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BIBLIOGRAFIA: GUIMARÃES, Bernardo. A Escrava Isaura. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.
Muito obrigada e boas artes. Thank you, Gracias, 좋은 작품 감사합니다.
RASTROS DA ESCRAVIDÃO: ESQUELETOS AFRICANOS DE 500 ANOS SÃO IDENTIFICADOS POR ARQUEÓLOGOS
Para os pesquisadores, três dos restos analisados podem pertencer aos primeiros grupos de escravos, que vieram para a América
PENÉLOPE COELHO PUBLICADO EM 01/05/2020
Imagem dos crânios encontrados na Cidade do México - Divulgação
No final da década de 1980, trabalhadores que escavavam uma nova linha de metrô na Cidade do México, se depararam com uma impressionante vala comum, que estava escondida há anos.
Documentos históricos comprovam que esse local já havia sido uma espécie de hospital colonial construído entre os anos 1529 e 1531. Dos diversos esqueletos encontrados ali, três chamaram a atenção dos pesquisadores.
De acordo com uma pesquisa divulgada pela revista científica, ScienceMag, após várias análises nesses fósseis, estudiosos descobriram que os DNA’s correspondiam à escravos africanos, possivelmente o primeiro grupo que veio para a América.
Análises feitas a partir da extração de amostras de código genético e exames realizados em isótopos químicos contidos nos dentes das caveiras, revelaram que três restos estudados correspondiam à pessoas advindas da África Ocidental.
Essa conclusão se deu por diversos motivos, como informações sobre os alimentos consumidos pelos homens, que apontaram para ecossistemas típicos da África. Além dos traumas físicos que os três esqueletos apresentaram.
Aparentemente, eles tinham menos de 30 anos quando faleceram. Uma das caveiras apresentou até sinais de tiros, enquanto outra indicava marcas de trabalho físico exaustivo e uma fratura em sua perna, que não teria sido cicatrizada da forma correta.
Um dos homens analisados continha sinais do vírus da hepatite B e sífilis em seu organismo, doenças provavelmente contraídas durante a viagem no navio negreiro. Contudo, todos os homens tinham algo em comum: aspectos fortes de desnutrição e anemia.
As causas da morte dos três possíveis escravos ainda são um mistério. Sabe-se que eles foram enterrados em um cemitério do hospital em uma vala comum, durante uma epidemia de varíola ou sarampo. Porém, os pesquisadores não encontraram vestígios dessas doenças nos DNA’s analisados.
O naufrágio do navio Negreiro Phoenix – Século XIX – Praia do Barco - Capão da Canoa – Rio Grande do Sul.
O litoral gaúcho tem o maior registro de navios afundados no país: são 242 acidentes marítimos entre os anos de 1775 e 2004. Um verdadeiro cemitério de navios. Fenômenos meteorológicos, o desenho da costa e a existência de bancos de areia explicam por que o Rio Grande do Sul é o estado que, de acordo com as pesquisas, registra o maior número de naufrágios no Brasil.
E foi assim que o navio negreiro Inglês, Phoenix por volta de 1840, encalhou na costa gaúcha, o navio inglês se dirigia para as Ilhas Malvinas, levando dezenas de escravos, juntamente com alimentos. Um banco de areia interrompeu o trajeto e o destino de toda a embarcação, que acabou encalhando, empurrado por forte ondas e ventos na deserta costa gaúcha, a 400 metros da Praia do Barco em Capão da Canoa. Assim, os escravos que estavam a bordo da embarcação aproveitaram para fugir, e formaram quilombos para se abrigar e se esconder. Atualmente, a região se chama Praia do Barco, em homenagem ao navio negreiro que encalhou ali. A história marítima da Costa Gaúcha está enterrada e sendo comida pelas cracas (animais que se incrustam nos cascos das embarcações). De fascinantes contos de exploradores, aventureiros, piratas em busca de tesouros perdidos, de tráfico de escravos de sucessos e fracassos na era do descobrimento. Podíamos ter um museu marítimo e resgatar o que sobrou desses naufrágios e contar a história de cada um, como os que existem em países como Holanda, Inglaterra e Espanha. Do farol da Solidão, em Mostardas até o Albardão são dezenas. Mas como não temos uma tradição turística, não respiramos cultura, a tradição que a cultura local vem acumulando ao longo do tempo é exatamente a de não ter tradição. fonte: https://www.facebook.com/425797660861640/posts/1626291304145597/
A INFERNAL VIDA DOS ESCRAVOS TIGRE, OBRIGADOS A CARREGAR FEZES DOS SENHORES
Carregando tonéis repletos de excrementos, que marcavam a pele, esses escravizados eram humilhados diariamente
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 25/04/2020
Escravo tigre em pintura de Debret - Domínio Público
Antes do saneamento básico e dos programas de higiene do governo, os grandes centros do Brasil ainda a latrina tinham como base do despejo de dejetos sanitários. Sem privadas, até os mais ricos defecavam e urinavam numa insólita casinha ou em penicos, que eram esvaziados diariamente e preenchiam nojentos tonéis ou valas presentes no lado de fora da casa.
Todavia, por trás desse sistema pouco higiênico, uma figura intimamente associada ao escravismo urbano era obrigada a desempenhar o papel: era o escravo responsável pela recolha dos dejetos, apelidado de “tigre”. Por mais de trezentos anos, eles recolheram as fezes dos senhores e despejavam no mar ou num rio próximo.
Os escravizados tinham que carregar nas costas grandes tonéis repletos de cocô, sendo que muitos deles, geralmente, eram sujos ou não suportavam a quantidade depositada, fazendo com que o explorado fosse atingido pelo excremento. Como consequência, muitos deles eram marcados por gotas ou lastros de fezes na pele, resultando em listras (que podiam até marcar por conta da acidez). Assim nasceu o apelido "tigre".
