Sobre Candido Portinari.
Por: Prof. Me. Vanessa Candia.
Contexto Histórico.
O ano de 1945 é marcado pela derrota do
nazi-fascismo e conseqüente fortalecimento das idéias democráticas. No Brasil,
essas idéias produzem amplo
movimento popular, que visa dois pontos básicos: anistia e eleições. A crise do
Estado Novo é evidente.
O Partido Comunista Brasileiro (PCB), única
organização que, mesmo na clandestinidade, se identificava com a resistência à
ditadura e com as idéias libertárias, cataliza grande parte desse processo.
Artistas e intelectuais aglutinam-se em torno de suas propostas
transformadoras. O PCB lança candidato próprio à presidência da República e,
para a Assembléia Constituinte, reúne o maior número possível de nomes conhecidos
e de prestígios. É assim que Portinari, Jorge Amado, Caio Prado Júnior e outros
integram suas chapas nos estados. As eleições realizam-se em dezembro, o PCB
elege um senador – Luiz Carlos Prestes – e 14 deputados, entre os quais Jorge
Amado; Portinari não é eleito. Nas eleições de 1947, novamente candidato,
concorrendo a uma cadeira no Senado, desde o início da apuração o nome de
Portinari parece se afirmar. No entanto, não é eleito por pequena margem, o que
põe em dúvida a lisura do pleito.
Em maio o Tribunal Superior Eleitoral cancela o
registro do PCB e o partido volta à clandestinidade. O acirramento da
perseguição aos comunistas leva Portinari a viajar para o Uruguai em exílio
voluntário. Em maio de 1951 é lançado o movimento de artistas ampla aos
cidadãos presos ou perseguidos por "delito de opinião", entre os
quais Portinari. Nunca se desligou do Partido Comunista, embora tenha se
afastado da política partidária em seus últimos anos.
Portinari nunca se elegeu para um cargo político,
mas bem que tentou. Em 1945, se uniu ao escritor Jorge Amado e juntos se
filiaram ao Partido Comunista. Dois anos depois, Candinho concorreu ao Senado,
mas perdeu. Até hoje existem suspeitas de fraude. O comunismo de Portinari deve
ser entendido mais como da história pessoal de um filho de camponeses do que
uma escolha intelectual. Ele nunca foi exilado, como muitos dos comunistas da
época da ditadura de Getúlio Vargas. Candinho exilou-se por conta própria em
Montevidéu quando Dutra perseguiu os comunistas aqui no Brasil.
FICHA TÉCNICA DO ARTISTA
Altura: 1,54m
Peso: 65kg em média
Cabelos: Ralos, louro
escuro, com entradas profundas na fronte.
Estado Civil: Casado em 1930 com Maria Portinari, de quem se
desquitou em 1960, vivendo extremamente isolado nos últimos anos.
Filhos: teve um, João Candido, nascido em 23 de janeiro de
1939.
Netos: Denise, nascida em 06 de maio de 1960 João Carlos,
nascido em 07 de julho de 1966.
Características Pessoais: Olhos azuis, usava óculos
ininterruptamente. Sofria de miopia e astigmatismo. Surdo, nos últimos tempos,
chegou a usar aparelho para surdez, manquitolava por defeito congênito.
Modo de Trajar: Vestia-se corretamente, usando suspensórios,
colarinho, gravata e abotoaduras. Gostava muito de coletes-fantasia e de cores
fortes, principalmente nas camisas e nas meias.
Marca de perfume predileto -Guerlain
Hábitos: Lia sempre antes de dormir .Dormia sempre muito
tarde, não tendo hora de levantar . Roncava quando dormia. Raramente fazia
visitas. Gostava mais de receber. Não ouvia rádio, mas gostava de ouvir música
clássica na vitrola. Adorava olhar o mar, mas não gostava de banhos de mar, nem
de andar de barco. Gostava muito de viajar para a Itália e França,
principalmente, embora preferisse morar no Brasil. Não gostava de aviões. As
poucas vezes que viajou, o fez sob protesto.
