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terça-feira, 14 de abril de 2020

Coreia do Norte volta a afirmar que não tem casos de coronavírus.

COREIA DO NORTE VOLTA A AFIRMAR QUE NÃO TEM CASOS DE CORONAVÍRUS NO PAÍS

O governo passou a adotar medidas preventivas severas em janeiro, logo no início da crise
ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 14/04/2020
Imagem ilustrativa da bandeira da Coreia do Norte com arames
Imagem ilustrativa da bandeira da Coreia do Norte com arames - Getty Images
O governo da Coreia do Norte voltou a afirmar domingo, 12, que não há nenhum caso de coronavírus confirmado no país. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os dados obtidos até o momento confirmam que o vírus não atingiu a população norte-coreana.
Assim que a doença foi detectada na China, em janeiro, o regime passou a adotar medidas preventivas severas. Isolando-se ainda mais, a Coreia do Norte fechou as fronteiras com os chineses e sancionou determinações rígidas de confinamento à população.
"Adotamos medidas preventivas e científicas como inspeções e quarentenas para todas as pessoas que chegavam ao país, desinfetamos os produtos, fechamos as fronteiras e bloqueamos todas as rotas marítimas e aéreas", declarou o diretor do departamento de epidemias da Coreia do Norte, Pak Myong Su.
A covid-19 já se alastrou por pelo menos 180 países, causando a morte de mais de 113 mil pessoas, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins. A vizinha do país, a Coreia do Sul, já confirmou quase 10 mil casos e 169 mortes.

Coreia do Norte volta a lançar mísseis de cruzeiro no mar do Japão.

COREIA DO NORTE VOLTA A LANÇAR MÍSSEIS DE CRUZEIRO NO MAR DO JAPÃO, DIZ SEUL

"Mísseis balísticos demonstram poder destrutivo, enquanto mísseis de cruzeiro mostram precisão!", afirmou especialista sobre nova ação de Pyongyang
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 14/04/2020
Kim Jong-un
Kim Jong-un - KCNA
Novos disparos de mísseis de cruzeiro nortecoreanos teriam sido captados no Mar do Japão, segundo informações divulgadas por Seul, em uma demonstração de força às vésperas do aniversário de Kim Il-sung, celebrado no país, e de eleições parlamentares no vizinho. Os lançamentos teriam sobrevoado mais de 150 quilômetros, num momento de paralização das negociações de paz devido o surto de coronavírus na Coreia do Sul.
"As autoridades de inteligência da Coréia do Sul e dos EUA estão analisando de perto questões relacionadas", afirmou o Estado-Maior da Coreia do Sul, em comunicado. Se for confirmada a ação, ela será enquadrada como a primeira do tipo desde 2017. Pyongyang também teria coordenado o sobrevoo da cidade de Wonsan com jatos MiG, disparando foguetes em teste.
Sofisticado lança-mísseis terrestre da Coreia do Norte / Crédito: KCNA

Segundo a análise do pesquisador Cha Du-hyeogn, do Instituto Asan de Estudos Políticos à Agence France-Presse, os mísseis de cruzeiro foram uma demonstração da Coreia do Norte de que existem “várias opções de sistemas de entrega de armas” na nova frota de Kim Jong-un. "Mísseis balísticos demonstram poder destrutivo, enquanto mísseis de cruzeiro mostram precisão. Até agora a Coréia do Norte mostrou sua força e agora está demonstrando precisão ao atingir alvos."
O movimento também pode ter sido motivado por ameaças militares realizadas pelos EUA que, na semana passada, manobrou dois porta-aviões (USS Carl Vinson e USS Ronald Reagan) na região. No domingo seguinte, Kim visitou uma base aérea para observar exercícios de combate em voo no local. A ONU voltou a ameaçar novas sanções ao país.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A repentina execução de Chang, tio, acusado de conspirar contra Kim Jong-Un.

A REPENTINA EXECUÇÃO DE CHANG SONG-THAEK, O TIO ACUSADO DE CONSPIRAR CONTRA KIM JONG-UN

Em 2013, o então general quatro estrelas foi anunciado morto, mas dessa vez quem noticiou o fato foi o próprio governo do país
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 13/02/2020
Chang Song-thaek em foto oficial
Chang Song-thaek em foto oficial - Wikimedia Commons
Em 2013, o canal oficial do governo norte-coreano KCNA surpreendeu o mundo ao anunciar que Chang Song-thaek, um dos líderes do governo do sobrinho Kim Jong-un, fora executado por alta traição.
Longe de ser uma das várias falsidades divulgadas pela mídia ocidental ou sul-coreana sobre o governo de Pyongyang, o caso era de uma informação oficial sobre uma possível sublevação no seio do comando da Coreia do norte.
A morte de Chang foi decretada após um tribunal militar que entrou em sessão para julgar se o político esteve envolvido em núcleos contrarrevolucionários que visavam à derrubada de Kim.
O veículo oficial do governo na televisão anunciou objetivamente: “Traidor Chang Song-thaek executado”, enquanto descreviam o insubordinado como “escória humana” e “pior que cachorro”. Pyongyang não divulgou os atos do processo, mas anunciou que os crimes cometidos foram “provados durante o julgamento e admitidos por ele”.
Song-thaek, além de membro importante do governo na época da execução, era casado com Kim Kyong-hui, irmã de Jong-il e, portanto, tia do atual presidente coreano Jong-un. A posição política e o nível do poder que Thaek tinha no governo são de difícil ponderação.
A que parece, durante o final do governo Kim Jong-il, ele teria assumido a importante posição de líder da Comissão Nacional de Defesa do país, o que o colocaria na linha de sucessão do poder até que Jong-un assumisse oficialmente.
Chang é levado por oficiais militares / Crédito: KCNA