Ou seja, muitos dos escravos, agredidos com a sujeira e a amônia dos dejetos, ficavam com marcas brancas permanentes na pele. Os “tigrados” receberam o nome de maneira pejorativa. Para se ter ideia, as pessoas se afastavam desses prisioneiros nas ruas, por conta do mau cheiro e da reputação, causando forte impotência e isolamento, e prováveis abalos psicológicos.
Reprodução do despejo por Henrique Fleiuss / Crédito: Domínio Público
Ao mesmo tempo, existem teorias onde é afirmado que, apesar da indigna função, os escravos tigre ainda não estavam no final das hierarquias mentais criadas entre os negros em cativeiro. Na situação de refém, os explorados muitas vezes buscavam refúgios em superioridades, mesmo que quase nulas, em relação a outros. Os tigres estavam mal, mas para muitos deles, estavam melhor que os escravizados que catavam o cocô e os colocavam nos tonéis.
Isso dava uma ideia de "maior dignidade". Era melhor carregar do que lidar com o bruto e, pelo menos, junto às fezes dos senhores, estavam seus próprios excrementos. Ele carregava o próprio dejeto, também, argumento que era usado para manter o mínimo de sanidade. Porém, essa teoria está ligada a um circuito informal de hipóteses romantizadas sobre o período, sendo difícil atestar em uma pesquisa documental.
Segundo o historiador Luiz Felipe de Alencastro, em fala à BBC, esse “eram escravos ou escravos de aluguel que, geralmente, eram destacados para esse tipo de trabalho”. Como eram proibidas as fossas no Rio de Janeiro, capital imperial, muitas famílias endinheiradas tinham ao menos um desses trabalhadores, que eram usados nesse oficio unicamente até a década de 1860. Para o historiador, por mais que seja a impressão, dada a pobreza desses trabalhadores, o escravo “não era uma mão de obra barata”.
Inclusive, já nos estudos de Gilberto Freyre, revelados em Casa Grande & Senzala, se entendia que o trabalho dos escravos tigre era usado de forma extensiva numa rede de dominação que pleiteava todas as esferas da vida na sociedade senhorial, até a vida íntima sanitária. Segundo o sociólogo, a extensão do uso desse modo de trabalho retardou a criação de redes mais higiênicas de sanitarismo nas cidades.
Charge sobre o apelido "tigre", de Henrique Fleiuss / Crédito: Domínio Público
A presença desses escravizados começou a se diluir na capital a partir dos anos 1860: a cidade passou a receber grandes obras de saneamento por iniciativa de Dom Pedro II, que trazia novas tecnologias de fora. Muitas dessas práticas sanitaristas eram, inclusive, novas na Europa, pois cidades como Londres e Paris também eram bem pouco higiênicas até o fim do século 19.
Cidades, mesmo capitais, mais periféricas mantiveram esse ofício por um longo tempo. É o caso de São Paulo e Recife, que tiveram tigres até os anos 1880. A partir do início das campanhas pelo saneamento básico, começou-se a atrelar o emprego dos escravos ao atraso, como se fossem eles e não a escravidão (apesar de as políticas abolicionistas estarem em auge na época) um obstáculo ao interesse público.
A GRANDE AGONIA: A ESCRAVIDÃO TRANSFORMOU O ATLÂNTICO EM UM IMENSO CEMITÉRIO
O número de cadáveres atirados ao mar era tão alto que até fez com que peixes mudassem suas rotas migratórias, à espera dos corpos que serviam de comida
LAURENTINO GOMES PUBLICADO EM 09/04/2020
Pintura mostrando os horrores do navio negreiro - Divulgação/Robert Riggs
Por volta de 1750, o horror dominava as serras e os vales próximos à Feira de Cassanje, interior de Angola, assim descrito pelo historiador norte-americano Joseph Miller: Ali as pessoas matavam e eram mortas como se a vida nada valesse. Não usavam roupas e consumiam carne humana e insetos vivos. Os cadáveres eram jogados nas estradas e devorados pelos famintos que por elas trafegavam.
Quando estranhos se aproximavam, os fugitivos se escondiam na copa das árvores e atacavam todos os forasteiros que julgassem capazes de dominar. As guerras, agravadas por secas arrasadoras, produziram uma devastação tão absoluta que os mais jovens sobreviviam apenas da captura, do consumo e da venda de outros. Cerca de 90% da população envolvida nos conflitos acabou dizimada. O território ficou quase completamente desabitado.
A grande agonia.
Nos dois séculos anteriores, o perímetro da escravidão tinha avançado continente adentro por cerca de 800 quilômetros, como um tsunami colossal que, partindo do litoral atlântico, tivesse devastado o interior africano. As razias tinham começado nas zonas mais próximas do litoral entre 1520 e 1570 e progrediram rapidamente – cerca de 30 quilômetros cada década –, à medida que aumentava a demanda por cativos do outro lado do oceano.
Assim, a busca desenfreada por escravos chegou à região de Cassanje. E assim continuaria ainda por mais 100 anos. Na metade do século 19, às vésperas da abolição do tráfico negreiro no Brasil, já atingira o miolo do continente, a quase 2 mil quilômetros do litoral e a meio caminho entre Luanda, no Atlântico, e a Ilha de Moçambique, no Oceano Índico, de onde outra onda de devastação partira com igual força.
A fronteira de captura, sequestros, compra e venda de escravos tinha penetrado até o coração do continente, mas nem por isso haveria paz nas zonas pioneiras de fornecimento de mão de obra cativa. Ao contrário, por volta de 1830, cerca de 80% de todos os escravos que chegavam ao Brasil ainda tinham como origem regiões costeiras de Angola – prova de que a drenagem sistemática de moradores desses territórios se manteve inalterada ao longo de todo o período do tráfico negreiro. “A destruição constante de Angola se apresenta como a contrapartida da construção contínua do Brasil”, observou o historiador Luiz Felipe de Alencastro.
Crédito: Wikimedia Commons
Na esteira da grande onda escravagista ficava um cenário de morte e ruína. No século 18, uma vasta região, de aproximadamente 2,5 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente a quase um terço da área territorial brasileira, onde hoje se situam Angola e os dois Congos (a República do Congo e a República Democrática do Congo), estava dominada pela guerra e pelo medo.