Alimentação: Gostava de comer bem, principalmente massas,
doces e frutas , dando preferência ao mamão. Gostava também de vinho embora não
pudesse bebê-lo. Fumava charutos após as refeições e cigarros durante o dia.
Cinema: Adorava filmes de "westem", principalmente
os com William S. Hart e Tom Mix. Gostava também de Carlito e Buster Keaton.
Dança: Somente dançou na juventude, e pouco
Religião: De família católica, foi batizado e era
católico não praticante. Jamais assistiu a uma macumba, nem nada do gênero.
Músicos Prediletos: Mozart, Bach e Beethoven
Autores Prediletos: Gostava muito de biografias e
poesia. "O Diário"de Delacroix, Stendhal, Balzac, Dostoiewski, Baudelaire
e T.S. Elliot. Dos brasileiros, lia muito seus amigos: Mario de Andrade, Murilo
Mendes, Jorge de Lima, Jorge Amado, Dante Milano, José Lins do Rego, Graciliano
Ramos, Manuel bandeira, Gilberto Freyre, Carlos Drummond de Andrade, A. F.
Schmidt, Adalgisa Nery e Antônio Callado.
Pintores Prediletos: Piero Della Francesca,
Giotto, Intoretto, Carpaccio, Masaccio, Signore11i, Delacroix, Goya, Breughel,
Rouaut , Griinewald, Jacques Villon, Fra Angélico, Van Gogh, Modigliani,
Picasso, Rivera e A. V. Guignard.
TV.: Gostava de assistir o grande teatro da
Tupi, com Sérgio Britto, Femanda
Montenegro e Nália.1.Thimberg
gostava também de
Altamiro Carrilho.
Amigos Pessoais: Graciliano Ramos, Lélio
Landucci, Santa Rosa, O. M. Carpeaux, A. V. Guignard, Clóvis Graciano, Jorge
Amado, Dante Milano, Alfredo Ceschiatt~ Atos Bulcão, Aparício Aporelli
"Barão de Itararé", Assis Chateaubriand, Manuel Bandeira, José
Morais, Percy Deane, Celso Agostinelli, Enrico Bianco, Lenidas Autuori, Mário
Autuori, Alcides Rocha Miranda, Aldary Toledo, Aluisio Sanes, Antônio Bento,
Quirino Carnpofiorito, Jayme de Barros, Paschoal Carlos Magno, Flávio de
Aquino, Mem Xavier da Silveira, Dalcidio Jurandir , Jayme Ovane, Antônio
Callado.
A VIDA
DE PORTINARI
Candido Portinari nasceu no dia
29 de dezembro de 1903, numa fazenda de café em Brodoswki, no Estado de São
Paulo. Filho de imigrantes italianos, de origem humilde, recebeu apenas a
instrução primária de desde criança manifestou sua vocação artística. Aos
quinze anos de idade (1918), foi para o Rio de Janeiro em busca de um
aprendizado mais sistemático em pintura. matriculando-se na Escola Nacional de
Belas Artes. Em 1928 conquista o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro da Exposição
Geral de Belas-Artes, de tradição acadêmica. Vai para Paris, onde permanece
durante todo o ano de 1930. Longe de sua pátria. saudoso de sua gente,
Portinari decide, ao voltar para o Brasil em 1931, retratar nas suas telas o
povo brasileiro, superando aos poucos sua formação acadêmica e fimdindo a
ciência antiga da pintura a uma personalidade experimentalista a anti-acadêmica
moderna.
Em 1935 obtém seu primeiro
reconhecimento no exterior, a Segunda menção honrosa na exposição internacional
do Carnegie lnstitute de Pittsburgh, Estados Unidos, com uma tela de grandes
proporções intitulada CAFÉ, retratando uma cena de colheita típica de sua
região de origem. A inclinação muralista de Portinari revela-se com vigor nos
painéis executados no Monumento Rodoviário na estrada Rio de Janeiro-São Paulo,
em 1936, e nos afrescos do novo edifício do Ministério da Educação e Saúde,
realizados entre 1936 e 1944. Estes trabalhos, como conjunto e como concepção
artística, representam um marco na evolução da arte de Portinari, afirmando a
opção pela temática social, que será o fio condutor de toda a sua obra a partir
de então.
