segunda-feira, 10 de dezembro de 1990

Curso de Artes.


Curso de Artes.
Conteúdo Programático do Curso:
Fundamentação teórica, História da arte na escola, Ensino Médio, Dadaísmo como modelo, Atividades práticas e sua inserção na sala de aula, Propostas de atividades Práticas, Entendendo a Arte, Conceitos, importância e funções da Arte, Arte nas imagens do cotidiano, A beleza, o feio e o gosto, Arte erudita, arte popular e arte de massa, Técnicas e materiais artísticos e expressivos nas artes visuais, Comunicação e linguagem, Elementos básicos da linguagem visual, Fundamentos compositivos da imagem.
Trabalhando Com Artes Visuais Na Educação Infantil 02 - Como Desenvolver Identidade E Autonomia Em Crianças 03 – Texturas

1 - Trabalhando Com Artes Visuais - Desenho Com Folha De Planta: Desenhar com giz de cera usando folhas de diversas formas e tamanhos.
2 - Desenho Espelho: Dobrar a folha de papel ofício ao meio e pingar cola colorida na dobra – tornar a dobrar a folha e aparecerá uma surpresa.
3 - Bolinhas De Sabão: Material Necessário: anilinas, detergente incolor, canudos, papel ofício e copos descartáveis. Procedimento: Coloque um pouco de detergente com algumas gotas de anilina no copo (cada copo com uma cor diferente) – os alunos deverão molhar o canudo nos copos e soprar fazendo bolinhas de sabão no papel ofício.
4 - Desenho Mágico: Desenhar no papel usando apenas giz de cera branco, em seguida, com pincel passe tinta guache em toda folha. Depois de seco raspar ou desenhar com um clips e ver a surpresa.
5 - Desenho Livre Branco No Preto: Material Necessário: papel cartão preto giz de cera branco e creme dental branco. Procedimento: Desenhar livremente no papel cartão usando o giz e o creme dental.
Textura, Forma E Cor:
6 - Colagem de areia colorida em quadrados, triângulos e círculos. Papel Úmido: Molhar a folha com algodão e pintar em seguida com tinta guache. Outras ideias: Pintar com os dedos, com esponjas, com escova de dente, com giz de lousa molhado no leite, desenhar na lixa, desenhar com hidro cor sobre papel camurça. A criança trabalha com as mãos, aprendendo e apreendendo o mundo; vê através delas, manipulando e modificando, destruindo e construindo, observando, mas sobre tudo criando.
Através das atividades lúdicas a criança consegue se exprimir; entretanto, também se torna necessário mostrar-lhe alternativas, perspectivas e concepções: a Arte como coautora da nossa sociedade - ampliando, assim, sua visão de possibilidades, na experiência entre o real e o imaginário, do comparativo e do demonstrativo da realidade humana. Compete ao professor a estimulação da criança, em todos os sentidos visuais e perceptivos, pois sua sensibilidade e criatividade serão privilegiadas.
Como Desenvolver Identidade E Autonomia Em Crianças Objetivo(S) • Interagir e relacionar-se por meio de fotos. • Perceber-se a si e ao outro, as igualdades e diferenças, mediante as interações estabelecidas. • Sentir-se valorizado e reconhecido enquanto indivíduo. • Enxergar-se a si próprio como parte de um grupo, de uma unidade complexa. Material Necessário:
7 - Fotos das crianças sozinhas, com seus familiares, com seu brinquedo preferido, e outras, realizando atividades que gosta sozinhas e junto de seus colegas na escola. • Caixinhas de sapato infantil para servir de caixinhas surpresa. Podem ser pintadas, ou forradas. • Papel craft para fazer cartazes de pregas. • Papel cartão colorido e cola para confeccionar os cartazes com janelinhas. • Fita adesiva. 1ª Etapa Introdução A construção da identidade se dá por meio das interações da criança com o seu meio social. A escola é um universo social diferente do da família, favorecendo novas interações, ampliando desta maneira seus conhecimentos a respeito de si e dos outros. A auto-imagem também é construída a partir das relações estabelecidas nos grupos em que a criança convive. Um ambiente farto em interações, que acolha as particularidades de cada indivíduo, promova o reconhecimento das diversidades, aceitando-as e respeitando-as, ao mesmo tempo que contribui para a construção da unidade coletiva, favorece a estruturação da identidade, bem como de uma auto imagem positiva. Tendo em vista estes propósitos, a utilização de fotos pode ser amplamente aproveitada pelo professor. Este recurso visual promove situações de interação, reconhecimento e construção da auto-imagem, favorece as trocas e a percepção do outro e, das igualdades e diferenças, e consequentemente, de si. Esta sequência de atividades foi traçada considerando as necessidades das crianças de se reconhecerem no grupo no início do ano letivo. Desta forma, foram pensadas atividades numa sequência, que pode ser alterada conforme as necessidades e interesses de cada grupo. Depois desta sequência inicial é interessante que algumas atividades ocorram diariamente no decorrer do ano, como a elaboração da rotina e a elaboração do quadro de presença. Eu, Eu E Eu 1. Numa roda, distribuir caixinhas surpresa para as crianças com suas respectivas fotos dentro, de forma que abram e encontrem a sua imagem. 2. Distribuir as fotos e ajudar as crianças a colá-las sobre os cabides, onde ficam penduradas suas sacolas. Deixar as fotos sempre no mesmo lugar para que as crianças saibam o lugar destinado a ela guardar seus pertences. (Pode-se também fazer um mural de bolsos e, com ajuda das crianças, colar suas fotos, uma em cada bolso). 3. Fazer um cartaz de pregas representando a escola e outro representando a casa. Disponibilizar as fotos das crianças numa caixa que fique disponível a elas no início do dia. Deixe que olhem as fotos, encontrem as suas próprias e ensine-as a colocar no cartaz referente à escola. 4. Numa roda, sortear uma foto por vez para que o grupo identifique quem é quem. Incentivar as crianças a nomear e a relacionar foto e colega. Cada um leva a sua foto ao cartaz da escola. 5. Espalhar fotos pelo espaço e brincar com as crianças de encontrar. Cada um leva a sua foto ao cartaz da escola. 6. Fazer um cartaz com xerox repetidos e misturados das fotos de todas as crianças. Brincar com as crianças de cada uma encontrar as suas próprias fotos entre as demais. 2ª Etapa Eu, Tu, Eles 1. Preparar um pequeno cartaz com janelinhas que abrem e fecham, uma sobre a outra, para cada criança (uma coluna, com espaço para quatro ou cinco fotos). Na janelinha de cima, colocar a foto da criança e fechar, de forma que a foto fique escondida. Sugerir às crianças que abram as janelinhas e encontrem qual é o seu cartaz. 2. Nas caixinhas surpresas colocar as fotos das crianças com seus familiares. Distribuí-las entre as crianças aleatoriamente. Deixar que abram e sugerir que descubram de quem é a foto que encontraram. Cada um entrega a foto que encontrou para o seu dono. O dono da foto cola-a, com ajuda do professor, no seu cartaz de janelinhas. 3. Em roda, cada criança mostra a foto do seu brinquedo preferido para o grupo e, com ajuda do professor, conta o que é e como brinca com ele. Depois, colam na janelinha seguinte de seu cartaz. 4. Repetir a atividade acima quantas vezes quiser, acrescentando fotos de outras coisas significativas do universo familiar de cada criança (foto do quarto, do animal de estimação etc.) 3ª Etapa Nós E Todo Mundo 1. Com os cartazes, montar um biombo para sala, ou um grande mural, ao qual as crianças terão acesso livre para verificar as fotos de suas janelinhas e as de seus colegas. 2. Tirar fotos das crianças na escola, em suas atividades cotidianas, em pequenos ou em grandes grupos. Montar um móbile na altura das crianças para enfeitar um canto da sala. 3. Entre algumas fotos tiradas na escola, selecionar as mais ilustrativas das atividades que acontecem diariamente para confeccionar um quadro de rotina do grupo. 4. Todos os dias montar a rotina, sequenciando as atividades representadas pelas fotos, com ajuda das crianças.
Texturas Texturas Com Lãs.
Criar pompons com diferentes tipos de lãs faz com que a criança sinta sensações diferentes. Deixe a criança explorar a lã passando no rosto e no corpo.
Plástico Bolha Anexar em folha sulfite grossa um pedaço de plástico bolha. Permitir que as crianças escolham a tinta guache (misturada com maisena) da cor preferida e façam uma pintura sobre a folha.
Pintura Em Lixa Desenhar sobre a lixa usando giz de cera, permitindo que as crianças explorem a textura anteriormente com os dedos, diferenciado-a da textura da folha de oficio.
Pintura Sobre Tule Anexar em folha sulfite grossa um retalho de tule colorido. Permitir que as crianças escolham a tinta guache da cor preferida e façam uma pintura sobre a folha
Pintura Sobre O Cordão Objetivo: Explorar a sensação da pintura sobre o cordão, compondo formas. Oferecer cola em um cordão para fixar em uma folha, montando formas com o cordão. Após seco oferecer tinta para que os alunos pitem sobre a folha com colagem.
Argila Atividade: Moldagem das mãos com argila e pintura com tinta tempera
Justificativa Nos primeiros anos de vida, as crianças estão imersas no universo das imagens. Começam a perceber que podem agir sobre papéis ou telas provocando mudanças e produzindo algo para ser visto. Texturas e Sensações, parte do princípio que, através da exploração de diferentes materiais os pequenos ampliam a capacidade de expressão e o conhecimento do mundo.
Parte Administrativa:

1 - Abordagem Da Arte No Ensino Fundamental:

Segundo a Secretaria de Educação Fundamental (1997), na proposta geral dos Parâmetros Curriculares Nacionais, Arte tem uma função tão importante quanto à dos outros conhecimentos no processo de ensino e aprendizagem. A área de Arte está relacionada com as demais áreas e tem suas especificidades. A educação em arte propicia o desenvolvimento do pensamento artístico e da percepção estética, que caracterizam um modo próprio de ordenar e dar sentido à experiência humana: o aluno desenvolve sua sensibilidade, percepção e imaginação, tanto ao realizar formas artísticas quanto na ação de apreciar e conhecer as formas produzidas por ele e pelos colegas, pela natureza e nas diferentes culturas. O conhecimento da arte abre perspectivas para que o aluno tenha uma compreensão do mundo na qual a dimensão poética esteja presente: a arte ensina que é possível transformar continuamente a existência, que é preciso mudar referências a cada momento, ser flexível. Isso quer dizer que criar e conhecer são indissociáveis e a flexibilidade é condição fundamental para aprender.
Ao abordar a caracterização da área de Arte, o PCN destaca que o ser humano que não conhece arte tem uma experiência de aprendizagem limitada, escapa-lhe a dimensão do sonho, da força comunicativa dos objetos à sua volta, da sonoridade instigante da poesia, das criações musicais, das cores e formas, dos gestos e luzes que buscam o sentido da vida. Quando trata da Arte como objeto de conhecimento, os Parâmetros Curriculares Nacionais  afirmam que, O universo da arte caracteriza um tipo particular de conhecimento que o ser humano produz a partir das perguntas fundamentais que desde sempre se fez com relação ao seu lugar no mundo.
Dessa forma, de acordo com a visão do mesmo, entende-se que a manifestação artística tem em comum com o conhecimento científico, técnico ou filosófico seu caráter de criação e inovação. Essencialmente, o ato criador, em qualquer dessas formas de conhecimento, estrutura e organiza o mundo, respondendo aos desafios que dele emanam, num constante processo de transformação do homem e da realidade circundante. O produto da ação criadora, a inovação, é resultante do acréscimo de novos elementos estruturais ou da modificação de outros. Regido pela necessidade básica de ordenação, o espírito humano cria, continuamente, sua consciência de existir por meio de manifestações diversas. Apenas um ensino criador, que favoreça a integração entre a aprendizagem racional e estética dos alunos, poderá contribuir para o exercício conjunto complementar da razão e do sonho, no qual conhecer é também maravilhar se, divertir-se, brincar com o desconhecido, arriscar hipóteses ousadas, trabalhar duro, esforçar-se e alegrar-se com descobertas.
A imaginação criadora permite ao ser humano conceber situações, fatos, idéias e sentimentos que se realizam como imagens internas, a partir da manipulação da linguagem. É essa capacidade de formar imagens que torna possível a evolução do homem e o desenvolvimento da criança; visualizar situações que não existem, mas que podem vir a existir, abre o acesso a possibilidades que estão além da experiência imediata. “A emoção é movimento, a imaginação dá forma e densidade à experiência de perceber, sentir e pensar, criando imagens internas que se combinam para representar essa experiência” (PCN, 1997, p. 30). Assim, entende-se que a faculdade imaginativa está na raiz de qualquer processo de conhecimento, seja científico, artístico ou técnico. A flexibilidade é o atributo característico da atividade imaginativa, pois é o que permite exercitar inúmeras composições entre imagens, para investigar possibilidades e não apenas reproduzir relações conhecidas. Segundo o PCN, no caso do conhecimento artístico, o domínio do imaginário é o lugar privilegiado de sua atuação: é no terreno das imagens que a arte realiza sua força comunicativa.
Portanto, a partir dessas referências, situa-se a área de Arte dentro dos Parâmetros Curriculares Nacionais como um tipo de conhecimento que envolve tanto a experiência de apropriação de produtos artísticos (que incluem as obras originais e as produções relativas à arte, tais como textos, reproduções, vídeos, gravações, entre outros) quanto o desenvolvimento da competência de configurar significações por meio da realização de formas artísticas. Ou seja, considera-se que, aprender arte envolve não apenas uma atividade de produção artística pelos alunos, mas também a conquista da significação do que fazem, pelo desenvolvimento da percepção estética, alimentada pelo contato com o fenômeno artístico, visto como objeto de cultura através da história e como conjunto organizado de relações formais. A aprendizagem artística envolve, dessa forma, um conjunto de diferentes tipos de conhecimentos, que visam à criação de significações, exercitando fundamentalmente a constante possibilidade de transformação do ser humano. “Além disso, encarar a arte como produção de significações que se transformam no tempo e no espaço permite contextualizar a época em que se vive na sua relação com as demais.
Cabe destacar aqui os objetivos gerais de Arte para o Ensino Fundamental de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais No transcorrer do ensino fundamental, o aluno poderá desenvolver sua competência estética e artística nas diversas modalidades da área de Arte (Artes Visuais, Dança, Música, Teatro), tanto para produzir trabalhos pessoais e grupais quanto para que possa, progressivamente, apreciar, desfrutar, valorizar e julgar os bens artísticos de distintos povos e culturas produzidos ao longo da história e na contemporaneidade. Nesse sentido, segundo o PCN, o ensino de Arte deverá organizar-se de modo que, ao final do Ensino Fundamental, os alunos sejam capazes de: 
• Expressar e saber comunicar-se em artes mantendo uma atitude de busca pessoal e/ou coletiva, articulando a percepção, a imaginação, a emoção, a sensibilidade e a reflexão ao realizar e fruir produções artísticas;
• Interagir com materiais, instrumentos e procedimentos variados em artes (Artes Visuais, Dança, Música, Teatro), experimentando-os e conhecendoos de modo a utilizá-los nos trabalhos pessoais;
• Edificar uma relação de autoconfiança com a produção artística pessoal e conhecimento estético, respeitando a própria produção e a dos colegas, no percurso de criação que abriga uma multiplicidade de procedimentos e soluções;
• Compreender e saber identificar a arte como fato histórico contextualizado nas diversas culturas, conhecendo respeitando e podendo observar as produções presentes no entorno, assim como as demais do patrimônio cultural e do universo natural, identificando a existência de diferenças nos padrões artísticos e estéticos;
• Observar as relações entre o homem e a realidade com interesse e curiosidade, exercitando a discussão, indagando, argumentando e apreciando arte de modo sensível;
• Compreender e saber identificar aspectos da função e dos resultados do trabalho do artista, reconhecendo, em sua própria experiência de aprendiz, aspectos do processo percorrido pelo artista;
• Buscar e saber organizar informações sobre a arte em contato com artistas, documentos, acervos nos espaços da escola e fora dela (livros, revistas, jornais, ilustrações, diapositivos, vídeos, discos, cartazes) e acervos públicos (museus, galerias, centros de cultura, bibliotecas, fonotecas, videotecas, cinematecas), reconhecendo e compreendendo a variedade dos produtos artísticos e concepções estéticas presentes na história das diferentes culturas e etnias. (PCN, 1997, p. 39)

Conceito De Criatividade:

