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segunda-feira, 16 de maio de 2022

Descoberta a origem da Peste Negra.

Descoberta a origem da Peste que dizimou 60% da população da Europa medieval

Mistério foi desvendado por uma equipe formada por historiadores e geneticistas
POR HISTORY CHANNEL BRASIL EM 15 DE JUNHO DE 2022
Descoberta a origem da Peste que dizimou 60% da população da Europa medieval-0

A pandemia que ficou conhecida como "Peste Negra" devastou a Europa na Idade Média. Estima-se que a doença foi responsável pela morte de 60% da população do continente no período. Agora, uma nova pesquisa afirma ter descoberto a origem da enfermidade.

Origem da Peste.

A doença é causada pela bactéria Yersinia pestis e pode surgir em três formas: infecção pulmonar, conhecida como peste pneumônica; infecção no sangue, conhecida como peste septicêmica; e afetando os gânglios linfáticos, chamada de peste bubônica. Esta última foi a causa da pandemia que dizimou grande parte da população da Europa medieval. No novo estudo, publicado no periódico Nature, os cientistas apontam que a enfermidade não surgiu em território europeu.

Lápide de vítima da Peste no Quirguistão
Lápide de vítima da Peste no Quirguistão (Imagem: © A.S. Leybin, August 1886, via Instituto Max Planck

De acordo com a pesquisa, a origem da doença está na Ásia Central. O mistério começou a ser desvendado quando Philip Slavin, historiador da Universidade de Stirling, na Escócia, descobriu evidências de um aumento repentino de mortes no final da década de 1330 em dois cemitérios perto do Lago Issyk-Kul, no norte de onde hoje fica o Quirguistão. Em meio a 467 lápides datadas entre os anos 1248 e 1345, o pesquisador notou um grande aumento nas mortes em 1338 e 1339.

Slaving também descobriu que inscrições em algumas das lápides mencionavam a causa da morte como “mawtānā”, termo que significa “pestilência” na língua siríaca. Em seguida, pesquisadores especializados em genética analisaram DNA antigo de restos humanos enterrados em dois locais que continham  essas inscrições. Os primeiros resultados da equipe foram muito animadores, pois o DNA da  Yersinia pestis foi identificado em indivíduos com o ano 1338 inscrito em suas lápides.

A análise completa do genoma da bactéria descobriu que ela era um ancestral direto da cepa que causou a Peste na Europa oito anos depois. “Finalmente pudemos mostrar que a epidemia mencionada nas lápides foi de fato causada pela peste”, disse Slavin.

IMAGENS
 
ISTOCK
fonte: history.com.br

quinta-feira, 8 de abril de 2021

O papa que decretou 'lockdown' em Roma para salvar população de peste no século XVII.

 

O papa que decretou 'lockdown' em Roma para salvar população de peste no século 17

  • Edison Veiga
  • De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
O papa Alexandre 7º

CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO

Legenda da foto,

O papa Alexandre 7º decretou medidas sanitárias que, para pesquisadores, contribuíram para que a letalidade de uma peste no século 17 fosse muito menor

Ele era intelectual, fã de arquitetura e arte, doutor em filosofia, teologia e direito. Quando o italiano Fabio Chigi (1599-1667) se tornou o papa Alexandre 7º, nem em seus piores pesadelos poderia vislumbrar que teria de enfrentar uma epidemia de peste.

A resposta dele, no entanto, foi contundente.

Embora a ciência só tenha descoberto o bacilo causador da peste em 1894 — graças ao bacteriologista Alexandre Yersin (1863-1943) —, o papa decretou medidas sanitárias que, para pesquisadores, contribuíram para que a letalidade da doença fosse muito menor na população romana do que em outros lugares afetados pela mesma doença.

De acordo com levantamento realizado pelo historiador italiano Luca Topi, professor da Universidade de Roma La Sapienza, entre 1656 e 1657 a peste matou 55% da população da Sardenha, metade da população de Nápoles e 60% dos que habitavam Gênova.

