na época adulta. “Quando jovem, ele provavelmente viu algumas cenas cruéis da luta entre várias facções da corte. Esses conflitos eram típicos em qualquer corte do século 16”, afirma o russo Sergei Bogatyrev, professor de História Russa Antiga do University College de Londres, Inglaterra.
Ora, se a crueldade era comum em outros reinos, por que somente Ivan foi tão sanguinário? O americano Richard Hellie, professor de História Russa da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, afirma que o czar era mesmo doente da cabeça. “Muito do comportamento de Ivan pode ser justificado por teorias modernas que explicam tipos comuns de paranoia, como mania de perseguição e megalomania.”
De herói a vilão
Aos 16 anos, em janeiro de 1547, Ivan se tornou o primeiro a ser coroado czar, o “grande príncipe de toda a Rússia”. Monarcas anteriores já haviam recebido o título (derivado dos “césares” de Roma), mas nenhum deles havia sido abençoado e reconhecido pela poderosa Igreja Ortodoxa. Acredita-se que os distúrbios mentais de Ivan tenham começado justamente após sua coroação: a cerimônia fez com que ele acreditasse ser mesmo um líder enviado dos céus.
Opríchnina (Nikolai Nevrev), mostra os últimos de um inimigo / Crédito: Reprodução
Mas, antes de mergulhar a Rússia em um inferno, Ivan até que melhorou a vida de seus súditos. Nos primeiros anos de reinado, ele centralizou o poder em Moscou e derrubou o velho esquema medieval, em que cada nobre era soberano no seu pedaço de terra. O ódio que Ivan tinha dos boiardos fez com que ele se livrasse de boa parte deles, dando altos cargos públicos a pessoas comuns. Representantes populares ganharam espaço no Zemsky Sobor, a assembléia da nação instituída pelo czar, que reunia também membros da nobreza e do clero.
Enquanto colocava ordem na casa, Ivan ia botando as manguinhas de fora e expandindo seus domínios. Conquistou grandes territórios dos inimigos tártaros a leste e ao sul, chegando até o mar Cáspio e mais tarde atingindo a gélida Sibéria. A expansão das fronteiras trouxe tranquilidade ao povo da Rússia, já que os tártaros, durante suas invasões, costumavam capturar russos e vendê-los como escravos.
Para comemorar a derrota dos tártaros, que eram muçulmanos, Ivan mandou construir um enorme templo ortodoxo em Moscou. Após o fim dos seis anos de obras, iniciadas em 1555, o czar ficou extremamente impressionado com o resultado (a bela e colorida catedral de São Basílico é até hoje um dos maiores símbolos da Rússia). Diz a lenda que, em vez de premiar os responsáveis pela construção, Ivan teria mandado cegá-los, para garantir que eles não construíssem nada mais belo que aquela igreja.
O lado assassino de Ivan teria sido despertado, segundo historiadores, por causa da morte da esposa, a czarina Anastácia, em 1560. A fatalidade pôs fim a 13 anos de casamento. “A morte dela foi quase imediatamente seguida de um ato irracional. Ivan culpou seus conselheiros pelo fato e ordenou a realização de um julgamento religioso para declará-los bruxos”, relata o professor Richard Hellie. Até Aleksey Adashev, seu auxiliar mais próximo, não escapou da ira do czar: foi preso e cometeu suicídio na prisão.
Depois de Anastácia, Ivan tentou, em vão, se firmar com outra mulher. Casou-se mais sete vezes – algumas dessas uniões terminaram em poucas semanas. Em vez de se preocupar com a felicidade conjugal, o czar voltou sua atenção à perseguição de supostos traidores da pátria. Essa paranoia fez com que, em 1565, Ivan formasse a Oprichnina (termo que, em russo antigo, significa algo como Estado separado). Com a medida, um terço de todo o território do Reino da Moscóvia ficou apenas sob seu governo, sem a interferência dos boiardos ou da assembléia de representantes que ele mesmo criara.