Criatividade é “A capacidade de encontrar novas soluções para um problema ou novas formas de expressão; o ato de dar existência a algo novo para o indivíduo”. Ao tratar a respeito do universo da criatividade,a capacidade humana de gerar novas idéias ou ações. Ele afirma que essa capacidade independe do nível ou classe social, mas depende do meio no qual o sujeito está inserido. Esse conceito pode ser melhor entendido a partir das quatro categorias.
1. Do ponto de vista da pessoa que está criando, a ação criativa é fisiológica e tem como base os temperamentos humanos, os hábitos e as atitudes criativas.
2. Os processos mentais criativos englobam a percepção, a motivação, o pensamento, a aprendizagem e a comunicação.
3. A criatividade está associada às relações entre homens e aos fatores ambientais e culturais. Portanto, é fruto da interação entre homens/objetos/meio.
4. A criatividade pode ser definida em virtude de seus produtos: pinturas, conceitos, teorias, invenções, esculturas, poemas, filmes, etc. Mas estas são as formas estereotipadas das ações criativas.
As distintas definições de criatividade estão sempre relacionadas ao conceito de novidade ou inovação. Assim, a ação criativa é a própria essência da transformação e das mudanças, tanto exteriores ao ser, quanto internas. Mas também é possível compreender a criatividade como a base do ato de liberdade, ou melhor, da ação libertadora, pois a criação associa-se à formação do senso crítico. Segundo Haetinger, “A criatividade está presente em cada um de nós. Todos temos a mesma capacidade criadora”. Mas ele argumenta que essa capacidade é potencializada ou minimizada de acordo com nossas interações com o meio cultural, o qual pode ou não oferecer estímulos às atitudes e aos atos criativos. O autor complementa ainda que, o que potencializa a criatividade são as nossas vivências. Em seu livro destaca que, “Criatividade – Capacidade criadora, inventividade, capacidade de gerar novas idéias. Associada a vivências e meio ao qual o indivíduo está inserido”. Analisando os processos criativos, Haetinger (2005) aponta que estes estão relacionados à inteligência e, mais especificamente, que eles se originam nos pensamentos divergentes.
Nosso intelecto abrange o pensamento (uma idéia em si) e o seu “backup”, ou seja, a memória que armazena experiências, informações e conceitos registrados desde a vida intra-uterina. O pensamento abrange a cognição (o entendimento de uma idéia), a produção (idéia global e sua execução prática), e a avaliação (a qual reúne parâmetros críticos que influenciam em nossa auto-imagem e auto-estima). O mesmo autor continua, ressaltando que a produção intelectual é feita por meio de pensamentos convergentes e divergentes. Haetinger (2005, p. 135) considera que, “Pensamento convergente é o pensamento direto, é a saída lógica e padrão para os problemas com os quais nos deparamos. Já o pensamento divergente ou lateral é um modo único e criativo de pensar”. Ele explica que a criatividade surge justamente no âmbito do pensamento divergente e se desenvolve a cada vez que procuramos saídas alternativas e inovadoras para determinadas ações. Ainda nesta mesma linha de considerações, o autor conclui que, O pensamento divergente, a criatividade e o senso crítico estão associados sob a forma de um triângulo equilátero (todos os lados são iguais e de igual responsabilidade com o todo). Assim, a criatividade só se aprimora quando exploramos nosso pensamento lateral e senso crítico simultaneamente. Portanto, ser criativo requer o discernimento da realidade e daquilo que é importante para cada um de nós. Também é preciso olhar o mundo a nossa volta com muito interesse e curiosidade, levantando novas idéias e possibilidades.
“Criar, de fato, significa iluminar aquilo que antes estava escuro, dar forma àquilo que antes era caótico, gerar aquilo que nunca antes havia sido criado nem gerado, antecipar o futuro, produzir o porvir”. Ao referir-se a tal assunto, Masi (2003) avalia aspectos da criatividade. Entre os mais significativos estão que a criatividade, segundo o seu ponto de vista, é surpreendente, pois responde ao desejo de ir além do insólito, de surpreender-se e de surpreender, dando expansão ao eros, aos instintos que impelem a fugir aos limites impostos pelo pensamento consciente, secundário, lógico e dedutivo. E completa que, “Proceder somente segundo a razão, como a sociedade industrial nos induziu a fazer, não é uma conquista, mas uma redução, porque nos castra da emotividade”. Outro aspecto levantado por Masi (2003) seria que a criatividade é duplamente universal. O autor entende que é universal porque a alegria de criar é dada a todos, uma vez que todos criam, ainda que nem todos cheguem a fazer obras-primas, a elaborar novos paradigmas, a inventar instrumentos revolucionários ou a descobrir novos mundos Mas a criatividade é universal também porque ninguém cria do nada, cada um utiliza os materiais depositados em seu próprio inconsciente. E, uma vez que o inconsciente é universal, as obras realizadas por um criativo despertam sintonias e ressonâncias também em outros. Na maior parte dos casos, o criativo experimenta prazer tanto em criar uma obra surpreendente como em constatar que ela provoca nos outros uma surpresa análoga à sua própria.
O mesmo autor continua, apontando que a criatividade também é doadora de paz. Considera que, “É terapêutica, porque ajuda a esquecer outros problemas, a aplacar outras tensões, a sublimar pulsões destrutivas, a reduzir a sensação de inutilidade, mediocridade, isolamento, a fugir da monotonia cotidiana e das preocupações imediatas” (Ibidem, p. 704). E acrescenta também que, outras vezes, ao contrário, os processos criativos conseguem distrair, divertir, isolar do mundo hostil, separar da banalidade. Masi (2003) finaliza seu livro enfatizando que a criatividade é impertinente e suave, como descrito no último parágrafo a seguir. A lição talvez mais autêntica que levo dessa longa viagem pela criatividade é que ela não tem regras: nasce indiferentemente em almas precoces ou senis, cultas ou primitivas, e pode assumir as formas mais diversas, às vezes tempestuosas, às vezes aplacadas, às vezes aparentemente simples, às vezes supostamente complexas. A sua força está na surpresa da sua multiplicidade, das suas infinitas e imprevisíveis direções.
Ao analisar o processo criativo a partir da arte, destaca que, “Em primeiro lugar, para ter idéias é preciso pensar”. No entanto, o autor considera que muitas pessoas ignoram essa obviedade, porque a preguiça mental assola o homem moderno, acostumado às idéias padronizadas. Segundo ele, a liberdade de poder pensar o que e como quiser pode assustar, por causa desse condicionamento intelectual. Portanto, o primeiro passo é criar uma atitude crítica em relação à realidade à sua volta. Questione tudo, inclusive a si mesmo ou especialmente a si mesmo! Pergunte-se o que o interessa, do que você gosta, o que o preocupa e por quê. Desenhe criticamente, pensando, questionando seus sentimentos, suas emoções e suas reações, e, aos poucos, as idéias surgirão.
Acredita que, “A realidade de cada pessoa é moldada pela sua cultura, educação, experiência e personalidade, e é por isso que a realidade de cada pessoa é única”. O autor acrescenta ainda que, “É preciso ter consciência de que o pensamento humano é um processo contínuo, e que as idéias de hoje são uma consequencia das idéias do passado. O pensamento criativo é evolutivo, dotado de insights, mas nunca é totalmente novo” (Ibidem, p. 52). E completa dizendo que, “Devemos estar sempre cientes de que estamos criando interpretações da realidade, e não a realidade propriamente dita”. Caracteriza o processo criativo enfatizando que toda obra de arte, seja ela visual ou de qualquer outra expressão, evolui da mesma forma, em quatro estágios: concepção, materialização, interpretação e re-interpretação. Dessa forma, primeiro a idéia é concebida, depois materializada, para ser interpretada em seguida. O processo criativo só se completa quando a obra é re-interpretada pelo espectador.
Enriquecendo um pouco mais a compreensão sobre o assunto, cabe citar ainda, entre tantos outros existentes, mais alguns conceitos de criatividade, como por exemplo, que, “Criatividade é encontrar soluções onde todos só vêem problemas, encontrar meios onde todos só vêem escassez, encontrar um sorriso onde os outros só vêem tristeza”. Ou que, “Criatividade é um comportamento produtivo, construtivo, que se manifesta em ações ou realizações, não necessitando ser, prioritariamente, um fenômeno ímpar no mundo, mas deve ser basicamente, uma contribuição do indivíduo”. Criatividade é a emergência na ação de um produto relacional que provém da natureza única do indivíduo, por um lado, e dos materiais, acontecimentos, pessoas e circunstâncias de sua vida, por outro”.
Criatividade é o processo de apresentar um problema à mente com clareza (ou seja, imaginando-o, visualizando-o, superpondo-o, meditando, contemplando, etc), e logo originar ou inventar uma idéia, conceito, noção ou esquema segundo linhas novas ou não convencionais; supõe estudo e reflexão mais do que ação. A criatividade resulta da combinação de processos ou atributos que são novos para o criador.  Criatividade é o processo de fazer e comunicar conexões significativas e novas para nos ajudar a pensar muitas possibilidades; para nos ajudar a pensar e experienciar de várias formas, usando diferentes pontos de vista; para nos ajudar a pensar novas e inusitadas possibilidades; e para nos guiar no processo de gerar e selecionar alternativas.  Criatividade é um atributo dos sistemas sociais que fazem julgamento sobre os indivíduos. A criatividade é o produto da interação entre três subsistemas: o domínio, a pessoa e o campo. O domínio representa a cultura onde um determinado comportamento tem lugar. O campo é composto por indivíduos que conhecem as regras do domínio e que decidem se o desempenho do indivíduo é criativo ou não. A pessoa é o indivíduo que assimilou as regras do domínio, encontrando-se pronto para imprimir no campo suas variações individuais.

2 - Arte E Criatividade:

De início é interessante destacar o pensamento de Edwards (1987), que ao escrever sobre o seu método de como desenhar com o lado direito do cérebro e explorar a criatividade, afirma que todo indivíduo é dotado de potencial criativo para exprimir-se através do desenho e seu objetivo é proporcionar-lhe os meios de liberar esse potencial, de ter acesso, a um nível consciente, à sua capacidade inventiva, intuitiva e imaginativa – capacidade esta que talvez tenha permanecido dormente e inexplorada em decorrência de nossa cultura verbal e tecnológica e nosso sistema educacional. A autora entende que, ao desenhar, a pessoa recorrerá intensamente a uma parte de seu cérebro que é quase sempre obscurecida pelos intermináveis detalhes do cotidiano, que a partir desta experiência de explorar a criatividade, o indivíduo desenvolverá a capacidade de perceber as coisas de uma maneira nova, em sua totalidade, de descobrir configurações e possibilidades ocultas para novas combinações. “Soluções criativas para problemas pessoais ou profissionais tornarse-ão acessíveis através de novas maneiras de pensar e novas formas de utilizar todo o poder do seu cérebro”.
Uma pessoa criativa é aquela capaz de processar, sob novas formas, as informações de que dispõe – os dados sensoriais comuns acessíveis a todos nós. O escritor precisa de palavras, o músico precisa de notas, o artista precisa de percepções visuais e todos precisam de certo conhecimento das técnicas de sua arte. Mas o indivíduo criativo percebe intuitivamente possibilidades de transformar dados comuns em uma nova criação que transcende a mera matériaprima. O caráter questionador que marca a nova geração demonstra um alto grau de criatividade que norteia o seu senso crítico e aproveita essa colocação para ressaltar a importância da criatividade ao longo da vida humana. Esta afirmação determina duas coisas: a primeira, que é preciso trabalhar a criatividade desde cedo para ampliar sua ação no pensamento humano. A segunda, que o jovem criativo que tenha verdadeiramente desenvolvido o seu senso crítico poderá manter sua criatividade crescendo mesmo na idade adulta.
A música e a dança como modalidades do ensino de Arte são apontadas por Haetinger (2005), em seu trabalho, quando o autor menciona a música associada à dança no contexto escolar. “É por meio desse tipo de prática que inserimos a dança no universo da criança. Então, parece-nos evidente a exploração desse estímulo quando buscamos facilitar o desenvolvimento das capacidades motoras e da criatividade de nossas crianças”. (Ibidem, p. 50) A dança é uma das formas de expressão fundamentais para o desenvolvimento psicomotor. Isso porque, quando alguém dança, está necessariamente controlando e coordenando seus movimentos corporais associados ao pensamento. O resultado desta atividade é o exercício físico e mental relacionado ao prazer e a alegria. O mesmo autor enfatiza que, na escola, podemos trabalhar com vários tipos de dança e entre eles, a Dança Criativa.
A dança criativa está presente em muitas circunstâncias da realidade escolar. As próprias crianças, em suas brincadeiras no pátio da escola, inventam “coreografias” e dançam as músicas da moda ao seu jeito. Naquele momento, elas estão dançando livremente e explorando sua criatividade. A observação do universo infantil é sempre a maior fonte de dados para um educador consciente de sua função.  Segundo Haetinger, a dança criativa é uma dança não coreográfica, realizada a partir de estímulos sonoros (música e/ou ruídos). Ao praticá-la, a dança cria movimentos livremente ou a partir da provocação de um mediador. Deste modo, a dança criativa parte de uma brincadeira infantil e se manifesta quando a criança usa seu próprio corpo para brincar e se movimentar ao ritmo de uma música ou som. “Nos ambientes de educação, o educador pode trabalhar a dança criativa provocando reações e interpretações por parte das crianças. Através de brincadeiras que envolvem situações e sons específicos, o professor estimula a criança a dançar e usar sua imaginação”. (Ibidem, p. 51) De acordo com Marques (2003), a dança criativa “sugere que as aulas de dança devem permitir e incentivar os alunos a experimentar, explorar, expandir, colocar seu eu no processo de configurações de gestos e movimentos” (Ibidem, p. 140).
Haetinger (2005) também menciona o teatro, outra modalidade do ensino de Arte, como atividade estimuladora da criatividade infantil. O autor reforça que, na educação, a motricidade relaciona-se intensamente com a expressão dramática, pois, quando a criança está desenvolvendo suas habilidades, ela conjuga ações com seu corpo, sua imaginação, seu poder de imitação e de representação. Estas práticas consistem em formas de expressão fundamentais para seu desenvolvimento. É brincando de faz de conta, imitando gestos e expressões faciais e representando situações que a criança explora sua imaginação e expressão corporal. O poder imaginativo da criança faz com que ela crie e recrie constantemente o seu universo, traçando relações entre a realidade e a fantasia.  Para Haetinger (2005), este elo de ligação entre o real e o imaginário é muito importante para as vivências infantis. Como faz notar um renomado pesquisador da expressão dramática na infância e no universo escolar, que afirma que, “o jogo dramático infantil é uma forma de arte por direito próprio; não é uma atividade inventada por alguém, mas sim o comportamento real dos seres humanos” inventa, pensa, lembra, ousa, experimenta, comprova, relaxa e faz relações com o mundo que a cerca”.  
A expressão dramática deve ser valorizada e correlacionada com as atividades de desenvolvimento infantil. Isto pode ser feito, por exemplo, quando se propõe caminhadas imaginativas ou brincadeiras com fantoches e máscaras. Todos os jogos que trabalham com a fantasia são importantíssimos às descobertas infantis. Ao destacarmos a expressão dramática na educação, proporcionamos meios para a criança vivenciar diferentes papéis e ampliar sua imaginação e criatividade de modo prazeroso e alegre. E, indo além do momento presente, oportunizamos que ela se torne futuramente um adulto com iniciativa e autonomia. Na opinião de Gesteira (1996, p. 46), ao referir-se sobre a prática do teatro na escola enfatiza que, “Os educadores podem inserir o teatro de bonecos na escola, estimulando a criatividade e a poesia, aguçando o senso crítico dos alunos, espelhando a realidade e tornando-a, desse modo, passível de transformações, a partir da influência artística”. A propósito, Haetinger (2005) explica que, quando se propõe um jogo, além dos objetivos cognitivos a serem alcançados, espera-se que as crianças sejam capazes, entre outras coisas, de criar e explorar a criatividade, uma vez que o jogo proporciona o desenvolvimento do pensamento criativo e divergente, gerados pela criatividade. Desse modo, os alunos podem inovar e descobrir formas para se relacionar com a aprendizagem.
Portanto, os jogos artísticos, como o próprio nome diz, são aqueles que operam com as competências artísticas. Entre eles, destacam-se as atividades de artes plásticas como desenhos, gravuras, recortes, colagens, maquetes, móbiles, trabalhos com tintas, esculturas, massa de modelar, dobraduras, quadros, mosaicos, máscaras, vitrais, entre outras; as atividades teatrais são os jogos dramáticos, peças, dramatizações, improvisações teatrais, fantoches, mímicas, teatro de sombras, etc.; as musicais são montagens de instrumentos, ritmos, canto, composição, paródias, coral, dicção; e a dança, em todos os seus gêneros e de todas as épocas, atividades de expressão corporal, de ritmo e movimento, faz parte dos jogos expressivos.No contexto escolar, Haetinger (2005) acredita que a criatividade pode transformar a relação do sujeito com o conhecimento. As atitudes e as ações criativas correspondem a meios para a compreensão e alteração da realidade. Todo ato criativo expressa a percepção que alguém tem do mundo, de uma idéia ou situação. O indivíduo necessariamente usa o seu entendimento da dimensão real para criar algo novo. 
Ainda nesta mesma linha de considerações, diz que a criatividade potencializa a imaginação humana e, consequentemente, modifica o método pelo qual as pessoas lidam com a informação e o processamento da mesma. A importância da criatividade como método é ressaltada por Rogers na seguinte afirmação: “a sobrevivência dos povos depende da capacidade criadora do homem”. O processo criativo está intimamente relacionado ao exercício da imaginação. Os jogos e brincadeiras que estimulam a auto-expressão, a descoberta e o poder de imaginação exploram a criatividade e permitem que alunos e professores se expressem de modo global e potencializem suas habilidades e capacidades. Também ao desenvolver sua própria criatividade, o educador passa a compreendê-la e adquire parâmetros para proporcionar experiências criativas aos seus educandos.
Quando aborda a importância da expressão criativa para a educação, Haetinger (2005) identifica que um dos instrumentos da atividade criativa é a interrelação entre as pessoas. Quando trabalhamos em grupo, a imaginação e a curiosidade de cada participante é ressaltada e compartilhada. E quem consegue se expressar junto aos outros, se adapta melhor às circunstâncias e à troca de experiências. Por isso é muito importante que se possibilite vivências coletivas na escola. Elas oportunizam que o educando revele-se aos outros e a si mesmo. Através da expressão criativa em grupo, o aluno conta com um meio de expressão espontânea e reformula constantemente seus pensamentos, o que possibilita novas atitudes e ideias.
Segundo o mesmo autor, dentro do universo escolar, a prática de atividades criativas leva professores e alunos a compreender e aceitar as formas e os padrões de comportamento pessoal e social; a ter autoconfiança; a resolver situações inéditas, aplicando conhecimentos e habilidades adquiridas anteriormente; a analisar, avaliar e reavaliar seu comportamento como indivíduos de um grupo. Haetinger (2005, p. 137) sustenta que, “Em virtude desses fatores, é muito importante proporcionarmos experiências criativas aos alunos”. A exemplo de Kneller (1978), que enfatiza que a criação associa-se à formação do senso crítico, Haetinger também reforça que, “As práticas que associam arte, elementos lúdicos, movimento e vivências coletivas contribuem com a criatividade e com o desenvolvimento do senso crítico” De acordo com o mesmo autor, todo tipo de atividade criativa só acontece em um ambiente de liberdade, no qual todos têm as condições ideais para se expressar autenticamente, sem restrições ou imposições. Sobre esse aspecto o autor também destaca a postura da escola frente ao processo de desenvolvimento da criatividade. De fato, “Aos educadores cabe lembrar: a criança não aprende nem cria por imitação”. (Ibidem, p. 137) 
Promover práticas criativas não significa estabelecer regras para a realização de brincadeiras ou tarefas. Você pode colaborar com o processo criativo de seus educandos oferecendo um ambiente de aceitação, integração e liberdade, deixando-os realizar livremente suas atividades e brincadeiras e permitindo que eles sempre expressem sua imaginação e o seu próprio mundo de faz de conta. Por fim, ainda referindo-se aos educadores, Haetinger (2005, p. 138) conclui que, Sua função é organizar o meio, os recursos e os instrumentos didáticos para a criação; é criar um ambiente favorável em que a criança sinta-se segura e acolhida para atuar; é estimular a expressão da subjetividade dos alunos, sem indicar-lhes possíveis erros ou o melhor modo de fazer as coisas. Eles descobrirão por si próprios, explorando objetos e vivendo diferentes situações.
Também Machado [s.d.], ao analisar o papel do professor de Arte, alude que o educador é extremamente importante nesse processo, pois é ele que está sempre presente, observando o desenvolvimento de cada criança, orientando-o e direcionando-o.  Na opinião de Lowenfeld & Brittain (Apud: MACHADO, [s.d.]), o professor deve ter sempre em mente que não se deve impor padrões e regras a serem seguidos, estabelecer algo supostamente correto, “bonito” ou “feio”. “Essas seriam restrições à capacidade criadora e, consequentemente, inibiriam a expressão individual da criança e sua auto-afirmação”. E continua, “É preciso ajudar as crianças a desenvolver a confiança na auto-afirmação, propiciada pela expressão artística”. (Ibidem, [s.p.]) No ponto de vista de Machado [s.d.], em seu artigo sobre o desenho infantil – o desenvolvimento da criatividade e da percepção visual – a autora argumenta que, O desenho infantil deve ser estimulado não com a intenção de ensinar as técnicas para as crianças, mas pelo fato de este ser um importante processo de aprendizagem. É a oportunidade dela se expressar, de expor de forma concreta seus pensamentos e sentimentos. À medida que a criança desenha, ela aprende, pois assim ela organiza e concretiza seus pensamentos. Ao mesmo tempo em que lhe dá autoconfiança por estar construindo e se expressando livremente.
Na visão da mesma autora, a criatividade infantil tem origem e reflexo no próprio desenho. A partir dele a criança aumenta sua percepção e isso desenvolve sua criatividade, que vai se refletir no próprio desenho. A respeito disso, Machado [s.d.] conclui que, Sabemos que a importância da criatividade vai muito além do próprio desenho. É das idéias mais inusitadas e criativas que nascem as grandes idéias que vão melhorar a nossa sociedade e gerar melhores condições de vida, com mais conforto e eficiência. Por isso devemos quebrar as barreiras que nos foram impostas desde a nossa infância. Não devemos inibir nossas idéias diferentes, nossa livre-expressão. Maior será a criatividade de um projeto quanto mais pura for a expressão pessoal, livre das barreiras. Somos todos diferentes uns dos outros. Não pensamos e, principalmente, não nos expressamos da mesma forma. Devemos aceitar essas diferenças e enfatizá-las, a fim de realizar um trabalho mais autêntico.
Para Hohl (2003), ao tratar sobre o desenvolvimento da criatividade infantil, as crianças criativas precisam, antes de mais nada, ter o valor dos seus talentos reconhecidos, dando-lhes condições para lidar com as provações e fracassos que surgirão naturalmente ao longo da vida. O autor avalia que, “se tiverem encorajamento e permissão para explorar, experimentar e testar suas idéias através de projetos de sua própria iniciativa, assumindo responsabilidades, encontrarão provações e fracassos, podendo enfrentá-los sem dificuldade”. O processo criativo deve desenvolver as potencialidades das crianças, utilizando os recursos que favorecem não só a aquisição de conhecimento, mas sobretudo, a expansão e a afirmação da personalidade do educando, podendo ser desenvolvida capacidade criadora e canalizada para as diversas atividades e setores da realização pessoal. (Ibidem, [s.p.]) Cabe citar Barroso, Borges & Silva (1996, p. 16), que ao escreverem o artigo Arte sem graça, a respeito de que o uso de modelos prontos no ensino de Arte empobrece a imaginação da criança, destacam que, “A prática de dar figuras para colorir ou desenhos para copiar não estimula a criatividade da criança. Pior, inibe sua capacidade de expressão e lhe indica um caminho fácil (e pobre) da criação: repetir fórmulas conhecidas”. E continuam, dizendo que, “O questionamento, a indagação, a compreensão da pesquisa, eis o caminho da criação. Devem-se propiciar condições para que os alunos criem. Massificar não educa, porque esse processo implica em respostas prontas”.
As mesmas autoras alertam que, “Os professores devem expressar o desejo de mudar a sociedade por meio de uma pedagogia orientada para a criatividade”. (Ibidem, p. 19)