Em Roma, contudo, foram 9,5 mil mortos em um universo de 120 mil pessoas — menos de 8%. Essas conclusões foram publicadas em uma revista científica italiana em 2017.

Calcula-se que a peste tenha dizimado cerca de metade da população europeia, em diversas ondas. Fazia um ano que Alexandre VII havia sido eleito papa quando começaram a chegar relatos de mortes pela doença no então reino de Nápoles.

Alexandre 7º não era somente o líder do catolicismo. Se hoje o papa é soberano de um estado diminuto encravado em Roma, o Vaticano, na época comandava os chamados Estados Pontifícios que compreendiam Roma e boa parte dos arredores — praticamente todo o centro da Itália atual.

A fascinante história a seguir mostra como medidas que geram controvérsia no Brasil da pandemia de covid-19, como proibição de circulação de pessoas, fechamento de fronteiras e de templos, rastreamento de casos, auxílio emergencial, debates sobre jejuns religiosos e outras, foram aplicadas há mais de 400 anos — e tiveram bons resultados.

Quais foram as medidas do papa?

Nos domínios papais, esse surto ocorreu de maio de 1656 a agosto de 1657.

Assim que as primeiras notícias da peste chegaram a Roma, Alexandre 7º colocou em alerta a então Congregação da Saúde, que havia sido criada em um surto anterior.

As medidas de contenção foram implementadas gradualmente, conforme a situação se tornava mais perigosa.

Em 20 de maio, foi promulgado um decreto que suspendia toda atividade comercial com o reino de Nápoles — já fortemente afetado. Na semana seguinte, o bloqueio se estendeu: ficava proibido também o acesso a Roma de qualquer viajante vindo de lá.

No dia 29, a cidade de Civitavecchia, dentro dos domínios dos Estados Pontifícios, registrou a chegada da peste e foi imediatamente colocada em quarentena.

"Nos dias e meses seguintes, muitas outras localidades dos Estados Papais foram colocadas em isolamento", detalha o historiador Topi, em seu artigo. Em Roma, a decisão foi radical: quase todos os portões que então davam acesso à cidade foram fechados. Apenas oito permaneceram abertos, mas eles eram protegidos 24 horas por dia por soldados, supervisionados por "um nobre e um cardeal".

A partir de então, qualquer entrada tinha de ser justificada e registrada.

Em 15 de junho, Roma teve o primeiro caso: um soldado napolitano que morreu em um hospital. As normas passaram a endurecer cada vez mais. Em 20 de junho, uma lei passou a obrigar que todo aquele que soubesse de um doente informasse autoridades.

Na sequência, um novo dispositivo papal passou a obrigar que todo pároco e seus ajudantes visitassem, a cada três dias, todas as casas de suas circunscrições para identificar e registrar os doentes.

Era a maneira, na época, de rastrear os infectados.

Aí veio a notícia de mais uma morte, um pescador que estava hospedado na região de Trastevere. "Toda a família que teve contato com essa vítima também se infectou e muitos foram a óbito", conta Raylson Araujo, membro do Núcleo de Diálogo Católico-Pentecostal e estudante de teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que também pesquisou o assunto.

A primeira ideia foi tentar isolar a região. Na noite do dia 22 para o dia 23 de junho, sob as ordens de três cardeais, trabalhadores ergueram um muro de contenção após nove horas de trabalho.

Ilustração papa Alexandre 7o, feita por Andrea Sacchi

CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO

Legenda da foto,

O endurecimento das regras impostas pelo papa Alexandre 7º foi gradual até chegar a um lockdown completo

"O papa era também a autoridade civil. Conforme a doença começou a se espalhar, ele passou a implementar medidas de isolamento. Depois que proibiu o comércio com Nápoles, passou a decretar outros meios de distanciamento social: foi proibindo encontros, procissões, todo o devocional mais popular", pontua Araujo.