Essa posição de Song-thaek pode ter sido fator motriz para uma possível agremiação de membros do governo a favor da saída de Kim Jong-un, dado que seu tio tinha ainda bastante capital político no interior do Partido dos Trabalhadores da Coreia e já teria assumido a liderança do país após a morte do presidente em 2011. Com isso, uma conspiração não seria improvável.
Chang Song-thaek também assumira uma posição perigosa para Kim no final do governo anterior, pois durante o funeral  de Jong-il, ele apareceu vestindo o uniforme de general portanto quatro estrelas no peito (o que significaria uma promoção de cargo). Kim Jong-un, por outro lado, já havia atingido a posição de Marechal, logo acima do cargo do tio. Na época, Chang era denominado "conselheiro político fundamental" do sobrinho.
Quando as acusações de traição de Chang foram comprovadas, uma grande conturbação se formou no Estado Coreano. Mesmo no interior do governo, o caso foi chocante, chegando a possibilitar uma desestabilização do governo Kim. Porém, a rápida ação e a contundência das decisões do judiciário reafirmaram o poder do Líder Supremo, melhorando sua credibilidade.
Chang era um nome de alta confiança de Kim Jong-il, na foto / Crédito: Wikimedia Commons

Com a execução de Chang, foi aberto contra ele um processo de damnatio memoriae, conhecida artimanha política em que são aplicadas sanções contra a memória e a imagem pública de sua figura. Por isso, todas as suas fotos foram abruptamente retiradas da imprensa oficial do governo, sua presença foi removida digitalmente das fotos com dirigentes do país e possíveis monumentos e espaços em sua homenagem foram destruídos.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

A trágica vida do meio -irmão de Kim Jong-Un.

A TRÁGICA VIDA DE KIM JONG-NAM, MEIO-IRMÃO DE KIM JONG-UN

Filho bastardo e preterido para o cargo de líder supremo de seu país, o norte-coreano foi assassinado sob circunstâncias misteriosas em 2017
ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 03/02/2020
Kim Jong-nam
Kim Jong-nam - Wikimedia Commons
Kim Jong-nam vivia uma vida nada esperada para o filho mais velho de um ditador que coordenava uma ditadura praticamente hereditária. Na Coreia do Norte, Kim Il-sung criou um regime político diferente do que anteriormente era visto no mundo comunista. Por mais que não assuma tal posição, foi instaurada uma “dinastia familiar”. Seguindo esses moldes, o poder seria passado de pai para filho, evento que aconteceu, até hoje, três vezes.
Esperava-se que esse modelo fosse seguido com a morte de Kim Jong-il em 2011. Kim Jong-nam, porém, não assumiu o poder, e ainda teve uma dura vida em consequência do regime que vigora ainda hoje no país.
Isso ocorreu principalmente devido ao fato de ele ser um filho considerado ilegítimo, pois não estava dentro do casamento. Kim Jong-il o teve com uma de suas amantes, a atriz norte-coreana Sung Hae-rim, que também era casada na época.
Naquela época, Kim Il-sung não aprovava o relacionamento do filho. Além disso, Kim Jong-il era o principal nome para assumir com a morte de seu pai, e um filho de relacionamento extraconjugal não seria um bom acontecimento para marcar sua trajetória. Logo no começo de sua vida, Jong-nam já sofria com essas consequências.
O filho bastardo do futuro ditador foi, então, criado isolado em uma mansão. Sua existência era praticamente um segredo. Acredita-se que ele tenha sido criado fora da Coreia do Norte, e que isso tenha dado a ele uma visão crítica ao regime.
Devido a isso, tanto o fato dele ser fruto de uma relação fora do casamento, quanto suas opiniões sobre a ditadura norte-coreana, Kim Jong-nam não chegou a ser considerado uma opção viável à sucessão de seu pai. Ainda assim, fez parte do sistema de segurança interna do país.
Kim Jong-un / Crédito: Wikimedia Commons

Foi apenas em 2010 que o mundo ficou sabendo sobre as desilusões do norte-coreano com o governo de sua família. Em entrevista ao jornal japonês Tokyo Shimbun, ele criticou a dinastia do país, chamou seu irmão Kim Jong-un de “fantoche” que não tinha habilidade de liderança e ainda alegou que o território entraria em colapso caso uma reforma política fosse implantada.
O norte-coreano foi assassinado no dia 13 de fevereiro de 2017, no aeroporto de Kuala Lumpur, em Sepang, na Malásia. A morte está cercada de mistério sobre quem poderia ter mandado matar o irmão mais velho do ditador, e suspeita que ele mesmo possa ter sido responsável por tal crime.
Kim Jong-nam teve um pano contendo um agente conhecido como VX — considerado uma arma química pela ONU — passado em seu rosto. Ele até pediu ajuda médica no hospital, mas isso não fez muita diferença no resultado: pouco tempo depois, Kim estava morto.
Queimar os olhos do norte-coreano foi o plano que deu certo para assassiná-lo. Outras tentativas teriam sido realizadas para acabar com a sua vida. Em 2012, um espião do país alegou que foi contratado para tentar simular um acidente de trânsito que poderia mata-lo, mas falhou.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Estudante foi visitar a Coreia do Norte e acabou preso por 15 meses.

TORTURADO E FERIDO: ESTUDANTE FOI VISITAR A COREIA DO NORTE POR CINCO DIAS E ACABOU PRESO POR 15 MESES

Otto Warmbier só voltou a sua terra natal depois que entrou em um grave estado de coma — falecendo seis dias após seu regresso
FABIO PREVIDELLI PUBLICADO EM 02/02/2020
Otto Warmbier durante julgamento
Otto Warmbier durante julgamento - Creative Commons
O mais velho entre os três filhos de Fred e Cindy Warmbier, Otto nasceu em 12 de dezembro de 1994. Considerado um aluno popular e estudioso, ele se formou em 2013, recebendo um importante título acadêmico. Por ter muito interesse em outras culturas, o jovem já havia visitado alguns países da Europa, além de Israel, Cuba e o Equador.
Em 2015, Otto planejava participar de um programa de estudos em Hong Kong. Aproveitando seus planos na Ásia, ele decidiu que visitaria a Coreia do Norte durante o período do Ano Novo, antes de partir para Hong Kong. Segundo o pai do jovem, ele disse que a viagem era segura para os cidadãos americanos e declarou que estava "curioso sobre a cultura deles, queria conhecer o povo da Coreia do Norte".
A última viagem de Otto Warmbier.
Em 29 de dezembro de 2015, Warbier partiu para uma escala em Pequim antes de chegar na Coreia. Já em terras coreanas, ele e um grupo de turistas — que incluía outros 10 cidadãos americanos — passariam 5 dias no país.
Foto de Otto Warmbier tirada na Coreia do Norte / Crédito: Creative Commons

