terça-feira, 7 de junho de 2022

Livro: Os Contos da Cantuária de Geoffrey Chaucer.


INTRODUÇÃO:

Este trabalho propõe um estudo sobre a obra de Geoffrey Chaucer, intitulada Os Constos da Cantuária (The Canterbury Tales), situada no período da Baixa Idade Média. Chaucer deu início a sua obra no ano de 1386, na Inglaterra. O objetivo deste, é através das informações obtidas na própria obra, considerada fonte literária, apontar as transformações sócio - econômicas, políticas e religiosas da sociedade medieval.

O livro serve para muitos tipos de gostos principalmente para os estudiosos em História por ser um testemunho vivo do pensamento e dos costumes do período medieval. Os contos são relatados de diversos gêneros, irônicos, ilariantes, picantes, irreverentes, fascinantes, vivazes,  para todos os tipos de pessoas, se tornando uma fonte de diversão para aqueles que simplesmente usam como passatempo a leitura. Comparado a grandes clássicos, o autor usa da psicologia moderna para expor sua história, recheado de riquezas e muita vitalidade.  

 ÉPOCA.

A Inglaterra em 1386, era um país misto, viviam na monarquia e seus reis às vezes, tinham interesses até maiores no solo francês do que na própria Grã – Bretanha. Os soberanos ingleses estavam interessados em ampliarem seus poderes além de seus territórios conquistados. Haviam muitos conflitos com nobres de outras nações como Países de Gales, e a Escócia, estes já possuíam poder e queriam aumentá-lo. Devido a essas transformações a Inglaterra acabou perdendo as possessões para Roma e acabou sendo sub - julgada pela mesma. A partir destes episódios a Inglaterra acaba tomando consciência da sua identidade e do seu papel como nação preparando-se para a era Tudor que marcaria o início da era moderna inglesa.

O conflito com a França teve diversas outras causas, sendo uma das mais importantes a defesa dos interesses econômicos da Inglaterra no comércio com a Flandres. Neste tempo houve um crescimento nos intercâmbios, cresceram também as exportações principalmente a da lã que era a principal riqueza da Inglaterra e desenvolveram-se as cidades, ocorrendo crescimento populacional.

Com a demografia interna, as cidades tornavam-se apertadas dentro de suas muralhas, e essa aglomeração propiciava incêndios e epidemias, em 1348 surge a Peste Negra que eliminou muita gente. A partir disto ocorreu uma queda na produção fazendo com que a agricultura decaísse, era uma crise econômica, gerando descontentamento social e atrapalhando a guerra com a França. Estes fatores influenciaram culturalmente e a época de Chaucer encerra-se com o completo pessimismo. Numa época em que até crônicas históricas e tratados filosóficos costumavam ser em versos, era natural que o autor escolhesse tal meio para uma obra de ficção.

 O AUTOR.

O primeiro nome da literatura inglesa de grandeza universal. Geoffrey Chaucer, sua biografia é superficial, sabe-se pouco sobre o início de sua vida. Nasceu em Londres, em 1340, seu pai John Chaucer, era comerciante de vinhos, provavelmente seu pai era um homem influente na corte pois colocou-o como pagem do príncipe Lionel, terceiro filho de Eduardo III. Chaucer conheceu o manejo das armas e a etiqueta da corte, aprendeu latim e francês, frequentou a escola de Direito em Londres e em 1359 lutou na França. Nesta batalha foi feito prisioneiro, mas posteriormente Eduardo III resgatou-o e tornou-o seu valete.

Após um período de ocultamento, sabe-se que casou com Philippa de Roet, que era dama da rainha, e teve dois filhos, Thomas e Lewis, provavelmente teria tido uma filha. O convívio com a realeza estimulou a atividade literária, aprofundou seus contatos com centros culturais e artísticos do mundo europeu, foi incumbido de missões diplomáticas no interior, na França, na Itália e na Flanders. Apreciava as obras de Dante, Boccaccio e Petrarca.

Assumiu, o cargo de Inspetor alfandegário, começam tempos difíceis com a morte de sua mulher, Chaucer exila-se e começa a escrever Os Contos da Cantuária. Mas como o rei designava-o para diversos encargos, teve que deixar sua obra de lado por um tempo.