O endurecimento das regras foi gradual até o lockdown completo.

"Conforme o tempo foi passando, ele [o papa] foi adotando novas proibições. Congregações [da Igreja] foram suspensas, todas as visitas diplomáticas também, encontros religiosos e reuniões públicas… Estradas foram vigiadas", enumera Araujo. "Todas as aglomerações civis acabaram suspensas."

"Foram banidas várias atividades econômicas e sociais. Festas e cerimônias públicas, civis e religiosas foram canceladas", diz o seminarista Gustavo Catania, filósofo pelo Mosteiro de São Bento de São Paulo. "Mercados foram suspensos e algumas pessoas que moravam na rua foram retiradas, porque podiam ser causas de contágio. A travessia noturna do Rio Tibre foi proibida."

"Com quase toda a cidade fechada, os cultos inevitavelmente se transformaram em privados. Quase todos tinham alguém da família com a doença", completa Catania.

O papa também determinou que naquele período ninguém deveria fazer jejum, numa tentativa de que as pessoas não se privassem de alimentos e, assim, se mantivessem mais saudáveis para o caso de serem infectadas.

Todos aqueles que tinham pelo menos um contaminado na família eram proibidos de sair de casa. Para garantir a assistência, Alexandre 7º separou os padres e os médicos em dois grupos — aqueles que teriam contato com os doentes e os que não teriam, encarregando-se de zelar pelo restante da população.

"Havia uma preocupação que os padres não se transformassem em vetores da doença", diz Araujo.

"Os médicos foram proibidos [por lei] de fugir de Roma", atenta Catania, lembrando que muitos tinham receio de se contaminarem com a peste. Como os doentes eram isolados, foi montada uma rede de apoio assistencialista. "Houve a previsão de ajuda financeira às famílias que não podiam sair de casa e algumas pessoas recebiam comida pela janela", diz o seminarista.

Nos meses de outubro e novembro, quando a incidência da doença foi maior, chegou-se a prever pena de morte para quem descumprisse as regras.

Negacionistas e fake news

Mas nem todos acreditavam na gravidade da situação.

Havia quem desdenhasse e até as hoje chamadas fake news foram espalhadas. "O papa chegou a ser acusado de ter inventado a doença em benefício próprio, para ganhar popularidade", conta a vaticanista Mirticeli Medeiros, pesquisadora de história do catolicismo na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

"[Muitos] não queriam que o pontífice adotasse tais medidas [de restrição] para não alarmar a população", complementa. "Até seus colaboradores mais próximos o aconselharam a não fazê-lo. Temiam que, a partir do momento em que ele levasse a público a gravidade da situação, por meio de decretos e divulgação, a economia passasse a sentir os efeitos desse tipo de postura. No entanto, ele [o papa] foi firme e seguiu com sua política sanitária."

Talvez Alexandre 7º possa ser considerado uma espécie de padroeiro do lockdown.

Araújo compara o acontecido no século 17 com o "movimento de hoje, com a resistência das pessoas" a aceitarem a gravidade da pandemia de covid-19. "[Na época,] primeiro os comerciantes quiseram aconselhar o papa para que ele não adotasse as medidas, pois [o fechamento] iria prejudicar o comércio, a colheita", comenta o pesquisador. "Parte do povo foi murmurar contra as decisões do papa."

"Grupos procuraram o papa, aconselhando-o para não decretar medidas de isolamento. Queriam que ele acobertasse, maquiasse um pouco a doença para que o pânico não se espalhasse e o comércio não fosse fechado", prossegue.

Há relatos de que um médico teria divulgado fake news acerca das reais motivações do lockdown. "Ele espalhou que essas decisões do papa escondiam interesses políticos", diz o historiador Victor Missiato, professor do Colégio Presbiteriano Mackenzie Brasília, membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Psicossociais sobre o Desenvolvimento Humano da Universidade Presbiteriana Mackenzie (Brasília) e pesquisador na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

"Foi acusado de calúnia e acabou condenado a trabalhar em um hospital voltado para a cura da peste."

