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domingo, 12 de abril de 2020

Os 10 fatos sobre Átila, o huno.

10 FATOS SOBRE ÁTILA, O HUNO

O Flagelo de Deus comandou um vasto império, que chegou a guerrear com os romanos
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 12/04/2020
Átila, o huno devastando a cidade de Aquileia, Itália, 452 dC - Ilustração de Tancredi Scarpelli (1866-1937) em "Storia d'Italia"
Átila, o huno devastando a cidade de Aquileia, Itália, 452 dC - Ilustração de Tancredi Scarpelli (1866-1937) em "Storia d'Italia" - Getty Images
Átila, o Huno, foi um dos maiores conquistadores do mundo antigo, responsável por um Império que, saindo do Leste Europeu, acabou se espalhando por todos os lados do continente asiático.
Contemporâneo aos romanos, foi uma pedra no sapato dos césares e modificou toda a geopolítica do Oriente Próximo. Acabou sendo retratado como um brutal assassino inescrupuloso.
1 Educação privilegiada.
Átila não era um bárbaro irracional. Nascido numa família poderosa do norte de Danúbio, ele era sobrinho de Octar e Rugila, que foram responsáveis pela construção do Império Huno. Assim, Átila recebeu instruções desde cedo, aprendendo arco, espada, hipismo, estratégia, diplomacia e, provavelmente, falava e lia os textos góticos e latinos.
2. Paz com Roma.
Quando os tios deixaram o poder, Átila e o irmão Blenda assumiram o controle do Império e, como primeira ação, eles fizeram um esforço no sentido de negociar a paz com o Império Romano do Oriente. O então Imperador Teodósio II garantiu um acordo onde pagaria 700 libras de ouro por ano em nome de uma paz entre hunos e latinos.
Representação do século XVII de Átila, o Huno, no Ungarische Chronica de Wilhelm Dilich / Crédito: Wikimedia Commons

Porém, em 441, Átila concluiu que os romanos não estavam fazendo a parte deles, liderando uma série de ataques contra cidades romanas. Com a pressão feita pelos exércitos hunos, Teodósio reiterou o tratado de az, aceitando que a promessa de pagar 2.100 libras de ouro a partir de então.
3. Morte do irmão.
Após o fim das negociações com os romanos, os hunos retornaram à Planície Húngara e Átila desafiou o irmão, com quem governava em nome do poder absoluto sobre o Império. De acordo com o antigo historiador Prisco de Pânio, que fez o mais conhecido relato dos hunos, “Bleda, rei dos hunos, foi assassinado como resultado das tramas de seu irmão Átila”. Pouco tempo depois, houve uma nova guerra entre hunos e romanos, dessa vez com vitória latina devido estratégias na região grega de Termópilas.
4. A  proposta.
Em 450, a irmã do imperador romano, Honoria, enviou um anel para Átila, pedindo ajuda para acabar com um casamento infeliz com um nobre patrício. Átila, já com suas diversas esposas, aceitou o pedido como uma proposta de relacionamento.
Então, ele declarou Honoria sua mais nova esposa e metade do território do Império Ocidental como dote. Furioso, Valentian III queria mandar a irmã para Átila, como forma de punição, mas cedeu e permitiu que ela ficasse na Gália com o marido. Átila não desistiu; simplesmente e empreendeu algumas campanhas contra a Gália romana em nome da moça.
5. Derrota.
A única campanha de Átila terminada em derrota ocorreu em 451, quando 200 mil hunos invadiram a Gália, comandada pelo general Flavius Aetius, enquanto ocupadores latinos formaram uma aliança com o rei Teodorico I dos visigodos.
A aliança romano-gótica possibilitou que a Batalha das Planícies Catalaunianas acabasse num dos mais sangrentos conflitos da antiguidade, mas com a retirada das tropas de Átila. Teodorico foi morto nessa guerra e, no ano seguinte, Átila invadiu a Itália.
lustração de Santa Genevieve confrontando Átila em ilustração de Camille Gilbert (1890) / Crédito Getty Images

