O RENASCIMENTO
O
Renascimento, Arte e arquitetura do, movimento artístico que se manifestou na
pintura, escultura e arquitetura, em toda a Europa, aproximadamente de 1400 a
1600. Os traços principais da arte renascentista são a imitação das formas
clássicas da antigüidade greco-romana e a preocupação com a vida profana, o
humanismo e o indivíduo.
O
Renascimento corresponde, na história da arte, à era dos grandes
descobrimentos, refletindo o desejo, da época, de examinar todos os aspectos da
natureza e do mundo. Durante o Renascimento, os artistas continuaram a merecer
o status, herdado da Idade Média, de meros artesãos. Mas, pela primeira vez,
começaram a se impor domo personalidades independentes, comparáveis a poetas e
escritores. Os pintores e escultores renascentistas investigaram novas soluções
para problemas visuais formais e muitos deles realizaram experiências
científicas. Neste contexto, surgiu a perspectiva linear na qual as linhas
paralelas eram representadas em ponto de fuga.
Os pintores passaram a ser mais
exigentes com o tratamento da paisagem, dedicando maior atenção à representação
de árvores, flores, plantas, distância entre montanhas e os céus com suas
nuvens. O efeito da luz natural e o modo como o olho percebe os diversos
elementos da natureza, tornaram-se novas preocupações. Assim nasceu a
perspectiva aérea, na qual os objetos perdem os contomos, a cor e o sentido de
distância à medida que se afastam do campo de visão. Os pintores do norte de
Europa, especialmente os flamengos, revelaram-se mais avançados que os italianos
na representação das paisagens e introduziram o óleo como nova técnica
pictórica, contribuindo para o desenvolvimento desta arte em todo o continente.
Embora o retrato se consolidasse como gênero específico em meados do século XV,
os pintores do Renascimento alcançaram o auge com a pintura histórica ou
narrativa. Em uma paisagem ou moldura de fundo, figuras relatavam passagens da
mitologia clássica ou da tradições judaico-cristãs. Dentro de um contexto, o
pintor representava homens, mulheres e crianças em poses reveladoras de emoções
e estados de espírito.
O renascimento das artes coincidiu com o
desenvolvimento do Humanismo que estudava e traduzia textos filosóficos. O
latim clássico foi revalorizado. A par desta renovação de idéias, ocorreu o
período de descobrimentos de novas terras. As embarcações se lançaram em busca
de novos caminhos marítimos, colhendo, como resultado, diferentes rotas para a
Ásia e a imensidão das Américas. Pintores, escultores, arquitetos e navegadores
sentiam o mesmo anseio de aventura, o desejo de ampliar conhecimentos e obter
novas soluções. Assim, tanto Leonardo da Vinci e Michelangelo, como Cristóvão
Colombo e Pedro Álvares Cabral descobriram mundos novos e surpreendentes.
O RENASCIMENTO
NA ITÁLIA
O berço do Renascimento foi a Itália,
extraordinário depósito de ruínas clássicas. Encontram-se vestígios do Império
Romano em quase todas as cidades italianas. Os sarcófagos de mármore, decorados
com relevos, são o exemplo mais comum. O idioma, uma corruptela do latim falado
pelos antigos romanos, foi sistematizado no século XIV por Dante Alighieri,
Francesco Petrarca e Giovanni Boccaccio. As primeiras manifestações do
Renascimento italiano ocorreram em Florença. Três ourives e escultores,
Brunelleschi, Ghiberti e Donatello, realizaram inovações que romperam com as
convenções da arte gótica. Donatello, que também trabalhou em Veneza, Pádua,
Nápoles e Roma veiculou, por toda a Itália, as novas formas estéticas. Na
pintura, Masaccio introduziu um conceito naturalista e expressivo, assim como a
perspectiva linear e aérea. O introdutor, em Veneza, do ideário renascentista