Outro caso emblemático foi o do religioso Gregorio Barbarigo (1625-1697). Quando foi eleito, o papa Alexandre VII nomeou-o prelado da Casa Pontifícia, conselheiro e, em seguida, referendário do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica. Isso tudo em 1655, mesmo ano em que Barbarigo havia se tornado sacerdote.

Mas o conselheiro acabou sendo uma voz contrária ao lockdown de Alexandre 7º. "Ele questionava as medidas, dizia que elas provocavam mais mortes do que a peste, porque causavam mortes pela fome e pelo medo. Mesmo próximo ao papa, ele tinha um olhar crítico", frisa Araujo.

Alexandre 7º não parece ter guardado rancor. Tanto que, anos mais tarde, em consistório de abril de 1660, fez de Barbarigo cardeal.

Vitória contra a doença

Quando esse surto foi vencido em agosto de 1657, a celebração foi à altura.

Alexandre 7º demonstrou o renascimento da Igreja com monumentos que marcam o Vaticano até hoje, como o conjunto de colunas da Praça de São Pedro, obra do escultor e arquiteto Gian Lorenzo Bernini (1598-1660).

Colunas de Bernini, em foto de 2019

CRÉDITO,EDISON VEIGA

Legenda da foto,

Obras de Papa Alexandre 7º marcam o Vaticano até hoje, como o conjunto de colunas da Praça São Pedro, do escultor e arquiteto Gian Lorenzo Bernini

"Era muito comum, nesse período, que os papas tornassem visíveis a sua soberania e o seu poder. Os grandes monumentos de Roma, nesse período, foram construídos a partir dessa motivação", contextualiza Medeiros.

"É o caso das Quattro Fontane da Piazza Navona, Fontana di Trevi, entre outros."

A embaixada brasileira em Roma fica em frente às esculturas da famosa Piazza Navona.

"Alessandro 7º era apaixonado pela arte, amigo de Bernini. O início de seu pontificado foi marcado, justamente, pela peste", explica.

"A forma que ele encontrou, de certa forma, de apagar aquele período sombrio, foi investindo em obras colossais. As colunatas que ele mandou construir representam os braços abertos da Igreja. A catedral do apóstolo Pedro foi restaurada, o símbolo do poder temporal, não só espiritual."

Outros casos

Não foi este o único momento histórico em que a Igreja, no passado, fechou suas portas por conta de surtos e epidemias. Mas, como destaca Medeiros, foi o único de forma oficial "e contando com uma estrutura de Estado para tal".

"Ocorreram [em outros momentos] casos isolados em algumas dioceses da Itália, sobretudo no século 19 durante a epidemia de cólera", lembra ela. "Nesses lugares, adotaram-se medidas restritivas semelhantes."

Por outro lado, Medeiros lembra que no surto de peste do século 14, ocorreu "totalmente o contrário".

"O papa Clemente 6º, isolado no palácio pontifício de Avignon, na França, não parecia muito preocupado com o que ocorria fora dos muros da sua casa", aponta a vaticanista. "Como na mentalidade do homem da época a doença nada mais era do que um castigo divino, procissões e outras formas de aglomeração aconteciam, na tentativa, segundo a mentalidade religiosa da época, de extirpar aquele mal."

"Mas já nessa época, assim como na época de Alexandre 7º, existiam os dormitórios para isolar os infectados. Esses 'lazarettos', como eram chamados, estavam sob a responsabilidade dos [religiosos] franciscanos", contextualiza. "Os viajantes, seguindo as normas sanitárias de alguns lugares, deveriam evitar o convívio com outras pessoas por 40 dias — daí que surge o termo quarentena."

