Hoje, feriado nacional consagrado a Tiradentes, apresentamos um dos conjuntos de documentos mais importantes do acervo do Arquivo Nacional: os Autos da Devassa da Conjuração Mineira, processo judicial contra os participantes do que veio a ser conhecido como Inconfidência Mineira.
Um dos principais movimentos contestatórios do período colonial, a Conjuração Mineira ocorreu em 1789, em Vila Rica (atual Ouro Preto), em Minas Gerais, contra uma série de medidas da Coroa Portuguesa contra os interesses locais, especialmente a taxação sobre a produção de ouro. No entanto, o movimento não passou da fase de conspiração e a revolta planejada não se concretizou. Após Joaquim Silvério dos Reis entregar os nomes daqueles que tramavam contra a Coroa, o governador da província, Visconde de Barbacena, fez uso das suas prerrogativas para julgá-los e condená-los.
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, sofreu a mais severa punição, sendo enforcado em 21 de abril de 1792. Com o advento da República, a imagem de Tiradentes como herói nacional se popularizou. Em 1890, o dia 21 de abril passou a consagrá-lo como “mártir da Independência”.
Os Autos da Devassa são peças fundamentais do acervo do Arquivo Nacional e foram reconhecidos como patrimônio da humanidade pelo Programa Memória do Mundo da UNESCO em 2007.
Na imagem, folha da “sentença proferida contra os réus do levante e conjuração de Minas Gerais”, 18 de abril de 1792. Arquivo Nacional. Fundo Inconfidência Mineira. BR_RJANRIO_3A_COD_0_0005_v_09_d0001de0001
Você pode consultar outros documentos dos Autos da Devassa (tais como acusações, sentenças, recursos etc.) no Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Saiba como no link: bit.ly/2UtZA8F
TIRADENTES: 228 ANOS DA MORTE DO MÁRTIR DA INCONFIDÊNCIA MINEIRA
Seja ou não um bode expiatório de colegas de conspiração, Joaquim José da Silva Xavier foi uma figura excepcional
F. G. YAZBECK PUBLICADO EM 21/04/2020
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes - Wikimedia Commons
Manhã de 21 de abril de 1792. O condenado é conduzido pelas ruas do Rio de Janeiro, cercado pela tropa, desde a prisão até o patíbulo instalado no largo da Lampadosa. A cabeça e a barba raspadas, coberto por uma túnica grosseira e portando um crucifixo, sobe calmamente os degraus, acompanhado do frei encarregado de lhe dar o amparo de orações na hora da morte. A multidão reunida assiste a tudo consternada.
Ao atingir o patamar, o homem dirige-se ao carrasco e pede-lhe que abrevie seu sofrimento, ao que este responde pedindo perdão, pois apenas cumpria o que mandava a lei. Tão logo o corpo ainda vivo do Tiradentes projetou-se no espaço vazio, o carrasco Capitania jogou-se sobre seus ombros, firmando-se na corda e forçando seu peso sobre o do enforcado para apressar sua morte.
Cumpria-se assim a sentença pronunciada três dias antes, que condenava o réu "a com baraço e pregão ser conduzido pelas ruas publicas ao lugar da forca e nella morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Villa Rica aonde em lugar mais publico della será pregada, em um poste alto até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes pelo caminho de Minas".
A visão derradeira dos moradores da capital da colônia de Joaquim José da Silva Xavier é bem distinta da figura presente até hoje no imaginário nacional, que remete a Jesus Cristo. Quase três anos antes, o herói da Inconfidência fora preso sem resistência, tentando se esconder. Tiradentes também tinha outras alcunhas, como "o Corta-vento" e "o Liberdade". São detalhes pouco conhecidos, mas não menos importantes para entender quem era ele e seu papel na conjuração, muito além dos mitos construídos a partir do fim do século 19, quando se formava a República brasileira.
Nascido em 1746, na fazenda do Pombal, perto de São José Del Rei do Rio das Mortes (hoje a cidade de Tiradentes), Joaquim José era o quarto dos sete filhos de Domingos da Silva Santos e Antônia da Encarnação Xavier. Aos 11 anos tornou-se órfão. Até perto dos 20, labutou com os irmãos nas terras herdadas do pai, ao mesmo tempo que praticava as artes de dentista aprendidas com o tio e padrinho.
Por essa época resolveu comprar algumas mulas, escravos, mercadorias para tentar a vida como tropeiro nos sertões de Minas Gerais e nas vilas do Caminho Novo, que levava ao Rio de Janeiro. Chegou até a Bahia, mas os negócios mal o sustentavam. Desistiu de vez depois de ter sido preso (perto da atual Diamantina) ao tentar defender um escravo que era espancado pelo dono, um poderoso fazendeiro.
Tiradentes, em pintura de Oscar Pereira da Silva / Crédito: Wikimedia Commons
Até 1775, perto dos 30 anos, sobreviveu como dentista, ganhando por isso o apelido de "Tira-dentes". Trabalhava ocasionalmente também como minerador e como médico, em vista dos conhecimentos sobre plantas medicinais adquiridos com seu primo, frei José Mariano da Conceição Vellozo, consagrado botânico à época. Cansado das atividades errantes pouco rentáveis, alistou-se na tropa paga de Minas, o Regimento de Cavalaria, e recebeu o posto de alferes - hoje equivalente ao de subtenente.
Sem recompensa.
Muito cedo ele se destacou na função, em missões que envolviam o conhecimento de assuntos que iam além do esperado em sua posição. Serviu no Rio e comandou o destacamento de Sete Lagoas, na principal via de ligação entre Minas e a Bahia. Em 1781 foi transferido com a determinação de construir uma variante do Caminho Novo, até o Registro de Paraibuna. Era um estudioso autodidata de mineralogia e outras ciências da natureza. Em 1783, foi novamente realocado para combater uma temida quadrilha de assaltantes que infernizava a vida dos viajantes na serra da Mantiqueira. Mesmo em menor número, a tropa do alferes conseguiu derrotar o bando do Montanha, que tinha mais de 30 homens.
As qualificações de Tiradentes eram reconhecidas mas não recompensadas. Assistia indignado à promoção de colegas, enquanto suas atribuições só aumentavam. Numa das missões, o governador Luís da Cunha Meneses determinou que participasse do grupo encarregado de fazer o levantamento geológico e mineralógico do leste de Minas, na fronteira com o Rio, área então fechada à mineração. E justificou a ordem devido à "notória inteligência mineralógica" do alferes.
