Um lugarejo
nas cercanias de Ulm, Alemanha, 1619. De 10 para 11 de novembro, René
Descartes, jovem francês engajado nas tropas do Duque Maximiliano da Baviera,
vive uma noite extraordinária. Depois de um, período de febril atividade
intelectual, o dia transcorrera em meio a grande exaltação e entusiasmo:
afinal, parecia ter descoberto os fundamentos de uma "'ciência
admirável". O arrebatamento prossegue durante o sono, atravessado por três
sonhos sucessivos cujas imagens o próprio Descartes, interpretará como símbolos
da iluminação que recebera. E, ao mesmo tempo, como indicação da missão a que
deveria consagrar a vida. Essa missão era a de unificar todos os conhecimentos
humanos a partir de bases seguras, construindo um edifício científico
plenamente iluminado pela verdade e, por isso mesmo, todo feito de certezas
racionais. Já havia algum tempo Descartes vinha meditando sobre este tema: a
superioridade das obras - saia um edifício, uma cidade, uma legislação - que
resultam da atividade de um único homem. Na Alemanha, depois de assistir, em
Frankfurt, de julho a setembro daquele ano, às cerimônias e às festividades da
coroação do Imperador Ferdinando, Descartes entregara-se a longo período de
recolhimento. Havia chegado o inverno e cessaram as manobras militares. Nada
perturbava o jovem soldado, que podia então ocupar-se de suas próprias idéias.
Ele mesmo descreverá, mais tarde, essa fase tranqüila, mas decisiva para seu
destino intelectual: ". . .Não encontrando nenhuma conversação que me
divertisse e não tendo, além disso, por felicidade, preocupações ou paixões que
me perturbassem, ficava todo o dia fechado sozinho num cômodo aquecido por uma
estufa, onde dispunha de todo o tempo para me entreter com meus
pensamentos" (Discurso do Método). Um desses pensamentos era, justamente o
de como "as construções começadas e concluídas por um único arquiteto são
geralmente mais belas e mais bem ordenadas que aquelas que vários esforçaram-se
por reformar, servindo-se de velhas muralhas que haviam sido construídas para
outros fins". Do mesmo modo, as cidades novas, fruto do traçado ditado
pela fantasia de um engenheiro, ofereceriam à razão satisfações que ela não
encontra na; "ruas tortuosas e desiguais" das velhas cidades,
resultantes da expansão desordenada de antigos burgos.
A ciência seria
também uma arquitetura que, embora destinada a abrigar o assentimento de todos
os espíritos através de sua dimensão universal, poderia e deveria ser
alicerçada pelo trabalho de uma inteligência isolada. Um único espírito, atento
exclusivamente às exigências da razão, seria capaz de conceber o plano
urbanístico do conhecimento, a "cidade nova" onde todos poderiam
habitar em ruas claras de traçado 'perfeito porque integrado numa concepção
Unitária. Essa a conclusão a que chega Descartes. E o entusiasmo do dia 10 de
novembro e os sonhos que povoaram a noite provinham não somente da descoberta
do instrumental que permitiria a Construção da "ciência admirável":
resultavam, mais ainda, da convicção de que era ele, Descartes, o arquiteto
destinado a traçar o plano e lançar as bases daquela cidade onde não haveria as
"ruas tortuosas e desiguais" das múltiplas opiniões acumuladas pelo
tempo e ensombradas pela dúvida. A ele cabia a tarefa de inaugurar, desde os
fundamentos, o luminoso reino da certeza.