O grupo comemorou o ano novo em uma festa na Praça Kim Il-sung, em Pyongyang, antes de retornar para suas acomodações no Yanggakdo International Hotel, onde continuou consumindo algumas bebidas alcóolicas.
No início da manhã do dia de Ano Novo, Warmbier, supostamente, tentou roubar um cartaz de propaganda política para levar de volta aos Estados Unidos como um "troféu" para alguém da igreja da sua cidade. O pôster dizia, "Vamos armar-nos fortemente com o patriotismo de Kim Jong-il!".
Causar qualquer tipo de dano ou até mesmo roubar materiais com o nome ou a imagem de um líder norte-coreano é considerado um crime grave pelo governo norte-coreano — Kim Jong-il é o pai do atual líder,Kim Jong-un.
Em 2 de janeiro de 2016, Warmbier foi preso no Aeroporto Internacional de Pyongyang enquanto aguardava a partida da Coréia do Norte. Danny Gratton, um membro britânico do grupo de turistas de Warmbier, testemunhou a prisão.
“Nenhuma palavra foi dita. Dois guardas chegaram e simplesmente deram um tapinha no ombro de Otto e o levaram embora. Eu apenas disse meio nervoso: 'Bem, essa é a última vez que veremos você'. Há uma grande ironia nessas palavras. Foi isso. Essa foi a última vez em que vi Otto. Otto não resistiu. Ele não parecia assustado. Ele meio que sorriu”, narrou Gratton.
Otto Warmbier sendo detido / Crédito: Creative Commons

Quando o avião do grupo estava prestes a deixar o terminal, um oficial entrou a bordo e anunciou: "Otto está muito doente e foi levado para o hospital". Não era verdade. A Agência Central de Notícias da Coréia (KCNA), estatal da Coréia do Norte, anunciou inicialmente que Warmbier havia sido detido por "atos hostis contra a República Democrática da Coreia do Norte". O país asiático se recusou a detalhar a natureza exata de suas irregularidades por seis semanas.

A confissão de um crime.
Em uma conferência de imprensa, em 29 de fevereiro de 2016, Warmbier, lendo uma declaração escrita, confessou que havia tentado roubar um cartaz de propaganda de uma área restrita do segundo andar do Yanggakdo Hotel para levar de volta para os Estados Unidos.
Em 16 de março de 2016, poucas horas após o enviado americano Bill Richardson se encontrar em Nova York com dois diplomatas norte-coreanos no escritório das Nações Unidas, para pressionar pela libertação de Warmbier, Otto foi julgado e condenado na Suprema Corte da Coréia do Norte.
As evidências em seu julgamento, que duraram uma hora, incluíram sua confissão em vídeo, imagens do circuito interno de segurança do hotel, evidências de impressões digitais no cartaz e o testemunho de algumas pessoas.
Warmbier informou, em sua confissão, que abandonou o pôster depois de descobrir que ele era grande demais para ser transportado. Mas isso não evitou sua sentença a 15 anos de trabalho braçal.
Otto Warmbier sendo levado a julgamento / Crédito: Creative Commons

O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Mark Toner, afirmou que estava claro que a Coreia do Norte prendia cidadãos americanos para usá-los para fins políticos — apesar do país asiático negar veementemente a acusação.
O retorno de Otto aos Estados Unidos.
Em 13 de junho de 2017, o Secretário de Estado Rex Tillerson anunciou que Otto foi libertado da Coreia do Norte e chegaria nas próximas horas nos Estados Unidos. Entretanto, o rapaz jamais retornaria a sua nação da mesma maneira que havia saído: Warmbier estava em coma.
Relatórios subsequentes apontam que, em uma reunião em Nova York, em 6 de junho, as autoridades norte-coreanas informaram o Representante Especial do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Joseph Yun, que o jovem havia contraído botulismo de origem alimentar logo após sua sentença e entrara em coma depois de tomar uma pílula para dormir.
Os médicos de Otto, do Centro Médico da Universidade de Cincinnati, afirmaram que ele estava "em um estado de vigília sem resposta", comumente conhecido como estado vegetativo persistente. Ele era capaz de respirar por conta própria e piscar os olhos, mas, por outro lado, não mostrava sinais de consciência de seu ambiente.
Registros médicos da Coréia do Norte mostraram que Otto estava nesse estado desde abril de 2016, um mês após sua condenação. Durante sua libertação, os norte-coreanos forneceram registros de duas imagens cerebrais de ressonância magnética, datadas de abril e julho daquele ano, que evidenciava os danos no cérebro do jovem.
De acordo com sua equipe médica, as varreduras do cérebro revelaram que Warmbier sofreu uma extensa perda de tecido cerebral em todo a região, consistente com um evento cardiopulmonar que causou a privação de oxigênio na cabeça.
Imagem do circuito interno do hotel que registra Otto retirando cartaz da parede / Crédito: Reprodução

Os médicos disseram que não sabiam o que causou a parada cardíaca, mas que ela poderia ter sido desencadeada por uma parada respiratória — um especialista em cuidados neurointensivos do hospital afirmou que não haviam evidências que indicavam quaisquer sinais de botulismo.
Depois que seus pais solicitaram a remoção do tubo de alimentação, Otto Warmbier morreu no hospital às 14h20 de 19 de junho de 2017, com 22 anos de idade.
O desabafo em rede nacional.
Em entrevista à rede de TV Fox, em 2017, os pais de Otto quebraram o silêncio desde a morte do filho. Fred e Cindy acusaram os norte-coreanos de "sistematicamente torturarem" seu filho, além de chamá-los de “terroristas”.
Os pais do jovem estudante afirmaram que a entrevista foi uma maneira que encontraram para "contar a verdade sobre as condições em que Otto se encontrava". O pai do garoto disse que, quando viu o filho, ele “estava perambulando, tendo espasmos violentos e emitindo sons e uivos que não pareciam humanos". Ele ainda disse que o garoto teve sua cabeça raspada e “estava surdo e cego”.
Fred e Cindy Warmbier / Crédito: Getty Images

