terça-feira, 17 de setembro de 1991

Sobre Candido Portinari.

 

Sobre Candido Portinari.

 

Por: Prof. Me. Vanessa Candia. 

 

Contexto Histórico.

 

 

O ano de 1945 é marcado pela derrota do nazi-fascismo e conseqüente fortalecimento das idéias democráticas. No Brasil, essas idéias           produzem amplo movimento popular, que visa dois pontos básicos:             anistia e eleições. A crise do Estado Novo é evidente.

 

O Partido Comunista Brasileiro (PCB), única organização que, mesmo na clandestinidade, se identificava com a resistência à ditadura e com as idéias libertárias, cataliza grande parte desse processo. Artistas e intelectuais aglutinam-se em torno de suas propostas transformadoras. O PCB lança candidato próprio à presidência da República e, para a Assembléia Constituinte, reúne o maior número possível de nomes conhecidos e de prestígios. É assim que Portinari, Jorge Amado, Caio Prado Júnior e outros integram suas chapas nos estados. As eleições realizam-se em dezembro, o PCB elege um senador – Luiz Carlos Prestes – e 14 deputados, entre os quais Jorge Amado; Portinari não é eleito. Nas eleições de 1947, novamente candidato, concorrendo a uma cadeira no Senado, desde o início da apuração o nome de Portinari parece se afirmar. No entanto, não é eleito por pequena margem, o que põe em dúvida a lisura do pleito.

 

Em maio o Tribunal Superior Eleitoral cancela o registro do PCB e o partido volta à clandestinidade. O acirramento da perseguição aos comunistas leva Portinari a viajar para o Uruguai em exílio voluntário. Em maio de 1951 é lançado o movimento de artistas ampla aos cidadãos presos ou perseguidos por "delito de opinião", entre os quais Portinari. Nunca se desligou do Partido Comunista, embora tenha se afastado da política partidária em seus últimos anos.

     

Portinari nunca se elegeu para um cargo político, mas bem que tentou. Em 1945, se uniu ao escritor Jorge Amado e juntos se filiaram ao Partido Comunista. Dois anos depois, Candinho concorreu ao Senado, mas perdeu. Até hoje existem suspeitas de fraude. O comunismo de Portinari deve ser entendido mais como da história pessoal de um filho de camponeses do que uma escolha intelectual. Ele nunca foi exilado, como muitos dos comunistas da época da ditadura de Getúlio Vargas. Candinho exilou-se por conta própria em Montevidéu quando Dutra perseguiu os comunistas aqui no Brasil.

 

FICHA TÉCNICA DO ARTISTA

 

Altura: 1,54m

 

Peso: 65kg em média

 

Cabelos: Ralos, louro escuro, com entradas profundas na fronte.

 

Estado Civil: Casado em 1930 com Maria Portinari, de quem se desquitou em 1960, vivendo extremamente isolado nos últimos anos.

 

Filhos: teve um, João Candido, nascido em 23 de janeiro de 1939.

 

Netos: Denise, nascida em 06 de maio de 1960 João Carlos, nascido em 07 de julho de 1966.

 

Características Pessoais: Olhos azuis, usava óculos ininterruptamente. Sofria de miopia e astigmatismo. Surdo, nos últimos tempos, chegou a usar aparelho para surdez, manquitolava por defeito congênito.

 

Modo de Trajar: Vestia-se corretamente, usando suspensórios, colarinho, gravata e abotoaduras. Gostava muito de coletes-fantasia e de cores fortes, principalmente nas camisas e nas meias.

 

Marca de perfume predileto -Guerlain

 

Hábitos: Lia sempre antes de dormir .Dormia sempre muito tarde, não tendo hora de levantar . Roncava quando dormia. Raramente fazia visitas. Gostava mais de receber. Não ouvia rádio, mas gostava de ouvir música clássica na vitrola. Adorava olhar o mar, mas não gostava de banhos de mar, nem de andar de barco. Gostava muito de viajar para a Itália e França, principalmente, embora preferisse morar no Brasil. Não gostava de aviões. As poucas vezes que viajou, o fez sob protesto.