6. Vida humilde?
Segundo Prisco de Pânio, Átila fez um luxuoso banquete na sede de seu governo. Enquanto todos comiam em pratos de prata, ele "comeu nada além de carne em uma vala de madeira... Sua xícara era de madeira”. Para a surpresa de muitos, Átila preferia um estilo de vida pouco custoso.
Na guerra, isso também pode ter ganhado destaque: por mais que seu império cobiçasse ouro pelo mundo e seus generais e subordinados exigissem ornamentos caros nas roupas e armaduras, Átila optava pela simplicidade.
7. Morte insólita.
A morte de Átila em nada faz pensar que se trata da última ação de um homem de tal estatura. Na época em que ainda tentava conquistar a mão de Honoria, ele conheceu outra mulher que se tornaria sua esposa: Ildico. Casaram-se em 453, numa cerimônia que acabou numa festança em que o noivo bebeu um monte.
Na manhã seguinte, Átila não levantou e seus guardas foram atrás de explicações, abriram a porta de seu quarto e encontrou o grande chefe morto, sem fermentos, mas com o rosto ensanguentado, com Ildico ao lado, chorando e tentando fazer algo.
Alguns acharam que foram conspiradores pró-Roma ou mesmo a esposa, no entanto, o mais provável foi: devido o abuso do álcool, ele teve um sangramento nasal enquanto dormia deitado, e morreu afogado no próprio sangue.
8. Onde está seu túmulo?
A morte do líder representou um baque na vida dos seus soldados, que realizaram várias cerimônias segurando o corpo dele em volta das tendas. Em seguida, colocaram o líder num caixão de ferro e enterraram Átila numa tumba repleta de armas de inimigos derrotados.
Lendas também especulam que um rio foi desviado para que Átila fosse enterrado em seu leito. Os servos que teriam feito isso foram mortos, para não revelarem a estadia do morto e, até hoje, não sabe onde isso aconteceu.
9. Verdadeiro rosto.
Pouco se sabe sobre a verdadeira face de Átila, o Huno, e não existem retratos originais de como ele era, sendo Priscus o principal relato que temos de sua cara e sua personalidade. Segundo escritos desse romano, ele tinha nariz achatado e baixa estatura, além de uma barba tingida de cinza. Seu olhar tinha uma ferocidade famosa, que gelava os desavisados: “onde eu passei, a grama nunca mais crescerá novamente”, dizem ter falado o huno.
10. O apelido.
Para os romanos, hunos eram bárbaros destrutivos liderados por um assassino que espalhava o caos. Por isso, Átila ficou conhecido em Roma como "O Flagelo de Deus". Segundo o escritor Jordanes, "Ele era um homem nascido no mundo para abalar as nações, o flagelo de todas as terras, o que de certa forma aterrorizou toda a humanidade pelos terríveis rumores que foram divulgados no exterior a respeito dele.”

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Guerreiros a cavalo: os nômades das Grandes Estepes.

