O antigo historiador grego Heródoto tinha uma opinião elevada sobre Gorgo, conhecida pelo seu julgamento político e sabedoria. No entanto, será que foi também uma das primeiras criptoanalistas femininas do mundo?
É muito possível que ela fosse porque infringiu um código secreto e, ao fazê-lo, parou muito provavelmente uma invasão planejada do seu país.
Como Rainha de Esparta e esposa do lendário Rei Leônidas, Gorgo desempenhou um papel importante na história da Grécia. Heródoto não se deu ao trabalho de mencionar as mulheres nos seus escritos. Contudo, Gorgo deve ter sido uma mulher excepcional porque recebeu grandes elogios do antigo historiador.
Quando todos falharam, Gorgo demonstrou então a sua inteligência ao decifrar uma mensagem numa tábua de cera de madeira. Ela é, portanto, frequentemente referida como uma das primeiras criptoanalistas femininas.
Quem foi a Rainha Gorgo?
A informação histórica sobre Gorgo é um tanto limitada e devemos confiar em Heródoto para saber mais sobre esta mulher intrigante.
Sendo a única filha do Rei Cleomenes I, Gorgo nasceu muito provavelmente entre 518 e 508 a.C. Quando Gorgo era jovem, ouviu por vezes as conversas do seu pai com pessoas proeminentes. Tendo apenas oito ou nove anos, ela uma vez até deu conselhos ao seu pai para não ouvir Aristágoras, o Tirano de Miletus (finais do século VI a.C.) que desempenhou um papel vital na Revolta Jônica contra o Império Aquemênida Persa.
“Aristágoras, ao vê-la, pediu a Cleomenes que a mandasse sair da sala antes de começar a falar com ele. Contudo, Cleomenes disse-lhe que o dissesse, e não se importasse com a criança.
Então Aristágoras começou com uma promessa de dez talentos se o rei lhe concedesse o seu pedido. Quando Cleomenes abanou a cabeça, continuou a levantar a sua oferta até atingir cinquenta talentos; daí que a criança falou: ‘Pai’, disse ela, ‘levanta-te e vai-te embora, ou o desconhecido certamente te corromperá’. Então Cleomenes, contente com o aviso da sua filha, retirou-se e foi para outra sala. Aristagoras desistiu definitivamente de Esparta, não podendo continuar a falar sobre o caminho que conduzia ao rei. “ 1
Quando Gorgo cresceu, casou com o lendário Rei Leônidas, que era também o seu meio tio. O casal teve um filho juntos, um filho chamado Pleistarchus. Deve-se descartar a possibilidade de terem mais filhos, entretanto, há poucos registos históricos que possam lançar mais luz sobre os seus assuntos familiares.
Segundo Heródoto, o Rei Leônidas descende de Hércules, o meio deus e meio homem da mitologia grega.
Situação da Grécia.
No tempo do Rei Leônidas, a Grécia não era um país unido. “Havia uma cooperação geral entre as diferentes cidades que se uniriam em tempos de guerra. Contudo, eles também discutiam e lutavam entre si, como atesta a guerra do Peloponeso. Esparta é bem famosa pela concentração no poder militar e por manter escravos, o que libertava os seus cidadãos naturais para o dever militar”.
O exército espartano foi excepcionalmente bem-sucedido porque os seus guerreiros eram habilidosos e receberam treino militar superior que os preparou para as batalhas mais difíceis.
As mulheres em Esparta tinham mais liberdade do que as suas contrapartes atenienses. Podiam ter uma educação e terra própria.
De acordo com Plutarco, ‘Quando perguntado por uma mulher da Ática, “Porque são vocês mulheres espartanas as únicas que podem governar os homens?”, disse ela: “Porque somos também as únicas que damos à luz homens”.
Após a morte do rei Cleomenes, Gorgo tornou-se, portanto, a sua única herdeira.
Como Gorgo decifrou uma mensagem escondida.
Quando o rei espartano Demaratus, exilado, enviou uma advertência sobre a invasão planejada de Xerxes, Gorgo, rainha de Esparta, realizou algo bastante extraordinário na época.
A rainha Gorgo “superou os persas ao elaborar um código secreto enviado numa tábua de escrever (não a variedade Apple ou MacBook) que tinha sido inteligentemente coberta com cera derretida”.
O rei Demaratus sabia que a mensagem enviada devia ser escondida. “Como o perigo de descoberta era grande, só havia então uma maneira de ele conseguir fazer passar a mensagem. Isto era raspando a cera de um par de tábuas dobráveis de madeira, escrevendo na madeira por baixo do que Xerxes pretendia fazer. Depois cobriu a mensagem com cera novamente. Desta forma, as pastilhas, aparentemente em branco, não causariam problemas aos guardas ao longo da estrada.
Dessa forma, quando a mensagem chegou ao seu destino, ninguém foi capaz de adivinhar o segredo”.
A inteligência de Gorgo.
A rainha Gorgo foi inteligente e “descobriu-o e disse aos outros que, se raspassem a cera, encontrariam algo escrito na madeira por baixo”. Isto foi feito; a mensagem foi revelada e lida, e depois transmitida aos outros gregos.
O resto se conhece bem. Termópilas, Salamis e Plataea puseram fim ao perigo de que a chama da civilização ocidental fosse extinta por uma invasão oriental. No entanto, a história não é isenta de uma certa ironia amarga para Gorgo que pode ser considerada a primeira mulher criptoanalista. Ela de certa forma pronunciou uma sentença de morte ao seu próprio marido. Leônidas morreu à frente do heroico bando de espartanos, que aguentou os persas durante três dias cruciais na estreita passagem de Termópilas.
Foram os espartanos, os mais guerreiros dos gregos, que estabeleceram o primeiro sistema de criptografia militar. “
O que mais tarde aconteceu à Gorgo não se sabe. Infelizmente, após a morte do seu marido, o Rei Leônidas, a Rainha Gorgo desapareceu da história. Embora tenha morrido na obscuridade, não devemos esquecer os seus feitos porque ela era, como disse Herotodus – uma grande mulher.