“Suas pernas e braços encontravam-se totalmente deformados e ele tinha uma imensa cicatriz em um dos pés. Parecia ainda que alguém tinha usado um alicate para trocar de lugar seus dentes inferiores", disse Fred.
"Otto foi sistematicamente torturado e ferido intencionalmente por Kim [Jong-un, líder da Coreia do Norte] e seu regime. Isso não foi um acidente”. Ele também criticou o governo norte-americano e a comunidade internacional por terem "abandonado" seu filho.
Apesar das fortes acusações feitas pelos familiares de Otto, o jornal Cincinnati Enquirer questionou as afirmações do casal. O veículo informou que teve acesso ao atestado de óbito do estudante. Segundo eles, o corpo do rapaz apresentava diversas cicatrizes pequenas, mas nada que indicasse ou configurasse qualquer prática de tortura.
O jornal ainda informou que o legista que examinou Otto disse que seus dentes estavam “em bom estado” e que o óbito seria proveniente de danos cerebrais causados por falta de oxigênio.
A verdadeira causa da morte de Otto Warmbier jamais foi conhecida, já que os pais do estudante não permitiram que fosse feita uma autópsia no corpo de seu filho — sendo realizado apenas um exame externo post-mortem.
Imagem do velório de Otto Warmbier / Crédito: Getty Images

O governo norte-coreano ficou com a certeza de que fez todo o possível pela saúde do jovem americano, os pais do garoto têm a convicção de que a Coreia do Norte mandou o rapaz de volta para casa apenas porque eles não gostariam que ele morresse no país.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Quem assumiria a Coreia do Norte após Kim Jong-Un?

QUEM ASSUMIRIA O PODER NA COREIA DO NORTE APÓS KIM JONG-UN?

Historicamente, o país vive uma política onde o poder é passado de pai para filho; ainda assim, pouco se sabe sobre o que aconteceria após a morte do atual Líder Supremo
ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 16/01/2020
Os três líderes norte-coreanos: Kim Il-sung, Kim Jong-il e Kim Jong-un
Os três líderes norte-coreanos: Kim Il-sung, Kim Jong-il e Kim Jong-un - Wikimedia Commons
Ao final da Segunda Guerra Mundial, os japoneses que ocupavam a península da Coreia foram expulsos. Na corrida que se seguiu aos últimos dias do conflito, os até então aliados soviéticos e norte-americanos ocuparam a Coreia, dividindo-a ao meio.
Ao Norte, os soviéticos trataram de rapidamente implementar a doutrina comunista nos campos político e econômico, “elegendo” um líder simpático aos seus interesses. Foi Kim Il-sung o responsável por fundar o Estado da Coreia do Norte, também conhecido como República Popular Democrática da Coreia.
Já no Sul, a Organização das Nações Unidas (ONU), capitaneada pelos Estados Unidos, promoveu, em 1948, eleições que tiveram como resultado a vitória de um candidato que servisse aos interesses estadunidenses.
Kim Il-sung / Crédito: Getty Images

A alegria da população local pelo fim da presença japonesa seria rapidamente substituída pela dura realidade da luta de interesses entre os dois blocos ideológicos, que travariam nesse território o pior conflito da Guerra Fria, na qual morreriam até 2,5 milhões de civis. O conflito duraria até o dia 27 de julho de 1953, quando o armistício foi finalmente assinado.
No território do Norte, Kim Il-sung criou um regime político diferente do que anteriormente era visto no mundo comunista. Por mais que o país não assuma tal posição, foi instaurada uma “dinastia familiar”. Seguindo esses moldes, o poder seria passado de pai para filho, evento que aconteceu, até hoje, 3 vezes.
Ainda que tal modelo seja o historicamente seguido pelos líderes políticos da Coreia do Norte, oficialmente não existe uma linha de sucessão a ser seguida. Nos países que seguem o modelo presidencialista como o Brasil, por exemplo, quem assume com a morte do presidente é o vice-presidente. No país do leste asiático, porém, tal cargo político não tem esse poder. Quando Kim Il Sung morreu, por exemplo, nenhum de seus quatro vices assumiu.
O primeiro líder preparou seu filho para sucedê-lo no poder. Kim Jong-il acompanhava seu pai em sua agenda e eventos políticos. Assim, quando o mais velho faleceu, o próximo assumiu quase que imediatamente.
Kim Jong-il / Crédito: Getty Images

A sucessão pode ser explicada por uma visão que se tornou comum na Coreia do Norte: o culto à personalidade do líder do país. A dinastia Kim fundou um pensamento no qual Kim Il-sung e seus ideais seriam o “princípio norteador” de todo o Estado. Acredita-se que isso tenha sido essencial para legitimar o processo de poder hereditário no país.
Quando Kim Jong-il morreu, porém, seu filho ainda era muito novo e tinha praticamente apenas iniciado sua formação política para tornar-se líder. Mesmo assim, foi ele quem assumiu o poder, tornando-se o terceiro Líder Supremo da Coreia do Norte — estamos falando de Kim Jong-un.
Pouco se sabe sobre a atual família Kim. Kim Jong-un casou-se com Ri Sol-ju e teve sua primeira filha, Kim Ju-ae, provavelmente em 2013, assim, a menina teria apenas 6 anos. Não se sabe, porém, se eles tiveram mais filhos, pois as informações sobre isso são apenas especulações de outros países, quase sempre da Coreia do Sul.
Ri Sol-ju e Kim Jong-un / Crédito: Getty Images

Como consequência, assume-se que haveria uma luta pelo poder caso o Líder Supremo falecesse precocemente. Entre os membros da família, o nome de Kim Yo-jong parece ser promissor. Irmã de Jong-un, ela recentemente passou a assumir um cargo maior no governo, controlando o poderoso Comitê Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia.
Outra possibilidade é que algum dos líderes do partido do Líder Supremo tente assumir o poder. Atualmente, eles são três, por isso é provável que aconteça uma disputa para decidir quem assumirá o lugar do homem mais poderoso da Coreia do Norte.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Mãe norte-coreana pode ser presa por abandonar quadros da Família Kim para salvar filhos de incêndio.

