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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Livro: O Queijo e os vermes. De: Carlo Ginzburg.

 


Bibliografia: GINZBURG, Carlo. O Queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

O Queijo e os Vermes (1976), de Carlo Ginzburg, é um marco da Micro-história que narra a vida de Domenico Scandella, um moleiro do século XVI conhecido como Menocchio.

O livro reconstrói a cosmologia singular de um homem comum que, ao interpretar de forma original os poucos livros a que teve acesso, desenvolveu teorias heréticas que o levaram a ser processado e executado pela Inquisição.

Pontos Principais da Obra

  • A Metáfora do Título: Menocchio explicava a origem do universo comparando-a à produção de queijo: do "caos" primordial (o leite que coalha) surgiram os anjos e Deus, assim como os vermes surgem no queijo.
  • Cultura Popular vs. Cultura de Elite: Ginzburg argumenta que as ideias de Menocchio não eram apenas "loucura" ou influência direta da Reforma Protestante, mas sim o resultado de uma circularidade cultural, onde a cultura popular interage com a cultura das elites.
  • O Papel da Leitura: O moleiro era alfabetizado — um fato notável para sua classe na época — e lia obras como a Bíblia e o Decamerão, filtrando essas informações através de sua visão de mundo camponesa e tradições orais.
  • Resistência Intelectual: Menocchio não se calou diante dos inquisidores. Ele defendeu suas crenças com orgulho, o que simboliza a resistência do pensamento individual contra sistemas de opressão.

Importância Historiográfica

A obra revolucionou a forma de se fazer história ao focar em um indivíduo marginalizado para responder a "grandes questões em pequenos lugares". Em vez de focar apenas em reis ou grandes eventos, Ginzburg utilizou registros de processos inquisitórios para dar voz a quem a história oficial costumava ignorar.

 

domingo, 22 de março de 2020

Muito além do holocausto: os judeus perseguidos pela santa inquisição.

MUITO ALÉM DO HOLOCAUSTO: OS JUDEUS PERSEGUIDOS PELA SANTA INQUISIÇÃO

Ao longo da História a Igreja Católica condenou à morte milhares de pessoas consideradas hereges e impuras
VICTÓRIA GEARINI PUBLICADO EM 22/03/2020
Pintura ilustrando métodos de tortura aplicados pela Santa Inquisição
Pintura ilustrando métodos de tortura aplicados pela Santa Inquisição - Wikimedia Commons
O Santo Ofício era um grupo de instituições que atuavam como uma espécie de tribunal religioso da Igreja Católica. Mais conhecida como a Santa Inquisição, este órgão tinha como objetivo perseguir e julgar pessoas que não eram aceitas pela sociedade, e teve duas principais fases: nos séculos 13 e 14, e posteriormente do 15 ao 19.
Retrato de um julgamento realizado pela Santa Inquisição / Crédito: Wikimedia Commons

Sua origem remonta ao ano de 1231, quando  o papa Gregório IX criou a Santa Inquisição para punir pessoas acusadas de heresia. Durante a Idade Média, o órgão atuava principalmente na Itália, na França, na Alemanha e em Portugal.
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Pintura ilustra perseguição cometida pela Santa Inquisição / Crédito: Wikimedia Commons
No entanto, a segunda fase ressurgiu na Espanha, em 1478, tendo como principais alvos o povo judeu e os chamados novos cristãos — pessoas acusadas de praticarem o Judaísmo, mesmo após se converterem ao Catolicismo. O intuito da Igreja era monitorar as condutas dos novos adeptos, pois esses grupos eram compostos pela alta burguesia, que afrontava os interesses comerciais e políticos da nobreza e do clero.
Em pouco tempo, os reis passaram a apoiar as perseguições da Santa Inquisição e a acusar como heresia qualquer prática fora de seus costumes cristãos. A Igreja perseguiu, ainda, iluministas, homossexuais e protestantes. 
Diferente da primeira fase, neste período, as punições tornaram-se ainda mais severas, instaurando penas de morte na fogueira e práticas de tortura. Além disso, era comum o alto clero mandar confiscar os bens das pessoas, o que contribuiu para enriquecer a Igreja.
Preocupado com a repercussão, o papa ordenou aos espanhóis que controlassem o genocídio. Em 1492, os judeus expulsos da Espanha migraram para Portugal, o que originou, em 1536, o Santo Ofício Lusitano. Estima-se que os portugueses tenham feito mais de 40 mil vítimas, sendo que 2 mil foram brutalmente assassinadas na fogueira. Já os espanhóis fizeram o dobro de vítimas, contabilizando 300 mil condenados e mais de 30 mil mortos.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Açoitamento e tortura: Tomás de Torquemada, o fanático da inquisição.

AÇOITAMENTO E TORTURA: TOMÁS DE TORQUEMADA, O FANÁTICO DA INQUISIÇÃO

Para proteger a fé, o frade dominicano Tomás de Torquemada recomendava parafusos nos polegares dos heréticos
SIMONE BITAR PUBLICADO EM 26/02/2020
Ilustração de Tomás de Torquemada
Ilustração de Tomás de Torquemada - Divulgação
Na Espanha do fim do século 15, a fama do inquisidor Tomás de Torquemada chegava aos quatro cantos da Espanha. Tomás – que era frade dominicano – queria livrar o reino de heresias religiosas. Desde que fora nomeado inquisidor-geral pelo papa Inocêncio VIII, perseguiu judeus, agiotas, bígamos, homossexuais e bruxas.
Os suspeitos eram enviados, sem qualquer explicação, aos calabouços da Inquisição para interrogatório. Ali, durante os açoitamentos e torturas, o sinistro religioso rezava baixinho enquanto os carrascos aplicavam parafusos nos polegares, arrancavam unhas e dilaceravam a pele dos presos com pinças em brasa.
Suspeitas de bruxaria eram despidas, para que os carrascos procurassem pelo corpo tatuagens de pentagramas invertidos, considerados marcas do diabo (stigmata diaboli). Deu para assustar? Isso era só o começo.
Crédito: Wikimedia Commons

