Mostrando postagens com marcador Guerra da Coreia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guerra da Coreia. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de julho de 2022

A Coreia do Sul.

A Coreia do Sul.

A Coreia do Sul é chamada de República da Coreia, ou somente por Coreia. País da Ásia oriental, localizada ao sul da Península da Coreia. Sua única fronteira terrestre é com a Coreia do Norte. Toda a Coréia foi um país até 1945. A leste está o Mar do Japão e ao sul o Estreito da Coreia que separa o Mar Amarelo do Japão. O território coreano do sul compõe 3 mil ilhas. Os destaques são Jeju, Ulleungdo e os Rochedos de Liancourt. A Capital da Coreia do Sul é Seul, a segunda mais populosa do mundo, perdendo somente para Tóquio, no Japão.

A Coreia é uma das civilizações mais antigas do mundo. A arqueologia possui provas da ocupação desde a época do Paleolítico Inferior.

A História da Coreia é composta de guerras e invasões, muitas vezes chinesas e japonesas. A República moderna iniciou em 1948. A Guerra da Coreia foi de 1950 – 1953. As eleições presidenciais sofreram grandes irregularidades e só acabaram em 1987, quando ocorreram as eleições diretas e o país passou a ser uma democracia multipartidária. Hoje sua economia é a 13ª maior do mundo e é um dos países mais desenvolvidos, principalmente em tecnologias e comunicações. É o terceiro país com mais usuários em internet e líder na produção de aparelhos eletrônicos, líder na indústria e construção naval, sem contar que a sua estrutura é uma das mais avançadas do mundo. Uma das maiores companhias é a Hyundai. Desde os anos 2000, a Coreia foi muito conhecida pela cultura pop, músicas, dramas de tv e cinema, chamado de Onda Coreana. No idioma coreano a Coreia é chamada de “O grande povo de Han, ou A grande nação de Han, ou País de Han. O nome Han se refere a antiga Confederação de Samhan da Era dos 3 Reinos da Coreia. A palavra deriva da Dinastia Goryeo que adotou o nome em referência ao antigo Reino de Koguryo.

A História da Coreia inicia com a fundação de Joseon (Gojoseon) da dinastia do século XIV em 2333 a.C. por Dangun de acordo com a mitologia de fundação da Coreia. Gojoseon aparece nos registros chineses no início do século VII. Gojoseon controlava a península e partes da Manchúria. Em 108 a.C a Dinastia Han derrotou Wilman Joseon e instalou 4 comandantes no norte do território, mas 3 recuaram para oeste. O comando do Jun de Lelang foi destruído e sua força diminuída, virando apenas centro comercial até ser conquistada por Goguryeo em 313.

Os três Reinos da Coreia.

No início os maiores estados eram: Buyeo, Okjeo, Dongye e Samhan. Os emergentes foram: Goguryeo, Baekje e Silla que começaram a controlar tudo como os 3 reinos. Goguryeo era o maior e mais poderoso estado militar. Sua idade do ouro foi com o comando de Gwanggaeto, o grande e seu filho Jangsu. Ocorreu a Guerra Goguryeo-Sui, quando Goguryeo derrotou um exército muito grande, com mais ou menos um milhão de homens. Baekje era uma potência marítima e foi importante na disseminação do budismo, além de ter sido uma potência militar  na época de Geunchogo, mas foi derrotado por Gwanggaeto. Silla era o menor e mais fraco dos reinos, mas fez alianças diplomáticas com reinos poderosos e com a China Tang. A unificação dos 3 reinos foi feita por Silla em 676. Balhae controlava a parte norte de Goguryeo. As relações entre a China e a Coreia eram tranquilas nesse tempo. Durante os séculos VIII e IX, Silla dominou os mares e o comércio entre a China, Coreia e o Japão, no tempo de Jang Bogo. Criaram comunidades na China em Shandong, no Rio Yangtze. Silla se tornou um país próspero e a capital Gyeongiu era a 4ª maior cidade do mundo.

Os budistas coreanos ganharam prestígio entre os budistas chineses. Acredita-se que o Jikji foi o primeiro livro impresso da história. Tripitaka koreana é a coleção mais completa de textos budistas.