Era um lugar altamente instável e perigoso devido ao regime de terror implantado pela ferocidade dos guerreiros e dos captores de escravos. Milhares de habitantes procuravam abrigo nas densas florestas e nas montanhas, todos fugindo dos conflitos e sequestros que alimentavam o tráfico atlântico.
Jan Vansina, historiador e antropólogo belga, reproduziu uma interessante descrição da chegada dos portugueses a Angola, a guerra contra o angola de Quiluanje (título do rei ou soberano local) e o início do tráfico de escravos. A narrativa faz parte da tradição oral do povo pende, que, no século 16, vivia próximo do litoral e, pressionado pelo tráfico negreiro, se transferiu para o interior do continente. A história se refere a navios alados – aos olhos dos africanos, as velas das naus portuguesas lembravam asas: Um dia, os homens brancos chegaram em navios com asas que brilhavam como facas ao sol.
Travaram duras batalhas com o angola e cuspiram- lhe fogo. Conquistaram as suas salinas e o angola fugiu para o interior [...]. Alguns dos seus súditos mais corajosos ficaram junto ao mar e, quando os homens brancos vieram, trocaram ovos e galinhas por tecidos e contas. Os homens brancos voltaram outra vez ainda. Trouxeram-nos milho e mandioca, facas e enxadas, amendoim e tabaco. Desde então e até os nossos dias, os brancos nada nos trouxeram senão guerras e misérias.
Joseph Miller faz um cálculo assustador a respeito da mortalidade no tráfico de cativos no Atlântico. Ainda na África, entre 40% e 45% dos negros escravizados morriam no trajeto entre as zonas de captura e o litoral. Dos restantes, entre 10% e 15% pereciam durante o mês que, em média, ficavam à espera do embarque nos portos africanos. Em Benguela, um dos principais portos negreiros de Angola, até o final do século 18, os traficantes simplesmente se livravam dos cadáveres jogando-os nas praias e nos rios.
Muitos eram depositados nos esgotos a céu aberto da cidade. Dos sobreviventes que embarcavam nos navios negreiros, outros 10%, em média, morreriam na travessia do oceano. Na etapa seguinte, a do desembarque na América, mais 5% perdiam a vida durante o processo de venda e transporte para os locais de trabalho – muitas vezes situados em minas ou lavouras no interior distante, o que exigia longas caminhadas a pé por trilhas perigosas e traiçoeiras.
Crédito: Wikimedia Commons
Por fim, mais 15% faleceriam nos três primeiros anos de cativeiro em terras do Novo Mundo. As estimativas de Miller sugerem que, de cada grupo de 100 escravos capturados no interior da África, apenas 40 sobreviveriam ao final dessa extensa jornada entre os locais de captura e o destino final da viagem, do outro lado do Atlântico. Em torno de 60% do totalperderiam a vida pelo caminho.
Traduzindo em números absolutos, ao longo de mais 350 anos, entre 23 milhões e 24 milhões de seres humanos teriam sido arrancados de suas famílias e comunidades em todo o continente africano e lançados nas engrenagens do tráfico negreiro. Quase a metade, entre 11 milhões e 12 milhões de pessoas, teria morrido antes mesmo de sair da África. Hoje estima-se com relativa segurança que aproximadamente 12,5 milhões de cativos foram despachados nos porões dos navios, mas só 10,7 milhões chegaram aos portos do continente americano.
O total de mortos na travessia do oceano seria de 1,8 milhão de pessoas (portanto, superior aos 10% citados por Miller para o caso de Angola). Dado o alto índice de mortalidade após o desembarque, apenas 9 milhões de africanos teriam sobrevivido aos tormentos dos três primeiros anos de escravidão no novo ambiente de trabalho. A história da escravidão africana no Brasil é repleta de dor e sofrimento.
Centenas de livros já foram escritos sobre o tema, mas, provavelmente, nenhum deles conseguirá jamais expressar as aflições de um único cativo dos milhões capturados na África, embarcados à força em um navio, arrematados como mercadoria qualquer num leilão do outro lado do oceano, numa terra que lhes era completamente estranha e hostil, onde trabalhariam pelo resto de suas vidas sob o chicote e o tacão de seu senhor.
Um detalhe, porém, talvez ajude os leitores de hoje a ter uma ideia, ainda que remota, do tamanho dessa tragédia: diz respeito ao comportamento dos tubarões que seguiam as rotas dos navios negreiros. Durante mais de três séculos e meio, o Atlântico foi um grande cemitério de escravos. Era no mar, durante a travessia, que as cifras de mortalidade ficavam mais evidentes: como escravos representavam um “investimento”, uma mercadoria valiosa do ponto de vista dos traficantes, cada óbito tinha de ser registrado nos chamados Livros dos Mortos pelos capitães dos navios, ao lado de diversos outros itens que apareciam nas colunas de crédito e débito dos relatórios de contabilidade.
Por isso, os números de mortos durante esse tipo de viagem são mais precisos do que os das demais travessias náuticas da época, geralmente baseados em estimativas. Isso permite fazer hoje um cálculo assustador. Se, entre o início e o final do tráfico negreiro, pelo menos 1,8 milhão de cativos morreram durante a travessia, isso significa que, sistematicamente, ao longo de 350 anos, em média, 14 cadáveres foram atirados ao mar todos os dias. Por essa razão, os navios que faziam a rota África-Brasil eram chamados de “tumbeiros”, ou seja, tumbas flutuantes.
Alguns exemplos ajudam a dar uma noção mais precisa desses números. Em 1805, um brigue sob o comando do capitão Félix da Costa Ribeiro partiu da região de Biafra com 340 escravos, dos quais 230 morreram nos 40 dias de travessia até Salvador. Portanto, esse navio, sozinho, teria lançado ao mar entre cinco e seis cadáveres por dia, média semelhante à do Protector, que teve 151 mortos na viagem de 50 dias entre Luanda e o Rio de Janeiro. No caso do brigue Flor da Bahia, que perdeu 192 dos 557 cativos embarcados de Moçambique para Salvador, uma viagem de cerca de 70 dias, a média de corpos atirados da amurada do navio teria sido de quase três por dia.