Companheiro de poetas,
escritores, jornalistas, diplomatas, Portinari participa da elite intelectual
brasileira numa época em que se verificava uma notável mudança da atitude.
estética e na cultura do país. No final da década de trinta consolida-se a
projeção de Portinari nos Estados Unidos. Em 1939 executa três grandes painéis
para o pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York. Neste mesmo ano o
Museu de Arte Moderna de Nova York adquire sua tela O MORRO. Em 1940, participa
de uma mostra de arte latino-americana no Riverside Museum de Nova York e expõe
individualmente no Instituto do Artes de Detroit e no Museu de Arte Moderna de
Nova York, com grande sucesso de crítica, venda e público.
Em dezembro deste ano a
Universidade e Chicago publica o primeiro livro sobre o pintor, Portinari com
introdução do artista Rockwell Kent e inúmeras reproduções de suas obras. Em
1941, Portinari executa quatro grandes murais na Fundação Hispânica da Biblioteca
do Congresso em Washington. com temas referentes à história latino-americana.
Ik volta ao Brasil, realiza em 1943 oito painéis conhecidos como SÉRIE BÍBLICA,
fortemente influenciado pela visão picassiana de Guernica e sob o impacto da 23
Guerra Mundial. Em 1944, a convite do arquiteto Oscar Niemeyer, inicia as obras
de decoração do conjunto Arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte, Estado
de Minas Gerais, destacando-se o mural SÃO FRANCISCO e a VIA SACRA, na Igreja
da Pampulha.
A escalada do nazi-fascismo e os
horrores da guerra reforçam o caráter social e trágico de sua obra, levando à
produção das séries Retirantes e MENINOS
DE BRODOSWKI, entre 1944 e 1946, e à militância política, filiando-se ao Partido
Comunista Brasileiro e candidata-se a deputado, em 1945, e a senador, 1947.
Ainda em 1946, Portinari volta a Paris para realizar sua primeira exposição em
solo europeu, na Galerie Charpentier .A exposição teve grande repercussão,
tendo sido Portinari agraciado, pelo governo francês, com a Légion Honneur. Em
1947 expõe no salão Peuser , de Buenos Aires e nos salões da Comissão nacional
de Belas Artes, de Montevidéu, recebendo grandes homenagens por parte de
artistas, intelectuais e autoridades dos dois países.
O final da década de quarenta assinala
o inicio da exploração dos temas históricos através da afirmação do muralismo.
Em 1948, Portinari exila-se no Uruguai, por motivos políticos, onde pinta o
painel A PRIMEIRA MISSA NO BRASIL, encomendado pelo banco Boavista do Brasil.
Em 1949 executa o grande painel Tiradentes, narrando episódios do julgamento e
execução do herói brasileiro que lutou contra o domínio colonial português. Por
este trabalho Portinari recebeu, em 1950, a medalha de ouro concedida pelo Juri
do Prêmio Internacional das Paz, reunido em Varsóvia. Em 1952, atendendo a
encomenda do Banco da Bahia, realiza outro painel com temática histórica, a
chegada da família real portuguesa à Bahia e inicia os estudos para os painéis
guerra e p az, oferecidos pelo governo brasileiro à nova sede da Organização
das Nações Unidas.
