Em cima, o retrato de um deus Mochica que
forma o corpo deste vaso com bicos em estribo. A boca angular e com presas, os
olhos com um rebordo, a forma das orelhas e as serpentes na cabeça derivam das
representações das divindades Chavín. Estes vasos foram encontrados em túmulos
e deviam ser feitos apenas para os funerais.
INTRODUÇÃO:
A Cultura
Mochica teve uma vasta influência, mas não está bem esclarecido até que ponto
se estendia nas áreas periféricas. Apesar de se terem encontrado objetos de
estilo Moche tão para o sul como o vale Huarmey, é provável que não existisse
aí uma influência política séria. Encontraram-se grandes quantidades de objetos
do estilo Mochica no vale Piura, no Norte, mas nenhum vestígio de arquitetura.
Não obstante os Mochica serem um povo agressivo. O que é claro não só pela
expansão geográfica como pela quantidade de motivos de guerra na sua
iconografia, provavelmente muito daquilo que consideramos como estando sob a
sua influência deve-se apenas pela arte.
Na costa
norte do Peru, o fenômeno Chavín foi seguido pelas culturas Salinar e
Gallinazo. Salinar produziu uma cerâmica relativamente simples, com bicos e
asas laterais. Gallinazo fez parte de uma muito difundida moda de cerâmica
pintada a negativo, que se encontra desde Hacha, no Sul, onde parece ter
aparecido em primeiro lugar, até à região de Piura (Vicús), no Norte. A
cerâmica pintada em negativo (com um revestimento protector nas partes que não
são pintadas) caracteriza também a cultura Recuay, no Callejón de Huaylas, por
cima dos vales costeiros dos Mochica. Batizada com o nome de uma povoação do
Callejón, não muito longe de Chavín de Huantar, o estilo Recuay teve algumas
raízes na arte Chavín mas mostrou muitas características individuais. Depois do
fim do domínio de Chavín, o templo de Chavín de Huantar foi ocupado por povos
Recuay. O estilo Recuay iniciou-se talvez um pouco antes do de Mochica, mas é
essencialmente contemporâneo. Um certo número dos motivos da arte Mochica
parecem ter sido pedidos emprestados ao estilo Recuay, e sem dúvida que
existiram contatos, pois a água do rio para a irrigação dos vales Mochica tinha
a sua origem no território Recuay. Esses motivos Recuay são utilizados nas
cenas Mochica que representam o ritual da coca e actividades relacionadas. Pelo
menos parte da coca dos Mochica deve ter vindo do território Recuay, ou passado
através dele, numa qualquer altura da sua história.
AS
DIFERENÇAS ENTRE MOCHICA E RECUAY.
Considerando
a proximidade geográfica e os óbvios contatos, as diferenças entre Mochica e
Recuay são interessantes. Recuay produziu conchas de cerâmica, vasos-efígies e
potes com figuras na sua parte superior, que eram formas Mochica. Contudo, as
formas dos vasos são em geral diferentes: as características típicas dos Recuay
são as urnas de bocas reviradas, os recipientes anelares, os recipientes
globulares de bicos muito alargados e os bicos que saem da parte superior de
alguns recipientes como se fossem a ponta de um funil. Apesar de serem
utilizados alguns dos mesmos motivos, parecem transmitir mensagens diferentes.
Alguns dos motivos comuns, não associados à coca, são os seguintes: formas
semelhantes a casas, figuras segurando em recipientes, um homem com um felino, uma
figura a ser picada por abutres e a denominada lua animal.
A REGIÃO E
OS LOCAIS.