Os guerreiros mais poderosos da Antiguidade vinham de uma sociedade em que tudo girava em torno da guerra
FABIO MARTON PUBLICADO EM 05/10/2019
Espartanos: os guerreiros mais poderosos da antiguidade - Crédito: Reprodução
Os meninos eram apartados de casa quando faziam 7 anos. O Estado se encarregava de treiná-los como guerreiros. Não qualquer guerreiro. Eles seriam soldados espartanos, o militar mais capacitado, temido, odiado e perfeito da Antiguidade.
Para quem assistiu à primeira parte de 300, ou a sequência — A Ascensão do Império, os feitos dos esparciatas são bem conhecidos (ainda que com visual de história em quadrinhos).
Mas qual era o segredo da cidade para forjar militares tão formidáveis? A origem da tradição talvez resida nas Leis de Licurgo, legislador provavelmente mitológico do século 8 a.C. que deixou um código não escrito determinando praticamente tudo na vida de um espartano.
Antes disso, a cidade era algo bem diferente da que conhecemos. Esparta é central na Ilíada, que narra a Guerra de Troia, por volta de 1200 a.C. Da cidade veio Helena, a esposa do rei Menelau que, ao ser raptada pelo príncipe troiano Páris, deu início ao confronto.
“Achados arqueológicos atestam o amor pelo luxo, humor e mesmo frivolidade no período arcaico, que dificilmente relembram os sisudos e militaristas espartanos da imaginação antiga e contemporânea”, diz o historiador Nigel M. Kennell, do Centro de Estudos Helênicos e Mediterrâneos, em Atenas.
Por volta do ano 1000 a.C., a cidade foi conquistada pelos dóricos, que se consideravam descendentes do semideus Héracles (o Hércules romano). Eles estabeleceram uma monarquia dual, com reis de diferentes dinastias. “A dualidade levava a conselhos divididos, rivalidades dinásticas, ansiedades de sucessão, luta faccional”, diz Paul Cartledge, da Universidade de Cambridge.
Os reis podiam não se bicar, mas não tinham muito poder. As decisões mais importantes eram tomadas por cinco éforos eleitos e pela gerúsia, formada por 28 cidadãos com mais de 60 anos — sempre com base nas Leis de Licurgo.
O principal tópico da legislação era que o cidadão de Esparta não trabalhava na terra, não praticava o comércio nem ganhava a vida como artesão. A única atividade nobre para um homem era a guerra. E eles passavam a vida treinando para ela.
Eles eram legendários porque, enquanto em outras cidades gregas as pessoas dividiam o tempo entre o treinamento militar e os afazeres cotidianos, a vida do espartano era focada no combate.
O estado estava tão impregnado na vida privada que cabia à gerúsia decidir quais bebês deveriam viver (nas outras cidades, que também praticavam o infanticídio, a decisão cabia ao pai, não ao governo). Esparta era tão superior que a cidade não tinha muralhas. Não havia o que temer.
Missão suicida
O primeiro encontro militar entre espartanos e persas se deu na celebrada Batalha das Termópilas, entre 8 e 10 de setembro de 480 a.C., durante a segunda incursão persa à Grécia — a primeira foi repelida pelos atenienses, dez anos antes. Celebrizada, estilizada e romantizada no filme e nos quadrinhos 300, muito do que vem a partir daqui deve ser familiar para quem os viu, menos isto: os 300 espartanos lideravam 7 mil soldados.
Somados à tropa de elite do rei Leônidas, havia mais 700 periecos, homens livres, mas sem direitos políticos, e 900 hilotas, escravos espartanos, que atuavam como arqueiros ou armados de fundas. Além de milhares de aliados de cidades como Tebas e Corinto. Periecos e hilotas eram os moradores encarregados das atividades que não cabiam aos esparciatas.
Era uma missão suicida e eles sabiam. Os 300 foram selecionados apenas entre os que já tinham filhos homens para passar seu legado. Do outro lado, havia no mínimo 70 mil persas, talvez até 250 mil, de acordo com estimativas modernas. O historiador mais influente do século 5 a.C., Heródoto, disse que eram 1,7 milhão.
Espartanos e persas se encontraram na Batalha das Termópilas / Crédito: Renato Faccini
Para a frustração dos persas, a superioridade numérica não bastava. Termópilas era uma garganta com meros 100 m de largura. Por mais tropas que houvesse, elas eram forçadas a lutar com uma unidade de cada vez.
Atirar flechas, sua tática favorita, era inútil: os espartanos levantavam os escudos, que tinham uma extensão de tecido para desviar flechas, e esperavam a chuva passar.
Dienekes, um dos 300, foi informado de que as flechas eram suficientes para tapar o sol. Saiu-se com uma das maiores tiradas do humor lacônico: “Melhor assim, combateremos à sombra”.
Homem por homem, os persas não tinham chance contra os espartanos, donos de melhores armaduras, lanças mais longas e escudos que protegiam melhor. Além de tudo, lutavam como ninguém.
“Os espartanos usaram o tipo de tática que só um exército treinado e disciplinado poderia contemplar — falsas retiradas seguidas por uma súbita meia-volta e o massacre de seus perseguidores”, diz Carledge.
Em três dias, os persas perderam 20 mil soldados, contra 2 mil no lado grego. Os números seriam muito maiores se um traidor grego, Efialtes, não tivesse indicado um caminho pelas montanhas. Num ataque em duas direções, os 300 e outros 1200 aliados foram, enfim, massacrados.
Comportamento
Em tese uma derrota, a Batalha das Termópilas inspirou os vizinhos a resistir. “O fator moral no comportamento dos espartanos explica o sucesso final dos gregos”, diz Cartledge. O comportamento de um espartano era bastante curioso.
Até os 30 anos, ele não tinha uma casa para chamar de sua. Morava com a tropa, em geral em barracos, na periferia da cidade ou em tendas de campanha, algo esperado para quem nasceu para guerrear.
Segundo o historiador Scott Rusch, autor de Sparta at War, a razão é que eles eram apenas jovens cidadãos, ainda que focados no combate. Como não eram soldados, não fazia sentido viver em quartéis.
Em uma Esparta com poucas mulheres, submetidas a humilhações até na hora do casamento e que passavam boa parte do tempo longe dos filhos e dos maridos, a condição feminina era bem distinta se comparada a outras cidades gregas. Elas faziam exercícios ao ar livre, usavam pouca roupa e tinham senso de humor.