Concluídos em 1956, os painéis,
medindo cerca de 14x10 m cada os maiores pintados por Portinari - encontram-se
no "hall" de entrada dos delgados de edificio-sede da ONU, em Nova
York. Em 1955, recebe a medalha de ouro concedida pelo Internacional Fine-Arts
Council de Nova York como o melhor pintor do ano. Em 1956, Portinari viaja a
Israel, a convite do governo daquele país, expondo em vários museus e
executando desenhos inspirados no contado com recém-criado Estado Israelense e
expostos Posteriormente em Bolonha, Lima, Buenos Aires e Rio de Janeiro. Neste
mesmo ano Portinari recebe o Prêmio Guggenheim do Brasil em 197, a Menção
Honrosa no Concurso Internacional de Aquarela do Hallmark Art Award, de Nova
York. No final da década de cinqüenta, Portinari realiza diversas exposições
internacionais.
Expõe em Paris e Munique em
1957. É o único artista brasileiro a participar da exposição 50 ANOS DE Arte
MODERNA, no Palais des Beaux Arts, em Bruxelas, em 1958. Como convidado de
honra, expõe 39 obras em sala especial na I Bienal de Artes Plásticas da Cidade
do México, em 1958. Neste mesmo ano expõe em Buenos Aires. Em 1959 expõe na
Galeria Wildenstein de Nova York e, juntamente com outros grandes artistas
americanos como Tamayo, Cuevas, Matta, Orozco, Rivera, participa da exposição
COLEÇÃO DE ARTE IN1ERAMERICANA, do Museu de Bellas Artes de Caracas. Cândido
Portinari morreu no dia 06 de fevereiro de 1962, quando preparava uma grande
exposição de cerca de 200 obras a convite da Prefeitura de Milão, vítima de
intoxicação pelas tintas que utilizava.
INTERESSE
PELA ARTE
Ainda criança, Candinho já demonstrava interesse
para o mundo das artes. Em 1914, aos 11 anos de idade, fez seu primeiro desenho
conhecido: o retrato do compositor Carlos Gomes, copiando a imagem de uma
carteira de cigarros. Neste desenho usou a técnica do carvão. Este primeiro
desenho de Candinho faz parte de sua fase inicial, em que trabalhou com a
reprodução de figuras, dando importância às formas e proporções e não à
criação.
Aos 13 anos, Cadinho já desejava ser pintor.
Mesmo com medo, saiu de sua cidade natal, Brodósqui, e viajou sozinho para o
interior do estado do Rio de Janeiro, onde ficou morando em casa de parentes.
Depois de dois anos, em 1918, mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro decidido
a seguir sua vocação. Aos 15 anos, matriculou-se na Escola Nacional de
Belas-Artes e começou a freqüentar um curso livre de pintura. Nesse período,
Portinari começou enfrentar grandes dificuldades financeiras. Seu primeiro trabalho, em 1919, foi uma
pintura do perfil de um homem, possivelmente, um dos intelectuais da época, mas
foi reprovado no primeiro concurso de que participou na Escola Nacional de
belas-artes. Então, tornou-se um "retratista" (quem faz retratos de
pessoas) fiel, utilizando as técnicas ensinadas pelo curso.
Portinari participava de todos os concursos da
escola e, em 1928, nove anos depois, ganhou a tão esperada viagem à Europa,
como prêmio pelo belíssimo retrato do seu amigo e poeta Olegário Mariano. Passou, então, dois anos
em Paris, capital da França, onde aprendeu uma nova maneira de pintar . Estudou
pintura na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Em 1928 ganhou um
prêmio de viagem e partiu para a Europa, renovando sua pintura com o que viu.
Em 1935 recebeu premiação pela tela "Café "na mostra anual do
Carnegie Institute de Pittsburgh. A partir de então dedicou-se cada vez mais à
criação de murais na sua maioria encomendados pelo governo brasileiro. A
produção de Portinari foi muitas vezes comparada a dos moralistas mexicanos,
não só quanto ao suporte, mas também pela temática o interesse pela questão
social, a narração eloqüente e a monumentalidade.
Em suas obras, os retirantes nordestinos, os
trabalhadores rurais de membros deformados, os tons de marrom e os de roxo dos
campos cultivados, expressam a força da terra. A partir de 1944 passou a
abordar também temas de sua infância no interior paulista. Em 1948 sofreu
influências abstratas e, na década de 50, pintou a série dos cangaceiros, de
cores mais intensas. A viagem que realizou em 1956 a Israel transformou sua
pintura. Usou seu traçado firme para concretizar formas mais compactas e
agressivas.