GUERREIROS A CAVALO: OS NÔMADES DAS GRANDES ESTEPES

Por mais de 3 mil anos, esses guerreiros atormentaram as maiores civilizações, das gregas às chinesas
TIAGO CORDEIRO PUBLICADO EM 18/10/2019
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- Divulgação
Existe um imenso corredor ligando a Europa ao Extremo Oriente. É uma linha reta com cerca de 8 mil quilômetros de extensão, que vai da Hungria à Manchúria. Seus moradores fundaram a Rota da Seda, forçaram os chineses a construir sua grande muralha e ameaçaram, ao longo de três milênios, as maiores civilizações da Europa, da Ásia e do Oriente Médio.
O longo caminho é formado pelas chamadas Grandes Estepes, um território inóspito para a agricultura e inadequado para o desenvolvimento de grandes centros urbanos,
mas perfeito para a formação de vastas redes de rotas comerciais e militares.
E foi nestas terras que se desenvolveu a maior máquina militar conhecida pela humanidade dos séculos 16 a.C. até 16 d.C.: a carruagem transportada por cavalos e habitada por arqueiros, que não só permitiu destruir civilizações inteiras como também ajudou a transportar bens, invenções e idiomas entre elas. Foi lá também que surgiram alguns dos maiores conquistadores da história, de Átila, o Huno, a Gengis Khan.
De acordo com o arqueólogo britânico Barry Cunliffe, autor do livro By Steppe, Desert, and Ocean: The Birth of Eurasia, as estepes formaram a avenida que possibilitou o desenvolvimento da Eurásia. “E também a ascensão e a queda de dezenas de civilizações”, resume.
Grama e espaço 
Uma característica forte das estepes definiu o tipo de ocupação humana que ali habita até hoje. O fato de serem terras planas, cobertas por grama, mas sem capacidade de suportar florestas ou plantações vastas, favoreceu o estabelecimento de tribos nômades. E vivendo em acampamentos, sempre em locomoção, mantendo pequenas cidades apenas como entrepostos comerciais, os habitantes viram no cavalo um parceiro fundamental.
Não se sabe ao certo quem domesticou o animal primeiro. Mas é fato que foi nas estepes que os cavalos se desenvolveram – há 4 mil anos, eles tinham o tamanho de pôneis e eram utilizados para transportar cargas pequenas. No entanto, a seleção humana favoreceu a disseminação de animais muito maiores e mais robustos. Na Índia de 1.500 a.C., por exemplo, já havia invasão de tropas sobre carroças e, no século seguinte, os chineses, inspirados pelos povos que os atacavam pelo norte, já investiam em carruagens leves.
Por volta do século 2 a.C., os povos das estepes já suportavam correr usando armaduras e carruagens com dois ou três homens – protegidos com peças metálicas. Os cavalos também eram utilizados como montaria para um único guerreiro. Neste caso, a sinergia entre homem e animal impressionava suas vítimas.
Os hunos, por exemplo, costumavam até mesmo dormir sobre os lombos de suas montarias. Civilizações urbanizadas, principalmente no norte da África e no Oriente Médio, também utilizavam cavalos. Mas criá-los era muito mais difícil: na falta de pasto, era preciso plantar para alimentá-los e, em épocas de crises de abastecimento, tinham de escolher entre dar comida aos animais ou às pessoas.
Muros de proteção 
Nas grandes estepes não surgiram grandes metrópoles nem centros de difusão artística ou de produção arquitetônica. Com raras exceções, não era um espaço de inovação nem de desenvolvimento industrial. Organizadas em tribos, as comunidades se aproximavam e se afastavam entre si, na medida em que surgiam líderes capazes de agregar diferentes grupos. Porém, embora não tenham produzido grandes invenções (a não ser as carruagens armadas movidas por cavalos bem adaptados), os moradores dessa região foram respeitados – e temidos.
Os gregos antigos conheciam os citas, que, segundo a descrição do historiador Heródoto, eram os povos bárbaros (ou seja, os não gregos) que, derrotados ao norte da China, migraram na direção da Europa e dominavam a estepe pôntico-cáspia, cuja região corresponde à faixa de terra que vai do Mar Negro até a Ucrânia e o Cazaquistão.
Aliás, há dois anos, uma pesquisa americana, conduzida pela Escola Médica da Universidade Harvard, tendo como base o DNA de ossadas encontradas na Grécia continental, em Creta e na atual Turquia, sugeriu que os gregos compartilham código genético com os povos das estepes. Sinal de que os chamados bárbaros invadiram as ilhas gregas e influenciaram a formação do povo.
Também vale ressaltar que os citas foram um dos primeiros agrupamentos humanos a lutar sobre os lombos dos cavalos com maestria, no século 9 a.C. E, assim, dispensavam a necessidade das carruagens, que podiam ser menos úteis em trechos muito úmidos ou irregulares.