foi Bellini. Mais tarde, Veneza disputou com Florença o privilégio de ser o
centro do movimento que modificou o pensamento humano. Após esta extraordinária
explosão criativa, foi pouco significativa a produção artística italiana no
começo do século XV. Mas surgiram os nomes mais destacados do Renascimento e
que influenciaram toda a obra ocidental posterior: Leonardo da Vinci
(1452-1519) e Michelangelo (1475-1564). Pintor, escultor, arquiteto, engenheiro
e cientista, Leonardo da Vinci foi importante, principalmente, na pintura onde
introduziu o conceito de perspectiva atmosférica. Michelangelo, pintor,
escultor, arquiteto e poeta, transformou-se em um dos maiores criadores que o
mundo já conheceu. Entre os artistas quatrocentistas, destacam-se Filippo
Brunelleschi, Lorenzo Ghiberti, Donatello, Masaccio, Paolo Uccello, Fra
Angelico, Pisanello, Jacopo Bellini, Gentile Bellini, Giovanni Bellini, Andrea
Mantegna, Piero della Francesca, Leon Battista Alberti, Antonio del Pollaiuolo,
Andrea dei Verrocchio, Sebastiano del Piombo, Giorgione, Tiziano e Sandro
Botticelli. Entre os artistas quinhentistas, destacam-se Leonardo da Vinci,
Donato Bramante, Rafael, Michelangelo, Giorgione, Tiziano e Correggio. No norte
europeu, as manifestações artísticas do gótico tardio foram contemporâneas dos
descobrimentos marítimos e das mudanças de visão de mundo produzidas na itália.
Países como Alemanha, Holanda e Inglaterra foram menos receptivos ao incipiente
Renascimento.
O RENASCIMENTO
NA HOLANDA
Uma das obras-primas da miniatura cortesã,
Riquíssimas horas do duque de Berty (c. 1416), realizada pelos irmãos Limbourg,
contém iluminuras que prenunciam van Eyck e revelam uma atenção pelo detalhe
naturalista até então desconhecido. O pintor flamengo Jan van Eyck foi o
criador da pintura renascentista em Flandres e na Holanda. Van Eyck combina,
com talento e habilidade, um estilo que é o contraponto da arte que Masaccio
realizava, nesta mesma época, na Itália. Sua obra Retábulo de Gent, conduída em
1432, é uma das mais extraordinárias do Renascimento. Apesar da ousadia de van
Eyck, as inovações no uso da luz surgem com outro pintor, Robert Campin,
conhecido como o Mestre de Flémalle. Destacam-se também Rogier van der Weyden,
Dirk Bouts, Hugo van der Goes, Hans Memling e Jerônimo Bosch.
O RENASCIMENTO
NA FRANÇA
Leonardo da Vinci viajou para a França
em 1516 a pedido do próprio rei, mas, devido a sua idade avançada, morreu antes
de realizar trabalhos de importância. Os franceses foram resistentes em aceitar
as inovações artísticas oriundas da Itália. Apenas no século XVl, conseqüência
da presença de muitos artistas italianos na corte de Francisco I, a França
começou a adotá-las. A obra do Château de Fontainebleau é o ponto central da
arte renascentista francesa.
O RENASCIMENTO
NA ALEMANHA
Capazes de fundir a
herança medieval com a nova estética. Entre os mais destacados estão Konrad
witz, Albrecht Dürer e Matthias Grúnewald.
O RENASCIMENTO NA ESPANHA
Na Espanha, os pintores renascentistas
nunca chegaram a alcançar o nível artístico da Itália e dos países do norte da
Europa, embora se ligassem às duas tradiçòes. Os mecenas espanhóis confiaram a
pintores e escultores estrangeiros as obras mais importantes. A confirmação
deste fato é Tiziano, sem residência fixa no país, ter sido o pintor da corte
espanhola no século XVI. Na arquitetura, edifícios no estilo renascentista
remontam ao final do século XVI. Um exemplo é EI Escorial, complexo arquitetônico
próximo de Madri, construído por Felipe li. Artistas destacados dessa época são
Diego de Si loé, Alonso Berruguete, Juan de junj e Pedro Berruguete.
