quinta-feira, 11 de fevereiro de 1993

A grande saga dos vikings na América - 1ª, 2ª e 3ª parte.


A GRANDE SAGA DOS VIKINGS NA AMÉRICA – 1º PARTE
Ainda permanece a incógnita sobre quais foram os primeiros europeus que aportaram na América. Mas já está absolutamente comprovado que 500 anos antes de Colombo os vikings se instalaram na Groenlândia, fundaram colônias e mantiveram um intercâmbio comercial bastante intenso com a Europa. Nos arquivos do Vaticano consta o nome de vários bispos nomeados para a Groenlândia e Vinlândia, o que acaba com todas as dúvidas sobre o conhecimento pelos europeus de terras ou ilhas no ocidente. Entretanto, de algum tempo para cá, levando-se em conta certas lendas e mesmo as sagas dos vikings, julga-se que os celtas e irlandeses, antes dos navegadores vikings, já conheciam a existência da América e foram aqui primeiro chegaram, mas isso são apenas conjeturas.
Os vikings, vindos da Suécia, Noruega e Dinamarca, após conquistarem a Inglaterra em 711, passaram a atacar comunidades cristãs por toda a costa européia, desde a Rússia até a Itália e Constantinopla. Por volta do ano de 840, já haviam ocupado metade de Irlanda e invadido a Escócia. Depois de conquistar a Bretanha e o norte da França eles iniciaram a penetração no continente europeu.
A partir de 874 esses navegadores começaram a chegar a Islândia. Da Islândia os vikings continuaram sua expansão para o oeste tendo em 877, chegado a Groenlândia que batizaram de Terra Verde. Essas historias estão narradas em dezenas de “sagas” onde fatos reais podem estar entremeados de lendas. Então muitas dessas historias, muitas vezes, são contestadas.
No ano de 981, Eric o Ruivo, partiu da Islândia com um barco de 25 metros. Ele havia assassinado várias pessoas e para não ser condenado a morte fugiu em busca de aventuras e de saques. Sempre navegando para oeste, Eric chegou a Groenlândia, de onde pôde avistar novas terras a distância. Dizem que de cima de um monte, vêem-se as montanhas da América. Eric rumou para lá e no ano de 982 desembarcou em solo americano tendo passado o inverno caçando. Em 984 regressou a Islândia com a barca abarrotada de peles e marfim de morsa, valiosos. Quanto a essa primeira viagem de Eric para América existem controvérsias e não é aceita por muitos historiadores.
Em 983, Ari Marson partindo da Islândia, foi arrastado por uma tempestade até uma costa desconhecida, onde brancos que falavam o gaélico acolheram-no e batizaram-no à força na religião católica. Pensa-se que eram os celtas fugidos da Islândia, quando da chegada dos vikings.
Em 985, Erik voltou a Groenlândia, com 25 embarcações apinhadas com cerca de 1.000 homens, mulheres e gado. Iniciou então a colonização oficial da Groenlândia, fundando duas cidades: Eystribigdt e Vestibigdt.
Em 986 um certo Bjarni Horjulfsson, teve seu navio, com destino a Groenlândia, desviado da rota por uma tempestade, acabou costeando em uma vasta planície coberta de arvoredo. Chamou de “Markland”, terra dos bosques. Bjarni não desembarcou, mas navegou para o norte tendo passado por “Helluland”, terra das rochas planas e finalmente para o leste até a Groenlândia. Imagina-se que fossem terras da América do Norte.
Por volta do ano 1000 os vikings da Groenlândia converteram-se ao cristianismo por imposição do rei Olaf Tryggyvason da Noruega.
No ano de 1003, Leif Ericson, filho de Eric, tendo ido explorar estas terras, chegou a “Helluland”, que hoje é identificada como a ilha de Bafin. Navegando para o sul encontrou uma terra baixa e coberta de mato a “Markland”, provavelmente o Labrador de hoje. Prosseguindo chegou a um promontório de terra a sudoeste e a um rio com as margens cheias de arvores de frutas, cujas terras eram muito férteis. Subiu a corrente deste rio até o lago onde nasce e ali passou o inverno com seus 25 ou 35 companheiros. Como encontraram alguns cachos de uva silvestre denominaram o local de “Vinland”, a terra das vinhas. Este local poderia ficar na Terra Nova ou no continente americano. Em algumas expedições para o interior, eles encontraram homens contra os quais tiveram sangrentos combates o que inviabilizou a permanência no local.
Em 1005/6 Thovald, irmão de Leif Ericson, explorou novamente estes locais mas morreu em combates com os naturais. Em 1008 Leif Ericson voltou novamente à América, desta vez para fundar uma grande colônia, supostamente próximo do Cabo Coad, no atual estado de Massachusett, nos Estados Unidos. Também sobre esse estabelecimento não existem provas históricas e é refutado por alguns historiadores. No mesmo ano o nobre islandês Thorfinu Karselfni, teria encontrado indígenas chefiados por brancos, talvez celtas.
Por volta de 1010, Karselfni com vários navios trazendo gado e mais 165 colonos entre homens e mulheres, voltou à América, batizada então genericamente de Vinlândia, terra do vinho, para fundar uma nova colônia. Em 1013, o mesmo Karselfini ao navegar pela costa da Nova Escócia, após ter desistido de se instalar no local em vista das constantes escaramuças com os naturais da terra, o que inviabilizava a permanência no local, avistou um homem barbado na companha de duas mulheres e de duas crianças. Os adultos fugiram, as crianças foram capturadas e levadas para a Noruega.
No ano de 1014, Freydis, irmã de Leif Ericson, violenta e depravada, diante dos insucessos dos homens em se estabelecer no continente, organizou uma expedição composta exclusivamente por mulheres. Após vários combates sangrentos, elas foram completamente derrotadas.
Em 1026 o papa Inocência III, ao nomear um bispo para a Noruega, Islândia e Groenlândia, se queixava da irregularidade nas contribuições obrigatórias à Igreja. Embora a dificuldade de consulta nos arquivos do Vaticano conhece-se atualmente o nome de 17 bispos nomeados para a Groenlândia e bulas ordenando o rei da Noruega a organizar expedições para o oeste, para cobrar a contribuição anual devida.
Em 1038 o bispo enviado para a colônia, escrevia num relatório para Roma que: “seu rebanho compreendia quase 10.000 almas, fazendo, mais de 10 igrejas e até uma abadia”. Em 1054 o bispo Jon embarcou na Islândia com destino ao continente americano. Foi aprisionado e morto pelos indígenas.
- continua -


