QUANDO A CHINA ERA DONA DOS OCEANOS – A FROTA DO TESOURO
Todos nós sabemos que no ano 476 o último imperador romano: Rómulo Augusto, foi deposto por Odoacro, um bárbaro cujo pai pertencera às tropas de Átila, o rei dos Unos, e que servia ao exército romano como mercenário. Nessa época todas as províncias do Império Romano, além da Itália, já eram dominadas pelos bárbaros, e os imperadores romanos eram fantoches e não soberanos. A Itália, pelos ataques dos bárbaros, estava praticamente um deserto, sem habitantes, e os exércitos imperiais eram formados por bárbaros. Parte ocidental do império estava já dividida em dezenas de pequenas unidades políticas, governadas pelas tribos bárbaras que as haviam ocupado.
Toda a cultura greco-romana tinha sido destruída. Todas as bibliotecas incendiadas. Os bárbaros reinavam absolutos em toda a parte onde outrora fora o fabuloso Império Romano.
Essa foi considerada a Idade das Trevas ou Idade Negra, quando todo o conhecimento do mundo guardado pelos gregos e romanos foi aniquilado. Graças a alguns conventos cristãos que se situavam no fundo de florestas ou no cimo de montanhas, onde os bárbaros não conseguiram chegar, cópias de grande parte dos livros dos filósofos e escritores gregos e latinos, foram conservadas. Hoje conhecemos essas obras graças a esses padres e freis que guardaram toda essa obra.
Aos poucos os bárbaros foram aderindo ao cristianismo e as tradições cristãs e culturais foram sendo recuperadas. Mas foram centenas de anos de escuridão e obscurantismo no qual a civilização ocidental quase desapareceu.
Nesse tempo a China evoluía: Bi Sheng (c. 990-1051 d.C.) que viveu na Dinastia Song do Norte, foi um plebeu que inventou a primeira tecnologia conhecida de impressão com tipos móveis.
A pólvora foi descoberta na China, durante a Dinastia Han. Por volta do século X a pólvora começou a ser usada com propósitos militares na forma de foguetes e bombas explosivas lançadas de catapultas. A primeira referência a um canhão surge em 1126 quando foram utilizados tubos feitos de bambu para se lançarem mísseis contra o inimigo. O mais antigo canhão de ferro data do ano 1290, e foi fabricado na China. Eles chegara a Europa por volta do ano 1450 trazidos pelos mongóis.
Em 1050 os navegadores chineses já usam bússolas flutuantes em suas viagens. Essas invenções e descobertas levaram cerca de 400 anos para chegar a Europa que em todo esse tempo estava no obscurantismo da Idade Média.
Zheg He, o maior almirante que a China já teve em seus 4.000 anos de história escrita não era chinês. Descendia de uma família de muçulmanos que viviam na província de Yunnam, na Mongólia. Em 1382, foi capturado quando um exército chinês derrotou os mongóis. Castrado foi treinado para ser eunuco na corte de Zhu Di. Em 1402, uma rebelião eleva Zhu Di a imperador da China com o nome de Yongle, tudo graças as proezas e estratégias de Zhen He, na batalha de Zhenglumba, próximo a Pequim. Então ele foi escolhido como comandante da maior e mais poderosa força naval já organizada em todo o mundo.
A frota de Zhen He, tinha cerca de 300 embarcações, sendo 62 navios com cerca de 120 metros de comprimento por 50 de largura, com 9 mastros e o convés principal 4,6 metros quadrados, dez vezes maior do que a nau capitânia de Vasco da Gama. Além desses super navios a frota era compostas de várias embarcações que tinham até 110 metros, navios de suprimento com 85 metros, navios de transportes de 70 metros e juncos de combate de 55 metros. Os navios eram tripulados por mais de 30.000 marinheiros e soldados, sete eunucos principais e centenas de outras autoridades de Império Ming, 180 médicos, cinco astrólogos alem de varais equipes de veleiros, ferreiros, carpinteiros, alfaiates, cozinheiros, contadores, comerciantes e intérpretes.