O século XVI
foi uma época de profundas transformações na visão de mundo do homem ocidental,
época marcada por verdadeira paixão pelas descobertas. No tempo e no espaço
abrem-se novos horizontes: eruditos redescobrem antigas doutrinas filosóficas e
científicas, forjadas pelos gregos, e em nome das quais torna-se possível
constituir uma sabedoria nova, oposta às concepções que prevaleceram na Idade
Média; simultaneamente, viajantes e aventureiros rasgam continentes e mares,
descobrindo temas e povos. A antiguidade greco-romana renasce através de seus
pensadores e artistas, enquanto se constitui uma nova imagem geográfica do
mundo. Essa efervescência, que caracteriza a atmosfera intelectual do
Renascimento, traz consigo, inevitavelmente, a rejeição das idéias até então
vigentes e que estiveram garantidas sobretudo pelo peso de autoridades agora
contestadas. Tudo é sacudido ou destruído: a unidade política, religiosa e
espiritual da Europa; as afirmações da ciência e da filosofia medievais,
calcadas principalmente em Aristóteles; a autoridade da Bíblia, posta em
confronto com os dados das novas descobertas científicas; e o prestígio da
Igreja e do Estado, abalado pelo movimento da Reforma e pelas guerras motivadas
por dissidências políticas ou religiosas. Além disso, se o homem europeu
descobre que há idéias bem diversas das que vinham docilmente aceitando como
únicas verdadeiras, e se passa a saber que há outros povos vivendo segundo
padrões bem diferentes daqueles que lhe pareciam os únicos legítimos, é natural
que se espraie uma vaga de descrença e dúvida. No campo filosófico e
científico, a superação das incertezas não poderia resultar de correções
parciais que tentassem aproveitar as ruínas da visão de mundo medieval. Não era
possível utilizar as "velhas muralhas que haviam sido construídas para
outros fins". Ao contrário, era preciso começar tudo de novo, encontrar
novo ponto de partida e demarcar novo itinerário que conduzisse, com segurança,
a certezas científicas universais. As múltiplas opiniões eram caminhos vários e
inseguros que não levavam a nenhuma meta definitiva e estável. Era necessário,
portanto, que se encontrasse não um caminho - mais um ao lado de tantos outros
-, porém o caminho certo, aquele que se impusesse a todos os demais como o
único legítimo porque o único capaz de escapar ao labirinto das incertezas e
das estéreis construções meramente verbais, para conduzir afinal à descoberta
de verdades permanentes, fecundas. Era preciso achar a via - o ódio dos gregos
- que levasse à meta ambicionada: precisava-se achar o método para a ciência.,
Essa e uma preocupação que se generaliza a partir do final do século XVI e vai
caracterizar a investigação filosófica do século XVII. Descartes buscaria razão
- que as matemáticas encantavam de matreira exemplar - os recursos para a
recuperação da certeza científica.
Os Descartes
constituíam uma família de burgueses radicados na região entre 'l'ours e
Poitiers, e dedicadas principalmente ao comércio e à medicina. De saúde frágil,
René passou o início da infância sob os cuidados da avó, Jeanne Sain, pois
perdera a mãe com um ano de idade. E, chegado o momento de começar os estudos,
o pai enviou-o, em 1606, ao já célebre colégio jesuíta de La Flèche. Descartes
recebeu uma educação impregnada de profundo espírito religioso e imbuída de um
civismo que assumia a forma de fidelidade à monarquia. Proveniente de um meio
marcado por fortes tradições conservadoras, Descartes conviveu em La Flèche com
uma mentalidade imbuída de religiosidade e de submissão às instituições políticas.
A MATEMÁTICA.
Depois dos
cursos realizados em La Flèche e em Poitiers - e desencantado com a
instabilidade e a ótica das "letras" -, Descartes resolve procurar
apenas a ciência - que encontrar em mim mesmo, ou antes, no grande livro do
mundo", seguindo o caminho apontado por Montaigne. Ingressa, então, na
carreira militar, e vai para os Países Baixos, onde passa a servir sob o
comando de Maurício de Nassau, que combatia os espanhóis. Nessa época liga-se
por forte amizade a Isaac Beeckman, jovem médico holandês apaixonado pela
física - matemática. Paralelamente à decepção causada pelas
"humanidades", Descartes já havia sido tocado - certamente desde os
tempos do colégio - pela sedução das matemáticas, todos aqueles conhecimentos
regidos pelas noções de número e medida., "Eu me comprazia principalmente
com as matemáticas, devido à certeza e à evidência de suas razões",
escreverá mais tarde no Discurso do Método. E não sem motivo: ao contrário da
fragilidade do argumentas e da dissensão típica das 'humanidades", as
matemáticas exibiam uma construção sólida e clara, que a todos se impunha com a
força de demonstrações incontestáveis e que atravessara incólume as crises dê
pensamento instauradas pelos novos ventos da Renascença. A validade das proposições
matemáticas parecia pairar acima das contingências de espaço e de tempo,
sugerir o a possibilidade de seguras e perenes verdades que escapassem à
corrosão do ceticismo. As matemáticas eram a promessa de se ir além de
Montaigne. Mas, ao lado do encantamento pelas matemáticas - estimulado pela
comunhão com os interesses de seu amigo Beeckman:-, o jovem Descartes faz duas