Depois de arrancadas as confissões, os hereges eram enviados a julgamento, quase sempre em praça pública, eventos chamados autos da fé. Mais de 10 mil acusados de feitiçaria e heresia foram condenados à fogueira, que era acendida ali mesmo.
Chegou uma hora, contudo, em que o próprio Vaticano – assustado com a sanha assassina do frade – pediu que Torquemada moderasse. Tomás ignorou a ordem, e acabou destituído do cargo em 1494. Magoado, retirou-se para um convento, morrendo em 1498 enquanto dormia. Sua morte foi indolor.

domingo, 18 de agosto de 2019

Giordano Bruno: o teólogo que ardeu na fogueira da inquisição romana.

GIORDANO BRUNO: O TEÓLOGO QUE ARDEU NA FOGUEIRA DA INQUISIÇÃO ROMANA

Ele foi o primeiro filósofo a falar em vida no espaço e exoplanetas. Mas não se engane: Giordano Bruno não tinha nada de cientista
FABIO MARTON PUBLICADO EM 18/08/2019
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- Estatua de Giordano Bruno, por Ettore Ferrari, Roma / Crédito: Wikimedia Commons
Em 1600, o ex-frei dominicano, filósofo e poeta Giordano Bruno foi queimado vivo em Roma. Defendia que, como Copérnico havia escrito antes dele nascer, e continuava a ser tabu defender, a Terra era um planeta e gira em torno do Sol.
ão só isso, como uma ideia sua e incrivelmente ousada: o Sol era apenas uma estrela, e, como ele, todas as estrelas tinham sistemas planetários. Como a Terra, esses planetas deviam abrigar vida inteligente.
Afirmou que a matéria é composta de átomos — uma ideia da Grécia Antiga, mas então muito contestada. E disse que o número de estrelas e o tamanho do Universo são infinitos — esta, uma ideia errada, de acordo com a amplamente aceita teoria do Big Bang. 
Mas o mais fascinante de tudo é que Giordano Bruno passava longe de ser cientista. Vejamos: 33 anos depois de ele ser queimado vivo, Galileu Galilei teve de ir ao mesmo tribunal, na mesma sala, e ser forçado a dizer que Copérnico estava errado.
Cedeu e salvou sua vida. A forma como chegou às suas conclusões foi por meio de observações, com dados acumulados exaustivamente e também experimentos e matemática. 
Bruno não olhou para o céu noturno nem fez qualquer experiência. Ele chegou à suas ideias através de teologia. Sua visão já havia sido proposta por outros religiosos, mas nunca levada às últimas consequências como ele fez. 
Tudo parte da ideia de o Universo ser infinito. É assim porque Deus é infinito. Um universo infinito não tem centro - por isso ele apoiou a teoria de Copérnico, de que a Terra é só um planeta que gira em torno do Sol.
Se não somos o centro, o resto deve ser igual — daí as estrelas como irmãs do Sol. Esse Deus do infinito e material habita cada átomo — e é Ele que os mantém ligados uns aos outros.
Visão incompatível
Então começam as ideias que o levaram à fogueira, mais do que a astronomia. Para Bruno, Deus não poderia ter encarnado em Jesus porque está em todo lugar. Portanto, Jesus não havia sido um messias, mas um mero mago, e sua mãe não era virgem.
O teólogo também achava ridículo dizer que uma hóstia se transforma na substância de Jesus, portanto Deus, ao ser ingerida — o dogma da transubstanciação. Afinal, tudo já é Deus. E que o Deus que habita na matéria é mais benevolente que o da Igreja: não havia inferno e o próprio Diabo seria perdoado.
Bruno seria acusado de defender os infinitos mundos, mas também de todas essas heresias. Ele tentou ceder em dogmas da igreja, mas não em sua visão cosmológica.
Bravo até o fim, ele respondeu à sua condenação com um desafio: "Talvez vocês pronunciem essa sentença com mais medo que eu a recebo". E foi para a fogueira amordaçado, para nada mais dizer.
A visão de mundo do teólogo era irreconciliável com o cristianismo, não só católico. Ainda é. Em 1992, o papa João Paulo II afirmou que o julgamento de Galileu foi um erro. Mas Bruno não tem a menor chance de receber o mesmo tratamento. Foi um verdadeiro herege que nunca foi perdoado e provavelmente nunca será. 
Giordano Bruno foi uma mente brilhante e inquieta, um grande contestador, e um mártir de causas importantíssimas: a liberdade de expressão e a liberdade de religião. De forma não-científica, chegou a ideias incrivelmente subversivas para sua época, que seriam provadas pela Ciência. Mas daí a ser um mártir da Ciência é outra história.
A historiadora britânica Frances Yates foi uma das mais influentes estudiosas de Bruno. Em seu livro de 1964, ela chegou a afirmar que o teólogo atrapalhou a Ciência: "Bruno empurra o trabalho científico de Copérnico de volta à fase pré-científica, interpretando o diagrama copernicano como um hieróglifo de mistérios divinos".
Talvez, mas isso o torna ainda mais fascinante. 

sábado, 17 de agosto de 2019

Galileu Galilei: dos céus à inquisição.

