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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Livro: A Civilização Hispano-Moura.

 


Bibliografia: AZIZ, Philippe. A Civilização Hispano-Moura. Rio de Janeiro: Editions Ferni, 1977.

 

"A Civilização Hispano-Moura", escrita pelo jornalista e historiador francês Philippe Aziz e lançada originalmente em 1977, é uma obra de divulgação histórica que resgata o esplendor cultural, intelectual e artístico de Al-Andalus. Integrante da clássica coleção "Grandes Civilizações Desaparecidas", o livro funciona como uma excelente introdução ao domínio islâmico na Península Ibérica.

Estrutura e Contexto Histórico

A narrativa de Aziz cobre o período que vai da invasão omíada no ano 711 até a queda definitiva do Reino de Granada em 1492. O autor detalha a transição da Península Ibérica de um território visigótico fragmentado para o coração de um dos impérios intelectuais mais dinâmicos do mundo medieval.

O foco central da obra divide-se em três pilares:

  • Evolução Política: A ascensão do Emirado e posterior Califado de Córdova, a fragmentação nos reinos de Taifas e a resistência final em Granada.
  • Sincretismo Cultural: O convívio — muitas vezes idealizado, mas historicamente fértil — entre muçulmanos, cristãos (moçárabes) e judeus.
  • Legado Arquitetônico: Análises minuciosas sobre monumentos icônicos como a Mesquita de Córdova e o palácio de Alhambra.

Pontos Fortes do Livro

  • Acessibilidade: Por ter formação jornalística, Aziz utiliza uma prosa fluida, cativante e de leitura rápida, evitando o jargão excessivamente acadêmico.
  • Riqueza Visual e Descritiva: A obra reconstrói a atmosfera das cidades andaluzas, detalhando os sistemas de irrigação inovadores, os mercados e os hábitos cotidianos.
  • Valorização da Ciência: O texto faz justiça ao papel dos eruditos ibéricos na preservação e tradução da filosofia grega clássica para o Ocidente, além de seus avanços em medicina, astronomia e matemática.

Pontos Fracos e Ressalvas Críticas

  • Visão Romantizada: O autor por vezes adota um tom excessivamente nostálgico, suavizando as severas tensões políticas, as revoltas internas e os períodos de intolerância religiosa sob dinastias mais rígidas (como os Almorávidas e Almóadas).
  • Defasagem Historiográfica: Escrito na década de 1970, o livro não incorpora debates e descobertas arqueológicas mais recentes sobre a transição social e demográfica da época.
  • Falta de Aparato Acadêmico: A ausência de notas de rodapé densas ou de uma bibliografia criticamente comentada limita sua utilidade para pesquisadores de pós-graduação.

Análise Comparativa da Abordagem

Critério

Abordagem de Philippe Aziz

Historiografia Acadêmica Moderna

Estilo de Escrita

Jornalístico, narrativo e romanceado.

Analítico, baseado em dados e documentos estruturados.

Convivência Social

Enfatiza a harmonia e a tolerância cultural (Mito do Éden Andaluz).

Aponta uma convivência pragmática, marcada por tensões e hierarquias claras.

Foco Temático

Grandes personagens, reis, artes e monumentos.

História social, economia, demografia e arqueologia de campo.

Vale a pena ler?

Sim, principalmente para leitores leigos e entusiastas da história medieval. Se o seu objetivo é obter um panorama vibrante, colorido e geral sobre o impacto cultural mouro na Europa, a obra cumpre o papel com maestria. No entanto, se você busca um estudo crítico, rigoroso e atualizado sobre as dinâmicas sociais e econômicas de Al-Andalus, recomenda-se complementar a leitura com autores contemporâneos.

 

 

Livro: A República Árabe Unida (Egito).

 

Hussein Mones foi um historiador egípcio de enorme prestígio, conhecido por suas obras sobre a história do Islã e, especificamente, do Egito e do Al-Andalus.

Neste ensaio e/ou capítulo de livros onde Mones analisa o período da República Árabe Unida (RAU) — a união política entre o Egito e a Síria que durou de 1958 a 1961.

Abaixo, apresento os pontos centrais que Hussein Mones e historiadores de sua linhagem costumam destacar sobre esse tema:

Contexto Histórico da RAU

  • A União (1958): Sob a liderança de Gamal Abdel Nasser, o Egito e a Síria fundiram-se em um único Estado. Mones frequentemente abordava o nacionalismo árabe como uma força motriz histórica para a região.
  • O Pan-arabismo: A obra de historiadores como Mones analisa a RAU não apenas como um evento político, mas como a manifestação de um "arabismo" cultural e histórico profundo.

Críticas e Análise (Possível foco da "resenha")

Se você busca uma resenha crítica da visão de Mones sobre o Egito moderno e a RAU, os temas recorrentes são:

  • Centralismo Egípcio: A união fracassou em 1961 devido, em grande parte, à dominação administrativa e militar do Egito sobre a Síria, o que gerou ressentimento nos oficiais sírios.
  • Identidade Nacional vs. Árabe: Mones era um mestre em conectar a história antiga e medieval do Egito com sua identidade moderna. Suas análises mostram como o Egito tentou se equilibrar entre ser o líder do mundo árabe e manter sua própria essência nacional.
  • O Legado de Nasser: Embora a RAU tenha durado pouco, o nome "República Árabe Unida" continuou sendo o nome oficial do Egito até 1971, simbolizando a persistência do ideal nasserista mesmo após o fracasso prático da união.