 

Alimentação: Gostava de comer bem, principalmente massas, doces e frutas , dando preferência ao mamão. Gostava também de vinho embora não pudesse bebê-lo. Fumava charutos após as refeições e cigarros durante o dia.

 

Cinema: Adorava filmes de "westem", principalmente os com William S. Hart e Tom Mix. Gostava também de Carlito e Buster Keaton.

Dança: Somente dançou na juventude, e pouco

Religião: De família católica, foi batizado e era católico não praticante. Jamais assistiu a uma macumba, nem nada do gênero.

Músicos Prediletos: Mozart, Bach e Beethoven

Autores Prediletos: Gostava muito de biografias e poesia. "O Diário"de Delacroix, Stendhal, Balzac, Dostoiewski, Baudelaire e T.S. Elliot. Dos brasileiros, lia muito seus amigos: Mario de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Jorge Amado, Dante Milano, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Manuel bandeira, Gilberto Freyre, Carlos Drummond de Andrade, A. F. Schmidt, Adalgisa Nery e Antônio Callado.

Pintores Prediletos: Piero Della Francesca, Giotto, Intoretto, Carpaccio, Masaccio, Signore11i, Delacroix, Goya, Breughel, Rouaut , Griinewald, Jacques Villon, Fra Angélico, Van Gogh, Modigliani, Picasso, Rivera e A. V. Guignard.

TV.: Gostava de assistir o grande teatro da Tupi,  com Sérgio Britto, Femanda Montenegro e  Nália.1.Thimberg gostava  também  de  Altamiro Carrilho.  

 

Amigos Pessoais: Graciliano Ramos, Lélio Landucci, Santa Rosa, O. M. Carpeaux, A. V. Guignard, Clóvis Graciano, Jorge Amado, Dante Milano, Alfredo Ceschiatt~ Atos Bulcão, Aparício Aporelli "Barão de Itararé", Assis Chateaubriand, Manuel Bandeira, José Morais, Percy Deane, Celso Agostinelli, Enrico Bianco, Lenidas Autuori, Mário Autuori, Alcides Rocha Miranda, Aldary Toledo, Aluisio Sanes, Antônio Bento, Quirino Carnpofiorito, Jayme de Barros, Paschoal Carlos Magno, Flávio de Aquino, Mem Xavier da Silveira, Dalcidio Jurandir , Jayme Ovane, Antônio Callado.

 

A VIDA DE PORTINARI

 

Candido Portinari nasceu no dia 29 de dezembro de 1903, numa fazenda de café em Brodoswki, no Estado de São Paulo. Filho de imigrantes italianos, de origem humilde, recebeu apenas a instrução primária de desde criança manifestou sua vocação artística. Aos quinze anos de idade (1918), foi para o Rio de Janeiro em busca de um aprendizado mais sistemático em pintura. matriculando-se na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1928 conquista o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro da Exposição Geral de Belas-Artes, de tradição acadêmica. Vai para Paris, onde permanece durante todo o ano de 1930. Longe de sua pátria. saudoso de sua gente, Portinari decide, ao voltar para o Brasil em 1931, retratar nas suas telas o povo brasileiro, superando aos poucos sua formação acadêmica e fimdindo a ciência antiga da pintura a uma personalidade experimentalista a anti-acadêmica moderna.

 

Em 1935 obtém seu primeiro reconhecimento no exterior, a Segunda menção honrosa na exposição internacional do Carnegie lnstitute de Pittsburgh, Estados Unidos, com uma tela de grandes proporções intitulada CAFÉ, retratando uma cena de colheita típica de sua região de origem. A inclinação muralista de Portinari revela-se com vigor nos painéis executados no Monumento Rodoviário na estrada Rio de Janeiro-São Paulo, em 1936, e nos afrescos do novo edifício do Ministério da Educação e Saúde, realizados entre 1936 e 1944. Estes trabalhos, como conjunto e como concepção artística, representam um marco na evolução da arte de Portinari, afirmando a opção pela temática social, que será o fio condutor de toda a sua obra a partir de então.