GALILEU GALILEI: DOS CÉUS À INQUISIÇÃO

O físico e astrônomo foi banido pela Igreja Católica por ensinar e defender a visão de que a Terra orbita o Sol
JOSÉ LOPES PUBLICADO EM 17/08/2019
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- A saga do italiano Galileu Galilei / Crédito: Marcelo Braga
Galileu Galilei, então professor da Universidade de Pádua, na Itália, apontou seu recém montado telescópio na direção de Júpiter e viu o que, de acordo com a tradição científica dominante na época, deveria ser impossível.
Havia três estrelas desconhecidas perto do planeta — mais tarde percebeu uma quarta. Os objetos pareciam bem menores que o astro e realizavam uma dança periódica em torno dele.
Embora muita gente ainda defendesse que a Terra era o centro do Universo, em torno do qual todos os outros corpos giravam, as estrelas na órbita de Júpiter sugeriam que a realidade era bem mais complicada.
Com essas observações, Galileu inaugurou o jeito moderno de fazer ciência. Cruzando dados do telescópio com modelos matemáticos rigorosos para tirar conclusões sobre como o Universo funcionava.
Para ele, os satélites de Júpiter, bem como a presença de montanhas e outras irregularidades na superfície da Lua, indicavam que os corpos celestes não eram imaculados e imutáveis, e que a própria Terra girava em torno do Sol.
Os achados foram descritos no livro Sidereus Nuncius, sucesso que atraiu a atenção de muita gente — inclusive os olhares indesejáveis da Inquisição.
Azar
Para azar de Galileu, seu trabalho pisou nos calos de uma Igreja Católica insegura e paranoica, que tentava se reerguer do baque provocado pela Reforma Protestante. É fato que a personalidade do pesquisador também não ajudava muito: marqueteiro e turrão, fazia questão de que suas ideias chegassem ao maior número de pessoas e sempre tentava achar brechas nas limitações impostas por Roma.
O resultado foi a condenação do gênio, um marco negativo das relações entre ciência e religião.
A paixão de Galileu pelos números parece ter vindo do berço. Parte do estímulo partiu do pai, o músico Vincenzo Galilei, o qual, apesar da pouca instrução formal, tinha ideias inovadoras sobre teoria musical, que pode ser encarada como um ramo da matemática. Galileu, filho mais velho de Vincenzo e Giulia, nasceu em Pisa, em fevereiro de 1564, e começou seus estudos num monastério perto de Florença.
Os primeiros anos de escola fizeram o menino se interessar pela vida religiosa, mas o pai, que tinha uma visão muito crítica da Igreja, não quis que ele se tornasse padre. A família, então, decidiu matriculá-lo no curso de Medicina, em Pisa.
A universidade local era considerada de segundo escalão, e as disciplinas médicas não empolgaram Galileu. Mas ele foi fisgado pelas aulas do professor de matemática Filippo Fantoni.
Galileu Galilei, por Justus Sustermans, 1636 / Crédito: Wikimedia Commons

O rapaz passou a cabular as disciplinas que não tivessem a ver com números. Isso enfureceu o velho Vincenzo, que o tirou do curso de Medicina. Com o tempo, porém, o aspirante a matemático conseguiu convencer o pai de que podia ter futuro como professor universitário.
Na época, o jeito de obter esse tipo de cargo envolvia impressionar as pessoas certas e esperar que elas o indicassem. Enquanto ganhava uns trocados dando aulas particulares de matemática, Galileu fazia amizade com nobres da Toscana (sua região natal).
O jovem causou ótima impressão em 1588, ao dar uma palestra na Academia Florentina a respeito do... tamanho do Diabo, segundo a descrição de Dante Alighieri em A Divina Comédia.
Sim, o tema parece bizarro, mas era levado muito a sério pelos literatos do Renascimento. De acordo com os cálculos do moço, Lúcifer tinha 1800 metros de altura. A conferência fez tanto sucesso que, no ano seguinte, ele foi nomeado professor de matemática em Pisa.
Aristóteles
Galileu, porém, nunca foi muito querido entre os novos colegas. Isso porque passou a unir o rigor matemático a experiências cuidadosamente projetadas para tentar verificar se as concepções tradicionais sobre o movimento dos corpos na Terra e no céu, derivadas da obra de Aristóteles, realmente valiam. Isso equivalia a comprar briga, e das feias.
O filósofo grego era pagão, mas seus estudos tinham sido incorporados aos ensinamentos da Igreja no fim da Idade Média. A união entre a filosofia aristotélica e a teologia católica era tão estreita que, em muitos pontos, questionar as teses de Aristóteles significava pôr em dúvida a fé.
Mesmo os filósofos naturais (nome dado então aos cientistas) que não pertenciam à Igreja eram, em sua maioria, apegados a essas concepções, embora muitos deles também fossem religiosos.
"Havia uma estrutura acadêmica que o trabalho de Galileu afrontou — professores e estudiosos de formação aristotélica para os quais o estudo da natureza não se articulava com a matemática e com a experiência da maneira como Galileu o concebia", diz Júlio Vasconcelos, físico e filósofo da Universidade Estadual de Feira de Santana (BA).
"O status quo científico era dos aristotélicos, em particular dos jesuítas. Eles tentaram atacar Galileu inicialmente por suas ideias contrariarem Aristóteles, e não a Bíblia", afirma Marcelo Gleiser, físico do Dartmouth College (EUA).
O problema é que muitas das ideias do grego sobre física e astronomia eram, digamos, esquisitas. Aristóteles achava, por exemplo, que objetos mais pesados caem mais depressa que os mais leves.
Sua cosmologia punha a Terra no centro imóvel do Universo, cercada de esferas concêntricas correspondentes ao Sol, à Lua, aos planetas e às estrelas conhecidas na época. Nessas regiões celestes, nada mudava ou saía da ordem — corpos como cometas e meteoritos seriam fenômenos da atmosfera, como a chuva.
Derrubando pressupostos
Os experimentos de Galileu começaram a derrubar esses pressupostos, a começar pela descrição da queda de objetos. Resumindo: a massa deles não tem nada a ver com a velocidade em queda livre.
Ele também estudou o movimento de pêndulos e se viu às voltas com a dificuldade de conseguir medições exatas do resultado de seus experimentos — durante muito tempo, o pesquisador precisou improvisar, acompanhando o próprio pulso para estimar a duração de uma queda, por exemplo.
O matemático mede o tempo no pulso para testar o plano inclinado / Crédito: Reprodução