Ivan se apropriou das melhores terras e nelas implantou um regime de terror, colocado em prática por sua guarda pessoal. “Um dos mais cruéis atos durante a Oprichnina foi uma expedição punitiva contra a cidade de Novgorod, em 1570, em que foram mortas entre 3 mil e 15 mil pessoas”, diz o professor Sergei Bogatyrev. Todas essas mortes ocorreram porque as tropas de Ivan, que tinham autonomia para matar qualquer um, estavam perseguindo apenas dois administradores locais acusados de traição.
Ao mesmo tempo em que perseguia sem dó o povo russo, Ivan mandava, secretamente, que religiosos rezassem pelas vítimas dos massacres – afinal, ele era um homem de fé. Séculos mais tarde, uma lista da época foi encontrada, com nada menos que 4095 nomes de defuntos que mereceram orações encomendadas pelo czar. Segundo o professor Richard Hellie, a lista indica que os assassinatos durante a vigência da Oprichnina, que durou até 1572, podem não ter ultrapassado esse número.
Xeque-morte
Enquanto dentro da Rússia o desequilíbrio mental de Ivan causava morte e destruição, no exterior suas tropas levavam surras homéricas. Desde 1558, elas estavam metidas em uma guerra para conquistar a Livônia - que hoje corresponde a grande parte da Letônia e da Estônia. Lá, poloneses e suecos mostraram ser inimigos bem piores que os tártaros.
O czar não era um general brilhante nem ia muito ao campo de batalha. A guerra durou 25 anos e, ao final, nenhum pedaço de terra foi ganho. Do lado russo, as baixas mais importantes não foram feitas pelos inimigos, mas por Ivan. “Alguns bons diplomatas e comandantes militares se tornaram vítimas da Oprichnina”, diz o professor Sergei Bogatyrev.
Ilustração de 1561, mostra atrocidades do exército russo / Crédito: Reprodução
Em 1581, quando a derrota na Livônia estava próxima, ocorreu o incidente que selou o destino do czar: a morte do filho – e do neto, ainda na barriga da mãe. “O assassinato acidental de Ivan Ivanovich foi a maior tragédia da vida de Ivan, o Terrível”, afirma Bogatyrev. Meses após o ocorrido, o monarca teve um colapso físico: sua barba embranqueceu e ele perdeu os cabelos e o vigor.
Enquanto a vida do monarca ia mal, a dos russos ia pior ainda. Vilas inteiras haviam sido eliminadas durante seu regime. Muitos trabalhadores abandonaram os campos e a produção agrícola entrou em declínio. Os nobres e o clero, antes muito influentes, se recolhiam, temendo os ataques de loucura do czar. O medo e a pobreza dominavam o reino do homem que, naquela época, já era chamado de Ivan Grozny (a tradução da alcunha em russo para o português é o horrendo, mas a versão vinda do inglês terrible acabou ficando mais popular). 
A hora de Ivan chegou em 18 de março de 1584. Morreu enquanto jogava xadrez, provavelmente vítima de um ataque cardíaco. Surgiram suspeitas de que o czar, como a mãe, tivesse sido envenenado. Depois de exumar seu cadáver, em 1968, pesquisadores descobriram que os restos mortais tinham traços de cianureto, o que continuou dando força a essa tese. Mas é bom lembrar que a substância, altamente tóxica, era utilizada na época para o tratamento da sífilis, doença que Ivan havia contraído.
Um dos acusados de ter envenenado o czar foi Boris Godunov, seu auxiliar. Ele era tio de Fiódor, que assumiu o trono por ser filho do último casamento de Ivan. Na prática, era Godunov quem governava, pois o novo czar não se interessava pelo cargo. Assim como o pai, Fiódor era meio esquisito. Mas, em vez de matar pessoas, sua paixão era tocar sinos. Foi o que ele mais fez até morrer, em 1598. Como não havia outros herdeiros, Godunov acabou virando czar. 

Saiba mais
Ivan the Terrible, Isabel de Madariaga, 2005