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quinta-feira, 9 de abril de 2020

Dormia em um caixão e odiava a própria voz: 10 fatos sobre John Lennon.

DORMIA EM UM CAIXÃO E ODIAVA A PRÓPRIA VOZ: 10 FATOS BIZARROS SOBRE JOHN LENNON

Detalhes sobre a vida pessoal e trajetória do cantor e ativista que tornou-se um dos mais importantes nomes da música
ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 10/04/2020
John Lennon, ex-integrante da banda The Beatles
John Lennon, ex-integrante da banda The Beatles - Wikimedia Commons
Em Liverpool, no dia 9 de outubro de 1940, nascia John Lennon. Junto de Paul McCartney, o artista cofundou os Beatles, o grupo que mais vendeu na história da música, composto por, além dos dois, George Harrison e Ringo Starr.
Em dezembro de 1980, Lennon foi assassinado por um fã na porta do edifício em que morava em Nova York, ao voltar de uma sessão de gravação com Yoko Ono. Ele levou quatro tiros pelas costas.
Conheça 10 fatos curiosos sobre um dos mais icônicos músicos da História.
1. John Lennon odiava sua própria voz.
Mesmo sendo considerado um dos mais importantes nomes da história da música, o cantor odiava sua própria voz. "Você não pode sufocá-la [a voz] com ketchup ou algo assim?", dizia para George Martin, produtor da banda.

2. Lennon foi o único da banda que não virou vegetariano.
Em 1965, George Harrison foi o primeiro beatle a tornar-se vegetariano. Anos depois, Paul McCartney também entrou no movimento. Depois dele, Ringo Starr, ainda que por conta de problemas de saúde. Lennon tentou o vegetarianismo, mas, no final, sempre voltava a comer carne.
John Lennon e Yoko Ono / Crédito: Wikimedia Commons

3. Ele regravaria todas as músicas dos Beatles.
Em uma noite, jantando com o produtor George Martin, o músico revelou que, se pudesse, regravaria todas as músicas da banda. Martin perguntou "Até Strawberry Fields?”, e Lennon respondeu: "Especialmente Strawberry Fields”.

4. Ele foi escoteiro e cantava em coro na igreja.
Lennon começou sua carreira de músico na igreja de São Pedro em Liverpool, no Reino Unido. Ele fazia parte do coro que cantava durante as missas no local. Além disso, o garoto integrava a 3ª tropa de escoteiros de Allerton, em Illinois, Estados Unidos.

5. Ele amava o jogo Monopoly.
O artista era um devoto jogador de Monopoly. Ele carregava seu exemplar do jogo para todos os lugares e divertia-se em seu quarto de hotel ou até mesmo em aviões durante viagens dos Beatles.

6. O último a tirar carteira de motorista.
Lennon era conhecido por ser um péssimo motorista — quase todos que o conheciam diriam isso sobre ele. Foi só em 1965, aos 24 anos, que o cantor conseguiu tirar sua carteira de motorista, sendo o último dos beatles a fazê-lo.
Crédito: Wikimedia Commons

7. Ele dormia em um caixão.
Allan Williams, gerente dos Beatles, disse uma vez que Lennon dormia no caixão velho que ele possuía na área externa de seu café, o The Jacaranda, em Liverpool. Mesmo que como piada, ele chegou a tirar algumas sonecas no bizarro local.

8. “All you need is love” foi a melhor letra que Lennon já escreveu.
"Isso é fácil, ‘all you need is love’”, respondeu o músico ao ser perguntado qual foi a melhor letra que ele já havia escrito. Simples e poética, a letra da canção é a favorita de Lennon.

9. Ele cantaria o primeiro single dos Beatles, “Love Me Do”, mas quem o fez foi McCartney.
Originalmente, Lennon deveria liderar a música que seria o primeiro single da banda de rock. No entanto, como teria que tocar gaita durante a melodia, o microfone foi dado a Paul McCartney.