Dica de Busca: Caso você tenha o livro físico em mãos ou uma referência específica, verifique se o título em árabe é algo como Misr wa Risalatuha (O Egito e sua Missão), onde ele discute o papel geopolítico do país.

 

Livro: A Vida Quotidiana dos Muçulmanos na Idade Média.

 Bibliografia: MAZAHÉRI, Ali. A Vida Quotidiana dos Muçulmanos na Idade Média, século X  século XIII. Coleção A Vida Quotidiana em Todos os Tempos. Lisboa: Livros do Brasil, 1959.  

A resenha a seguir refere-se à clássica obra "A Vida Quotidiana dos Muçulmanos na Idade Média (Século X ao Século XIII) Era de Ouro Islâmica", escrita pelo renomado historiador Aly Mazahéri. O livro faz parte da famosa coleção internacional de história social La Vie Quotidienne da editora francesa Hachette (publicada em Portugal pela Livros do Brasil e distribuída no ambiente lusófono).

A obra de Aly Mazahéri é uma reconstrução histórica excepcional que humaniza o ápice da civilização islâmica, afastando-se dos grandes fatos políticos e militares para focar na intimidade, nos costumes e na rotina do cidadão comum medieval. É um livro indispensável tanto para acadêmicos quanto para leitores casuais que desejam compreender a riqueza sociocultural do Islã clássico sem os filtros do preconceito eurocêntrico.

Estrutura e Temas Centrais

Mazahéri divide meticulosamente o livro para cobrir todas as esferas da existência humana daquela época. O autor utiliza uma linguagem vívida e envolvente para detalhar:

  • Sociedade e Família: O funcionamento dos lares, a estrutura do casamento, a educação das crianças e o papel das mulheres no tecido social.
  • Espaço Urbano e Trabalho: A dinâmica dos vibrantes bazares árabes, as corporações de ofício, a rotina dos camponeses e a organização das cidades como Bagdá, Cairo e Córdoba.
  • Cultura e Lazer: A etiqueta à mesa, os hábitos de vestuário, a importância vital dos banhos públicos (hammams), os jogos (como o xadrez) e as festividades religiosas.
  • Ciência e Religião: Como as cinco orações diárias e o calendário lunar moldavam o tempo, ao lado de uma florescente comunidade de cientistas, médicos e filósofos.

Pontos Fortes da Obra

  • Riqueza Documental: O autor domina as fontes primárias originais (poesia, manuais jurídicos, relatos de viajantes e crônicas da época), o que dá enorme autoridade ao texto.
  • Acessibilidade: Ao contrário de monografias acadêmicas áridas, o estilo de Mazahéri é quase visual, permitindo ao leitor "enxergar" os cheiros, cores e sons de um mercado ou palácio islâmico.
  • Quebra de Estereótipos: O livro desconstrói a visão ocidental de um Oriente "estático" ou puramente belicoso, revelando uma sociedade altamente higiênica, urbana, tolerante e intelectualmente avançada.

Considerações e Limitações

  • Foco Temporal e Geográfico: Embora o título evoque uma amplitude geral, o recorte principal foca nos séculos X a XIII (o apogeu do Califado Abássida e dinastias paralelas). Quem busca a história muçulmana moderna ou contemporânea não a encontrará aqui.
  • Disponibilidade: Por ser um título clássico lançado originalmente na metade do século XX, suas edições físicas em português são mais facilmente encontradas em sebos e plataformas como a Estante Virtual ou Mercado Livre.

Por que ler hoje?

A leitura expande os horizontes ao mostrar como a fé islâmica interagia e organizava a vida de forma holística, sem uma separação rígida entre o sagrado e o secular. Para quem estuda história medieval, serve como o contraponto perfeito à Europa feudal, apresentando um mundo islâmico conectado, globalizado e científico.

 

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Arqueólogos escavam ruínas de reinos mencionados na Bíblia.

ARQUEÓLOGOS ESCAVAM RUÍNAS DE REINOS ESQUECIDOS MENCIONADOS NA BÍBLIA

Uma equipe de pesquisadores trabalha na Arábia Saudita para revelar os segredos de Dadã e Liã
Por History Channel Brasil em 16 de Novembro de 2021 às 19:58
Arqueólogos escavam ruínas de reinos esquecidos mencionados na Bíblia-0 

No noroeste da Arábia Saudita, na desértica região das montanhas de Al-Ula, escavações revelam as ruínas dos antigos reinos bíblicos de Dadã e Liã. A partir de 2019, o local tornou-se um concorrido destino turístico, especialmente por abrigar o sítio arqueológico de Madaim Salé. Trata-se de uma cidade que os nabateus (povo árabe pré-islâmico) escavaram nas rochas há 2 mil anos. 

Ruínas históricas

A equipe arqueológica, formada por especialistas franceses e sauditas, se concentra agora na escavação de cinco locais próximos, todos eles vinculados às civilizações dadanita e lianita, que floresceram há mais de dois milênios. Abdulrahman al-Sohaibani, líder da expedição que explora as ruínas de Dadan, mencionada no Antigo Testamento, afirmou: “É um projeto que realmente tenta revelar os mistérios destas civilizações”.