3 - A Importância Da Arte Na Escola :

Para se entender o ensino de Arte na escola, é necessário refletir sobre a tarefa da arte na sociedade contemporânea. Em que sociedade vivemos? Que conceitos de arte sobrevivem? Quais são as definições atuais de arte? Quando falamos de arte e sociedade, sobre qual concepção de arte e de sociedade falamos? Existe uma arte específica para uma determinada cultura? Ou para uma determinada classe social? A tradicional divisão entre arte popular e arte erudita ainda corresponderia à realidade? O que seria arte erudita? Ou o que seria uma arte popular? A arte popular não é para ser levada a sério? Serviria apenas para distrair o leitor/consumidor/ouvinte? Onde se estabelece o limite entre arte e não arte?

Algumas Definições De Arte:

As definições mais conhecidas de arte, segundo Luigi Pareyson, poderiam ser reduzidas a três: a arte concebida como um fazer, como um conhecer e como um exprimir. O autor adverte, porém, que “estas diversas concepções ora se contrapõem e se excluem umas às outras, ora, pelo contrário, aliam-se e se combinam de várias maneiras” (apud FERRAZ; FUSARI, 2009, p. 102). Na concepção de arte como fazer, destaca-se o seu “aspecto executivo, fabril, manual”, ou seja, arte como técnica, predominante na Antiguidade, quando, praticamente, não havia “distinção entre a arte propriamente dita e o ofício ou a técnica do artesão” (ibid.). A segunda concepção, que interpreta a arte “como conhecimento, visão, contemplação”, entende-a “ora como a forma suprema, ora com a forma ínfima do conhecimento, mas, em todo caso, como visão da realidade: ou da realidade sensível na sua plena evidência, ou de uma realidade metafísica superior e mais verdadeira, ou de uma realidade espiritual mais íntima, profunda e emblemática”. Segundo Pareyson, “o fato de se haver acentuado o caráter cognoscitivo e visivo, contemplativo e teórico da arte contribuiu para colocar em segundo plano seu aspecto mais essencial e fundamental que é o executivo e realizador, com grave prejuízo para a teoria e prática da arte” (apud Ferraz; Fusari, 2009, p. 104).
Já a terceira concepção de arte, advinda do Romantismo, considera que “a beleza da arte” consiste “não na adequação a um modelo ou a um cânone externo de beleza, mas na beleza da expressão, isto é, na íntima coerência das figuras artísticas com o sentimento que as anima e suscita” (ibid., p. 102). No decorrer do tempo, as concepções de arte como expressão se multiplicaram e se aprimoraram. Nas concepções atuais de arte, estão presentes as contribuições da Filosofia, da Sociologia e da Antropologia para o deslocamento do foco das teorias estéticas não mais sobre a obra de arte, mas sobre as relações que as pessoas criam com os objetos e produções artísticas. Considerando a arte como um produto e construção sociocultural, Pareyson destaca que (...) a arte não é somente executar, produzir, realizar e o simples ´fazer´ não basta para definir sua essência. A arte é também uma invenção. Ela não é execução de qualquer coisa já ideada, realização de um projeto, produção segundo regras dadas ou predispostas. Ela é um tal fazer, que enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer. A arte é uma atividade na qual execução e invenção procedem pari passu, simultâneas e inseparáveis, na qual o incremento de realidade é constituição de um valor original. Nela concebe-se executando, projeta-se fazendo, encontra-se a regra operando, já que a obra existe só quando é acabada, nem é pensável projetá-la antes de fazê-la e, só escrevendo ou pintando, ou contando é que ela é encontrada e é concebida e é inventada (PAREYSON apud FERRAZ; FUSARI, 2009, p. 105).
Se arte é invenção, para Ferraz e Fusari (2009), ela é também “produção, trabalho e construção” já que a arte inclui “o artista, a obra de arte, os difusores comunicacionais e o público” (p. 56). Segundo as autoras, a concepção de arte está diretamente relacionada “com o ato de criação da obra de arte, desde as primeiras elaborações de formalização dessas obras até em seu contato com o público” (p. 56). Uma obra de arte é feita para ser vista, consumida, difundida no mundo cultural e num determinado contexto histórico-social. Por essa razão, a obra artística só se completa “com a participação do espectador”, que recria “novas dimensões dessa obra a partir do seu grau de compreensão da linguagem, do conteúdo e da expressão do artista” (FERRAZ; FUSARI, 2009, p.56). O principal sentido da obra de arte estaria, portanto, na “sua capacidade de intervir no processo histórico da sociedade e da própria arte e, ao mesmo tempo, ser por ele determinado, explicitando, assim, a dialética de sua relação com o mundo” (FERRAZ; FUSARI, 2009, p. 107).

Funções Sociais Da Arte:

A arte hoje tem muitas definições. Ela não é mais vista no sentido clássico da arte do belo (SCHOPENHAUER), mas é também considerada em suas funções sociais. Para que serve a arte? Que funções se colocam para a arte na sociedade em que vivemos? A arte teria uma tarefa que iria além de ela ser ela mesma? Seguiria ela o mesmo princípio proposto por Gertrude Stein, “a rose is a rose is a rose” poder-se-ia se dizer: arte é arte é arte e nada mais? Como lembram Ferraz e Fusari (2009, p. 101), “a arte está intimamente vinculada ao seu tempo, não podemos dizer que ela se esgote em um único sentido ou função. É por isso que, ao buscarmos definições para as artes, podemos esbarrar em conceitos até contraditórios e que foram incorporados pela cultura”. Ao procurar definir o conceito de música, por exemplo, Bohlman escreve:
Música pode ser o que pensamos que seja: ou pode não ser. Música pode ser sentimento, sensação, sensualidade, mas também pode não ter nada a ver com emoção ou sensação física. Música pode ser aquilo para o qual alguns dançam ou fazem amor: mas, tal não é necessariamente o caso. Em algumas culturas há categorias complexas para pensar sobre música, O que se espera da música hoje? O que milhares de pessoas esperam é poder relaxar, buscar o prazer, ou mesmo utilizá-la com fins terapêuticos. Música, nessa direção, tem o efeito de uma droga leve: ela ajuda a sair de um momento ruim, dá um consolo fugitivo, por permitir que se saia de si mesmo por um momento, como acontece nas festas raves ou na trance-music. Na necessidade da arte ou, entre os objetivos da arte colocados por Platão (políticoideológico) a Stockhausen (espiritual-terapêutico), existe, portanto, um amplo leque de possibilidades no qual a sociedade utilizou e utiliza a arte para diversos fins, inclusive os não artísticos. Assim, as artes também tornam-se um campo vasto de produções.

Objetivos Do Ensino De Arte:

Pensar sobre os sentidos e funções da arte conduz necessariamente ao conhecimento do próprio processo artístico, que, como mencionado, inclui produtores/artistas/autores; as obras/produtos artísticos; as formas de comunicação/distribuição/difusão e suas relações com o público/plateia/apreciadores (FERRAZ; FUSARI, 2009, p. 57). A disciplina Arte deve garantir que os alunos vivenciem e compreendam aspectos técnicos, criativos e simbólicos em música, artes visuais, teatro, dança e suas interconexões. Para tal é necessário um trabalho organizado, consistente, por meio de atividades artísticas relacionadas com as experiências e necessidades da sociedade em que os alunos vivem. A arte pode favorecer a formação da identidade e de uma nova cidadania de crianças e jovens que se educam nas escolas, contribuindo para a aquisição de competências culturais e sociais no mundo no qual estão inseridos. O objetivo a que se propõe o ensino de Arte, em toda a sua especificidade prevista na forma de lei, é essencial para a construção da cidadania. O ensino de Arte trata de relacionar sentimentos, trabalhar aspectos psicomotores e cognitivos, planejar e implementar projetos criativos e se engajar emocionalmente neles, num permanente processo reflexivo. Talvez mais que em outras disciplinas, no ensino de Arte, os alunos são obrigados a entrar em contato consigo mesmos, quando, por exemplo, criam uma coreografia, realizam um jogo teatral, interpretam uma música ou apreciam um quadro. Isso não é nada menos do que formar a sua própria imagem de mundo, compreender a realidade.
Revelar o potencial criativo para o desenvolvimento como ser humano, ampliar a capacidade de julgar e agir, ter responsabilidade, tolerância, consciência dos valores são alguns dos outros objetivos dessa disciplina. Diante da complexidade presente nas escolas, como problemas de violência, dificuldades de concentração e interesse dos alunos pelas aulas, as tarefas dos professores de Arte parecem crescer nesse espaço. Efetivamente, a arte pode ajudar nas diversas formas de trabalhos coletivos por meio dos quais os alunos, em grupos ou em equipes, podem definir eles mesmos objetivos e, depois, chegar a resultados que foram trabalhados em conjunto. As competências de trabalhar em equipe, assumindo partes de tarefas independentes como a experiência de grupos vocais e instrumentais ou grupos teatrais e de dança, são competências que estão relacionadas com a metodologia de trabalho na área de Arte. Mas a arte permite também um trabalho individual que discute a tolerância, o exercício para com o outro. Esse trabalho pode promover a autoconfiança e a coragem de se mostrar. Geralmente, essas competências são ignoradas na escola, aparecendo em momentos pontuais e como decoração do ambiente. 
O campo das arte é visto como um campo teórico-prático. Ao invés de consumir grandes quantidades de conhecimento escolar, que será esquecido logo após as provas, o ensino de Arte reivindica para si, através de um trabalho prático, orientado para a ação, ancorar o conhecimento sensorial que envolve todos os sentidos: visão, tato, olfato, audição, gustação. Onde o ensino tradicional promove o pensamento linear, causal, a arte oferece o pensamento em rede, discursivo e trabalha com a inteligência emocional. A tentativa é a de superar um discurso modernista em que razão/sentimento, corpo/alma são tratados de uma forma dicotômica. Em resumo, o campo das artes oferece aos alunos oportunidades de realmente aprenderem para a vida. Isso ocorre porque o ensino de Arte oferece um espaço de experiência. Quem é artisticamente criativo pratica o exercício da livre escolha. Aqueles que constroem modelos aprendem a redesenhar o futuro, procuram novas soluções, exercitam suas faculdades críticas na leitura de mundo. Vale ressaltar que essas competências deveriam estar no foco de toda a escola e não apenas no ensino de Arte e seus métodos, pois, caso contrário, o ensino de Arte pode se tornar uma ilha criativa no conjunto de disciplinas escolares, deixando pouco espaço para uma aprendizagem orientada para a ação e para a compreensão por meio dos sentidos, uma aprendizagem vivencial. Aprender, nesse caso, significa sempre vincular questões de interesse da área com o interesse dos alunos.

Questões Básicas Para O Ensino De Arte:

Qual tem sido a realidade das escolas no ensino de Arte? Com a aprovação da Lei 9394/96, várias práticas de ensino de Arte foram adotadas. Levando em conta os poucos profissionais com habilitação na área, a pouca formação específica dos professores regentes de classe, o pouco interesse e conhecimento das escolas, bem como os escassos recursos para a área, muitos professores ainda têm dificuldades em operacionalizar os objetivos propostos nos documentos curriculares sugeridos pelo MEC. Considerando que o tempo escolar e o tempo de aula são limitados e que existem saberes mais ou menos importantes, a tarefa da didática e da organização de diretrizes curriculares é responder ao que deve e pode ser ensinado, isto é, que situações e problemas crianças e adolescentes vão confrontar. Os conteúdos de Arte nos Parâmetros Curriculares do Ensino Fundamental são propostos com base em três eixos norteadores: apreciação, produção e reflexão. Os eixos são diferenciados, apoiados nos objetivos de compreender como a arte é constituída, criar e inventar novas realidades e pensar a produção artística presente na realidade. Em relação ao primeiro objetivo, trata-se de compreender qual realidade construímos com o mundo estético, quais influências tem a arte na nossa visão pessoal e social de mundo, como fazemos nossas experiências nas artes e quais conhecimentos adquirimos. Para tal, o eixo inclui as questões da percepção, da cultura, da semiótica, das condições formais e estruturais dos diferentes meios de comunicação, da interpretação de imagens e obras de arte, das análises críticas de textos teatrais.
Em relação ao objetivo de criar e inventar, trata-se de oferecer métodos, técnicas e estratégias para a formação e a criação de ambientes estéticos, de experiências perceptivas, ou seja, imagens, objetos, músicas, peças e jogos teatrais que podem ser produzidos. Visam ao desenvolvimento da criatividade. O objetivo de ensar as produções artísticas existentes diz respeito à compreensão de como determinados meios foram utilizados e que formas de arte estão disponíveis no acervo cultural da humanidade, que influenciaram e influenciam o mundo. Essa organização mostra que as aulas de Arte não se resumem a pintar um quadro ou cantar uma “musiquinha”. Projetos envolvendo arte e mídias, história da arte, elaboração de roteiros para filmes e outros campos interdisciplinares são considerados. De uma forma sucinta, os documentos apresentam alguns exemplos de conteúdos que podem ser trabalhados indicando como as intersecções entre eles podem ser feitas. Se de um lado esses parâmetros consolidaram, no país, a transição dos currículos produzidos durante o regime militar para currículos mais democráticos, por outro, as novas direções propostas tiveram algumas dificuldades na implantação de estruturas do sistema escolar. Em geral, quem quer realmente fazer um bom trabalho em Arte nas escolas não consegue fazê-lo sem uma boa dose de dedicação e de engajamento pessoal. Isso pode ser traduzido em inúmeras horas extras, em trabalho noturno e em finais de semana. Professores de Arte concordam que todas as séries do Ensino Fundamental deveriam ter como requisito mínimo duas horas por semana de aulas de Arte. Na prática, ainda são poucas as escolas públicas que conseguem manter um oferecimento regular e qualificado na área de Artes. A diminuição da carga horária das aulas de arte e a dificuldade dos professores em manter a disciplina como parte integrante do currículo contrastam com as tarefas cada vez mais abrangentes com que eles se defrontam em decorrência da ampliação do conceito de arte. 
Hoje sabemos que devemos entender arte como um fenômeno social e em sua diversidade de manifestações. O fenômeno da hibridização cultural (GARCIA CANCLINI, 2000) se faz presente também no campo das artes, e é preciso trazer essa questão quando se fala na permanência e na perpetuação de determinados repertórios. A chamada música clássica seria, por exemplo, uma das músicas disponíveis no acervo cultural da humanidade. Precisamos formar plateias para as diversas músicas entendendo que o trânsito entre elas está cada vez mais fluente. A variedade de possibilidades de conteúdos que o ensino de Arte oferece reflete-se também nos métodos que podem ser aplicados. Entre eles Arte-educação; Ensinando através da arte; A experiência estética cotidiana; História da arte ou Multiculturalidade.