O RENASCIMENTO
EM PORTUGAL
Apesar da esmagadora vigência do estilo
manuelino como ideologia estética, o Renascimento revelou-se, em Portugal,
através de gravuras de livros impressos com tarjas decorativas, iluminuras,
bronzes, tapeçarias, pinturas e jóias. A arte que refletiu, em primeiro lugar,
o novo movimento foi a pintura já que, nos quadros manuelinos, quase sempre as
figuras são do gótico - tardio, de origem flamenga, enquanto os espaços em que
elas se situam são renascentistas. Na arquitetura, a nova estética italiana
constituiu um obstáculo ao mestres - pedreiros habituados aos sistemas construtivos
góticos. A escultura compreendeu a renovação formal e criou um novo universo
plástico que se reflete na Igreja Matriz de Caminha, cuja capela e o fronteiro
portal lateral são obras claramente protorenascentistas. A pintura da Alemanha
brilhou no Renascimento.
SANDRO
BOTTICELLI - (1445 - 1510)
Botticelli foi considerado o artista que
melhor expressou, através do desenho, um ritmo suave e gracioso para as figuras
pintadas. Os temas de seus quadros - quer tirados da Antiguidade grega, quer
tirados da tradição cristã - foram escolhidos segundo a possibilidade que lhe
proporcionavam de expressar seu ideal de beleza. Para ele, a beleza estava
associada ao ideal cristão da graça divina. Por isso, as figuras humanas de
seus quadros são belas porque manifestam a graça divina, e, ao mesmo tempo,
melancólicas porque supõem que perderam esse dom de Deus. Alessandro di Mariano
di Vanni Filipepi era seu nome completo. Terá nascido em Florença em 1445, pois
em 1447 o curtidor Mariano di Vanni Filipepi declara que nessa época seu filho
Sandro (diminutivo de Alessandro) tem dois anos. E num inventário de bens, do
ano de 1458, em que os filhos eram mencionados para fins tributários, Mariano
diz que Sandro "tem 13 anos, aprende a ler e é doentio".
Aos 13 anos, Sandro começa a enfrentar o
problema da escolha de uma carreira ou de uma profissão. Pouco se sabe, porém,
de como se desenrolou sua adolescência, Alguns biógrafos afirmam que o pai o
teria confiado a um ourives, de nome Botticello, que lhe teria transmitido os segredos
da arte e o apelido ("botticello" significa "barrilzinho",
"garrafinha"). Entretanto, documentos da época atribuem a alcunha a
um irmão mais velho de Sandro, chamado Antônio, também ourives. O final do nome
seria mais tarde transformado em 1, na suposição de que se tratava de nome de
família. (Os nomes de família eram geralmente no plural - portanto terminados
em 1- na época.). Seja como for, o certo é que, aos 17 anos, Sandro Botticelli
foi apresentado a Filippino Lippi, artista de talento e prestígio, para com ele
iniciar-se na arte da pintura. Logo, porém, o jovem distinguiu-se do mestre. Ao
contrário do traço denso de Lippi, as figuras de Botticelli são tênues, suaves,
quase imateriais, os rostos sem sorriso, as expressões contemplativas. Não que
Botticelli fosse incapaz de retratar a realidade: conscientemente, preferia não
cingir-se às leis da óptica, já que se propunha a "apresentar e não a
representar" uma realidade interior. A pintura de Botticelli traduz uma
convicção pessoal - o sentido da arte é puramente espiritual, religioso,
simbólico - que exclui a representação realista. De qualquer modo, para seus
contemporâneos, Botticelli foi um artista menor, mais conhecido por seu
temperamento - "agradável e brincalhão" - que pelo valor de suas obras,
Foram necessários quatro séculos para que seu mundo poético e requintado fosse
descoberto - no apogeu romântico dos anos 1800 - e plenamente reconhecido.