No século anterior, a região de Milão foi fortemente acometida pela peste. O cardeal arcebispo de lá, Carlo Borromeo (1538-1584), também estabeleceu medidas sanitárias rígidas em sua circunscrição.

"Ele fez a proposta de uma quarentena geral, que foi adotada [pela região]", diz Araujo. "Foi publicado um decreto que determinava que as pessoas se mantivessem em casa até que a situação fosse controlada. Só podiam sair os que estavam cuidando espiritual e materialmente da população."

O pesquisador conta que até as missas foram realizadas em um formato "à distância", conforme as possibilidades da época. "Um padre ia para a esquina e celebrava na rua. Os fiéis assistiam de suas janelas, de dentro de casa", explica ele.

Fé e ciência

Ao analisar esses episódios do passado — muitas vezes semelhantes ao vivenciados hoje — dois pontos precisam ser levados em conta.

Este era um mundo em que a ciência ainda não era valorizada como hoje. E no qual religião e política estavam intrinsecamente mesclados.

"No século 17, absolutismo era muito forte na Europa e estava ligado ao poder da Igreja. Poder político e poder religioso, naquela época, ainda estavam muito misturados", explica Missiato.

"Naquele período, a Revolução Científica ainda não havia sido difundida nas diversas sociedades do mundo europeu. A crença no divino enquanto ente definidor da paz e do caos ainda era vista como o caminho para a salvação."

Por isso, o lockdown imposto por Alexandre 7º se torna ainda mais interessante.

"[O ocorrido] mostra um alinhamento entre fé e ciência", diz Araujo. "Uma fé que tem os pés no chão. Com base no que Roma já havia sofrido com a peste em outros momentos, [a experiência faz com que] eles passam a saber que essas medidas são importantes. Existem pastores sensíveis."

fonte: https://www.bbc.com/portuguese/geral

segunda-feira, 6 de julho de 2020

China eleva estado de alerta após caso de peste bubônica no norte do país.

PESTE
A confirmação de um caso de peste bubônica fez a China aumentar precauções para prevenir a proliferação da doença no país. De acordo com as autoridades, o paciente infectado é um camponês da cidade de Bayannur, no norte chinês. Ele está em quarentena e sua condição de saúde é considerada estável.
Ainda não está claro como o paciente se infectou com a doença. Autoridades chinesas estudam um segundo caso suspeito no país. Um adolescente de 15 anos apresentou sintomas de peste bubônica após entrar em contato com uma marmota que foi morta por um cachorro. Devido à situação, autoridades sanitárias emitiram um alerta nível 3, que proíbe a caça e o consumo de animais que podem transmitir a doença.
A enfermidade é causada pela bactéria Yersinia pestis e pode surgir em três formas: infecção pulmonar, conhecida como peste pneumônica; infecção no sangue, conhecida como peste septicêmica; e afetando os gânglios linfáticos, chamada de peste bubônica. Esta última é a mais conhecida, responsável pela morte de 60% da população da Europa na Idade Média. 
De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, a peste geralmente se espalha para os humanos por meio de contato com animais infectados ou através da picada de pulgas hospedeiras de animais infectados. No entanto, no caso de peste pneumônica, ela pode se espalhar quando uma pessoa contaminada tosse. A doença é altamente contagiosa e pode matar caso o paciente não seja tratado rapidamente com antibióticos.
Em 2019, ao menos dois casos de peste bubônica já haviam sido registrados na China. Nos últimos anos, surtos da doença atingiram esporadicamente as regiões rurais dos Estados Unidos, África, Ásia e América do Sul. A OMS relatou 3.248 casos e 584 mortes por peste em todo o mundo entre 2010 e 2015. 

Fonte: BBC
Imagem: Shutterstock.com

sexta-feira, 27 de março de 2020

As maiores e mais importantes epidemias da História.