O interesse de Galileu em novas ideias acabou por queimá-lo de vez em Pisa, e seu contrato deixou de ser renovado em 1592. Mas ele conseguiu que a Universidade de Pádua, bem mais prestigiosa e liberal, aprovasse seu nome como docente, e para lá partiu, no mesmo ano.
Como o salário de professor não era lá essas coisas, tentava complementar a renda e ampliar sua reputação — fiel a seu estilo marqueteiro — bolando novos aparelhos. Um deles fez sucesso: a bússola geométrica e militar. Na verdade, era um proto computador que ajudava no cálculo de juros ou a determinar o ângulo correto de um canhão para acertar o alvo, por exemplo.
Não é de estranhar que ele tivesse boa cabeça para tecnologia. "Essa relação entre ciência e técnica na obra de Galileu é inovadora. Na época, os filósofos e os artistas ocupavam nichos distintos — os pintores e escultores eram também arquitetos e o que hoje chamamos engenheiros.
Eram considerados trabalhadores braçais e, por isso, um grupo menos digno que o dos filósofos. Mas Galileu sempre teve um relacionamento íntimo com artistas e artesãos", diz Marcelo Moschetti, filósofo e professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (BA).
E foi a aptidão tecnológica que catapultou definitivamente Galileu ao estrelato. Aperfeiçoando ideias sobre como ampliar objetos distantes, que, aliás, já andavam circulando há tempos na Europa, ele montou seu telescópio e o apresentou ao governo de Veneza, seu patrono na época, já que Pádua era dominada pelos venezianos.
Os líderes concederam-lhe um belo aumento, mas ele ansiava por novos ares. Ao dedicar o Sidereus Nuncius a Cosimo II de Médici, grão-duque da Toscana, e ao batizar os satélites de Júpiter de "estrelas mediceanas" para homenagear a família nobre, Galileu conseguiu ser nomeado matemático e filósofo da corte dos Médici e voltou para sua terra natal.
Tudo parecia indicar que o cientista passaria o resto da carreira sossegado e bem pago em Florença, se não fosse por um detalhe crucial: no livro, ele declarara seu apoio às ideias do astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), segundo as quais a Terra e os demais planetas giravam em torno do Sol, e não o contrário. É provável que Galileu Galilei já acreditasse nisso há muito tempo, tendo apenas "saído do armário" com a obra.
Na época, a Igreja Católica não havia condenado formalmente as teses de Copérnico, embora elas não pudessem ser conciliadas com uma interpretação literal da Bíblia. No Antigo Testamento, por exemplo, um trecho do livro de Josué diz que o Sol parou de girar em torno da Terra.
Puxão de orelhas
Há indícios de que acadêmicos ridicularizados por Galileu por causa das crenças aristotélicas se puseram a difamar o pesquisador no Vaticano, tentando obter uma declaração de que o copernicanismo era herético. Sabedor dessa oposição, Galileu, que nada tinha de ingênuo, tentou se proteger.
Declarando-se bom católico, ele divulgou publicamente o conteúdo de uma carta que trocou com a grã-duquesa Cristina da Toscana, na qual argumentava que a Bíblia "não ensina como vai o céu, mas sim como se vai para o céu", e só tratava de "verdades de fé".
Para ele, a matemática era a língua na qual Deus tinha escrito o livro do Universo, e ler esse livro também era adorar a Ele. A carta, porém, piorou a situação: muitos clérigos consideraram que o leigo queria propor interpretações teológicas.
Galileu explica o modelo copernicano à duquesa Cristina e a Federico Cesi / Crédito: Reprodução