A GRANDE SAGA DOS VIKINGS NA AMÉRICA – 2º PARTE

- continuação -

A partir de 1075 as colônias vikings na Groenlândia cessaram de enviar notícias e donativos ao Vaticano. Ao mesmo tempo a influência viking começava a diminuir em todo o mundo. Em 1112 o papa nomeia o bispo Eric Ghupson para a Groenlândia e Vinlândia. Partindo da Dinamarca em 1121 com destino a América, Eric Ghupson desapareceu sem nunca mais dele se ter notícias. Em 1246, outro bispo Olav, chega a Groenlândia. Sob sua influência é feita a submissão da colônia ao rei da Noruega. Por volta de 1266, as colônias da Groelândia negam-se novamente a pagar tributo à Noruega, tendo o rei desta, Magnus, conseguido da Eric, rei da Dinamarca, uma frota e soldados com os quais dominou os rebeldes. Começou então a decadência da Groenlândia. Em 1285 padres da diocese de Gardar, na Islândia, teriam visitado a Vinlândia.

Em 1342 o sacerdote Ivar Kardson foi enviado para verificar o estado das colônias e encontrou as cidades e vilas da Groenlândia abandonadas e em ruínas. As regressar relatou ao rei da Noruega que, segundo supunha, seus últimos habitantes tinham emigrado para a Vinlândia.

Em 1354 o papa Inocência IV lançou um grito de alerta: As populações cristãs da Groenlândia e Vinlândia passavam mais de 12 anos sem que enviassem uma única pele nem uma única presa de morsa ao Vaticano. Convocado pelo papa, o rei da Noruega organizou uma nova expedição. Para verificar a verdade sobre o abandona da Groenlândia por seus habitantes, foi enviado em 1355, Paul Knutsson, cavaleiro da guarda pessoal do rei.

Aportando na Groenlândia, Knutsson descobriu casas e estábulos intactos, mas nenhum vestígio dos cristãos vikings. Supondo que a população houvesse partido em direção a regiões mais quentes a expedição ganhou o mar e aportou na região da atual cidade do Boston. Aí também não foram encontrados indícios dos vikings. Em vista disto as naus seguiram a costa em direção ao norte e entraram na baía de Hudson. Instalaram acampamento junto á foz do Rio Hudson, onde dez homens foram massacrados. Trinta homens subiram o Rio Neleve em canoas, atravessaram o Lago Winnipeg e rumaram para o Sul. Acamparam a 14 dias de marcha dos navios da expedição, onde gravaram um lápida junto a um carvalho: “Somos oito godos e vinte e dois noruegueses em viagem de exploração para o oeste da Vinlândia. Tínhamos levantado acampamento junto a umas ilhotas, a poucas jornadas para o norte deste local. Estivemos fora um dia e quando voltamos encontramos mortos e ensanguentados os dez homens que deixamos no acampamento. Salve Virgem Maria, livrai-nos do mal. Temos ainda outros dez homens tomando conta dos navios a quatorze jornadas desta ilha. Ano 1362”.