Nem assim conseguiu ele uma promoção. Formalizou queixa por isso, mas o governador afirmou que o militar "não passava de um mariola a quem se podia dar com um pau". Humilhado, Tiradentes pediu licença da tropa e requereu a ocupação de terras entre os municípios de Matias Barbosa e Simão Pereira, na divisa entre Minas e o Rio. Sem recursos e tino comercial, foi levado novamente à falência, tendo apenas suas habilidades de dentista para afugentá-lo da miséria.
Prisão de Tiradentes, por Antônio Diogo da Silva Parreiras / Crédito: Wikimedia Commons
Confirmada a sina de ter de viver sob soldo, o alferes voltou ao regimento, sendo logo encarregado de missão que o levaria a várias viagens ao Rio de Janeiro. Pôde, então, bem estudar o solo e o sistema fluvial da região, elaborando planos para o aproveitamento das águas locais, de modo a solucionar o grave problema de abastecimento da capital da colônia.
Conspirador urbanista.
A abrangência e a viabilidade das propostas do militar são surpreendentes e estão entre suas facetas menos conhecidas. Apresentou projetos de canalização dos rios Maracanã e Andaraí, sugeriu a drenagem de alguns mangues e fez ver a possibilidade de aproveitamento dos desníveis dos córregos Catete, Comprido e Laranjeiras para a instalação de moinhos. Também propôs a construção de armazéns e trapiches na área do porto que permitiriam a carga e descarga de vários navios ao mesmo tempo. Idealizou ainda um serviço de barcas ligando o Rio a Praia Grande, em Niterói.
Os administradores desconsideraram os planos; só tinham olhos para a cobrança de impostos. Menos de 30 anos depois, porém, dom João VI iniciaria obras na capital nos mesmos moldes das ideias de Tiradentes. Em 1889, projetos de saneamento do engenheiro Paulo Frontin confirmaram a validade das propostas.
O apetite fiscal da coroa era tão grande quanto a dificuldade em quitar suas dívidas com a Inglaterra. Portugal pouco produzia além de vinhos e quinquilharias. Comprava dos britânicos quase tudo o que consumia. O ouro brasileiro era a principal moeda de pagamento, mas, a partir da segunda metade do século 18, já dava mostras de esgotamento.
Foi nesse período, entre 1786 e 1789, que Tiradentes passou a conspirar. A voracidade da coroa - que cobrava um quinto de tudo o que fosse recolhido na atividade mineradora, bem como outros tributos sobre o comércio, a lavoura e a pecuária -, além da notória corrupção do governador Cunha Meneses, fazia acumular o descontentamento em toda a capitania de Minas.
À insatisfação sobre a carreira no regimento, Joaquim José somava novas ideias. Fez sua cabeça na biblioteca do cônego Luís Vieira da Silva. Ali conheceu as teses dos franceses Rousseau, Montesquieu e outros iluministas, que secundavam o pensamento do inglês John Locke.
A liberdade emergia como um bem inato do homem. Cada um deveria ser livre para agir segundo apenas sua consciência e as normas democraticamente definidas por sua comunidade. Assim repetia o alferes onde quer que estivesse, e sempre exaltado, o que lhe valeu uma série de outros apelidos, como o República, o Liberdade, o Gramaticão e o Corta-vento.
Costumava circular com livros debaixo do braço, inspirado também pela ação dos norte-americanos, que haviam se separado do Império Britânico e implantado um sistema federalista de governo (1776). Joaquim José estava sempre afirmando que cabia aos brasileiros dirigir sua própria república. Obcecado por essas ideias e vendo que elas também ocupavam mentes mais ilustres, começou a reunir-se com personalidades de Vila Rica (hoje Ouro Preto), como Tomás Antônio Gonzaga e Inácio José de Alvarenga Peixoto.
José Álvares Maciel foi outro importante conspirador. Pensador, idealista, mas de pés no chão. Apesar de Tiradentes ter se apresentado aos julgadores como o único líder fático do movimento, deve ser concedida a Maciel a liderança das ideias. Estudioso da filosofia dos franceses e da formação dos Estados Unidos, teve contato indireto com Thomas Jefferson, através de um amigo comum, um estudante brasileiro na França, José Joaquim da Maia, que mantinha correspondência com o então embaixador americano em Paris, buscando apoio para um desejado movimento de independência. Ao lado de Domingos Vidal Barbosa, Maciel elaborou as diretrizes para a nova república.
Execução de Tiradentes, em 21 de abril de 1792 / Crédito: Wikimedia Commons
Não bastaria tornar o Brasil independente, era preciso dar-lhe também as condições para se manter como nação livre e forte. Para isso, deveria ser dedicado especial esforço à educação do povo, ainda que o fim da escravidão estivesse nos planos de forma apenas mitigada. Seriam criadas escolas, uma universidade em Vila Rica, e a capital transferida para São João Del Rei. Seria implementada a construção de fornos siderúrgicos e a fabricação de todos os produtos que até então só eram obtidos de Portugal.
Advogados, bacharéis, médicos, membros da Igreja, militares, gente do povo, a insatisfação parecia generalizada. E os conspiradores pretendiam fazer uso dela, exacerbada diante da perspectiva de uma nova derrama - o confisco de bens para completar os débitos acumulados na arrecadação mínima de 100 arrobas de ouro (1470 kg) por ano - esperada para o início de 1789, sob as ordens do novo governador, Luís Furtado de Mendonça, o visconde de Barbacena.
Tiradentes se sobressaía como um dos líderes militares do movimento ao lado de um velho conhecido a quem fora subordinado: o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante do Regimento de Cavalaria Regular das Minas Gerais. Também participavam de reuniões para o levante os coronéis Domingos de Abreu Vieira e José Aires Gomes, das forças auxiliares, e até o coronel Joaquim Silvério dos Reis, que viria a ser o grande traidor dos rebeldes.
Por pretender atrair a todos, dos mais nobres aos mais humildes, o movimento acabou por dar espaço a gente como o português Silvério dos Reis e outros traidores: Ignácio Correa Pamplona e Basílio de Brito Malheiros. Eles não titubearam em denunciar a conspiração ao visconde.