DA PESTE BUBÔNICA AO CORONAVÍRUS: AS MAIORES E MAIS IMPORTANTES EPIDEMIAS DA HISTÓRIA

Recorrentes em diversos momentos da humanidade, pestes e vírus foram responsáveis pela dizimação de milhões de pessoas
JOANA FREITAS PUBLICADO EM 27/03/2020
Pintura retratando a Peste Negra
Pintura retratando a Peste Negra - Getty Images
O homem é um exemplo de superação nas linhas evolutivas. Não éramos fisicamente dominadores nem estávamos no topo das cadeias alimentares. Éramos caçadores, mas presa fácil também. A evolução do nosso cérebro, as capacidades intelectuais e de cognição deram-nos a vantagem.
Durante milénios, feitos de avanços e retrocessos, a espécie humana prosperou e ocupou os quatro cantos do planeta. A uma capacidade adaptativa gigante juntou-se a sobrevivência assente na coesão de grupo. Há cerca de 10.000 anos começam a aparecer as primeiras sociedades sedentárias possíveis pela domesticação, embora insipiente, de plantas e animais.
Aqui, neste preciso momento, o homem assinava com o destino. Populações crescentes e fixas num local, convivência diária com os animais domesticados e todos os parasitas a eles associados, formaram as condições perfeitas para as primeiras epidemias.
A história da humanidade será agora marcada por episódios epidêmicos e pandêmicos que dizimaram milhões de pessoas. Estas epidemias podem ser equiparadas a grandes guerras no que toca a perdas humanas e materiais e, a sua existência, teve a capacidade de mudar o rumo da história.
Uniforme utilizado por médicos para tratar pacientes infectados / Crédito: Getty Images

Entrando no século 4, entre os anos de 527 e 565, o imperador Justiniano tem o domínio do império bizantino. A peste bubônica assola o império e trespassa as suas fronteiras. Mata entre 30 a 50 milhões de pessoas, provavelmente metade da população mundial à época. Esta epidemia marca um fim de uma época.
O império romano nunca mais será unificado: é o início da era negra da época medieval. Séculos mais tarde, mais precisamente entre 1343 e 1351 — auge —, outro surto de peste bubónica varre a Ásia e Europa matando cerca de 80 milhões de pessoas. Esta epidemia é vastamente conhecida como a famosa peste negra. Esta peste foi tão avassaladora que a Europa precisou de cerca de 200 anos para restabelecer os seus níveis populacionais.
No entanto, ocorreram mudanças sociais e culturais importantes como produto desta devastadora epidemia. Com um número tão elevado de mortes, o nível de vida dos sobreviventes subiu efetivamente. Havia mais postos de trabalho disponíveis, mais habitação disponível, mais terra para cultivo, mas menos bocas para alimentar.
A nível religioso a igreja católica enfrenta uma vaga crescente de misticismo que desafia as suas doutrinas. Algumas minorias, como os judeus por exemplo, começam a ser perseguidos e acusados de serem os causadores da peste que se crê ter tido início na China.
Quadro Lição de Anatomia do Dr. Tulp, de Rembrandt / Crédito: Getty Images

No século 15, os europeus, aquando das conquistas em territórios americanos, levavam dentro de si a arma mais letal de todas. Foram hospedeiros de vírus mortais para as populações locais, entre os quais, a gripe, sarampo, malária, cólera, tifo, peste bubônica e, o mais mortífero de todos, a varíola.
A varíola foi responsável pela morte de milhões de nativos americanos, sendo que, em cem anos, a sua população passou de 60 milhões para cerca de 6 milhões.
O impacto foi tão grande que há cientistas que estudam a possibilidade de ter existido uma alteração climática por conta desta ocorrência. Além de menos emissões de CO2 e da floresta ter crescido exponencialmente, coincidentemente o sol entrava numa fase de baixa atividade levando a uma queda na temperatura mundial. Desta vez, a Europa pagou a fatura e viveu tempos de fome, pois a alteração na temperatura fez perder muitas colheitas.
Já no século 19 temos uma pandemia de cólera. Entre os anos de 1817 e 1823, com início de foco na Índia, a enfermidade dizima milhões de pessoas. Dessa data, até 1961, existiram um total de sete epidemias de cólera. Este vírus continua ativo, infeta milhares de pessoas todos os meses e é responsável por até 140.000 mortes anualmente.
Enfermaria carioca de 1918 com infectados pela gripe / Crédito: Biblioteca Nacional