10. Sua última fotografia foi tirada por Paul Goresh.
Depois do assassinato, Goresh entrou no necrotério em que Lennon se encontrava e tirou uma foto do corpo, um dia antes dele ser cremado. Mórbido ou não, a fotografia foi a última imagem registrada de John Lennon.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Em 1980, John Lennon era assassinado por um fã.

HÁ 39 ANOS, JOHN LENNON ERA ASSASSINADO POR UM FÃ

Lennon saiu dos Beatles e gravou canções engajadas. Mas foi assassinado quando a única paz que buscava era a de ser um homem comum
ALEXANDRE PETILLO PUBLICADO EM 08/12/2019
John Lennon em sua casa no ano de 1971
John Lennon em sua casa no ano de 1971 - Getty Images
Em julho de 1971, o músico inglês John Lennon e sua esposa, a artista plástica japonesa Yoko Ono, resolveram fazer uma canção de Natal enquanto tomavam café da manhã em Nova York. Eles queriam que a letra incitasse o ouvinte a fazer alguma coisa pela paz, pois a sangrenta guerra do Vietnã estava em curso.
Em questão de minutos, os versos foram ficando prontos, começando com “Então é Natal/ E o que você fez?” Depois de deixar a canção de lado por meses, Lennon resolveu gravá-la em novembro.
Embora o tempo fosse curto demais, pressionou a gravadora para lançá-la antes do Natal. Conseguiu. Mas, devido à divulgação insuficiente, o single alcançou pouco mais do que o 40º lugar das paradas de sucesso. Seu nome era Happy Xmas (The War is Over) – algo como “Feliz Natal (A Guerra Acabou)”.
Nove anos depois, em 8 de dezembro de 1980, Lennon estava chegando a seu prédio quando ouviu um homem chamá-lo. Antes que o músico terminasse de se virar para olhar, o segurança desempregado Mark Chapman o atingiu com quatro tiros de revólver. Lennon faleceu a caminho do hospital.
Sua morte chocou a geração que havia começado ouvindo Beatles, passado pelo desbunde do amor livre e, depois, se engajado em movimentos pela paz e respeito aos direitos humanos.
Nas multidões que logo se formaram para prestar homenagem a Lennon, canções pacifistas de sua autoria eram entoadas em coro. E, no próprio Natal de 1980, Happy Xmas (The War is Over) atingiu o número 1 nas paradas da Inglaterra.
Em 1983, faria estrondoso sucesso nos Estados Unidos e, até hoje, é presença certa na programação de fim de ano das rádios.
Cantor ativista
Esse clamor tardio pela paz não deixa de ser irônico. Desde meados dos anos 70, o compositor já tinha parado de ir a manifestações ou gravar canções de protesto. Nos seus últimos anos, Lennon esteve mais preocupado em curtir a família.
O disco que estava gravando quando morreu não continha nenhum libelo, apenas canções reflexivas e pessoais (que foram lançadas no álbum póstumo Milk and Honey, de 1984).
O período ativista da vida de Lennon começou ainda antes do fim dos Beatles. Em 1969, logo após selar sua união com Yoko, partiu em lua de mel promovendo o que eles chamaram de Bed-In For Peace (“Na Cama pela Paz”).
Em março, eles foram para o hotel Hilton de Amsterdã, na Holanda, e enviaram aos jornalistas um cartão que dizia: “Venha para a lua de mel de John e Yoko: uma sessão de cama”.
Com as recentes esquisitices do casal (a capa do disco Two Virgins, com os dois nus, era um exemplo), houve quem esperasse o pior. Só que, ao chegar, os repórteres encontraram os anfitriões vestidos de branco e falando apenas de paz.
Na segunda sessão do Bed-Inem um hotel de Montreal, no Canadá, eles conseguiram ainda mais atenção. Chamaram o então primeiro-ministro local, Pierre Trudeau, para visitá-los.
O encontro só se concretizaria meses depois, pouco antes do Natal de 1969, e o casal saiu declarando que, se mais líderes tivessem as ideias de Trudeau, o mundo seria um lugar pacífico.