A revolta fora planejada para estourar no dia da derrama. A senha do movimento era "tal dia é o batizado", a data do confisco. Tiradentes e Andrade desencadeariam as ações em Vila Rica, que culminariam com a tomada do palácio, a degola de Barbacena e apresentação de sua cabeça ao povo, que seria então chamado a apoiar uma junta provisória de governo. O Rio seria ocupado em seguida e conspiradores acionados também em São Paulo e na Bahia. Mas, a essa altura, o governador já sabia da trama.
Erro fatal.
Planos escritos de ação para o levante nunca foram recuperados. A reconstituição dos acontecimentos e do papel dos participantes sempre foi dificultada pela escassez de documentação. Mas está claro que, em todo o planejamento, faltou cogitar saídas alternativas caso algo desse errado. Erro crasso, considerando haver no grupo militares de alta patente e o próprio Tiradentes, que já demonstrara astúcia e senso estratégico na derrota do bando do Montanha.
Foram ingênuos os inconfidentes. Bastou o governador suspender a derrama e o tal dia não aconteceu. O burburinho sobre o levante era considerável, e, a partir das informações de Silvério, foram emitidas ordens de prisão em Vila Rica e no Rio de Janeiro. Joaquim José da Silva Xavier, que estava lá em busca de novas adesões ao movimento e evitando o excesso de exposição em Minas, foi seguido por vários dias e preso no sótão da casa de Domingos Fernandes da Cruz, em 10 de maio de 1789, onde se escondera. Estava armado, mas preferiu não reagir.
O tribunal (uma comissão especial formada por desembargadores da Casa de Suplicação de Lisboa) culminou com a condenação de 28 réus, além de Tiradentes, chegando a impor penas à memória e aos descendentes de outros três falecidos na prisão. A pena de morte aplicada a dez dos conjurados, porém, foi comutada na última hora em degredo perpétuo pelo regente dom João, em nome da rainha dona Maria I. A forca restou só para o alferes. Há quem afirme que, dessa forma, Portugal quis fazer entender a conspiração como aventura de um reles e tresloucado dentista, que com lábia aliciou mentes mais ilustres.
Tiradentes Esquartejado, de Pedro Américo / Crédito: Wikimedia Commons
Kenneth Maxwell, numa das mais importantes obras sobre a Inconfidência, A Devassa da Devassa, esboça a tese de que Tiradentes seria mero bode expiatório, elemento apenas periférico dentre os plutocratas e intelectuais que compunham o movimento nascido não apenas de ideais, mas fundamentalmente de interesses econômicos. (Como a Revolução Americana.) O mesmo brasilianista, porém, não deixa de reconhecer o caráter ímpar do mártir, de exceção "em uma história particularmente carente de grandes homens". Durante os interrogatórios sempre reclamou Joaquim José a exclusiva culpa pela iniciativa da sedição, inocentando seus companheiros de outros crimes que não fosse o de ouvir suas ideias.
Qualquer que tenha sido seu papel, Tiradentes tornou-se um autêntico herói nacional. Primeiro foi adotado pelo movimento republicano, que o elegeu como mártir cívico-religioso e antimonarquista, fazendo prosperar as representações que o aproximam de Cristo. O 21 de abril tornou-se feriado nacional em 1890.
Tiradentes teve também exaltada sua imagem de militar patriota, quando nomeado patrono da nação pelo governo militar, em 1965, enquanto os movimentos de esquerda não deixaram de recorrer a ele como símbolo de rebeldia. "O segredo da vitalidade do herói talvez esteja afinal nessa ambiguidade, em sua resistência aos continuados esforços de esquartejamento de sua memória", diz o historiador José Murilo de Carvalho em A Formação das Almas.
"Pois seja feita a vontade de Deus. Mil vidas eu tivesse, mil vidas eu daria pela libertação da minha pátria", teria dito Tiradentes ao ouvir serenamente a sentença. Trinta anos depois da execução, dom Pedro I, o herdeiro da coroa que o esquartejara, proclamava a independência do Brasil. Era a prova de que os propósitos de Joaquim José foram plantados em terra fértil. Um dos conjurados, José de Rezende Costa, filho, tornou-se constituinte na Assembleia de 1823, a primeira da nova nação brasileira.
HIPÓLITA DE MELO: A ÚNICA MULHER NA INCONFIDÊNCIA MINEIRA
Sendo a única mulher envolvida na rebelião, a aristocrata rebelde Hipólita de Melo foi condenada por Lisboa
MARCUS LOPES PUBLICADO EM 03/08/2019
Figura importante da inconfidência mineira - Istock
A imagem dos envolvidos na Inconfidência Mineira não deixa dúvidas: eram grandes homens comprometidos em libertar o Brasil de Portugal e instaurar um regime baseado nos princípios republicanos dos Estados Unidos. Mas eles tinham companhia. Uma doce companhia. Hipólita Jacinta Teixeira de Melo foi uma figura importante no movimento. No início, ajudou na comunicação entre os inconfidentes, arriscando-se a distribuir cartas e comunicados. Mais tarde, com os principais líderes presos, ela tentou organizar uma articulação com militares mineiros para levar a revolução adiante.
Hipólita nasceu em 1748 em Prados, interior de Minas. Educada, culta e de personalidade forte, casou-se com Francisco Antônio de Oliveira Lopes, companheiro do alferes Joaquim José da Silva Xavier. Seu marido era membro ativo do grupo de Tiradentes (a afinidade entre os dois nasceu quando serviam no Regimento dos Dragões de Minas, em Vila Rica), e Hipólita tinha pleno conhecimento e apoiava o movimento. O que não existe, segundo seus biógrafos, é uma imagem da inconfidente.
Inconfidentes presos, por Antônio Parreiras / Crédito: Wikimedia Commons
A família da garota marcava presença na política mineira. Seu pai, Pedro Teixeira de Carvalho, era um rico minerador e capitão-mor da Vila de São José Del Rey, atual cidade de Tiradentes. Ele deixou toda a sua fortuna para a filha, inclusive a Fazenda da Ponta do Morro, onde Hipólita continuou a morar com Francisco depois de casada. A fazenda tornou-se uma “célula” dos inconfidentes graças à sua localização estratégica: ficava próxima à Estrada Real, facilitando a comunicação entre os conjurados das cidades próximas, como São João Del Rey, Prados, São José Del Rey e a capital da província, Vila Rica.