Na época em que Botticelli viveu, a
pintura representava para a Igreja um instrumento de propagação da fé. Para os
nobres e grandes burgueses que controlavam a política e a economia, era uma
expressão de poder e, muitas vezes, uma tentativa de "suborno": um
quadro votivo certamente amenizaria o julgamento de Deus quando a alma do patrono
da obra se apresentasse ante Ele. Assim, retratos e alegorias dos poderosos de
então, narração de episódios bíblicos e outros temas religiosos constituíam os
motivos predominantes - se não exclusivos - da pintura do
"Quattrocento", como os italianos chamavam ao século XV. E nas
repúblicas em que se dividia a Itália de então os artistas dependiam da
proteção dos papas ou dos aristocráticos e cultivados governantes. Em Florença,
por exemplo, nenhum pintor ou escultor teria prestígio se não caísse nas boas
graças dos Medicis. Botticelli teve essa sorte. No dia 18 de dezembro de 1469,
Lourenço de Medicis incumbiu o pintor Piero Pollaiuolo de uma importante obra
de arte: executar sete quadros que representassem as "Sete virtudes",
para ornamentar o salão do Tribunal da Mercatanzia. Mas o ourives Antonio
Filipepi não concordava inteiramente com a decisão. Ele, que havia executado o
primeiro estudo para uma das virtudes - a "Caridade" -, achava essa
uma boa ocasião para introduzir no mecenato dos Medicis seu irmão mais jovem,
Sandro, contando com a ajuda de Tommaso Soderini - pessoa de absoluta confiança
de Lourenço de Medicis, senhor e governador de Florença. Meio ano depois,
Soderini resolveu encomendar a Sandro a Fortaleza, primitivamente solicitada a
Pollaiuolo. Houve alguma resistência, é verdade. A corporação florentina de
médicos e droguistas - que também representava os pintores - enviou a Soderini
uma petição para que no futuro o governo não viesse novamente a cancelar
encomenda feita a um pintor para favorecer a outro. Mas a autoridade inflexível
de Lourenço, o Magnífico, não dava margem a debates muito prolongados. E Sandro
teve sua oportunidade. Fez jus a ela:
sua obra mostrou-se flagrantemente superior a qualquer das seis pintadas
por Pollaiuolo. Desde então, Sandro passou a desfrutar da honra de servir aos
Medicis.
Nos oito anos que se seguiram à
realização da Fortaleza, Botticelli recebeu numerosas encomendas da parte da
Igreja e da corte dos Medicis. Em Florença, a prosperidade trazida por
Lourenço, o Magnífico, traduzia-se também na multiplicação de oportunidades
artísticas. Botticelli aproveitou algumas delas. São desse período os quadros
que reproduzem o drama bíblico de Judite, que seduziu e degolou Holofernes, e
São Sebastião, encomendado pela igreja florentina de Santa Maria Maior. Essa
tela é um bom exemplo do sentido espiritual e simbólico que Botticelli atribuía
à arte: o mártir aparece como que desligado da paisagem distante que o circunda
e mesmo sua figura nada tem de realista; há um requintado jogo de luminosidades
sobre um corpo ascético, lançado verticalmente em toda a altura do quadro, sem
contornos precisos que o delimitem no espaço. Os compromissos de Botticelli com
os Medicis traduzem-se mesmo nas obras religiosas do pintor. Na Adoração dos Reis
Magos, realizada mais ou menos à mesma época, o artista reproduz fisionomias de
vários membros daquela família, entre eles Juliano, irmão de Lourenço. Guaspare
di Zanobi dei Lama, o aristocrata que encomendou a tela, exigiu também que seu
rosto aparecesse como o de seu homônimo Gaspar) um dos três reis. Aliás, o
próprio Botticelli aproveitou para retratar-se num canto da obra. Na Itália, às
vésperas do Renascimento, os artistas eram inevitavelmente compelidos a
participar da vida dos poderosos e a representá-la em suas criações. Por
exemplo, Juliano de Medicis encomendou a Botticelli o desenho do estandarte que
o nobre iria ostentar num torneio de cavalaria. A vitória de Juliano - de
resto, previamente combinada - acentuou ainda mais a honra conferida ao pintor
pela realização do estandarte.