verificações que o surpreendem: apesar de apresentarem solidez e perfeito
encadeamento, as matemáticas serviam então de base para um campo bastante
limitado de aplicações (o das artes mecânicas); por outro lado, embora dotadas
de tão grande riqueza racional, elas não ensinavam nada de fundamental para os
problemas da vida, que permaneciam objetos de especulações vagas. Em 1619,
Descartes deixa a Holanda e viaja por vários países: Dinamarca, Polônia, Hungria,
Alemanha. Continua: seus estudos e matemática, na mesma época em que ingressa
na confraria Rosa-Cruz, caracterizada por um misticismo de índole fortemente
racional. O ano de 1619 foi, assim, marcado por grande atividade científica e
por uma efervescência espiritual que culminaram nos sonhos da noite de l0 para
11 de novembro. Descartes alcançava então o desvelamento de sua missão
filosófica; certo de que existia um acordo fundamental entre as leis
matemáticas e as leis da natureza, conclui que a ele caberia a tarefa de
reviver e atualizar o antigo ideal pitagórico de submeter o universo aos
números, abrindo a via para o conhecimento claro e seguro de todas as coisas. A partir de 1620, Descartes renuncia
definitivamente à carreira militar para dedicar-se à investigação científica e
filosófica. Realiza novas viagens, inclusive à Itália. Ate esse momento
Descartes havia escrito alguns trabalhos, dos quais só se conhecem extratos ou
os títulos, onde transparecem suas preocupações científicas aliadas à
influência dos temas da sociedade Rosa-Cruz. Os cinco primeiros anos de sua permanência
na Holanda foram dedicados à elaboração de um pequeno tratado de metafísica e,
principalmente, à composição de uma obra que deveria abarcar o conjunto da
física. Descartes marca já pela roupagem de seu pensamento em "língua
vulgar", nacional, a afirmação do espírito moderno, tendente a romper com
a latinização unificadora da cultura. Sua saúde, que sempre fora frágil, não
resiste, porém, aos rigores do clima nórdico: tendo contraído pneumonia,
Descartes morre, poucos meses depois de sua chegada (11 de fevereiro de 1650).
Se duvido,
penso.
Nos
Princípios da Filosofia Descartes compara a sabedoria a uma árvore que estaria
presa ao domínio do ser, à realidade, através de suas raízes metafísicas. O
tronco da árvore seria a física, ou seja, o conjunto dos conhecimentos sobre o
mundo sensível, redutíveis, porém, à sua estrutura matemática. Os ramos
representariam as principais artes que aplicam conhecimentos científicos: a
mecânica, a medicina, a psicologia, a moral. Por outro lado, a imagem deixa
perceber claramente que Descartes, embora desde cedo voltado para ai pesquisas
científicas, não considera que estas se bastem a si mesmas: o tronco da física
sustenta-se em raízes metafísicas. A maior parte da obra de Descartes é
consagrada às ciências; mas ele compreende que não é suficiente pesquisar e
resolver problemas científicos - o que faz sobretudo nos domínios da matemática
e da óptica -, se, naquele tempo de incertezas, não - consegue ,justificar a
própria legitimidade da ciência. Desde os 23 anos Descartes havia aplicado a
álgebra à geometria encontrando um método matemático geral e abstrato que
fornecia simultaneamente as leis dos números e das figuras. Mas sua ambição é
maior, como maior era o âmbito da tarefa intelectual de que se julgara
investido, principalmente depois dos sonhos de novembro de 1619. Tratava-se de
unificar, com o auxílio do instrumental matemático, todo o vasto campo dos
conhecimentos, até então dispersos em débeis construções isoladas. Mas, para
isso, era necessário que, antes, o terreno fosse preparado de modo a que nele
não medrasse qualquer dúvida. Só então a árvore da sabedoria poderia expandir-se
com o pleno viço da certeza. Descartes percebe que existe apenas um caminho que
supera a dúvida: o que a atravessa toda, esgotando-lhe todas as dimensões. Ou
seja: parece-lhe impossível vencer a dúvida evitando-a ou pretendendo
instalar-se desde logo numa ágil certeza - e frágil justamente porque ainda não
submetida aos testes da dúvida. Descartes aceita o desafio da dúvida que
transpassava a atmosfera cultural de sua época; aceita para combatê-la com suas
próprias armas. Eis porque duvida de tudo. Adota em princípio a sugestão de
Montaigne: o decisivo campo de batalha entre a certeza e a incerteza é o
próprio eu. Fazendo a sondagem de suas próprias idéias, verifica que as que
parecem referir-se a objetos físicos são instáveis e obscuras, facilmente atingíveis
pela incerteza; outras, ao contrário, apresentam-se ao espírito com grande
nitidez e estabilidade - exatamente as utilizadas pelas matemáticas (como
"figura", "número"). Essas ,idéias claras e distintas são
concebidas por todos da mesma maneira, o que parece mostrar que elas independem
das experiências dos sentidos (individuais e imutáveis), constituindo o
substrato. Essas idéias inatas: satisfazem plenamente o ideal de construir uma
matemática universal que passara o objetivo de Descartes. Com elas - e somente com idéias desse tipo -
parecia exeqüível a construção de uma "cadeia de razões", cujos elos
seriar a intuídos com a clareza das evidências matemáticas e interligados com a
coerência perfeita das demonstrações de que a matemática fornecia os exemplos.