A
INFLUÊNCIA DE PICASSO.
A obra de Candinho foi influenciada pelo cubismo
de Picasso. A "Série Bíblica" pintada na década de 40 recebeu
influências da obra "Guernica" do pintor espanhol. Para alguns
críticos, Candinho copiou o estilo de Picasso. Para outros, o realismo de
Candinho é que ganhou força na Europa onde Picasso era o grande modelo. Sobre a
influência de artistas estrangeiros, Candinho escreveu: "Arte brasileira
só haverá quando os nossos artistas abandonarem completamente as tradições
inúteis e se entregarem, com toda a alma, a interpretação de nosso meio".
A obra O Último Baluarte de Candinho que sofreu forte influência de Guernica de
Picasso.
PINTOR SOCIAL
Portinari se considerava um
pintor social. Acreditava ser o mensageiro do povo. Usava os pincéis para
retratar a pobreza e a miséria. Candinho ficava muito triste ao ver as pessoas
infelizes e sofrendo. Achava que elas mereciam ser homenageadas e por isso eram
o motivo de seus quadros. Para ele, esta era a forma de trazer as pessoas
pobres e esquecidas para o conhecimento da sociedade.
"Todo
artista que pensasse sobre os acontecimentos que incomodam o mundo, chegará à conclusão de que
fazendo seu quadro legível, sua arte, ganhará muito mais, porque receberá o
apoio do povo. Os artistas que pensam em si próprios são os
que mais sofrem, mas infelizmente é um
sofrimento que não leva a nada e não ajuda a ninguém "
Candido Portinari.
A
FAMÍLIA
Foi em uma viagem à França que Portinari
encontrou seu grande amor. O pintor ganhara como prêmio do salão Nacional de
Belas-Artes, uma bolsa de estudos em Paris, por retratar com competência o
amigo Olegário Mariano. Lá conheceu Maria Victória Martinelli, nascida no
Uruguai. Casou-se com ela em Paris em 1928, e retornou ao Rio de Janeiro em
1931. No dia 23 de janeiro de 1939 nasceu no Rio de Janeiro seu único filho,
João Cândido. Em 1960, seu filho lhe deu uma neta, nasce Denise, uma nova
inspiração para pintura. Portinari, assim, passou a pintar um quadro da neta
por mês, mesmo contrariando recomendações médicas.
OBRAS
Retrato de Paulo Rossi Osir, apresenta um equilíbrio entre massas, linhas e luzes claras,
envolvendo a temática principal numa atmosfera, cuja leveza levou alguns
críticos a considerar este momento do artista com influências do estilo
impressionista. Entretanto, há um sentido expressivo bastante forte nesta obra
que o observador recebe através de um movimento em diagonal, introduzido pelo
deslocamento do tronco e do rosto, enfatizado por linhas, numa troca constante
com massas, que conduzem o olhar, também, a um volume apenas insinuado. Este
jogo visual inicia-se pela linha que contorna o pescoço e desce pelo colarinho,
desdobra-se em massas escuras pela gravata, ombro e pescoço novamente,
diluindo-se numa pequena tensão vertical na linha do maxilar e lóbulo da orelha
para, a seguir, tornar-se uma massa escura no cabelo da figura. A composição,
como um todo, resulta numa subjetividade imanente da figura masculina
representada.