Morria-se de doenças como disenteria, febre amarela, varíola e escorbuto. Morria-se de suicídio – escravos que, tomados pelo desespero, aproveitavam-se de um descuido dos tripulantes, subiam à amurada das embarcações e jogavam- se ao mar.
Crédito: Wikimedia Commons
Por essa razão, os navios negreiros geralmente eram equipados com redes estendidas ao redor do deque superior, para prevenir esses atos. Morria- se, ainda, de banzo, nome dado pelos africanos para o surto de depressão muito frequente entre os cativos. Alguém acometido por banzo parava de comer, perdia o brilho no olhar e assumia uma postura inerte enquanto suas forças vitais se esvaíam no prazo de poucos dias.
“O banzo é um ressentimento entranhado por qualquer princípio, como a saudade dos seus ou de sua pátria”, descreveu, no final do século 18, Luís Antônio de Oliveira Mendes, advogado português nascido na Bahia. “É uma paixão da alma a que se entregam que só é extinta com a morte.” Os cadáveres eram então atirados por sobre as ondas, sem qualquer cerimônia, às vezes sem ao menos a proteção de um pano ou lençol, para serem imediatamente devorados por tubarões e outros predadores marinhos.
Segundo inúmeras testemunhas da época, mortes tão frequentes e em cifras tão grandes fizeram com que esses grandes peixes mudassem suas rotas migratórias, passando a acompanhar os navios negreiros na travessia do oceano, à espera dos corpos que seriam lançados sobre as ondas e lhes serviriam de alimento. Esses rituais eram parte da rotina a bordo.
“Os tubarões começavam a seguir os navios negreiros assim que as embarcações alcançavam a costa da Guiné”, escreveu o historiador Marcus Rediker. “Eram observados pelos marinheiros da Senegâmbia ao Congo e Angola, passando pela Costa do Ouro e dos Escravos (atuais Gana, Togo, República do Benim e Nigéria), sempre que os navios estavam ancorados ou se moviam lentamente.” Um corpo ou um homem vivo que caísse nas águas por acidente seria imediatamente destroçado. Alexander Falconbridge, médico britânico que participou de quatro viagens negreiras entre 1780 e 1787, testemunhou diversas cenas como essa enquanto observava o embarque de cativos na costa de Bonny (atual Nigéria).
Segundo ele, os tubarões cercavam os navios “em número inacreditável, devorando rapidamente os negros que eram arremessados da amurada”. Relato semelhante é o de John Atkins, também médico da Marinha Britânica na primeira metade do século 18: “Diversas vezes eu vi os tubarões se apoderarem de um cadáver, assim que era jogado ao mar, despedaçando- o e devorando-o com tal voracidade que não dava tempo sequer para que começasse a afundar nas águas”.
Do embarque na costa da África, cardumes de tubarões seguiam as embarcações por milhares de quilômetros na travessia do oceano, segundo os registros no diário do capitão Hugh Crow, que fez dez viagens nesse percurso. “Eles estão sempre ao redor do navio, à espera de que algum corpo seja jogado nas águas”, descreveu Crow. Comprovando suas observações, em 1785 diversos jornais de Kingston, capital da Jamaica, noticiaram que a chegada de novas cargas de escravos tinha trazido consigo uma tal quantidade de tubarões que “banhar-se nas águas do rio local se tornou algo extremamente perigoso”.
Laurentino Gomes é jornalista, escritor e seis vezes ganhador do Prêmio Jabuti de Literatura. O texto acima foi extraído do seu livro: Escravidão (Ed. Globo)
VIOLÊNCIA E PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA: O SEXO NO BRASIL COLÔNIA
O erotismo dos colonos lusitanos levou ao estupro de diversos escravos, mulheres e homens
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 05/04/2020
O cotidiano do Brasil Colônia - Wikimedia Commons
No Brasil Colônia, os parâmetros do erotismo eram completamente outros quando comparados aos dias atuais. Elementos sexuais ligados a símbolos do erotismo desejado, como corpos femininos magros, ausência de pelos e limpeza íntima eram, na época, repudiados.
Um dos maiores nomes da literatura de baixo calão desse momento, Gregório de Matos, escreveu que “lavar a carne é desgraça”, pois ”perde a carne o sal, a graça”. Estranho, não?
Porém, essa não é a única distinção que ocorre entre os atos íntimos antes e agora: as relações entre o que era moral e legalmente aceito em relação ao sexo mudaram bastante desde a nossa independência.
A sociedade ultramarina era profundamente marcada pela moral cristã, mas também pelo afastamento dos centros, onde a fiscalização e a educação estavam.
Em clima de repressão e moralidade, essa comunidade lusitana tinha como elemento central da vida erótica o estupro de mulheres escravizadas, que muitas vezes era aceito socialmente.
Afirma-se que o “senhor, por pudores e preceitos religiosos, se reprimia sexualmente com a esposa branca – figura destinada exclusivamente à reprodução – mas, geralmente, não tinha freios no relacionamento com as escravas, tidas como meros objetos”, afirma Marcel de Almeida Freitas em O cotidiano afetivo-sexual no brasil colônia e suas consequências psicológicas e culturais nos dias de hoje. O corpo da escrava era visto como propriedade e, portanto, plenamente violável.
No seio da família na colônia, as relações senhoriais / Crédito: Wikimedia Commons
Porém, a depravação sexual causada pela sociedade senhorial envolvia um atrito de antagonismos morais: de um lado, o colono lusitano, incentivado pela percepção da vida sexual desprovida da noção de pecado entre os indígenas, queria libertinagem; do outro, o jesuíta pregava a total carestia dos prazeres carnais.