Ela ainda procurou uma prova irrefutável do movimento da Terra, apostando que as marés podiam ser a resposta. Foi sua maior mancada científica: o fenômeno tem mais a ver com a atração gravitacional da Lua.
"Ainda que tenha apresentado evidências empíricas e argumentos de peso, ele não provou a rotação da Terra. A última pedra nesse processo foi posta por Léon Foucault, já no século 19", diz Eduardo Rodrigues da Cruz, físico e teólogo da PUC-SP.
Galileu teria sido afoito ao afirmar o movimento da Terra? "Afoito não, mas ousado, como todo gênio", diz o filósofo Eduardo Iamundo, da PUC-SP.
O fato é que ele recebeu um puxão de orelha considerável. Embora tratado de maneira cortês pelo cardeal Roberto Belarmino, o pesquisador foi advertido de que não poderia mais defender as ideias de Copérnico. E, pela primeira vez em mais de meio século, a obra copernicana foi impedida de circular pela Inquisição.
O matemático sentiu o baque, mas dias melhores viriam - ao menos aparentemente. Um amigo e fã, o cardeal florentino Maffeo Barberini, foi eleito papa em 1623: Urbano VIII. Galileu dedicou seu novo livro, O Experimentador, ao pontífice, e obteve autorização para debater em outra obra as ideias de Copérnico, desde que as apresentasse só como hipóteses.
Abusado?
A mesma discussão foi tema de seu livro seguinte, Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo, de 1632. Logo ficou claro que Galileu tinha deixado de cumprir sua promessa ao papa. A obra traz uma conversa entre três personagens, Sagredo, Salviati (ambos velhos amigos do matemático, já mortos, então) e Simplício.
O que acontece é que os dois primeiros se mostram convencidos das ideias de Copérnico no decorrer do diálogo, enquanto apenas Simplício (nome que pode ser interpretado como simplório, bobalhão) se agarra ao velho modelo geocêntrico. Pior ainda, ele usa os argumentos mais fracos da obra — e são muito parecidos com os que o próprio papa já tinha usado antes.
Esse talvez tenha sido o erro crucial de Galileu. Acredita-se que o personagem Simplício não foi uma provocação deliberada ao pontífice. Mas o pesquisador teimoso pecou por excesso de confiança: achava que o papa deixaria tudo por isso mesmo.
Se pensava assim, enganou-se: Urbano VIII parece ter se sentido traído pelo cientista, e os inimigos do matemático no Vaticano não perderam tempo em explorar essa brecha.
Ele foi obrigado a comparecer diante da Inquisição, em Roma. Não foi torturado ou mandado para a prisão, mas ficou detido meses sob vigilância na embaixada romana de Florença, e depois em aposentos do palácio do Santo Ofício. Perto dos 70 anos de idade, ele teve de ficar de pé durante todas as sessões de inquérito e não teve direito a advogado.
Galileu perante a Inquisição / Crédito: Reprodução

As obras de Copérnico foram declaradas heréticas e Galileu, em 1633, teve de jurar nunca mais mencioná-las, sob risco de morte. Foi condenado à prisão perpétua, logo comutada para domiciliar.
Era uma pena leve comparada à do filósofo Giordano Bruno, queimado vivo em 1600. Mas além de se recusar a abandonar suas ideias científicas (dizia que o infinito Universo tinha muitas outras Terras), ele defendia teses contrárias à Igreja, como negar que Jesus fosse divino.
A derrota arrasou Galileu, mas não acabou com sua determinação para fazer ciência. Ele conseguiu publicar mais um livro na Holanda (país protestante onde, claro, o papado não tinha força) — fingiu que o manuscrito fora obtido sem seu consentimento.
Totalmente cego por causa de uma infecção, morreu em 1642. "Coube a Galileu a afirmação de uma nova concepção de ciência, na qual uma hipótese comprovada passa à condição de descrição do mundo", diz Iamundo.
É o tipo de triunfo que os tribunais não têm como anular, e que a própria Igreja acabou reconhecendo. Em 1992, o papa João Paulo II admitiu: "Graças à sua intuição como físico brilhante, Galileu entendeu por que apenas o Sol podia funcionar como centro do mundo então conhecido. O erro dos teólogos da época foi pensar que nosso entendimento do mundo físico era imposto pelo sentido literal da Sagrada Escritura".

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Bruxas na Idade Média: a verdade por trás das acusações.