 

Companheiro de poetas, escritores, jornalistas, diplomatas, Portinari participa da elite intelectual brasileira numa época em que se verificava uma notável mudança da atitude. estética e na cultura do país. No final da década de trinta consolida-se a projeção de Portinari nos Estados Unidos. Em 1939 executa três grandes painéis para o pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York. Neste mesmo ano o Museu de Arte Moderna de Nova York adquire sua tela O MORRO. Em 1940, participa de uma mostra de arte latino-americana no Riverside Museum de Nova York e expõe individualmente no Instituto do Artes de Detroit e no Museu de Arte Moderna de Nova York, com grande sucesso de crítica, venda e público.

 

Em dezembro deste ano a Universidade e Chicago publica o primeiro livro sobre o pintor, Portinari com introdução do artista Rockwell Kent e inúmeras reproduções de suas obras. Em 1941, Portinari executa quatro grandes murais na Fundação Hispânica da Biblioteca do Congresso em Washington. com temas referentes à história latino-americana. Ik volta ao Brasil, realiza em 1943 oito painéis conhecidos como SÉRIE BÍBLICA, fortemente influenciado pela visão picassiana de Guernica e sob o impacto da 23 Guerra Mundial. Em 1944, a convite do arquiteto Oscar Niemeyer, inicia as obras de decoração do conjunto Arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais, destacando-se o mural SÃO FRANCISCO e a VIA SACRA, na Igreja da Pampulha.

 

A escalada do nazi-fascismo e os horrores da guerra reforçam o caráter social e trágico de sua obra, levando à produção das séries Retirantes  e MENINOS DE BRODOSWKI, entre 1944 e 1946, e à militância política, filiando-se ao Partido Comunista Brasileiro e candidata-se a deputado, em 1945, e a senador, 1947. Ainda em 1946, Portinari volta a Paris para realizar sua primeira exposição em solo europeu, na Galerie Charpentier .A exposição teve grande repercussão, tendo sido Portinari agraciado, pelo governo francês, com a Légion Honneur. Em 1947 expõe no salão Peuser , de Buenos Aires e nos salões da Comissão nacional de Belas Artes, de Montevidéu, recebendo grandes homenagens por parte de artistas, intelectuais e autoridades dos dois países.

 

O final da década de quarenta assinala o inicio da exploração dos temas históricos através da afirmação do muralismo. Em 1948, Portinari exila-se no Uruguai, por motivos políticos, onde pinta o painel A PRIMEIRA MISSA NO BRASIL, encomendado pelo banco Boavista do Brasil. Em 1949 executa o grande painel Tiradentes, narrando episódios do julgamento e execução do herói brasileiro que lutou contra o domínio colonial português. Por este trabalho Portinari recebeu, em 1950, a medalha de ouro concedida pelo Juri do Prêmio Internacional das Paz, reunido em Varsóvia. Em 1952, atendendo a encomenda do Banco da Bahia, realiza outro painel com temática histórica, a chegada da família real portuguesa à Bahia e inicia os estudos para os painéis guerra e p az, oferecidos pelo governo brasileiro à nova sede da Organização das Nações Unidas.

 

Concluídos em 1956, os painéis, medindo cerca de 14x10 m cada os maiores pintados por Portinari - encontram-se no "hall" de entrada dos delgados de edificio-sede da ONU, em Nova York. Em 1955, recebe a medalha de ouro concedida pelo Internacional Fine-Arts Council de Nova York como o melhor pintor do ano. Em 1956, Portinari viaja a Israel, a convite do governo daquele país, expondo em vários museus e executando desenhos inspirados no contado com recém-criado Estado Israelense e expostos Posteriormente em Bolonha, Lima, Buenos Aires e Rio de Janeiro. Neste mesmo ano Portinari recebe o Prêmio Guggenheim do Brasil em 197, a Menção Honrosa no Concurso Internacional de Aquarela do Hallmark Art Award, de Nova York. No final da década de cinqüenta, Portinari realiza diversas exposições internacionais. 