Até serem derrotados e substituídos pelos sármatas, no século 3, os citas ficaram conhecidos por suas incursões rápidas e destruidoras ao Oriente Médio e às atuais Índia e China. Seus hábitos eram tão ligados à montaria que a pecuária na região se aproveitava de poucas vacas e porcos – era principalmente dos cavalos que vinha, além do transporte, o leite e a carne que compunham a base da alimentação.
No extremo leste das estepes, na mesma época, o grupo nômade mais conhecido pela eficácia dos ataques ficou conhecido como xiongnu. Trata-se de um agrupamento de tribos, que ocupou toda a atual Mongólia e parte dos territórios vizinhos. Os mais incomodados eram os chineses, ao sul, que, depois de quatro séculos de conflitos, encontraram uma forma de barrar o avanço dos cavalos e das carruagens: construir muros de terra, que dariam origem, posteriormente, à Grande Muralha da China.
Estratégias de ocupação
Se as condições de vida das estepes favoreciam o estilo nômade e os saques rápidos, por outro lado, os povos nativos dessas regiões encontravam dificuldades em se fixar nos locais que atacavam, onde seria necessário adaptar o modo de vida para uma rotina sedentária, com maior estratificação social e maneiras de plantar e fabricar totalmente diferentes do que já estavam acostumados.
Esse ajuste se mostrou impossível. Alguns povos se tornaram sedentários e abandonaram as características originais. Outros simplesmente tratavam de saquear e destruir tudo o que podiam para, depois, voltar para casa – foi assim no ano 612 a.C., quando Nínive (até então, a poderosa capital da civilização assíria) foi devastada por um agrupamento de guerreiros citas, que depois foram embora e deixaram egípcios, medos e babilônios disputando o espólio.
Os persas também sofreram nas mãos dos guerreiros nômades: Ciro, o Grande, o fundador do império, morreu em 530 a.C. durante uma expedição que tinha por objetivo punir os masságetas, habitantes da região do Mar Cáspio que, com frequência, atacavam a Pérsia. Havia ainda alguns poucos grupos que encontraram uma terceira alternativa: manter as terras derrotadas como Estados vassalos, pagando impostos e devendo obediência. Foi essa a estratégia adotada pelos hunos do século 5 e dos mongóis do século 13.
Em geral, as cidades que se comprometiam a pagar tributos e descumpriam a promessa ou se rebelavam quando as forças de ocupação eram reduzidas ou acabavam sendo massacradas. Que o digam, por exemplo, as vítimas de Tamerlão (ou Timur), o imperador mongol que fundou o último grande território das Grandes Estepes.
Nascido no século 14, ele ficou conhecido como “o manco” ou “o coxo” porque, na juventude, enquanto roubava ovelhas, foi atingido por duas flechas, perdendo os movimentos do braço e da perna direitos. Seu império começou depois que ele matou o cunhado e antigo aliado, Amir Husayn – com quem havia derrotado o governador de uma região da Ásia Central conhecida como Transoxiana.
Tamerlão ocupou a Pérsia, o atual Iraque, e a velha cidade de Déli, na Índia, onde roubou para si dezenas de elefantes. Para os povos que não se rendiam, o líder mongol dedicava castigos cruéis, desde a crucificação até a prática de cimentar os derrotados em paredes, pela cintura, ainda vivos. Quem não morria virava escravo.
Átila e Gengis
Tamerlão é um dos mais importantes conquistadores vindo das Grandes Estepes, assim como Bumin Qaghan, 800 anos antes dele. Mas a região ficou mesmo conhecida é por ter sido o berço de Átila, o Huno, e Gengis Khan. E a fama dos dois é fácil justificar. Como acontece com muita frequência entre os povos das grandes estepes, é difícil diferenciar os hunos de outras etnias que habitavam a região na mesma época. Os nomes dados para as tribos faziam mais referência ao agrupamento político do que ao pertencimento a um grupo original comum.
Os hunos surgiram na Ásia Central e tinham feições orientais e baixa estatura, o que facilitava a relação com os cavalos. Como outros grupos, os hunos migraram para a Europa no século 5. Mas poucos chegaram ao lugar onde Átila os levou: para a Gália (atual região francesa). No caminho, derrotaram diferentes povos bárbaros, como os góticos e sármatas, cujas etnias foram incorporadas às forças militares, em condições de igualdade.