Em 936, os 3 reinos foram unidos por Wang Geon, descendente da nobreza de Goguryeo e escolheu Goryeo como estado sucessor. Balhae caiu para a Dinastia Liao da China em 926. E o príncipe herdeiro de Balhae fugiu para Goryeo, onde foi acolhido e incluído na família de Wang, unificando assim as duas nações sucessoras de Goguryeo. Goryeo inventou a prensa móvel e derrotou a Dinastia Liao. Promoveram o ensino, a cultura e aprendizagem. Em 1100 já tinham 12 universidades. O reino enfraquece no século XIII com as invasões mongóis e frequentes lutas. O príncipe herdeiro foi para a capital da Dinastia Yuan para jurar lealdade a Kublai Khan que aceitou e casou uma de suas filhas com o príncipe. Goryeo continuou a governar a Coreia. As duas nações se entrelaçaram e os reis coreanos casavam com as princesas mongóis, mas a última imperatriz yuan foi uma princesa coreana. No século XIV, Goryeo expulsou os mongóis, recuperou os territórios do norte, conquistou Liaoyang e derrotou as invasões dos turbantes vermelhos. Em 1392, o general Yi Seong-gye, recebeu ordens de atacar a China, mas deu meia volta com seu exército e deu um golpe. Yi Seong-gye, declarou o nome da Coreia de Joseon e mudou a capital para Hanseong (antigo nome de Seul). Os primeiros 200 anos de Joseon foram de paz. A ideologia predominante na época era o neoconfucionismo.

A invasão japonesa a Coreia.

Entre 1592 e 1598, o senhor feudal japonês Toyotomi Hideyoshi invadiu a Coreia, mas foi interrompido pelas forças de Joseon e o almirante Yi Sun sin e a ajuda de tropas chinesas da Dinastia Ming.

Em 1627 e 1637, os manchu, aproveitaram a situação de fraqueza da guerra de Joseon e invadiram e conquistaram a Dinastia Ming.

As relações foram normalizadas entre Joseon e a Dinastia Qing e viveram 200 anos de paz. Os reis Yeongio e Jeongio lideraram um renascimento da Dinastia de Joseon durante o século XVIII. No século XIX, a corrupção enfraqueceu o estado, aparecendo a pobreza e as rebeliões camponesas no país. Joseon se isolou como um eremita e falhou ao se proteger do imperialismo tendo que abrir as fronteiras. Ocorreu a Primeira Guerra Sino-Japonesa. Depois ocorreu a Guerra Russo-Japonesa. Depois a Coreia foi ocupada pelo Japão entre 1910 a 1945. No final da 2ª Guerra Mundial, os USA propuseram dividir a Coreia em uma zona estadunidense e outra zona soviética. A partir do paralelo 38º. Seul ficou sob o controle dos Estados Unidos. Em 1948 as Coreias ficaram conhecidas como a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. No norte um guerrilheiro antijaponês chamado Kim II sung obteve o poder com o apoio soviético. No sul, um político de direita Syngman Rhee foi nomeado presidente. Em 1949, o exército do sul reprimiu uma insurreição de camponeses na ilha de Jeju, matando 60.000 pessoas.

A Guerra da Coreia.

Em 25/06/1950, a Coreia do Norte invadiu a Coreia do Sul dando início a Guerra da Coreia. O conselho de segurança interviu com a ajuda liderada dos USA. A URSS e a China apoiaram a Coreia do Norte enviando soldados e equipamentos. Mais ou menos 2,5 milhões de pessoas morreram neste conflito.

O Pós-Guerra de 1960 a 1990.

Em 1960, um movimento estudantil e trabalhista (A Revolução de Abril) levou a renúncia do Presidente Syngman Rhee. Após um período de instabilidade política, Park Chung-hee liderou um golpe de estado, mesmo sendo criticado pelo seu mandato, a economia se desenvolveu e houve um rápido crescimento impulsionando as exportações. Em 1979, Park Chung-hee foi assassinado.

Em 1980, houve outro golpe de estado liderado pelo general Chun Doo-hwan, que assumiu a presidência, mas enfrentou protestos do povo pedindo a democracia e a legalidade nas eleições. Seu regime despótico foi até 1987, quando ocorreu s eleições diretas para eleger o novo presidente. Roh Tae-woo do Partido Democrático de Justiça, ganhou.

Em 1988, Seul organizou os Jogos Olímpicos de Verão.