Um ateniense perguntou a Gero, mulher do general Leônidas, por que as espartanas mandavam nos homens. “Por que somos as únicas que podem gerar homens”, respondeu. Elas podiam ter até casamentos poliândricos, se os maridos concordassem — como a geração de novos guerreiros era a prioridade, casamentos múltiplos tornaram-se um jeito de resolver o problema.
Guerra fria
A guerra contra os persas uniu as cidades gregas, mas, com o invasor derrotado, restou saber o que fazer da Grécia após a vitória na Batalha de Plateias, em agosto de 479 a.C. A aliança entre Atenas e Esparta era precária.
Durante o século 5 a.C., a Grécia se dividiu em dois campos. Ao lado de Atenas, ficaram as cidades democráticas da Liga de Delos. Com Esparta, as oligarquias da Liga do Peloponeso.
Sem um inimigo externo, os modos de vida opostos entraram em confronto. Esparta era uma sociedade rigidamente oligárquica e tradicional, que rejeitava o comércio. Atenas era uma vibrante e democrática metrópole de comerciantes.
Os espartanos haviam ajudado, por acidente, a instalar a democracia ateniense em 510 a.C., ao removerem o tirano Hípias do poder da cidade.
Três anos depois, o novo regime foi instaurado, uma experiência radical e profundamente perturbadora para uma sociedade petreamente ligada à ordem, como Esparta.
As tensões começaram logo depois da guerra, quando os espartanos sugeriram que os atenienses seguissem seu exemplo e não reconstruíssem seus muros. Eles viram isso como uma tentativa de criar uma ameaça constante de forma a dominar a cidade, mantendo-a sob ameaça dos hoplitas espartanos.
Sua recusa foi tomada como uma afronta. Em 465 a.C., um grande terremoto atingiu a Lacônia. Sentindo a fraqueza dos seus mestres, os hilotas iniciaram uma grande revolta. Atenas se dispôs a enviar um contingente de 4 mil hoplitas para ajudar seus ainda formalmente aliados. Então ocorreu o primeiro conflito ideológico direto.
“Devem ter sido intensos o choque e a surpresa dos atenienses ao descobrir que os escravos hilotas não eram bárbaros, mas gregos com orgulhosas tradições”, afirma Paul Cartledge. Notando a relutância, os espartanos dispensaram seus aliados, o que gelou as relações entre as duas cidades.
Com uma série de episódios de hostilidade entre Atenas e os aliados de Esparta, em 431, um congresso da Liga do Peloponeso foi convocado para decidir pela guerra. De forma atípica, o rei Arquídamo II fez um discurso pedindo por paciência.
O éforo Estelenides usou o estilo espartano típico: “Os atenienses são culpados de quebrar a paz, então vamos para a guerra!” A decisão ficou empatada. Estelenides propôs separar os votantes em duas alas. Sendo quem eram, nenhum espartano quis ser visto no lado da paz, e o sim ganhou por larga margem. Era o início da Guerra.
Guerra do Peloponeso se estendeu por 35 anos / Crédito: Renato Faccini
No verão do mesmo ano, os espartanos estavam em frente aos muros que tanto odiavam. Esparta podia ser ainda a melhor força terrestre do mundo, mas não entendia nada de navios. Atenas era uma das maiores potências navais da época.
O plano era simplesmente cercar a cidade até os atenienses morrerem de fome ou saírem para enfrentá-los. Nada disso aconteceu: com sua frota livre para fazer comércio, os atenienses simplesmente importaram alimentos.
A Guerra do Peloponeso se estenderia, com períodos de paz precária, por 35 anos, até o espartano Lisandro fazer uma espécie de pacto com o diabo. Buscando auxílio entre os persas, conseguiu que eles providenciassem uma frota naval para Esparta.
Ainda que não conseguissem aniquilar os atenienses no mar, os espartanos fizeram um bloqueio naval. Com a fome ameaçando acabar com a cidade, em 404 a.C.
Atenas se rendeu. Ao som de flautas tocadas por moças espartanas, os muros foram destruídos, assim como a democracia. No lugar foram colocados 30 tiranos, ditadores que respondiam à cidade vizinha.
O fim de uma era
A hegemonia espartana não duraria muito tempo. Um ano depois, os tiranos foram depostos e a democracia foi restaurada em Atenas. Em 395 a.C., eles estariam de volta ao combate contra Esparta na Guerra de Corinto, que terminou em empate. Mediando a paz, estava ninguém menos que o rei da Pérsia. A forma de guerrear estava mudando, e Esparta já não era mais tudo isso.
“O Estado reacionário espartano estava menos pronto que as cidades-estados da época para adotar um número adequado de auxiliares e cavalaria, em grande parte porque sua infantaria era superior”, afirma o historiador militar Victor Davis Hanson, da Universidade Stanford. Mas essa superioridade estava em risco. O terremoto, as revoltas e as guerras haviam cobrado seu preço à população.
Havia apenas 400 esparciatas durante a Batalha de Leuctra, em 371 a.C., um dos muitos conflitos locais que se seguiram à Guerra de Corinto. Espartanos ainda podiam ser fortes, mas eram previsíveis. E o general Epaminondas, líder de Tebas, faria uso disso. Hoplitas colocavam suas melhores forças sempre à direita.
Epaminondas formou uma coluna de 50 linhas com suas tropas mais capazes, e posicionou-as à esquerda, de forma a enfrentarem a elite espartana primeiro. Mil soldados morreram só nessa parte do combate.
“No período da vida adulta de um homem, a cidade passou de líder indisputável dos gregos para um pequeno jogador na cena local”, diz o historiador Nigel Kennel. Pela primeira vez, os espartanos viram exércitos inimigos em suas fronteiras.
Além disso, um grande personagem entrava em campo. Os macedônios, sob Felipe II (382-336 a.C.), criariam um novo tipo de exército, baseado no uso combinado de infantaria e cavalaria.
Esparta acabou deixada de lado por Felipe e seu filho, Alexandre, o Grande. Mas a Liga do Peloponeso foi extinta em 338 a.C., e todos os antigos aliados juntaram-se aos exércitos macedônicos, quando conquistaram a Pérsia.
Sociedade espartana girava em torno da guerra / Crédito: Renato Faccini
Com Esparta isolada e acumulando derrotas no século 3 a.C., o rei Cleômenes III, que ascendeu ao trono em 236 a.C., estabeleceu reformas radicais, confiscando e dividindo as terras igualmente, transformando periecos em cidadãos e adotando um exército ao estilo macedônico.