Construída por sucessivas intuições ligadas por vínculo dedutivo, a perfeita
sabedoria - aplicável a quaisquer objetos - deveria ser uma tessitura de idéias
claras. A clareza das idéias, porém, representa uma garantia apenas subjetiva:
porque são perfeitamente claras e distintas é que as idéias se impõem com a
força de evidências. Mas quem garante (que a tais idéias, embora claras,
corresponda algo real? Nesse ponto de seu esforço de fundamentação da certeza
científica, Descartes amplia a dúvida ao máximo, tornando-a
"hiperbólica": passa a duvidar até mesmo das idéias claras e
distintas, que espírito espontaneamente admite como evidentes. Para levar a
dúvida a essa dimensão extrema, Descartes atiça ruão de um artificio: a
hipótese do '"gênio maligno". O que Descartes, através desse
artifício, está lembrando é que, enquanto se permanecesse apenas no interior da
consciência, onde a ciência aparece como uma representação, nada garante, nem
mesmo a máxima clareza e o perfeito encadeamento lógico dessa representação,
que ela possui um correspondente "lá fora", no mundo objetivo. A
hipótese do gênio maligno faz, desse modo, pairar sobre o universo científico a
ameaça de ele nada mais ser que uma ficção, uma criação apenas subjetiva, um
sonho, embora o mais bem concatenado. No entanto, na medida mesma em que é
estendida até sua máxima dimensão e mostra seu tamanho ameaçador, é que a
dúvida manifesta seu limite e pode dar lugar à sua superação. De cada nível de
conhecimento em que é aplicada - das idéias obscuras provenientes de impressões
sensíveis até as idéias claras universais -, a dúvida permite extrair um núcleo
de certeza, que cresce à medida que ela se radicaliza: é indubitável que,
"se duvido, penso". E quanto mais duvide, mais se repete, reforçando-se,
a mesma experiência: se duvidar de que duvido, só posso fazê-lo pensando essa
dúvida a respeito da própria dúvida inicial.
Penso, logo
existo.
No final da Geometria,
obra escrita em 1637, Descartes afirma: "Em matéria de progressões
matemáticas, quando se tem os dois ou os três primeiros termos, não é difícil
encontrar os outros". Essa idéia de uma ordem natural, inerente à
progressão do conhecimento, é fundamental para o projeto cartesiano de
construir uma "matemática "universal". A partir do que ele
experimenta com campo matemático, Descartes tende a ver o desconhecido como um
termo ignorado, mas que será necessariamente descoberto desde que, a partir do
já conhecido, seja construída uma "cadeia de razões" que conduza a
ele. Generaliza o procedimento matemático que faz do desconhecido um termo
relativo a outros termos (o conhecimento existente), e que em função destes
pode ser descoberto. O importante - e que constitui o preceito metodológico
básico que Descartes aponta no Discurso do Método é que só se considere como
verdadeiro o que for evidente, ou seja, o que for intuível com clareza e
precisão. Mas a ampliação da área do conhecimento nem sempre oferece um
panorama permeável à intuição, e, conseqüentemente, adequado de saída à
aplicação do preceito da evidência. Eis por que Descartes propõe, outros
preceitos metodológicos complementares ou preparatórios da evidência: o
preceito da análise (dividir cada uma das dificuldades que se apresentem em
tantas parcelas quantas sejam necessárias para serem resolvidas), o da síntese
(conduzir com ordem os pensamentos, começando dos objetos mais simples e mais
fáceis de serem conhecidos, para depois tentar gradativamente o conhecimento
dos mais complexos) e o da enumeração (realizar enumerações de modo a verificar
que nada foi omitido). Tais preceitos representam a submissão a exigências
estritamente racionais. E justamente o que Descartes prescreve como recurso
para a construção da ciência e também para a sabedoria de vida é seguir os
imperativos da razão, que, a exemplo de sua manifestação matemática, opera por
intuições e por análises. De nada adiantaria afiar o gume do instrumental
analítico se ele, porém, não atingisse um alvo real - é o que Descartes parece
mostrar nas. partes do Discurso do Método e das Meditações, em que a
exacerbação da dúvida, por via da hipótese do gênio maligno, coloca em xeque a
objetividade do conhecimento científico. Se da máxima incerteza desponta uma
primeira certeza - "Se duvido, penso" -, esta é ainda, contudo, uma certeza
a respeito da própria subjetividade ("penso'). Nada fica até aí garantido
a respeito de qualquer realidade subsistente. Todavia já e um primeiro elo na
cadeia de razões - e basta uma primeira certeza plena para que a "ordem
natural", como numa progressão matemática, faça jorrar luz sobre o que até
então permanecia desconhecido. Descartes procura provar a existência de Deus,
garantia última de qualquer subsistência e, portanto, fundamento absoluto da
objetividade. A passagem da certeza a respeito da existência do pensamento para
a certeza sobre a existência do mundo físico pressupõe, assim, o apoio em Deus.