Madaim Salé, na Arábia Saudita

Quanto ao reino de Liã, de acordo com a comissão do projeto, chegou a ser um dos maiores de sua época, quando se estendia desde Medina, no sul, até Azaba, no norte do atual território jordaniano. Ambos os reinos, que prosperaram por cerca de 900 anos, até o ano 100 de nossa era, controlaram rotas comerciais de valor vital.

Escavações em Dadã e Liã

Os pesquisadores esperam que as escavações ajudem a entender melhor como era o cotidiano desses reinos. Os vestígios encontrados podem dar pistas sobre os rituais religiosos, a vida social e a economia dos habitantes da região.

Fontes
 
Infobae e The Jerusalem Post
Imagens
 
iStock e Agence française pour le développement d'AlUla/Reprodução

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Livro: As Mil e Uma Noites. De: Mansour Challita.

Nesse vídeo vou falar sobre o Livro: As Mil e Uma Noites. De: Mansour Challita. Uma breve resenha ou ficha de leitura contada.

Acessa: https://youtu.be/lHGGu8o0pBU Te inscreve no canal para receber as novidades. Segue no Instagram: junge.frau

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BIBLIOGRAFIA: CHALLITA, Mansour. As Mil e Uma Noites. Rio de Janeiro, Record, 1999.

CURTA, COMENTE, COMPARTILHE. INSCREVA-SE NO CANAL! Muito obrigada e boas artes. Thank you, Gracias, 좋은 작품 감사합니다.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Arquitetura islâmica diferente de vários impérios exibidos numa imagem.


Arquitetura islâmica diferente de vários impérios exibidos numa imagem.

Fonte: https://www.facebook.com/TheArchaeologistOfficial/photos/a.106556070848427/245837976920235

Boa pesquisa.

 

domingo, 24 de janeiro de 2021

As raízes muçulmanas na construção do povo brasileiro.


Diversos povos muçulmanos estão nas raízes de nossa herança cultural, culinária, linguística, genética e histórica.

Fonte: https://www.facebook.com/historiaislamica/photos/a.179269395601634/1546825845512642/

Boa pesquisa.

 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Demônios e Gênios do Mundo Islâmico Medieval.

 

História Islâmica

Demônios e Gênios do Mundo Islâmico Medieval

Texto de: Adam Ali

Em todo o mundo medieval, havia uma forte crença em seres sobrenaturais. Se você vivesse no Oriente Médio, havia dois textos medievais importantes que você poderia consultar para aprender sobre criaturas como o Ghul ou o Rei da Quinta-feira. Muitos tinham estranhos poderes e formas de pesadelo e seriam chamados de gênios, demônios ou diabos.

Oprincipal guia para os seres sobrenaturais islâmicos chamava-se Ajaib al-Makhluqat wa Gharaib al-Mawjudat, ou Maravilhas das Coisas e Aspectos Milagrosos das Coisas Existentes. Seu autor foi Zakariyya al-Qazwini (1203-1283), e seu trabalho era muito popular no Oriente Médio medieval. Essa popularidade é atestada pelos muitos manuscritos desta obra de diferentes épocas que sobreviveram tanto no árabe original quanto nas traduções persa e turca. O livro está dividido em duas partes principais: tratando do celeste / supra-terrestre e do terrestre. Na primeira parte, o autor discute fenômenos celestiais, como o sol, a lua, os planetas, as estrelas e os habitantes do céu (ou seja, os anjos).

Na segunda parte, al-Qazwini fala sobre os quatro elementos, a Terra e sua divisão em sete climas, e descreve os mares, rios e montanhas. Ele então discute os três reinos da natureza: mineral, vegetal e animal. Em sua descrição do reino animal, o autor delineia o caráter e a anatomia do homem e no final desta seção há um capítulo sobre monstros, demônios, gênios [também conhecidos por jinns ou djinns] e diabos.

Muitos dos manuscritos sobreviventes também são amplamente ilustrados com tabelas geométricas e miniaturas que representam plantas, animais e vários monstros. A maior parte desta coluna será baseada nas informações apresentadas por al-Qazwini em seu capítulo sobre Gênios e monstros. Vou discutir o que são gênios, apresentar algumas anedotas do capítulo sobre gênio e o diabo e, finalmente, descrever certos tipos de gênios, demônios e monstros.

Na última parte deste artigo, também incluirei alguns demônios, monstros e gênios mencionados no Kitab al-Bulhan (Livro das Maravilhas ou Livro das Surpresas); um manuscrito do final do século XIV transcrito e compilado (e possivelmente ilustrado) por Abd al-Hasan al-Isfahani. O livro provavelmente foi compilado em Bagdá durante o reinado do sultão Ahmad Jalayirid (1382-1410). No entanto, a maior parte de seu conteúdo foi escrito durante o século VIII por Abu Maʿshar al-Balkhi (787-886 CE).

O códice original do Kitab al-Bulhan se desfez e algumas de suas páginas foram perdidas, e as outras se misturaram e foram encadernadas em uma ordem aleatória e incoerente. O manuscrito é composto de textos que tratam de tópicos de astrologia, astronomia e geomancia. “A seção mais interessante…” do Kitab al-Bulhan, de acordo com Stefano Carboni, é “…uma série de ilustrações extraordinárias em páginas inteiras que requerem interpretação porque a única maneira de entender o assunto – além, é claro, de ter familiaridade suficiente com sua iconografia para decifrar corretamente a cena representada na pintura – é lendo seu título colocado em letras grandes no alto da página. Não há texto (e nunca houve) associado a essas obras, o que torna esta seção intrigante, fascinante e única neste período de desenvolvimento da ilustração islâmica em livros”. A parte do livro que Carboni está descrevendo contém uma série de ilustrações retratando demônios e gênios. Além do título, não há texto e, como afirma Carboni, resta interpretar essas imagens.