BRUXAS NA IDADE MÉDIA: A VERDADE POR TRÁS DAS ACUSAÇÕES

Dezenas de milhares queimaram sob a acusação de bruxaria. Haveria algo de real por trás do pânico?
RAPHAEL TSAVKKO PUBLICADO EM 07/08/2019.
Na Idade Média, milhares de mulheres foram acusadas de bruxaria
Na Idade Média, milhares de mulheres foram acusadas de bruxaria - Reprodução
Já entrado nos 50, o burgomestre (prefeito) de Bamberg estava em profunda depressão quando decidiu passear pelo campo de sua propriedade. Sentou-se no chão para chorar. Então foi interrompido por uma estranha aparição, um súcubo, um demônio que se fantasia de mulher para seduzir os homens. Que então perguntou por que estava tão triste. Ele respondeu que simplesmente não sabia. Então a criatura se aproximou. E se transformou num bode, que falou: Agora você sabe com quem está lidando.
O bode exigiu a Johannes Junius — esse era seu nome — que se entregasse a ele, ou seria morto. O burgomestre gritou “Deus, me salve disso!”, e o monstro sumiu. Apenas para retornar com mais demônios. Junius então cedeu, negou a Deus e passou pelo batismo negro. Depois disso, uma rede de satanistas na cidade de Bamberg se revelou a ele, e o convidou a celebrar sabás negros.
A história acima Junius contou a seus inquisidores, em 5 de julho de 1628, após uma semana sendo pendurado pelos punhos com as mãos para trás, tendo os dedos apertados até sangrarem, e as pernas pressionadas até quase seus ossos se partirem. Segundo ele próprio, na carta final à sua filha, apenas uma história que ele inventou para parar o suplício.
Cena do filme As bruxas de Salem / Crédito: Reprodução
Junius sabia o que os caçadores de bruxas queriam ouvir. Sua colorida narrativa foi aceita como realidade. Mas seus acusadores não estavam satisfeitos. Queriam nomes, quais eram esses satanistas que encontrou, ou haveria mais tortura. E nomes ele teve de dar.
Foi por essa mesma armadilha viciosa que o próprio Junius havia caído. Sua esposa e um amigo o haviam denunciado antes de queimarem. Bamberg arderia por mais três anos, até que a população começou a questionar o tribunal, pois ninguém estava seguro. A loucura terminaria quando tropas protestantes invadiram a cidade, em meio à Guerra dos 30 Anos.
Ninguém esperava a inquisição.
O prefeito em desgraça não era o caso mais típico — ele era homem e rico. A grande maioria dos até 100 mil mortos acusados de bruxaria era de mulheres, muitas delas pobres.
Bruxas, mulheres com poderes mágicos e más intenções, são parte do folclore de quase todas as culturas, dos astecas aos zulus. Na Europa, em meio ao declínio do feudalismo, a partir do século 13, inicia-se um processo de êxodo para as cidades, que duraria séculos, acompanhado por uma série de revoltas camponesas por toda a Europa, que alteram a relação entre servos e senhores feudais. E a relação das mulheres com as normas sociais vigentes.
À medida que os camponeses passam a conquistar mais liberdades — seja passando de uma relação feudal a uma relação dinheiro-aluguel, seja funcionando como contratados, e não como semi escravos a serviço perpétuo de um senhor —, as mulheres passam a conquistar mais liberdades também. O que não necessariamente significava uma vida materialmente melhor, pois com ela vinha a perda de garantia de alimentos e moradia. Daí as revoltas.
Julgamento de bruxaria. Retrato de 1692, por Granger / Crédito: Reprodução
O processo de substituição do modelo feudal pelo capitalista, como explica a historiadora ítalo-americana Silvia Federici em seu livro Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva, levou ao êxodo das aldeias para as cidades e, nesse ínterim, mulheres começaram a exercer funções e profissões para além das casas e terrenos familiares, seja como pedreiras, seja até mesmo como cirurgiãs. E comumente como prostitutas. Essa aparente liberdade das mulheres, que mesmo exercendo em geral atividades inferiores estavam menos sujeitas ao controle dos homens, não passou desapercebida pela Igreja.
Inquisição havia nascido no século 12 como forma de eliminar heresias como o catarismo e o valdismo. Mais de um século depois, passou a olhar para a bruxaria como uma forma de heresia. Até então, muitos dos próprios papas poderiam ser acusados de tal prática, dado o enorme interesse de alguns deles pela alquimia e pura e simples magia.
As primeiras medidas que dariam início à Inquisição começam a ser postas em prática em 1184 com o papa Lúcio III (a chamada Inquisição Episcopal). Com o papa Inocêncio II acontece a primeira cruzada inquisitória, contra os cátaros (também chamados albigenses), em 1198. O Tribunal do Santo Ofício, ou a Inquisição Papal, é criado oficialmente em 1229-1230 pelo papa Gregório IX durante o Concílio de Toulouse. Em 1320, finalmente, o papa João XXII inclui a bruxaria no hall de heresias.
As bruxas passam a ser o alvo preferencial da Inquisição a partir do século 14, após o surto de Peste Negra, que dizimou um terço da população europeia e foi lido por líderes religiosos como uma forma de punição pela leniência a heresias e comportamentos não cristãos. Obra indireta e direta de bruxas e magia negra.
O best-seller assassino.
A criação da prensa de Guttenberg é comumente vista com um instrumento de elucidação das massas. Uma visão idílica. Veja o caso do clérigo católico Heinrich Kramer. Em 1487, ele lançaria Malleus Maleficarum. Um livro que deveu seu sucesso ao revolucionário método de reproduzir livros e, por dois séculos, o segundo mais vendido na Europa após a própria Bíblia.
É um guia de caça às bruxas e heresias afins. Nele, Kramer endossa o extermínio, valendo-se de detalhadas análises legais e teológicas, louvando a prática da tortura para obter confissões. E, um ponto central, afirma que mulheres têm tendência natural a se tornarem bruxas.
O Malleus, diz Diarmaid MacCulloch no livro Reformation: Europe’s House Divided, foi escrito como uma forma de vingança e autojustificação por Kramer ter sido impedido de levar adiante um dos primeiros processos contra bruxas na região do Tirol. Kramer foi expulso da cidade de Innsbruck e, após apelar ao papa Inocêncio VIII, este lhe atendeu com uma bula, em 1484, a Summis Desiderantes Affectibus, que lhe garantia jurisdição para atuar na Alemanha.
O livro / Crédito: Reprodução
Até a publicação do livro, a bruxaria era considerada um crime menor, punido com castigos físicos diversos. Uma esquisitice folclórica de velhinhas mal-orientadas pelos padres. Após a publicação do Malleus, autoridades católicas e protestantes passaram a usá-lo no julgamento e condenação de suspeitas de bruxaria, tornando mais brutal a perseguição.