MÃE NORTE-COREANA PODE SER PRESA POR ABANDONAR QUADROS DA FAMÍLIA KIM PARA SALVAR FILHOS DE INCÊNDIO

Por infringir uma lei no país, a mulher enfrenta dificuldades em receber antibióticos para tratar as queimaduras das crianças.
FABIO PREVIDELLI PUBLICADO EM 14/01/2020
Retratos oficiais de Kim il Sung e Kim Jong il em uma casa, Província de Pyongan do Sul, Coreia do Sul
Retratos oficiais de Kim il Sung e Kim Jong il em uma casa, Província de Pyongan do Sul, Coreia do Sul - Getty Images
Uma mãe pode enfrentar ação legal na Coreia do Norte após salvar seus dois filhos de um incêndio no condado de Onsong. Isso porque, apesar do ato heroico, ela não conseguiu resgatar os retratos de Kim Jong Il e de Kim Il Sung.
A lei norte-coreana determina que todos os cidadãos tenham em suas casas os retratos dos dois últimos ex-governantes do país — imposição seguida com tanta rigidez que inspetores invadem abruptamente as casas das pessoas para confirmar se os retratos estão expostos corretamente.
Segundo o Daily NK, como a mulher não conseguiu resgatar as duas fotografias, o Ministério da Segurança do Estado iniciou uma investigação após o acidente — que ocorreu no dia 30 de dezembro de 2019.
Uma fonte anônima disse à agência de notícias que as crianças estavam sozinhas em casa quando o incêndio começou. O lar era compartilhado entre duas famílias, e as mães e pais das crianças haviam saídos juntos antes do incidente. Entretanto, assim que souberam do incêndio, ambos voltaram desesperadamente para a casa.
Porém, ela só teve tempo de salvar seus filhos. Já a outra família, com auxílio de um jovem agricultor, resgataram as crianças e as fotografias — evitando assim uma investigação criminal.
O jovem que ajudou no resgate havia sido libertado recentemente da prisão por um crime violento, mas apesar disso foi saudado como herói. Conforme explicou a NK, os norte-coreanos que salvam os retratos da família Kim dos incêndios são reverenciados em seu país. Enquanto isso, aqueles que não o fizerem podem enfrentar consequências legais.
Com a investigação, a mulher não conseguiu a liberação do medicamento prescrito para tratar as queimaduras de seus filhos. Ela chegou a pedir ajuda financeira aos vizinhos, que apesar de demonstrarem vontade em ampará-la, estão temerosos de serem acusados de crime político pelo governo.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

De onde vem o dinheiro da Coreia do Norte?

DE ONDE VEM O DINHEIRO DA COREIA DA NORTE?

Sob um regime isolado e fechado, o país no leste asiático atrai curiosidade e especulações sobre o que realmente acontece na sua economia e administração
ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 13/01/2020
Bandeira da Coreia do Norte
Bandeira da Coreia do Norte - Getty Images
A Coreia do Norte é um dos países mais isolados do mundo. Dados e estatísticas oficiais da região normalmente não são divulgados internacionalmente, o que deixa um certo mistério sobre como o regime consegue se manter em um globo, sobretudo, capitalista.
Esse isolamento também acaba contribuindo para que as informações sobre o país sejam limitadas — e aumente a especulação sobre o que realmente está acontecendo lá dentro. Muitas vezes, ainda existe uma construção caricaturada do país, que conta com preconceitos vindos de uma visão ocidental — e anticomunista — de mundo.
A questão da economia da Coreia do Norte é complexa. Vivendo sob uma série de sanções internacionais principalmente vindas dos Estados Unidos e das Nações Unidas (ONU) desde 2006, o país tenta continuar realizando testes de seus armamentos nucleares e exportações e importações.
De acordo com reportagem do El País, as sanções da ONU de setembro de 2017 incluíam “suspender as vendas norte-coreanas do setor têxtil, segunda maior fonte de exportações do país, e o envio de gás natural para a Coreia do Norte”, além de restringir o “fornecimento de petróleo e produtos refinados, já reduzidos em resoluções anteriores”.
Por isso, a dependência comercial do país com a China segue sendo um dos pilares que mantém a economia norte-coreana estável. Acredita-se que por volta de 80% das exportações do país sejam compradas pelos chineses e que esse número também seja parecido com o da origem das importações advindas da China.
Kim Jong-un, Líder Supremo da Coreia do Norte / Crédito: Getty Images

Da Coreia do Norte, os chineses compram principalmente carvão, minérios — nos quais o país é rico —, peças de vestuário e ainda alguns produtos alimentícios. O comércio contrário é de petróleo, aço, maquinaria, automóveis e produtos eletrônicos. Esses dados são segundo a Agência de Promoção de Negócios e Investimentos da Coreia do Sul.
Além da China, que com certeza é seu maior parceiro comercial, o país mantém relações com a Rússia, Coreia do Sul, Índia, entre outros. Ainda assim, o grande asiático permanece como primeiro e primordial aliado.
De acordo com dados do Banco da Coreia, as importações e exportações norte-coreanas somam por volta de US$ 9,9 bilhões. US$ 2,4 bilhões desse valor seria apenas com o comércio com a parte sul da ilha. Ainda segundo o banco — que contém informações pouco atualizadas sobre o país—, a economia norte-coreana cresceu em 1% em 2014, no último relatório disponível sobre a administração do território.
Existe ainda outra estratégia utilizada por eles para aumentar sua receita — que também vem sendo alvo de sanções da ONU. Muitos habitantes do país emigram para países como Rússia e China, mas também em outros territórios na Europa, Oriente Médio e África, para trabalhar e depois enviar o dinheiro de volta ao seu país natal.
No entanto, o Conselho de Segurança da ONU determinou em 2017 que os destinos dessas pessoas expulsassem-nos de seus países no intuito de frear seu programa nuclear. O prazo acabou em dezembro do ano passado, mas acredita-se que cerca de 50 mil norte-coreanos estivessem trabalhando na China.  
É importante lembrar, porém, que a Coreia do Norte mantém seus dados quase secretos, por isso é muito difícil dizer como a economia e a administração funcionam sob um regime isolado e autoritário.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Existe Natal na Coreia do Norte?