Foi durante o Bed-In canadense que, na presença de 50 fãs, Lennon registrou, com um gravador portátil, a despojada Give Peace a Chance.
John e Yoko durante Bed-In for Peace / Crédito: Getty Images
Como as andanças de Lennon e Yoko demonstravam, o músico não estava mais preocupado com o destino dos Beatles. Logo veio o fim da banda, anunciado em abril de 1970. Foi aí que o engajamento político se tornou a obsessão da vida de Lennon.
Ele nunca havia lidado bem com a omissão do conjunto diante dos temas palpitantes dos turbulentos anos 60 (os Beatles eram proibidos pelo empresário Brian Epstein de comentar assuntos polêmicos).
Poucos meses após a dissolução do grupo, Lennon devolveu à rainha a Ordem do Império Britânico, que ganhara com os outros três Beatles em 1965.
O ato foi um protesto contra o apoio da Grã-Bretanha à Nigéria durante a repressão a Biafra, um estado que pretendia se separar do país africano (a guerra civil matou 1 milhão de pessoas).
A devolução da medalha também representou a revolta com o suporte dado pelo Reino Unido aos americanos na Guerra do Vietnã. Esse conflito foi o grande alvo das manifestações pacifistas de Lennon.
Perto do Natal de 1970, ele e Yoko espalharam outdoors por 11 cidades do mundo com os dizeres: “War is over! If you want it. Happy Christmas from John & Yoko” (“A guerra acabou! Se você quiser. Feliz Natal de John e Yoko”).
Numa conversa com o paquistanês Tariq Ali (um dos mais importantes escritores de esquerda contemporâneos), publicada na revista Red Mole em janeiro de 1971, Lennon disse que conheceu na pele a opressão das classes populares, embora os Beatles o tivessem afastado da realidade.
“Quando comecei com o rock, esse gênero era a revolução para as pessoas da minha idade”, afirmou. “Quero influenciar as pessoas com a minha música e minhas entrevistas.”
Causas americanas
Lennon parecia mesmo determinado a fazer alguma coisa pelo mundo além de boas canções. Ele saiu de Londres e, em agosto de 1971, foi para Nova York, o grande centro mundial do capitalismo e da contracultura. Lennon e Yoko foram morar no bairro de Greenwich Village, onde se concentrava todo tipo de ativistas.
O casal alugou um humilde apartamento de dois quartos com um colchão no lugar da cama. O Rolls-Royce branco com que circulavam em Londres foi trocado por duas bicicletas.
Nos Estados Unidos, Lennon começou a se engajar em causas americanas. Em setembro de 1971, uma rebelião na penitenciária de Attica, em Nova York, envolveu mais de mil presos.
Quando as negociações emperraram, o então governador Nelson Rockefeller enviou ao local 1.700 soldados, que mataram 32 pessoas. Lennon demonstrou seu descontentamento usando um broche com a inscrição: “Indiciem Rockefeller por assassinato”. E organizou um concerto em prol das viúvas dos presos.
No mesmo mês em que ocorreram os violentos confrontos de Attica, chegou às lojas americanas o disco Imagine, gravado ainda na Inglaterra. A faixa-título fez muito sucesso já no lançamento, e se tornou a mais emblemática canção já feita sobre a paz – foi interpretada por gente tão díspar como a pacifista Joan Baez e o brega Ray Conniff.
Ao piano, John imagina um mundo sem guerras, religiões, posses, ciúmes e tudo mais que seja capaz de gerar conflito.
John Lennon e Yoko Ono durante divulgação da música Happy Xmas (The war is over) / Crédito: Getty Images
Mesmo pregando a paz sem parar, Lennon virou uma ameaça aos olhos do governo americano. Era o roqueiro mais influente do mundo – o decadente Elvis, por exemplo, estava fazendo shows para senhoras em Las Vegas – e tinha o objetivo declarado de incitar as massas.
