BIBLIOGRAFIA: BELLOMO, Harry Rodrigues. Cemitérios
do Rio Grande do Sul: Arte, Sociedade, Ideologia. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000.
O livro "Cemitérios
do Rio Grande do Sul: Arte, Sociedade, Ideologia", organizado pelo
historiador Harry Rodrigues Bellomo e publicado pela EDIPUCRS, é uma
obra fundamental para a historiografia e o patrimônio cultural
sul-rio-grandense. Longe de ser apenas um inventário sobre a morte, o livro
trata os cemitérios como verdadeiros museus a céu aberto, capazes de
refletir as transformações econômicas, sociais e mentais da sociedade gaúcha.
Visão
Geral e Proposta da Obra
O livro
funciona como uma coletânea de pesquisas (reunindo ensaios de Bellomo e de
outros pesquisadores convidados) que investigam a arquitetura, a estatuária
e a simbologia fúnebre em Porto Alegre e em cidades do interior do Rio
Grande do Sul. A premissa central é que o túmulo não serve apenas para guardar
um corpo, mas para comunicar o status, a ideologia e a fé de quem partiu
(ou da família que restou).
O historiador
Moacyr Flores define o livro como "um esforço exemplar de pesquisa e de
resgate de nosso patrimônio cultural".
Os Três
Eixos Centrais: Arte, Sociedade e Ideologia
O livro
divide suas análises de forma que o leitor consiga decodificar os monumentos
através de três lentes principais:
1. A Arte
Funerária e a Estatuária
- Evolução Estética: Analisa desde as primeiras
lápides simples até os monumentos e mausoléus imponentes influenciados
pela arte europeia e pelo classicismo.
- Produção Local: Bellomo detalha como se
estruturou a produção de estatuária funerária no estado, mapeando
marmorarias, oficinas e os artistas (muitos deles imigrantes italianos)
que moldaram a paisagem dos cemitérios gaúchos.
2.
Sociedade, Etnia e Religiosidade
- Mosaico Cultural: O Rio Grande do Sul possui uma
formação étnica plural, e o livro demonstra como os cemitérios expõem
essas divisões. Há capítulos dedicados à germanidade (a estética e
os costumes dos cemitérios de colonização alemã) e aos cemitérios
judaicos de Porto Alegre, revelando traços socioculturais únicos.
- Hierarquia Social: Fica evidente na leitura como a
opulência dos túmulos reflete o poder econômico e político das elites
agrárias e urbanas do século XIX e início do século XX.
3.
Ideologia e Simbologia
- Decodificação de Símbolos: Um dos maiores méritos da obra
é ensinar o leitor a interpretar os signos gravados na pedra.
- O livro ensina a diferenciar e
compreender a iconografia de três matrizes ideológicas e espirituais
distintas:
- Símbolos Cristãos: Anjos, cruzes, ampulhetas,
flores e ramos.
- Símbolos Maçônicos: O esquadro, o compasso e
elementos de forte influência geométrica.
- Símbolos Profissionais: Ferramentas, insígnias
militares ou acadêmicas que indicavam o ofício do falecido em vida.
Pontos
Fortes da Leitura
- Estudo Interdisciplinar: Une perfeitamente a História, a
História da Arte, a Antropologia e a Sociologia.
- Riqueza de Conteúdo: O livro é fartamente ilustrado
com fotografias que servem de apoio visual para a descrição dos materiais
empregados e da tipologia tumular.
- Rompimento de Tabus: Consegue afastar a morbidez
natural associada ao tema, estabelecendo uma visão puramente racional,
acadêmica e patrimonial sobre o ato humano de preservar os mortos através
da arte.
Considerações
Finais
"Cemitérios
do Rio Grande do Sul" é um convite para o leitor mudar o seu olhar ao
passar pelos portões de um cemitério antigo (como o famoso Cemitério da Santa
Casa de Porto Alegre). É uma leitura indispensável para historiadores,
arquitetos, cientistas sociais e qualquer pessoa interessada em compreender o
imaginário social e a preservação da memória no sul do Brasil.
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