Mais tarde, por volta de 1483,
Botticelli reproduzirá a face de Juliano em seu Marte e Vênus. A respeito
existem algumas controvérsias: segundo uns, a tela seria uma alusão aos amores
de Juliano com Simonetta, "a Bela", esposa de Marco Vespucci; segundo
outros, o quadro representaria Lourenço e sua amante Lucrécia Donati. A
maioria, porém, acredita que Marte seja realmente Juliano. Em 1478, o artista
terminara a Alegoria da Primavera para a Villa di Castello, residência de verão
dos Medicis. A figura mítica da Primavera está cercada de alegorias tiradas da
antigüidade - as três Graças, o deus Mercúrio - e de sutis simbolismos que
evocam o mundo clássico. Em nenhum momento Botticelli se preocupa em reproduzir
fielmente a anatomia dos personagens; a perspectiva desempenha um papel
secundário; a paisagem quase não conta. Tais características do estilo de
Botticelli - tão presentes nessa tela - exprimem as divergências fundamentais
entre sua concepção e a do contemporâneo Leonardo da Vinci: para este, a
pintura - "cosa intellettuale" - possuía uma função quase científica,
de pesquisa e busca do conhecimento; para Botticelli, o belo está, ao
contrário, fora da realidade e da experiência e a pintura é uma comunicação com
Deus. Nesse sentido, sua concepção - confessadamente mística - o aproxima dos
pintores medievais, para quem o mundo visível era a emanação de Deus.
Botticelli na época vivia uma boa situação. O pai havia herdado um casarão na
Via Nuova, deixado por seu irmão, também curtidor, mas de melhor situação
financeira. Foi aí que Sandro instalou seu estúdio - longe do centro da cidade,
onde poucos artistas teriam interesse de viver.
Porém, sua fama crescente atrai vários
alunos. Um deles é o filho de Filippino Lippi, que Botticelli adotara como seu,
desde a morte do pai, ocorrida quando o garoto tinha l0 anos. Um episódio
ocorrido no estúdio de Botticelli serve para dar uma idéia. Um de seus
discípulos, Biagio, havia produzido boa cópia da Virgem e o Menino com Oito Anjos,
quadro do mestre. Certo dia, Botticelli disse a Biagio ter encontrado comprador
para a reprodução. "Precisamos colocar o quadro num lugar alto e bem
iluminado, para que se destaque aos olhos do comprador, quando ele chegar
amanhã. Assim, ele pagará logo o preço tratado." Em seguida, dá a Biagio o
nome e o endereço do comprador. Biagio sai exultante. Botticelli e outro
discípulo, Jacopo, recortam então vários pedaços de papel colorido e os colam
sobre as cabeças dos anjos. A distância, os recortes davam a impressão de serem
chapéus típicos da época, de maneira que a Virgem parecia estar presidindo a
uma reunião da Senhoria - o conselho dos líderes da comunidade. No dia
seguinte, quando Biagio chega com o comprador, quase desmaia ao dar com o
quadro transformado em caricatura. Mas o comprador não parece ter notado nada
de estranho. Elogia a obra e confirma o negócio. Biagio sai com ele para
receber os 6 florins de ouro tratados. Ao voltar, os recortes de papel haviam
sido removidos. O jovem esfrega os olhos e pede explicações. Muito sérios,
Botticelli e Jacopo juram que tudo só podia ter sido uma alucinação de Biagio.
Este, confuso, nem percebera a brincadeira, da qual até o comprador fora
cúmplice. Se bem que a anedota não faça muita honra aos dotes humorísticos de
Botticelli, fornece algumas indicações sobre a vida nos estúdios dos pintores
da época: os aprendizes ajudavam o mestre em tudo, mas, em compensação, tinham
o direito de vender reproduções das obras dele por preços acessíveis a
colecionadores de posses limitadas.
Em 1478, uma conspiração instigada pelo
Papa Sisto lV atira o clã dos Pazzi contra os Medicis. Juliano é apunhalado e
morto. Lourenço, embora ferido, consegue escapar e, apoiado pela população e
pela maioria da nobreza, enceta feroz vingança. Os Pazzi são perseguidos e
trucidados. Por sua vez, o papa nega haver encorajado a conspiração. Um espião
dos Medicis, entretanto, desmascara o pontífice. Este ensaia a guerra, mas a
habilidade política de Lourenço, seus recursos militares, fazem com que Sisto
mude de idéia e resolva, por ora, seguir uma política de paz e união. Todos
esses acontecimentos políticos foram importantes para a carreira de Botticelli.