Diferentes Posições Didáticas E Métodos :

uando, nos anos 70 do século XX, a área de Arte foi agrupada sob o conceito unificador da “educação artística”, ocorreu a polarização do campo das artes em torno dos conceitos de Arte-Educação e A educação através da arte. A questão era se o ensino de Arte deveria orientar-se por uma visão mais tecnicista, ou mais amplamente no processo, uma visão mais idealista, “direcionado para uma relação subjetiva com o mundo” (FERRAZ; FUSARI, 2009, p. 19). Os conceitos de arte-educação e educação através da arte contrapunham-se à orientação da educação artística que reduzia a disciplina Artesa uma pulverização de técnicas e “produtos artísticos” que empobreciam o sentido do ensino de Arte. Isso ocorreu porque a concepção de educação artística não conseguia aprofundar o conhecimento específico de cada arte, suas histórias, epistemologias e linguagens. Já o movimento da arte-educação buscava novas metodologias de ensino e aprendizagem de Arte nas escolas, revalorizando o professor da área, discutindo e propondo o redimensionamento de seu trabalho, “conscientizando-o da importância de sua ação profissional e política na sociedade”, o que contribuiu muito para garantir a presença da Arte na LDB de 1996 (ibid.). Em concepções mais recentes, a arte-educação vem focando o trabalho na “mediação entre arte e público” (BARBOSA; COUTINHO, 2009, p. 7). Para Barbosa (2009, p. 21), “a arte tem enorme importância na mediação entre os seres humanos e o mundo, apontando um papel de destaque para a arte/educação: ser a mediação entre arte e o público”.
Atualmente, diferentes abordagens metodológicas são discutidas na área de Arte. Pode-se dizer que houve, ao lado dessas orientações, uma evolução das concepções ao incluir os meios de comunicação e a abertura para todas as imagens. Dada a crescente presença de imagem da mídia, a partir de meados da década de 1990, os arte-educadores tornaram-se os “especialistas” em imagem. A ideia é a de que “a educação não é nada sem imagens”. Essa concepção refere-se, principalmente, à "alfabetização visual" ou "competência de leitura de imagens”. Aqui a referência é claramente a arte, que se caracteriza por desafiar material, propor métodos construtivos e desconstrutivos que provoquem um pensamento não convencional. A aquisição do conhecimento por crianças e jovens, bem como seu próprio desenvolvimento, foram, sem dúvida, grandemente influenciados pelo uso da imagem. O objetivo era compreender processos de interpretação e leitura de imagens do dia a dia, “fomentando diálogos sobre os sentidos da arte em nossa vida” (AZEVEDO, 2009, p. 337). No campo das artes plásticas, a educação estética passou a ser destinada para uma “alfabetização visual”, visando à promoção de competências de leituras de imagens em contextos interculturais. Nessa direção, a aprendizagem artística passou a ser um elemento indispensável na educação geral, considerada uma das competências básicas ao lado do letramento e da alfabetização numérica, porque as informações e a comunicação na sociedade contemporânea utilizam não somente a escrita, mas também múltiplos meios visuais, sonoros, mímicos e midiáticos.
Essa concepção é ampliada especialmente pela necessidade da arte como recurso nas disciplinas escolares, como na História (com o uso de imagens e iconografia) e na Geografia (interpretação de letras de músicas). Nesse caso, as artes são utilizadas como recurso. Aqui se deve lembrar o papel especial e a responsabilidade da disciplina Arte, especialmente das artes visuais, que têm a imagem como objeto. O risco poderia ser de que professores e alunos não reconhecessem a distância imanente entre arte e não arte. Uma atividade proposta por Hernández (2007) em seu livro Catadores da cultura visual: proposta para uma nova narrativa educacional é a utilização de imagens presentes em histórias em quadrinhos, em charges, em material publicitário e na televisão para uma alfabetização visual crítica. Utilizando imagens presentes na cultura contemporânea, os alunos devem analisar, interpretar, avaliar e criar com base na experiência crítica reflexiva “textos” visuais (p. 52). Uma possibilidade descrita é o uso de charges políticas criadas com base no ataque terrorista de 11 de setembro1 e suas interpretações2 como material de reflexão. Outra possibilidade seria debater esse tema, comparando imagens do ataque disponíveis na Internet (Figura 1) com imagens tradicionais do mundo da arte (Figura 2). Como essas imagens dialogam e convivem? Como elas podem ampliar seus significados? Que diferenças e correlações existem entre as imagens?
Esses exercícios, denominados por Hernández (2007) práticas intertextuais, permitem analisar as conexões entre o mundo da arte e a cultura popular, como ocorreu na apropriação do quadro A Última Ceia de Leonardo da Vinci feita por um anúncio publicitário (p. 53). Além disso, tais experiências permitem aos alunos transitar do conhecido para o desconhecido e facilitam a compreensão de “como as imagens influenciam em seus pensamentos e em suas ações e sentimentos, bem como a refletir sobre suas identidades e contextos sócio-históricos” (HERNÁNDEZ, 2007, p. 25)

Biografia E Subjetividade:

Uma das temáticas desenvolvidas há alguns anos no ensino de Arte são os conceitos que a história de vida e a investigação subjetiva estética trazem para a educação estética. Acredita-se que existe um número significativo de pontos de contatos biográficos no centro das práticas e recepção artística. Assim, são trazidas questões como narrativas, biografias e entrevistas com músicos e artistas. O conceito ampliado de arte faz também que o objeto e a biografia se relacionem, constituindo a chamada arte-biográfica. Biografia significa, neste contexto, substancialmente mais do que a reconstrução, o diário ou a documentação de currículos de produções artísticas. Biografia deve ser entendida como um processo de estratificação ao longo da vida e de circulação das experiências estéticas. Ela inclui uma análise autorreferencial de histórias de vida de outros, trazendo, inclusive, questões históricas. Assim, para o ensino de Arte, cada aluno é relevante e, por isso, sua história estética, por exemplo, sua biografia musical ou sua trilha sonora de vida, deve ser examinada e investigada. Essa investigação estética não pode ter êxito sem uma conexão com a biografia de cada um dos alunos que são esteticamente ativos: nas camisetas que vestem, nas danças que inventam e reproduzem, nas músicas que ouvem, nas imagens que colam nas paredes de seus quartos. Não é, portanto, apenas na aula de Arte, em que geralmente cumprem as tarefas – a maioria certamente planejada com objetivos educacionais corretos pelos professores – que os alunos fazem suas experiências estéticas. A aula de Arte inclui a tarefa de uma investigação estética própria, que não é compatível com os currículos “burocráticos”. Nessa linha, as aulas de Arte têm uma conformidade com a tendência de uma educação que considera a subjetividade ― processos semelhantes são encontrados na arte contemporânea, isto é, trabalhos artísticos que estão ancorados biograficamente no artista.
O posicionamento das referências estético-biográficas (ou da biografia) como orientação nas aulas de Arte da escola é legitimada pelas metodologias que identificam tendências que afetam as obras de arte e, até mesmo, nossas próprias vidas, como gosto e preferências artísticas. Na discussão sobre arte contemporânea, muitos autores têm destacado a importância da autobiografia para uma maior compreensão da produção artística. Para Fornaciari (2009) “a dinâmica presente nos trabalhos contemporâneos de tendência autobiográfica tem a capacidade de se tornar um dispositivo de construção da memória coletiva, sem, no entanto, anular a identidade do artista.” Ou seja, a obra iria além dos elementos pessoais do autor, “revelando um sentido expandido da obra”. Logo, para a autora, “as obras autobiográficas podem ser entendidas como formas alternativas de produção de contextos históricos, sendo um dos modos como criamos a nossa memória cultural coletiva”. Fornaciaro (2009) apresenta exemplos que podem ser bastante ilustrativos. Um deles é o trabalho da artista francesa Sophie Calle, intitulado Cuide de você. A obra parte de um fato particular ocorrido na vida da artista. Ela recebeu por e-mail uma carta de rompimento de uma relação que terminava com as palavras “cuide de você”. Como não soube responder, convidou 107 mulheres, de diferentes profissões, para interpretar a carta, isto é, as mulheres escolhidas deveriam analisá-la, comentá-la, dançá-la, cantá-la, esgotála, enfim, entendê-la no lugar da artista e responder em seu nome. Realizada no período de a novembro de 2006 a outubro de 2010, a obra documenta, em fotografias, vídeos e textos os vários pontos de vista das mulheres convidadas. No ano de 2009, o trabalho de Sophie Calle foi apresentado no Brasil em duas exposições realizadas em São Paulo e Salvador. Destaca-se que a exposição tratou também de expandir a obra da artista ao convidar o público para “transformar sua experiência em arte”. O público podia também fazer parte da exposição, enviando foto, vídeo ou texto para blog disponibilizado (ver http://blog.sophiecalle.com.br/). Resultados da participação do público podem ser conferidos no sítio http://www.sophiecalle.com.br/. A obra tem como tema os relacionamentos atuais e, na análise de Fornaciari (2009), “contribui na formação de uma memória coletiva”.
Outro exemplo é o trabalho My Google Search History da artista francesa Albertine Meunier. A autora se utiliza de vídeos, sons e inventários de textos com todas as buscas feitas por ela desde 2006 no site de pesquisa Google, criando uma espécie de autorretrato. O registro de momentos específicos efêmeros permite revelar detalhes, materializar sua intimidade e torná-la acessível ao público (FORNACIARI, 2009). A obra está disponível no sítio http://www.albertinemeunier.net/google_search_history/

A Experiência Estética Cotidiana:

A experiência estética permeia todas as áreas da vida. A maior parte de nossas experiências estéticas é feita no dia a dia, por meio de imagens diárias, livros, jornais, televisão, nas ruas, etc. e não em momentos especiais ou através da obra de arte consagrada exposta em museus. Da mesma forma, a experiência estética não é predominantemente impregnada pela aula de Arte, mas pela influência da família, do ambiente sonoro e dos meios de comunicação, sobretudo, no que se refere à sua função e aos efeitos. Nessa visão, o cotidiano é requisito para toda espécie de experiência estética , sobretudo, porque nele encontramos situações, ações e objetivos a partir dos quais podemos estabelecer relação com outras pessoas. (SOUZA, 2008). Essa abordagem ressalta a estética socioantropológica quase óbvia, partindo de uma investigação sobre o mundo vivido: perceber e explorar experimentalmente algumas práticas cotidianas – aquilo que as crianças e os adolescentes fazem todos os dias. Exatamente aqui, na realidade cotidiana das crianças e dos jovens, estaria a chance para a realização de um trabalho pedagógico, com propostas de atividades que não transmitissem somente conhecimentos isolados sobre métodos e repertório desvinculados da prática. Ao contrário, aqui estariam as chances para os professores saberem mais sobre a real experiência estética do aluno e sua posição perante ela. A investigação estética pode ser feita a partir de dados e experiências projetadas em coisas, objetos, pessoas e situações. São também considerados os métodos disponíveis, práticas e possibilidades de conhecimentos da experiência cotidiana. O interesse pela aula de música, por exemplo, estaria em tentar aproximá-la do “mundo vivido”, das experiências musicais que os alunos realizam diariamente fora da escola, e não em atividades préprogramadas e padronizadas. A aula de música passa a se orientar não por objetos (na gramática da música), mas por alunos, em suas situações, problemas e interesses. A metodologia passa, então, a ser decidida em cada lugar e em cada situação específica (SOUZA, 2000).
O objetivo dessa abordagem é permitir a autoescolha, trabalhar por meio de projetos temáticos sobre a experiência estética. Educação estética é vista, então, não apenas como uma exploração e uma percepção do mundo, mas como um processo de autoconstrução. O valor pedagógico dessa abordagem reside no fato de que ela alerta os educadores “para que considerem de forma séria as necessidades, as linguagens e as experiências das crianças”, o que não significa “simplesmente afirmar a necessidade da relevância do currículo”, mas também “reconhecer a importância pedagógica daquilo que as crianças trazem para a sala de aula ou qualquer outro local de aprendizagem como sendo crucial para descentrar o poder na sala de aula” (GIROUX, 1995, p. 74-75). Um exemplo apresentado por Ramos (2000) é o projeto desenvolvido com uma quarta série sobre Tazos na aula de música: dialogando com a mídia O tema combina imagens e sons com base nos tazos, mostrando que mais importante do que o conteúdo da mídia é a maneira de trabalhá-lo. A experiência sinaliza que não basta tolerar esses objetos de uma forma pragmática, mas, ao contrário, o desejável é voltar-se de verdade para as experiências das crianças propondo ações fundamentadas e críticas. Ao incluir a observação, o projeto mostra, também, como que a partir do jogo e seu significado para a criança podem-se trabalhar temas básicos da educação musical. O projeto proposto por Torres (2000) sobre a Música Popular Brasileira na escola com adolescentes de uma 8ª série, orientou-se na produção (apresentação ao vivo de um repertório escolhido pelos alunos), incluindo tarefas de leitura e escrita musical. Os resultados destacam a presença da audiovisualidade na elaboração de registros de músicas populares preferidas pelos adolescentes. A linguagem de videoclipe pôde ser observada em registros de músicas que os alunos criaram espontaneamente. Esse tipo de atividade prática fornece subsídios teóricos para interpretar a vivência da imagem-som pela nova cultura oral promovida pelos meios de comunicação.
Outro exemplo que ilustra essa concepção é o documentário Degrau, de 2009, disponível em http://www.canalcontemporaneo.art.br/saloesepremios/ (acesso 05/11/2010). A obra é de autoria do Grupo de Interferência ambiental – GIA, que reúne um coletivo de artistas visuais, designers, arte-educadores e músicos que têm em comum uma admiração pelas linguagens artísticas contemporâneas e sua pluralidade, mais especificamente por aquelas relacionadas à arte e ao espaço público. O filme retrata com humor reflexões a respeito da vida cotidiana e suas singularidades, por exemplo, a rotina de passageiros ao subirem o degrau do ônibus coletivo. Nesse caso o que é valorizado na arte é o processo, a ação efêmera que acaba ressignificando o trabalho do artista com o público.

Práticas Artísticas Em Performance:

Nas artes visuais, a ampliação do conceito de imagem passou a tratar no plural uma imagem que incluía habilidades de performance e pleiteava trabalhar com arte de uma forma produtiva e receptiva, contemplativa e ativa. Práticas performativas ou atos performativos são ações que não são traduzíveis “por nenhum outro tipo de linguagem, como a discursiva e a científica” (BARBOSA, 2009, p. 21). As performances, geralmente presenciais, são “aquelas que estabelecem uma relação direta com o público, que jogam com a quebra da distância entre espectador, artista e obra de arte e que enfatizam a ideia do corpo do artista como local privilegiado da experiência estética” (ROCHA, 2007, p. 153). Alguns exemplos seriam o teatro experimental da Revolução Russa, as contribuições da música experimental de John Cage e do dançarino Merce Cunningham. A arte, considerada em seus aspectos "performativos", ganhou uma ponderação mais antropológica ao enfatizar como as pessoas adquirem forma, em parte, de uma maneira mimética, quando adolescentes imitam seus ídolos ou quando há interação entre imagem, corpo e meio, ou mesmo quando as imagens dão sentido performático a eventos como videoclipes. O ensino de Arte tem como objetivo formar pensamentos e trabalhar processos didático-artísticos do mesmo modo como a prática artística opera. Ou seja, ensinar Arte deveria se valer de processos análogos à construção da arte, como a proposta do educador musical Keith Swanwick ao ensinar música musicalmente, em que a teoria e a prática do pensamento artístico, bem como as práticas educativas trabalhariam em conjunto. Arte, como uma disciplina escolar, deve ter como foco não a arte em si, a obra, o objeto, mas as  pessoas, que são o foco de todos os esforços, tanto da escola como de fora da escola, pois são as pessoas o elo crucial entre arte e vida. Na área de teatro, são inúmeras as possibilidades de práticas performáticas como a proposta de Augusto Boal para o Teatro do Oprimido. Boal acreditava que “a alienação política tem uma estreita relação com a alienação do corpo, dos sentidos”: para que as pessoas “possam exercer sua capacidade de intervenção no mundo como sujeitos”, elas “precisam perceber o mundo em que vivem/seu contexto, sua identidade e seu papel, de forma crítica” (SCATOLINI, 2009, p. 65-66). Um exemplo concreto do que as aulas de Arte podem oferecer para a formação de sujeitos críticos é propor a realização de um ensaio fotográfico baseado na pergunta ”onde é que você vive?”. A vivência do fazer artístico inclui uma problematização a partir da qual os alunos são estimulados a refletir sobre suas respostas. Os registros fotográficos trazidos pelos alunos podem conter elementos e conteúdos complexos de que o discurso lógico não daria conta. O desafio em responder a uma pergunta por meio da linguagem fotográfica pode promover a consciência sobre o papel político, social e libertador da arte.