“Transformaram sua casa em ponto de encontro de outros descontentes. Ali compareciam os heróis da Inconfidência Mineira. Só não sabiam que, entre eles, um sobrinho por afinidade de Francisco Antônio, chamado Joaquim Silvério dos Reis, viria a ser um delator, um traidor, pois não lhe conheciam a falta de caráter”, diz o historiador Ronaldo Simões Coelho no livro Hipólita – A Mulher Inconfidente.
“Hipólita foi a única mulher que participou da Inconfidência”, diz o historiador André Figueiredo Rodrigues, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autor do estudo “A Mulher na Inconfidência Mineira”, que disseca o período dos acontecimentos de 1789. Segundo ele, as informações do período são escassas, mas dois episódios comprovam a participação efetiva de Hipólita.
O primeiro é uma carta escrita a Francisco Antônio, em maio de 1789, alertando que o líder Tiradentes e o traidor Joaquim Silvério dos Reis encontravam-se presos no Rio de Janeiro por causa dos planos da revolução, delatados por Silvério dos Reis ao governo português. “Na carta, ela pediu para o marido agir com cautela, mas sem se furtar ou esquecer de que ele fazia parte de um grupo de revoltosos que lutavam por ideais de melhoria das condições de vida e trabalho em Minas Gerais”, diz Rodrigues.
Levante
Outros inconfidentes também foram alertados por Hipólita para que procurassem proteção. Por meio do compadre Vitoriano Veloso, que morava em um povoado próximo chamado Bichinho, ela enviou uma mensagem ao padre Carlos Correia de Toledo e Melo, vigário da Comarca do Rio das Mortes, um dos principais líderes dos inconfidentes.
“Dou-vos parte, com certeza, de que se acham presos, no Rio de Janeiro, Joaquim Silvério dos Reis e o alferes Tiradentes, para que vos sirva ou se ponham em cautela; e quem não é capaz para as coisas, não se meta nelas; e mais vale morrer com honra que viver com desonra”, escreveu Hipólita.
No que dependesse da senhora pradense, a história do Brasil poderia, inclusive, ter tomado um rumo totalmente diferente. Vitoriano Veloso também levou, a mando da comadre, uma mensagem ao tenente-coronel Francisco de Paula Andrade, em Vila Rica, para que iniciasse o levante revolucionário imediatamente e organizasse uma reação em toda a região das Minas, a partir da cidade do Serro, próxima de Diamantina.
Outro episódio importante que demonstra o envolvimento de Hipólita foi o fato de proibir o marido de entregar ao então governador de Minas, o Visconde de Barbacena, uma carta-denúncia delatando o movimento. A carta, que seria entregue pessoalmente por Francisco Antônio para tentar diminuir sua pena por participar da Conjuração Mineira, foi queimada por Hipólita, que também destruiu outros documentos que pudessem delatar os revolucionários.
Mesmo assim, ela tentou de tudo para salvar o marido, preso e enviado ao Rio de Janeiro junto com os outros inconfidentes. Durante o processo, mandou confeccionar um cacho de bananas de ouro maciço, em tamanho natural, ofertado à rainha de Portugal, dona Maria I, para obter o perdão do cônjuge. A oferenda, porém, jamais chegou ao destino, pois foi interceptada pelo Visconde de Barbacena. Preso, Francisco Antônio e os outros conjurados foram degredados para a África, onde morreram. Tiradentes foi o único a receber a pena de morte, e Vitoriano, que era negro e alfaiate, foi açoitado.
Inconfidentes presos, por Antônio Parreiras / Crédito: Wikimedia Commons
Apesar de os autos da devassa registrarem apenas o julgamento e as penas dos integrantes masculinos da conjuração, Hipólita sofreu os efeitos da derrota dos inconfidentes. Durante anos, lutou para reaver os seus bens, confiscados pela Coroa.
“Após a prisão dos inconfidentes e do início de repressão contra as famílias, dona Hipólita não escapou das punições impostas pela Coroa portuguesa”, diz Figueiredo Rodrigues. Acusada de participar do movimento, ela perdeu todos os bens. Inconformada, escreveu ao secretário do Ultramar, dom Rodrigo de Sousa Coutinho, em Lisboa, solicitando a restituição de boa parte do patrimônio sequestrado em Minas Gerais, alegando ser herança paterna.
“A estratégia deu certo, pois ela conseguiu recuperar a fazenda Ponta do Morro, onde morava, e alguns bens, como objetos de casa e de mineração, móveis e escravos”, diz o historiador Rodrigues.
“A luta pela posse dos seus bens mostra o quanto Hipólita era corajosa e quebra a imagem da sociedade patriarcal em que as mulheres eram submissas e se restringiam aos afazeres domésticos”, diz o historiador Elias Feitosa. “É possível, inclusive, que possa ter havido uma estratégia para a troca de mensagens sem provocar a desconfiança da Coroa. Quem iria suspeitar de uma mulher participando de uma revolução?”
As outras mulheres envolvidas na Inconfidência
Apesar de não terem participação efetiva no movimento, outras mulheres foram importantes no período da Inconfidência Mineira. Nos versos de Marília de Dirceu, o poeta Tomás Antonio Gonzaga declarava seu amor à jovem Maria Doroteia Joaquina de Seixas, por quem era apaixonado e ficou noivo.
Filha da tradicional família mineira, Maria Doroteia viu seu amado ser preso e exilado para a África, pouco tempo antes do casamento, acusado de participação na Inconfidência Mineira. Gonzaga nunca mais voltou ao Brasil. Maria Doroteia acabou sendo conhecida como a noiva da Inconfidência.
Outra personagem de destaque foi a jovem Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, de São João Del Rey. Filha mais velha do advogado José da Silveira e Sousa, aos 18 anos conheceu o poeta carioca Alvarenga Peixoto, que na ocasião era o ouvidor na Câmara de São João. Casados, foram felizes até a prisão do marido por participação na Inconfidência.
Assim como Hipólita Jacinta Teixeira de Melo, de quem era conhecida, Bárbara Heliodora não se deixou abater e lutou para reaver seus bens confiscados pela Coroa portuguesa. Como ocorreu com a amiga de Prados, ela também conseguiu salvar sua fortuna e a ampliou nos anos seguintes, tomando a frente dos negócios de mineração, agricultura e comércio de escravos.