Já no século 20, em 1918, após a Primeira Guerra Mundial, aparece a mais conhecida entre elas: a gripe espanhola. Esta pandemia de H1N1 infectou cerca de 500 milhões de pessoas e matou por volta de 50 milhões — globalmente.
Como já foi referido, esta epidemia ocorre no final da primeira grande guerra e as condições para a travar eram quase nulas. No entanto, o esforço para compreender e tratar pandemias começa a aparecer, tendo forte impacto no melhoramento dos sistemas públicos de saúde. Não esquecendo que há vírus ativos que todos os anos matam milhões. Dos melhores exemplos, temos o HIV ou a malária.
O surto de covid-19, que vivemos na atualidade, não é algo novo na humanidade, faz antes parte dos nossos ciclos. Contudo, mesmo com toda a tecnologia disponível, compreendemos que podemos falhar, que não conseguimos salvar todos ou travar a epidemia com a eficácia com que gostaríamos.

Joana Freitas é formada em história na vertente de arqueologia pela faculdade de letras da Universidade do Porto e tem por áreas de maior interesse a evolução humana e a pré-história. Fora do campo de formação tem como disciplinas preferidas a antropologia e a paleontologia que no fundo complementam a sua formação de base.
Gosta de conhecer outros lugares, principalmente as suas gentes, ler e escrever. Embora tenha participado em diversas escavações de vários períodos históricos de diversos países, o local arqueológico que mais marcou o seu percurso e onde esteve presente em várias campanhas diferentes foi castanheiro do vento, um recinto pré histórico em Vila Nova de foz Côa, em Portugal.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Praga de Justiniano: a 1ª pandemia da História.

PRAGA DE JUSTINIANO: A PRIMEIRA PANDEMIA DA HISTÓRIA

Exército do imperador bizantino Justiniano pode ter espalhado uma peste para toda a Europa
REDAÇÃO PUBLICADO EM 19/03/2020
À esquerda traje utilizado por médicos medievais e à direita retrato de Justiniano
À esquerda traje utilizado por médicos medievais e à direita retrato de Justiniano - Creative Commons
Em 540 d.C. a Europa passava por uma série de transformações na sociedade. Este período é marcado pela transição da Antiguidade Tardia para a Idade Média — mais conhecido período da Treva iniciou-se em 476 d.C. em decorrência a queda do Império Romano do Ocidente — e durou até o século 15. 
Marcado pela fragmentação dos poderes e a regionalização este período foi responsável, ainda, pelo crescimento do mundo rural e dos conflitos entre nobrezas locais. A guerra varria o continente por causa da campanha do imperador bizantino, Justiniano, que buscava buscava restaurar o Império Romano do Ocidente. Neste cenário difícil os europeus tiveram que enfrentar a primeira pandemia da História.
A chamada Praga de Justiniano, foi a primeira epidemia de peste bubônica, que séculos mais tarde voltou a assolar a Europa, entre 1346 e 1352. Transmitida por pulgas de ratos infectados, vindos dos navios, a praga surgiu no Egito, passou pelo Oriente Médio e chegou à capital do Império Bizantino, Constantinopla, em 540 d.C., matando 5 mil moradores por dia, e eliminando metade da população — estima-se que entre 500 mil a 1 milhão de pessoas — da cidade.
A doença se espalhou também pela Síria, Europa e Ásia Menor — atual Turquia). Meio século depois, havia morrido, em decorrência da doença, entre 25 e 100 milhões de pessoas. "É difícil precisar dados estatísticos, mas é possível afirmar que 40% da população de toda a área mediterrânea foi dizimada por volta do ano 600", afirma Celso Taveira, doutor em história bizantina e professor da Universidade Federal de Ouro Preto.
Mapa da peste negra na Europa / Crédito: Wikimedia Commons