EXISTE NATAL NA COREIA DO NORTE?

O nebuloso país, que tem um dos governos mais autoritários do mundo, celebra a data de uma maneira insólita
CAIO TORTAMANO PUBLICADO EM 16/12/2019
Kim Jong Un em uma imagem natalina fictícia
Kim Jong Un em uma imagem natalina fictícia - Free Commons
Em um dos regimes atuais mais repressores do mundo, a Coreia do Norte não incentiva a população a seguir crenças religiosas e, por isso, o Natal passa quase despercebido no país.
O país asiático faz o impossível para que os feriados religiosos não cheguem aos ouvidos dos habitantes, e a maior parte das pessoas não faz ideia das tradições natalinas comemoradas e replicadas em grande parte do mundo na virada de 24 para 25 de dezembro.
Em entrevista para o portal Business Insider, Kang Jimin viveu seus primeiros 20 anos no país, já sob o regime autoritário atual, e afirma: "Não existe Natal na Coreia do Norte. Eu mesmo só fui descobrir quando fugi do país".
O natal é (em seu princípio) o nascimento de Jesus Cristo, e a Coreia do Norte não cultua imagens religiosas, a não ser os nomes da família do líder supremo Kim Jong-un, que está no poder desde 1948.
Diante disso, o mais próximo que eles celebram no próprio dia 24 do último mês do ano é o nascimento de Kim Jong-Suk, falecida avó do atual ditador. 
Na data, devotos da família peregrinam para uma cidade ao nordeste do país chamada Hoeryong, local de nascimento da falecida líder. "Mesmo que o nascimento de Kim Jong-un e seu pai Kim Jong Il sejam comemorados", afirma o refugiado norte coreano.
O nascimento da matriarca é também uma forma de ocupar a data cristã nos calendários dos coreanos.
Por mais que o país proíba (e até reprima) manifestações religiosas por parte dos seus cidadãos, existem cinco igrejas católicas controladas e sancionadas pelo próprio Estado Norte Coreano. Praticamente teatral.
As pessoas que moram no país encontram dificuldades para frequentar esses locais, a menos que sejam turistas. Isso porque templos são utilizados pelo governo na tentativa de provar que o país é livre e nada autoritário.
Desse modo, são realizadas celebrações de Natal somente para visitantes estrangeiros, longe dos olhos da população norte coreana em ambientes controlados e restritos.
A questão natalina chegou a causar (mais um) problema diplomático com a Coreia do Sul. Durante a festividade, uma base sul coreana, localizada na fronteira, monta uma grande árvore de natal cintilante, com uma bela cruz no topo.
Com essa "provocação", habitantes da Coreia do Norte que moram perto da fronteira poderiam contemplar a árvore. O governo do país autoritário afirmava que o ornamento natalino estava sendo utilizado com uma arma ideológica, exigindo que o motivo do conflito fosse removido ou eles derrubariam a tiros.
A ameaça foi feita em 2014 e, até hoje, não surtiu efeitos.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Em 1976, uma árvore quase provocou uma guerra entre as duas Coreias.

EM 1976, UMA ÁRVORE QUASE PROVOCOU UMA GUERRA ENTRE AS DUAS COREIAS

Foi preciso mobilizar a ONU para derrubar a planta de estimação do supremo líder da Coreia do Norte
THIAGO LINCOLINS PUBLICADO EM 11/12/2019
O episódio quase resultou em desgraça
O episódio quase resultou em desgraça - Wikimedia Commons
Às 7 horas do dia 21 de agosto de 1976, 23 veículos americanos e sul-coreanos chegaram, sem nenhum aviso formal, à Área de Segurança Conjunta, parte da Zona Desmilitarizada da Coreia.
Duas equipes compostas de oito engenheiros militares desceram dos automóveis. Suas armas: motosserras e machados. Seu alvo: uma árvore. Uma missão de vingança: três dias antes, a planta fora responsável pela morte de dois soldados dos EUA.
Estabelecida em 1953, após o fim da Guerra da Coreia, a Zona atua como uma área tampão entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Foi criada como parte de um acordo entre a Coreia do Norte, a China e o Comando das Nações Unidas.
Nos dois lados da região, que divide a península coreana pela metade, ainda hoje o clima é de constante tensão. Os exércitos estão sempre em prontidão. E foi assim que um álamo de 30 metros causou uma verdadeira tragédia.
A árvore bloqueava a linha de visão entre o posto de controle do Comando das Nações Unidas número 3 e o posto número 5. Como não conseguiam obter uma visão precisa do lado oposto, em 18 de agosto, cinco membros do Corpo de Serviço Coreano, escoltados por 11 soldados americanos e sul-coreanos, liderados pelo comandante Arthur Bonifas e o tenente Mark Barrett, foram instruídos a cortar os galhos da planta.
Enquanto aparavam, 15 soldados norte-coreanos, comandados pelo tenente Pak Chul, decidiram intervir. Aos berros, Chul mandou os adversários parar o ataque à planta. Explicou que a árvore era intocável, pois o próprio Grande Líder Kim Il-Sung a havia plantado pessoalmente e estava acompanhando o seu crescimento. Bonifas ignorou o apelo e ordenou que o ato fosse prosseguido.
Logo a seguir, um caminhão repleto de guardas norte-coreanos chegou ao local. Ignorado pela segunda vez, Pak ordenou: “Matem os bastardos!”. E o que se seguiu foi mais para filme de terror slasher que de guerra: Bonifas e Barrett foram atacados com os próprios instrumentos com que cortavam a árvore. Sangraram até a morte.
O Comando das Nações Unidas colocou então em prática a Operação Paul Bunyan — nome dado em homenagem a um notório lenhador mítico no folclore dos Estados Unidos. O objetivo era um só: derrubar a árvore da discórdia.
Acompanhando os oito engenheiros militares, foram enviados 64 soldados armados da Forças Especiais da Coreia do Sul e sete helicópteros de ataque. Soldados armados com mísseis e tanques esperavam um possível contra-ataque. Ao todo, a operação contava com 813 combatentes.
A Coreia do Norte enviou 200 guerreiros munidos de metralhadoras e fuzis. Mas decidiram engolir o orgulho diante da superioridade inimiga. Em 42 minutos, a planta de Kim Il-Sung estava no chão. O toco foi substituído por um monumento em 1987.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Fotos de Kim Jong-Un cavalgando na neve são divulgadas.