A abertura criada pelo distanciamento, porém, suprimia os planos dos padres: “os brancos podiam manifestar livremente a agressividade e luxúria sobre negras e, não raro, sobre negros”, afirma Freitas.
Porém, isso não desincentivou os católicos a impulsionarem a Santa Inquisição contra os atos que consideravam de depravação. Porém, não era exatamente o sexo que a incomodava, como o fazia aos jesuítas mais baixos.
“Ao Santo Ofício interessavam os erros de doutrina passíveis de serem captados não apenas em afirmações ou ideias contestatórias à verdade oficial e divina, mas em atitudes ou comportamentos que implicavam suspeita de heresia”, explica o historiador Ronaldo Vainfas em seu livro Trópicos do Pecado.
Ou seja, na colônia, o que era repudiável no campo das escolhas sexuais eram as hostilidades aos dogmas preconceituosos do catolicismo.
No seio das relações senhoriais, a violência / Crédito: Wikimedia Commons
A Igreja, nesse sentido, fazia um papel de determinação moral dos limites das relações de dominação que imperavam na sexualidade da colônia. Ao mesmo tempo em que mitigavam o declarado pecado da libertinagem dos colonos, repudiavam o prazer erótico das escravas e usavam da questão libidinal na repressão das mulheres.
Muitas delas foram repreendidas pelo Santo Ofício, acusadas de práticas pecaminosas e adversidade de seu papel estabelecido pela natureza. Assim, as mulheres (especialmente as negras) se tornavam objetos, de coação ou de prazer.
Os católicos mais fervorosos, então, sairiam em busca de reprimir as formas de libertação sexual, indo de encontro com um espaço colonial altamente erotizado.
Índios não concebiam o sexo como pecaminoso, e os africanos também não viam transgressões na prática. O homem branco, com poder, liberava sua libido através da violência sexual. O resultado de tudo isso era pecado para todos os lados, e os colonos não pareciam se importar.
Segundo Gilberto Freyre, o regime de sexualidade no mundo colonial era centrado nas figuras da soberania do patriarcado, que dava liberdade de ação aos homens livres, e na relação senhorial da escravidão, que levava ao estupro.
Longe de ser um método ou um resultado democráticos, isso acaba por desencadear uma forte miscigenação, marca da sociedade.
No seio da violência, a dominação / Crédito: Wikimedia Commons
A relação dual de liberdade e dominação levou ao cerne da sociedade as relações de poder relativas ao sexo. Segundo o texto anteriormente citado de Marcel Freitas, “o clima de liberalismo e exploração sexual de negras(os) e, em menor escala, índias (os) favorecia o desejo dos idosos e dos jovens. Muitas vezes sucedia que justamente aqueles senhores mais rigorosos com os filhos e, especialmente, com as filhas e esposas, eram os que davam mais mostra de ímpeto de dominação sexual sobre as ‘carnes negras’”.
INSALUBRIDADE, CASTIGOS E UMA REFEIÇÃO DIÁRIA: OS HORRORES DAS SENZALAS BRASILEIRAS
Em uma situação desumana, homens e mulheres vindos da África enfrentavam as maiores adversidades para realizarem suas práticas religiosas e culturais às sombras
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 04/04/2020
Essa era a infeliz realidade ainda no século 19 - Domínio Público
“Negras Mulheres, suspendendo as tetas negras. Magras crianças, cujas bocas pretas regam o sangue das mães”. É com as palavras de Castro Alves que se inicia a descrição das atrozes senzalas, espaços dedicados ao confinamento cotidiano dos negros escravizados nos engenhos de açúcar do Brasil, lugares que tentavam reproduzir a mínima salubridade necessária para a sobrevivência da mão de obra, mas desgastante o suficiente para que facilitasse o poder dos feitores.
Para começar, esqueça a imagem clássica das senzalas turísticas: debaixo da casa grande, havia um local de confinamento especial, quase que de castigo; mas a grande massa de escravizados ficava em edificações diferentes e minimamente distanciadas da casa do colonizador (afinal, é mais estratégico em caso de levantes). Aos montes, essas residências menores abrigavam, em casos de engenhos mais ricos, milhares de cativos.
Os escravos domésticos eram separados dos da lavoura, criando uma hierarquia virtual que os desunia, e havia um esforço por parte da administração em misturar povos de etnias, culturas e idiomas diferentes entre os setores das senzalas, para impedir maior articulação e prática de idiomas ou ritos não-cristãos.
Senzala que virou museu no Ceará / Crédito: Wikimedia Commons
Porém, fato é que existem muitas dificuldades em compreender as condições da vida cotidiana dos homens e mulheres das senzalas, o que envolve lacunas que normalmente são superadas pela arqueologia. “Em relatos históricos, geralmente impregnados de eurocentrismo, não são incomuns menções à insalubridade das casas pobres, retratadas como insuportavelmente sujas, empoçadas e enfumaçadas, [...]."
"As descrições do interior das senzalas são mais raras, já que só eventualmente preocupavam-se os cronistas em descrever seu interior”, afirma Marcos André Torres de Souza, arqueólogo do Museu Nacional no artigo intitulado A vida escrava portas adentro: uma incursão as senzalas o Engenho de São Joaquim, Goiás, século XIX.
Nos poucos relatos escritos sobre senzalas no século 19, o jornalista francês Charles Ribeyrolles trouxe uma impressão pouco surpreendente: os locais eram marcados por falta de higiene, e marcadas por infecções e insalubridades. Porém, tudo isso era, de alguma maneira, contornado pelos habitantes que, sendo seres humanos, cuidavam da saúde e realizavam práticas culturais na medida em que conseguiam, resistindo à vida cativa.
Gravura encontrada em senzala em Ouro Preto, Minas Gerais, onde retrata-se pessoas trabalhando em pilão africano / Crédito: Philipe Passos/Arquivo pessoal
“Os itens de mobiliário são raros”, lembra Souza, mas muitos objetos encontrados em sítios coloniais provam que os escravizados nunca deixaram de coexistirem com atividades de cunho cotidiano, e até religioso, de matrizes africanas.