Quem são os Gênios?

Temos alguma familiaridade com os djinn, que são chamados de gênios na cultura ocidental, por meio de histórias folclóricas das Mil e uma Noites, como Aladdin. No entanto, a ideia de gênio e a crença neles nas sociedades islâmicas têm raízes muito mais profundas que antecedem o Islã. Os árabes pré-islâmicos acreditavam em gênios muito antes da chegada do Islã. Os gênios eram as “ninfas e sátiros” do deserto. Eles representavam a natureza e o selvagem, os domínios ainda não dominados pela humanidade e hostis aos humanos.

De acordo com a antiga crença árabe, os espíritos assombravam locais escuros e desolados no deserto e aguardavam o viajante desavisado. As pessoas precisavam se proteger desses seres. Pouco antes da chegada do Islã, alguns dos gênios se receberam status mais elevados, tornando-se vagos deuses impessoais que estavam relacionados à divindade suprema. Os habitantes de Meca do início do século VII ofereciam sacrifícios a eles e buscavam sua orientação e ajuda. Alguns estudiosos acreditam que os gênios foram inicialmente conceituados como demônios malévolos, enquanto outros argumentaram que eles foram os primeiros deuses e deusas (frequentemente associados à natureza) de povos como os sumérios e acadianos que foram suplantados por novas divindades e sistemas de crenças mais sofisticados, mas eles não foram totalmente descartados e continuaram a ocupar uma posição como seres sobrenaturais menores.

Gênios antigos

Embora as origens dos gênios pareçam estar nos desertos da Arábia, a crença neles realmente tomou forma nas aldeias e cidades do Oriente Médio. Na verdade, os nômades que percorriam os desertos temiam os gênios muito menos do que os povos sedentários das planícies e desertos remotos, que representavam o desconhecido e o perigo para eles. Por exemplo, Pazuzu era um gênio primordial, um demônio do vento que os habitantes das cidades sumérias temiam há 6.000 anos. O vento era frequentemente associado aos gênios e os povos antigos do Oriente Médio acreditavam que essas criaturas viajavam nele. De acordo com a mitologia assíria e babilônica, Pazuzu era filho de Hanpa, que era o senhor de todos os demônios, talvez um “antigo Satã”. Alguns estudiosos afirmam que Pazuzu, associado ao vento frio do nordeste, foi uma das forças elementais mais malévolas do mundo antigo. Ele limpou os desertos e carregou doenças e trouxe desolação e fome em seu rastro. Pazuzu, como os posteriores gênios do período muçulmano, foi descrito como um híbrido de humano e animal. Ele tinha cabeça de leão ou cachorro, chifres, barba, asas de pássaro, cauda de escorpião e um pênis ereto, às vezes em forma de serpente.

Estatueta antiga do demônio Pazuzu no Louvre – foto por PHGCOM / Wikimedia Commons

Outros gênios/demônios antigos incluíam Rabisu e Labaratu. O primeiro se escondeu em lugares remotos e emboscou viajantes desavisados ​​(como veremos, é assim que um dos djinns do Oriente Médio islâmico, o ghul, operava) e o último, a filha do deus do céu Anu, vivia em pântanos ou montanhas e matava crianças. Outros antigos demônios da Mesopotâmia mantinham relações sexuais com humanos. Todos esses seres antigos serviram como protótipos do djinn da Arábia e, mais tarde, do mundo muçulmano. No Hijaz, a região da Arábia Ocidental onde o Islã nasceu, uma função dos gênios era inspirar poetas e adivinhos a produzirem belos versos poéticos e potentes e também prever o futuro. Tanto poetas quanto adivinhos detinham um status especial na Arábia pré-islâmica e exerciam uma influência significativa em suas sociedades. Aqueles que eram “loucos” receberam um status de proteção especial, pois se pensava que eram majnun, que significa “possuídos por um gênio”.

De acordo com a tradição muçulmana, o gênio é um dos três seres inteligentes criados por Deus, os outros dois sendo anjos e humanos. Eles são mencionados no Alcorão e nas tradições proféticas. Al-Qazwini coloca o gênio na cosmologia muçulmana no início do processo de criação e diz que Deus criou os anjos da luz, os humanos do barro e o gênio das chamas do fogo. Ele também criou shayatin (v. Shaytan – significando diabos/demônios) a partir da fumaça do fogo. Existem várias categorias de gênios, incluindo ifrit, Shaitan, marid e djinn; esses termos geralmente se sobrepõem e as categorias não são bem definidas. Como humanos, eles têm livre arbítrio e podem ser bons ou maus, porém os shayatin estão sempre associados a Iblis, o próprio Satanás.

Há uma antiga mesquita em Meca chamada Masjid al-djinn ou Mesquita do Gênio e, de acordo com a tradição islâmica, é dedicada aos gênios que aceitaram a mensagem do profeta Muhammad quando ele pregou para eles. Deus é frequentemente referido no Alcorão como Rab al-Alamin, que significa o Senhor dos Mundos, abrangendo todos os mundos e universos possíveis que poderiam existir, incluindo o dos humanos e o dos gênios. O Alcorão também menciona frequentemente os humanos e os gênios juntos como os dois tipos de criação que poderiam receber revelações divinas e aceitá-las ou rejeitá-las.