O livro não era usado por inquisidores, mas sim por tribunais seculares, em especial durante a Renascença. Quem queimava os acusados de bruxaria era o Estado, não o clero — o governo da Espanha, Portugal, dos vários Estados alemães etc. Só nos Estados Papais, onde a Igreja também era a autoridade secular, a Inquisição tinha poder para executar — como no célebre caso do teólogo Giordano Bruno, que queimou em Roma, em 1600.
Simpatia pelo Diabo.
Não era só a negação a Cristo que movia a fúria contra as bruxas. O escândalo andava de mãos dadas com a fé em ceifar vidas inocentes.
Acusações de sexo com demônios eram lugar-comum durante o auge da perseguição à mulheres consideradas bruxas, entre os séculos 14 e 17, uma época em que sexo era um tabu, como conta o historiador David M. Friedman, em Cultural History of the Penis.
Não era incomum que os juízes nos julgamentos das bruxas exigissem detalhes minuciosos das alegadas práticas sexuais. Quanto mais inventivos os atos, maior a sensação nas seções de tortura a que submetiam as acusadas e que prenunciavam o auto de fé.
Além de curandeiras, aquelas mulheres que não seguiam à risca normas sociais da época (como se portar de maneira recatada, obedecer aos pais e marido etc.) eram alvos dos inquisidores, assim como as mentalmente insanas ou perturbadas. Ou, sem fazer nada, as que tivessem o azar de serem denunciadas por inveja, ciúme ou, como no caso do prefeito, alguém forçado a dar um nome.
Retrato de uma jovem acusada em 1869 / Crédito: Thomas Satterwhite Nobel
Também escandalosa é a origem do veículo favorito das bruxas, a vassoura. Atestado por múltiplas fontes e em múltiplas receitas, o unguento voador era um composto tradicional alucinógeno feito de plantas venenosas como a mandrágora, a beladona e a figueira-do-diabo. Provável vestígio da era dos druidas, era usado em rituais noturnos, que envolviam vassouras de um jeito peculiar. No julgamento da nobre irlandesa Alice Kyteler, em 1324, é mencionado que as bruxas confessaram besuntar o cabo com o unguento e cavalgá-lo até o ponto de encontro, ou ungirem-se nas axilias e em outros locais peludos. Não ria. Alice foi queimada viva.
Histeria e Hecatombe.
O livro European Witch Trials: Their Foundationsin Popular and Learned Culture, de Richard Kieckhefer, traz uma longa e assustadora lista de julgamentos de bruxas a partir do século 14, como por exemplo o julgamento de 600 pessoas acusadas de bruxaria na cidade de Toulouse entre 1320 e 1350, sendo 400 delas condenadas e executadas. Ou 400 pessoas julgadas e 200 condenadas e executadas na vizinha Carcassonne, na mesma época.
Além das torturas, havia ainda os métodos práticos para encontrar bruxas. O mais comum era o teste da água. Uma mulher era arrastada para um lago ou rio, despida e amarrada. Ao ser atirada, se flutuasse, era bruxa. Se afundasse, eles até tentavam puxar de volta. A explicação é que bruxas repeliam a água por terem rejeitado seu batismo ao aceitarem Satã. Mas não era a única: também disseram que era por serem anormalmente leves. E assim surgiu o teste do peso: se a ré pesasse menos do que se imaginava normal, era bruxa.
A Alemanha do fim do século 16 e começo do 17 viu alguns dos maiores autos de fé registrados na História. Junto a Johannes Junius, pelo menos mil pessoas foram executadas em Bamberg (1626- 1631) e em Trier (1581-1593). Na mesma época, mais 250 em Fulda (1603-1606) e 900 em Würzburg (1626-1631).
No século seguinte, a caça às bruxas se tornou a peça número um da denúncia dos iluministas aos abusos da religião e superstição. Aos poucos, a loucura iria se arrefecendo. A última pessoa a ser morta por acusação de bruxaria foi Anna Göldi, na Suíça. Foi acusada de materializar magicamente vidro e agulhas no pão e leite da filha de Jakob Tschudi, para quem trabalhava como doméstica. Torturada, falou ter feito um pacto com o diabo, na forma de um cachorro preto que se materializou do nada.
A caça às bruxas então já era bem desmoralizada. Göldi foi acusada formalmente de envenenamento, não bruxaria — ainda que a lei não prescrevesse pena de morte para tentativa de envenenamento. Era 1784, oito anos após a morte de David Hume, seis anos da de Voltaire e Rosseau, um após a de D’Alembert e o mesmo da de Diderot, filósofos anticlericais que dariam origem ao jeito moderno e secular de pensar. Antes do fim do século, em 1798, os Estados Papais seriam capturados pela França, restaurados em 1800 e novamente capturados sob Napoleão, em 1808.
O total de mortos por acusações de bruxaria desde a Idade Média é controverso. A cifra mais baixa, 35 mil, é defendida pelo historiador William Monter, da Northwestern University (EUA). Em seu livro Witchcraze (sem tradução), de 1994, a historiadora Anne Llewellyn Barstow chegou a 100 mil.
¿Las Hay?
Pintura de John William Waterhouse / Crédito: Reprodução
Mas, afinal, tudo isso foi mesmo por nada? As bruxas existiam? A resposta é sim. Havia de fato satanistas na Idade Média. Ao menos um caso é bem registrado: o dos luciferianos, um grupo derivado dos cátaros que viveu na Alemanha do século 13. Acreditavam que Satã havia sido injustiçado e na verdade era o lado bom da guerra com Deus.
Mesmo se satanistas reais fossem raros ao ponto da irrelevância, o que não faltava era candidatos a mago. Alquimistas ganhavam fortunas não só por fórmulas como por rituais secretos. Os grimórios, livros de feitiços, circulavam por mãos cobiçosas por toda a Europa. O Grimório de Honório, do século 13, era atribuído a um papa. Ele ensinava como escapar do purgatório e invocar demônios, entre outras.
A diferença entre alquimistas e bruxas é que os primeiros eram homens, ricos, educados e próximos ao poder, conselheiros de reis e papas, justificando sua atividade como uma manipulação da natureza. As bruxas eram conhecedorasde ritos e poções de tempos pagãos, sem entender como isso poderia ser visto como adoração a Satã.
Como os alquimistas, todas (ou quase todas) deviam se ver como boas cristãs. Certamente, algumas delas e alguns deles usaram seus poderes — bem reais, no caso de venenos — para o mal. Mas quem teve uma vovozinha tradicional, daquelas que fazem rezas, simpatias e garrafadas, conheceu a bruxa típica.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Em 1233, o Papa decretou que gatos eram parte de rituais satânicos - dando início a um massacre de séculos.