Homens e mulheres mantinham rituais às escondidas, muitas vezes mudando danças e liturgias para que passassem despercebidos (como é o caso da capoeira, lida como arte, e atividades religiosas com orixás, descritas inteligentemente como “brincar, folgar, cantar em todos os tempos que quisermos sem que nos empeça e nem seja preciso licença” em uma exigência num tratado de paz após uma greve de escravos ocorrida no Engenho de Santana, Bahia, em 1789.
As senzalas costumavam ser ambientes sem janelas ou camas, e os escravos dormiam no chão de terra ou em esteiras de tábua. Por isso, costumava-se acender uma fogueira no seu interior, para aquecimento e iluminação.
Pela falta de cômodos, pouca privacidade havia, e muitas vezes momentos íntimos e relações sexuais ocorriam em meio à multidão confinada. O mais próximo de um banheiro que havia era uma latrina no fundo do barracão, o que fazia o interior ter um cheiro desconfortável.
Era realizada, em geral, uma refeição por dia, com comida insuficiente para uma boa nutrição (normalmente, os escravos comiam restos). A carne era rara e também tornou-se corriqueiro que, recebida a ração, ela passava novamente por um processo de cozimento num panelão manipulado por escravas, para que se tornasse mais tragável.
A falta de condições saudáveis era uma estratégia de dominação das pessoas, que eram maioria nos engenhos, o que se somava ao medo, pois na frente das senzalas sempre havia uma equipe bem armada de feitores fazendo guarda.
Maquete de senzala de engenho do Rio de Janeiro / Crédito: Wikimedia Commons
Por fim, fica a reflexão apontada pelo estudo já citado de Torres de Souza. Segundo ele, “os espaços das senzalas eram determinados pelo proprietário. Era ele o responsável por definir as características de cada residência, incluindo sua localização, limites, forma e aspecto. O mesmo, no entanto, não pode ser dito sobre sua vida interior. Embora limitados por um ambiente altamente normatizado, os escravos foram capazes de estruturá-lo de modo a atender suas necessidades, lançando mão, para isso, de referenciais por eles forjados”.
ESCRAVOS DA BERBÉRIA: O SEQUESTRO SOMBRIO DE EUROPEUS CRISTÃOS POR PIRATAS
Na idade média, criminosos do norte da África levavam os prisioneiros da Europa como cativos a países islâmicos
OTÁVIO URBINATTI PUBLICADO EM 03/04/2020
Pintura ilustrativa - Wikimedia Commons
Do alto da torre, o vigia gritava: “Há mouro na costa!”. O sinal ecoava pelos povoados costeiros à medida que a suspeita embarcação surgia no horizonte. O clamor antecipava o desespero de inúmeras famílias. Nessa hora, era resistir ou correr.
O desembarque dos mouros em terras portuguesas causava rebuliço na população. Fugir para o interior ou criar barreiras que impedissem a sua chegada ao continente eram as únicas alternativas de defesa. O fracasso, no entanto, dava aos moradores do litoral anos longos de penúria e submissão.
Entre os séculos 15 e 18, essa prática se tornou tão recorrente que não só Portugal mas regiões que beiravam o Mediterrâneo e o Atlântico temiam a presença de navios carregados de muçulmanos. Em terra e em mar, piratas do Norte da África colocavam em risco a liberdade de inúmeros europeus cristãos, que eram sequestrados e levados à força para terras islâmicas na condição de escravos.
Prática lucrativa.
A escravidão é quase sempre relacionada a desigualdade racial entre os povos. Contudo, e mais do que isso, a História revela que, além de características físicas, ela também é refletida por aspectos culturais.
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A escravidão dos europeus esteve ligada sobretudo a uma disputa pela supremacia religiosa. Enquanto negros africanos eram levados às Américas com a justificativa de salvação da alma pela conversão ao catolicismo, para os cristãos, o cativeiro no Norte da África e nas demais regiões muçulmanas representava um perigo de ordem espiritual e religiosa.
A história do escravismo em terras islâmicas se inicia a partir do sincretismo que a religião representou aos povos árabes. A atração pelo saque e pela Guerra Santa contra aqueles que não seguissem o livro sagrado de Maomé fazia parte das diretrizes da crença.
Após seu surgimento, por volta do ano 630, o islamismo se tornou uma religião próspera em curto período de tempo. A fragilidade dos Impérios da época (sobretudo, o Bizantino) e dos Estados Bárbaros foi um dos motivos determinantes para que ela se expandisse rapidamente para regiões da Ásia, África e Europa.
Em um cenário especialmente de disputa religiosa entre cristãos e islâmicos, o sequestro de cativos se tornou, então, uma prática frequente e lucrativa para ambos os lados. O conflito entre os dois povos tem seu início no contexto das Cruzadas, quando europeus enviados à Terra Santa eram capturados pelos inimigos. Do outro lado, porém, os movimentos de reconquista da Península Ibérica, empreendidos por monarcas europeus, também resultaram em apreensões muçulmanas.
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Mas foi com a ascensão do Império Otomano na região de Anatólia (atual Turquia) que os islâmicos passaram a controlar importantes territórios de interesses comerciais, incluindo a navegação no Mediterrâneo Oriental e Central. Um deles era o porto de Argel, no Norte da África, região denominada Berbéria, que possuía uma localização extremamente estratégica e um poderio naval muito grande. O domínio de oportunas rotas comerciais nas mãos dos seguidores de Maomé, desse modo, ameaçava diretamente os interesses das nações cristãs.
No século 16, a cidade de Argel, sob domínio otomano, cresceu e enriqueceu em virtude das incursões piratas às embarcações cristãs e às regiões costeiras de Portugal, Espanha, França, Itália, Islândia e Reino Unido. A prática se tornou duplamente rentável, pois, além de dificultar as atividades comerciais, poderia obter elevadas somas de dinheiro com a venda de títulos de resgates para entrega dos cristãos.