A peste bubônica, que mais tarde ficou conhecida como peste negra, ataca os nódulos linfáticos, localizados em axilas, virilhas e pescoço, que incham e formam enormes bolhas de pus. As extremidades do corpo são atacadas por necrose, o que dava aos infectados uma aparência aterradora, algo como mortos-vivos.
Devido à sua mobilidade, as tropas justinianas podem ter ajudado a propagar a doença, mas foram também extremamente afetadas por ela. O exército foi assolado pela praga e até o próprio imperador chegou a contrair a doença, mas sobreviveu.
O impacto na população europeia e, consequentemente, nas guerras travadas por Justiniano se deu de várias formas. Constantinopla chegou a ser fechada e a entrada de navios foi proibida, fazendo com que as pessoas passassem a morrer de fome. Em questões militares, com a falta de pessoal para as batalhas, a situação foi de estagnação e derrotas.
A praga afetou também os persas, que contraíram a doença durante a guerra contra os bizantinos, em 543 d.C. Com o enfraquecimento do exército, Justiniano viu-se incapaz de dar continuidade aos combates e foi forçado a firmar um acordo de paz com o rei persa, Cosroes, em 545 d.C.
Alguns historiadores acreditam que os danos causados aos persas e bizantinos os tornaram vulneráveis às conquistas muçulmanas no século seguinte. Estima-se que a pandemia tenha durado mais de 200 anos. "Não se pode falar de uma epidemia que durou de um período a outro, mas que ela mudava de lugar", afirma Silvia Waisse, professora de história da ciência da PUC-SP.
Pintura da Guerra Persa-bizantina / Crédito: Wikimedia Commons

Na pandemia do século 6, nem a imperatriz Teodora escapou. Alguns a culparam, dizendo que a praga era uma punição divina por sua promiscuidade. Não passava pela cabeça dos médicos que pulgas, ratos e organismos invisíveis pudessem causar o mal. "A noção de que havia alguma coisa que se transmitia só se estabeleceu no final do século 15", diz Silvia.
Em 285, tentando organizar o caos administrativo do decadente Estado romano, o imperador Diocleciano dividiu o Império em duas partes, Ocidente e Oriente. Roma — e, com isso, o Império Romano do Ocidente — caiu nas mãos dos bárbaros em 476 d.C., mas a parte oriental sobreviveu. A capital, na cidade de Constantinopla, foi chamada de Bizâncio até 330 d.C. — daí o nome Império Bizantino, que, aliás, não era usado pelos bizantinos. No entanto, para eles o certo era chamar de Império Romano, mesmo após mudarem a língua oficial para o grego, em 620 d.C.
A peste foi um imenso revés na campanha de Justiniano para restaurar o Império Romano às suas antigas fronteiras. Iniciada em 527 d.C., e contando com generais legendários, como Belisário e Narses, Justiniano retomaria dos bárbaros toda a Itália, norte da África e parte da península Ibérica. No entanto, pelo impacto brutal da doença, e por problemas políticos, e econômicos, a reunificação de Roma seria efêmera.
A Itália seria perdida para os lombardos em 568 d.C. Após três anos da morte de Justiniano, o Império Romano do Oriente sofreu grandes derrotas para os povos islâmicos, a partir do século 8 e até a queda de Constantinopla para os turcos otomanos, em 1453. Os gregos viveram sob domínio otomano até 1822, quando declararam independência e iniciaram uma guerra contra os turcos com o apoio de outros países europeus.