Análise da obra
Café
A obra representa
uma cena da - cultura de café onde o artista mostra a importância da cultura
cafeeira para a ~ economia brasileira. Observe com agente a diferença entre os
trabalhadores e a figura de um chefe" organizando o trabalho. Os
trabalhadores são todos negros, sinal de um país que em 1935, ainda tinha
hábito escravistas. A presença do negro traz consigo uma carga ideológica, pois
o negro é alvo de campanhas, tratado como um ser inferior. O homem branco
colocado em posição de comando (chefe) Ilustra um pensamento escravista, baseado no racismo, que vem do fim da
escravidão... A disposição na tela é totalmente organizada. Candinho ilustra,
em três planos, uma colheita de café de tal forma que talvez nem uma filmadora
conseguiria registrar a sequência com tanta perfeição. Usando óleo sobre tela,
Portinari imprimiu o que considerava uma colheita ideal e isso nos deu a idéia
de um Brasil ideal. O Café, além ~e
uma reprodução real do Brasil, no campo da imagem, é uma representação crítica
de todo um contexto do país. Os críticos de arte consideram esta fase como
sendo a melhor do pintor. Café é
pintada nas cores terra, verde, ocre, cinza, branco, preto, amarelo e rosa. As
pessoas são totalmente deformadas, característica que o pintor herdou dos
muralistas mexicanos. Observe, amiguinho, como os pés e as mãos dos
trabalhadores são grandes, maiores que o normal, chegando a ser
desproporcionais ao tamanho deles. Os pés grandes simbolizam o homem ligado, plantado"
na terra; as mãos simbolizam a força do trabalhador brasileiro. Na obra, vê-se
muitas das características econômicas e sociais do Brasil da época (1935).
Análise
da obra Menino Morto
Esta é, sem dúvida, a obra de maior conteúdo
dramático do artista. Menino Morto faz
parte da série Retirantes e mostra o
sofrimento do sertanejo diante de uma realidade muito triste: a mortalidade
infantil por falta de condições mínimas de sobrevivência. Portinari quer que
vocês vejam que muitas crianças do Nordeste brasileiro morrem cedo. Uma família
constituída por seis pessoas, pais e irmãos seguram uma criança morta nos
braços. Eles choram. Repare, colega, como as lágrimas parecem pedrinhas de tão
grande que são. Candinho pintou as lágrimas muito maior do são na realidade
para mostrar o quanto é grande o sofrimento das pessoas, que estão com fome e cansadas.
As mãos do pai que seguram a criança representam o ponto principal da obra. Ao
olhar para ela, a primeira coisa que você verá é a criança morta. Isso porque
as mãos são exageradamente grandes e desproporcionais, já o restante do corpo é
normal.
Análise
de Retirantes
A obra Retirantes representa o povo nordestino ( o Nordeste é localizado
ao Norte do lado Leste do Brasil). Retirantes
mostra a necessidade que o povo tem em abandonar sua terra em busca de uma
vida melhor em outra parte do país (por isso o nome Retirantes - retirante é o homem nordestino que viaja de onde mora
a outro lugar em busca de água e comida, fugindo da seca). A obra tem
influências do pintor cubista Picasso e mostra a miséria que atingia e ainda
atinge o país. Candinho precisava mostrar o sofrimento do povo brasileiro, pois
ele sofria muito com o sofrimento de sua gente. Repare nas cores usadas por
Portinari. Usou em Retirantes as
seguintes cores: terra (marrom), cinza, azul, preto, branco, ocre, verde, rosa,
amarelo e vermelho. Observe, agora, como a obra é pintada por largas e fortes
pinceladas. Portinari dramatiza (relativo a drama, tristeza) ao máximo a obra.
Os personagens ilustrados por ele são reais, muito magros (raquíticos),
famintos. Eles estão descalços, com aparência horrível, dando a impressão de
estarem sujos. Uma das crianças de um total de cinco anos, tem um corpo muito
feio e deformado. Outra tem barriga-d'água. Os dois homens, o chefe da família
e seu pai têm a aparência de quem viveu uma vida muito dura no sertão
nordestino. A mulher, a esposa carrega uma sacola. Isso quer dizer que ela está
em busca de uma vida melhor. Observa-se o olhar destas pobres e tristes
pessoas: olhar que não traz esperança por uma vida melhor. As partes de corpo estão
à mostra, não tem pele, apenas ossos e músculos fracos. As roupas estão
rasgadas e não cobrem todo o corpo.