Em 1996, a economia elevou o país a um patamar mais alto.

A crise financeira asiática de 1997, afetou um pouco a Coreia, mas em seguida se recuperou e continuou a crescer e é um dos principais tigres asiáticos.

Em junho de 2000, a Declaração de Paz e Prosperidade foi celebrada pelo Presidente Kim Dae-jung, em Pyongyang, capital da Coreia do Norte. Kim recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo trabalho a democracia, os direitos humanos e a reconciliação e a paz com a Coreia do Norte, na Coreia do Sul.

Em 2002, a Coreia do Sul e o Japão foram anfitriões da Copa do Mundo. Mais tarde, as relações foram abaladas devido ao conflito dos Rochedos de Liancourt.

Em 2004, um escândalo levou o Presidente Roh Moo-hyun ao impeachment, mas ele foi absolvido e permaneceu no cargo.

Em outubro de 2012, Park Geun-hye, filha do presidente Park Chung-hee, foi eleita primeira mulher presidente da história da Coreia do Sul.

Em abril de 2014, ocorreu o naufrágio do Sewol.

Em 2016, estourou uma crise política, Choi Soon-sil amiga da presidente, teria se envolvido em decisões do governo sem possuir um cargo público e isso afetou Park Geun-hye na presidência em 09/12, assumindo o primeiro ministro Hwang Kyo-ahn.

Em 10/03/2017, a presidente Park foi deposta no impeachment e detida. Em 09/05/2017, ocorreram as eleições antecipadas e Moon Jae-in assumiu em seguida.

A Coreia do Sul está rodeada pelo Mar Amarelo a oeste, o Mar do Japão a leste, o Estreito da Coreia e o Mar da China Oriental ao sul. Os principais rios são o Han e o Nakdong. A religião na Coreia do Sul é taxada por 56 % de irreligião (não tem preferência religiosa ou não possuem), 19% protestantes, 15% budistas, 8% católicos e 0,8% outras crenças. A língua oficial é o coreano, mas utilizam o inglês como segunda língua e é obrigatório nas escolas. O alfabeto hangul, coreano foi inventado no século XV. Dentre as cidades importantes estão: Seul, capital segunda mais populosa do mundo, Busan (principal porto do país), Incheon na região próxima a Seul, Daegu, Daejeon, Gwangiu e Ulsan. A Coreia do Sul é o sexto maior produtor de energia nuclear no mundo.

A arte coreana é famosa pela pintura, caligrafia e a cerâmica. A maior parte tem a temática religiosa e paisagista. Influenciada pelo budismo e confucionismo das dinastias antigas. O tambor ornamentado é chamado de dancheong. A roupa tradicional é conhecida como hanbok, hoje usada em cerimõnias especiais. A seleção de cores é característica das construções antigas dos reinos coreanos e das tumbas reais: o vermelho, azul, amarelo, branco e preto. Cores com propriedades especiais como os fenômenos naturais do vento, sol, chuva e calor. A literatura foi dividida entre clássica e moderna. A clássica abrange as obras escritas antes e durante o reino de Joseon. A maioria foi escrita com o alfabeto chinês, mas a literatura coreana é escrita em hangul. As obras narram histórias épicas, lendas, tradições antigas, registros históricos, crônicas de reis, entre outras. Ki Man-jung, Heo Gyung, Park Ji-won e Yi Eok são autores destacados de época. Gu-unmong, Hong Gil-dong Jeon e Hojil são algumas obras. A música está dividida entre tradicional e folclórica ou moderna. A dança tradicional é chamada de Hanguk Eumak, papel importante em cerimônias e eventos.

Os feriados são: ano novo em 01/01; 22, 23 e 24/02 seollal; 01/03 dia da independência; 01/05 dia do trabalho; 05/05 dia das crianças; 08/05 dia da família; 28/05 aniversário de Buda; 06/06 dia da petição; 17/07 dia da libertação; 15/08 dia da libertação; 29 a 1º de outubro Chuseok; 3/10 dia nacional da fundação; 09/10 dia do Hangul; 25/12 natal.

Por Vanessa Candia.

Prof. de História.  

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Em 1976, uma árvore quase provocou uma guerra entre as duas Coreias.