FOTOS DE KIM JONG-UN CAVALGANDO NA NEVE SÃO DIVULGADAS

Toda vez que o líder norte-coreano sobe a montanha de Paektu, ele retorna com uma alarmante decisão que vira notícia internacional
ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 18/10/2019
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- KCNA
Mais uma vez a figura de Kim Jong-un aparece ao mundo, em sua jornada mística e política de construção do projeto nacional norte-coreano. A divulgação de épicas fotos do líder comunista cavalgando ao subir o monte Paektu tem valor sagrado para o regime: nas últimas três vezes em que isso aconteceu, o governo da Coreia do Norte anunciou grandes decisões.
Crédito: KCNA

Crédito: KCNA
Kim "subiu o monte cavalgando em um cavalo branco sobre a primeira neve que caía", segundo texto oficial da divulgação das fotos, a KCNA. Durante a cavalgada, o norte-coreano disse que "lembrou com profunda emoção do caminho árduo da luta percorrido em prol da grande causa de construir o mais poderoso país".
Crédito: KCNA

Crédito: KCNA

Crédito: KCNA

Também foram divulgadas fotos do líder com sua irmã Kim Eu-jong e membros do governo em uma visita a Samjiyon, onde Kim Jong-un discursou condenando as sanções dos EUA contra os testes nucleares no país asiático. No auge da crise diplomática centrada em Pyongyang, a expectativa de que a Coreia do Norte anuncie uma drástica decisão é bem alta.
Crédito: KCNA

Crédito: KCNA

"Toda vez que inimigos tentam nos estrangular com uma corrente, devemos abrir o caminho com nosso próprio esforço para seguir vivendo decentemente sob o estandarte do grande espírito da autossuficiência", disse Kim Jong-un.

Saiba mais sobre a Coreia do Norte com as obras abaixo:
1. Coreia do Norte: a última Dinastia Kim, de  José Manuel Duarte de Jesus (2018). 
2. Dentro do segredo: Uma viagem pela Coreia do Norte, de  José Luís Peixoto (2014).
3. Querido Líder, de Jang Jin-Sung (2016).
4. A acusação – Histórias proibidas vindas da Coreia do Norte, de Bandi (2018). 
5. Nada a invejar: Vidas comuns na Coreia do Norte, de Barbara Demick (2013).

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Em 1948, a Coreia do Norte conquistava a sua independência.

NESTE DIA, EM 1948, A COREIA DO NORTE CONQUISTAVA SUA INDEPENDÊNCIA. O QUE HÁ COM ESSE PAÍS?

No dia 9 de setembro, a República Popular Democrática da Coreia foi proclamada. Entenda como surgiu o reino ermitão, e como sua história explica a obsessão atômica
CARLO CAUTI PUBLICADO EM 09/09/2019
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Wikimedia Commons
Quando Kim Jong-il nasceu, dois arco-íris foram vistos no céu. Com 3 semanas de idade, já era capaz de andar. Na primeira vez em que pegou um taco de golfe, em 1994, fez 11 buracos numa tacada só. Durante sua vida, seria um ícone da moda mundial e inventaria o hambúrguer.
Seu filho, Kim Jong-un, que assumiu em 2011, aprendeu a dirigir aos 3 anos e ganhou uma corrida de iate aos 9. Já o patricarca Kim Il-sung havia espantado um navio japonês com pedrinhas e ganhou a guerra praticamente sozinho, matando centenas de soldados inimigos pessoalmente, estilo Rambo. 
Esta é a verdade alternativa sob a qual vive o Estado da Coreia do Norte. País pequeno, com território menor que o Amapá, 28 milhões de habitantes e governado por uma dinastia excêntrica de presidentes ou líderes hereditários, cujo poder é visto como literalmente sobrenatural.
O país eremita que se tornou a ameaça nuclear do século 21 se proclamou como república popular no dia 9 de setembro, com Kim Il-sung como primeiro-ministro. Afinal, como se deu toda essa história?
No princípio era a guerra.
Domingo, 25 de junho de 1950, 4h da manhã. Um dia chuvoso no 38° paralelo, a fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Em poucos minutos, o Exército norte-coreano, treinado por meses para a invasão, com 350 mil homens, 500 tanques de guerra e 2 mil peças de artilharia, abre fogo pesado contra as posições sul coreanas.
Logo em seguida, dez divisões de infantaria e uma divisão blindada atravessam a fronteira. É o começo da Guerra da Coreia, que não foi declarada – era uma invasão-surpresa, vinda de um Estado que não era reconhecido pela Coreia do Sul, nem a reconhecia.
Soldados e civis brandindo livros do Grande Líder /
Crédito: Getty Images
Uma guerra que quase deu certo para a Coreia do Norte. O Exército sul-coreano foi completamente surpreendido e demostrou grave desorganização. Os apenas 100 mil soldados sul-coreanos, mal equipados e com um péssimo treinamento, montaram uma pífia resistência. A notícia da invasão só chegou ao comando às 10h da manhã, seis horas após o início. Já na tarde do primeiro dia de guerra os aviões norte-coreanos bombardearam o aeroporto de Seul. Um começo fulminante.
“A divisão histórica da península coreana não foi feita pelas duas Coreias, e sim pela União Soviética e pelos EUA em 1945. E esse ponto ainda hoje é muito bem lembrado em ambas as Coreias, provocando bastante ressentimento”, explica Sangsoo Lee, pesquisador sênior especializado em questões coreanas do Instituto para as Políticas de Segurança e de Desenvolvimento de Estocolmo, na Suécia.
Foi por conta de uma extensão esquecida da Segunda Guerra. Em 9 de agosto, mesmo dia da explosão de Nagasaki, os soviéticos invadiam os territórios japoneses na Ásia continental. A Coreia havia sido engolida por uma manobra diplomática do Japão, em 1910.
Como aconteceu com a Alemanha, com a derrota, a península foi dividida em duas áreas de influência: a soviética no norte e a americana no sul. A fronteira foi marcada arbitrariamente no 38° paralelo, local onde os exércitos das duas superpotências se encontraram.
O clima logo esquentou. Entre 1949 e 1950 ocorreram vários incidentes na fronteira. Escaramuças pontuais se tornaram cada vez mais violentas. No verão de 1950, os norte-coreanos decidiram resolver isso de vez e, confiantes no apoio da União Soviética e da China, invadiram o sul.
Os EUA imediatamente pediram pela intervenção das Nações Unidas, e foram atendidos. As primeiras tropas da ONU desembarcaram em agosto de 1950 no sul da península.
Comandando-as, o já mítico general Douglas MacArthur, vencedor da Segunda Guerra no Pacífico, a quem o imperador do Japão havia se rendido pessoalmente. A ordem era liberar o território do sul, o que foi conseguido em poucas semanas. Mas MacArthur rebelou-se e, contra as ordens do presidente dos EUA, invadiu o norte, superando o 38° paralelo.
Cena após o massacre de 300 civis do sul / Crédito: Getty Images