“Bárbara Heliodora e Jacinta estavam bem distantes das mineiras passivas e solitárias. Após a prisão dos inconfidentes, assumiram a direção dos negócios e defenderam seus interesses”, afirma o historiador André Figueiredo Rodrigues.
Saiba mais
Hipólita – A Mulher Inconfidente, Ronaldo Simões Coelho, Editora Armazém de Ideias, 2000
Seja ou não um bode expiatório de colegas de conspiração, Joaquim José da Silva Xavier foi uma figura excepcional
F. G. YAZBECK PUBLICADO EM 21/04/2019
O rebelde de cara limpa - Jussara Jacomelli/ URI
Manhã de 21 de abril de 1792. O condenado é conduzido pelas ruas do Rio de Janeiro, cercado pela tropa, desde a prisão até o patíbulo instalado no largo da Lampadosa. A cabeça e a barba raspadas, coberto por uma túnica grosseira e portando um crucifixo, sobe calmamente os degraus, acompanhado do frei encarregado de lhe dar o amparo de orações na hora da morte. A multidão reunida assiste a tudo consternada. Ao atingir o patamar, o homem dirige-se ao carrasco e pede-lhe que abrevie seu sofrimento, ao que este responde pedindo perdão, pois apenas cumpria o que mandava a lei. Tão logo o corpo ainda vivo do Tiradentes projetou-se no espaço vazio, o carrasco Capitania jogou-se sobre seus ombros, firmando-se na corda e forçando seu peso sobre o do enforcado para apressar sua morte.
Cumpria-se assim a sentença pronunciada três dias antes, que condenava o réu "a com baraço e pregão ser conduzido pelas ruas publicas ao lugar da forca e nella morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Villa Rica aonde em lugar mais publico della será pregada, em um poste alto até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes pelo caminho de Minas".
A visão derradeira dos moradores da capital da colônia de Joaquim José da Silva Xavier é bem distinta da figura presente até hoje no imaginário nacional, que remete a Jesus Cristo. Quase três anos antes, o herói da Inconfidência fora preso sem resistência, tentando se esconder. Tiradentes também tinha outras alcunhas, como "o Corta-vento" e "o Liberdade". São detalhes pouco conhecidos, mas não menos importantes para entender quem era ele e seu papel na conjuração, muito além dos mitos construídos a partir do fim do século 19, quando se formava a República brasileira.
Nascido em 1746, na fazenda do Pombal, perto de São José Del Rei do Rio das Mortes (hoje a cidade de Tiradentes), Joaquim José era o quarto dos sete filhos de Domingos da Silva Santos e Antônia da Encarnação Xavier. Aos 11 anos tornou-se órfão. Até perto dos 20, labutou com os irmãos nas terras herdadas do pai, ao mesmo tempo que praticava as artes de dentista aprendidas com o tio e padrinho. Por essa época resolveu comprar algumas mulas, escravos, mercadorias para tentar a vida como tropeiro nos sertões de Minas Gerais e nas vilas do Caminho Novo, que levava ao Rio de Janeiro. Chegou até a Bahia, mas os negócios mal o sustentavam. Desistiu de vez depois de ter sido preso (perto da atual Diamantina) ao tentar defender um escravo que era espancado pelo dono, um poderoso fazendeiro.
Tiradentes, em pintura de Oscar Pereira da Silva Wikimedia Commons
Até 1775, perto dos 30 anos, sobreviveu como dentista, ganhando por isso o apelido de "Tira-dentes". Trabalhava ocasionalmente também como minerador e como médico, em vista dos conhecimentos sobre plantas medicinais adquiridos com seu primo, frei José Mariano da Conceição Vellozo, consagrado botânico à época. Cansado das atividades errantes pouco rentáveis, alistou-se na tropa paga de Minas, o Regimento de Cavalaria, e recebeu o posto de alferes - hoje equivalente ao de subtenente.
Sem recompensa.
Muito cedo ele se destacou na função, em missões que envolviam o conhecimento de assuntos que iam além do esperado em sua posição. Serviu no Rio e comandou o destacamento de Sete Lagoas, na principal via de ligação entre Minas e a Bahia. Em 1781 foi transferido com a determinação de construir uma variante do Caminho Novo, até o Registro de Paraibuna. Era um estudioso autodidata de mineralogia e outras ciências da natureza. Em 1783, foi novamente realocado para combater uma temida quadrilha de assaltantes que infernizava a vida dos viajantes na serra da Mantiqueira. Mesmo em menor número, a tropa do alferes conseguiu derrotar o bando do Montanha, que tinha mais de 30 homens.
As qualificações de Tiradentes eram reconhecidas mas não recompensadas. Assistia indignado à promoção de colegas, enquanto suas atribuições só aumentavam. Numa das missões, o governador Luís da Cunha Meneses determinou que participasse do grupo encarregado de fazer o levantamento geológico e mineralógico do leste de Minas, na fronteira com o Rio, área então fechada à mineração. E justificou a ordem devido à "notória inteligência mineralógica" do alferes.
Nem assim conseguiu ele uma promoção. Formalizou queixa por isso, mas o governador afirmou que o militar "não passava de um mariola a quem se podia dar com um pau". Humilhado, Tiradentes pediu licença da tropa e requereu a ocupação de terras entre os municípios de Matias Barbosa e Simão Pereira, na divisa entre Minas e o Rio. Sem recursos e tino comercial, foi levado novamente à falência, tendo apenas suas habilidades de dentista para afugentá-lo da miséria.
Prisão de Tiradentes, por Antônio Diogo da Silva Parreiras Wikimedia Commons
Confirmada a sina de ter de viver sob soldo, o alferes voltou ao regimento, sendo logo encarregado de missão que o levaria a várias viagens ao Rio de Janeiro. Pôde, então, bem estudar o solo e o sistema fluvial da região, elaborando planos para o aproveitamento das águas locais, de modo a solucionar o grave problema de abastecimento da capital da colônia.
Conspirador urbanista
A abrangência e a viabilidade das propostas do militar são surpreendentes e estão entre suas facetas menos conhecidas. Apresentou projetos de canalização dos rios Maracanã e Andaraí, sugeriu a drenagem de alguns mangues e fez ver a possibilidade de aproveitamento dos desníveis dos córregos Catete, Comprido e Laranjeiras para a instalação de moinhos. Também propôs a construção de armazéns e trapiches na área do porto que permitiriam a carga e descarga de vários navios ao mesmo tempo. Idealizou ainda um serviço de barcas ligando o Rio a Praia Grande, em Niterói.