EM 1976, UMA ÁRVORE QUASE PROVOCOU UMA GUERRA ENTRE AS DUAS COREIAS

Foi preciso mobilizar a ONU para derrubar a planta de estimação do supremo líder da Coreia do Norte
THIAGO LINCOLINS PUBLICADO EM 11/12/2019
O episódio quase resultou em desgraça
O episódio quase resultou em desgraça - Wikimedia Commons
Às 7 horas do dia 21 de agosto de 1976, 23 veículos americanos e sul-coreanos chegaram, sem nenhum aviso formal, à Área de Segurança Conjunta, parte da Zona Desmilitarizada da Coreia.
Duas equipes compostas de oito engenheiros militares desceram dos automóveis. Suas armas: motosserras e machados. Seu alvo: uma árvore. Uma missão de vingança: três dias antes, a planta fora responsável pela morte de dois soldados dos EUA.
Estabelecida em 1953, após o fim da Guerra da Coreia, a Zona atua como uma área tampão entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Foi criada como parte de um acordo entre a Coreia do Norte, a China e o Comando das Nações Unidas.
Nos dois lados da região, que divide a península coreana pela metade, ainda hoje o clima é de constante tensão. Os exércitos estão sempre em prontidão. E foi assim que um álamo de 30 metros causou uma verdadeira tragédia.
A árvore bloqueava a linha de visão entre o posto de controle do Comando das Nações Unidas número 3 e o posto número 5. Como não conseguiam obter uma visão precisa do lado oposto, em 18 de agosto, cinco membros do Corpo de Serviço Coreano, escoltados por 11 soldados americanos e sul-coreanos, liderados pelo comandante Arthur Bonifas e o tenente Mark Barrett, foram instruídos a cortar os galhos da planta.
Enquanto aparavam, 15 soldados norte-coreanos, comandados pelo tenente Pak Chul, decidiram intervir. Aos berros, Chul mandou os adversários parar o ataque à planta. Explicou que a árvore era intocável, pois o próprio Grande Líder Kim Il-Sung a havia plantado pessoalmente e estava acompanhando o seu crescimento. Bonifas ignorou o apelo e ordenou que o ato fosse prosseguido.
Logo a seguir, um caminhão repleto de guardas norte-coreanos chegou ao local. Ignorado pela segunda vez, Pak ordenou: “Matem os bastardos!”. E o que se seguiu foi mais para filme de terror slasher que de guerra: Bonifas e Barrett foram atacados com os próprios instrumentos com que cortavam a árvore. Sangraram até a morte.
O Comando das Nações Unidas colocou então em prática a Operação Paul Bunyan — nome dado em homenagem a um notório lenhador mítico no folclore dos Estados Unidos. O objetivo era um só: derrubar a árvore da discórdia.
Acompanhando os oito engenheiros militares, foram enviados 64 soldados armados da Forças Especiais da Coreia do Sul e sete helicópteros de ataque. Soldados armados com mísseis e tanques esperavam um possível contra-ataque. Ao todo, a operação contava com 813 combatentes.
A Coreia do Norte enviou 200 guerreiros munidos de metralhadoras e fuzis. Mas decidiram engolir o orgulho diante da superioridade inimiga. Em 42 minutos, a planta de Kim Il-Sung estava no chão. O toco foi substituído por um monumento em 1987.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Em 1948, a Coreia do Norte conquistava a sua independência.

NESTE DIA, EM 1948, A COREIA DO NORTE CONQUISTAVA SUA INDEPENDÊNCIA. O QUE HÁ COM ESSE PAÍS?