Expõe em Paris e Munique em 1957. É o único artista brasileiro a participar da exposição 50 ANOS DE Arte MODERNA, no Palais des Beaux Arts, em Bruxelas, em 1958. Como convidado de honra, expõe 39 obras em sala especial na I Bienal de Artes Plásticas da Cidade do México, em 1958. Neste mesmo ano expõe em Buenos Aires. Em 1959 expõe na Galeria Wildenstein de Nova York e, juntamente com outros grandes artistas americanos como Tamayo, Cuevas, Matta, Orozco, Rivera, participa da exposição COLEÇÃO DE ARTE IN1ERAMERICANA, do Museu de Bellas Artes de Caracas. Cândido Portinari morreu no dia 06 de fevereiro de 1962, quando preparava uma grande exposição de cerca de 200 obras a convite da Prefeitura de Milão, vítima de intoxicação pelas tintas que utilizava.

 

INTERESSE PELA ARTE

 

Ainda criança, Candinho já demonstrava interesse para o mundo das artes. Em 1914, aos 11 anos de idade, fez seu primeiro desenho conhecido: o retrato do compositor Carlos Gomes, copiando a imagem de uma carteira de cigarros. Neste desenho usou a técnica do carvão. Este primeiro desenho de Candinho faz parte de sua fase inicial, em que trabalhou com a reprodução de figuras, dando importância às formas e proporções e não à criação.

 

Aos 13 anos, Cadinho já desejava ser pintor. Mesmo com medo, saiu de sua cidade natal, Brodósqui, e viajou sozinho para o interior do estado do Rio de Janeiro, onde ficou morando em casa de parentes. Depois de dois anos, em 1918, mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro decidido a seguir sua vocação. Aos 15 anos, matriculou-se na Escola Nacional de Belas-Artes e começou a freqüentar um curso livre de pintura. Nesse período, Portinari começou enfrentar grandes dificuldades financeiras.   Seu primeiro trabalho, em 1919, foi uma pintura do perfil de um homem, possivelmente, um dos intelectuais da época, mas foi reprovado no primeiro concurso de que participou na Escola Nacional de belas-artes. Então, tornou-se um "retratista" (quem faz retratos de pessoas) fiel, utilizando as técnicas ensinadas pelo curso.

 

Portinari participava de todos os concursos da escola e, em 1928, nove anos depois, ganhou a tão esperada viagem à Europa, como prêmio pelo belíssimo retrato do seu amigo e poeta    Olegário Mariano. Passou, então, dois anos em Paris, capital da França, onde aprendeu uma nova maneira de pintar . Estudou pintura na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Em 1928 ganhou um prêmio de viagem e partiu para a Europa, renovando sua pintura com o que viu. Em 1935 recebeu premiação pela tela "Café "na mostra anual do Carnegie Institute de Pittsburgh. A partir de então dedicou-se cada vez mais à criação de murais na sua maioria encomendados pelo governo brasileiro. A produção de Portinari foi muitas vezes comparada a dos moralistas mexicanos, não só quanto ao suporte, mas também pela temática o interesse pela questão social, a narração eloqüente e a monumentalidade.

Em suas obras, os retirantes nordestinos, os trabalhadores rurais de membros deformados, os tons de marrom e os de roxo dos campos cultivados, expressam a força da terra. A partir de 1944 passou a abordar também temas de sua infância no interior paulista. Em 1948 sofreu influências abstratas e, na década de 50, pintou a série dos cangaceiros, de cores mais intensas. A viagem que realizou em 1956 a Israel transformou sua pintura. Usou seu traçado firme para concretizar formas mais compactas e agressivas.

 

A INFLUÊNCIA DE PICASSO.