EM 1233, O PAPA DECRETOU QUE GATOS ERAM PARTE DE RITUAIS SATÂNICOS — DANDO INÍCIO A UM MASSACRE DE SÉCULOS

Na Europa, por quase 600 anos, todo o tipo de atrocidade seria cometida aos risos contra o animal 'símbolo' de Satã
THIAGO LINCOLINS PUBLICADO EM 16/10/2018
Na imagem, uma fera impiedosa
Na imagem, uma fera impiedosa - Redação AH
O Papa Gregório IX (1145-1241) será sempre lembrado em grande parte por lançar a Inquisição Papal, que daria origem a várias outras, com seus infames e letais efeitos. Quando, em 1227, subiu ao trono papal como sucessor de Honório III, havia perdido a paciência com as políticas conciliadoras de seu antecessor, que julgava responsáveis pela sobrevivência de diversas heresias - em particular o catarismo, que só teve fim em seu mandato, com o encerramento da Cruzada Albigenense que vinha desde 1209.
O papa instituiu os Decretales, que punia todos que fossem acusados de heresia. E não seriam humanos a ser vítimas da perseguição. Em 1232, o pontífice deu início a um massacre de gatos que duraria seis séculos.
Então, ele emitiu a bula papal Vox in Rama que discutia o uso de gatos pretos por uma suposta seita herege da Alemanha, os luciferianos, que achavam que o Diabo havia sido expulso do Paraíso injustamente. Assim era descrito seu ritual.:
Os hereges fazem reuniões secretas. Quando um postulante deseja se tornar um membro da congregação, ele é levado para o centro do local. O diabo aparece sob a forma de um sapo, ganso, pato ou como um gato preto, com a cauda ereta. Ele desce em forma de estátua andando para trás para conhecer seus adoradores. O postulante então beija a sua boca ou traseiro.  
Após várias orgias pós-jantar (às vezes homossexuais de natureza), um homem num canto escuro da sala sai com a genitália ereta, brilhando como o sol. Sua parte inferior é desgrenhada como um gato.
Gregório lançou assim uma inquisição contra os luciferianos e, quem sabe sem intenção, também contra os gatos pretos. Animais que na Antiguidade egípcia chegaram a ser vistos como literais divindades (a deusa Bastet) eram agora diabólicos. E o povo entendeu o recado: não demorou muito para que um extermínio em massa dos bichanos — de preferência pretos, mas nem de longe só eles — fosse iniciado. 
Por toda a europa, católicos e, depois, protestantes passaram a fazer "brincadeiras" com gatos. A imaginação era o limite para criar mais uma forma absolutamente brutal de despachar os animais "demoníacos". Gatos eram enfiados em sacos ou cestos, presos em estacas, e queimados vivos ou tratados como pinhatas vivas, apanhando por todos os lados.
Ainda hoje, em Ypres, na Bélgica, no segundo domingo de maio celebra-se o Kattenstoet,"festival dos gatos". É uma parada temática, com carros e pessoas vestidas de felinos. Mas, até 1817, era bem diferente: o festival consistia em atirar um gato em chamas da torre da igreja.
KARMA?
Ninguém esperava a inquisição, diz o meme. Mas, menos ainda, ninguém esperava como isso influenciaria na Peste Negra. Sem gatos suficientes para matar os ratos que carregavam as pulgas causadoras da epidemia, um em cada três europeus acabou morrendo entre 1348 e 1350.
A lição não foi aprendida. Os felinos foram abatidos sem piedade (e a peste voltou a ter epidemias locais) até o início do século 19, perseguidos como ratos, em massacres ou brincadeiras crueis. 
Segundo o historiador Donald Engels na obra Classical Cats: The Rise and Fall of the Sacred Cat ("Gatos Clássicos: A Ascensão e a Queda do Gato Sagrado", em tradução livre), a pequena quantidade de gatos pretos que existem na Europa Ocidental ainda hoje é consequência e evidência dos nefastos efeitos da bula papal de Gregório IX.  
A sanha antigato dos europeus começou a morrer junto com a crença em bruxas, na Era das Luzes, o século 18. No 19, surgiriam as socieades protetoras de animais e criadores profissionais, que dariam origem às raças modernas.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Cátaros.







Fonte: Revista Aventuras na História, Cátaros, Editora Abril, Edição 54, janeiro de 2008,

terça-feira, 3 de maio de 1994

Tomás de Torquemada dominicano, confessor dos reis católicos e inquisidor.


Tomás de Torquemada, dominicano, confessor dos reis católicos e inquisidor da igreja.

Fonte: Lourenço O Magnífico. Coleção: Grandes Personagens da História Universal, Volume 29, Enciclopédia Semanal Ilustrada. Abril Cultural, São Paulo, 1970.

 

terça-feira, 22 de março de 1994

O Papa Gregório IX.


Papa organizador da inquisição e defensor da canonização de Francisco de Assis e Antônio de Pádua.

Fonte: Frederico II. Coleção: Grandes Personagens da História Universal, Volume 22, Enciclopédia Semanal Ilustrada. Abril Cultural, São Paulo, 1970.