Somente em 1898 é que um agricultor de origem sueca, Olav Ohman, encontrou esta pedra entre as raízes de um álamo derrubado nas vizinhanças de Kensington, a oeste do lago Superior, a 2.500 quilômetros da costa atlântica. A descoberta era tão extraordinária que se pensou logo numa falsificação tendo em vista a origem também escandinava do fazendeiro. Mas depois, percebeu-se que quando os primeiros suecos estabeleceram-se no local em 1867 o álamo já existia ha muito tempo, sem levar em conta que o colono que descobrira a pedra mal sabia escrever. O exame apurado de alguns caracteres rúnicos confirmaram a absoluta autenticidade do achado. A pedra tem cerca de um metro de altura por meio de largura e foi decifrada totalmente dez anos após a sua descoberta.

A expedição de Knutsson não consegui nenhuma notícia dos cristãos desaparecidos. Oito anos após sua partida da Noruega, resolveram voltar. Em 1362 chegaram a pátria de origem enviando um relatório a Urbano VII que nesse meio tempo ocupava o trono do Vaticano.

Porque os vikings haviam desaparecido da Groenlândia? Esta resposta só foi conseguida em 1921 quando o arqueólogo Paul Nordlund descobriu um cemitério e deparou com criaturas estigmatizadas, gerações subnutridas, raquíticas, de estatura incrivelmente baixa, ainda mais considerando que os nórdicos eram homens corpulentos e altos. Mas o que precipitou o aniquilamento deste povo foi o fato de que o intercâmbio com a Islândia aos poucos foi rareando até cessar por completo. Como não possuíssem madeira para construir seus navios e procurar novas terras, foram aos poucos definhando até seu extermínio. Os que não sucumbiram pela alimentação deficiente, abandonaram tudo quanto recordasse a tradição européia e misturando-se os esquimós e outros povos da raça mongol, entre as quais, encontram-se indivíduos ainda com traças indicativos da procedência nórdica.

Em 1364 chegou à Noruega um barco. O último vindo da Vinlândia. Trazia alguns colonos de uma pequena aldeia, que tinham abandonado. No mesmo ano, o armeiro veneziano Nicolau Zeno, indo negociar na Irlanda, encontrou um marinheiro que contou-lhe em detalhes sua estada em uma terra além-mar. Lançado sobre uma ilha chamada Estotiland, encontrou nela uma cidade, com um rei e um intérprete que sabia latim. Os habitantes desta ilha, menor que a Islândia, porém mais fértil, faziam com a Groenlândia, comércio de peles e enxofre. Como conheciam o uso da bússola, os náufragos foram encarregados pelo rei de dirigirem uma expedição a um país situado ao sul chamado Dracéia. Ali foram devorados pelos canibais a exceção de um só, que foi poupado pela sua maravilhosa habilidade de pesca. Quando regressou a sua terra o marinheiro contou ainda que ao sudoeste encontravam-se outros povos mais civilizados que conheciam o uso dos metais preciosos. Seriam os Astecas?

Entre 1380 a 1395, excitado pela possibilidade de ganhar muito dinheiro, os irmãos Nicolau e Antonio Zeno organizaram, com o auxílio de um conde das ilhas Orcadas, Henry Sinclair, uma expedição de vários navios com destino ao Ocidente tendo visitado todas as terras descobertas pelos escandinavos, e delas formaram um mapa, contendo as ilhas da Islândia, Faröe e Groenlândia. O mais curioso é que indicaram que a mais de mil milhas a oeste da Faröe, existia uma ilha chamada Frislan, e ao sul da Groenlândia, duas costas chamadas Estotilan e Drocéia. Julga-se que Estotilan corresponda a Terra Nova e Drocéia a Nova Escócia ou Nova Inglaterra no atual Canadá.

Em 1424 o rei da Dinamarca envia Claudius Clavus Swart em uma missão de reconhecimento para tomada de posse da Groenlândia. Em 1474, outra expedição, desta vez dirigida por Pining e Tothorst volta à Groenlândia. Em 1476, foi a vez do polaco João Szoolny a serviço do rei da Dinamarca aportar às praias do Labrador, no atual Canadá.