Confiante na modernização, começou a conquistar o entorno, a partir da cidade-estado de Argos, a única cidade da região a não se unir à Liga do Peloponeso. A Liga Aqueia, que reunia os ex-aliados de Esparta, reagiu unindo-se à Macedônia. Cleômenes foi derrotado na Batalha de Selásia, em 222 a.C.
Seguiram-se dez anos de vácuo no poder, até que, em 207 a.C., o tirano Nabis executou os membros das duas famílias reais, exilou ou matou os nobres resistentes e libertou os hilotas. De forma ainda mais subversiva, construiu muros em Esparta. Uma guerra internacional foi convocada contra ele, trazendo como aliada a nova potência internacional, Roma.
Em 189 a.C., a Liga Aqueia decidiu por fim à independência de Esparta. A cidade foi capturada no ano seguinte e as Leis de Licurgo, revogadas. Incorporada a Roma em 146 a.C., a cidade se tornaria atração turística para romanos ricos que queriam ver os hábitos bárbaros de seus habitantes. Triste fim para os melhores guerreiros da História.
Império da modéstia
Os espartanos preferiam se referir às suas terras pelo nome da região, Lacônia ou Lacedemônia. Daí vinha a letra lambda — λ — em seus escudos.
De acordo com as lendas gregas, Lacedemon era um filho de Zeus com a ninfa Taigete, que fundou um reino na Península do Peloponeso, uma vasta região que é ligada ao continente por um istmo de 6,3 km de largura. Ele batizou seu país em sua própria homenagem, e a capital, em honra à esposa, Esparta.
A cidade era formada por quatro vilas com uma acrópole central, onde havia o templo de Ártemis Órtia e o dedicado a Atena Calcieco. As ruínas são exíguas. “Não há sinais de edificações de nenhuma natureza, exceto os templos. O que faz muitos suporem que as construções eram de madeira”, diz a historiadora Maria Aparecida de Oliveira Silva, da USP.
Até o reinado do tirano Nabis, não havia muros, uma manifestação da confiança que depositavam na ponta de suas lanças. O general ateniense Tucídides (460-395 a.C.) visitou a cidade e escreveu, profeticamente:
“Suponha, por exemplo, que a cidade de Esparta se tornasse deserta e que apenas os templos e as fundações dos prédios sobrevivessem. As gerações do futuro achariam difícil acreditar que o lugar foi tão poderoso como representado”.
Femmes fatales
Diferente das submissas atenienses, as espartanas eram liberadas. Outros gregos ficavam chocados com seu despudor, usando pouca roupa e não se incomodando em dizer o que lhes vinha à telha. As Leis de Licurgo proibiam usar maquiagem ou joias - talvez por isso fossem famosas por sua beleza. Eram mais altas que as outras gregas porque as famílias não privilegiavam os filhos homens na hora da refeição.
Arte e guerra
Pela lei, os cidadãos espartanos só podiam guerrear ou administrar a cidade. Mas as artes, como a poesia, a música e a dança, eram praticadas na cidade por homens e mulheres.
Vida simples
As roupas tinham de ser extremamente despojadas, pois vaidade era proibida por lei. Era difícil distinguir um hilota de seu senhor apenas pelas vestimentas. A única vaidade permitida aos espartanos era deixar o cabelo crescer - e eles tratavam as madeixas com grande dedicação. No último dia da Batalha das Termópilas, persas ficaram boquiabertos de ver espartanos se penteando.
Refeições coletivas
Todo homem era obrigado a fazer ao menos uma refeição diária com seus companheiros de tropa, colaborando com caça e o produto de suas terras. Isso era coisa séria: quem não pudesse trazer nada para o rancho era excluído do exército e perdia seus direitos políticos.
Estilo Borat
O casamento espartano começava com um ritual de estupro. A noiva raspava a cabeça e se vestia de homem, e era raptada da casa dos pais. Frequentemente, ocorria um estupro de verdade. E pronto, estavam casados. A "cerimônia" humilhante era uma forma de impor submissão às mulheres. Mesmo assim, as espartanas tinham fama de mandar no marido.
Dinheiro pesado
Apenas os periecos podiam fazer comércio e artesanato. A cunhagem de dinheiro em metais preciosos também era vetada pelas leis espartanas. Em vez disso, eles usavam pesadas barras de ferro como moeda, de forma a evitar a acumulação de capital.
Homossexualidade
As Leis de Licurgo proibiam a homossexualidade. Mas, como outros gregos, espartanos tinham um tutor mais velho quando eram jovens, e falavam frequentemente em amor duradouro entre esses pares. Se esse amor era platônico ou físico, é um tema ainda hoje controverso.
4 mil anos atrás, a avançada civilização em Creta era confrontada por brutais invasores — os futuros gregos
VITOR LIMA PUBLICADO EM 10/07/2019
Representação de guerreiros gregos em combate - Wikimedia Commons
Os ancestrais mais antigos do povo grego de que se tem conhecimento são os pelágios. O nome significa aqueles que navegam em alto mar. Desde o terceiro milênio antes de Cristo, eles foram se instalando em toda a península balcânica, incluindo a enorme ilha de Creta. Viviam da caça, da pesca e de uma agricultura rudimentar.
Por volta de 2000 a.C., a cidade de Cnossos (em Creta) despontou com seus imensos palácios. Mais tarde, dominou política e economicamente toda a ilha. Uma das características da civilização cretense era a igualdade social entre homens e mulheres.
Cerca de 500 anos depois, chegavam grupos indo-europeus — aqueus, jônios e eólios. Em um século, eles derrubaram o poder de Cnossos e das mulheres. As cidades de Tirinto, Argos e principalmente Micenas entravam em ascensão — por isso o período é conhecido como micênico.
Lá pelo ano de 1200 a.C., uma nova invasão provocou um rebuliço tão grande que balançou até o poderoso Egito, do outro lado do Mediterrâneo.
De nada adiantou construir palácios nas altas colinas da península do Peloponeso, no sul da Grécia, para impedir a invasão de inimigos. A sofisticada cidade de Micenas sucumbiu ao ataque de um povo primitivo que vinha da região central dos Bálcãs. Os dórios, que não dominavam a escrita nem tinham vocação comercial, arrasaram a civilização micênica. Era o fim da época de esplendor.