O local de
Moche, perto da moderna cidade de Trujillo, era o centro cerimonial e
administrativo do povo Mochica (ou Moche) pelo menos durante uma parte
substancial do seu período de importância, desde cerca do tempo de Cristo até
por volta de 600 d. C. A Huaca del Sol, ou Pirâmide do Sol, uma enorme
estrutura de adobe com 40 metros de altura e pelo menos 350 metros de
comprimento - a maior estrutura de adobe sólido em todo o Novo Mundo, foi
provavelmente construída ao longo de vários séculos e era muito maior do que o
é agora. Hoje ainda resta é talvez um terço do seu tamanho original. Nos nossos
dias, a pirâmide tem vista para campos irrigados junto da beira do rio e para o
deserto claro e nu que fica do outro lado. A pirâmide está virada para a
Pirâmide da Lua (Huaca de la Luna), que fica para lá de um grande espaço,
situada logo por baixo de uma colina proeminente, Cerro Blanco; a montanha
feita pelo homem que é a Pirâmide do Sol enfrenta a montanha natural. Uma
grande formação de “rocha viva” enquadra a face do local virada para o
interior, no fim das duas grandes estruturas. Os restos entre as duas grandes
pirâmides estão agora cobertos de areia.
Neste vale,
e noutros ao longo da custa, os Mochica cultivaram algodão, milho, batatas,
amendoins e pimentões por meio da irrigação do deserto costeiro. É claro que a
pesca era também uma das principais fontes de subsistência. Fornecia alimentos
para consumo imediato pelos povos costeiros e artigos para o comércio com os
povos do interior.
OS ESTILOS
DA CERÂMICA MOCHICA.
Os estilos
da cerâmica dos Mochica foram divididos numa série de cinco fases. Mocho I e II
encontram-se por cima do estrato Gallinazo nos vales Moche, Chicana e Virú, e
datam de por volta dos tempos de Cristo ou um pouco antes. A fase mais antiga
que se encontra no vale Santa é o Moche III, o que é uma indicação de que a
expansão para sul teve lugar por essa altura. O esplêndido local de Paúamarca,
no vale Nepeúa, com pinturas murais e vestígios de Moche IV, marca o extremo
sul da arquitetura Mochica, apesar de existirem provas (cerâmicas) de uma
presença Mochica tão para sul conto Huarmey. Para norte, a situação é mais
complexa. Foram encontrados túmulos Mochica em Pacatnamu, o que seria uma
indicação de uma normal expansão para norte. Porém, no extremo norte, no vale
Piura, foi encontrada cerâmica Mochica muito antiga, bem como alguns dos mais
belos trabalhos em metal no estilo Mochica.
Um vasto
cemitério, conhecido por Loma Negra, revelou centenas de exemplares de
magníficos trabalhos em ouro, prata e cobre. Também nessa mesma região e
aparentemente da mesma data (apesar de não se saber se foram encontrados
juntos) surgiram cerâmicas decoradas relacionadas com as descobertas no vale
Virú. Isto deixa em aberto as possibilidades de o povo Mochica ter chegado ao
vale de Moche vindo do Norte, de ter existido uma anterior colônia norte de
povos de Moche, ou a de que os povos dos vales de Piura e Moche possam ter dado
origem a um terceiro local, ainda não descoberto, talvez a meio caminho. Seja
qual for a explicação, houve uma presença Mochica nos vales do Norte cerca dos
tempos de Cristo, e verificou-se um abandono do local Moche e uma definida
mudança do centro do poder para a região de Lambayeque por volta de 600 d. C.
O SÍTIO
ARQUEOLÓGICO DE MOCHE.
O sítio
arqueológico está abrigado por uma colina arenosa. Do cimo da sua gigantesca
pirâmide principal, a vista perde-se, através do deserto, no mar e no vale
cultivado, observa-se também o vale por onde desce o rio e que é limitado pelas
montanhas. A maior parte dos sítios arqueológicos andinos encontra-se perto de
uma colina, que era um local sagrado e ao mesmo tempo um ponto estratégico, do
qual se podia avistar aos arredores. Os primeiros trabalhos arqueológicos em
Moche foram realizados, em 1899, por Max Uhle, que descobriu as pinturas da
pirâmide da lua (depois desaparecidas) e túmulos na área entre as duas
pirâmides. Recentemente tem se apreendido novos projetos de estudo. Moche foi
abandonado perto do período intermediário inicial. Galindo, na parte superior
do vale, passou a ser o centro local mais importante. Existe ainda uma
comunidade próxima de Moche, cujos costumes foram estudados em princípios do século
XX como restos dos modelos de comportamento de antepassados pré
colombianos.