- continua 


A GRANDE SAGA DOS VIKINGS NA AMÉRICA – 3º PARTE
- continuação -
Entretanto, se a presença dos vikings na Groenlândia estava absolutamente comprovada pelo grande número de indícios lá encontrados, sua presença da América tinha fortes restrições, principalmente porque não havia nenhuma prova física de sua presença na América do Norte.
Em 1965 foi descoberto um mapa que aparentemente datava de século XV. Ele mostrava uma terra chamada Vinland, a oeste da ilha da Groenlândia. Esse mapa só poderia ter sido traçado baseado em informações dos viajantes nórdicos e era uma prova clara de que eles tinham chegado a América. Entretanto análises químicas da tinta empregada no mapa demonstraram que um pigmento empregado na tinta teria sido utilizado somente a partir do fim do século XIX, o que demonstrava que o mapa seria falso.
A prova definitiva e indiscutível da chegada dos vikings a América foi encontrada na pequena vila de L’Anse aux Meadows, no norte de Newfoundland, na Terra Nova, Canadá. Os arqueólogos noruegueses Helge Ingstad e sua esposa, seguindo informações de habitantes do local, descobriram, próximo a uma baía pouco profunda, um pequeno complexo de edifícios, formando um arco, junto a um riacho de água doce. Lá encontram vários artefatos nórdicos. Havia objetos de bronze e ferro, como uma pequena fundição. Provas irrefutáveis da colonização viking. Por volta do século X e XI, os nativos da região não utilizavam esses metais Os edifícios também diferiam dos indígenas em tamanha e estilo de construção, e se assemelham aos da Groenlândia. Baseado no teste de carbono 14, aplicando novas técnicas de datação descobertas recentemente, foi possível datar a chegada dos vikings em L’Anse aux Meadows, exatamente no ano 1021. Acredita-se que eram cerca de uns 100, que viviam em algumas casas, e ficaram no local por pouco mais de 10 anos. Hoje o local é patrimônio da humanidade tombado pela UNESCO.
L’Anse-aux-Meadows, é o único local da América onde está comprovada de maneira definitiva e irrefutável a presença viking na América. Não se sabe se eles instalaram-se em outras partes da América do Norte ou não, mas assim mesmo sua ocupação foi por um pequeno espaço de tempo. Incapazes de estabelecer uma boa relação com os nativos, provavelmente seus habitantes regressara a Groenlândia ou foram dizimados pela fome ou pelo confronto com os nativos. Há ainda uma possibilidade remota de terem sido absorvidos pelas populações nativas e rapidamente ter perdido sua identidade cultural. Mas isso é uma hipótese remota e não comprovada.
Se L’Anse-aux-Meadows, foi apenas uma porta de entrada dos vikings na América, ainda está para ser encontrada a localização mais precisa da Vinlândia. Mas para isso será necessário descobrir e autenticar materiais nórdicos em outros lugares da América do Norte.
O fato da Terra Nova não ser região climaticamente favorável para o crescimento de uvas, suscitou especulações que a Vinlândia não poderia situar-se ali, mas mais para o sul, onde o clima é muito mais ameno e propício para essa cultura. Especula-se que o atual estado de Massachussets, nos Estados Unidos poderia ser o local mais propício para o desembarque dos primeiros colonos vikings.
Os fatos de serem encontradas, uma moeda de prata do rei norueguês Olaf Kyrri (1066-1093) em Maine, no sul, e artefatos vikings na região ártica ao norte, não são suficientes para dizer que os vikings estiveram nesses locais, mas podem ser objetos que eles utilizaram em trocas comerciais com os habitantes da terra e acabaram sendo transportados para ali.
Em 12 de outubro de 1492, Colombo chagava às Antilhas. Essa é a data oficial do descobrimento da América. Entretanto Colombo através de viagem que fizera à Irlanda e de livros que lera, tinha absoluta certeza de que encontraria terras a oeste. Seu erro foi julgar ter chegado às Índias.
Em 17 de maio de 1992, uma réplica de um barco construído na Noruega seguindo as técnicas tradicionais, navegou pela mesma rota dos exploradores vikings, atingiu a América do Norte. Depois prossegui até Washington, onde a viagem terminou em 9 de outubro, demonstrando que tal travessia era perfeitamente possíveis a 1000 anos atrás.
F I M
BIBLIOGRAFIA
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JORNAIS E REVISTAS:
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KERVRAN, Luiz – Quem descobriu a América? – Planeta, no 9, Editora Três, São Paulo-SP., maio/1973.
SAMPAIO, Ferando G. – Os vikings na América – Correio do Povo, Porto Alegre-RS, 10.08.69.
INTERNET
MARTINS, Rui Pedro Patrício Cabrita – As Ilhas Míticas do Atlântico .

Publicação de Zeno Antônio Becker Filho.


 

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