Mas foi a partir do choque entre esses dois povos antagônicos que, séculos depois, nasceria o que conhecemos hoje como civilização grega. Até os tempos da Guerra do Peloponeso, Esparta (e Corinto e outras cidades do sul) seriam identificadas como linguistica e culturalmente dóricas, enquanto Atenas falava o grego ático, um sub-dialeto do jônico.
A invasão
A razão da invasão dos dórios é um tema de controvérsia. “Não há registros que comprovem seus reais motivos”, explica Maria Regina Candido, professora de História Antiga da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). “Alguns arqueólogos acreditam que eles estariam fugindo de um possível resfriamento de suas terras. Outros dizem que os dórios partiram para conquistar outras cidades em razão do seu crescimento demográfico”, acrescenta.
Independentemente dos motivos, quando decidiram declarar guerra, os dórios, que, sem exagero, podem ser considerados os primeiros bárbaros da história, sabiam o que iriam encontrar. Os homens do Exército micênico estavam determinados a expulsar os invasores de qualquer forma.
A invasão / Crédito: iStock
Protegidos por pesadas couraças reforçadas com placas de estanho, receberam os forasteiros com arcos e pequenas lanças ornadas com cenas de caça, além de detalhes em ouro e prata. Muitos enfrentavam os inimigos montados em carros puxados por cavalos — peculiaridade militar da região.
Mas o que, a princípio, parecia se tratar de uma guerra de cartas marcadas transformou-se num pesadelo e num duelo desigual para os micênicos. A agilidade dos animais e a beleza de suas armas não foram suficientes para rechaçar a supremacia bélica dos dórios.
Apesar de usar armamentos e uniformes mais simples, os inimigos dominavam o manejo e a fabricação de armas de ferro, mais resistentes que os frágeis armamentos de bronze dos soldados micênicos. Mais uma vez a tecnologia decidia uma guerra.
Barbaridade
A vitória não demorou, e o saldo foi negativo para apenas um dos lados — para azar dos habitantes do Peloponeso. O cenário era desolador. No campo de batalha jaziam centenas de corpos degolados e pisoteados, a maioria de cidadãos micênicos. Os feridos agonizavam, muitos já sem braços. Pedaços de mãos misturavam-se a inúteis armas de combate. Nas cidades, além das ruínas das casas e dos palácios incendiados pelos invasores, restaram intactos apenas roupas e utensílios domésticos da população. O resto foi devidamente saqueado pelos truculentos dórios.
Com o colapso da sociedade micênica, a Grécia teria mergulhado em um período de obscuridade conhecido como Idade das Trevas. Estudos recentes afirmam que tal período nunca existiu, que tudo não passa de um “remendo” criado por historiadores contemporâneos na cronologia grega para fazer com que ela se adaptasse à cronologia egípcia, mais bem documentada.
Seja como for, as comunicações e as artes de Micenas foram brutalmente arrasadas pelos dórios, que as julgavam desnecessárias. A escrita, chamada de linear B, também desapareceu. Mas, sabiamente, os invasores assimilaram da cultura dominada as técnicas agrícolas e o desenvolvimento da cerâmica e da metalurgia. “Conforme foram estendendo seu domínio pela Grécia continental, eles instauraram o regime de cidade (pólis) em substituição ao de clã (famílias)”, conta a professora Maria Regina.
Os Espartanos / Crédito: Reprodução/YouTube
Cada cidade desenvolveu seu próprio sistema de governo, suas leis, sua moeda e até seu calendário. A cidade tornou-se a unidade básica do governo grego — como se cada cidade formasse um país. Foi assim que, no século 9 a.C., nasceram as bases da civilização grega. “Esparta e Atenas começaram a se impor às demais cidades-estados. O idioma e a religião foram unificados, e o culto aos deuses do Olimpo se propagou por toda a região”, conclui a historiadora. Uma invasão bárbara foi o embrião da Grécia antiga.
Olimpíadas
Um novo período começa em 776 a.C. com a realização dos primeiros Jogos Olímpicos. A Grécia era dividida em pequenas províncias com autonomia, em razão das condições topográficas da região — cada planície, vale ou ilha é isolada de outra por cadeias de montanhas ou pelo oceano. A atividade econômica tinha como base agrupamentos familiares, uma tradição trazida pelos aqueus. A terra, a colheita e o rebanho pertenciam à comunidade.
A primeira Olimpíada da Grécia / Crédito: Wikimedia Commons
Ao mesmo tempo em que os dórios perdiam poder, a população crescia além de sua capacidade de produção nas terras cultiváveis. Alguns grupos passaram a manejar armas para dominar as melhores terras. Na base da força, acumularam riqueza e poder. Passaram a chamar a si mesmos de aristoi (os melhores).
A partir de 750 a.C., os gregos — provavelmente os mais pobres atrás de melhores condições de vida — iniciaram um longo processo de expansão, firmando colônias na Sicília, no sul da Itália, no sul da França, na costa da península Ibérica, no norte da África e nas costas do mar Negro.
Na cidade-estado grega, o treinamento para a guerra começava cedo e era feroz
VINÍCIUS CHEROBINO PUBLICADO EM 07/06/2019
- Reprodução
Os homoioi, os cidadãos espartanos, cresciam comendo mal e viviam com fome, o prato típico e orgulho da cidade-estado era uma sopa à base de porco, vinagre, sal e (muito) sangue suíno, enfrentavam-se entre si e suportavam um treinamento militar tão intenso que até soldados do Bope pediriam para sair na primeira semana.
Os filhos da elite da cidade tinham vida dura desde o berço. Isso se o bebê sobrevivesse ao parecer do conselho dos anciãos – há referências textuais em Xenofonte e Plutarco de que bebês fora dos padrões da cidade eram mortos, arremessados ou abandonados, no monte Taigeto.
"O infanticídio era comum na Grécia antiga, mas Esparta era a única a praticá-lo colocando a decisão nas mãos do Estado, e não na dos pais", afirma Paul Cartledge, autor de Spartans e professor de cultura grega na Universidade de Campidge. "A palavra final era do conselho dos anciãos: eles é que decidiam se a criança estava apta a continuar viva ou teria de ser morta."