Quando capturados, os europeus eram levados para o povoado do Norte da África. “Na impossibilidade de manter todos os cativos, o governador do local vendia-os para os seus cidadãos. Trabalhando como escravos, aguardavam a oportunidade de resgate, feito pelos seus países de origem”, explica Edite Alberto, investigadora do Centro de Humanidades da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Em terras islâmicas, os europeus, então, eram utilizados em tarefas urbanas para executar trabalhos nas pedreiras, extração de minas, construção de edifícios e de infraestruturas, tarefas domésticas (no caso das mulheres), além dos serviços nas galés.
Por anos, os piratas da Berbéria ocasionaram impactos tão violentos no litoral europeu que cidades inteiras acabaram desocupadas. Homens, mulheres e crianças: todos viviam constantemente ameaçados.
Negócio pela liberdade.
Ao cair nas mãos dos muçulmanos, os cristãos temiam que o contato com o islamismo colocasse em risco a salvação de sua alma. Quando conseguiam voltar à Europa, muitos deles eram alvo de suspeita por parte da Inquisição. Acreditava-se que os cativos tivessem aderido à religião do infiel e que, ao regressarem, procurassem disseminá-la entre os cristãos.
Assim, procurando evitar situações como essa, os reinos cristãos criaram organizações para recolher fundos destinados para compra da liberdade dos escravos no Norte da África. A Bula da Cruzada, que, inicialmente, se destinava a financiar as expedições à Terra Santa, garantia a concessão de indulgências a todos os que contribuíssem financeiramente para o resgate de cativos. As operações contavam com o trabalho de diferentes entidades religiosas.
“Uma das ordens que se especializaram nesse trato comercial, desde o século 12, foi a Ordem da Santíssima Trindade (fundada na França), também conhecida como Ordem dos Frades Trinitários. Tais frades pediam esmolas e doações para, com esse dinheiro, ir comprar cativos cristãos nas praças onde eles eram vendidos”, explica o professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra Saul António Gomes. Em Barcelona, na Espanha, também fora criada outra entidade capacitada, a Ordem de Nossa Senhora das Mercês.
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O governo português, neste caso, chegou a organizar armadas para patrulhar a costa e proteger as embarcações do país. Mas a medida adotada foi em vão e nem assim os ataques corsários cessaram. Caberia, então, aos trinitários e demais ordens religiosas negociar a compra dos cativos em solo berbere.
Para isso, os frades fretavam navios e chegavam a levar presentes valiosos aos governantes e nobres da Berbéria para que estes fossem influenciados positivamente na venda e na liberdade dos cativos. Cada real de ouro português equivalia a sete patacas argelinas e, então, era fixado um preço de compra. Inicialmente, durante o reinado português de D. João V (1706-1750), foram feitas quatro grandes remições pelos frades trinitários, que se deram entre 1720 e 1739. Nesses resgates, também há registro histórico de libertação de escravos em outras regiões otomanas, como as fronteiras do Império Austro-Húngaro e no Oriente.
Em solo europeu, os cativos reconquistavam sua liberdade e, em poucos dias, já eram enviados para as suas terras de origem.
Mal da humanidade.
A mudança das estruturas econômicas e da sociedade de antigo regime por uma outra sociedade liberal e assentada no respeito dos direitos humanos foi decisiva para estagnar o fenômeno de escravidão em terras otomanas. “O neocolonialismo ocidental, sobretudo após 1780, impactante no Norte da África e no Oriente Médio, fez retrair os mercados da escravatura de cristãos. A longa duração desse fenômeno traduz tanto interesses financeiros e comerciais quanto demográficos (mão de obra a serviço dos senhores muçulmanos), culturais e religiosos”, declara Gomes.
Tratados de paz, dessa forma, surgiram somente no final do século 18 e início do 19. Em 1813 ainda foram resgatados cerca de 600 portugueses que estavam prisioneiros em Argel. Além disso, registros mostraram que o comércio de cativos no mundo islâmico também esteve presente no começo do século 20. Isso fez com que, em 1904, em Paris, fosse assinado um acordo com alguns Estados europeus para supressão do tráfico de escravos da região.
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No entanto, os pesquisadores portugueses alertam para o fato de ainda haver apreensões de indivíduos até os dias de hoje com base em fundamentalismos religiosos. Conforme Edite Alberto explica, a escravidão tem acompanhado toda a história da Humanidade, qualquer que seja a cor da pele dos seus protagonistas.
“Os hebreus foram escravos dos babilônicos, os gregos foram escravos dos romanos e, até na atualidade, regimes totalitários escravizam populações pela sua ideologia ou etnia. Hoje, por exemplo, os yazidis (comunidades estabelecidas em regiões do Iraque, Síria, Turquia e Irã) são escravizados pelo autodenominado Estado Islâmico nos territórios da Síria. E estamos sempre a falar de escravatura branca”, termina.
Em terras islâmicas, os cativeiros nunca foram inteiramente extintos. Basta lembrarmos da conquista do Monte Sinjar, no Iraque, em agosto de 2014, pelo Estado Islâmico (EI), colocando em risco a vida de 500 mil yazidis que viviam na região. Com a ocupação, o grupo realizou ataques violentos à comunidade. Os que não conseguiram escapar continuam como reféns em territórios iraquianos e sírios — as mulheres yazidis são até hoje vendidas ou reduzidas à condição de escravas sexuais. Desde 2018, a ONU recolhe provas de massacres e demais atrocidades provocadas pelo EI na região.
“Embora sejam um grupo fechado, eles sempre foram respeitados pelos muçulmanos. No entanto, quando o EI atacou as comunidades, os seus direitos foram tomados e, a partir de então, passaram a enfrentar muitas dificuldades”, esclarece o professor de teologia iraniano Hossein Khaliloo. “Não vamos ver uma melhora tão cedo, tendo em vista que ainda há muitos conflitos e bombardeios naquela região envolvendo grandes nações”, finaliza ele.