O céu é mostrado em cinza
escuro, apesar de não ter nuvens. É como que um céu seco, sem água (o Nordeste
é seco), mas também sem luz. A lua não tem brilho. Repare, amigo, como há
muitos urubus à procura de alimento, seja um gado morto pela seca ou os
próprios retirantes. Não há plantas nem flores. Assim, Candinho mostra o sertão
em sua forma mais triste. O chão traz só restos de ossos de gado e pedras.
Análise da obra
Pintada em 1934, óleo sobre tela, a obra apresenta,
principalmente, as cores marrom e preto, em primeiro plano. Em segundo plano,
tons azuis, verde, rosa, amarelo, cinza, marrom e branco compõem o fundo. A
obra representa, acima de tudo, a figura do homem brasileiro. Um povo que é
resultado da mistura de várias raças. Observa-se como há deformidades
anatômicas: os braços são enormes. Isso ilustra a força do homem brasileiro e
caracteriza um povo forte e trabalhador. Nesta obra, Portinari retoma a
realidade brasileira, que é a sua realidade. Talvez, Candido Portinari
estivesse pensando em retratar, com a imagem de uma só pessoa, o povo
brasileiro. O resultado foi o Mestiço. Assim
como em Café, o artista está
preocupado com o social levemente dramático.
PRÊMIOS
QUE GANHOU
Portinari foi um pintor que teve seu trabalho
reconhecido por vários prêmios. Recebeu sua primeira menção honrosa em novembro
de 1911, aos 19 anos, quando expôs no Salão Nacional de Belas Artes, exposição
promovida anualmente pela Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, com
o retrato do escultor Paulo Mazucchelli. De 1923 a 1927 participou do Salão,
obtendo a cada ano uma premiação que o preparou para concorrer ao esperado
Prêmio de Viagem. Com o retrato do Poeta Olegário Mariano, em 1928, recebeu o
prêmio de viagem à Europa. Em 1935, participou do Prêmio Carnegie, em
Pittsburg, nos Estados Unidos. A mostra reuniu obras de 21 países. Com a tela O
Café, Portinari conquistou sua
segunda menção honrosa, obtida no ano anterior por Salvador Dali. Em 1956, com
os painéis Guerra e Paz, feitos para a sede da ONU (Organização das Nações
Unidas) em Nova York, recebeu o Prêmio da Solomon Guggenheim Foundation. Na
Primeira Bienal Interamericana de Pintura e Gravura do Museu de Artes Plásticas
do México, em 1958, recebeu o Prêmio Cidade do México.
ARTE
RELIGIOSA DE PORTINARI
Portinari,
também pintava obras sacras (temas religiosos) e elas são tão importantes
quanto as sociais, apesar da pequena importância que foi dada a elas. Ele tinha
influência da família, de origem italiana e produziu trabalhos de caráter
religiosos praticamente durante toda vida. Em abril de 1959 a Igreja da
Pampulha é consagrada após 15 de interdição.
Obras como "A Ceia",
"Pampulha" e "São Sebastião", bem como, os painéis da
igreja, que podem ser observadas nas páginas seguintes.
PROJETO PORTINARI
Em 1979, o filho de Candido
Portinari, João Candido Portinari, fundou o Projeto Portinari, juntamente com
uma equipe de pesquisadores e historiadores da arte. Ele se dedicou a procurar,
estudar e reunir informações sobre as obras, a vida e as amizades do pai. Com
isso, ele pretende manter na memória do povo brasileiro a importância do nosso
maior pintor.
A equipe do Projeto Portinari
trabalha num prédio da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde
João Candido é professor de matemática.
Eles já conseguiram catalogar,
fotografar e autenticar mais de cinco mil e trezentas obras atribuídas ao
artista, doze mil recortes de jornal, nove mil cartas enviadas e recebidas por
ele e depoimentos gravados de vários amigos e pessoas que conviveram com
Portinari, muitos famosos, como Luís Carlos Prestes (que era comunista, como
Portinari), o poeta Carlos Drumond de Andrade e escritores como Graciliano
Ramos, Manoel Bandeira e outros.