Os administradores desconsideraram os planos; só tinham olhos para a cobrança de impostos. Menos de 30 anos depois, porém, dom João VI iniciaria obras na capital nos mesmos moldes das ideias de Tiradentes. Em 1889, projetos de saneamento do engenheiro Paulo Frontin confirmaram a validade das propostas.
O apetite fiscal da coroa era tão grande quanto a dificuldade em quitar suas dívidas com a Inglaterra. Portugal pouco produzia além de vinhos e quinquilharias. Comprava dos britânicos quase tudo o que consumia. O ouro brasileiro era a principal moeda de pagamento, mas, a partir da segunda metade do século 18, já dava mostras de esgotamento.
Foi nesse período, entre 1786 e 1789, que Tiradentes passou a conspirar. A voracidade da coroa - que cobrava um quinto de tudo o que fosse recolhido na atividade mineradora, bem como outros tributos sobre o comércio, a lavoura e a pecuária -, além da notória corrupção do governador Cunha Meneses, fazia acumular o descontentamento em toda a capitania de Minas. À insatisfação sobre a carreira no regimento, Joaquim José somava novas ideias. Fez sua cabeça na biblioteca do cônego Luís Vieira da Silva. Ali conheceu as teses dos franceses Rousseau, Montesquieu e outros iluministas, que secundavam o pensamento do inglês John Locke.
A liberdade emergia como um bem inato do homem. Cada um deveria ser livre para agir segundo apenas sua consciência e as normas democraticamente definidas por sua comunidade. Assim repetia o alferes onde quer que estivesse, e sempre exaltado, o que lhe valeu uma série de outros apelidos, como "o República", "o Liberdade", "o Gramaticão" e "o Corta-vento". Costumava circular com livros debaixo do braço, inspirado também pela ação dos norte-americanos, que haviam se separado do Império Britânico e implantado um sistema federalista de governo (1776). Joaquim José estava sempre afirmando que cabia aos brasileiros dirigir sua própria república. Obcecado por essas ideias e vendo que elas também ocupavam mentes mais ilustres, começou a reunir-se com personalidades de Vila Rica (hoje Ouro Preto), como Tomás Antônio Gonzaga e Inácio José de Alvarenga Peixoto.
José Álvares Maciel foi outro importante conspirador. Pensador, idealista, mas de pés no chão. Apesar de Tiradentes ter se apresentado aos julgadores como o único líder fático do movimento, deve ser concedida a Maciel a liderança das ideias. Estudioso da filosofia dos franceses e da formação dos Estados Unidos, teve contato indireto com Thomas Jefferson, através de um amigo comum, um estudante brasileiro na França, José Joaquim da Maia, que mantinha correspondência com o então embaixador americano em Paris, buscando apoio para um desejado movimento de independência. Ao lado de Domingos Vidal Barbosa, Maciel elaborou as diretrizes para a nova república.
Execução de Tiradentes, em 21 de abril de 1792 Wikimedia Commons
Não bastaria tornar o Brasil independente, era preciso dar-lhe também as condições para se manter como nação livre e forte. Para isso, deveria ser dedicado especial esforço à educação do povo, ainda que o fim da escravidão estivesse nos planos de forma apenas mitigada. Seriam criadas escolas, uma universidade em Vila Rica, e a capital transferida para São João Del Rei. Seria implementada a construção de fornos siderúrgicos e a fabricação de todos os produtos que até então só eram obtidos de Portugal.
Advogados, bacharéis, médicos, membros da Igreja, militares, gente do povo, a insatisfação parecia generalizada. E os conspiradores pretendiam fazer uso dela, exacerbada diante da perspectiva de uma nova derrama - o confisco de bens para completar os débitos acumulados na arrecadação mínima de 100 arrobas de ouro (1470 kg) por ano - esperada para o início de 1789, sob as ordens do novo governador, Luís Furtado de Mendonça, o visconde de Barbacena.
Tiradentes se sobressaía como um dos líderes militares do movimento ao lado de um velho conhecido a quem fora subordinado: o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante do Regimento de Cavalaria Regular das Minas Gerais. Também participavam de reuniões para o levante os coronéis Domingos de Abreu Vieira e José Aires Gomes, das forças auxiliares, e até o coronel Joaquim Silvério dos Reis, que viria a ser o grande traidor dos rebeldes.
Por pretender atrair a todos, dos mais nobres aos mais humildes, o movimento acabou por dar espaço a gente como o português Silvério dos Reis e outros traidores: Ignácio Correa Pamplona e Basílio de Brito Malheiros. Eles não titubearam em denunciar a conspiração ao visconde.
A revolta fora planejada para estourar no dia da derrama. A senha do movimento era "tal dia é o batizado", a data do confisco. Tiradentes e Andrade desencadeariam as ações em Vila Rica, que culminariam com a tomada do palácio, a degola de Barbacena e apresentação de sua cabeça ao povo, que seria então chamado a apoiar uma junta provisória de governo. O Rio seria ocupado em seguida e conspiradores acionados também em São Paulo e na Bahia. Mas, a essa altura, o governador já sabia da trama.
Erro fatal
Planos escritos de ação para o levante nunca foram recuperados. A reconstituição dos acontecimentos e do papel dos participantes sempre foi dificultada pela escassez de documentação. Mas está claro que, em todo o planejamento, faltou cogitar saídas alternativas caso algo desse errado. Erro crasso, considerando haver no grupo militares de alta patente e o próprio Tiradentes, que já demonstrara astúcia e senso estratégico na derrota do bando do Montanha. Foram ingênuos os inconfidentes. Bastou o governador suspender a derrama e o tal dia não aconteceu. O burburinho sobre o levante era considerável, e, a partir das informações de Silvério, foram emitidas ordens de prisão em Vila Rica e no Rio de Janeiro. Joaquim José da Silva Xavier, que estava lá em busca de novas adesões ao movimento e evitando o excesso de exposição em Minas, foi seguido por vários dias e preso no sótão da casa de Domingos Fernandes da Cruz, em 10 de maio de 1789, onde se escondera. Estava armado, mas preferiu não reagir.