No dia 9 de setembro, a República Popular Democrática da Coreia foi proclamada. Entenda como surgiu o reino ermitão, e como sua história explica a obsessão atômica
CARLO CAUTI PUBLICADO EM 09/09/2019
None
Wikimedia Commons
Quando Kim Jong-il nasceu, dois arco-íris foram vistos no céu. Com 3 semanas de idade, já era capaz de andar. Na primeira vez em que pegou um taco de golfe, em 1994, fez 11 buracos numa tacada só. Durante sua vida, seria um ícone da moda mundial e inventaria o hambúrguer.
Seu filho, Kim Jong-un, que assumiu em 2011, aprendeu a dirigir aos 3 anos e ganhou uma corrida de iate aos 9. Já o patricarca Kim Il-sung havia espantado um navio japonês com pedrinhas e ganhou a guerra praticamente sozinho, matando centenas de soldados inimigos pessoalmente, estilo Rambo. 
Esta é a verdade alternativa sob a qual vive o Estado da Coreia do Norte. País pequeno, com território menor que o Amapá, 28 milhões de habitantes e governado por uma dinastia excêntrica de presidentes ou líderes hereditários, cujo poder é visto como literalmente sobrenatural.
O país eremita que se tornou a ameaça nuclear do século 21 se proclamou como república popular no dia 9 de setembro, com Kim Il-sung como primeiro-ministro. Afinal, como se deu toda essa história?
No princípio era a guerra.
Domingo, 25 de junho de 1950, 4h da manhã. Um dia chuvoso no 38° paralelo, a fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Em poucos minutos, o Exército norte-coreano, treinado por meses para a invasão, com 350 mil homens, 500 tanques de guerra e 2 mil peças de artilharia, abre fogo pesado contra as posições sul coreanas.
Logo em seguida, dez divisões de infantaria e uma divisão blindada atravessam a fronteira. É o começo da Guerra da Coreia, que não foi declarada – era uma invasão-surpresa, vinda de um Estado que não era reconhecido pela Coreia do Sul, nem a reconhecia.
Soldados e civis brandindo livros do Grande Líder /
Crédito: Getty Images
Uma guerra que quase deu certo para a Coreia do Norte. O Exército sul-coreano foi completamente surpreendido e demostrou grave desorganização. Os apenas 100 mil soldados sul-coreanos, mal equipados e com um péssimo treinamento, montaram uma pífia resistência. A notícia da invasão só chegou ao comando às 10h da manhã, seis horas após o início. Já na tarde do primeiro dia de guerra os aviões norte-coreanos bombardearam o aeroporto de Seul. Um começo fulminante.
“A divisão histórica da península coreana não foi feita pelas duas Coreias, e sim pela União Soviética e pelos EUA em 1945. E esse ponto ainda hoje é muito bem lembrado em ambas as Coreias, provocando bastante ressentimento”, explica Sangsoo Lee, pesquisador sênior especializado em questões coreanas do Instituto para as Políticas de Segurança e de Desenvolvimento de Estocolmo, na Suécia.
Foi por conta de uma extensão esquecida da Segunda Guerra. Em 9 de agosto, mesmo dia da explosão de Nagasaki, os soviéticos invadiam os territórios japoneses na Ásia continental. A Coreia havia sido engolida por uma manobra diplomática do Japão, em 1910.
Como aconteceu com a Alemanha, com a derrota, a península foi dividida em duas áreas de influência: a soviética no norte e a americana no sul. A fronteira foi marcada arbitrariamente no 38° paralelo, local onde os exércitos das duas superpotências se encontraram.
O clima logo esquentou. Entre 1949 e 1950 ocorreram vários incidentes na fronteira. Escaramuças pontuais se tornaram cada vez mais violentas. No verão de 1950, os norte-coreanos decidiram resolver isso de vez e, confiantes no apoio da União Soviética e da China, invadiram o sul.
Os EUA imediatamente pediram pela intervenção das Nações Unidas, e foram atendidos. As primeiras tropas da ONU desembarcaram em agosto de 1950 no sul da península.
Comandando-as, o já mítico general Douglas MacArthur, vencedor da Segunda Guerra no Pacífico, a quem o imperador do Japão havia se rendido pessoalmente. A ordem era liberar o território do sul, o que foi conseguido em poucas semanas. Mas MacArthur rebelou-se e, contra as ordens do presidente dos EUA, invadiu o norte, superando o 38° paralelo.
Cena após o massacre de 300 civis do sul / Crédito: Getty Images