Arte E Globalização:

Outra perspectiva teórica que vem se colocando para a arte é o debate sobre a criação artística na tensão entre o local e o global. Algumas concepções tratam da complexidade da produção cultural globalizada e dos desafios de temas como alteridade, identidades, intervenções artísticas simultâneas e trânsito das produções artísticas (ver BUARQUE DE HOLANDA; RESENDE, 2000). No contexto da chamada globalização, os meios e os produtos tornam-se cada vez mais homogêneos. Utilizamos os mesmos produtos e, no nosso tempo livre, utilizamos os mesmos meios. A homogeneização cultural fica evidente no consumo de pizzas, refrigerantes em lata, músicas na parada de sucessos, cigarros, jeans, tênis, etc. Independentemente de suas diferenças históricas (culturais, sociais, nacionais e religiosas) e das distâncias físicas, grande parcela da população mundial consome e reconhece esses produtos como “seus” (DREIFUSS, 1997, p. 176). A “comunalidade de consumo” na área de música pode ser simbolizada no walkman, que eclodiu nos anos 70 e foi colocado a varejo nos mercados internacionais. Embora possa parecer um paradoxo, a mundialização não exclui a diversidade cultural que vai orientar o processo de globalização econômica, “com a introdução de novas formas de atividades, singularmente territorializadas”, isto é, “produção localizada baseada em recursos locais e até normas locais, padrões e formas organizacionais, onde os produtos mundiais padronizados (...) passam a conviver com os não homogêneos, e até mesmo com os próprios, mas ajustados padrões locais” (DREIFUSS, 1997, p. 232). Com os efeitos da economia, migrações e globalização dos meios de comunicação, as atividades interculturais têm sido intensificadas entre as diferentes regiões do país. No campo da música, assistimos a um processo de fusão entre as diferentes culturas musicais, por exemplo, entre o samba e o rap. No entanto, apesar da internacionalização do repertório musical, algumas manifestações musicais insistem em manter suas diferenças locais, como a capoeira.
Outros exemplos que podem ser explorados são os novos movimentos da música nordestina, destacando-se Lenine, Chico César, Carlos Malta, Zeca Baleiro, entre outros. Considerados como “novos porta-vozes de um país muito musical”, eles conseguem “a magia de rimar sertão e globalização”. Assim, funcionam como antenas, captando sem preconceitos os sons novos que vêm do país e do mundo. São capazes de defender a “prosmicuidade da música”, em que se permite misturar “o samba, funk e rap” (RODRIGUES, 2000). Outro exemplo dessa geração é o pernambucano Chico Sciense, que lança o movimento mangue beat. O mangue é visto como uma terra fértil pela troca incessante de matéria orgânica entre o doce da água dos rios e o sal da água do mar. Uma metáfora, portanto, da necessidade de intensificar as trocas culturais. Os exemplos trazidos mostram que os limites fixados entre essas concepções são frequentemente fluidos. Além disso, as possibilidades didáticas de se trabalhar com arte na escola são orientadas para a obra, a biografia, a investigação estética do cotidiano, ou a arte-educação, que pode ser significativa e eficaz dependendo de uma avaliação empírica do desenvolvimento desses modelos na prática.

Sobre A Avaliação:

Mas como avaliar em Arte? Embora seja um tema bastante discutido em outras áreas do conhecimento, ainda persiste a ideia de que avaliar em Arte é difícil, uma vez que a avaliação não pode ser objetiva quando se trata de áreas que envolvem a criatividade; ou ainda, quando se trata de Arte, o que deve ser avaliado nem sempre tem uma resposta muito clara e simples. Ao abordar a avaliação como um dos tópicos importantes na implantação de propostas curriculares para o ensino de Arte, os Parâmetros Curriculares contribuíram para que parte desses mitos fosse desconstruída. Mais do que “dar nota” e “realizar testes”, a avaliação é apresentada como um processo contínuo, sistemático e complexo que deve envolver toda a comunidade escolar e não somente professores e alunos. Avaliar bem o desenvolvimento de um aluno passa a ser tão importante como ensinar, pois a avaliação permite a compreensão dos processos de aprendizagem e os resultados da prática docente. A avaliação torna-se uma prática diária que vai orientando a reformulação de objetivos propostos e traçando novos caminhos para um ensino-aprendizagem efetivo. Por isso, como sugere Selbach (2010), um eficiente sistema de avaliação em Arte deve ir além das provas, avaliando os alunos por observações dentro e fora da sala de aula, por meio de entrevistas, trabalho em grupo, diários de bordo, esboços de trabalhos, entre outros recursos (p. 142). Avaliar significa emitir juízo de valor ou qualidade a alguém ou a algo e reflete aspectos mais formais de controle do sistema que determinam a promoção ou não dos alunos. Porém, avaliar é também fazer diagnóstico, tomar decisões. Reflete as oportunidades cotidianas das práticas e ações educativas que nem sempre conduzem à promoção. Também em Arte são muitas as razões para se adotar um sistema de avaliação: para classificar; promover os alunos (aprovar/ reprovar); redimensionar projetos e planejamentos; repensar teorias e metodologias ou orientar investimentos e inovações.
O que avaliar em Arte? Podem-se avaliar os conteúdos (saberes e fazeres); as habilidades, atitudes e valores; estratégias e ações bem como relações interpessoais. Para tal são necessários métodos, com diferentes instrumentos e técnicas específicas para cada linguagem artística. Isto é, a Arte requer instrumentos e procedimentos de avaliação que sejam coerentes e adequados às suas especificidades. Para avaliar música, por exemplo, os professores necessitam usar, basicamente, os ouvidos, e proceder a audiências de práticas performáticas em conjunto ou individuais de forma sistemática, em prazos e em tempos diferenciados. A avaliação em música deve contemplar o mundo vivido das atividades que resultaram em aquisição de conhecimento e das técnicas que foram empregadas. Por essa razão, mais do que mensurar as habilidades em responder a questões escritas ou aplicar testes, o mais importante é avaliar as habilidades de ouvir, apreciar, executar ou criar música. Para observações livres ou sistematizadas sobre produtos e processos de ensinoaprendizagem em Arte, pode-se utilizar gravações audiovisuais, fotografias, diários de classe, escalas de observação, concertos públicos com ou sem bancas, exposições, concursos, shows, apresentações didáticas, aulas públicas, festivais; pode-se ainda incentivar trabalhos de monitoria e outros tipos de atividades cooperativas.
A avaliação em Arte deve acontecer ao longo de todo o processo correspondendo às diferentes tipologias como, autoavaliação, avaliação diagnóstica, formativa e somativa. A autoavaliação se concentra na análise das próprias habilidades de performance e criativas dos alunos. A avaliação como diagnóstico é importante para o planejamento, e a avaliação formativa diz respeito aos processos, situa o aluno “em seu progresso e limites e destaca os pontos em que necessita maior empenho e dedicação” (SELBACH, 2010, p.143). Avaliação, nesse caso, não se refere somente à atribuição de conceitos, mas àquela realizada no dia a dia, auxiliando os professores no direcionamento de suas práticas pedagógicas. Já a avaliação somativa se preocupa com os resultados. Geralmente, ela é feita no final de um período de ensino para verificar a efetividade de uma parte ou de um programa educacional. Para tanto é necessário definir com clareza o que vai ser avaliado, as regras, os critérios, bem como criar técnicas e instrumentos consistentes e coerentes com o caráter único das artes. Ou seja, a arte tem uma objetividade diferente do que a definida para outras ciências por isso não necessariamente compartilha as mesmas espécies de instrumentos e testes. Objetividade nesse caso significa poder emitir um parecer sobre as propriedades do trabalho, do produto ou da relação do aluno com a produção artística utilizando argumentos estéticos, de forma a contribuir para o desenvolvimento de sua capacidade. Atualmente, existe um número considerável de pesquisas e relatos de experiências, os quais mostram que a avaliação em Arte não só é possível como também desejável e fundamental para o acompanhamento das experiências estéticas na escola. Esses estudos vão desde uma perspectiva mais descritiva até reflexões comprometidas com a mudança de práticas pedagógicas. Para ampliar as leituras sobre o tema, ver entre outros os trabalhos de Hentschke e Souza (2003), Carneiro (2008), Scatolini (2009), Telles e Florentino (2009) e Selbach (2010). Em síntese, a avaliação em Arte deve estar inserida nos projetos políticos das escolas, devendo ser planejada, discutida, programada e compartilhada com os alunos, com os corpos docente e administrativo das escolas, para que possa ser implantada de forma inclusiva, transparente e adequada ao trabalho desenvolvido.

4 - A Inserção Da Arte Na Educação Escolar :

Muitos argumentos têm sido utilizados para legitimar o ensino de Arte no currículo escolar. O tema é pauta de discussão dos professores de Arte, especialmente com a aprovação da Lei de Diretrizes e Base – LDB 9394 de dezembro de 1996, que, com o Art. 26, 2º parágrafo, incluiu o ensino de Arte como componente curricular obrigatório nos diversos níveis da Educação Básica. As orientações curriculares do MEC, elaboradas a partir de 1995, determinaram as especificidades do conhecimento artístico em quatro modalidades: música, teatro, dança e artes visuais. Assim, os Parâmetros Curriculares Nacionais/Artes para o Ensino Fundamental, Referenciais Curriculares para a Educação Infantil e Parâmetros Curriculares para o Ensino Médio trataram de explicitar os conteúdos de música, artes cênicas, artes visuais e dança e suas metodologias específicas. Dessa forma foi extinta a polivalência do professor que trabalhava com a Educação Artística, prevista na lei anterior 5692/71, na qual todos os conhecimentos artísticos estariam representados por uma única disciplina. Em agosto de 2008, foi sancionada a Lei 11.769, que tornou o ensino de música como conteúdo obrigatório, mas não exclusivo no ensino curricular de Arte, alterando o Artigo 26 da LDB de 1996. Essa alteração foi de difícil tramitação, e sua aprovação foi considerada por muitos educadores musicais como um avanço. A nova legislação abriu a possibilidade de uma implantação efetiva do ensino de música nas escolas de uma forma abrangente para crianças e adolescentes. A inserção obrigatória do ensino de Arte na Educação Nacional está fundamentada em teorias contemporâneas que tratam do papel das artes na transformação da sociedade. Por isso, a legislação atual enfatiza os processos de produção artística específica – musical, visual, cênica e da dança, com conteúdos próprios. Apesar de todos os esforços e discursos políticos em favor da especificidade de cada arte, na prática muitas escolas ainda continuam interpretando a área de Arte como educação artística, conforme previa a Lei. 5692/71. Também não está assegurada uma carga horária mínima semanal, o que faz com que muitas escolas optem por oferecer as quatro modalidades de artes em séries alternadas no Ensino Fundamental, por exemplo, oferecendo música nas 1ª, 3ª e 7ª séries e artes visuais nas 2ª, 4ª e 8ª séries. A descontinuidade é justificada como sendo a única forma de atender à lei diante da escassez de profissionais.
Essa questão está relacionada à necessidade da publicação de editais e à realização de concursos públicos específicos para provimento de cargos de professores de Artes com habilitação em música, teatro, dança e artes visuais. Acrescenta-se a isso o fato de que, em muitos editais de concursos para professores de Arte, o conteúdo programático apresentado não reflete as exigências legais, divulgando programas com características setoriais e pontuais que privilegiam apenas uma ou outra área artística. Esses equívocos podem ser explicados pelo fato de os editais serem tradicionalmente elaborados por comissões contratadas para esse fim, sem que necessariamente contemplem os anseios dos profissionais da área e as exigências legais. Mesmo com as legislações e com os documentos curriculares disponíveis para o ensino de Arte, ainda pairam muitas dúvidas sobre com o que se ocupa a disciplina Arte, qual o seu papel no currículo e por que, mais que um luxo, ela se torna uma necessidade na formação de cidadãos.

Implicações Para A Formação E A Atuação Dos Professores De Arte:

Diante da obrigatoriedade do ensino de Arte com a Lei de Diretrizes e Base e das transformações socioculturais que incluem novos paradigmas estéticos, o desafio maior está na formação de professores que enfrentam inúmeros problemas. Entre eles, a necessidade de reorganizar os currículos, adequar os conteúdos à realidade dos alunos e buscar uma qualificação continuada para atuarem nas escolas. Se hoje contamos, na LDB, com um instrumento adequado à efetiva implementação do ensino de Arte no Ensino Básico, a reorganização técnica e profissional necessária passa, efetivamente, pela concepção de uma nova formação universitária de professores de Arte, como atestam as Diretrizes Curriculares para o Ensino Superior, amplamente divulgadas. No caso da implantação da música como conteúdo obrigatório (Lei 11.769/ 2008), a formação de professores passa a ser um problema emergente, que exigirá esforços do MEC e das universidades no oferecimento de novas modalidades de formação. Nas concepções atuais sobre a educação, a formação é vista como um processo contínuo, complexo, múltiplo e, por isso, consideram-se cada vez mais as dimensões culturais e sociais envolvidas no aprender e no ensinar. A formação passa então a ser entendida como “a ação pela qual se forma” traduzida na ação de produzir, organizar, instruir, educar e elaborar seus resultados. Hoje, os alunos representam uma geração que nasce e vive em meio a processos de transformação da sociedade contemporânea e suas repercussões no espaço social. Há, pois, necessidade de construir construirmos uma ideia de formação artística que não negue, mas leve em conta e ressignifique o saber de senso comum dos alunos. Além disso, é preciso introduzir, no espaço da sala de aula, outras formas de pensar a arte no mundo contemporâneo, pois a forma como a arte geralmente se concretiza no livro didático nega outras formas de aprendizagem capazes de articular experiências vividas no cotidiano ao conhecimento da escola.
O ensino de Arte se ocupa tradicionalmente com o mundo dos sentidos. E o mundo de que a aula de Arte trata é um mundo que nós percebemos, sobretudo, com nossos olhos, ouvidos e tato. Mas, apesar disso, os alunos ainda têm pouco espaço para se colocar, pode ter diferentes razões. Uma delas está relacionada com teorias tradicionais do ensino de Arte que, raramente, partem do mundo das crianças e dos jovens e que, raramente, perguntam sobre o que as crianças e jovens necessitam. O interesse está muito mais na maneira como eu posso transmitir importantes conceitos das artes. Nesse caso, o principal campo de referência (considerado hoje um sistema de referência baseado em um pensamento muito abstrato) é a obra de arte. Outra questão é a ausência da prática artística na formação de professores. Para a formação de profissionais nos cursos universitários de Arte, os alunos que se preparam para o ensino de Arte devem ser educados artisticamente, com experiências em seu próprio corpo para poderem ensinar mais tarde. Espera-se com essa orientação que o ensino de Arte nas escolas não se torne uma lição de arte esvaziada ou que exemplos práticos estejam ausentes para todos os níveis e tipos de escolas. Uma forma utilizada comumente na formação artística de graduandos são as oficinas. Como relata Telles (2009, p. 235), na área de teatro, a oficina é “um recurso amplamente utilizado nas atividades artístico-pedagógicas”. Ela se caracteriza “como uma ação-pedagógica ativista, em que o professor/oficineiro direciona as atividades de forma a estabelecer um exercício dialético entre o seu conhecimento e o que os participantes trazem de seu universo sociocultural”. A oficina é vista como “um momento de experimentar, refletir e elaborar um conhecimento das convenções teatrais”, que busca “instrumentalizar os participantes de um conhecimento teatral básico” e oferecer “vivências de uma atividade artística que permite uma ampliação de suas capacidades expressivas e de consciência de grupo”.
Além do espírito criativo, a formação de professores de Arte exige uma sofisticação na estrutura curricular em conteúdos que não são lineares e nem hierárquicos, por exemplo, na própria classificação do que seria apropriado para criança e para jovens; na sequência de conteúdos; em qual período da história da arte iniciar: com arte contemporânea ou tradicional. Além disso, a formação de professores de Arte exige a vivência nos circuitos profissionais, como visitas a teatros, espetáculos de dança, exposições e concertos. Nessa vivência, estão incluídas também as vivências de performances e de exposições por meio das quais a arte sobrevive. A questão do acesso à arte depende, naturalmente, da permanência nas escolas de todas as crianças em idade escolar, garantidas pela Constituição, mas ainda não totalmente realizada na prática. Além disso, é necessário o estabelecimento de políticas concretas para a formação e a contratação de professores de Arte, especialmente para atuarem nas escolas públicas. É sabido que qualquer programa de intervenção em projetos escolares exige ações formativas, administrativas e curriculares que estejam interligadas. A minha experiência, como professora atuando nas práticas de ensino e no desenvolvimento de projetos de pesquisa e extensão durante os últimos anos, em escolas da rede pública e privada, tem mostrado que somente a produção de documentos curriculares isolados não é suficiente. Além deles, é necessário propor ações formativas que preparem profissionais da área para trabalhar com o ensino de Arte. Por outro lado, sabemos que só as ações voltadas à formação profissional por si só não garantem o espaço institucional da aula de Arte. É necessária, portanto, a formulação de políticas administrativas que viabilizem a implantação e a permanência da Arte no currículo.

1 - Resumo

O presente artigo apresenta o histórico da arte, vista como uma ciência que, para ser reconhecida institucionalmente, percorreu um longo caminho, a importância de se trabalhar as Artes Visuais dentro da sala de aula, fazendo uma reflexão sobre o desenvolvimento cognitivo, afetivo e motor da criança através das diferentes linguagens artísticas presentes nas Artes Visuais, identificando e mostrando como a criança se desenvolve na aprendizagem através das Artes Visuais (pintura, desenho, arte tridimensional (modelagem), recorte e colagem).
Neste trabalho, usamos aportes teóricos ligados a Artes Visuais, Arte e Educação, Psicologia (desenvolvimento infantil), Educação, Documentos Legais que abordam a questão do ensino da Arte para a criança e, no contexto atual de um mundo globalizado, a questão da Mídia como divulgadora e influenciadora da produção artística.