 

A obra de Candinho foi influenciada pelo cubismo de Picasso. A "Série Bíblica" pintada na década de 40 recebeu influências da obra "Guernica" do pintor espanhol. Para alguns críticos, Candinho copiou o estilo de Picasso. Para outros, o realismo de Candinho é que ganhou força na Europa onde Picasso era o grande modelo. Sobre a influência de artistas estrangeiros, Candinho escreveu: "Arte brasileira só haverá quando os nossos artistas abandonarem completamente as tradições inúteis e se entregarem, com toda a alma, a interpretação de nosso meio". A obra O Último Baluarte de Candinho que sofreu forte influência de Guernica de Picasso.

 

PINTOR SOCIAL

 

Portinari se considerava um pintor social. Acreditava ser o mensageiro do povo. Usava os pincéis para retratar a pobreza e a miséria. Candinho ficava muito triste ao ver as pessoas infelizes e sofrendo. Achava que elas mereciam ser homenageadas e por isso eram o motivo de seus quadros. Para ele, esta era a forma de trazer as pessoas pobres e esquecidas para o conhecimento da sociedade.

"Todo artista que pensasse sobre os acontecimentos que incomodam o mundo, chegará à conclusão de que fazendo seu quadro legível, sua arte, ganhará muito mais, porque receberá o apoio do povo. Os artistas que pensam em si próprios são os que mais sofrem, mas infelizmente é um sofrimento que não leva a nada e não ajuda a ninguém "

Candido Portinari.

 

A FAMÍLIA

 

Foi em uma viagem à França que Portinari encontrou seu grande amor. O pintor ganhara como prêmio do salão Nacional de Belas-Artes, uma bolsa de estudos em Paris, por retratar com competência o amigo Olegário Mariano. Lá conheceu Maria Victória Martinelli, nascida no Uruguai. Casou-se com ela em Paris em 1928, e retornou ao Rio de Janeiro em 1931. No dia 23 de janeiro de 1939 nasceu no Rio de Janeiro seu único filho, João Cândido. Em 1960, seu filho lhe deu uma neta, nasce Denise, uma nova inspiração para pintura. Portinari, assim, passou a pintar um quadro da neta por mês, mesmo contrariando recomendações médicas.

 

OBRAS

 

Retrato de Paulo Rossi Osir, apresenta um equilíbrio entre massas, linhas e luzes claras, envolvendo a temática principal numa atmosfera, cuja leveza levou alguns críticos a considerar este momento do artista com influências do estilo impressionista. Entretanto, há um sentido expressivo bastante forte nesta obra que o observador recebe através de um movimento em diagonal, introduzido pelo deslocamento do tronco e do rosto, enfatizado por linhas, numa troca constante com massas, que conduzem o olhar, também, a um volume apenas insinuado. Este jogo visual inicia-se pela linha que contorna o pescoço e desce pelo colarinho, desdobra-se em massas escuras pela gravata, ombro e pescoço novamente, diluindo-se numa pequena tensão vertical na linha do maxilar e lóbulo da orelha para, a seguir, tornar-se uma massa escura no cabelo da figura. A composição, como um todo, resulta numa subjetividade imanente da figura masculina representada.

 