Apavorada pela chegada de um exército inimigo perto de seu território, a China comunista entrou de vez no jogo. Em novembro de 1950, mais de 1 milhão de soldados chineses foram enviados para lutar na Coreia contra as forças da ONU. Graças ao suporte de Pequim, as tropas norte-coreanas conseguiram novamente atravessar a fronteira com o sul. “A partir desse momento, China e Coreia do Norte mantiveram relações muito estritas, que continuam até hoje”, explica Sangsoo.
O ex-presidente americano Harry Truman decidiu afastar MacArthur – que, a essa altura, estava propondo lançar bombas nucleares contra a China. Em abril de 1951 ele foi removido do comando e, em seu lugar, entrou o general Matthew Bunker Ridgway.
Somente após dois anos e quase 4 milhões de baixas em ambos os lados, inclusive 2,5 milhões de civis, em julho de 1953 foi assinado um armistício. Armistício, não paz – a guerra, em tese, nunca acabou. E isso ainda assim só aconteceu graças à morte de Stalin, ocorrida poucos meses antes, o que deixou Kim Il-sung sem seu maior financiador.
Eterno impasse.
O sul se tornou um estado capitalista e sede de megacorporações como a Samsung: um dos tigres asiáticos, que cresceram imensamente nos anos 1980. No norte, Kim Il-sung criou um Estado baseado não no comunismo, mas no Juche, a ideologia oficial do regime. Uma mistura de marxismo com nacionalismo autossuficiente. E, obviamente, o extravagante culto à personalidade da família Kim.
O fundador Kim Il-sung é tão exaltado pela propaganda que nem sua morte pôde tirá-lo do cargo. Quando faleceu, em 1994, foi proclamando Presidente Eterno. Seus sucessores, o filho Kim Jong-il e o neto Kim Jong-un, acabaram se contentando com títulos menores, como Querido Líder e Líder Supremo.
A veneração da família Kim se tornou parte da pseudo religião do Estado norte-coreano. “A Coreia do Norte é, em essência, uma teocracia. Alguns elementos dessa religião laica foram tomados do stalinismo e do maoismo, mas o culto a Kim tem formas indígenas que vêm do xamanismo: divindades humanas que prometem a salvação. Não é por acaso que o reverendo Sun Myung Moon e sua Igreja da Unificação são coreanos”, afirma Marco Milani, pesquisador do Instituto de Estudos Coreanos da Universidade da Califórnia do Sul.
“Em relação aos países comunistas da Europa Oriental, a Coreia do Norte se tornou muito mais isolada, especialmente no último período da Guerra Fria. E isso permitiu a manutenção do consenso interno, já que os norte-coreanos não ficaram expostos à influência ocidental como a Alemanha Oriental e a Hungria.”
O colapso da União Soviética em 1989 foi devastador para a Coreia do Norte tanto quanto o foi para Cuba. Nos anos 1990, o país perdeu entre 5% e 10% de sua população. Perdendo o apoio soviético, os Kim foram obrigados a se alinhar completamente com a China. Com isso, Pequim obteve o poder de destruir Pyongyang em um dia: bastaria cortar o fornecimento de alimentos ou de combustível.
Guarda do sul na fronteira entre as Coreias em 2015 /
Crédito: Getty Images
Isso explica a ameaça nuclear. O país decidiu investir, nas palavras de Milani, num “seguro de vida”. Segundo ele, “em Pyongyang observaram muito atentamente o que ocorreu nos últimos anos. Saddam Hussein não tinha armas nucleares, e o Iraque foi invadido pelos americanos. Muhammar Khadafi renunciou espontaneamente à bomba atômica nos anos 2000 e, mesmo assim, foi atacado pela OTAN em 2011.
A Ucrânia também renunciou a suas armas nucleares em 1994 e o regime acabou sendo derrubado em 2014. A liderança norte-coreana entende que nenhum país será jamais atacado pelos americanos se tiver uma bomba atômica, mesmo que pequena, para retaliar”. A bomba, assim, é a coisa menos insana da dinastia Kim.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Coreia: quando a guerra fria ferveu.