Os arqueiros montados sobre cavalos promoviam massacres tão assustadores que Átila ficou conhecido, entre os romanos cristianizados, como o “flagelo de Deus”. Na verdade, o líder assumiu o poder já durante o esforço de ocupação da Europa, mas foi sob seu comando que os hunos realizaram suas ações mais ousadas. “Átila era arrogante, destemido e brilhante. Um chefe tribal analfabeto e predatório que não tinha interesse em administração, mas era um político hábil que, a partir de sua base na Hungria, usou secretários e embaixadores para trazer informações sobre seus inimigos”, conta o historiador britânico John Man, no livro Átila, o Huno, o Rei Bárbaro Que Desafiou Roma.
Depois que os romanos deixaram de pagar os impostos anuais combinados para evitar invasões, Átila tentou atacar Constantinopla e tomou territórios na França, até ser derrotado pelo general romano Flávio Aécio. Em retirada, seus homens avançaram sobre o norte da Itália, mas precisavam recuar mais uma vez. Átila morreu em 453, talvez por hemorragia interna, talvez vítima de assassinato por sua esposa, Íldico.
Após sua morte, os germânicos tomaram o espaço dos hunos e acabaram se diluindo entre os povos da região central da Europa. Já o grande Gengis Khan nasceu muito depois, em 1162, dentro de uma tribo mongol de pouca expressão. Para chegar ao poder, precisou encarar dez anos de exílio na China, antes de retornar e atacar o chefe do conglomerado de tribos, Jamuka. Alguns anos depois, os mongóis controlavam um território que partia da Ucrânia e seguia até a Manchúria, passando por parte expressiva do atual território da Rússia, além de receber impostos de países vizinhos que não queriam ser incomodados.
Assim como Átila, o grande mérito de Gengis Khan foi unificar tribos e estabelecer uma hierarquia baseada no desempenho militar, sem fazer questão nem mesmo de que os novos aliados mudassem de religião – entre os generais de Khan havia budistas, muçulmanos e cristãos, sem discriminação. Já para os inimigos, o massacre era impiedoso.
A cidade chinesa de Zhongdu, por exemplo, que tinha 1 milhão de habitantes e que posteriormente ficaria conhecida como Pequim, era fortemente murada, mas foi derrubada até o chão em 1215. Tudo porque seus moradores, que no ano anterior haviam sido cercados e concordado a pagar tributos em troca de paz, decidiram reagir.
Os muros não foram suficientes para resistir aos homens extremamente disciplinados, organizados em grupos de cem, que formavam unidades de mil e que, por sua vez, compunham massas compactas de dez unidades. Usando armaduras feitas de couro de cavalo curtido, os mongóis pareciam ter uma energia inesgotável – e muito maior que a de outros guerreiros, como compara o antropólogo americano Jack Weatherford, autor do livro Gengis Khan e a Formação do Mundo Moderno. "O império mongol subjugou mais terras e povos em 25 anos do que os romanos em 400”, diz.
Decadência militar 
Khan morreu em 1227. E seus filhos deram continuidade ao império mongol por mais algumas décadas, chegando a tomar partes do Japão, da Coreia e da Ilha de Java. Os desentendimentos entre os descendentes posteriores, porém, provocaram o colapso do grande império.
E depois de um último esforço de retomada, lançado por Tamerlão, os mongóis nunca mais recuperariam o antigo poder. No século 16, enquanto a Europa descobria as Américas e novas técnicas militares, em especial a pólvora, reduziam a importância estratégica dos cavalos – maiores do que homens, eles eram alvos fáceis para os tiros. E após 3.200 anos aterrorizando as maiores civilizações construídas nas bordas das estepes, os povos da Europa e da Ásia Central perderam fôlego militar.
Enfraquecidos, assistiram ao desenvolvimento de nações fortes e extensas, como a Rússia e a China. A Mongólia atual, por exemplo, tem apenas 3 milhões de habitantes, o equivalente à população de Brasília, para uma área 1,5 milhão de quilômetros quadrados, semelhante ao estado do Amazonas.
Contudo, as Grandes Estepes ainda são estratégicas. Em seu esforço de reconstruir a Rota da Seda, a China vem investindo em ferrovias, rodovias e estações de transmissão de gás e energia elétrica que, para chegar à Europa, passam pela região. As novas conexões de infraestrutura entre os chineses e os russos também dependem de acordos com os proprietários das terras planas, cobertas por gramas e conhecidas pelo tempo seco e temperaturas agressivas.
Em outras palavras, para dialogar, a Europa e a Ásia ainda dependem das Grandes Estepes. A pouca influência política e militar dessa região, no entanto, persiste. Restando apenas as lendas sobre os grandes e cruéis conquistadores, montados nos lombos de cavalos bem adestrados e numa época em que não havia sequer um rival à altura.