Deus serve de intermediário entre duas certezas: a de que "sou uma coisa
que pensa" e a de que tenho realmente um corpo. ações entre corpo e espírito.
O dualismo cartesiano será substituído, dentro mesmo da vertente do
racionalismo moderno, por outras explicações sobre a relação corpo alma.
A MORAL
PROVISÓRIA.
A física
cartesiana representa uma aplicação de sua, metafísica, Deus garante o
conhecimento científico constituído a partir de idéias claras. Baseada
primariamente no plano do pensamento, a física cartesiana resulta, assim, de
construções abstratas, regidas pela razão. Descartes reconhece que os eventos
do mundo físico não são facilmente absorvidos pelas idéias claras ligadas por
cadeias dedutivas. De qualquer modo, porém, a física cartesiana mostra o junto
tal ele se apresenta ao iate ecto: constituído apenas pela extensão, que é a
essência da corporeidade. A aplicação
das exigências estritamente racionais à compreensão do mundo físico leva
Descartes a concebê-lo como finito e pleno: a matéria seria dividida em
partículas perfeitamente contínuas (não existiria o vazio). Num universo assim
cheio, toda partícula que se move só pode fazê-lo na medida em que ocupa o
lugar de outra que também se move. Porém o mais importante é que Descartes
concebe que esse movimento está submetido a uma determinação tal que, se nada o
afetar, ele deverá realizar-se de modo retilíneo e uniforme, segundo o
princípio de inércia. Descartes reconhece que num mundo em que, devido- àquele
princípio, as partículas que constituem a matéria deveriam mover-se
retilineamente, de fato elas se movem em trajetórias circulares - o que
significa que o princípio de inércia é um princípio geral, mas que não se
efetiva nunca. Fora deste mundo é que uma partícula se moveria em linha reta e
uniformemente: continuando a tradição platônica, Descartes vê o mundo físico
como um caso particular de um mundo ideal, este alcançável apenas pelo intelecto.
Também na consideração das ações humanas Descartes reconhece que o propósito de
generalizar as exigências de uma razão matemática encontra obstáculos: a
urgência da ação demanda a aceitação de imposições puramente factuais. Por
isso, embora a pretensão de criar uma "matemática universal"
contivesse o ideal de uma sabedoria, guiada pela razão e aplicável às
contingências da vida, Descartes é compelido a propor uma "moral
provisória" - espécie de arte de ser feliz, apesar das dúvidas que possam
persistir no julgamento que se aço sobre as coisas. Essa moral recomenda o
conformismo social, a obediência às leis e aos costumes do país. O que confirma
que a formação conservadora de Descartes, fruto do meio familiar e social e
fortalecida pela atmosfera cultural de La Flèche, deixou marcas no seu
pensamento. Por outro lado, mostra que o destino de Giordano Bruno e de Galileu
sugeria uma prudência que pautou não apenas a vida como também certos aspectos
da obra de Descartes. Mesmo quando ampliada ao máximo, a dúvida cartesiana, que
chegou a atingir as idéias claras da matemática, jamais se voltou para os temas
políticos e sociais. Será necessário aguardar o século XVIII para que, na
França, em nome da razão analítica prescrita pelo cartesianismo, o poder
político e as instituições sociais sejam julgados e condenados, em nome do
ideal de uma sociedade constituída por indivíduos livres e iguais.
FONTE: Coleção: Os
pensadores "Descartes".
Síntese da Prof. Vanessa. Aula sobre filósofos e pensadores.
Síntese da Prof. Vanessa. Aula sobre filósofos e pensadores.





