A prática do infanticídio era apenas o início da educação espartana, a agoge, focada no militarismo, na disciplina e na obediência completa. Depois de passar os primeiros 7 anos de vida com a família, os meninos eram enviados para centros de treinamento para serem educados e transformados em guerreiros. Até os 11 anos, o jovem espartano passava pelo primeiro ciclo, a meninice, em que recebia o treinamento militar básico.
Cultura, para quê?
O menino estava ali para aprender a manejar lanças, espadas e escudos, além de praticar esportes como corrida e natação. A alfabetização não era, de acordo com Plutarco, o mais importante. O foco era a obediência, não ler e escrever. Eles aprendiam as letras quanto fosse necessário: todo o restante do treinamento era direcionado para resposta rápida aos comandos, resistência, força e vitória nas batalhas, escreveu Plutarco sobre a vida de Licurgo, o principal legislador espartano.
Young Spartans Exercising, 1860, por Edgar Degas
No dia a dia, a educação era supervisionada por um magistrado responsável, mas a disciplina, e as punições, era imposta pelos colegas mais velhos. Sessões de açoites eram comuns, assim como humilhações públicas.
Quem já passou por uma escola sabe bem que esse modelo tem o potencial de incentivar a crueldade dos mais velhos contra os mais novos. Mas o uso da crueldade do grupo não era algo inesperado. "A ideia básica era deixar os meninos duros, resistentes, no melhor de sua forma física. Acima de tudo, eles tinham que ser autossuficientes e capazes de suportar a dor", afirma Cartledge.
Entre os 12 e os 15 anos, o rapaz passava pelo segundo estágio da agoge. Nessa fase, além dos exercícios tradicionais, havia maior foco no trabalho em grupo, além da maestria no uso das armas. Corridas com cavalos e com bigas também começavam a acontecer. Era definido um mestre, um homem mais velho que acompanhava individualmente os avanços do protegido - tanto militares quanto pessoais. Há discussão acadêmica sobre isso, mas é grande a probabilidade de que a educação entre discípulo e mestre envolvesse relações homoeróticas - traço comum nas cidades-estado gregas.
É durante o segundo ciclo que os meninos recebiam apenas um pedaço de pano para usar como túnica, a única roupa que podiam vestir durante o ano em uma região em que a temperatura chega aos 40 ºC no verão e -5 ºC no inverno. A restrição de comida também era parte do treinamento. Os jovens soldados recebiam apenas o necessário para sobreviver (inclusive da melas zomos) - quantidade que não chegava nem perto da saciedade. Constantemente com fome, os jovens só tinham uma solução: roubar comida. Para os espartanos, não havia problema algum em furtar alimentos - o problema estava em ser pego.
Outro caso contado por Plutarco que ajuda a ilustrar a fome e a obediência cega dos aprendizes de soldado, é a história de um jovem conseguiu apanhar um pequeno lobo selvagem para comê-lo. Ao ser descoberto, manteve o lobo sob a sua capa enquanto ouvia o sermão do supervisor. “Sem demonstrar dor, o menino ficou ouvindo o sermão enquanto o lobo o atacava embaixo da capa”, afirma Maria Aparecida de Oliveira Silva, professora de história antiga na USP e autora do livro Plutarco Historiador: Análise das Biografias Espartanas.
De acordo com Plutarco, o jovem suportou o ataque, até que morreu. Mais do que revelar algo factual, ressalta Maria Aparecida, esse tipo de história era fundamental para provar como se comportava um verdadeiro espartano. “Tais episódios eram contados para ilustrar a coragem dos espartanos, bem como a obediência cega aos seus costumes e às suas leis.”
A partir dos 16 anos, começava a fase final da preparação, que ia até os 20. Era nesse momento que o treinamento passava a ser prático. Os hoplitas - guerreiros com grandes escudos redondos, lanças longas sobre o ombro direito e espada embainhada - eram unidos em grupos de até 15 para exercícios de guerra.
Cada grupo era chamado de falange. Nas batalhas, as falanges se enfrentavam até que um soldado cedesse e as mortes começassem a acontecer aos borbotões. Além da força física e da resistência, era necessário muita confiança no seu parceiro ao lado - se ele correr ou cair, a lança rival aproveita o espaço e você está morto.
É por isso que um ditado comum sobre as falanges é que elas são tão fortes quanto o seu elo mais fraco. O treinamento espartano desde o início enfatiza isso - a falange deveria ser uma entidade única.
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E isso justificava o treinamento rígido. Durante toda agoge, o papel do Estado espartano era gigantesco. Não se tratava apenas de deixar o filho na escola todas as manhãs e ele crescer até cursar uma universidade, mas a entrega completa do futuro cidadão à Esparta. E só havia um caminho possível: ser soldado.
"Aos 7 anos, a criança era realmente doada ao Estado para a educação e, a partir dos 18 anos, começar a ter papel na vida da cidade. Basicamente, o objetivo final da agoge era incutir a ideia de que para viver em Esparta era preciso deixar de lado prazeres e interesses individuais", afirma José Francisco de Moura, historiador especializado em Esparta e professor de história na Universidade Veiga de Almeida.
Amazonas
Não há muitas evidências arqueológicas sobre a educação feminina, mas os textos clássicos indicam que as meninas recebiam algum treinamento, cujo foco estava na excelência física. Em resumo, as espartanas eram vistas como parideiras - as futuras mães dos guerreiros.
"Como resultado da ênfase na reprodução, as meninas eram criadas para serem o tipo de mãe que Esparta necessitava. Uma mãe precisa ser saudável, educada de maneira apropriada e com bastante conhecimento dos valores espartanos", escreveu Sarah B. Pomeroy em Spartan Women.
"Apenas mulheres que morriam durante o parto podiam ter seu nome escrito na lápide, o que acontecia somente com os homens que morriam em batalha." Na prática, o que as evidências arqueológicas dão conta é que as mulheres espartanas estavam em forma - as estátuas mostram músculos definidos nos paços e nas coxas. Além disso, tinham fama de serem lindas: Helena, a mulher mais bela do mundo antigo, antes de ser de Troia e de virar a cabeça de Páris, era Helena de Esparta.