Além das obras que se sabia onde
estavam, o Projeto Portinari encontrou muitas obras que estavam perdidas ou
eram desconhecidas: como os cenários e figurinos do Balé Vara, feito em 1946
pela Companhia Ballets Russes. Eles foram encontrados em 1991 na Alemanha
depois de sumirem por mais de 40 anos.
As duas primeiras obras dele que
estavam com um sobrinho de uma antiga namorada de Portinari -o quadro Baile na
Roça, o primeiro que Portinari usou para entrar em um concurso, que ele perdeu,
encontrado num porão no Rio.
Dois painéis de uma série de dez
que ele fez para a Rádio Tupi, com temas musicais, entre muitas outras obras
espalhadas pelo mundo todo.
Mas os pesquisadores ainda querem
encontrar muita coisa que está desaparecida, um nu artístico, que aparece numa
foto de Portinari (que seria o único que ele pintou) e um retrato do poeta
Jayme Ovale, de 1931, primeira obra de estilo Moderno, tendo ainda outros oito
painéis que estavam na Rádio Tupi do Rio.
O objetivo de João Cândido e do
Projeto Portinari é lançar um catálogo com todas as obras do artista (quadros,
painéis, gravuras, desenho etc). Para conhecer mais sobre o pintor, visite o
site do Projeto na Internet em
www.portinari.org.br. Se você quer saber mais ou entrar em contato com
os pesquisadores (afinal, você pode ter um quadro dele em casal), o endereço é
Projeto Portinari, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rua
Marquês de São Vicente, 225, CEP 22453-900, Rio de Janeiro -RJ. Telefone (021)
529.9457 ou Fax (021) 259.9697, além de manter a memória e a obra do autor bem
guardadas e protegidas.
A MORTE
Portinari morreu muito jovem.
Aos 59 anos, Candinho faleceu no Rio de Janeiro intoxicado pelas tintas que
tanto amava. Foi no dia 6 de fevereiro de 1962. O artista vinha sofrendo há
alguns anos devido ao forte cheiro das tintas. Foi aconselhado pelos médicos a
se afastar dos pincéis. Mas Cândido não poderia viver sem sua arte e preferiu
dedicar sua vida a ela.
"O pintor social é aquele que
deseja a paz, a justiça e a liberdade. Acredita que os homens podem participar dos prazeres do
universo "
Candido Portinari,
1903-1962.
BIBLIOGRAFIA
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FABRIS, Anna Teresa. Portinari
-pintor social, Usp, São Paulo, 1997.
MOULIN, Nilson e MA TUCK, Rubens. Portinari: Vou pintar aquela gente, Callis, São Paulo, 1997.
ENCARTE ESPECIAL CIÊNCIA HOJE. Negros
Brasileiros, suplemento vol. 8 n° 48, novembro de 1988.
PORTINARI, João Cândido. Portinari-
O Menino de Brodósqui, Livroarte,
Rio de Janeiro, 1979. FABRIS, Anna Teresa. Cândido
Portinari, editora Edusp, São Paulo,1996. Catálogo Portinari/Masp, São
Paulo, 1997.
TRZMIELINA, Nadine e BONITO, Angelo. Crianças Famosas: Portinari, Callis, São
Paulo, 1997.
PERIÓDICOS
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FOLHA DE SÃO PAULO. Porlinari
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FOLHA DE SÃO PAULO. Telas
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FOLHA DE SÃO PAULO. Risco
de incêndio põe obras em perigo, p. 9, Caderno Ilustrada, São Paulo, 14 de
agosto de 1998.
FOLHA DE SÃO PAULO. Internet afina seu gosto pela arte, p. 8 -Caderno Informática, São
Paulo, 30 de setembro de 1998.
ARTE Wyeth, Portinari, ed.
Lemos Editorial & Gráficos.
Arquivo pessoal: História da Arte e História do Brasil.
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