COREIA: QUANDO A GUERRA FRIA FERVEU

Há 69 anos, começava a Guerra da Coreia. Durante 3 anos, três milhões pereceram no pior conflito da Guerra Fria
MÁRCIO SAMPAIO DE CASTRO PUBLICADO EM 25/06/2019
Artilharia dos EUA em ação
Artilharia dos EUA em ação - Getty Images
Ao final da Segunda Guerra Mundial, o espólio japonês disputado entre os vencedores incluía a península coreana, no sudeste asiático, onde o Exército Imperial havia permanecido por muito tempo como força de ocupação. Na corrida que se seguiu aos últimos dias do conflito, os até então aliados soviéticos e norte-americanos ocuparam a Coreia, dividindo-a ao meio na altura do paralelo 38.
A alegria da população local pelo fim da presença japonesa seria rapidamente substituída pela dura realidade da luta de interesses entre os dois blocos ideológicos, que travariam nesse território o pior conflito da Guerra Fria, na qual morreriam até 2,5 milhões de civis.
Ao norte do paralelo, os soviéticos trataram de rapidamente implementar a doutrina comunista nos campos político e econômico, enquanto ao sul a Organização das Nações Unidas (ONU), capitaneada pelos Estados Unidos, promoveu, em 1948, eleições que tiveram como resultado a vitória de um candidato simpático aos interesses norte-americanos.
A divisão do país se acelerou e, em agosto daquele ano, debaixo de muito ressentimento em ambos os lados, nasciam a República da Coreia (Coreia do Sul) e a República Democrática Popular da Coreia (Coreia do Norte).
Questão de tempo.
Para o ex-líder da nova república comunista, Kim Il-sung, a reunificação do país era uma questão de tempo. Amplamente auxiliado por armas e instrutores soviéticos, Kim criou uma máquina de guerra, o Exército Popular da Coreia do Norte (EPCN), que tentaria resolver à força o que a diplomacia não havia conseguido.
No dia 25 de junho daquele ano, do outro lado do mundo e alheio às maquinações de Kim, o norueguês Trygve Lie, primeiro secretário-geral da ONU, foi despertado pelas chamadas insistentes em seu telefone. Um representante do governo dos Estados Unidos procurava-o para comunicar-lhe que o exército norte-coreano havia cruzado um dia antes o paralelo 38 e marchava rapidamente em direção a Seul, a capital sul-coreana.
O governo americano exigiu que Lie reunisse imediatamente o Conselho de Segurança e tratasse da questão como uma séria ameaça à paz mundial.
Contra a vontade soviética, que protestava, entre outras coisas, pelo fato de a República Popular da China ser representada por um embaixador de Taiwan e não por um enviado do governo comunista de Mao Tsé-tung, o conselho se reuniu no início da tarde daquele  dia para condenar as ações norte-coreanas e exigir o retorno de suas forças militares acima do paralelo 38.
Após a invasão do exército norte-coreano, milhares de sul-coreanos fugiram / 
Créditos: Wikimedia Commons