O telefone do músico foi grampeado e seus passos foram seguidos de perto pelas autoridades. Ele de fato estava mantendo contato com figuras conhecidas da polícia ianque, como John Sinclair, fundador do movimento Panteras Brancas (inspirado nos Panteras Negras).
Sinclair estava preso desde 1969 por ter vendido dois cigarros de maconha a policiais disfarçados. Em dezembro de 1971, Lennon e Yoko lideraram mais um concerto político, desta vez no estado do Michigan, em que cantaram “John Sinclair”, que pedia a libertação do ativista.
Coincidência ou não, a Suprema Corte daquele estado autorizou a soltura de Sinclair três dias depois.
Quando o visto de permanência de Lennon e Yoko expirou em fevereiro de 1972, eles receberam uma ordem de deportação – que teve como pretexto uma prisão por posse de maconha acontecida ainda em Londres, em 1968 –, contra a qual recorreram.
Contudo, ao se aprofundar nas investigações, o FBI chegou à conclusão de que o excesso de drogas deixara o músico inofensivo. “Lennon parece ter orientação radical, mas não dá a impressão de ser um verdadeiro revolucionário, já que está constantemente sob a influência de narcóticos”, diz um relatório da época.
Inofensivo ou não, fato é que Lennon começou a se desiludir com as causas – e com as pessoas – que havia apoiado. John Sinclair, por exemplo, o processou para ter uma porcentagem de dinheiro no projeto cinematográfico Ten for Two, justamente o registro de um show organizado por Lennon para pedir sua libertação.
Traições e alcoolismo
Em 1973, frustrado com a esquerda americana, o casal vai viver no luxuoso edifício Dakota, próximo ao Central Park. No final daquele ano, Yoko avisa que está se separando, cansada das traições e do alcoolismo de Lennon.
Sozinho, ele vai para Los Angeles, onde passa meses se drogando e compondo sem parar. Mas, em 28 de novembro de 1974, nos bastidores de um show de Elton John, o casal se reconciliou e voltou à velha relação apaixonada.
Depois de tanto sofrer, 1975 foi um ano inesquecível para Lennon. Fameparceria dele com David Bowie, alcança o topo da parada em setembro. Logo depois, a Justiça americana finalmente cancela a ordem de deportação do casal.
O cantor passa de perseguido a “cartão postal” de Nova York. Dois dias após a decisão, em 9 de outubro, nasce Sean Taro Ono Lennon – um presente de aniversário para o pai, nascido na mesma data, em 1940. Enfim, chegava a paz (em tempo: longe dali, em abril, a Guerra do Vietnã havia acabado).
John e Yoko, em novembro de 1980 / Crédito: Getty Images
Nesse momento, Lennon resolve sair de cena. Ele sentia por não ter sido um bom pai para seu primeiro filho, Julian (que nasceu em 1963, da união com Cynthia). Vivendo a "beatle mania", o músico fora totalmente ausente – nem estava presente no dia do nascimento.
Mas com Sean seria diferente: Lennon anunciou que só voltaria a gravar quando a criança tivesse 5 anos. E assim foi. O período posterior ao nascimento de Sean é tido como o mais feliz da vida de Lennon – longe dos estúdios, o ex-beatle dedicou seu tempo a tarefas domésticas.
Lennon retornou às paradas de sucesso em 17 de novembro de 1980, com o álbum Double Fantasy. Ele escolheu (Just Like) Starting Over “(Justamente Como) Começar de Novo” como first single. E a volta foi para valer: antes do fim do ano, o roqueiro já estava de novo trabalhando em estúdio.
Não cansava de dizer que se sentia seguro em Nova York, cidade que o ajudou a esquecer a paranoia de lugares abertos que adquirira durante os Beatles. Foi esse o homem que Mark Chapman matou. Um homem comum, que certa vez buscou a paz no mundo – mas a encontrou dentro do próprio lar.