Seu prestígio junto aos Medicis estava então no auge e ele recebeu a honrosa
incumbência de registrar com sua arte o episódio da execução dos Pazzi - uma
honraria macabra que não pode ser apreciada hoje: quando as forças papais
finalmente conseguiram extinguir o domínio dos Medicis, a obra foi destruída,
em 1494.
Antes disso, durante o armistício, um
dos primeiros gestos de Sisto lV fora o de contratar artistas florentinos para
a decoração da Capela Sistina. Assim, em obediência a um contrato firmado a 27
de outubro de 1481, seguiram para Roma alguns dos melhores pintores de
Florença; Botticelli, Ghirlandaio, Perugino e Cosimu Rosselli. Botticelli ficou
um ano em Roma, onde produziu duas obras que figuram na Capela: Tentação de
Cristo e de Moisés e Punição dos Rebeldes. Esses afrescos já evidenciam uma
mudança na visão de mundo de Botticelli, que se acentuará na década seguinte
com o episódio da condenação de Savonarola - o frade dominicano queimado vivo
na Piazza della Signoria, em Florença, como punição por seus sermões contra a
decadência dos costumes, o luxo e a vaidade dos nobres. Os afrescos da Capela
Sistina estão imbuídos de um sentido oculto, acessível apenas aos que conheciam
sua linguagem ambivalente e secreta: Moisés salvando os judeus do cativeiro e
conduzindo-os à Terra Prometida, por exemplo, é um predecessor e símbolo do
Cristo que viera salvar a humanidade do pecado e conduzi-la à Pátria Celeste.
As obras da Capela Sistina documentam ainda a continuidade entre o Antigo e o
Novo Testamento, entrelaçando cristianismo e leis mosaicas. De volta a
Florença, em 1482, o artista está no apogeu de sua carreira. Não tem mãos a
medir para atender a todas as encomendas que recebe. Segundo o costume da
época, seus discípulos o ajudam na preparação dos materiais, na pintura de
detalhes mais fáceis; em alguns casos, ao mestre cabe apenas a tarefa de pintar
as fisionomias e alguns remates.
A Alegoria da Primavera e O Nascimento
de Vênus haviam contribuído para elevar ainda mais o prestígio de Botticelli
entre os Medicis. E Lourenço encomenda-lhe 19 ilustrações, gravadas em madeira,
para uma edição da "Divina Comédia". Outras 96 gravuras, também
solicitadas por Lourenço, não chegaram a ser impressas, provavelmente por causa
de uma das muitas medidas de contenção de gastos que, de vez em quando, eram
adotadas em Florença. Do mesmo período é a Virgem do Magnificat. Nessa obra,
Botticelli utiliza a forma circular chamada rondo.
Em 1492 morreu Lourenço. Seguiu-se então
um período de agitação política, agravada pela ascensão de Savonarola, o frade
dominicano quq vinha empreendendo um movimento de reforma semelhante ao que
Lutero levaria a cabo mais tarde. Mas Savonarola, ao contrário de Lutero, via e
explorava todas as implicações políticas de suas idéias. Impôs a Florença uma
austera repressão à vida mundana. Chegou a transformar o carnaval em festa de caridade
em que se destruíam livros julgados licenciosos. Entretanto, seus desafios ao
Papa Alexandre VI - pai de César e Lucrécia Bórgia - acabaram por levar
Savonarola à fogueira, acusado de heresia. Botticelli jamais tomou partido - ao
menos publicamente - na questão. Mas o movimento afetou-o bastante. O pintor, -
que antes homenageara o heroísmo como superação da adversidade material e
triunfo sobre o destino, passou a concebê-lo como virtude espiritual,
essencialmente cristã. Por outro lado, "populariza" seus trabalhos:
eles passam a acolher cada vez mais elementos populares, tornando-se acessíveis
ao grande público e não só a uma elite de iniciados. O que traduz uma
fidelidade às lições de Savonarola, segundo o qual o povo simples e virtuoso de
Florença salvaria aquela sociedade da decadência de nobres e ricos. Da mesma
forma, se antes Botticelli buscara fixar em suas criações o mundo esteticamente
perfeito da antigüidade clássica, passou depois a querer fixar o mundo
moralmente perfeito dos mártires cristãos - seu heroismo, sua abnegação, sua
fé, mesmo diante da tortura e da morte, como foi o caso, a seus olhos, do
próprio Savonarola.