Absolutamente ignorado pelo governo de Kim Il Sung, o conselho voltaria a se reunir dois dias depois para aprovar uma proposta norte-americana: fornecer toda assistência necessária à República da Coreia para repelir o ataque e restabelecer a paz e a segurança internacionais na área.
Plano de emergência.
Enquanto aguardavam deliberações diplomáticas, os norte-americanos já montavam seu plano de emergência para intervir na península, com ou sem aprovação da ONU. Eles não admitiriam sob nenhuma hipótese que os soviéticos pudessem ter na Ásia uma área de influência que fosse além do paralelo 38 coreano. Não seria preciso, contudo, contrariar a vontade da maioria.
A exemplo do que fariam 41 anos mais tarde no Iraque, os Estados Unidos conseguiram liderar uma coalizão internacional, que contou com o apoio de 53 países na Assembléia Geral e a participação ativa de 20 deles no confronto armado que se desenhava. Ingleses, canadenses e australianos formariam o grosso do contingente auxiliar de 45 mil homens que se somaram aos 300 mil americanos enviados para a península asiática.
A intenção dos norte-coreanos era transformar sua invasão em um fato consumado muito antes de qualquer reação internacional. Em pouco mais de um mês, eles haviam empurrado o Exército sul-coreano e as tropas norte-americanas baseadas no Japão, que vieram em seu auxílio, para um perímetro pouco maior do que 150 quilômetros quadrados em torno da cidade portuária de Pusan.
O ex-presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, designou um herói da Guerra no Pacífico para comandar a reação. Douglas MacArthur, especialista em invasões anfíbias, manteve-se fiel às suas convicções e informou o ex-presidente e seus subordinados no comando militar da ONU que a estratégia seria um desembarque de tropas na cidade de Inchon, próxima a Seul, com o objetivo de cortar as comunicações entre as tropas do EPCN que cercavam Pusan e sua retaguarda em território norte-coreano.
O general Douglas MacArthur com soldados em 1950 /
Créditos: Wikimedia Commons
O plano deu certo e, em 27 de setembro, exatamente 12 dias após o início das operações em Inchon, a capital sul-coreana era declarada livre da presença comunista. Uma semana depois da reconquista de Seul, com o colapso do EPCN ao sul do paralelo 38, Truman autorizava a invasão do norte. Agora, eram os americanos que queriam liquidar a guerra em tempo relâmpago e implantar em toda a Coreia um regime pró-Ocidente.
Preocupados em desmoralizar os soviéticos com a aniquilação do EPCN, os americanos esqueceram-se de considerar uma outra variável na equação daquela guerra. No dia 2 de outubro, o ministro do Exterior chinês, Chu-En-lai, enviou um curto e objetivo recado para o mundo. Se o paralelo fosse cruzado em direção ao norte, os chineses interviriam.
Conflitos nas ruas de Seul / Créditos: Wikimedia Commons
Embriagadas pelo gosto da vitória que lhes parecia muito próxima, as tropas da ONU não só cruzaram a linha imaginária como também levaram os combates para as cercanias do rio Yalu, na fronteira entre a Coreia e a China. Dois meses depois, o general MacArthur ordenava a seus homens que formassem uma linha de defesa no mesmo paralelo 38 para resistir ao avanço de 300 mil chineses que investiam furiosamente contra seu exército.
Sucessão de ataques.
A partir desse momento, o conflito se transformaria numa sucessão de ataques e contra-ataques que levariam MacArthur a defender publicamente a guerra total contra os chineses, mesmo que isso implicasse o emprego de artefatos atômicos. As opiniões do general contrariavam frontalmente o ponto de vista do ex-presidente Truman, que não queria aniquilar o comunismo e muito menos travar uma guerra mundial, consequência temida, caso a China fosse invadida.
Sua intenção era apenas conter a expansão da influência soviética no Oriente. Como subordinado direto de Truman, MacArthur perdeu o emprego, e a guerra seguiu na Coreia conforme os desígnios do presidente: buscar uma paz honrosa ou um armistício.
De fato, ainda no ano de 1951, as conversações de paz tiveram início, mas enquanto os diplomatas não chegavam a um acordo, os homens de farda viram a eletrizante guerra de movimento transformar-se em uma infindável guerra de trincheiras, que se arrastaria pelas cercanias do paralelo 38 até o dia 27 de julho de 1953, quando o armistício finalmente foi assinado.
Tecnicamente, a Guerra da Coreia jamais terminou, mas ao final do conflito a situação que a gerara em nada havia mudado: na península do sudeste asiático continuava a existir um povo e dois países.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Pesquisadores encontram restos de soldados mortos durante a Guerra da Coreia.

PESQUISADORES ENCONTRAM RESTOS DE SOLDADOS MORTOS DURANTE A GUERRA DA COREIA

Além dos objetos, a expedição promovida pela Coreia do Sul também resultou na descoberta de inúmeros ossos
THIAGO LINCOLINS PUBLICADO EM 27/05/2019
None
Crédito: South Korean Defense Ministry
Durante escavações na Zona Desmilitarizada da Coreia, pesquisadores do Ministério da Defesa Nacional - um departamento da Coreia do Sul - encontraram 321 ossos e itens que pertenceram a soldados que lutaram durante a Guerra da Coreia, o conflito que se estabeleceu entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul a partir de 1948.
No local, conhecido como Colina 281, inúmeros soldados americanos, franceses e sul-coreanos perderam suas vidas enquanto tentavam conter as forças chinesas que invadiram do norte.
As buscas recentes, promovidas pela Coreia do Sul, resultaram na descoberta de coletes de soldados norte-americanos, máscaras de gás chinesas, balas e uma etiqueta que pertenceu a um militar francês. Ao total, já foram encontrados 23 mil itens.
Colete encontrado durante as escavações / Crédito: South Korean Defense Ministry

A pesquisa indica que mais de 7.600 restos de soldados norte-americanos continuam desaparecidos, e que possivelmente 5.300 podem ser encontrados apenas na Coreia do Norte. O número aumenta quando se trata das tropas sul-coreanas: 133 mil restos ainda estão desaparecidos.
As buscas haviam sido promovidas como um esforço para melhorar as relações bilaterais entre Donald Trump, presidente dos EUA e Kim Jong Un, líder supremo da Coreia do Norte.