A ARTE E A
RELIGIÃO.
Os artesãos
Mochica encontravam-se entre os melhores do Novo Mundo. Entre eles contavam-se
engenhosos ourives que douravam a prata e o cobre com subtileza, bons tecelões,
tal como o atestam os poucos restos de têxteis, e notáveis oleiros. As
decorações das cerâmicas incluem a modelagem em alto-relevo, os baixos-relevos
criados por estampagem e cenas pintadas em superfícies lisas. Alguns vasos eram
feitos em moldes, mas muitos eram trabalhados à mão. A variedade de formas era
grande, mas as mais elegantes tinham quase todas bicos em estribo. As cerâmicas
não só mostram uma grande variedade de formas e decorações como revelam mais
sobre os mitos e rituais dos Mochica do que os artefactos de qualquer outra
civilização dos Andes.
O sistema
iconográfico básico parece ser o de temas em grupos que por vezes se sobrepõem
(como no caso do moderno símbolo dos Jogos Olímpicos). Por exemplo, um grupo
pode ter que ver com o ritual da mascagem de folhas de coca, representando por
vezes, mas nem sempre, a cabaça e o pau para a lima que era usada com as
folhas. Porém, mesmo quando estes artigos estão ausentes, as figuras continuam
a ser reconhecidas como sendo do ritual da coca, por causa das roupas
características. Algumas cenas de batalha mostram figuras com o vestuário
próprio dos rituais da coca. A guerra e a captura de prisioneiros para
sacrifícios por decapitação são temas artísticos proeminentes. o principal deus
dos Mochica era uma derivação de Chavin, tal conto muitos outros deuses dos
Andes. Tinha caninos de felino e um cinturão com tiras terminadas em cabeças de
serpente. Por vezes era representado com as orelhas típicas da arte de Chavín
ou com curiosos rebordos em volta dos olhos, que também se encontram em algumas
cerâmicas do Horizonte Primitivo.
O FIM DE MOCHE.
No final da
fase IV parece ter-se verificado o virtual abandono do local de Moche.
Aparentemente, o verdadeiro centro do poder deslocou-se para Pampa Grande, no
vale Lambayeque, um antigo local do Horizonte Primitivo. Há algumas provas de
que se começou a depositar Lima grande camada de areia sobre Moche e sobre o
sistema de canais à sua volta, o que terá impedido a agricultura e forçado a população
a abandonar o local. A expansão Huari, que se inicia mais ou menos por esta
altura, poderá também ter provocado algumas modificações. É um fato que se
verificam mudanças de estilo e de ternas na arte Moche da fase V. O bico em
estribo modifica-se ligeiramente, o que não é de surpreender se considerarmos a
evolução da forma durante as fases geral menos habilidosa. Uma das principais
mudanças de estilo é uma espécie de agorafobia pictórica, em que as cenas
pintadas estão tão cheias de pormenores de preenchimento de espaços vaziosque
por vezes se torna difícil de ler os temas principais. Surgem novos temas e são
abandonados os antigos. Durante a fase Moche final, talvez contemporânea dos
vasos Moche V, os motivos e estilo de pintura Huari misturaram-se com os
motivos e formas Mochica. Mesmo nos vasos Moche V mais puros os pormenores
iconográficos, o desenho de um olho, a foto de um ornamento de toucado, surgem
os princípios dos estilos Lambayeque e Chimu.
BIBLIOGRAFIA:
Cultural Abril, História
das Civilizações, Itália: Rizzoli Editore, Vol. III, 1973.
Darcy Ribeiro, O
Processo Civilizatório, Editora Civilização Brasileira S/A, 1990.
Prous, André,
Arqueologia Brasileira, Brasília - DF: Editora da Universidade de Brasília,
1992.
Coe, Michael, A América
Antiga, Rio de Janeiro: Edições Del Prado, Vol. II, 1996.
Nenhum comentário:
Postar um comentário