Saiba mais sobre os notórios nomes que fizeram parte dessas civilizações através dos livros abaixo.
Átila: O fim do mundo virá do leste, William Nappier, 2009.
Os inimigos de Roma: De Aníbal a Átila, o Huno, Philip Matyszak, 2013.
Gêngis Khan, Eduardo Almeida de Araujo, 2018.
Breve História de Gengis Khan, Borja Pelegero Alcaide, 2012. 

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Átila, o huno: flagelo de Deus.

ÁTILA, O HUNO: FLAGELO DE DEUS

A história do grande conquistador que, por pouco, não eliminou Roma um século antes — e o império inteiro, não só a parte ocidental
ISABELLE SOMMA PUBLICADO EM 03/09/2019.


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Reprodução

O destino do maior e mais poderoso império sobre a Terra estava em jogo naquele dia 20 de junho de 451, em Châlons, ao norte do que hoje é a França. Aecius, um respeitado general romano, aguardava a chegada de seu inimigo.
O poderoso exército romano já havia conhecido dias melhores, mas mesmo assim Aecius tinha sob seu comando 160 mil homens, entre legionários de Roma e aliados bárbaros — que era como os romanos chamavam todos os povos europeus que não viviam dentro de seu império.
A formação do exército era pouco confiável, a tropa estava decadente e os salários eram pagos com atraso. Mas nada disso preocupava Aecius. O problema era seu oponente. Um homem cujo nome, em menos de 20 anos, tinha virado sinônimo de destruição e horror. O sujeito mais odiado de seu tempo já havia devastado boa parte da Europa e estava a caminho de seu coração: Roma. Era Átila, o rei dos hunos.


Os hunos, primeiro, empurraram outros povos bárbaros para dentro do Império Romano, depois eles mesmos partiram em direção a Roma / Crédito: Héctor Goméz

O comandante tinha razão em estar preocupado. Os hunos eram realmente terríveis. Em oposição às tribos germânicas, que cultivavam a terra e já conviviam numa boa com os romanos, eles permaneciam nômades, viviam de saques, dos resgates que exigiam daqueles que aprisionavam e da cobrança de proteção de quem não queria ser atacado.
Enfim, eles eram os bárbaros que botavam os bárbaros para correr. Segundo o historiador romano Marcelinus, eles lutavam como doidos e executavam qualquer um que não se rendesse. Eram grandes cavaleiros e, no início, utilizavam lanças e arco e flecha. Depois do contato com os romanos, adotaram catapultas, escudos e capacetes.
Novo líder.
Entre os chefes dessa turma estavam os irmãos Octar e Rua Mundzuc, e foi no meio dessa família que surgiu um novo rei. Átila provavelmente nasceu no atual território da Hungria, às margens do rio Danúbio.
Filho de Mundzuc, entre os anos de 435 e 440 ele herdou as terras de seu pai e de seus tios e ainda abocanhou o pedaço de seu irmão Bleda, depois de matá-lo. Ele virou líder dos hunos num momento em que a principal potência do mundo antigo estava prestes a ruir. “Na primeira metade do século 5, a parte ocidental do império quase foi substituída por reinos bárbaros”, diz Kenneth Dark, historiador da Universidade de Bristol, na Inglaterra.
A coisa andava tão feia que, no ano 410, Roma foi saqueada pelos visigodos. Foi a primeira vez em 800 anos que a cidade foi atacada por bárbaros.
Quase todos os relatos sobre Átila o descrevem como um monstro. A exceção é o historiador romano Prisco, que conheceu pessoalmente o general huno e descreve sua corte, às margens do rio Danúbio, como um lugar simples e organizado. Mas, no campo de batalha, o cara tinha fama de mau.
“Átila contava com um forte aliado: o medo que seus homens provocavam no inimigo. Com isso, ele conseguia altas somas em ouro simplesmente blefando”, diz Charles William King, da Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos.
Em 447, Átila devastou a Trácia, pilhou monastérios e vilarejos e destruiu plantações. O imperador do lado oriental, Teodósio II, aceitou pagar um tributo anual em ouro e terras para evitar o avanço dos hunos. Com o acordo garantido do lado oriental, Átila resolveu atacar o ocidente. Ele só precisava de um pretexto. Logo surgiu um. 