2 - Introdução

O presente artigo aborda o histórico da Arte, que pode ser identificada como uma ciência que vem percorrendo um longo caminho para ter seu reconhecimento institucional.
O ensino no Brasil, que passou por diversos métodos, na maioria das vezes importados sem a devida adaptação, apresenta concepções sobre a importância das artes visuais baseada nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Artes e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação.
Caracteriza as diferentes linguagens presentes nas Artes Visuais no processo de aprendizagem como: desenho, uma das manifestações que tem a função de atribuição de significação ao que se expressa e se constrói; pintura, que pode ser definida como a arte da cor; arte tridimensional (modelagem), em que se procura explorar aquilo que a rodeia através do tato, da manipulação dos objetos aguçando sua curiosidade; recorte e colagem, que propiciam à criança dos primeiros anos escolares o aperfeiçoamento de conteúdos de coordenação motora, criatividade e desenvolvimento da sensibilidade, noções de espaço e superfície.
E, no contexto atual de um mundo globalizado, é tratada a questão da Mídia como divulgadora da produção artística.
Todas essas questões foram observadas e analisadas em uma escola da rede particular, da região centro-sul de Belo Horizonte, fazendo uma relação com os teóricos estudados e apresentados no artigo.

3 - Trajeto Das Artes Visuais Até A Escola: Uma Abordagem Teórica

A arte, numa perspectiva histórica, pode ser identificada como uma ciência que vem percorrendo um longo caminho para ter seu reconhecimento institucional.
O ensino de Arte no Brasil, ao longo do tempo, passou por diversos métodos, na maioria das vezes importados sem a devida adaptação, desde a colonização com os jesuítas, impondo a separação entre a retórica e a manufatura e negando a cultura indígena, passando pelo século XIX com a negação do barroco em favor do neoclássico.
Já no século XX, havia uma grande preocupação com o ensino de Arte que até então se resumia ao ensino do desenho, este visto como um importante meio para formação técnica. A disciplina Desenho, apresentada sob a forma de Desenho Geométrico, Desenho do Natural e Desenho Pedagógico, era considerada mais por seu aspecto funcional do que uma experiência em arte. (BRASIL, 2000, p. 25). Em meados da segunda metade do século XX, a pedagogia experimental sinalizava um novo lugar para arte na educação. No momento em que a criança conquista seu lugar como sujeito, com características próprias, deixando de ser apenas um projeto de adulto, o desenho infantil passa ser objeto de estudo cognitivo.
Com a Semana da Arte Moderna em 1922, os modelos de educação técnica voltada para o trabalho, com forte identificação ao estudo do desenho clássico e do desenho geométrico, começaram a ser contestados, passando a valorizar a expressão infantil.
No início dos anos 30, também começaram a ganhar espaço no Brasil escolas especializadas em artes para crianças e adolescentes. No final dos anos 40, o ensino de arte conquista mais espaços fora dos muros da escola com as “Escolinhas de Arte” implantadas em vários pontos do país. Este movimento visava a um ensino de arte pautado na livre expressão, como um rumo alternativo na busca de uma identidade ainda desconhecida. Segundo Ana Mae Barbosa, a Escolinha de Arte, em parceria com o governo, promoveu vários cursos de formação de professores, com “uma enorme influência multiplicadora, chegando a haver 32 Escolinhas no país” (BARBOSA, 2003).
Nos anos 70, a apresentação dos programas reflete influência da tendência tecnicista. O ensino de arte é fortemente influenciado pelas ideias de Lowenfeld e Herbert Read, o que levará ao espontaneismo, ao laissez-faire, na maioria das escolas.
A Lei de Diretrizes e Bases nº 5.692/71 é tecnicista e incita à profissionalização; o trabalho pedagógico fragmentou-se para tornar o sistema educacional efetivo e produtivo. Através dessa lei, foi instituída no currículo a Educação Artística, reunindo todos os tipos de linguagem tornando o ensino de artes polivalente.
A promulgação da lei, sem prever anteriormente a formação dos professores e sua qualificação, enfraqueceu a qualidade de ensino, ao invés de promover melhorias nas condições já existentes. (BEMVENUTI, 1997, p. 44). Em 1973, criaram os cursos superiores em Educação Artística, uma formação com duas opções, a licenciatura curta em dois anos e a licenciatura plena em quatro anos.
Com cursos de curta duração e um currículo abrangente que propunha conhecimentos de música, artes plásticas e teatro, os professores conheciam superficialmente as linguagens e conduziam o ensino sem uma concepção filosófica adequada, sem a essência do ensino de arte.
Com ausência de formação continuada consistente, conhecimentos básicos de arte, os professores sentem-se despreparados, inseguros e sem capacidade e disposição de tempo para aprofundar seus conhecimentos, nem para explicitar, discutir e praticar um planejamento mais consistente de educação e arte, e passam a apoiar-se nos livros didáticos de Educação Artística produzidos desde o final da década de 70. Nas escolas, a arte ocupa apenas o lugar de relaxamento, lazer, sendo ignorada como área de conhecimento. Com a nova LDB (lei nº 9.394/96), é extinta a Educação Artística e entra em campo a disciplina Arte, reconhecida oficialmente como área de conhecimento.
O artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em seu § 2º, dispõe que: § 2º. O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos.
Essa mudança não foi apenas nominal, mas de toda a estruturação que envolve o tratamento de uma área de conhecimento. De atividades esporádicas de cunho mais próprio de relaxamento e recreação, passa-se ao compromisso de construir conhecimentos significativos em arte.
Artes visuais, como um conjunto de manifestações artísticas, compreendem todo o campo de linguagem e pensamento sobre olhar e sentido do ser humano. As Artes que normalmente lidam com a visão como seu meio principal de apreciação costumam ser chamadas de Artes Visuais. Porém as artes visuais não devem ficar restringidas apenas ao visual, pois, através dessas manifestações artísticas (desenho, pintura, modelagem, recorte colagem entre outros), há vários significados que o artista deseja passar.
Segundo Panofsky (1989), uma obra de arte deve ser definida como um “objeto feito pelo homem que exige ser esteticamente experenciado”.
As Artes Visuais são linguagens, por isso são uma forma muito importante de expressão e comunicação humanas, isto justifica sua presença na educação infantil. O ensino de Arte aborda uma série de significações, tais como: o senso estético, a sensibilidade e a criatividade.
Atualmente, algumas ações estão interferindo qualitativamente no processo de melhoria do ensino e aprendizagem de Arte. Os Parâmetros Curriculares Nacionais de Arte destacam que:
Dentre as várias propostas que estão sendo difundidas no Brasil na transição para o século XXI, destacam-se aquelas que têm se afirmado pela abrangência e por envolver ações que, sem dúvida, estão interferindo na melhoria do ensino e da aprendizagem de arte. Trata-se de estudos sobre a educação estética, a estética do cotidiano, complementando a formação artística dos alunos. Ressalta-se ainda o encaminhamento pedagógico- artístico que tem por premissa básica a integração do fazer artístico, a apreciação da obra de arte e sua contextualização histórica. (PCN, 2000, p. 31).
Podemos destacar a “Proposta ou Metodologia Triangular” difundida e orientada por Ana Mae Barbosa, que vem se afirmando por sua maior abrangência cultural. Essa proposta pedagógica integradora tem por base trabalhar três vertentes do conhecimento em arte: o fazer artístico, a leitura da imagem e a contextualização histórica.
Outra ação que está interferindo na melhoria do ensino e da aprendizagem de Arte se refere a estudos sobre a educação estética do cotidiano, complementando a formação estético-artística dos alunos.

4 - Caracterização Das Diferentes Linguagens Nas Artes Visuais No Processo De Aprendizagem

A criança, desde bebê, se interessa pelo mundo de forma peculiar. Emitindo sons, movimentando o corpo, “rabiscando” as paredes da casa e desenvolvendo atividades rítmicas, ela interage com o mundo sem precisar ser estimulada para tal.
Fazer arte reúne processos complexos em que a criança sintetiza diversos elementos de sua experiência. No processo de selecionar, interpretar e reformar, mostra como pensa, como sente e como vê. A criança representa na criação artística o que lhe interessa e o que ela domina, de acordo com seus estágios evolutivos.
Uma obra de arte não é a representação de uma coisa, mas a representação da relação do artista com aquela coisa. [...] Quanto mais se avança na arte, mais se conhece e demonstra autoconfiança, independência, comunicação e adaptação social. (ALBINATI, 2009, p. 4).
Assim sendo, a arte propicia à criança expressar seus sentimentos e ideias, colocar a criatividade em prática, fazendo com que seu lado afetivo seja realçado. Tendo essa observação voltada para o âmbito escolar, vemos claramente como as artes visuais são essenciais na interação social da criança e como os professores podem desfrutar desse recurso para isso.
Além de utilizar as artes visuais para trabalhar o afetivo e a interação social da criança, o professor pode utilizá-las no auxílio da motricidade infantil que deve ser bem trabalhada desde a infância para que, futuramente, ela possa sentir a diferença desse recurso na sua vida pessoal, escolar e profissional.
Sendo assim, o presente artigo destaca cinco tipos de linguagens nas artes visuais que são utilizadas com as crianças no cotidiano escolar. São elas: desenho, pintura, modelagem, recorte/colagem e mídia (informática).

5 - Desenho

O desenho é uma das manifestações semióticas, isto é, uma das formas através das quais a função de atribuição da significação se expressa e se constrói. Desenvolve-se concomitantemente às outras manifestações, entre as quais o brinquedo e a linguagem verbal (PIAGET, 1973).
A criança, inicialmente, vê o desenho como simplesmente uma ação sobre uma superfície, sentindo prazer em “rabiscar”, explorar e descobrir as cores e novas superfícies. Essa é a chamada fase da garatuja.
Com as novas experiências de mundo que a criança adquire, as garatujas vão evoluindo, ganhando formas definidas com maior ordenação. O papel não é mais apenas uma superfície para os rabiscos infantis. Ele passa a ser uma superfície na qual a criança expressará o que vive diariamente, ou seja, expressará a alegria, a tristeza, os passeios que mais interessaram, a dinâmica familiar (inclusive os conflitos vividos dentro de casa). Segundo Cunha, “devemos lembrar que os registros resultam de olhares sobre o mundo. Se o olhar é desinteressado e vago, as representações serão opacas e uniformes. (Referencial Curricular Nacional, 1999, p. 12)”.
[...] a criança desde bebê mantém contato com as cores visando explorar os sentidos e a curiosidade dos bebês em relação ao mundo físico, tendo em vista que, nesse período, descobrem o mundo através do conhecimento do seu próprio corpo e dos objetos com que eles têm possibilidade de interagir. (CUNHA, 1999, p. 18).
Desenhar, além de ser algo prazeroso para a criança, é extremamente importante no cotidiano escolar. De acordo com o Referencial Curricular Nacional de Educação Infantil:
Por meio de diferentes gestos em um plano vertical (ou pelo menos inclinado), a criança aprende a segurar corretamente o giz e o lápis. Para que a criança adquira um traço regular, precisará trabalhar com certa rapidez, sobre uma grande superfície colocada a sua altura. A criança que não domina bem seu gesto será solicitada a trabalhar, sobretudo, com o ombro e o cotovelo: fará então desenhos grandes. Somente mais tarde, quando os movimentos altura do ombro e do cotovelo tornarem-se desenvolvidos, faremos diminuir as proporções dos desenhos, exigindo assim da criança um trabalho mais específico do punho e dos dedos.” (1998, p. 106).
O professor pode explorar superfícies diferentes como lixa, papelão, papel branco, madeira, chão, entre outros, para ajudar no desenvolvimento motor da criança.
No ato de desenhar, a criança expressa seu lado afetivo com a manifestação orgânica da emoção, a criança usa o papel e o lápis para expressar os seus sentimentos no desenho, a sua relação com a família, os amigos, a escola. Através dos traços feitos pela criança, até mesmo pelas cores usadas, o professor consegue perceber o que está acontecendo com ela, e que pode estar levando-a ao fracasso escolar.
Com o avançar do desenho infantil, a criança também desenvolve melhor o seu cognitivo, já que ela, primeiro, representa o que vê para depois representar o que está gravado (fotografado) na memória, ou seja, ela aprende a sair do plano palpável para o plano abstrato. O que ajudará muito na iniciação matemática, futuramente, com as tão “temidas continhas” que são trabalhadas de forma tátil para depois ser retratadas de forma abstrata.
Dessa forma, o desenho passa a ter uma significação muito mais ampla na educação infantil e, assim, merece ser tratado como mais que simples rabiscos, sendo valorizado como um auxiliador importante no desenvolvimento da criança.

6 - Pintura

A pintura pode ser definida com a arte da cor. Se no desenho o que mais se utiliza é o traço, na pintura o mais importante é a mancha da cor. Ao pintar, vamos colocando sobre o papel, a tela ou a parede cores que representam seres e objetos, ou que criam formas. (COLL; TEBEROSKY, 2004, p. 30).
A pintura trabalhada com as crianças tem objetivos que vão além do simples prazer em manipular mãos e pincéis. Através do contato com diversos materiais disponíveis para a manipulação com as tintas, cola, álcool, entre outros, as crianças podem expressar sentimentos diversos na superfície trabalhada, além de desenvolver, assim como o desenho, sua habilidade motora que, futuramente, na sua alfabetização, será fundamental no desenvolver das letras.
Pintar é, antes de tudo, uma arte que deve ser usada também na Educação Infantil como fator de desenvolvimento motor, afetivo e social da criança. Interpretar obras, recriar imagens, pintar por observação são atividades que mostram possibilidades de transformações, de reconstrução, de reutilização e de construção de novos elementos, formas, texturas, etc.
A relação que a criança estabelece com os diferentes materiais se dá, no início, por meio da exploração sensorial e da utilização em diversas brincadeiras. Tudo isso influenciará na sua criatividade e imaginação.
Uma característica essencial da pintura é o que se pode ou não fazer com ela através do jogo de cores. A criança não constitui um conceito de cor olhando simplesmente algo colorido, mas durante repetidas ações de comparar, nomear, transformar, enfim, falar das relações entre as cores que são apenas três básicas (azul, vermelho, amarelo), que formam todas as outras.
Percebendo isso, o lado sensível e imaginário da criança pode ser aguçado, ajudando-a a se formar como um ser completo, criativo, concentrado.

7 - Arte Tridimensional

Durante sua vida, a criança procura explorar aquilo que a rodeia através do tato, da manipulação dos objetos aguçando sua curiosidade. Cabe ao professor explorar essa curiosidade, buscando desenvolver atividades que instiguem essas características.
Um bom aliado são as atividades artísticas que envolvem a modelagem ou, na atualidade a arte tridimensional (por apresentar altura, largura e profundidade). Segundo Cunha:
[...] ao invés do professor simplesmente disponibilizar materiais, as crianças devem ser desafiadas a explorar os materiais em todas as suas possibilidades, como numa atividade banal com o lápis de cor e papel. Podemos transformar essas propostas simplistas e comuns em uma proposta instigadora e fonte de descobertas, além de conhecermos as hipóteses das crianças sobre o que vamos trabalhar.(1999, p. 57).
A Arte tridimensional, ou modelagem, é uma atividade basicamente sensorial. Podemos trabalhá-la usando massas de biscuit caseiras, argila em barro, jornal, terra, massinha, gesso e até mesmo massa comestível. Através da modelagem, a criança tem a possibilidade de melhorar sua motricidade e ampliar sua capacidade de criatividade, pois a modelagem pode ser usada em vários aspectos da aula ou em qualquer outro ambiente em que a criança esteja.
As diferentes formas de expressão permitem ainda à criança comunicar com os pares e os adultos as experiências vividas e os conhecimentos adquiridos. Elas têm o privilégio de aprender através das suas comunicações e experiências concretas. Promove-se o desenvolvimento intelectual da criança através de uma focalização sistemática na representação simbólica. Arte significa ter mais linguagens significativas, diferentes formas de ver e representar o mundo.
A modelagem propicia para a criança o ato de se expressar livremente, promovendo a habilidade na coordenação motora.
As Artes Visuais, em geral, podem ser usadas também como interdisciplinaridade, ou seja, com outros conteúdos de outras disciplinas como, por exemplo, o jornal que, depois de lido, pode ser reciclado, transformado em um novo papel que será reutilizado na escola. Trabalha-se, então, a sustentabilidade.
Pela modelagem também conseguimos perceber o quanto é importante a criança expressar os seus sentimentos, fazendo com que os educadores reflitam sobre a utilização da modelagem para o desenvolvimento cognitivo, afetivo e motor da criança.

8 - Mídia, Arte E Educação

Dizer que estamos no mundo da informação e na era da informática já virou clichê. Na verdade, o que vemos é que os meios de comunicação garantiram uma forma de que o acesso à informação fosse possível a todas as camadas sociais. Aqui não entraremos na discussão sobre a qualidade e veracidade da informação, o que nos interessa realmente é entender minimamente qual a influência da mídia como veiculo de divulgação e de produção artística.
Com alguns cliques em um teclado, somos capazes de ver por uma tela de computador obras de Da Vinci, Picasso, Monet. Sem sequer sairmos de casa, entramos em contato com séculos de história e culturas, desde as manifestações artísticas mais clássicas até as contemporâneas. Um universo de possibilidades se abre. A imagem na tela do computador ou da televisão, os impressos, os jornais, as revistas e os catálogos são hoje os grandes divulgadores da arte.
As novas formas de produção artística que brotam das novas tecnologias impressionam com suas cores, formas e movimento. São editorações gráficas, web designs, montagens de fotografias, vídeos. É a arte visual se atualizando e se modificando, sem, contudo, abandonar a grande razão da existência da arte que é a expressão de ideias e sentimentos.
A tecnologia não veio para nos afastar dos ideais artísticos, embora seja o que aconteça em alguns casos. É possível e necessário ver nos avanços tecnológicos uma forma segura de produção e resgate do fazer artístico aliado às novas exigências sociais.
No processo de educação realizam-se, ainda, dois movimentos: um primeiro, em que é feita a mediação entre o social, a prática construída e o indivíduo, no qual se forma a base dos pensamentos individual e coletivo e é quem possibilita a continuidade do processo histórico da cultura; e em segundo, que se caracteriza pela mediação que a palavra e a imagem fazem entre o pensamento individual e o social e pela possibilidade que cada um tem de ser sujeito, de reelaborar produzindo o novo, revelando como a educação se envolve na tensão entre o individual e o social (MELO; TOSTA, 2008, p. 55).
Como mediadora desse processo de interação, entra a escola, local privilegiado da construção e reprodução cultural, cumprindo o papel de tecer as relações necessárias entre o conhecimento do clássico e do novo, como uma ponte entre os sujeitos e o mundo artístico.