Depois voltou-a a escrever, dentre estes escreveu muitos livros como O Livro da Duquesa, O Parlamento das Aves, A Casa da Fama, Os Contos da Cantuária e muitos outros entre eles poemas. Chaucer foi também poeta, O Pai da Poesia Inglesa, por isto busca em sua obra preservar a natureza e a qualidade das imagens, as nuanças das diferentes atmosferas, a sutileza e a variedade dos tons, inclusive a musicalidade das palavras.

O LIVRO.

Os Contos da Cantuária, inicia-se com uma romaria de 29 peregrinos, entre eles o próprio autor Geoffrey Chaucer, com o objetivo de irem para a cidade de Cantuária até o túmulo de Santo Tomás Beckett. Na estalagem onde estes peregrinos encontram-se, o albergueiro, na camaradagem sugere ao grupo como distração da viagem, que cada um conte duas histórias na ida e duas na volta e a que melhor agradar receberá como prêmio um jantar. O livro apresenta uma descrição de cada história e de cada personagem, mas Chaucer deixou-o incompleto, pois não teve tempo de revisá-lo, mesmo assim mostra-nos bem a sociedade medieval.

Seus personagens são de vários segmentos sociais, e em seus contos manda mensagens para as camadas menos favorecidas, pois tinha conhecimento do que estava acontecendo naquela época. Chaucer tinha pouca simpatia pela igreja, e esse fato ficou comprovado no conto chamado o retrato da Prioresa. Os contos ilustram gêneros literários diferentes mas também apresentam uma ampla visão da cultura da época. Encontra-se referências sobre a medicina, a alquimia, a teologia, a magia, ao comércio, as finanças, a filosofia, a retórica, usa conhecimentos em astrologia e outras áreas.

Os personagens de Chaucer, não representam apenas uma classe ou grupos, parecem pessoas reais, são personagens muitas vezes complexos, são contraditórios e intrigantes. O autor inseriu em seus personagens muito da psicologia, utilizando-se muitas vezes de ironia. Boa parte do livro se compõe de relatos apenas metrificados, se bem que entremeados de momentos de poesia.

O livro possui um caráter simples e direto, sem eliminar de vez as expressões arcaicas, conservadas para sugestão da atmosfera da época. Além da sociedade, estão presentes no livro a cultura e a literatura medievais.    

CONTO DO CAVALEIRO

O conto do Cavaleiro é o primeiro por que foi o sorteado, ele era um legítimo fidalgo, tinha voltado de uma batalha e aderiu a peregrinação. Este era muito digno, amante da profissão desde seu início, possuía como princípios a lealdade e a honra. Além de cortês tamanha era a generosidade deste valente guerreiro que lutava com fidelidade ao seu suserano. Devotado cristão guerreava por terras pagãs e era reconhecido por seu valor, esteve presente em várias batalhas e conquistas.

Consigo acompanhava seu filho escudeiro, e o seu criado. Apesar de aparentar e ter toda esta bravura, o cavaleiro era prudente, modesto e tinha bons modos com as donzelas, nunca dirigiu palavras rudes e grosseiras com ninguém. Considerado um homem de bem, perfeitamente gentil, discreto não esbanjava, mas possuía ostentação e muitos cavalos. Quando o Cavaleiro acabou de contar a sua história, não havia jovem ou velho, em toda a comitiva, que não a proclamasse uma narrativa nobre e digna de ser conservada na memória, do agrado principalmente de pessoas requintadas.

O Albergueiro expressou-se com muito gosto. Como prova disto temos as palavras do Albergueiro, inventor e acompanhante da proposta.

“ Que eu me dane, mas a coisa está indo que é uma beleza! E agora que abriram a fivela da mala, vamos ver quem vai contar a história seguinte; pois não há dúvida de que a brincadeira começou muito bem.” ¹      

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1. Chaucer, Geoffrey., Os Contos da Cantuária. O Conto do Moleiro.,  T. A Queiroz.
   São Paulo: pág. 48., 1991.


CONTO DO MOLEIRO.