A linha de frente dos hunos usava cordas e redes para confundir os inimigos / Crédito: Héctor Goméz

 A irmã do imperador romano Valentiniano, Justa Grata Honoria, foi presa depois de engravidar de um funcionário da corte. Pensando em quem seria um rival à altura de seu irmão para salvá-la, Justa resolveu recorrer ao homem mais poderoso de que ouvira falar: ele mesmo, o rei dos hunos.
E enviou a Átila uma carta pedindo ajuda. Em troca, lhe cederia uma fatia generosa do Império. “Átila teria interpretado o pedido como uma proposta de casamento e, segundo autores medievais, exigiu metade do Império Ocidental”, diz King.
Será que isso é verdade? Não parece uma daquelas lendas medievais, com uma princesa raptada e um guerreiro partindo em sua salvação? Pode ser, mas o fato é que, por volta de 450, Átila começou a marchar em busca do que achava que era seu — fosse Justa Honória, fosse uma fatia do decadente Império Romano.
Com ele, seguiram mais de 300 mil homens, entre eles os agora aliados ostrogodos, burgúndios e alanos, além de alguns francos. O enorme exército invadiu a região do vale do rio Reno e não poupou ninguém. A aproximação dos hunos fez com que os romanos finalmente começassem a se organizar. E aí chegamos de volta a Châlon.
Na porta de Roma.
De repente, todo o destino da Europa estava em jogo. Se ganhasse, Átila teria caminho livre até Roma. Mas a superioridade numérica e a disciplina dos soldados romanos foram decisivas. Os hunos foram derrotados. Átila, segundo a tradição, estava se preparando para cometer suicídio caso seu acampamento fosse invadido quando recebeu a mensagem de Aecius, permitindo que ele e parte de seus homens se retirassem. Átila, humildemente, aceitou.
A vitória deu a Aecius o título de “o último dos romanos”, ou seja, o último general que honrou em campo a armadura que vestia. Mas sua tática de deixar o inimigo se recompor não foi nada inteligente. Átila invadiu a Itália em 452 e destruiu várias cidades, entre elas Milão. Aí ocorreu algo surpreendente. Ele estava a cerca de 200 quilômetros de Roma.
Um pulinho, para quem estava a mais de 3 mil quilômetros de casa. E, no entanto, após 13 dias acampado, deu meia-volta e se foi. Não se sabe por que Átila não seguiu em frente até Roma. Pode ser que ele estivesse doente demais para isso. Antes que pudesse partir, e tendo tomado para si uma nova esposa, Idilico, provavelmente uma princesa visigoda, Átila teve uma hemorragia estomacal. No dia seguinte ao casamento, o homem mais temido do mundo morreu.
“O reino de Átila desmoronou imediatamente. Em uma série de batalhas, os filhos de Átila foram vencidos por outros povos bárbaros”, diz Kulinowski. O império Romano não teve um destino muito melhor: também acabou, apenas 23 anos depois da morte de Átila.
Intriga da oposição. 


Os guerreiros / Crédito: Wikimedia Commons

Em todo o Império Romano do século 5, e também nos territórios bárbaros, o povo tinha mais medo de Átila do que do capeta. Um dos boatos mais conhecidos era o de que ele e sua turma comiam carne crua. Até aí tudo bem, afinal até hoje comemos sashimi, quibe cru e carpaccio.
O problema é que eles usariam a carne crua como sela. Ou seja, sentavam-se nela enquanto cavalgavam. Quando tinham fome, era só tirar uma lasquinha. Prisco, o único que conheceu Átila, afirmou que ele vivia numa espécie de reino na região da atual Hungria.
Ali havia um local para banhos, e comia-se muita carne, mas ela não era curtida em cima dos cavalos. E a história de que os hunos dormiam, comiam e faziam suas necessidades em cima do animal também é pura intriga dos romanos.
Outro relato, que chegou a ser reproduzido em pinturas por mestres como Rafael, foi o do encontro entre o papa Leão I e Átila. Segundo a lenda, ambos teriam batido um longo papo, em que Leão I teria convencido o “flagelo de Deus” a não destruir Roma.
Átila realmente recebeu o papa em seu acampamento. Mas ele não invadiu Roma por outro motivo. “Alguns de seus comandantes, incluindo ele próprio, caíram doentes, o que forçou a retirada”, afirma o professor Michael Kulikowski, da Universidade do Tennessee. Outro mito que chegou aos dias de hoje é o de que por onde Átila passava, não nascia grama. Segundo Ferrill, isso se deve ao estrago feio que ele causou na Gália.

quinta-feira, 27 de dezembro de 1990