O tribunal (uma comissão especial formada por desembargadores da Casa de Suplicação de Lisboa) culminou com a condenação de 28 réus, além de Tiradentes, chegando a impor penas à memória e aos descendentes de outros três falecidos na prisão. A pena de morte aplicada a dez dos conjurados, porém, foi comutada na última hora em degredo perpétuo pelo regente dom João, em nome da rainha dona Maria I. A forca restou só para o alferes. Há quem afirme que, dessa forma, Portugal quis fazer entender a conspiração como aventura de um reles e tresloucado dentista, que com lábia aliciou mentes mais ilustres.
Tiradentes Esquartejado, de Pedro Américo Wikimedia Commons
Kenneth Maxwell, numa das mais importantes obras sobre a Inconfidência, A Devassa da Devassa, esboça a tese de que Tiradentes seria mero "bode expiatório", elemento apenas periférico dentre os plutocratas e intelectuais que compunham o movimento nascido não apenas de ideais, mas fundamentalmente de interesses econômicos. (Como a Revolução Americana.) O mesmo brasilianista, porém, não deixa de reconhecer o caráter ímpar do mártir, de exceção "em uma história particularmente carente de grandes homens". Durante os interrogatórios sempre reclamou Joaquim José a exclusiva culpa pela iniciativa da sedição, inocentando seus companheiros de outros crimes que não fosse o de ouvir suas ideias.
Qualquer que tenha sido seu papel, Tiradentes tornou-se um autêntico herói nacional. Primeiro foi adotado pelo movimento republicano, que o elegeu como mártir cívico-religioso e antimonarquista, fazendo prosperar as representações que o aproximam de Cristo. O 21 de abril tornou-se feriado nacional em 1890. Tiradentes teve também exaltada sua imagem de militar patriota, quando nomeado patrono da nação pelo governo militar, em 1965, enquanto os movimentos de esquerda não deixaram de recorrer a ele como símbolo de rebeldia. "O segredo da vitalidade do herói talvez esteja afinal nessa ambiguidade, em sua resistência aos continuados esforços de esquartejamento de sua memória", diz o historiador José Murilo de Carvalho em A Formação das Almas.
"Pois seja feita a vontade de Deus. Mil vidas eu tivesse, mil vidas eu daria pela libertação da minha pátria", teria dito Tiradentes ao ouvir serenamente a sentença. Trinta anos depois da execução, dom Pedro I, o herdeiro da coroa que o esquartejara, proclamava a independência do Brasil. Era a prova de que os propósitos de Joaquim José foram plantados em terra fértil. Um dos conjurados, José de Rezende Costa, filho, tornou-se constituinte na Assembleia de 1823, a primeira da nova nação brasileira.
Saiba mais
A Devassa da Devassa - A Inconfidência Mineira: Brasil e Portugal, 1750-1808, Kenneth Maxwell, Paz e Terra, 2009
Historia da Inconfidência de Minas Gerais, Augusto de Lima Júnior, Itatiaia, 1996
Tiradentes, José Alberto Pinho Neves (org.), Ministério da Educação e do Desporto, 1993
O terremoto que chocou a Europa, redesenhou a capital portuguesa e teve reflexos até na Inconfidência Mineira
FERNANDO DUARTE PUBLICADO EM 01/11/2018
Terremoto de 1755 deixou entre 10 mil e 70 mil mortos e destruiu cerca de 85% das construções de Lisboa - Reprodução
Era por volta de 9h40 de 1º de novembro de 1755. Portugal se orgulhava de ser o bastião do catolicismo, e as igrejas da capital estavam lotadas para a celebração do Dia de Todos os Santos. Lisboa, com 200 mil habitantes, era a quarta cidade europeia mais populosa na segunda metade do século 18. Um quadro que ajudou a amplificar o impacto da primeira grande catástrofe natural moderna: naquela manhã de sol, um terremoto de força descomunal arrasou a cidade, matando milhares de pessoas e sacudindo muito mais do que apenas prédios e palacetes.
De acordo com testemunhas tão variadas como moradores da cidade e diplomatas estrangeiros, entrevistados pelas autoridades portuguesas, os tremores duraram de 3 a 6 minutos. Com epicentro no Oceano Atlântico, cerca de 200 km ao sul do arquipélago de São Vicente, o terremoto atingiu também o Marrocos e a Argélia, e foi sentido em outros países da Europa, incluindo a Inglaterra, com relatos de um tsunami que atingiu a costa da Cornualha.
Outras cidades portuguesas sofreram graves danos. Mas nenhum lugar foi tão devastado quanto Lisboa: o número de mortos é calculado entre 10 mil e 70 mil pessoas, e se estima que 85% dos prédios, incluindo marcos públicos, como o Palácio Real e igrejas, cheias de fiéis por causa do feriado santo, foram abaixo.
A tragédia foi maior ainda porque muitos habitantes de Lisboa correram para a beira do Rio Tejo com a intenção de fugir dos desabamentos e dos incêndios que se alastravam pela capital. A região, porém, foi atingida por uma série de tsunamis gerados em decorrência do terremoto. As ondas destruíram o porto e toda a parte baixa da cidade. O que não caiu ou ardeu em chamas acabou carregado pelas águas - um desastre até então inédito na Europa moderna.
IMAGINÁRIO
Se provocou consternação de sobra em Portugal, a tragédia também impressionou vizinhos europeus. O terremoto de Lisboa foi a primeira e até agora maior catástrofe natural europeia devidamente registrada. Ocorreu num período em que a comunicação e a preservação da memória tinham avançado no continente, tanto que centenas de gravuras e imagens da tragédia foram confeccionadas em Portugal e no exterior.
"O terremoto teve um impacto no imaginário popular que pode ser comparado com o horror provocado pelo 11 de Setembro de 2001. Foi um evento que chocou o mundo da época. Já vi até comparações com a Bomba de Hiroshima. A repercussão foi imensa pela magnitude da destruição", diz o historiador inglês Edward Paice, autor de A Ira de Deus, uma reconstituição do terremoto.
Localização do epicentro do terremoto de 1755 Wikimedia Commons
Era uma época turbulenta no que diz respeito ao relacionamento entre homem e Igreja. E a data da catástrofe não poderia ter sido mais sugestiva. O fato de Lisboa ter sido arrasada num dia santo não passou despercebido pelos dois lados do debate. Teólogos se apressaram em enxergar um castigo divino. Os iluministas tiveram no acontecimento um trunfo em seus argumentos em prol da razão sobre a fé.
