sexta-feira, 29 de maio de 2026

Livro: Dom Casmurro.

 


BIBLIOGRAFIA: ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Coleção Descobrindo os Clássicos. Rio de Janeiro: Record, 1999.

Publicado em 1899 por Machado de Assis, Dom Casmurro é um dos maiores marcos do Realismo brasileiro e uma das obras mais geniais da literatura mundial. Sob a superfície de um melodrama trágico sobre ciúme e possível traição, o livro esconde uma complexa engrenagem de manipulação psicológica e crítica social.

O Enredo e a Reconstrução do Passado

A história se passa no Rio de Janeiro do século XIX. Bento Santiago, já idoso, solitário e apelidado de "Dom Casmurro" por seu comportamento recluso, decide escrever suas memórias para "unir as duas pontas da vida".

Ele relembra sua infância na Rua de Matacavalos, a promessa de sua mãe de enviá-lo ao seminário e o amor profundo por sua vizinha, Capitolina (Capitu). Com a ajuda do astuto amigo Escobar, Bentinho consegue deixar o seminário, formar-se em Direito e casar-se com Capitu. No entanto, a felicidade do casal é gradualmente corroída pela obsessão de Bento de que seu melhor amigo e sua esposa o traíram, gerando seu único filho, Ezequiel.

A Armadilha de Machado: O Narrador Não Confiável

O grande trunfo de Dom Casmurro não está na trama, mas em como ela é contada. Bento Santiago é o exemplo supremo de narrador não confiável. Como o livro é escrito em primeira pessoa e com o tom de uma peça jurídica, o leitor não testemunha os fatos reais, mas sim a versão filtrada pelo ciúme patológico, pela insegurança e pela memória seletiva de um homem amargurado.

Machado de Assis constrói Bento não como uma vítima, mas como um advogado de acusação que usa recursos retóricos brilhantes para convencer o público da culpa de Capitu. O autor desafia o leitor a ser o juiz da história, sabendo que as provas apresentadas são puramente circunstanciais e psicológicas.

Personagens Marcantes

  • Bentinho / Dom Casmurro: Começa como um jovem mimado pela estrutura patriarcal e termina como um homem cínico, irônico e destruído por fantasmas criados por sua própria mente.
  • Capitu: Descrita por Bento como uma mulher de "olhos de cigana oblíqua e dissimulada", ela surge como uma figura fascinante, inteligente, prática e muito mais madura que o marido, rompendo com o estereótipo da mulher submissa da época.
  • Escobar: O melhor amigo de seminário, comerciante ambicioso, dinâmico e de olhar matemático, cuja morte precoce por afogamento eterniza a dúvida na mente de Bento.

Análise Crítica: Traiu ou Não Traiu?

Focar o debate apenas na pergunta "Capitu traiu Bentinho?" é reduzir a genialidade da obra. O livro é um espelho da sociedade burguesa e paternalista do Segundo Reinado. A verdadeira genialidade de Machado está no fato de que o enigma é insolúvel por design.

  • A tese da traição: Sustenta-se no olhar fixo de Capitu diante do cadáver de Escobar no enterro e na perturbadora semelhança física que Bento passa a enxergar entre o filho Ezequiel e o amigo falecido.
  • A tese do delírio: Argumenta que a semelhança pode ser fruto da obsessão de Bento e que a narrativa expõe o machismo da época, onde o controle absoluto sobre o corpo e os desejos da mulher justificava o isolamento e o banimento de Capitu.

Considerações Finais

Dom Casmurro é um romance psicológico perfeito. Ele não envelhece porque não fala apenas sobre um suposto adultério, mas sim sobre a incapacidade humana de lidar com a alteridade, sobre como inventamos narrativas para justificar nossos próprios fracassos e sobre o poder destrutivo do ciúme. Uma leitura obrigatória que exige do leitor atenção constante para não ser manipulado pela escrita charmosa e ferina de Bento Santiago

 

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