O casamento era uma instituição completamente diferente entre os espartanos. Feito por arranjos entre as famílias dos homoioi, a união não envolvia uma vida em conjunto entre marido e mulher. Ao contrário, o homem devia visitá-la apenas durante a noite para o ato sexual e voltar para a sua falange.
Por isso, não era raro um homem de 30 anos jamais ter visto a sua mulher à luz do dia. Afinal, ele só tinha permissão de começar a morar com a esposa a partir dos 30 anos. A cerimônia era, evidentemente, espartana. A mulher tinha os seus cabelos cortados curtos, como os de um homem, e recebia uma toga masculina. Era nessa noite que o marido iria invadir a casa da esposa pela primeira vez para consumar o casamento. E voltar ao grupo assim que acabasse.
Admirada por priorizar o público sob o privado, Esparta foi a inspiração de uma série de obras-primas, como a República de Platão, e até de crimes contra a humanidade - a eugenia, popular no começo do século 20, usava o exemplo espartano como base.
Longe da idealização clássica ou moderna, os poucos artefatos recuperados e as escassas referências textuais ajudam a compor um retrato de uma cidade na qual a vida não era nada fácil - e onde a mão do Estado entrava nos lares em busca de crianças que seriam transformadas em guerreiros.
Guerra perpétua
Esparta vivia em permanente estado de sítio. Surgida como um pequeno conjunto de aldeias em torno do século 10 a.C., Esparta se desenvolveu agressivamente nos dois séculos seguintes para se tornar a maior cidade-estado grega em território.
A base da sua expansão estava na aquisição de terras, de cidadãos livres para pagamento de taxas e de escravos, chamados hilotas - prisioneiros de guerra de outras regiões, que eram obrigados a realizar o trabalho braçal.
Apesar de a escravidão ser um traço comum em praticamente todas as comunidades gregas daquele período, os espartanos foram além. Descartaram a tradição quando, diferentemente dos rivais, como Atenas e Argos, passaram a escravizar os seus próprios vizinhos gregos.
Os primeiros a cair foram os messênios, que tinham a mesma etnia dórica dos espartanos. Estimativas dão conta de que havia de 10 a 20 vezes mais messênios e cidadãos livres do que cidadãos espartanos na cidade, por volta de 500 a.C.
Os guerreiros mais conhecidos da Antiguidade vinham de uma sociedade que girava em torno da guerra, com características singulares.
JOSEANE PEREIRA PUBLICADO EM 03/05/2019
- Arquivo AH
Os meninos eram apartados de casa quando faziam 7 anos. O Estado se encarregava de treiná-los como guerreiros. Não qualquer guerreiro. Eles seriam soldados espartanos, os militares mais capacitados, temidos, odiados e perfeitos da Antiguidade. Mas qual era o segredo da cidade para forjar militares tão formidáveis? A origem da tradição talvez resida nas Leis de Licurgo, legislador do século 8 a.C. que deixou um código determinando praticamente tudo na vida de um espartano.
Por volta do ano 1000 a.C., a cidade foi conquistada pelos dóricos, que se consideravam descendentes do semideus Héracles (o Hércules romano). Eles estabeleceram uma monarquia dual, com reis de diferentes dinastias. “A dualidade levava a conselhos divididos, rivalidades dinásticas, ansiedades de sucessão, luta faccional”, diz Paul Cartledge, da Universidade de Cambridge. Entretanto, as decisões mais importantes eram tomadas por cinco representantes eleitos e pela Gerúsia, formada por 28 cidadãos com mais de 60 anos – sempre com base nas Leis de Licurgo. E o principal tópico da legislação era que o cidadão de Esparta não trabalharia na terra, não praticaria o comércio nem ganharia a vida como artesão. A única atividade nobre para o cidadão era a guerra. E eles passavam a vida treinando para ela.
Enquanto em outras cidades gregas as pessoas dividiam o tempo entre o treinamento militar e os afazeres cotidianos, a vida do espartano era focada no combate. O Estado estava tão impregnado na vida privada que cabia à Gerúsia decidir quais bebês deveriam viver (nas outras cidades, que também praticavam o infanticídio, a decisão cabia ao pai, não ao governo).
Comportamento
O comportamento de um espartano era bastante curioso. Até os 30 anos, ele não tinha uma casa para chamar de sua. Morava com a tropa, em geral em barracos, na periferia da cidade ou em tendas de campanha, algo esperado para quem nasceu para guerrear. Segundo o historiador Scott Rusch, autor de Sparta at War, a razão é que eles eram apenas jovens cidadãos, ainda que focados no combate. Como não eram soldados, não fazia sentido viver em quartéis.
Em uma Esparta com poucas mulheres que passavam boa parte do tempo longe dos filhos e dos maridos, a condição feminina era bem distinta se comparada a outras cidades gregas. Elas faziam exercícios ao ar livre, usavam pouca roupa e tinham senso de humor. Um ateniense perguntou a Gero, mulher do general Leônidas, por que as espartanas mandavam nos homens. “Porque somos as únicas que podem gerar homens”, respondeu. Elas podiam ter até casamentos poliândricos (uma mulher com mais de um parceiro), se os maridos concordassem – como a geração de novos guerreiros era a prioridade, casamentos múltiplos tornaram-se um jeito de resolver o problema.
Império da Modéstia
Os espartanos preferiam se referir às suas terras pelo nome da região, Lacônia ou Lacedemônia. Daí vinha a letra lambda – λ – em seus escudos. De acordo com as lendas gregas, Lacedemon era um filho de Zeus com a ninfa Taigete, que fundou um reino na Península do Peloponeso. Ele batizou seu país em sua própria homenagem, e a capital, em honra à esposa, Esparta.
A cidade era formada por quatro vilas com uma acrópole central, onde havia o templo de Ártemis e o dedicado a Atena. As ruínas são poucas. “Não há sinais de edificações de nenhuma natureza, exceto os templos. O que faz muitos suporem que as construções eram de madeira”, diz a historiadora Maria Aparecida de Oliveira Silva, da USP. Até o reinado do tirano Nabis, não havia muros, uma manifestação da confiança que depositavam na ponta de suas lanças. O general ateniense Tucídides (460-395 a.C.) visitou a cidade e escreveu, profeticamente: “Suponha, por exemplo, que a cidade de Esparta se tornasse deserta e que apenas os templos e as fundações dos prédios sobrevivessem. As gerações do futuro achariam difícil acreditar que o lugar foi tão poderoso como representado”.