9 - Recorte E Colagem

O recorte e a colagem são um processo usado há muitos anos para decorar igrejas, praças, casas, quadros, usando diferentes materiais como, por exemplo, ladrilhos, pedras, papéis e outros. A junção desses materiais formava uma figura, denominada mosaico.
Com as crianças, esse processo também é muito utilizado:
Uma maneira interessante de trabalhar com colagem consiste em cortar ou rasgar formas de figuras de cores e texturas variadas. Começa-se recolhendo papéis, papelões e tecidos de texturas e cores diferentes. Podem ser empregados muitos tipos de papel: lisos, rugosos, brilhantes, grossos, finos... As fotografias das revistas são muito úteis, porque têm uma grande quantidade de cores diferentes. (COLL; TEBEROSKY, 2004, p. 64.).
Tendo uma folha de papel à sua frente, a criança pode explorar vários aspectos dela. Surgem ideias sobre o que se pode fazer com ela; experimentam-se sensações passando a mão sobre ela. Toda exploração leva à aquisição de conhecimentos sobre suas características: se a folha é lisa ou áspera; se pode ser dobrada ou amarrotada; como ela fica se submetida a amassos, rasgões e picagem; se ela pode ficar de um jeito que expresse alegria ou tristeza...
Os trabalhos de recorte, colagem e aplicação propiciam à criança dos primeiros anos escolares o aperfeiçoamento de conteúdos de coordenação motora, criatividade e desenvolvimento da sensibilidade, noções de espaços e superfície.
O primeiro interesse da criança, ainda pequena, é no recorte puro, sem a intenção de formar figuras. À medida que ganha segurança no domínio da tesoura sobre o papel, surge a ideia de transformar pedaços de papel em figuras significativas e de utilizá- las a fim de compor cenas.
A partir daí, ela vai manifestando preferências dentro da atividade, distinguindo papéis e possibilidades de recortes, colagens e aplicações. Revistas, jornais, papéis de diferentes texturas e pequenos objetos passam a ser vistos como fonte de pesquisa.
A justaposição e a sobreposição de figuras levam a criança a aprimorar suas noções de orientação espacial, a partir da percepção das partes em relação ao todo. O trabalho pode evoluir para a aplicação sobre objetos de uso, como a intervenção em capas de caderno ou caixas, e o trabalho final também pode ser posto em moldura, valorizado como objeto de exposição.
A criança deve ter liberdade para exercer sua criatividade, executando ideias criativas e o capricho com o acabamento final das produções artísticas. Picando com as mãos, com o auxílio de uma tesoura ou simplesmente da forma como encontra o material desejado para a colagem, a criança trabalha o seu cognitivo ao perceber o tamanho, a espessura e o modo como encaixar a matéria no local desejado.
Como mediador do conhecimento, o professor é essencial para incentivar o aluno pelo caminho da arte ou por outra área do conhecimento, oferecendo os melhores suportes, de forma que venha a somar no seu crescimento e na sua formação.
Pode-se abordar na atividade de recorte e colagem a manipulação e a exploração de diferentes materiais, independentemente de sua utilização na realização de um produto final. A mistura de materiais propicia trabalhos muito interessantes, como a colagem de tecidos rústicos com beiradas desfiadas sobre cartões cortados em papel reciclado.

10 - Considerações Finais

As Artes Visuais são uma forma que a criança tem de expressar-se com sua visão de mundo e com isso desenvolver-se nas dimensões afetiva, motora e cognitiva, utilizando as diferentes linguagens artísticas que compõem as artes visuais, tendo a oportunidade de construir, criar, recriar e inventar, tornando-se um sujeito ativo e crítico na sociedade.
As Artes Visuais, em uma perspectiva histórica, percorreram um longo caminho para serem reconhecidas institucionalmente. Na medida em que a criança conquistou seu lugar na sociedade como participante ativa da construção do seu conhecimento, as diferentes linguagens das Artes Visuais passaram a ser objeto de estudo por muitos teóricos, que perceberam a necessidade de elas serem trabalhadas principalmente na Educação Infantil (crianças de zero a cinco anos), uma vez que são o principal auxílio no desenvolvimento cognitivo, afetivo e motor.
De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, o ensino das artes passou a ser um componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos.
Além das Artes Visuais trabalharem o afetivo e a interação social da criança, elas contribuem para o desenvolvimento da motricidade infantil e de outros conteúdos trabalhados em sala de aula que irão refletir, futuramente, na vida pessoal, escolar e profissional do indivíduo.
Cada movimento, expressão ou recorte de papel constitui-se num direito que a criança tem de conhecer o mundo, expressar seus sentimentos sem a fala.
Muitas escolas utilizam esses recursos para a formação da criança como um ser completo, trabalhando-os não como passatempo ou um recurso decorativo, mas sim como uma forma de aprendizagem lúdica, repleta de objetivos importantes no desenvolvimento da criança.
Expressando-se no papel, com argila, na tela, fazendo colagem, a criança faz arte naturalmente.
A arte proporciona um contato direto com nossos sentimentos, despertando no indivíduo maior atenção ao seu processo de sentir.

11 - Referências Bibliográficas

ALBINATTI, Maria Eugênia Castelo Branco. Artes visuais. Artes II. Belo Horizonte. 2008.
BARBOSA, Ana Mae. Arte Educação no Brasil: do modernismo ao pós-modernismo. São Paulo, 2003. Disponível em: http://www. revista.art.br/site-numero-00/anamae.htm Acesso em: 26 abr. 2010.
BEMVENUTI, Alice. O que rompe, o que continua. Para onde vamos mesmo? In: Seminário sobre o Ensino Superior de Artes e Design no Brasil. Salvador, 1997.
BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Parâmetros Curriculares Nacionais: arte/Secretaria de Educação Fundamental. Caracterização da área de arte. 2. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. Cap.1, p. 19-43.
BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998.
COLL, César; TEBEROSKY, Ana. Aprendendo arte: conteúdos essenciais para o ensino fundamental. São Paulo: Ática, 1999. 256 p.
CUNHA, Suzana Rangel Vieira. Cor, som e movimento: a expressão plástica, musical e dramática no cotidiano da criança. Porto Alegre: Mediação, 1999.
LEI DE DIRETRIZES E BASES PARA A EDUCAÇÃO BRASILEIRA. Disponível em: www.planetaeducacao.com.br/novo/ legislacao/ Acesso em: 26 abr. 2010.
MELO, José Marques de; TOSTA, Sandra de Fátima Pereira. Mídia & educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. 111 p.
PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. Lisboa: Editorial Presença, 1989. 439 p.
PIAGET; INHELDER, B. A psicologia da criança. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1973.
VILLANI, Simone. 2009. Fotos. Disponível em: www.recreio.etc.br/blog.asp

1 - Resumo

O Auto-conhecimento acompanha-nos ao longo das nossas vidas, mas é na fase da adolescência que este conhecimento é mais visível, significativo e por vezes doloroso.
Sendo as artes um meio privilegiado para a comunicação deste processo introspectivo, o ensino das Artes Visuais não pode ficar indiferente a este processo de descoberta, tendo o dever de promover a criatividade e novas formas de expressão, rompendo defesas, e num misto de magia, cor e imaginação, aprender a ver-se ao Espelho.
Assim, tendo por base os conceitos inerentes às estratégias criativas da Auto-Representação e ao Portfolio Reflexivo, pretende-se apresentar nesta comunicação a partilha de um estudo ainda em fase de progresso, contribuindo para que de forma gradual e saudável se descubra o EU dos alunos do 3.ºCiclo do Ensino Básico, dando ênfase aos aspectos psicopedagógicos essenciais a todo este procedimento de descoberta, construção e re-construção do mundo interior e sensível que os alunos desta faixa etária receiam muitas vezes encontrar e desvendar.
Através da diversidade de estratégias, criando contextos promotores da expressão individualizada dos alunos envolvidos, pretende-se que se desenvolva a sensibilidade estética bem como o autoconhecimento e a auto-representação.

2 - Introdução

Este estudo foi desenvolvido pelos autores no âmbito do Mestrado em Ensino das Artes Visuais no 3.º Ciclo do Ensino Básico e Secundário, da Universidade de Aveiro e aplicado numa turma de 9.º ano de uma escola EB 2/3 do sector público nacional.
Pretende-se com este estudo contribuir para uma valorização da formação nas Artes Visuais, como um meio privilegiado para uma formação global de cada indivíduo, principalmente daqueles em que a descoberta do caminho a seguir ainda se encontra por definir, como é o caso dos adolescentes.
Neste espaço pretendemos, mais que dar respostas, levantar questões e dar a conhecer uma investigação, ainda em processo de desenvolvimento, que pensamos, como professores, ser uma valorosa descoberta, na construção do auto-conhecimento e da auto-representação dos alunos, tendo por base as estratégias do Portfolio Reflexivo e da Auto-Representação.

3 - O Medo De Se Conhecer

O 9.ºano Do Ensino Básico

O estudo que aqui apresentamos está a ser desenvolvido numa turma regular de 9.ºano, composta por 15 elementos, os quais se situam na faixa etária dos 14/15 anos. Como bem referiu Jean Piaget, no Estádio da Inteligência Operatória Formal (PIAGET: 1976), a adolescência é uma fase recheada de múltiplas alterações, normalmente dolorosas, para os indivíduos.
Como Sprinthall e Collins ( SPRINGTHALL e COLLINS:1999) defendem, o adolescente, que já se encontra no estádio das operações formais, apresenta novas capacidades a nível do pensamento: raciocínio hipotético-dedutivo, raciocínio cientifico-indutivo e abstração reflexiva.
Com estas novas capacidades, o adolescente vai abandonando um pensamento que incide no concreto, para adquirir um outro que franqueia no abstrato. O raciocínio moral do adolescente também alcança o seu pleno desenvolvimento com as operações formais.
Afetivamente, o adolescente desenvolve sentimentos idealistas, onde acredita que o mundo se deve reger pela lógica. A continuação da formação da personalidade, neste estádio, reflete os seus esforços individuais para se adaptar ao mundo social do adulto. O egocentrismo e o sentimento de reformador, na tentativa de mudança para a construção de um mundo melhor, são características muito exacerbadas.
À medida que o adolescente se tenta integrar na sociedade adulta, confronta-se com uma realidade diferente da sua. Isto gera desequilíbrios que lhe vão permitir ser considerado adulto, e é neste misto de desequilíbrio e equilíbrio que o nosso trabalho tenta incidir, de forma a que o ajude a encontrar o seu caminho num processo continuo de auto-regulação.

4 - Um Espaço Para O Auto-Conhecimento

A Disciplina De Educação Visual

Os objetivos da disciplina de Educação Visual têm vindo ao longo dos tempos a sofrer algumas alterações, mas parece ser generalizado o reconhecimento da sua importância no desenvolvimento global do indivíduo, não só na aquisição de conhecimentos, mas na dimensão mais constitutiva do ser, dando-se agora maior relevância a aspectos psicopedagógicos. Pois como menciona Sousa, “Só através da Arte é que o homem poderá formar-se no seu todo e evoluir espiritualmente, aproximando-se do divino”. (SOUSA: 2003; 12).
O estudo que aqui apresentamos baseia-se na “Educação para o desenvolvimento psicológico”, uma das três categorias de formação pessoal e social em contexto escolar, defendidas por Campos (CAMPOS: 1991), que sobre o tipo de educação que utilizamos, Menezes (MENEZES: 1999) refere: “Reportamo-nos à noção de que a escola, para alem de ensinar Matemática, História, Ciências, etc., deve também contribuir para o domínio de um conjunto de capacidades processuais que envolvem aprender a pensar, a analisar criticamente, a relacionar-se com os outros, a investir no desenvolvimento de projectos, a questionar, a ter iniciativa, entre outras.” (MENEZES: 1999; 15)
Deste modo, a disciplina de Educação Visual tem vindo a demonstrar ser a que melhor responde a um tipo de formação para a pessoa no seu todo, desenvolvendo a criatividade, a inovação e a imaginação, características essenciais para o auto-conhecimento, numa formação integral. Pois, nesta fase (3.ºCiclo do Ensino Básico), mais do que educar para um raciocínio científico das técnicas artísticas, é importante cultivar o gosto por uma nova forma de comunicação com os outros e de expressão individual, e é neste contexto que o aluno adolescente poderá conhecer-se, numa prática de “vida higiênica e saudável” (SOUSA: 2003; 11).

5 - Considerações Metodológicas

Este estudo enquadra-se no método Investigação-acção, dado o seu carácter teórico-prático, dando especial relevância aos aspectos psicopedagógicos, revelados pelos alunos ao longo do processo de trabalho.
Assim, pretende-se avaliar esta investigação continuamente, numa análise cuidada e reflectida sobre os trabalhos realizados pelos alunos (dando mais ênfase ao processo do que ao resultado final), apoiando-nos continuamente nos Portfolios Reflexivos individuais dos alunos, sendo estes analisados de forma qualitativa como defende Connelly e Clandinin (in SÁ-CHAVES, citando Marcelo: 2009):
“O estudo da narrativa é o estudo da forma, segundo a qual os seres humanos experienciam o mundo. Esta noção pode ser transportada para a concepção que vê a Educação como a construção e reconstrução de histórias pessoais e sociais; os professores e os alunos são narradores e personagens das suas próprias histórias e das histórias dos outros.” (in SÁ- CHAVES, citando Marcelo: 2009; 23)
À luz de Donald Schon (SHON: 1987), aspira-se a uma análise interpretativa do conteúdo dos Portfolios Reflexivos dos alunos e utilizado o sistema de categorização de protocolos (MORINEDESHIMERE: 1993), realizando uma grelha de análise com enfoque nas categorias acentes em três dimensões inerentes ao aluno (SÁ-CHAVES: 2009):
- aspectos pessoais - aspectos biográficos do aluno;
- aspectos informativos - onde podemos encontrar os trabalhos dos alunos e reflexões;
- projeto de vida - onde podemos encontrar as expectativas dos alunos em relação ao futuro.
Todas estas variáveis serão analisadas e avaliadas dando especial importância aos quatro quadros de avaliação referidos por Sá-Chaves (SÁ-CHAVES: 2009):
- Enfoque avaliativo/ Enfoque formativo;
- Enfoque esporádico/ Enfoque continuado;
- Enfoque descritivo/ Enfoque reflexivo;
- Enfoque seletivo/ Enfoque compreensivo. (SÁ-CHAVES: 2009; 22)
Realizando uma análise, de forma a encontrar, como refere Sá-Chaves (SÁ-CHAVES: 2009): “(...) conhecimento acerca das competências reflexivas do narrador e à possibilidade de tornar explicita essa dimensão oculta do discurso”. (SÁ-CHAVES: 2009; 25)
Assim, este estudo tem como grande objectivo encontrar na “dimensão oculta do discurso” a melhor forma de construir um Portfolio Reflexivo no ensino das Artes Visuais no 3.ºCiclo do Ensino Básico e compreender (o aluno como individuo), garantindo que a mensagem transmitida é entendida por todos.

6 - Desenvolvimento Do Trabalho Parte 1

No contexto da disciplina de Educação Visual tem vindo a ser realizado, no presente ano letivo, aquilo que podemos denominar como um projeto multifacetado e de carácter exploratório, que emergiu através de uma proposta de trabalho assente na potenciação do auto-conhecimento dos alunos. Esta ação culminará com uma exposição pública, integrando toda a comunidade educativa.
De seguida apresentaremos as fases do processo deste trabalho, assim como os conceitos base inerentes, nomeadamente Portfolio Reflexivo, Auto-representação e Auto-retrato.

1ª FASE: Conhecimento E Início Do Portfolio Reflexivo

O Portfolio Reflexivo configura-se como um meio oportuno e útil de avaliação formativa (dos alunos e de quem lecciona), sendo um recurso privilegiado de reflexão e análise contínua sobre os conteúdos leccionados, favorecendo um auto-conhecimento sustentado e ponderado.
Assim, julgámos uma mais-valia a leccionação de um módulo inicial que preparou os alunos da Turma para a construção de um Portfolio Reflexivo Individual. Este instrumento, pelas suas funções pertinentes, surge não só como um dispositivo que promove uma “avaliação formadora” dos alunos, sistematizando os seus percursos de construção de aprendizagens, mas também poderá constituir mais uma ferramenta ao serviço de diversificadas atividades de investigação a desenvolver pelos professores ao longo do ano.
Este módulo inicial, pelas suas especificidades, possibilita aos professores aceder de forma singular ao conhecimento da Turma, e permite ainda que esta se familiarize de forma mais efetiva com os docentes.
Relativamente às questões atinentes à elaboração do Portfolio do Aluno, e após uma breve revisão bibliográfica, poderemos constatar que o recurso a portfolios na formação de alunos é hoje largamente fundamentado e descrito como uma «ferramenta promissora» (LEITE: 2003 in BERNANDES & MIRANDA: 2003; 6) para a criação dos processo educativos e para a valorização do “aprender a aprender”.
“(...) os exames não têm como finalidade demonstrarem em que ponto está o aluno para ajudá-lo a avançar nas suas aprendizagens, mas tão-somente servem para colocar uma nota na pauta.
Eles servem fins administrativos mais que fins educacionais (...); os exames (...) incitam muito mais a dar resposta esperada do que a procurar, a explorar, a ir mais longe, a estabelecer relações, a integrar, em suma, a aprender.” (BROSSAR: 1994 cit. por BERNANDES & MIRANDA: 2003; 7).
Através da elaboração de um portfolio, os alunos poderão constatar ou testemunhar, acima de tudo, o desenrolar do seu processo de ensino-aprendizagem, visualizando facilmente o que se fez e como se fez, dando conta das reflexões que produzem, dos esforços que desenvolvem, dos objetivos a que se propõem e das estratégias e desafios a seguir.
A elaboração de um portfolio de aluno objectiva a participação ativa do aluno na sua aprendizagem, permite uma melhor compreensão e acompanhamento desse percurso e insurge-se como um rico instrumento ao serviço da avaliação formativa e contínua.
A diversidade e a qualidade dos elementos que figuram num portfolio, assim como os seus critérios de avaliação (previamente negociados), colocam o aluno em situações autênticas de superação e resolução de problemas, instaurando um método de trabalho.
Finalmente, a construção de saberes/competências implica que o aluno tome consciência dos meios e das estratégias de que necessita para agir, para se auto-avaliar e co-avaliar. O portfolio surge, aqui também, como uma prática de “auto-regulação” (LOUIS: 1999 cit. por BERNARDES & MIRANDA: 2003; 25) que visa o desenvolvimento da autonomia do aluno, e daí que possamos percepcionar este recurso como sendo exponencial e concordante com as várias Unidades Curriculares do Ensino Básico.
Assim, propomos como objetivos gerais deste módulo/unidade didática:
• que os alunos entendam para que serve e como se elabora um Portfolio Reflexivo do aluno;
• que os alunos percepcionem as diferenças existentes entre Portfolio Reflexivo e uma tradicional compilação de trabalhos (dossier);
• elucidar os alunos quanto aos processos e características da avaliação dos Portfolios;
• sensibilizar e motivar os alunos para a construção do seu Portfolio individual e webfolio de turma e iniciar a sua construção.

2ª FASE: Desenvolvimento Da Auto-Confiança, Espírito De Equipa E Aprendizagem De Algumas Técnicas Artísticas De Base Das Vanguadas: “Fábrica Do Pai-Natal”

Tendo por base o módulo (unidade didáctica) “Compreender a Arte”, através do qual se pretendeu uma aproximação, por parte dos alunos, à compreensão da Obra de Arte, da sua história, formas de expressão e profissões relacionadas com as Artes Plásticas (AMORIM: 2009, planificação da disciplina de Educação Visual, 1.ºperiodo), foi objectivo da disciplina reflectir de forma mais prática e aprofundada sobre a Arte do século XX, olhando com mais atenção para a influência ou repercussões das vanguardas artísticas na arte dos nossos dias.
“Se até ao século passado, observamos a prossecução de padrões do belo, da harmonia e da perfeição máxima das formas representadas, a arte contemporânea valorizou as propriedades expressivas dos materiais e das técnicas, suportando novos sistemas artísticos em universos expressivos não figurativos. O afastamento da arte relativamente à representação da realidade trouxe uma mais-valia renovadora dos processos de formação, num conjunto de novas possibilidades que não visavam mais que potenciar valores formais, estruturais, plásticos e pictóricos presentes nos materiais e nos elementos da linguagem da arte.” (NUNES: 2000).
Pela sua significância no século XX e na forma como se faz Arte nos dias de hoje, foram três as técnicas escolhidas para trabalhar com a turma, no desenvolvimento dos trabalhos práticos relacionados com este módulo:
Assemblage: este termo que foi incorporado pelo artista plástico Jean Dubuffet em 1953, através das suas intervenções em suportes planos - utilizando vários materiais, colando, sobrepondo, reunindo - autoriza a transposição dos limites da tela para o espaço tridimensional, criando uma clara junção entre a pintura e a escultura. Inspirados neste conceito os alunos realizaram, individualmente e em conjunto, formas escultóricas dentro da temática natalícia. As ideias e os materiais recolhidos foram partilhados na criação de objetos que privilegiaram a reutilização, o aproveitamento de “desperdícios” e a aplicação de vários materiais reciclados.
Fotografia: Com o auxílio de um profissional da área, os alunos foram conduzidos através de uma discussão orientada sobre a pertinência deste meio e de uma sessão de esclarecimentos acerca da diversidade de materiais e ferramentas fotográficas. Com a intenção de que a turma tomasse um contacto ainda mais direto com a técnica e explorasse as suas potencialidades, os alunos realizaram em grupo “desenhos de luz”, inspirados por Picasso - um dos percursores da técnica e por exemplos mais atuais como o light graffiti.
Técnicas de impressão: a sala de aula foi transformada num espaço expositivo aberto ao debate, não só sobre considerações e exemplificações relativas a algumas técnicas de impressão artística (serigrafia, gravura e linogravura), mas também acerca do papel destes processos na (re)definição do conceito de obra de arte como objecto único, irreprodutível.
Eventualmente, desta forma, os alunos puderam adquirir uma visão mais elucidada, que lhes permitiu perceber que muitos destes meios “para fazer arte”, da assemblage à fotografia, passando por diversos tipos de reprodução de imagens, fazem parte de um vasto conjunto de técnicas que serviram e servem as áreas artísticas.
Mas, com a aproximação da época natalícia e a necessidade de enriquecer nos alunos o espírito de equipa e confiança (pois só um clima de cooperação mútua permite o auto-conhecimento e a sua revelação aos outros), não poderíamos ficar indiferentes a esta época de fantasia e magia. Assim e partindo das seis grandes diretrizes da Educação Visual para o 3.ºciclo:
“Fruição: prazer, sentir, apropriar-se; Contemplação: meditação, consideração, faculdade de espírito; Produção: obra, trabalho, realização, produto, criação; Criação: invenção, realização pessoal e obra; Reflexão: ponderação, pensamento, ideia, comentário; e Interpretação: compreensão, versão, comentário, explicação, modo de representar ou executar” (RAMOS & PORFÍRIO, 2007), ficou decidido a realização de uma atividade, onde pudessem ser expostas e colocadas em prática as técnicas adquiridas na sala de aula, designada de “Fábrica do Pai-Natal”, na qual os alunos participaram adquirindo as competências deste módulo, e onde puderam exteriorizar objetos de arte produzidos no local com as técnicas leccionadas (assemblage, fotografia e técnicas de impressão), atingindo assim grandes objetivos da turma, da escola e da disciplina, nomeadamente:
• a compreensão, por parte dos alunos, da arte contemporânea;
• o desenvolvimento nos alunos da sensibilidade estética e da criatividade;
• a promoção da integração dos alunos na comunidade escolar;

7 - Desenvolvimento Do Trabalho Parte 2

• a promoção da cooperação e da relação entre alunos e professores;
• o desenvolvimento da capacidade de utilizar técnicas de expressão;
• a elucidação dos alunos de algumas características empreendedoras;

3ª FASE: Reflexão Sobre O Auto-Retrato E A Auto-Representação

A resolução de explorar a auto-representação surgiu, tal como já foi referido, na sequência da constatação de um clima de fraca auto-estima, evidenciado pela análise e caracterização geral da turma leccionada. A observação deste facto adquire em muitos casos uma presença demasiado sublinhada no comportamento dos alunos, o que ajuda à acentuação da sua fuga a uma exploração do “eu”. Talvez seja frutuoso, numa linha que segue estas constatações, pensar precisamente em metodologias e pedagogias que auxiliem os jovens estudantes a encarar os seus universos pessoais de forma livre, reveladora, construtiva e potencialmente reflexiva, que ajudam ao crescimento pessoal.
“Quando deixarmos entrar o diálogo aberto na escola e sobretudo na educação artística sobre o que de facto consiste a cultura dos jovens e das crianças então poderemos talvez dizer que a educação artística tem um papel na construção da identidade. Capacidades de reflexão crítica, imaginação e criatividade que são exploradas através dos processos artísticos de aprendizagem são importantes para a formação da identidade das crianças e dos jovens e serão ainda mais importantes se a educação artística/visual incluir nos seus programas os interesses dos alunos e a sua realidade visual como temas prioritários de abordagem.” (EÇA: 2008)
Hoje em dia a auto-representação é uma forte tendência, com expressão ativa nas artes visuais, tal como em outras áreas (do no cinema documental à literatura) e em si não é um fenômeno novo na história da arte. O tema não deixa de ser uma pertinente desculpa ou pretexto para aproximar os alunos a diversas criações artísticas, alargando dentro dos possíveis a sua noção sobre arte contemporânea.
Assim, as atividades realizadas foram as seguintes:
a) No seguimento desta proposta de trabalho, e numa primeira abordagem à temática, os alunos foram conduzidos ao debate perante exemplos significativos de obras de arte que através da auto-representação e do auto-retrato desvendam os estilhaçamentos do eu dos artistas. Perante estas imagens foi possível proceder a uma análise comparada da diversidade dos seus modos de formar, desejando que com isso, os alunos encontrassem, em retorno, a naturalidade de aprender - e de criar - olhando para dentro.
b) Por isso, numa segunda fase, os alunos foram convidados a escolher uma das imagens e a participar num jogo criativo/interativo no qual, a escrita de um pequeno texto, poema ou adivinha possibilitasse, não só, aos seus colegas identificar a obra respectiva, mas igualmente o desvendar das suas próprias concepções ou entendimento sobre os conceitos abordados na aula.
c) Para completar esta etapa do trabalho foi ainda proposta aos alunos a escolha e interpretação de uma das imagens recolhidas sendo-lhes sugerido, para isso, a efetuação de uma experiência (através do desenho) na qual o corpo do autor da obra tomasse o do próprio aluno, permitindo a este último refletir-se, num ato de encenação - ele no lugar do outro e o outro em si.
Além disso esta atividade pretendeu proporcionar aos alunos uma oportunidade para tomar uma maior consciência e aceitação da relevância da imensa diversidade com que se revestem as autoimagens, pois tal como refere Madalena Victorino «as artes (...) levam-nos a adaptarmo-nos à ideia de que não há respostas certas, que não há verdades únicas, mas que existem muitas formas de ser e de olhar as coisas» (como citado em LANCASTRE: 2006).

4ª FASE: Representação Real: “Eu Numa Lente”

Com o advento da tecnologia digital, a fotografia conheceu um impulso sem precedentes na sua história. Hoje, a capacidade de captar imagens com diferentes tipos de aparelhos – de telemóveis a sofisticadas slr – está amplamente disseminada permitindo, mais e melhor do que nunca, a mediata transmissão e impressão dos resultados com total autonomia. Porém, é curioso verificar que toda esta abundância e aparente facilidade de meios em nada veio alterar a premissa essencial ao acto fotográfico: a arte de ver. (Conferência de Fotografia, Fundação de Serralves, 2008)
Nesta atividade, o olhar do aluno foi guiado progressivamente através do exemplo de um profissional da área (convidado para participar na aula) – de forma a estimular o sentido de observação e a criatividade, sem esquecer o domínio das ferramentas básicas. Tudo para que pudesse ter uma primeira abordagem à sua representação real fotográfica e desenvolver uma sensibilidade fotográfica própria. A sua arte de se ver.

5ª FASE: Trabalho Prático De Auto-Representação: “Eu No Teu Olhar”

"No entanto, o desenvolvimento da sensibilidade artística e cultural pela descoberta de diferentes áreas criativas artes visuais, teatro, dança, música, filme, escrevendo-em grande parte pode contribuir para o desenvolvimento harmonioso da personalidade das crianças e facilitar a sua integração social. Ele coloca-los em uma posição gratificante, onde as crianças se tornam conscientes de sua capacidade e, mais importante, a sua liberdade de expressão. Criatividade, comunicação, integração social são ativos importantes a enfrentar, depois da escola, o mundo desprotegida de relações humanas e de trabalho "(Reding: 1999) ..
A imaginação e a representação simbólica e expressiva, ou seja a exteriorização da vida interior, recria diversos níveis de apropriação do mundo, materializa e torna sensível o lado imaterial da vida. As crianças e os jovens, hoje em dia, expõem-se com fragilidade e passividade a uma cultura supra-mediatizada e a contextos não formais de educação. Esta “escola da vida” supera a escola formal, em muitos aspectos. As disciplinas artísticas permitem uma apropriação dessa cultura, através por exemplo das próprias linguagens usadas pelos mass media, e como contrapartida apelam a um posicionamento crítico, que poderá ajudar as crianças e os jovens a criar representações de si e do mundo (a construir uma identidade). Tomando ainda consciência das multiplicidades e riquezas socio-culturais, abre-se caminho para a aceitação de diferenças ou para a inclusão.
“A experiência estética não é para nos tornarmos melhores nem piores, mas para nos tornarmos mais íntimos, sem sermos definitivos.” (POMBO: 1995; 390)
“Eu no teu olhar” surge como tema estratégico para convocar os universos visuais (individuais e colectivos) dos alunos desafiando-os para um confronto, que os coloca perante a possibilidade de se darem a conhecer (ao olhar do outro) através da construção de objetos/imagens na tentativa de se auto-retratarem, não deixando de os impelir com isso para uma atitude construtiva de auto e hetero-crítica.
Para a realização deste trabalho os alunos puderam, no limite desafiado do exequível, utilizar os mais diversos meios e técnicas disponibilizados pelas linguagens artísticas, respondendo ao solicitado através da escolha autônoma e fundamentada de múltiplos veículos de expressão, do desenho à representação tridimensional, passando pelos meios digitais e fílmicos... um trabalho que exigiu, por parte de todos (professores e alunos) um grande esforço em termos organizativos, mas que se revelou compensador na persecução dos seus objetivos.

6ª FASE: Exposição E Reflexão: “Semana Das Artes – Artes, Para Que Vos Quero?”

A Arte sempre acompanhou a evolução do Ser Humano e esta tem-se vindo a demonstrar como uma forma de comunicação e estratégia de emancipação da sociedade, única e eficaz.
A criatividade, a imaginação e o pensamento abstrato, características essenciais no processo artístico, encorajam a inovação, dando oportunidade ao Novo, à crença no impossível, elevando-se da superficialidade.
Assim, a educação artística desenvolve um pensamento superior (VIGOSTKY: 1979), numa perspectiva globalizante do indivíduo, mas será essa a visão instituída ou perseguida pela Escola dos nossos dias?
A semana da Artes, intitulada por “Artes – para que vos quero?”, a realizar após este Congresso, incluirá no seu programa diversos workshops e exposições inerentes ao tema, pretendendo ser uma semana recheada de atividades que fomentem uma contínua e constante construção, por todos os intervenientes, de uma visão íntima e singular, construindo e reconstruindo, num processo dinâmico e constante (Work in progress), o seu conceito de Arte e assim criar outra forma de comunicar consigo e com os demais, numa perspectiva psicopedagógica de universalidade da arte.
Esta semana será marcada por três momentos fundamentais e de especial interesse:
• a inauguração das exposições e inicio das atividades;
• um momento de conversa e partilha, com profissionais de renome, na área das artes, intitulado por “Profissões com Arte”;
• e a sessão de encerramento, com comunicação de reflexões e mostra do trabalho realizado durante a semana;
Assim, esta semana, aberta a toda a comunidade escolar, pretende promover e dar visibilidade ao ensino da arte, como indispensável para o desenvolvimento pleno de qualquer indivíduo e sociedade.

O Eu Refletido - Considerações Finais

O estudo, ainda em desenvolvimento, tem-se revelado uma experiência bastante enriquecedora para todos os intervenientes, como parte de um processo construtivo e evolutivo.
Nesta fase de trabalho (5.ª fase) podemos referir que a utilização do instrumento Portfolio Reflexivo tem promovido uma avaliação formativa, numa contínua reflexão dos conteúdos leccionados, sendo uma base motivadora de sistematização do percurso construtivo de aprendizagem de cada aluno, ajudando ao aprofundamento do auto-conhecimento e da auto representação. Tal como refere uma das alunas da Turma no seu Portfolio “Agora sei que um portfolio ajuda na avaliação dos trabalhos, pois apresenta diário de bordo e mostra a progressão dos alunos, etc. É mais organizado e é personalizado (...). No fundo ajuda-nos a conhecermo-nos melhor”

8 - Desenvolvimento Do Trabalho Parte 3

Visualizando o trabalho duma forma global, podemos referir que a planificação que apresentamos exige uma boa dinâmica de equipa, mas as suas potencialidades abrangem propostas que se desdobram em atividades menos complexas em termos operacionais.
Esta atividade promoveu uma aquisição de competências, que investem numa maior liberdade na expressão espontânea e na criatividade dos alunos tornando-as mais fluidas e sentidas. É, porém, essencial reconhecer que para isso foi necessário um esforço de exigência em termos de cooperação entre alunos e professores, o que possibilitou uma desejada interação promotora da relação educativa entre todos os intervenientes. Sousa (2003, p.147), considera de igual modo que, caso não haja essa reciprocidade afetiva, poderá não existir uma verdadeira ação educativa, logo é de interesse de todos que se celebre uma relação estreita de afeto mútuo, entre o educador e a criança ou jovem, de igual nível.
Será importante referir que, na continuidade de Sousa (2003, p.148), em Educação Artística as atividades, o material empregue e as obras criadas pelas crianças e jovens, são considerados como um meio para proporcionar a possibilidade de expressão, desenvolvendo as suas capacidades criativas, de forma a estabelecer também relações afetivas. Os produtos adquirem assim, uma importância situada ao nível dos processos que os geraram.
Outro aspecto importante a considerar é que nós, como professores da disciplina, a par dos alunos, também construímos um Portfolio Reflexivo, o que nos tem ajudado a tomar consciência da importância do mesmo e das atividades que ocorrem no dia a dia, tornando-nos mais atentos, no exercício de uma reflexão critica e sistemática, repensando as atitudes, práticas e decisões, reequacionando as mais diversas situações, de forma continua.
No seguimento da nossa investigação promovemos uma reflexão sobre o auto-retrato e a autorepresentação, de forma a potencializar uma construção pessoal do universo de cada aluno, reveladora e reflexiva de um crescimento pessoal equilibrado. Este instrumento de reflexão procura proporcionar aos alunos o encontro de um conjunto diversificado de respostas na realização do seu auto-retrato, promovendo a diversidade na “construção” de auto-imagens. Esta possibilidade de construir uma identidade, de acordo com o universo interior de cada aluno, permite uma tomada de consciência e de aceitação das diferenças existentes entre todos, mas como podemos constatar, por vezes, é realmente difícil que este nível de consciência metafísica aconteça em todos os alunos, principalmente deste nível de escolaridade.
Assim, fica a convicção da necessidade de intervir diretamente na dinâmica ensino aprendizagem dos alunos, cada vez mais cedo, num acompanhamento individual, com a técnica continua do Portfolio Reflexivo, garantindo um crescimento integral e saudável do individuo, humanizando a educação e uma evolução gradual, num Portfolio que se pretende sempre inacabado, numa continua construção, para alem da idade escolar.
Por fim, salientamos a importância da união e inter-ajuda no grupo de trabalho, pois nelas fomos descobrindo forças para continuar o nosso caminho, mesmo quando o cansaço se acumulava, onde a palavra “desistir” nunca fez parte do nosso vocabulário.

Fonte: Curso de Artes. Arquivo pessoal, Aula da Prof. Vanessa.

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