O presente ainda conserva em sua memória vestígios históricos e culturais desses e de outros sistemas escravistas. Há de se reconhecer que a história dos povos guarda múltiplas faces de racismo e de divergências ideológicas. E, embora haja muito o que pesquisar e estudar sobre o assunto, o fato é que ainda existem, entre nós, diversas relações a serem resolvidas.
Berbéria, Berberia, Barbária, Costa berberisca, Costa berbere ou Costa barbaresca é o termo que os europeus utilizaram desde o século XVI até ao século XIX para se referirem às regiões costeiras de Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia, ou seja, o atual Magrebe, à exceção do Egito.
FRANCISCO PAULO DE ALMEIDA: O PRIMEIRO BARÃO NEGRO DO IMPÉRIO, QUE TEVE MAIS DE MIL ESCRAVOS
Conheça o barão de Guaraciaba — título concedido pela princesa Isabel — que foi sócio fundador da primeira usina hidrelétrica brasileira e participou da construção de uma das primeiras estradas de ferro do país
FABIO PREVIDELLI PUBLICADO EM 25/01/2020
Imagem colorizada de Francisco Paulo de Almeida - Reprodução
Mineiro de Lagoa Dourada, Francisco Paulo de Almeida nasceu em 1826. Originário de uma família pouco conhecida, ele era filho de Antônio José de Almeida, um modesto comerciante local. Entretanto, sua raiz materna é uma incógnita. Em sua certidão de batismo, o nome de sua mãe consta apenas como Palolina, que teria sido uma escrava.
Já na sua adolescência, ele passou a trabalhar como ourives — fabricando botões e abotoaduras. Aproveitava o tempo de seus intervalos para tocar violino em enterros, por conta disso, recebia alguns trocados como pagamento, além de trocos das velas que sobravam do funeral. Ele as usava para poder estudar à noite.
Retrato de Francisco Paulo de Almeida / Crédito: Wikimedia Commons
Aos 15 anos, se tornou tropeiro e dividia suas atenções entre Minas e a Corte, que ficava no Rio de Janeiro. Durante suas viagens, conheceu muitos fazendeiros e negociantes. Passou a investir na compra e venda de gados. Com o dinheiro levantado, comprou terras na região de Valença (interior fluminense) para plantar café.
Ao casar-se com Brasília Eugênia de Almeida — com quem teve 16 filhos —, também se tornou sócio de seu sogro, que, assim como ele, atuava como fazendeiro e negociante no Rio. Após a morte dos pais de sua esposa, assumiu todos os negócios da família e viu sua fortuna aumentar.
Com isso, comprou sete fazendas de café entre o Vale do Paraíba fluminense e interior de Minas. Em uma delas, a fazenda Veneza, em Valença, tinha mais de 400 mil pés de café e cerca de 200 escravos. Como era dono de outros negócios, é apontado que Almeida chegou a ter mil pessoas trabalhando em condição de escravidão.
"O custo da mão de obra não exigia pagamento em numerário, mas simplesmente, investimentos em escravos e sua manutenção, a níveis de consumo. Os negros eram considerados como investimentos duráveis, que garantiam resultados produtivos sem necessidade de remuneração", afirma Carlos Alberto Dias Ferreira em Francisco Paulo de Almeia, o Barão de Guaraciaba: um negro e sua rede se sociabilidade na fundação do Banco de Crédito Real de Minas gerais.
Em sociedade, com outros empreendedores com quem mantinha contato, ele fundou dois bancos: o Banco de Crédito Real de Minas Gerais e o Mercantil de Minas Gerais.
Mas muito se engana quem pensa que a diversidade empresarial de Almeida parou por aí. Aproveitando o período em que as ferrovias começaram a se expandir pelo Brasil, ele participou da construção da Estrada de Ferro Santa Isabel do Rio Preto, das quais os trilhos passavam por suas propriedades, em Valença.
Foto de Francisco Paulo de Almeida / Crédito: Reprodução
Inaugurada em 1883 por dom Pedro II, a ferrovia, que ligava Valença a Barra do Piraí, se tornou importante para o escoamento do café do Vale do Paraíba. Foi neste período que ele estreitou seus laços com a família real — o que terminaria na concessão do título de barão concedido pela princesa Isabel — que regia sob a ausência de seu pai, em 1887.
O título de barão de Guaraciaba foi uma concessão por “merecimento e dignidade”. No entanto, entrar pela nobreza tinha um custo fixo e tabelado pela Corte de 750 mil réis.
Almeida também foi importante para o desenvolvimento hidroelétrico do país, se tornando sócio fundador da primeira usina brasileira — inaugurada em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1889. O barão também foi um dos financiadores do projeto responsável por levar iluminação pública elétrica em Juiz de Fora, por meio da Companhia Mineira de Eletricidade — que construiu a usina.
Apesar de ser originário de uma família desafortunada, ele logo se adaptou ao estilo de vida da nobreza imperial. Em suas residências — uma na Tijuca, e outra em Petrópolis, ambas no Rio de Janeiro — ele gozava de todo o privilégio que seu título de barão proporcionava.
O Palácio Amarelo, foi construída sob as ordens de Guaraciaba. Atualmente o local é sede da Câmara Municipal do Rio / Crédito: Wikimedia Commons
A Câmara Municipal do Rio, anteriormente conhecida como Palácio Amarelo, foi construída sob as ordens de Guaraciaba. Além de desfrutar das mordomias no Brasil, ele também fazia várias viagens para a Europa, principalmente para Paris — onde mandou um de seus filhos estudar.
Apesar de ter sido bem sucedido financeiramente, a sociedade brasileira era racista e afetava a todos. Para muitos, Francisco Paulo de Almeida não era o barão de Guaraciaba, mas sim, o barão de Chocolate.
Após a proclamação da República, ele começou a se desfazer de seus bens pouco a pouco, o que não o impediu de viver uma vida bastante confortável. Francisco Paulo de Almeida, o barão de Guaraciaba, faleceu aos 75 anos, em 1901, na casa de uma de suas filhas, no Rio de Janeiro.