Femmes Fatales
Em comparação com outras mulheres da Grécia, as espartanas eram liberadas. Outros gregos ficavam chocados com seu despudor, usando pouca roupa e não se incomodando em dizer o que lhes vinha à telha. As Leis de Licurgo proibiam o uso de maquiagem ou joias - talvez por isso fossem famosas por sua beleza natural. Eram mais altas que as outras gregas porque as famílias não privilegiavam os filhos homens na hora da refeição, podendo as mulheres receber uma alimentação também satisfatória.
O casamento espartano começava com um ritual de violação. A noiva raspava a cabeça e se vestia de homem, e era raptada da casa dos pais. Frequentemente, ocorria uma relação violenta. E pronto, estavam casados. A "cerimônia" humilhante era uma forma de impor submissão às mulheres -- mesmo assim, as espartanas tinham fama de mandar nos maridos.
Homossexualidade
As Leis de Licurgo proibiam atos homossexuais. Mas, como outros gregos, espartanos tinham um tutor mais velho quando eram jovens, e falavam frequentemente em amor duradouro entre esses pares. Se esse amor era platônico ou não, é um tema ainda hoje controverso.
Localizada na região do Peloponeso, na sub-região da Lacônia, nas margens do rio Eurotas. Características sócio–políticas, cidade–estado, monarquia dualista por que tem dois reis, sociedade escravocrata e elite militarista, conservadora, provinciana e culturalmente atrasada. Aristocrática com governo de estado, tradições e propriedades. Sistema Comunista onde as pessoas da eliteque vivem somente para elas, a propriedade é do estado, viver igual, comer a mesma coisa, vestir a mesma roupa, todos vivem no mesmo padrão, característica muito forte do espartano é não existir luxo e sim igualdade entre os sexos e todos. Na Ilha de Santorini localizava-se o vulcão que destruiu Creta e 2/3 da mesma. A Ilha de Delos é sagrada e santuária repleta de templos, destaca-se o Templo de Apolo e o mais importante centro religioso.
A SOCIEDADE espartana sempre foi a mesma, ela não mudava. A elite dirigia o estado, administrava e guerreava eram as duas únicas funções. A sociedade dividia-se em três grupos: ESPARTANOS ou ESPARCIATAS eram a classe dominante, habitantes com cidadania plena, mais ou menos 15.000 pessoas. PERIECOS encaixavam-se todos os comerciantes e artesãos, mais ou menos 60.000 pessoas. HILOTAS eram o restante da população, formado por escravos do estado e trabalhadores rurais, mais ou menos 200.000 pessoas. O mundo espartano foi destruído pelos periecos que juntaram-se com os hilotas.
O SISTEMA POLÍTICO de Esparta era Monarquia Oligárquica Militar Aristocrática, por serem militares aristocráticos, uma classe que se apóia na tradição e na propriedade. Usa a Monarquia por que tem 2 reis, e é Oligárquica por que é governada por um grupo, é Aristocrática por serem militares aristocráticos, uma classe que se apoia na tradição e nas propriedades. A Assembleia era formada por espartanos masculinos, a mulher não tinha voz política, o papel dos homens era aprovar as leis, elegiam o senado, e quando um homem completava 60 anos ele concorria para o senado. O Senado era formado por espartanos masculinos com mais de 60 anos, o grupo era composto por mais ou menos 60 homens, faziam as leis, elegiam os éforos. Éforos fiscalizavam os reis e magistrados, eram administradores do mundo espartano, eleitos pela assembleia e depois eram escolhidos pelo senado.
Os 2 Reis eram chefes, um religioso e o outro militar, não faziam nada nem administravam nada. A EDUCAÇÃO ESPARTANA em geral tinha a proposta de transmitir o conhecimento, mas o grego queria fazer além da transmissão dos valores e do conhecimento para a formação do caráter, que é muito importante para eles e insistiam muito com um conselho especial para isso. Este sistema era somente para a elite, eles não trabalhavam, só estudavam. Periecos e Hilotas não participavam da educação, por que era direcionada para o militar, estudavam danças guerreiras para treinar o corpo para a guerra. Dançavam nús. O conhecimento todo para formar um militar. Eles não utilizavam livros religiosos por que a religião grega era uma confusão, não sabiam o que fazer para agradar os deuses, não tinham muita moral. O cristianismo diz como praticar para agradar a Deus e ensina uma moral religiosa. O importante para o grego era praticar sacrifícios para agradar os deuses como VÊNUS, que gostava de pombas, DIONÍSIO que gostava de bodes, mas não tinha moral religiosa, pois sacrificavam os bichos e quando morriam não iam para o Olimpo, por que lá era somente para os Deuses. Os instrumentos mais usados eram a ARPA, a FLAUTA PÃ e a LIRA.
A MULHER ESPARTANA era fisicamente frágil e não praticavam brigas, lutas e nem esportes brutais. As mulheres aprendiam a música, a dança, a ler, escrever, jogar dardos, correr e saltar. A POESIA servia para aprender as tradições guerreiras, por ser patrióticas como a ILÍADA, a ODISSÉIA basicamente por falar das lutas, e assim a música e o esporte também tinham esta finalização.
O SÉCULO DE PÉRICLES – Séc. V – foi marcado pelas grandes obras em 3 aspectos: POLÍTICO – reconstrução da cidade de Atenas, remuneração dos cargos, aumento das cleúrquias, que eram as colônias vinculadas à Atenas. Criou a Liga de Delos, que era uma ilha sagrada onde ficava todo o dinheiro. Mais tarde Péricles tirou todo o dinheiro da ilha e foi considerado roubo, ele levou para Atenas e isto gerou um problema. Pegou os navios da ilha de Delos para aumentar o comércio e as cidades da liga começaram a contestar porque o dinheiro teria que permanecer na liga, assim como os navios para defender a liga, caso houvesse uma invasão Persa. ECONÔMICO – a partir daqui tiveram repercussões e aumento do comércio. CULTURAL - reconstrução da cidade de Atenas, proteção aos artistas e sábios e a arrumação do Parthenon. Atenas passou a ser a maior concentração de artistas e pensadores, pois investiam muito nos artistas e nos seus aprendizados.