Apavorada pela chegada de um exército inimigo perto de seu território, a China comunista entrou de vez no jogo. Em novembro de 1950, mais de 1 milhão de soldados chineses foram enviados para lutar na Coreia contra as forças da ONU. Graças ao suporte de Pequim, as tropas norte-coreanas conseguiram novamente atravessar a fronteira com o sul. “A partir desse momento, China e Coreia do Norte mantiveram relações muito estritas, que continuam até hoje”, explica Sangsoo.
O ex-presidente americano Harry Truman decidiu afastar MacArthur – que, a essa altura, estava propondo lançar bombas nucleares contra a China. Em abril de 1951 ele foi removido do comando e, em seu lugar, entrou o general Matthew Bunker Ridgway.
Somente após dois anos e quase 4 milhões de baixas em ambos os lados, inclusive 2,5 milhões de civis, em julho de 1953 foi assinado um armistício. Armistício, não paz – a guerra, em tese, nunca acabou. E isso ainda assim só aconteceu graças à morte de Stalin, ocorrida poucos meses antes, o que deixou Kim Il-sung sem seu maior financiador.
Eterno impasse.
O sul se tornou um estado capitalista e sede de megacorporações como a Samsung: um dos tigres asiáticos, que cresceram imensamente nos anos 1980. No norte, Kim Il-sung criou um Estado baseado não no comunismo, mas no Juche, a ideologia oficial do regime. Uma mistura de marxismo com nacionalismo autossuficiente. E, obviamente, o extravagante culto à personalidade da família Kim.
O fundador Kim Il-sung é tão exaltado pela propaganda que nem sua morte pôde tirá-lo do cargo. Quando faleceu, em 1994, foi proclamando Presidente Eterno. Seus sucessores, o filho Kim Jong-il e o neto Kim Jong-un, acabaram se contentando com títulos menores, como Querido Líder e Líder Supremo.
A veneração da família Kim se tornou parte da pseudo religião do Estado norte-coreano. “A Coreia do Norte é, em essência, uma teocracia. Alguns elementos dessa religião laica foram tomados do stalinismo e do maoismo, mas o culto a Kim tem formas indígenas que vêm do xamanismo: divindades humanas que prometem a salvação. Não é por acaso que o reverendo Sun Myung Moon e sua Igreja da Unificação são coreanos”, afirma Marco Milani, pesquisador do Instituto de Estudos Coreanos da Universidade da Califórnia do Sul.
“Em relação aos países comunistas da Europa Oriental, a Coreia do Norte se tornou muito mais isolada, especialmente no último período da Guerra Fria. E isso permitiu a manutenção do consenso interno, já que os norte-coreanos não ficaram expostos à influência ocidental como a Alemanha Oriental e a Hungria.”
O colapso da União Soviética em 1989 foi devastador para a Coreia do Norte tanto quanto o foi para Cuba. Nos anos 1990, o país perdeu entre 5% e 10% de sua população. Perdendo o apoio soviético, os Kim foram obrigados a se alinhar completamente com a China. Com isso, Pequim obteve o poder de destruir Pyongyang em um dia: bastaria cortar o fornecimento de alimentos ou de combustível.
Guarda do sul na fronteira entre as Coreias em 2015 /
Crédito: Getty Images
Isso explica a ameaça nuclear. O país decidiu investir, nas palavras de Milani, num “seguro de vida”. Segundo ele, “em Pyongyang observaram muito atentamente o que ocorreu nos últimos anos. Saddam Hussein não tinha armas nucleares, e o Iraque foi invadido pelos americanos. Muhammar Khadafi renunciou espontaneamente à bomba atômica nos anos 2000 e, mesmo assim, foi atacado pela OTAN em 2011.
A Ucrânia também renunciou a suas armas nucleares em 1994 e o regime acabou sendo derrubado em 2014. A liderança norte-coreana entende que nenhum país será jamais atacado pelos americanos se tiver uma bomba atômica, mesmo que pequena, para retaliar”. A bomba, assim, é a coisa menos insana da dinastia Kim.