Análise da obra Café

A obra representa uma cena da - cultura de café onde o artista mostra a importância da cultura cafeeira para a ~ economia brasileira. Observe com agente a diferença entre os trabalhadores e a figura de um chefe" organizando o trabalho. Os trabalhadores são todos negros, sinal de um país que em 1935, ainda tinha hábito escravistas. A presença do negro traz consigo uma carga ideológica, pois o negro é alvo de campanhas, tratado como um ser inferior. O homem branco colocado em posição de comando (chefe) Ilustra um pensamento escravista, baseado no racismo, que vem do fim da escravidão... A disposição na tela é totalmente organizada. Candinho ilustra, em três planos, uma colheita de café de tal forma que talvez nem uma filmadora conseguiria registrar a sequência com tanta perfeição. Usando óleo sobre tela, Portinari imprimiu o que considerava uma colheita ideal e isso nos deu a idéia de um Brasil ideal. O Café, além ~e uma reprodução real do Brasil, no campo da imagem, é uma representação crítica de todo um contexto do país. Os críticos de arte consideram esta fase como sendo a melhor do pintor. Café é pintada nas cores terra, verde, ocre, cinza, branco, preto, amarelo e rosa. As pessoas são totalmente deformadas, característica que o pintor herdou dos muralistas mexicanos. Observe, amiguinho, como os pés e as mãos dos trabalhadores são grandes, maiores que o normal, chegando a ser desproporcionais ao tamanho deles. Os pés grandes simbolizam o homem ligado, plantado" na terra; as mãos simbolizam a força do trabalhador brasileiro. Na obra, vê-se muitas das características econômicas e sociais do Brasil da época (1935). 

 

Análise da obra Menino Morto

 

Esta é, sem dúvida, a obra de maior conteúdo dramático do artista. Menino Morto faz parte da série Retirantes e mostra o sofrimento do sertanejo diante de uma realidade muito triste: a mortalidade infantil por falta de condições mínimas de sobrevivência. Portinari quer que vocês vejam que muitas crianças do Nordeste brasileiro morrem cedo. Uma família constituída por seis pessoas, pais e irmãos seguram uma criança morta nos braços. Eles choram. Repare, colega, como as lágrimas parecem pedrinhas de tão grande que são. Candinho pintou as lágrimas muito maior do são na realidade para mostrar o quanto é grande o sofrimento das pessoas, que estão com fome e cansadas. As mãos do pai que seguram a criança representam o ponto principal da obra. Ao olhar para ela, a primeira coisa que você verá é a criança morta. Isso porque as mãos são exageradamente grandes e desproporcionais, já o restante do corpo é normal.

 

Análise de Retirantes

A obra Retirantes representa o povo nordestino ( o Nordeste é localizado ao Norte do lado Leste do Brasil). Retirantes mostra a necessidade que o povo tem em abandonar sua terra em busca de uma vida melhor em outra parte do país (por isso o nome Retirantes - retirante é o homem nordestino que viaja de onde mora a outro lugar em busca de água e comida, fugindo da seca). A obra tem influências do pintor cubista Picasso e mostra a miséria que atingia e ainda atinge o país. Candinho precisava mostrar o sofrimento do povo brasileiro, pois ele sofria muito com o sofrimento de sua gente. Repare nas cores usadas por Portinari. Usou em Retirantes as seguintes cores: terra (marrom), cinza, azul, preto, branco, ocre, verde, rosa, amarelo e vermelho. Observe, agora, como a obra é pintada por largas e fortes pinceladas. Portinari dramatiza (relativo a drama, tristeza) ao máximo a obra. Os personagens ilustrados por ele são reais, muito magros (raquíticos), famintos. Eles estão descalços, com aparência horrível, dando a impressão de estarem sujos. Uma das crianças de um total de cinco anos, tem um corpo muito feio e deformado. Outra tem barriga-d'água. Os dois homens, o chefe da família e seu pai têm a aparência de quem viveu uma vida muito dura no sertão nordestino. A mulher, a esposa carrega uma sacola. Isso quer dizer que ela está em busca de uma vida melhor. Observa-se o olhar destas pobres e tristes pessoas: olhar que não traz esperança por uma vida melhor. As partes de corpo estão à mostra, não tem pele, apenas ossos e músculos fracos. As roupas estão rasgadas e não cobrem todo o corpo.

O céu é mostrado em cinza escuro, apesar de não ter nuvens. É como que um céu seco, sem água (o Nordeste é seco), mas também sem luz. A lua não tem brilho. Repare, amigo, como há muitos urubus à procura de alimento, seja um gado morto pela seca ou os próprios retirantes. Não há plantas nem flores. Assim, Candinho mostra o sertão em sua forma mais triste. O chão traz só restos de ossos de gado e pedras.  