Al-Qazwini afirma que os gênios são imperceptíveis aos sentidos humanos. No entanto, eles podem “engrossar” suas constituições e assumir formas corporais, tendo a capacidade de mudar de forma. Ele também menciona que os gênios foram criados muito antes de Adão e os humanos e que eles habitavam a Terra antes da queda de Adão. Eles tinham reis, profetas, religiões e leis, muito parecidos com os humanos. No entanto, muitos deles se perderam e encheram a terra de corrupção.

Em resposta a essas transgressões, al-Qazwini diz que Deus enviou seus exércitos celestiais de anjos para puni-los. Depois de ferozes batalhas entre os anjos e os gênios, os últimos foram expulsos de suas casas para os cantos mais distantes do mundo, enquanto muitos outros foram feitos prisioneiros. Entre esses prisioneiros estava um jovem gênio chamado Azazel (um claro paralelo aqui com um dos líderes dos anjos caídos no livro apócrifo de Enoque). Azazel foi criado entre os anjos e alcançou seu conhecimento, aconselhou-os e viveu entre eles por um longo tempo até se tornar um de seus chefes.

Esta situação continuou até a criação de Adão. Quando Deus ordenou a todos os anjos que se prostrassem diante de sua nova criação, Azazel recusou-se por arrogância e foi após este ponto que seu nome mudou para Iblis (um dos nomes que designam Satanás na tradição islâmica) e ele se tornou o inimigo do homem e amaldiçoado por Deus. A implicação no texto é que ele também se tornou o líder de todos os demônios e gênios renegados, tornando-se a personificação do mal, da contenda e desobediência. Al-Qazwini menciona que Iblis teve cinco filhos: Birah, o senhor das catástrofes; al-A’war, o senhor do adultério, da luxúria e da sedução; Masut, o senhor das mentiras; Dasem, o senhor da contenda (especialmente entre casais); e Zalnabur, o senhor dos mercados e trapaãs no comércio.

Tipos de Gênios

Tanto al-Qazwini quanto al-Isfahani têm seções em suas obras nas quais listam vários tipos de gênios, demônios e monstros. Em uma seção de seu capítulo sobre os gênios, Al-Qazwini fornece descrições de algumas dessas criaturas. Por outro lado, o Kitab al-Bulhan tem apenas uma série de ilustrações de gênios acompanhadas de títulos. Stefano Carboni fornece algumas boas interpretações dessas imagens em seu artigo, “O ‘Livro das Surpresas’ (Kitab al-bulhan) da Biblioteca Bodleian”. Usarei o artigo de Carboni para completar as descrições e características de alguns dos demônios apresentados pelo Kitab al-Bulhan.

O ghul

Al-Qazwini afirma que al-ghul (o ghoul) é um dos mais famosos e comuns entre os gênios. O ghul foi descrito de várias maneiras. Al-Qazwini o descreve como tendo uma aparência não natural e aterrorizante. Ele diz que tem uma forma humanoide fundida com a de uma besta e o descreve como uma criatura vil com deformidades e aparência não natural. O Léxico Árabe-Inglês de E.W. Lane (essencialmente uma compilação baseada em dicionários árabes medievais) afirma que o ghul “é uma “espécie de goblin, demônio, diabo” e que é “terrível na aparência, tendo presas ou algo semelhante”. Outros relatos da Península Arábica descrevem o ghul como uma combinação de homem, pássaro e camelo. De acordo com essa descrição, ele tem uma cabeça humana com um olho de Ciclope no meio. Em vez de boca, tem bico; seu corpo é de camelo ou avestruz com asas de galinha e tem garras de avestruz ou cascos de mula em vez de pés. O ghul também é um metamorfo e pode assumir a forma de homens, gatos, cavalos, jumentos, camelos, touros, corujas e de um cão multicolorido (uma de suas formas mais frequentemente mencionadas).

Amine Descoberta com o Ghoul, da história de Sidi Nouman, das Mil e Uma Noites

O ghul é descrito como um devorador de homens e habita os desertos e terras devastadas e aparece para viajantes solitários que passam por essas áreas remotas, especialmente nas horas entre o crepúsculo e o amanhecer. Ele fica em uma emboscada, esperando o viajante desavisado entre as rochas, penhascos e cavernas e se lança sobre ele, arrasta-o para seu covil e o devora. Ele também pode assumir uma aparência semelhante a um humano, a fim de acalmar suas vítimas com uma falsa sensação de segurança para atraí-las para longe de seu caminho e para sua armadilha. Diz-se também que ghulas femininas às vezes atraem viajantes, seduzem-nos e se prostituem com eles.

Em relação à sua origem, al-Qazwini afirma que eles eram gênios que costumavam bisbilhotar ouvindo o que se passava no céu (de acordo com a tradição islâmica, esse conhecimento roubado do céu foi a inspiração que os adivinhos receberam desses demônios quando procuraram ver o futuro) e quando o fizeram, foram atingidos por meteoritos ou estrelas cadentes e queimaram e foram horrivelmente desfigurados e despencaram para a Terra para se tornarem ghuls.

Robert Lebling menciona em seu livro, Legends of the Fire Spirits, que apesar de sua propensão para o mal e para comer carne humana e carniça e sua natureza maligna, o ghul pode ser benevolente com os humanos. Nos contos e lendas, se o herói consegue se esgueirar por trás da ghula (ghul feminino) e sugar seu seio pendular, muitas vezes jogado sobre ela enquanto ela trabalhava em seu moinho manual, ele se torna seu “filho do peito” e ela se torna sua protetora, mesmo de outros ghuls. Existem fortes paralelos com as tradições pré-islâmicas e islâmicas de “relações de leite”, ou seja, dois bebês não aparentados se tornando irmãos se amamentarem da mesma mãe. Um herói inteligente também pode contar com a ajuda de um ghoul. De acordo com Lebling, essas criaturas respondem à cortesia e “em troca de um pouco de cuidado ou de um pedaço de goma de aroeira, muitas vezes estão prontas para carregar o herói para onde ele quiser”.

A Si’lah

A si’lah é uma variante do ghul. Este gênio é frequentemente referido no feminino. Ela reside em selvas e matagais e prepara uma emboscada para suas vítimas. Ela é descrita como um gênio malvado e sádico que tortura sua presa, brinca com ela e a faz dançar antes de consumi-la.

A si’luwa é uma variante do s’ilah do Iraque. Ela é um demônio da água ou espírito da água que habita os rios, córregos e canais da Mesopotâmia. Ela tem a forma de uma mulher e é coberta por cabelos longos, tem seios pendentes que vão até os joelhos e, em alguns relatos, é descrita como tendo uma cauda de peixe em vez de pernas. Ela prepara armadilhas e caça humanos para comer e também busca amantes humanos. As crenças locais afirmam que a si’luwa é o produto da mistura de humanos com demônios do rio.

Al-Qazwini menciona que o lobo caça a si’lah à noite. Quando uma si’lah é capturada por um lobo, ela grita enquanto o lobo a dilacera e implora para ser salva, oferecendo mil dinares a seu salvador. O autor afirma que as pessoas ignoram esses apelos porque sabem que é a si’lah. Na verdade, Lebling afirma que os lobos são os únicos animais que os gênios temem. Ele diz que os gênios não podem escapar dos lobos afundando no chão, o que permite que os lobos os ataquem com seus dentes e garras. Isso parece sugerir que, de acordo com algumas lendas, o lobo tem algum tipo de efeito neutralizante em alguns dos poderes dos gênios. Lebling explica que essa aversão aos lobos é uma das razões pelas quais os gênios nunca assumem a forma de lobo quando mudam de forma. É por esta razão que os dentes do lobo e outras partes do corpo foram (e às vezes ainda são) usados ​​como talismãs protetores em partes do mundo muçulmano, como o Iraque.

Vários gênios retratados em Ajaib al-Makhluqat wa Gharaib al-Mawjudat

O Ghaddar

Al-Qazwini menciona este gênio brevemente e afirma que seu tipo habita o Iêmen e as regiões costeiras do Egito. Ele atrai suas vítimas para si e então as ataca. O resultado dessa agressão pode ser leve ou grave. Lebling afirma que este demônio tortura suas vítimas violentamente ou apenas as aterroriza. Al-Qazwini é mais explícito, ele diz que este gênio fica satisfeito aterrorizando sua vítima até um estado de choque. Um resultado mais extremo de um encontro com o ghaddar, de acordo com al-Qazwini, é que esse monstro agride sexualmente suas vítimas e que raramente há qualquer esperança para sobreviventes de tal ataque porque o ghaddar tem um falo como um chifre de touro que pode matar um humano. Este gênio deve ter uma aparência aterrorizante, infelizmente al-Qazwini não descreve nenhuma de suas características físicas além de seu falo.

O Delhab / Delhan

O autor de ‘Ajaib al-Makhluqat afirma que este gênio vive nas ilhas dos mares. Tem a forma de um homem montado em um avestruz. Devora a carne dos náufragos e marinheiros que o mar lança nas margens das ilhas que habita. Al-Qazwini menciona um relato em que o Delhab atacou um navio. Os marinheiros tentaram lutar contra ele. No entanto, o demônio soltou um grito que os fez largar as armas e caírem de cara no chão encolhendo-se, levando todos eles.

O Shiqq

Este demônio assume a forma metade humana (podemos presumir que a outra metade é bestial ou monstruosa). Lebling diz que esta criatura tem uma forma de “meio ser humano (como um homem dividido longitudinalmente)”. O shiqq também atrapalha os viajantes. Existe uma lenda famosa que conta a história de um encontro entre um shiqq e Alqamah ibn Safwan ibn Umayyah (do clã Omíada da tribo Coraixita). Alqamah lutou quando o demônio o atacou, e a disputa entre os dois terminou quando ambos se acertaram com golpes fatais.

Gênio Shiqq

Os Gênios em Kitab al-Bulhan

Kitab al-Bulhan contém uma série de ilustrações de páginas inteiras retratando vários demônios e gênios. Essas ilustrações representam Iblis (Satanás), os sete reis gênios / demônios (cada um associado a um dia da semana) e, finalmente, há representações de alguns gênios associados a doenças e outras forças de ruptura na vida de alguém. Além de ser associado a um dia da semana, Carboni afirma que cada ilustração dos sete reis gênios também está conectada a um anjo, um planeta e um metal. Ele afirma que os reis são mostrados com seus apoiadores ou coortes e os símbolos talismânicos necessários para exorcizá-los estão contidos no quadro da ilustração.