A Alegoria da Calúnia coincide com a
culminância desse período de intensa religiosidade. Dentro de uma composição
severa, a figura da Calúnia - apresentada como repugnante - impõe-se à fraqueza
do julgamento humano, que a prefere em detrimento da Verdade. É uma alusão à
perseguição contra Savonarola. E sua Natividade contém até uma inscrição, em
grego, que identifica o período seguinte à morte do frade como o segundo
cataclismo do Apocalipse. Em seus últimos anos de vida, Botticelli afastou-se
quase por completo da vida cotidiana de Florença. Praticamente recluso,
preferia a meditação solitária, entregue à sua fé e ao estudo dos ensinamentos
de Savonarola.
A Natividade é um bom exemplo da
indiferença do pintor pelos gostos estéticos do começo do século XVI. Em tudo
oposto às novas tendências da época - afirmadas nos trabalhos de Michelangelo,
Leonardo da Vinci e Raffaello -, Botticelli ignora de propósito as leis da
perspectiva, cria uma tela devota, ornamentada até o excesso, ingênua e popular
nos seus elementos decomposição, ritual e estranha ao mesmo tempo. É possível
que algumas de suas obras-primas se encontrem justamente nessas últimas
criações: as pinturas diminutas, quase em miniatura, como Episódios da Vida de
São Zenóbio, que data de 1500 aproximadamente. Mesmo certas distorções
expressionistas contidas nessa tela - evolução exagerada para aquele tempo e
orientada em direção oposta ao "stil nuovo" dos gênios da Renascença
- resultam paradoxalmente conservadoras para os padrões do século XVI. Com
justiça, Botticelli é considerado um pintor do século XIV, muito mais próximo
de um Fra Angelico que de um Leonardo. Ao passo que este afirmava que a arte
traduz uma visão atual do mundo, Botticelli defendia a teoria filosófica da
Igreja - o neoplatonismo - segundo a qual a perfeição da arte clássica
prenunciava a Revelação iminente de Cristo. Por isso, ao pintar no fim de sua
vida as cenas culminantes do cristianismo - a Natividade, o Enterro, a
Crucificação -, ele permanece fiel a um ideal religioso. Sua arte se supõe
eterna, livre da história e do conhecimento humano. É o pintor de seu século
que mais se afasta tia experiência dos sentidos.
Pobre, solitário, esquecido, Botticelli
morreu em maio de 1510. Foi "redescoberto" pelos pintores românticos
ingleses do século XIX, para os quais a melancolia irreal de seus personagens
veio novamente representar a expressão da beleza idealizada.
" NASCIMENTO DE VÊNUS "
Sua criação mais famosa, Nascimento de
Vênus, retoma um tema da Antiguidade pagã, mas Botticelli transforma Vênus, a
deusa do amor, no símbolo da pureza e da verdade. Sempre conservara uma atitude
de adoração pagã pelos deuses da antigüidade - Vênus, Apolo, Diana, Mercúrio -,
sentiu crescer sua religiosidade - o que se refletirá na sua pintura.
No Nascimento de Vênus, que Botticelli
exprimiu sua metamorfose. Casta, na sua nudez luminosa, a deusa não sugere amor
físico, mas simboliza o primado da verdade e da pureza. Na sua quietude, revela
claramente a transição do artista para uma fase de recolhimento e rígida
retidão moral. A pobreza de ornamentos é o descarte de todo o supérfluo, a
busca apenas do autêntico e essencial. Não é Vênus propriamente que nasce no
quadro de Botticelli: é a alma cristã que emerge das águas do Batismo. É a
alegoria poética da humanidade que se põe ante a vida.
Fonte dessa imagem: Revista Feminina Cláudia, 1999.
BIBLIOGRAFIA
STRICKLAND,
Carol. Arte Comentada - Da Pré -
História ao Pós - Moderno. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
O Livro da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1999.


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