 

Análise da obra

Pintada em 1934, óleo sobre tela, a obra apresenta, principalmente, as cores marrom e preto, em primeiro plano. Em segundo plano, tons azuis, verde, rosa, amarelo, cinza, marrom e branco compõem o fundo. A obra representa, acima de tudo, a figura do homem brasileiro. Um povo que é resultado da mistura de várias raças. Observa-se como há deformidades anatômicas: os braços são enormes. Isso ilustra a força do homem brasileiro e caracteriza um povo forte e trabalhador. Nesta obra, Portinari retoma a realidade brasileira, que é a sua realidade. Talvez, Candido Portinari estivesse pensando em retratar, com a imagem de uma só pessoa, o povo brasileiro. O resultado foi o Mestiço. Assim como em Café, o artista está preocupado com o social levemente dramático.

 

PRÊMIOS QUE GANHOU

 

Portinari foi um pintor que teve seu trabalho reconhecido por vários prêmios. Recebeu sua primeira menção honrosa em novembro de 1911, aos 19 anos, quando expôs no Salão Nacional de Belas Artes, exposição promovida anualmente pela Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, com o retrato do escultor Paulo Mazucchelli. De 1923 a 1927 participou do Salão, obtendo a cada ano uma premiação que o preparou para concorrer ao esperado Prêmio de Viagem. Com o retrato do Poeta Olegário Mariano, em 1928, recebeu o prêmio de viagem à Europa. Em 1935, participou do Prêmio Carnegie, em Pittsburg, nos Estados Unidos. A mostra reuniu obras de 21 países. Com a tela O Café, Portinari conquistou sua segunda menção honrosa, obtida no ano anterior por Salvador Dali. Em 1956, com os painéis Guerra e Paz, feitos para a sede da ONU (Organização das Nações Unidas) em Nova York, recebeu o Prêmio da Solomon Guggenheim Foundation. Na Primeira Bienal Interamericana de Pintura e Gravura do Museu de Artes Plásticas do México, em 1958, recebeu o Prêmio Cidade do México.

 

ARTE RELIGIOSA DE PORTINARI

 

Portinari, também pintava obras sacras (temas religiosos) e elas são tão importantes quanto as sociais, apesar da pequena importância que foi dada a elas. Ele tinha influência da família, de origem italiana e produziu trabalhos de caráter religiosos praticamente durante toda vida. Em abril de 1959 a Igreja da Pampulha é consagrada após 15 de interdição.

Obras como "A Ceia", "Pampulha" e "São Sebastião", bem como, os painéis da igreja, que podem ser observadas nas páginas seguintes.

 

 PROJETO PORTINARI

Em 1979, o filho de Candido Portinari, João Candido Portinari, fundou o Projeto Portinari, juntamente com uma equipe de pesquisadores e historiadores da arte. Ele se dedicou a procurar, estudar e reunir informações sobre as obras, a vida e as amizades do pai. Com isso, ele pretende manter na memória do povo brasileiro a importância do nosso maior pintor.

A equipe do Projeto Portinari trabalha num prédio da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde João Candido é professor de matemática.

Eles já conseguiram catalogar, fotografar e autenticar mais de cinco mil e trezentas obras atribuídas ao artista, doze mil recortes de jornal, nove mil cartas enviadas e recebidas por ele e depoimentos gravados de vários amigos e pessoas que conviveram com Portinari, muitos famosos, como Luís Carlos Prestes (que era comunista, como Portinari), o poeta Carlos Drumond de Andrade e escritores como Graciliano Ramos, Manoel Bandeira e outros.

Além das obras que se sabia onde estavam, o Projeto Portinari encontrou muitas obras que estavam perdidas ou eram desconhecidas: como os cenários e figurinos do Balé Vara, feito em 1946 pela Companhia Ballets Russes. Eles foram encontrados em 1991 na Alemanha depois de sumirem por mais de 40 anos.