Iblis

A ilustração do diabo é a primeira desta série. Seu nome, Iblis al-la’in (Iblis, o amaldiçoado), não deixa dúvidas a quem esta imagem retrata. Iblis é mostrado entronizado no centro da página, sentado de frente e de maneira majestosa. Ele é coroado com grandes chifres de carneiro e seus olhos brilham com fogo. Ele é muito maior do que os outros gênios, seus súditos, e parece mais próximo do observador do que eles.

Iblis retratado no Kitab al-Bulhan

Os Reis-Gênios da Segunda e do Domingo

Carboni afirma que os fólios contendo as ilustrações do “Rei do Ouro” do domingo e do “Rei Branco” da segunda-feira estão faltando no Kitab al-Bulhan. No entanto, eles aparecem em cópias otomanas, que dão uma indicação de seu nome e aparência.

Al-Mudhahhab (o dourado) é o rei-gênio do domingo. Ele está associado ao sol. De acordo com a tradição, este rei-gênio possui segredos do ocultismo e conhecimento da transmutação do ouro e também está associado ao brocado de seda. Ele é retratado com um halo dourado flamejante ao redor de sua cabeça e o que parece ser uma nuvem dourada ou lã ao redor de seu pescoço e ombros e está ricamente vestido com o que parece uma camisa de seda e calças de seda.

Al-Malik al-Abyad, ou o rei branco da segunda-feira (às vezes referido como o branco, pai da luz). Ele está associado à lua. O rei branco é um dos cortesãos mais próximos de Iblis. Ele é descrito como um demônio branco com chifres e olhos dourados. Sua cabeça é parcialmente a de um humano, mas mais como uma besta, com presas, orelhas caídas e camadas enrugadas de carne em suas bochechas.

O rei da terça

Al-Malik al-Ahmar, ou o rei vermelho, é o rei-gênio da segunda-feira. Ele está associado ao planeta Marte, o planeta da guerra. Como o antigo deus da guerra do Panteão Romano-Grego, Ares / Marte, este gênio é associado à guerra e descrito como um ser monstruoso cavalgando um leão, armado com uma espada e segurando uma cabeça decepada.

Rei da terça-feira

O rei da quarta-feira

Al-Malik al-Aswad, ou o rei negro, é o rei da quarta-feira. Ele é um poderoso rei-gênio que governa uma multidão de outros djinns. Ele está associado ao planeta Mercúrio. Carboni descreve seus ajudantes como “extraordinários e silenciosos”. Ele é negro e tem chifres, com chamas saindo de sua boca e olhos. Um poderoso feiticeiro, ele também é responsável por ensinar magia a seus seguidores.

O rei da quinta

O rei-gênio da quinta-feira é chamado de Shamhurash. Algumas fontes referem-se a ele como Abu al-Walad, que significa “o pai da criança”. Ele é, portanto, representado segurando uma criança nua. Carboni diz que não está claro se a influência deste gênio na criança é positiva ou negativa. Ele está associado a Júpiter.

O rei da sexta-feira

O gênio rei da sexta-feira é Zawba’a, o demônio de quatro cabeças. Ele é retratado sentado em uma maneira real. Duas das cabeças estão de perfil e duas voltadas para a frente. Todas elas representam algum tipo de animal, ou uma transformação de animais. Este rei-gênio, como os espíritos e demônios da antiga Mesopotâmia, está associado ao vento. O nome Zawba’a significa redemoinho. Ele está associado ao planeta Vênus.

Rei da sexta-feira

O rei do sábado

O último dos sete reis é Maymun, que significa “macaco” em árabe e persa. Ele às vezes é referido como Maymun al-Shahabi (Maymun das nuvens), tornando-o outro demônio associado ao vento e às nuvens, porque ele as usa para voar. Ele está associado a Saturno. Este demônio também é retratado carregando uma criança ou um homem que parece estar dormindo. Isso pode significar que ele é um sequestrador de humanos adormecidos ou incautos. Ele é alado, coberto de pelos e tem o rosto de um macaco com chifres na cabeça. Ele é retratado como descendente das nuvens e seus seguidores também parecem estar habitando as nuvens, tornando-o talvez um líder entre os demônios do vento.

Outros Gênios no Kitab al-Bulhan

Além de Iblis e os sete reis demônios da semana em Kitab al-Bulhan, há também algumas páginas com ilustrações de mais gênios. Esses demônios podem estar relacionados a forças perturbadoras na vida diária, como doenças

Kabus

Um desses gênios perturbadores é Kabus, ou “o pesadelo”. Kabus pode atrapalhar a vida noturna de sua vítima, causando pesadelos e sono agitado. Essa interrupção do sono pode se traduzir em uma vida diária, que é afetada pela fadiga de um sono agitado e sem poder descansar. Na ilustração, Kabus visita sua vítima indefesa enquanto ela está dormindo em seu quarto. Ele desce sobre ela do alto como uma figura escura e ameaçadora pronta para envolvê-lo totalmente, com pouca esperança de escapar de sua influência.