A hipótese de castigo divino teve respaldo num país devoto como Portugal, embora a ironia de que o distrito de Alfama, onde ficava a zona do meretrício em Lisboa, resistiu ao terremoto por estar na parte mais alta da cidade, também tenha sido notada, assim como o fato de que quase 90% das igrejas lisboetas e pelo menos 80% de conventos e mosteiros terem sido reduzidos a escombros.
A tragédia levou a um questionamento da vontade divina. O filósofo francês Voltaire mencionou o sismo em seu seminal livro Cândido, atacando a noção de que "Deus sabe o que faz". Seu colega e compatriota Jean-Jacques Rousseau viu confirmada sua teoria de que a vida nas cidades era nociva ao ser humano - a aglomeração urbana em Lisboa teria contribuído para um maior número de mortes. Na Alemanha, Immanuel Kant foi uma das primeiras vozes a buscar uma explicação natural para o cataclisma.
A geologia era uma ciência nova no século 18 - estudos da época afirmavam que a Terra tinha 75 mil anos - e o terremoto ofereceu uma oportunidade preciosa de estudos, um empurrão para a criação da sismologia.
Uma iniciativa crucial veio na resposta das autoridades portuguesas à destruição. Lisboa e Portugal ficaram de joelhos após a catástrofe, os escombros do Palácio Real servindo de símbolo. O rei José I e sua família escaparam da tragédia por estarem fora da cidade, mas viveram como refugiados comuns nas colinas da Ajuda - o soberano ficou traumatizado e se recusou a dormir sob um teto.
Portugal só não ficou acéfalo porque o primeiro-ministro Sebastião de Melo chamou a responsabilidade para si. Mais conhecido por seu título de nobreza, o Marquês de Pombal comandou esforços de reconstrução impressionantes mesmo nos dias de hoje. A começar pela determinação em mostrar a mão forte do Estado.
LEI MARCIAL
"Reis não se envolviam na administração, e as circunstâncias deixaram Pombal ainda mais poderoso. Ele era autoritário, mas é difícil não ter respeito pelo que fez para tentar trazer Portugal de volta à normalidade", diz Paice.
Pombal convocou batalhões para ajudar no combate aos incêndios e no resgate das vítimas e impôs Lei Marcial para conter saqueadores. Contrariando a doutrina católica, ordenou que cadáveres fossem recolhidos depressa para evitar doenças e atirados ao mar.
'Alegoria ao Terramoto de 1755', por João Glama Strobërle Wikimedia Commons
Em 4 de dezembro de 1755, pouco mais de um mês depois da catástrofe, o engenheiro-chefe da corte, Manuel da Maia, já apresentava os planos de reconstrução. Eram cinco alternativas, do abandono da cidade a uma reforma completa. Pombal aprovou a quarta opção, que propunha um radical redesenho da Parte Baixa da capital.
Lisboa ganhou padronização na construção de casas e edifícios, nos aspectos estético e estrutural: uma trama de vigas de madeira conhecida como "gaiola pombalina", para melhor resistir a sismos, e mais espaçamento entre edificações para prevenir incêndios. Para testar a segurança dos prédios, Pombal criou um "simulador de terremotos" - tropas marchavam ao redor das edificações, criando pequenos temores.
Dos escombros, surgiu a Baixa Pombalina. Seus 236 mil m² viraram um dos mais estudados casos de projetos urbanísticos de larga escala no mundo. Pombal também tomou a decisão de fazer um censo da tragédia: questionários foram enviados a todas as paróquias pedindo informações sobre o terremoto.
Além de detalhes como rachaduras e intensidade dos tremores, o questionário de Pombal pedia observações sobre o comportamento de animais e mesmo sobre reduções de volume d"água em poços. Tais informações deram a cientistas subsídios para reconstituir os eventos geológicos de 1º de novembro, incluindo estimativas da intensidade do tremor - estima-se que o terremoto de Lisboa de 1755 tenha atingido de 8,5 a 9 graus na Escala Richter.
Pombal coordenou os esforços mesmo num momento em que Portugal tinha os bolsos vazios. Segundo o historiador e economista português Álvaro Pereira, a tragédia causou prejuízos da ordem de 48% do PIB da época. "A economia viveu uma fase de depressão entre 1750 e 1770 e obviamente a catástrofe não ajudou. Por outro lado, houve consequências positivas: o esforço de reconstrução reaqueceu setores da economia, como a construção civil", explica José Luís Cardoso, do Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa.
Nenhuma surpresa, então, que as autoridades portuguesas tenham olhado para suas colônias na hora de pagar a conta. Especialmente a mais rica delas: o Brasil foi visto como tábua de salvação. Pombal aumentou os já rigorosos impostos sobre o ouro brasileiro vindo de Minas Gerais, acirrando o sentimento antiportuguês na região que anos mais tarde abrigaria o primeiro grande movimento pró-emancipação do Brasil, a Inconfidência Mineira.
'Retrato de Sebastião José de Carvalho e Melo, 1º Marquês de Pombal', por Louis-Michel van Loo e Claude-Joseph Vernet, 1766 Wikimedia Commons
A catástrofe aumentou a dependência econômica de Portugal junto à Inglaterra, por mais que Pombal tivesse tentado fomentar o desenvolvimento econômico do país, que vivia da exploração das colônias e comprava tudo dos ingleses. Hoje, Pombal é lembrado com uma coluna e uma estátua no centro da capital, mas caiu em desgraça após a morte de dom José I, em 1777. Destituído pela sucessora, Maria I, viveu no ostracismo até sua morte, em 1782.
Em 2004, o terremoto voltou a ser lembrado, com a publicação de um polêmico documento do Instituto Europeu de Estudos Marinhos. Pesquisadores detectaram atividades tectônicas na região e sugeriram que um novo grande tremor poderá atingir Portugal. Mas dificilmente terá tanto impacto nos rumos da história como o sismo de 1755, que mudou um país e um continente. E que tem nas ruínas do Convento do Carmo, no Rossio, uma rara lembrança.
Saiba mais
A Ira de Deus - A Incrível História do Terremoto que Devastou Lisboa em 1755, Edward Paice, Record, 2010
Recebemos este material ótimo de uma contribuinte que enviou por email, mas infelizmente não temos a fonte. Se alguém souber e quiser nos enviar, ficaremos gratos. Obrigada.