Foi nesse contexto que o almirante Zheng He, recebeu ordem de zarpar em 11 de julho de 1405, para desbravar e negociar com todo o mundo que encontrasse. No início do século XV, essa imensa frota com centenas de navios, levou a influência chinesa por toda a costa Ásia e leste da África, visitando e negociando com povos e países que hoje correspondem ao Vietnã, Camboja, Indonésia, Malásia, Tailândia, Bangladesh, Índia, Siri Lanka (Ceilão), Irã (Pérsia), Omã, Iêmen, Arábia Saudita, Sudão, Somália, Quênia, Tanzânia e talvez Moçambique.
Nessa época os europeus ainda usavam navios com vela quadrada e movidos a remo, não se afastando muito da costa e não conheciam a pólvora, nem a bússola, nem a imprensa escrita. Estavam cerca de 500 anos mais atrasados do que os chineses.
Primeira Viagem, (1405-1407)
Em 11 julho do ano 1405, cerca de 327 navios com 27.870 homens a frota zarpou de Nanquim. Levavam seda, porcelana e especiarias para negociar. Depois de ancorarem em Champa, no Atual Vietnã vão para as ilhas de Java e Sumatra e depois seguem para o Sri Lanca (Ceilão) até as costas do Malabar, na Índia, numa distância de 10.000 quilômetros viajando a uma média estimada de 80 quilômetros por dia. Ela transportava um milhão de toneladas de seda chinesa, porcelana e moedas de cobre, para trocar por especiarias, madeiras aromáticas, pedras preciosas, animais, téxteis e minérios. No retorno, na passagem ente Sumatra e a península Malaia, foi atacado por piratas, mas as tropas de Zhen He reagiu e 5.000 piratas foram mortos.
Segunda viagem. (1407-1409)
Na segunda viagem a frota levou de volta embaixadores de Sumatra, Índia e outros lugares, que haviam viajado para a China na primeira viagem. As expedições consolidavam as relações comercias da dinastia Ming no Índico. Novamente chegou até as cidades de Calicute, Cochim e Quilon na costa do Malabar na Índia.
Terceira Viagem (1409-1411)
Essa viagem ficou notável pela única grande batalha terrestre da frota. Havia na ilha do Ceilão (Siri Lanka) um guerra entre tâmeis hindus com reinos cingaleses budistas do centro e do sul. Em um lance de genialidade militar Zheng He, atraiu o corpo principal da tropa do Sri Lanca, para um ataque infrutífero à frota, enquanto a capital era conquistada pelas tropas legalistas.
Quarta viagem (1413-1415)
Foi a primeira viagem a alcançar terras além da Índia e cruzar o mar da Arábia chegou até o estreito de Ormuz em Omã. Estima-se que 18 países enviaram presente à China. Uma amostra da influência do imperador Ming.
Quinta Viagem (1417-1419)
A Frota do Tesouro visitou a península Arábica e, pela primeira vez a África. Em Aden, o sultão deu lhes presentes exóticos com zebras, leões e avestruzes, tendo chegado até Malindi, na atual Quênia.
Sexta Viagem (1421-1422)
A frota deu prosseguimento à diplomacia do imperador, levando os embaixadores de volta a seus países, depois de uma estada de vários anos, enquanto trazia outros dignitários estrangeiros à China. Novamente passou pela costa da Índia, visitou a península Arábica e voltou a costa africana até Mogadício e Baraawe na Somália.
Sétima Viagem (1431-1433)
A última viagem, à costa suali na África até Mombasa, no atual Quênia. Uma passagem por Meca, marcou o fim da era dourada das expedições chinesas. Supõe-se que Zheng He tenha morrido no retorno para a China e sido sepultado no mar.
Segundo registros a frota visitou mais de 30 países, de grandes e pequenos, num trajeto de aproximadamente 65 mil quilômetros. No retorno da última viagem, cerca de 25 anos depois da primeira, a China havia mudado. A Capital não era mais Nanquim que tinha sido trocada por Pequim. Logo em seguida o imperador Yongle faleceu. Seu filho Hhu Gaozhi, influenciado por cortesões proibiu as viagens, mas faleceu apenas nove meses depois de ter assumido o trono. Seu filho, neto de Yungle, chamado Zhu Zhanji, deu continuidade a proibição de viagens, e a China se fechou para ao mundo.
BIBLIGRAFIA
VIVIANO, Frank - O navegador da Paz – Revista National Geographic, nº 64, julho de 2005.
Publicação de Zeno Filho.
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