Tabi’a

A gênio fêmea, Tabi’a, é retratada segurando uma criança. Carboni afirma que a presença deste gênio é interessante porque suas origens remetem à Cabala. Ela representa a deusa demoníaca Lilith, que busca controlar e enfraquecer os bebês. Ele também argumenta que ela pode ser ligada à demonologia cristã como o personagem da rainha das bruxas. Carboni diz que “esta imagem adquire um significado extraordinário ligando as tradições hebraica, cristã e islâmica”.

Gênio Tabi’a

Humma

Humma é o último dos gênios ilustrados no Kitab al-Bulhan. Humma é “a febre” e, portanto, um portador e propagador de doenças. Na imagem, ele tem três cabeças e está sentado frontalmente com os braços abertos, como se fosse abraçar sua próxima vítima e fazê-la adoecer.

Isso conclui a visão geral dos gênios em Ajaib al-Makhluqat wa Gharaib al-Mawjudat e Kitab al-Bulhan. Estes livros fornecem uma visão geral de alguns dos gênios, mas há um grande número deles não discutidos ou descritos em detalhes nestes textos. Há uma pequena anedota em Ajaib al-Makhluqat que ilustra esse ponto. Nesta história, o profeta e rei Suleiman (Rei Salomão), recebeu domínio sobre o gênio e o shayatin. Eles foram comandados por Gabriel para aparecer diante de Salomão e eles vieram em hordas das cavernas, montanhas, pântanos, desertos, planícies, vales, florestas, ilhas, rios e mares para servir seu novo mestre. Al-Qazwini afirma que eles foram conduzidos a ele, quase como gado pelos anjos e reunidos diante dele. Ele diz que 420 grupos de gênios foram reunidos sob seu domínio. Não está claro se esses grupos foram posteriormente subdivididos em clãs e tribos menores.

A fonte então diz que Salomão olhou para eles e viu que havia multidões dessas criaturas com formas estranhas e assustadoras e também vinham em várias cores, incluindo preto, branco, amarelo, vermelho, azul, e algumas eram multicoloridas e malhadas. Eles assumiram formas humanoides e animais e às vezes transformavam-se nos dois. Eles tinham garras, cascos, chifres, asas, caudas, focinhos, bicos, troncos, presas, penas e peles peludas e se assemelhavam a rebanhos, aves de rapina e animais selvagens tanto predadores quanto herbívoros. Alguns deles caminhavam sobre duas pernas, outros sobre quatro. Tão aterrorizante era a visão que Salomão se prostrou a Deus e pediu-lhe força e poder para contemplar e comandar essas criaturas.

O relato continua e afirma que uma vez que sua oração foi respondida, Salomão começou a questionar os gênios sobre suas origens, pátrias, religiões e atos. Ajaib al-Makhluqat apresenta alguns exemplos dos diálogos que Salomão teve com seus servos djinn. Um deles, um certo Mihr ibn Hafan, era metade cachorro e metade gato com uma tromba. Quando questionado sobre o que ele fazia, Mihr afirmou que ele produzia intoxicantes e tentou os filhos de Adão para o seu consumo. Outro gênio, al-Hilhal ibn Mahlul, era um monstro tenebroso com aparência semelhante à de um cachorro. Ele estava coberto de pele preta e sangue escorria de todos os pelos de seu corpo. Ele foi um causador de derramamento de sangue entre os homens.

Salomão então definiu todos os gênios para várias tarefas. Por exemplo, um grupo, o marada (plural de maarid), foi colocado para trabalhar como ferreiro, pedreiro e carpinteiro e receberam a ordem de construir fortificações. As mulheres também foram colocadas para trabalhar como tecelãs de seda e algodão e encarregadas de produzir tapetes e almofadas. Outros gênios receberam ordens para construir potes, caldeirões, jarros e vasos. Outros grupos e tribos foram postos para trabalhar como açougueiros, cavadores de poços, mergulhadores de águas profundas (para extrair pérolas e tesouros afundados), cavadores de canais, mineiros e domadores de cavalos. Al-Qazwini afirma que o Rei Slomão comandou os vários grupos e espécies de gênios para realizar todas as tarefas mais difíceis, a fim de mantê-los ocupados e impedi-los de espalhar seu mal e corrupção na Terra. Esta anedota exemplifica o quão variados os tipos de gênios são na tradição e folclore islâmicos.

Não diferentemente das bruxas, trolls, goblins e fadas da Europa, essas criaturas fazem aparições no folclore, histórias, lendas e tradições do mundo muçulmano. Em algumas partes, as pessoas ainda atribuem ocorrências diárias à sua influência, intromissão ou assombração. Um dos mais famosos conjuntos de histórias em que os gênios desempenham um grande papel são os contos familiares das Mil e uma Noites, onde eles fazem várias aparições tanto como ajudantes benevolentes quanto como antagonistas do mal aos humanos com quem interagem. A história de Aladim e a Lâmpada Mágica é provavelmente um dos contos mais conhecidos (graças à sua recontagem na forma de um filme) com um djinn (ou um gênio) figurando com destaque como um distribuidor de desejos para seu mestre.

Para ampliar:

Carboni, Stefano, “The ‘Book of Surprises’ (Kitab al-bulhan) of the Bodleian Library,” La Trobe Journal, 91 (2013), 22-34.

Lebling, Robert. Legends of the Fire Spirits: Jinn and Genies from Arabia to Zanzibar. London: I.B. Taurus, 2010.

Fonte: Medievalists.net


nossa fonte: https://historiaislamica.com.br/demonios-e-genios-do-mundo-islamico-medieval