O moleiro era um homem grandão e musculoso a força estava presente na sua expressão física e corporal, participava de lutas e as sempre ganhava, ainda mais pelo prêmio que eram pagos em carneiros. Tinha um fundo de maldade, pois adorava fazer intriguinhas e arranjar encrencas. Sua aparência devia ser feia por que a verruga no nariz era uma coisa que chamava muito a atenção, tudo nele era grande e estranho. Era conhecido como um tagarela por que falava demais e ainda um boca suja por que gostava de contar bagaceirices, histórias pecaminosas e mal intencionadas.

Um bebum que roncava e peidava, mas não estava nem aí para seu comportamento. Além de bagaceiro, bêbado, e tarado ainda era ladrão, pois roubava trigo e tirava para sí, três vezes mais farinha do que a lei permitia.

O moleiro vivia criando brigas e inimizades, por ser um cara desonesto, acabou sendo trapaceado, assim como é a vida, tudo aquilo que se faz para alguém, um dia a própria vida mostra as garras, e aquele quem faz um dia paga.

O conto cita um provérbio bem conhecido “quem semeia ventos colhe tempestades .” ²

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2. Chaucer, Geoffrey., Os Contos da Cantuária. O Conto do Moleiro.,  T. A Queiroz.
   São Paulo: pág. 67., 1991.
  
                     
                     O CONTO DO MÉDICO.

O Médico, a especialidade em medicina era com ele mesmo, estudioso e amante da astrologia, parecia meio bruxo pois aplicava-a em seu dia - dia. Orientava-se, e o mesmo fazia com seus pacientes, para os indicar a melhor hora de serem medicados. Aconselhava os seus a usarem amuletos da sorte de acordo com seus ascendentes. Era tão sábio que conhecia a causa de todas as doenças, como elas se manifestavam e como teriam de ser tratadas.

Homem sério e certo que cuidava também de sua alimentação, comia com moderação e evitava os excessos, preocupava-se com a digestão e com o valor nutricional dos alimentos. Quase nunca lia a bíblia, interessava-se muito mais em curas naturais e as utilizava em seus pacientes. Médico perfeito, considerado grande curandeiro.

O autor através desse conto denuncia a corrupção dos magistrados, discerta também sobre a justiça divina que sempre acaba punindo a felonia demonstrado claramente neste texto. A história toca em pontos importantes, trata do assunto da virtude e do comportamento da mulher onde era preferível para ela manter a virtude do que se corromper levando-a a morte. Pois no conto ela preferiu morrer do que entregar-se ao mal feitor.

O pecado aparece como no cristianismo, concepção que mostra o poder do demônio num corpo em forma de desejo. No final do Conto do Médico, dá um conselho “ por isso aceitem o meu conselho: destruam o pecado, antes que o pecado os destrua.” 

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3. Chaucer, Geoffrey., Os Contos da Cantuária. O Conto do Médico.,  T. A Queiroz.
   São Paulo: pág. 240., 1991.

                     CONCLUSÃO

Os personagens dos contos pertencem a diversas classes sociais, na peregrinação estão todos juntos. Chaucer elogia e enfatiza todas as qualidades das pessoas. Os contos de Chaucer oferecem-nos, portanto, um precioso referencial para a avaliação de nosso progresso e para a compreensão de nossa própria sociedade. A presente leitura nos despertou a atenção para os vários temas tratados na obra, como: a felonia, a corrupção, a esperteza, o divertimento, a sabedoria, a moderação, a castidade, o pecado, a virtude dentre outros.

O curioso e interessante é que em todos os contos há um conselho, uma lição de moral, um ditado; que estão e sempre estarão presentes na vida das pessoas. As histórias relatadas tem um profundo tom de realidade, pois cremos que algumas pessoas presenciaram histórias verídicas parecidas com estas. O livro literalmente trata de temas polêmicos da sociedade daquela época e que se repetem até os dias atuais. Nos fazendo perceber que os mesmos problemas persistem em nossa época atual, levando-nos a uma maior compreensão da sociedade. Mesmo porque a época retratada pode ser a medieval, mas a humanidade é a de sempre.


Por: Prof. Vanessa.

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