As duas primeiras obras dele que estavam com um sobrinho de uma antiga namorada de Portinari -o quadro Baile na Roça, o primeiro que Portinari usou para entrar em um concurso, que ele perdeu, encontrado num porão no Rio.

Dois painéis de uma série de dez que ele fez para a Rádio Tupi, com temas musicais, entre muitas outras obras espalhadas pelo mundo todo.

Mas os pesquisadores ainda querem encontrar muita coisa que está desaparecida, um nu artístico, que aparece numa foto de Portinari (que seria o único que ele pintou) e um retrato do poeta Jayme Ovale, de 1931, primeira obra de estilo Moderno, tendo ainda outros oito painéis que estavam na Rádio Tupi do Rio.

O objetivo de João Cândido e do Projeto Portinari é lançar um catálogo com todas as obras do artista (quadros, painéis, gravuras, desenho etc). Para conhecer mais sobre o pintor, visite o site do Projeto na Internet em    www.portinari.org.br. Se você quer saber mais ou entrar em contato com os pesquisadores (afinal, você pode ter um quadro dele em casal), o endereço é Projeto Portinari, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rua Marquês de São Vicente, 225, CEP 22453-900, Rio de Janeiro -RJ. Telefone (021) 529.9457 ou Fax (021) 259.9697, além de manter a memória e a obra do autor bem guardadas e protegidas.

 

A MORTE

Portinari morreu muito jovem. Aos 59 anos, Candinho faleceu no Rio de Janeiro intoxicado pelas tintas que tanto amava. Foi no dia 6 de fevereiro de 1962. O artista vinha sofrendo há alguns anos devido ao forte cheiro das tintas. Foi aconselhado pelos médicos a se afastar dos pincéis. Mas Cândido não poderia viver sem sua arte e preferiu dedicar sua vida a ela.

"O pintor social é aquele que deseja a paz, a justiça e a liberdade. Acredita que os homens podem participar dos prazeres do universo "

Candido Portinari, 1903-1962.

 

BIBLIOGRAFIA

 

CALLADO, Antônio. Cândido Portinari, Edições Finambrás, 1997.

 

FABRIS, Anna Teresa. Portinari -pintor social, Usp, São Paulo, 1997.

 

MOULIN, Nilson e MA TUCK, Rubens. Portinari: Vou pintar aquela gente, Callis, São Paulo, 1997. ENCARTE ESPECIAL CIÊNCIA HOJE. Negros Brasileiros, suplemento vol. 8 n° 48, novembro de 1988.

 

PORTINARI, João Cândido. Portinari- O Menino de Brodósqui, Livroarte, Rio de Janeiro, 1979. FABRIS, Anna Teresa. Cândido Portinari, editora Edusp, São Paulo,1996. Catálogo Portinari/Masp, São Paulo, 1997.

 

TRZMIELINA, Nadine e BONITO, Angelo. Crianças Famosas: Portinari, Callis, São Paulo, 1997.

PERIÓDICOS

VEJA. De corpo inteiro, p. 60-64, São Paulo, Abril, janeiro 84.

 

ISTO É. Sentimental nacionalista, p. 86, São Paulo, ed. Três, junho de 1993.

 

FOLHA DE SÃO PAULO. Porlinari era moderno?, p. 2-8, São Paulo, 25 de novembro de 1997.

 

FOLHA DE SÃO PAULO. Telas de Porlinari estão 'por um fio' no interior de SP, p.1, Caderno Inlustrada, São Paulo, 14 de agosto de 1998.

 

FOLHA DE SÃO PAULO. Risco de incêndio põe obras em perigo, p. 9, Caderno Ilustrada, São Paulo, 14 de agosto de 1998.

 

FOLHA DE SÃO PAULO. Internet afina seu gosto pela arte, p. 8 -Caderno Informática, São Paulo, 30 de setembro de 1998.

 

ARTE Wyeth, Portinari, ed. Lemos Editorial & Gráficos.


Arquivo pessoal: História da Arte e História do Brasil.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário