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domingo, 29 de março de 2020

A enigmática história da mulher da tocha.

FAMA E ANONIMATO: A ENIGMÁTICA HISTÓRIA DA MULHER DA TOCHA

Nas telonas desde 1992, a moça provavelmente é a personagem mais famosa e desconhecida do universo cinematográfico
PAMELA MALVA PUBLICADO EM 29/03/2020
A famosa Mulher da Tocha
A famosa Mulher da Tocha - Wikimedia Commons
Elementos como o leão da Metro Goldwyn Mayer, o castelo da Disney e a montanha da Paramount são alguns dos mais famosos da história do cinema. Justamente por aparecerem no início de cada filme, os logos já foram vistos milhões de vezes.
Tão famosa quanto os outros, a Mulher da Tocha, da Columbia Pictures, é uma das personagens mais conhecidas do mundo. E, por mais que tenha marcado presença em algumas das maiores bilheterias do cinema, ninguém nunca soube seu nome.
Com a túnica azul e a tocha em mãos, a mulher aparece na telona por apenas 18 segundos, iluminando a sala. Ainda assim, apesar do pouco tempo em cena, sua imagem abre todos os filmes da Columbia desde 1922.
Nos quase cem anos da distribuidora, o logo já foi alterado algumas vezes e recebeu diferentes rostos. Mas a mais recente, conhecida por grande parte dos cinéfilos de plantão, chama-se Jenny Joseph.
Olha o flash
Tudo começou em 1992, quando a Columbia Pictures pediu que Michael Deas reformasse o antigo logo. Conhecido por seus retratos de artistas e presidentes, o pintor entrevistou diversas modelos, mas não encontrou nenhuma que se encaixasse.
A foto real tirada por Kathy Anderson / Crédito: Divulgação
Sem saída, Michael pediu nomes e referências para Kathy Anderson, uma fotógrafa em Nova Orleans. Animada, a mulher respondeu que conhecia uma garota, com quem trabalhava em um jornal, que seria perfeita para o papel.
Assim, em julho daquele ano, Kathy pediu que Jenny Joseph, de 28 anos, posasse para ela. Trabalhando como designer gráfica, Jenny aceitou e foi até o apartamento da amiga para uma sessão fotográfica, que durou apenas algumas horas.
A casa de Kathy foi transformada em um estúdio improvisado e Jenny foi vestida com uma túnica azul desgrenhada. Em sua mão direita, ela segurava algo parecido com a base de um abajur, com uma lâmpada na ponta. 
Uma sequência de imagens foi feita e todas foram enviadas para Michael. A partir das várias fotos, o pintor passou dois meses criando a obra e transformando Jenny em protagonista. Mal sabiam eles que o novo logo seria usado por décadas.
As muitas mulheres
Depois de posar para Kathy e Michael, Jenny nunca mais apareceu em frente às câmeras. Mesmo assim, ela entrou para a história do cinema, junto das outras várias modelos que já foram a cara da Columbia.
Em todos os seus quase cem anos, o estúdio nunca manteve um registro sobre as moças que apareceram em seus logos através dos anos. Por isso, é difícil determinar quem é quem, ainda que algumas artistas tenham reinvidicado a posição.
A Mulher da Tocha em 1936 / Crédito: Wikimedia Commons

Atrizes como Claudia Dell podem ter interpretado uma das muitas versões da Mulher da Tocha. Amelia Batchler disse ser a imagem usada em 1936; Evelyn Venable afirmou que apareceu no logo em 1939; e Jane Bartholomew disse ter erguido a tocha nos anos 1940.
Como grande parte das imagens foi desenhada por diversos artistas, dezenas deles, é impossível determinar exatamente quais mulheres foram usadas como inspiração. Assim, além de Jenny, é possível que todas as citadas tenham, de fato, feito parte das obras veiculadas pela Columbia Pictures.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Como a morte do astro Rudolph Valentino levou seus fãs ao suicídio.

FANATISMO MORTAL: COMO A MORTE DO ASTRO RUDOLPH VALENTINO LEVOU SEUS FÃS AO SUICÍDIO

Uma das maiores estrelas de Hollywood na década de 1920, Valentino levou a uma comoção mundial após sua hospitalização e óbito
JOSEANE PEREIRA PUBLICADO EM 13/03/2020
Rudolph Valentino e Agnes Ayres no filme The Sheik
Rudolph Valentino e Agnes Ayres no filme The Sheik - Getty Images
Ter uma legião de fãs é algo comum a qualquer artista de sucesso. Entretanto, a história do ator italiano Rudolph Valentino acabou sendo mais extrema do que isso. Ícone pop e símbolo sexual na Hollywood dos anos 20, sua morte aos 31 anos acabou causando uma histeria em massa entre seus fãs — alguns chegando ao ponto de cometer suicídio.
Morte inesperada.
Em sua trajetória, Rudolph Valentino estrelou filmes de sucesso como Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, Sangue e Areia e O Filho do Sheik, atraindo admiradores por todo o mundo. Entretanto, a carreira duraria pouco: no dia 15 de agosto de 1926, ele acabou tendo um colapso em sua suíte de Nova Iorque, sendo submetido a uma cirurgia de emergência para tratar úlcera.
Valentino no drama "Monsieur Beaucaire", de 1924 / Crédito: Getty Images

Milhares de fãs faziam vigília na porta do hospital, esperando notícias do astro. Embora a cirurgia tenha sido bem sucedida, ele acabou adquirindo uma inflamação que se espalhou por todo o corpo, levando-o à morte oito dias depois, em 23 de agosto de 1926.
Atitudes radicais.
É de se esperar que a morte de um ídolo cause comoção. Mas o que estaria por vir passava de todos os limites: pessoas começaram a se suicidar após receberem a notícia. Fora do hospital onde Valentino morreu, duas mulheres tentaram cometer suicídio, enquanto uma fã em Londres tomou veneno segurando uma foto de seu astro. Um jovem foi encontrado morto em sua cama, coberto com fotografias de Valentino.
Funeral do astro nas ruas de Nova Iorque / Crédito: Getty Images

Durante o funeral, mais de 100 mil pessoas saíram às ruas da cidade em prantos, despedaçando as janelas da casa funerária e desmoronando sobre seu caixão em uma espécie de histeria coletiva. Onze quarteirões ficaram lotados, e mais de 100 oficiais da polícia de Nova York foram acionados.
O corpo do astro permaneceu na casa funerária por mais três dias, permitindo que fãs tivessem oportunidade de vê-lo e se despedir. Um ano após sua morte, uma mulher vestida de preto passou a visitar o túmulo do ator, carregando uma rosa vermelha. A misteriosa mulher continuou a fazer isso ao longo de décadas, fazendo surgir uma tradição: no aniversário da morte de Valentino, várias mulheres de preto visitam seu túmulo com rosas brancas e vermelhas.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Vampiros das lendas eram radicalmente diferentes da imagem hollywoodiana.

VAMPIROS DAS LENDAS ERAM RADICALMENTE DIFERENTES DA IMAGEM HOLLYWOODIANA

A criatura charmosa é uma versão higienizada do folclore, no qual eram grotescos, fétidos e bem estúpidos
FÁBIO MARTON PUBLICADO EM 29/04/2019
Nosferatu (1922) traz uma visão mais próxima das lendas que os filmes hollywoodianos que se seguiram
Nosferatu (1922) traz uma visão mais próxima das lendas que os filmes hollywoodianos que se seguiram - Reprodução
Em julho de 2013, arqueólogos desenterraram quatro esqueletos sem data definida de morte em Gliwice, Polônia. As cabeças, decapitadas, estavam entre suas pernas. Em outubro passado, outro corpo foi enterrado de bruços, com uma pedra enfiada na boca. 
A tese mais aceita é que esses mortos tiveram a duvidosa honra de sofrer um enterro de vampiro. Uma tradição europeia que durou até o século 18 ou, em áreas remotas, o 20. Quando um corpo era suspeito de vampirismo — as razões englobavam suicídio, bruxaria, ter nascido com deformidades ou, num dia azarado, ter um gato pulando por sobre seu corpo —, podia ter a clássica estaca atravessada no coração, mas também podia ser decapitado, cremado, ter um tijolo (ou pedra ou moeda) enfiado na boca ou levar um trivial tiro de revólver. 
Longe de serem nobres charmosos, essas criaturas eram miseráveis sem teto, aldeões que voltavam para suas tumbas em cemitérios comuns. Invariavelmente eram descritos como inchados como carrapatos, com sangue saindo pela boca, com a pele mais escura ou avermelhada que em vida — descrições que vinham de testemunhos reais, diante de corpos exumados. Quando uma criança, adulto ou animal sumia nas imediações, as pessoas passavam a desconfiar de sanguessugas tétricos e o morto mais recente era sempre o maior suspeito. 
Soluções menos drásticas incluíam espalhar sementes e um prego em volta do túmulo. O vampiro seria obrigado a contar tudo e, ao furar o dedo com o prego, se distrairia, perderia a conta e teria de começar de novo. Para espantar um desses seres, era preciso dizer frases encantadas como "Volte amanhã que te dou sal".
Pois é, vampiros não só eram miseráveis e feios, como um tanto estúpidos. A imagem moderna dos vampiros é criação do britânico Bram Stoker e seu livro Drácula, de 1897. Para criar um exemplar sedutor e inteligente, ele só escolheu as partes menos ridículas das crenças eslavas.
A tese mais aceita é de que essas lendas tenham surgido e se mantido com a surpresa das pessoas em abrir uma tumba e encontrar um corpo mais gordo e menos pálido do que havia sido enterrado. Alguns dias após a morte, variando pela temperatura, a decomposição muda a cor da pele e gera gases que se acumulam, inflando o corpo.
A pressão pode fazer sangue sair pela boca e também que o morto emita sons, pelas duas pontas. Sem entender o processo de decomposição, as pessoas achavam que a pessoa parecia “viva” e “saudável”. E que só podia ser assim por ter se alimentado de sangue — a prova estava, literalmente, na cara. 
A paranoia vampiresca só diminiu quando a imperatriz Maria Tereza da Áustria (1717-1780), organizou um estudo científico para verificar se vampiros existiam. A resposta (esperamos não surpreender ninguém aqui) foi: "não". Após isso, leis contra profanação de sepulturas foram criadas, pondo na ilegalidade os caçadores de vampiros.